
    Aba:
    Em Busca do Paraso  a histria envolvente e emocionante de dois jovens apaixonados, separados pela tirania de um homem arrogante e poderoso, que se d o direito
de manipular pessoas e mudar o rumo de suas vidas.

Meredith Bancroft, de famlia rica e tradicional de Chicago,  criada pelo pai divorciado, um homem desptico e superprotetor, que a sufoca com proibies e
exigncias descabidas. E  num ato de rebelio que, no fim da adolescncia, ela entrega sua virgindade a Matthew Farrell, oito anos mais velho, sem nenhuma projeo
social, mas inteligente e determinado, por quem sente sbita e avassaladora atrao. Essa nica noite de paixo resulta numa inimaginada gravidez e desencadeia uma
srie de acontecimentos emocionantes que culminam com uma separao litigiosa e sofrida.

Onze anos mais tarde, num encontro ao acaso, os dois se vem frente a frente, e da por diante seus caminhos se cruzam e se tornam inseparveis, assim como suas
vidas, seus destinos, seu amor. Aclamada pela crtica e pelo pblico amante da literatura romntica, por seu estilo cativante e seus personagens atraentes, em Em
Busca do Paraso Judith McNaught se supera ao desenvolver uma trama ambientada numa Chicago moderna e atual, no mundo fascinante e perigoso dos altos negcios, onde
ningum sente piedade ou compaixo por ningum.

Digitalizao:Ftima Toms
Reviso e Formatao: Vick



JUDITH McNAUGHT





EM BUSCA DO PARASO


Traduo de VERA MARIA MARQUES MARTINS































EDITORA BEST SELLER

CRCULO DO LIVRO




#





Ttulo original: Paradise
Copyright Eagle Syndication, Inc. 1991
Licena editorial para o Crculo do Livro.
Todos os direitos reservados.

Coordenao editorial
Janice Maria Florido

Arte
Marco Aurlio Sismoto

Edio e preparao de texto:
Paula V. Pedro

Reviso:
Paulo F. Mendrone
1997


CRCULO DO LIVRO
Direitos exclusivos da edio em lngua portuguesa no Brasil
adquiridos por Crculo do Livro Ltda.
que se reserva a propriedade desta traduo.


EDITORA BEST SELLER
uma diviso do Crculo do Livro Ltda.
AV. Ministro Rocha Azevedo, 346 - CEP 01410-901 - Caixa Postal 9442
So Paulo, SP



Fotocomposio: Crculo do Livro Impresso e acabamento: Grfica Crculo











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JUDITH McNAUGHTalcanou estrondoso sucesso com o admirvel best seller Whitney, My Love. Desde ento, vem conquistando o corao de milhes de leitores em todo
o mundo com seus fascinantes romances At Voc Chegar, Once and Always, Something Wonderful, A Kingdom of Dreams, Algum para Amar e Em Busca do Paraso.
Mora com seu marido em Houston, no Texas.




Dedicatria


Qualquer um que se relacione comigo, quando estou trabalhando num livro, pode dizer que isso requer pacincia inesgotvel e extraordinria tolerncia. Alm disso,
a pessoa deve ser capaz de acreditar que realmente estou trabalhando, mesmo quando fico olhando para o vazio.

Este livro  dedicado a minha famlia e meus amigos, que possuem essas qualidades em abundncia e enriquecem minha vida de um modo que nenhuma palavra poderia
definir.

A meu marido, Don Smith, que d alegria e serenidade a minha vida e sabe, realmente, o que significa compreenso.

A meu filho, Clayton, e minha filha, Whitney, que, com o orgulho que sentem por mim, representam uma grande fonte de prazer. E de alvio.

quelas pessoas muito especiais, que me ofereceram sua amizade e depois tiveram de carregar o fardo mais pesado desse relacionamento, como Phyllis e Richard
Ashley, Debbie e Craig Kiefer, Kathy e Lloyd Stansberry e Cathy e Paul Waldner. Eu no podia ter uma torcida melhor do que essa, formada por vocs.



Agradecimentos



A Robert Hyland, que tem me prestado favores a vida toda.

Ao advogado Lloyd Stansberry, que respondeu as minhas incontveis perguntas sobre os procedimentos legais que aparecem neste romance.

Aos extraordinrios executivos que dirigem as lojas de departamentos espalhadas pelo pas, que dividiram seu tempo e seus conhecimentos comigo, e sem cuja assistncia
este livro jamais teria sido escrito.

#1

Dezembro, 1973


Sentada na borda da cama encimada por um dossel, com o lbum de recortes a seu lado, Meredith Bancroft recortou cuidadosamente do Chicago Tribune a foto que
a interessava. A legenda dizia: Filhos de socialites de Chicago, fantasiados de duendes, participam da festa de Natal do Hospital Oakland Memorial. Em seguida,
vinha uma lista dos nomes e uma foto mostrando os duendes, cinco meninos e cinco meninas, Meredith inclusive, entregando presentes s crianas internadas no pavilho
de pediatria. Um bonito rapaz de dezoito anos, que o artigo esclarecia tratar-se de Parker Reynolds III, filho do sr. e da sra. Parker Reynolds de Kenilworth,
supervisionava a ao, um pouco afastado do grupo.
Com imparcialidade, Meredith comparou-se s outras garotas trajadas como duendes, imaginando como podiam ter pernas to longas e tantas curvas, enquanto ela
-Sou um lixo! - declarou, com uma careta de desgosto. - Pareo um monstro, no um duende!
No era justo que as outras meninas, que eram s um pouquinho mais velhas, porque j tinham completado catorze anos, fossem to maravilhosas, e ela tivesse a
aparncia de um monstrengo de peito chato com aparelho nos dentes. Voltou a olhar para o recorte, lamentando o impulso de vaidade que a fizera tirar os culos para
ser fotografada. Sem eles, ela apertava os olhos, e fora assim que aparecera naquela fotografia horrvel.
-Lentes de contato ajudariam muito - concluiu.
Pousou o olhar na imagem de Parker com um sorriso sonhador nos lbios, enquanto apertava o recorte no lugar onde estariam os seios, se os tivesse. Mas ainda
no tinha e, pelo jeito, nunca teria.
A porta do quarto abriu-se, e Meredith rapidamente afastou o recortedo peito, quando a governanta robusta, de sessenta anos, entrou para pegar a bandeja do
jantar.
-No comeu a sobremesa - a mulher censurou.
-Estou gorda, sra. Ellis. - Para provar o que dizia, Meredith desceu da cama antiga e marchou para a frente do espelho de sua penteadeira.-Olhe bem para mim
- pediu, apontando um dedo acusador para seu reflexo. - No tenho cintura!
-S h um pouquinho de gordura infantil a, mais nada.
-Mas tambm no tenho quadris. Pareo um pacote ambulante. No  de admirar que eu no tenha amigos.
A sra. Ellis, que estava trabalhando para os Bancroft havia menos de um ano, mostrou-se espantada.
-No tem amigos? Por que no?
-Eu finjo que vai tudo bem na escola, mas  terrvel - respondeu Meredith, necessitando desesperadamente de algum em quem confiar.
-Estou completamente desajustada. Sempre estive.-Eu nunca poderia imaginar! Deve haver alguma coisa errada com seus colegas.
-Com eles, no. Comigo! Mas vou mudar. Vou entrar numa dieta e dar um jeito nos meus cabelos, que so horrveis.
-No so, no! - negou a sra. Ellis, observando os cabelos loiroclaros que caam at os ombros de Meredith, e depois os olhos azulturquesa. - Voc tem cabelos
bonitos, espessos e bem-tratados, e olhos lindos.
-Meus cabelos no tm cor.
-So loiros.
Meredith continuou a olhar-se no espelho, exagerando as falhas que via.
-Estou com quase um metro e sessenta e oito de altura. Felizmente parei de crescer, seno me tornaria uma giganta. Mas ainda h esperana para mim. Percebi
isso no sbado.
A sra. Ellis franziu a testa, confusa.
-O que aconteceu no sbado, que a fez mudar de ideia sobre si mesma?
-Nada de extraordinrio - respondeu Meredith.
Foi algo extraordinrio, sim, pensou. Parker sorriu para mim, na festa de Natal. Levou-me uma Coca-Cola, por vontade prpria, e me pediu para guardar uma dana
para ele na festa da srta. Eppingham, no sbado.
Setenta e cinco anos antes, a famlia de Parker fundara o grande banco de Chicago, onde os fundos da Bancroft & Company eram depositados,e a amizade entre os
Bancroft e os Reynolds mantinha-se atravs das geraes.
-Tudo vai mudar agora, e no  s minha aparncia - afirmou Meredth alegremente, afastando-se do espelho. - Vou ter uma amiga. H uma menina nova na escola,
e ela no sabe que os outros no gostam de mim.  inteligente como eu, mas esta noite me telefonou para fazer uma pergunta sobre o dever de casa. Telefonou, e falamos
de vrias coisas.
-Notei que voc nunca traz colegas para casa - a sra. Ellis observou, torcendo as mos num gesto de nervoso espanto. - Mas pensei que fosse porque mora to
longe.
-No, no  por isso - disse Meredith, sentando-se na cama e olhando acanhada para os chinelos feios, mas durveis, pequenas rplicas daqueles que o pai usava.
A despeito de sua riqueza, ele tinha o maior respeito pelo dinheiro. Comprava roupas da melhor qualidade para Meredith, apenas quando era realmente necessrio,
e sempre preocupado com a durabilidade.
-Eu no me encaixo, entende? - ela prosseguiu.
-Quando eu era menina, ns sempre desconfivamos um pouco dos alunos que tiravam boas notas - contou a sra. Ellis, com um sbito ar de compreenso.
-No  s isso - resmungou Meredith. -  algo mais, alm de minha aparncia e das notas que tiro, que me torna desajustada. Ʌ  tudo isso! - Fez um gesto largo
que abrangeu o quarto espaoso e austero com sua moblia antiga, um cmodo muito parecido com os outros quarenta e cinco da propriedade dos Bancroft. - Todo mundo
me acha esquisita, porque papai insiste em mandar Fenwick me levar  escola.
-Posso saber o que h de errado nisso?
-Meus colegas vo a p, ou de nibus escolar.
-E da?
-Da que no chegam l num Rolls dirigido por um motorista particular - Meredith explicou, ento acrescentou, quase com tristeza:
-Os pais das outras crianas so encanadores, contadores, coisas assim. Um deles trabalha para ns, na loja.
-E essa nova menina no acha estranho que Fenwick a leve? perguntou a sra. Ellis, incapaz de argumentar contra a lgica da explicao e no desejando admitir
que Meredith estava certa.
-No. - Meredith deu uma risadinha com ar de culpa, os olhos brilhando com sbita vivacidade por trs das lentes dos culos. - Ela pensa que Fenwick  meu pai!
Eu disse que papai trabalha para algumas pessoas ricas que possuem uma grande loja.
-Voc no fez isso!
-Fiz, sim, e no me arrependo. Eu devia ter espalhado essa histria na escola anos atrs, mas no queria mentir.
-E agora, no se incomoda de mentir? - perguntou a sra. Ellis com um olhar de censura.
-No  propriamente uma mentira - Meredith defendeu-se, em tom de splica. - Papai me explicou isso h muito tempo. Veja, a Bancroft & Company  uma empresa
cujos donos so os acionistas. De modo que, como presidente da Bancroft & Company, papai , tecnicamente, empregado dos acionistas. Entendeu?
-Acho que no - respondeu a governanta. - Quem possui as aes? Meredith lanou-lhe um olhar contrito.
-Ns, a maior parte.
A sra. Ellis achou totalmente confusa a explicao de como funcionava a Bancroft & Company, uma famosa loja de departamentos no centro de Chicago, mas Meredith
frequentemente exibia um misterioso conhecimento do negcio. Com raiva impotente, a mulher refletiu que no era to misterioso assim, considerando que o sr. Bancroft
s mostrava interesse na filha quando queria falar-lhe a respeito da loja. Na verdade, a sra. Ellis culpava Philip Bancroft pela incapacidade de Meredith de entrosar-se
com as outras garotas. Ele a tratava como se ela fosse uma mulher adulta e exigia que falasse e se comportasse como tal o tempo todo. Nas raras ocasies em que o
homem recebia visitas, a filha chegava a fazer o papel de anfitri. Como resultado, Meredith ficava  vontade entre adultos e completamente perdida no meio de pessoas
de sua idade.
-Mas a senhora no deixa de ter razo - concedeu Meredith. No posso continuar mentindo, dizendo a Lisa Pontini que Fenwick  meu pai. S acho que, se ela tiver
a chance de me conhecer melhor, no se importar, quando eu contar que ele  nosso motorista. Ainda no descobriu, porque no conhece ningum na escola e sempre
vai direto para casa, quando as aulas terminam. Ela tem sete irmos e precisa ajudar a me.
A sra. Ellis estendeu a mo e desajeitadamente deu alguns tapinhas no brao de Meredith, tentando achar algo encorajador para dizer.
-As coisas sempre parecem melhores pela manh - afirmou, recorrendo, como de costume, a um daqueles clichs que achava to consoladores. Pegou a bandeja e andou
at a porta, onde parou, subitamente lembrando-se de outro lugar-comum inspirador, que recitou no tom veemente de quem considera um pensamento muito satisfatrio:
- E lembre-se de uma coisa: todo cachorro tem seu dia de sorte.
Meredith no sabia se ria ou se chorava.
-Obrigada, sra. Ellis. Isso  muito encorajador.
Em silncio mortificado, observou a porta fechar-se atrs da governanta, ento, com movimentos lentos, pegou o lbum. Depois de colar o recorte do Tribune numa
das pginas, ela ficou olhando-o por longo tempo e, por fim, tocou de leve na boca sorridente de Parker. A ideia de danar com ele a fez estremecer de terror e antecipao.
Era quinta-feira, e o baile da Eppingham seria no sbado. Mas parecia que ela teria de esperar durante anos.
Com um suspiro, comeou a folhear o lbum de trs para a frente. Nas primeiras pginas, os recortes encontravam-se amarelados pelo tempo, e as fotografias tinham
desbotado. O lbum pertencera primeiro  me dela, Caroline, e era a nica prova tangvel de que Caroline Edwards Bancroft existira. Tudo, naquela casa, que pudesse
relacionarse com ela fora removido por instruo de Philip Bancroft.
Caroline Edwards fora atriz, no especialmente talentosa, de acordo com as crticas, mas possuidora de uma beleza inegvel. Meredith examinou as fotos esmaecidas,
mas no leu o que os colunistas haviam escrito, porque sabia tudo de cor, palavra por palavra. Cary Grant acompanhara sua me  entrega de prmios da Academia, em
1955; David Niven dissera que ela era a mulher mais linda que ele j vira, e David Selznick a quisera em um de seus filmes. Caroline desempenhara papis em trs
musicais da Broadway, e os crticos censuraram sua atuao, mas elogiaram suas pernas bem torneadas. As colunas de mexericos tinham insinuado que houvera romances
srios entre ela e todos os actores principais com quem contracenara. Havia fotos dela, envolvida em peles, participando de uma festa em Roma, e usando um vestido
preto, longo e sem alas, jogando na roleta, em Monte Carlo. Numa das fotos ela envergava um minsculo biquini, numa praia de Mnaco, e em outra aparecia esquiando
em Gstaad com um campeo olmpico suo. Era bvio para Meredith que homens bonitos sempre rodeavam Caroline, onde quer que ela estivesse.
O ltimo recorte que a me guardara fora publicado seis meses aps aquele de Gstaad. Estava usando um magnfico vestido de noiva branco,rindo, enquanto descia
os degraus da catedral pelo brao de Philip Bancroft, sob uma chuva de arroz. Os colunistas sociais tinham se superado, fazendo descries extravagantes do casamento.
A imprensa fora proibida de assistir  festa, no Hotel Palmer House, mas os reprteres citaram todos os convidados famosos que estiveram presentes, como os Vanderbilt,
os Whitney, um juiz do Supremo Tribunal e quatro senadores.
O casamento durara dois anos, tempo suficiente para Caroline ficar grvida, ter o beb, envolver-se num caso com um treinador de cavalos e depois fugir para
a Europa com um falso prncipe italiano que fora hspede dos Bancroft. A partir da, Meredith soubera muito pouco da me, a no ser que ela nunca sequer lhe mandara
um bilhete ou um carto de aniversrio. O pai, que prezava a dignidade e os valores tradicionais, dizia que Caroline era uma egocntrica sem classe, sem a menor
noo de fidelidade conjugal ou responsabilidade materna. Quando Meredith estava com um ano, ele pedira o divrcio e a custdia da filha, totalmente preparado para
usar a considervel influncia poltica e social da famlia Bancroft para garantir sua vitria no tribunal. No fim, no tivera de recorrer a isso. De acordo com
o que contara a Meredith, a me dela no se dera ao trabalho de esperar pela audincia, e muito menos de tentar opor-se  vontade dele.
Tendo conseguido a guarda de Meredith, Philip Bancroft tratara de certificar-se de que ela no seguiria o exemplo da me. Determinara que a filha assumiria seu
lugar na longa fila de mulheres da famlia Bancroft, que tinham levado vidas exemplares, dedicando-se s obras de caridade, como convinha a pessoas de sua posio.
Nunca um sopro sequer de escndalo as atingira.
Quando Meredith chegou  idade escolar, Philip descobriu, aborrecido, que os padres de conduta estavam relaxando-se, mesmo em sua classe social. Muitos de seus
conhecidos comeavam a ser mais liberais no que dizia respeito ao comportamento infantil e a mandar os filhos para escolas progressistas, como a Bently e a Ridgeview.
Quando ele visitou essas escolas, ouviu frases como classes desestruturadas e auto-expresso. A educao progressista parecia-lhe indisciplinada, prenunciando
rebaixamento dos padres e mau comportamento. Aps rejeitar essas duas escolas, levou Meredith para ver a St. Stephens, uma escola particular catlica, dirigida
por freiras beneditinas, a mesma que a me e a tia dele haviam frequentado.
Aprovou tudo o que viu durante a visita  classe de primeira srie da St. Stephens: trinta e quatro garotinhas, usando aventais xadrezes,nas cores cinza e
azul, e dez meninos de camisas brancas e gravatas azuis, que se levantaram respeitosamente, quando a freira mostrara-lhe a sala de aulas. Quarenta e quatro vozes
infantis entoaram em coro: Bom dia, irm. Melhor ainda, a St. Stephens ainda usava mtodos de ensino tradicionais, ao contrrio da Bently, onde ele vira crianas
pintando com os dedos, enquanto outras, que haviam optado por aprender, faziam exerccios de matemtica. Como benefcio adicional, ali Meredith receberia treinamento
moral tambm.
Philip no deixou de notar que o bairro onde ficava a St. Stephens deteriorara, mas estava obcecado pela ideia de dar  filha a mesma educao das honestas
mulheres de sua famlia, e que haviam sido alunas daquela escola por trs geraes. Resolveu o problema representado pelo bairro decadente, decidindo que seu motorista
levaria Meredith  escola e iria busc-la.
A nica coisa que lhe escapou foi o fato de que as crianas que frequentavam a St. Stephens no eram os pequenos seres virtuosos que aparentaram ser no dia
de sua visita. Eram crianas comuns, da classe mdia-baixa, e at mesmo da camada pobre. Brincavam juntas e iam juntas para a escola, e tinham em comum uma certa
suspeita a respeito de pessoas que vinham de um ambiente completamente diferente, muito mais prspero.
Meredith no sabia daquilo, quando chegou  St. Stephens para iniciar a primeira srie. Usando o impecvel avental xadrez do uniforme e carregando a nova lancheira,
ela tremia com a excitao nervosa de qualquer criana de seis anos, enfrentando uma sala cheia de estranhos, mas sentiu muito pouco medo. Depois de ter vivido em
relativa solido, na companhia apenas do pai e dos criados, ela estava feliz, imaginando que finalmente teria amigos de sua idade.
O primeiro dia de aula foi bom, mas as coisas mudaram, quando as crianas foram dispensadas e saram, espalhando-se pelo ptio e pelo estacionamento. Fenwick,
com seu uniforme preto de motorista, encontrava-se  espera no ptio, ao lado do Rolls Royce. Os alunos pararam e ficaram olhando, identificando Meredith como uma
menina rica, portanto diferente.
S isso bastou para deix-los arredios e desconfiados, mas no fim da semana j haviam descoberto outras coisas sobre a menina rica, mais motivos para isol-la.
Meredith Bancroft falava mais como adulta do que como criana, alm de no conhecer nenhuma das brincadeiras a que eles se entregavam na hora do recreio, e essa
falta de familiaridadecom os folguedos tornava-a uma parceira desajeitada. Pior que tudo, porm, ela se tornou a queridinha da professora em poucos dias, porque
era inteligente.
No fim de um ms, ela fora julgada pelos colegas e rotulada como intrusa, um ser estranho vindo de outro planeta, que devia ser relegada ao ostracismo. Talvez
ajudasse, se ela fosse bonita o bastante para causar admirao. Mas no era. Um dia, quando tinha nove anos, apareceu na escola usando culos. Aos doze, comeou
a usar aparelho nos dentes e aos treze era a garota mais alta da classe.
Uma semana atrs, porm, quando Meredith j perdera a esperana de ter uma amiga, tudo mudara. Lisa Pontini matriculara-se na oitava srie da St. Stephens.
Quase trs centmetros mais alta do que Meredith, Lisa movimentava-se com a graa de uma modelo e respondia s complicadas questes de lgebra com a displicncia
de um doutor enfastiado. Naquele dia, como fazia em todos os outros, durante o recreio, Meredith comia seu lanche com um livro no colo, sentada num muro baixo de
pedras. Desenvolvera o hbito de ler naquele horrio para fugir da sensao de isolamento e evitar que a notassem. Ao chegar  quinta srie, transformara-se numa
leitora voraz.
Ia virar uma folha do livro, quando um par de surrados sapatos colegiais entrou em seu campo de viso. Ergueu os olhos, e l estava Lisa Pontini, olhando curiosamente
para ela.
Lisa era o oposto de Meredith, com aquela basta cabeleira de um castanho vibrante, e, mais ainda, porque emanava um ar de ousada confiana que lhe dava o que
a revista Seventeen chamava de estilo. Em vez de levar o suter cinza com o emblema da escola em volta dos ombros, como Meredith, ela o amarrara frouxamente pelas
mangas ao redor do trax, acima dos seios.
-Deus, que porcaria! - exclamou, sentando-se ao lado de Meredith e olhando em volta. - Nunca vi tantos garotos baixinhos em minha vida. Devem pr alguma coisa
na gua do bebedouro deles, aqui na escola, para impedi-los de crescer! Qual  sua mdia de notas?
Na St. Stephens, as notas eram calculadas por porcentagem, e os dcimos, religiosamente respeitados.
- 97,8.
-A minha  98,1 - Lisa informou.
Meredith notou suas orelhas furadas. Era expressamente proibido usar brincos e batom na escola. Enquanto ela observava a colega, a outra tambm a examinava.
- solitria por opo, ou uma espcie de pria? - perguntou Lisa com um sorriso intrigado.
-Nunca pensei sobre isso - Meredith mentiu.
-Por quanto tempo vai ter de usar esse aparelho nos dentes?
-Por mais um ano - respondeu Meredith, refletindo que no gostava nem um pouquinho de Lisa Pontini.
Fechou o livro e levantou-se, contente porque a campainha anunciando o fim do recreio ia tocar dentro de instantes.
Naquela tarde, como acontecia toda ltima sexta-feira do ms, os alunos foram para a capela a fim de confessar seus pecados aos padres. Sentindo-se, como sempre,
uma infeliz pecadora, Meredith ajoelhou-se no confessionrio e contou os seus ao padre Vickers, inclusive o de no gostar da irm Mary Lawrence e o de preocupar-se
demais com a prpria aparncia. Quando acabou, segurou a porta aberta at que a prxima pessoa entrou, depois dirigiu-se a um banco e ajoelhou-se para dizer as oraes
da penitncia que lhe coubera.
Como os alunos tinham permisso para ir embora, aps a confisso, ela saiu para esperar por Fenwick. Alguns minutos mais tarde, Lisa desceu a escada externa
da capela, vestindo o casaco. Ainda irritada com os comentrios da colega sobre sua solido e seu aparelho dentrio, Meredith observou-a apreensiva, enquanto ela
olhava em volta e depois marchava em sua direo.
-Voc no vai acreditar! - Lisa preludiou. - Vickers me mandou rezar um rosrio inteiro esta noite, como penitncia por eu ter trocado algumas carcias com
meu namorado. Imagino que castigo ele daria por causa de um beijo  francesa! - exclamou, com um sorriso impudente, sentando-se na mureta ao lado de Meredith.
Meredith no sabia que a nacionalidade das pessoas determinava de que modo elas beijavam, mas deduziu, pelo comentrio de Lisa, que os padres no queriam de
jeito nenhum que os alunos da St. Stephens beijassem como os franceses.
-Para um beijo desses, Vickers a mandaria limpar a igreja - declarou, fingindo que entendera o que a colega quisera dizer.
Lisa riu, olhando para ela com curiosidade.
-Seu namorado tambm usa aparelho nos dentes? Meredith pensou em Parker e abanou a cabea, negando.
-Ainda bem - disse Lisa, com um sorriso contagiante. - Sempre imaginei como duas pessoas com aparelhos poderiam beijar-se sem ficar enganchadas. Meu namorado
se chama Mrio Campano.  alto, moreno e bonito. E o seu, como ? Como se chama?
Meredith olhou para a rua, desejando que Fenwick no se lembrasse de que naquele dia as aulas acabavam mais cedo. Embora o assunto da conversa no a deixasse
 vontade, Lisa Pontini a fascinava. Ela sentia que, por algum motivo, a garota desejava verdadeiramente fazer amizade.
-Ele tem dezoito anos - respondeu. -  parecido com Robert Redford e se chama Parker.
-E o primeiro nome?
-Esse  o primeiro nome. O sobrenome  Reynolds.
-Parker Reynolds - repetiu Lisa, franzindo o nariz. - Nome de esnobe da sociedade. Ele  bom nisso?
-Bom em qu?
-Beijar, naturalmente.
-Ah! Bem , sim. Fantstico! Lisa olhou-a com ar zombeteiro.
-Ele nunca a beijou - declarou. - Seu rosto fica vermelho, quando voc mente.
Meredith levantou-se abruptamente.
-Escute uma coisa! - exclamou com raiva. - Eu no pedi para vir falar comigo e
-Ei, no precisa ficar acanhada por causa disso. Beijar no  nada to maravilhoso assim. A primeira vez que Mrio me beijou foi o momento mais embaraoso de
toda minha vida.
No instante em que percebeu que Lisa ia contar alguma coisa sobre si mesma, Meredith sentiu a raiva evaporar-se e sentou-se novamente.
-Ficou embaraada porque ele a beijou?
-No. Porque me inclinei para trs, contra a porta, e meu ombro apertou a campainha. Meu pai abriu a porta e ca de costas nos braos dele, com Mrio agarrado
em mim. Ns trs demoramos um sculo para sair um de cima do outro e levantar do cho.
O riso de Meredith foi bruscamente interrompido, quando ela viu o Rolls virar a esquina.
-L vem minha carona.
Lisa olhou para o lado e prendeu o flego, admirada.
-Cristo! Aquilo l  um Rolls?
Meredith assentiu e deu de ombros, pegando os livros.
-Moro muito longe daqui e meu pai no quer que eu pegue o nibus.
-Seu pai  motorista, hein? - comentou Lisa, andando com ela na direo do carro. - Deve ser o mximo, andar por a num carrodesse, fingindo que  rica. -
Sem esperar pela resposta de Meredith, prosseguiu: - Meu pai  encanador. A classe dele est em greve e nos mudamos para este bairro porque aqui o aluguel  mais
barato. Voc sabe como so essas coisas.
Meredith no sabia por experincia prpria, mas fazia ideia de como eram aquelas coisas, porque j ouvira muitas tiradas furiosas do pai sobre o efeito que
as greves produziam sobre os comerciantes, como os Bancroft. Mesmo assim, concordou com um gesto de cabea.
- duro - comentou, ento convidou impulsivamente: - Quer uma carona at sua casa?
-Se quero?! No, espere No pode ficar para a semana que vem? Tenho sete irmos e se eu chegar em casa cedo, minha me vai me mandar fazer mil coisas. Vou
ficar por aqui mais um pouco e chegar em casa na hora de costume.
Isso tudo acontecera uma semana atrs e a amizade hesitante que se iniciara naquele dia crescera e for falecera-se, nutrida por novas trocas de confidncias
e pelo riso causado por elas.
Enquanto continuava sentada na cama, olhando para a foto de Parker no lbum de recortes e pensando no baile de sbado, Meredith decidiu pedir conselhos a Lisa
no dia seguinte, na escola. A amiga sabia tudo sobre penteados e coisas assim. Talvez sugerisse algo que a deixasse mais atraente aos olhos de Parker.
No dia seguinte, enquanto as duas lanchavam juntas na escola, Meredith ps seu plano em prtica.
-Sem falar em cirurgia plstica, voc acha que eu posso fazer alguma coisa para ficar melhor, amanh  noite? Que fizesse Parker me achar mais velha e mais
bonita? - perguntou.
Antes de responder, Lisa submeteu-a a um exame longo e minucioso.
-culos e aparelhos dentrios certamente no inspiram paixo brincou. - Tire os culos e levante-se.
Meredith obedeceu, depois esperou, entre aflita e divertida, enquanto Lisa andava a sua volta, observando-a.
-Voc realmente se esfora para parecer sem graa - a amiga declarou. - Tem olhos e cabelos lindos. Se usasse um pouco de maquilagem, tirasse os culos e fizesse
alguma coisa diferente nos cabelos, Parker talvez a olhasse duas vezes, amanh  noite.
-Acha, mesmo? - perguntou Meredith, cheia de esperana.
-Eu disse talvez - salientou Lisa, com honestidade contundente.
-Ele  mais velho, de modo que sua idade pode ser um empecilho. Que resposta voc deu ao ltimo problema, na prova de matemtica desta manh?
Meredith disse a resposta que dera. Naquela semana de amizade com Lisa, acostumara-se ao seu jeito de mudar rapidamente de assunto. Era como se a amiga fosse
inteligente demais para concentrar-se num s de cada vez.
-Dei a mesma - contou Lisa, e brincou: - Com dois crebros como os nossos,  claro que essa  a resposta certa. Voc sabe que todo mundo, nesta porcaria de
escola, pensa que o Rolls  de seu pai?
-Eu nunca lhes disse que no era - respondeu Meredith, com sinceridade.
Lisa deu uma mordida em sua ma e moveu a cabea, concordando.
-E por que diria? Se so to burros a ponto de pensar que uma menina rica estudaria numa escola como esta, eu tambm deixaria que acreditassem nisso.
Naquela tarde, aps as aulas, Lisa aceitou novamente que o pai de Meredith a levasse para casa, como ele fizera, embora com relutncia, a semana toda. Quando
o Rolls parou diante do bangal de tijolos marrons onde os Pontini moravam, Meredith notou a costumeira confuso de crianas e brinquedos no ptio da frente. A me
de Lisa estava no alpendre, usando o eterno avental.
-Lisa! Mrio est ao telefone - a mulher gritou com forte sotaque italiano. - Ele quer falar com voc. Oi, Meredith! - cumprimentou com um aceno. - Venha jantar,
qualquer dia. E pode passar a noite, tambm, assim seu pai no precisar vir busc-la.
-Obrigada, sra. Pontini - Meredith gritou de volta, acenando do carro. - Virei, sim.
Era o que sempre sonhara, ter uma amiga a quem fazer confidncias, e em cuja casa pudesse passar a noite, de vez em quando, de modo que estava eufrica.
Lisa, que j descera, fechou a porta do carro e debruou-se na janela.
-Sua me disse que Mrio est ao telefone - Meredith lembrou-a.
- bom fazer um cara esperar - Lisa respondeu. - Deix-lo imaginar coisas. No se esquea de me ligar no domingo para me contar tudo o que aconteceu com Parker
no baile. Eu gostaria de poder pentear seus cabelos.
-Eu tambm gostaria - afirmou Meredith, embora soubesse que seria inevitvel que Lisa descobrisse que Fenwick no era seu pai, sefosse  casa dela. Todos os
dias desejava contar a verdade, mas desistia, dizendo a si mesma que, quanto mais Lisa a conhecesse, menos diferena faria, quando soubesse que ela era rica. - Se
voc pudesse ir a minha casa, amanh, passaria a noite l. Enquanto eu estivesse no baile, voc faria o dever para segunda-feira, e na volta eu lhe contaria tudo.
-Mas no posso. Vou sair com Mrio - Lisa observou, sem necessidade.
Meredith ficara atnita, quando soubera que os pais da amiga deixavam que ela sasse com o namorado, tendo apenas catorze anos, mas Lisa rira e explicara que
o rapaz nunca passaria dos limites, pois sabia que o pai e os tios dela iriam atrs dele, se o fizesse.
-No esquea o que eu lhe disse, certo? - recomendou Lisa, afastando-se do carro. - Flerte com Parker e olhe bem dentro dos olhos dele. E prenda os cabelos
para cima, para parecer mais sofisticada.
Durante todo o percurso at em casa, Meredith tentou imaginar-se flertando com Parker. Ele ia fazer aniversrio no domingo - ela memorizara a data no ano anterior,
quando percebera que estava ficando apaixonada. Dias antes, passara horas numa papelaria, procurando um carto para dar a ele no baile, mas os cartes que exprimiam
o que ela realmente sentia pareceram-lhe muito exagerados. Apesar de ingnua, refletira que Parker no gostaria de um carto que na parte da frente proclamava: Ao
meu grande e nico amor. Assim, contentara-se com um que dizia: Feliz Aniversrio para um amigo muito especial.
Reclinando a cabea no encosto do banco, fechou os olhos, sorrindo sonhadoramente ao visualizar-se linda como uma modelo, dizendo coisas inteligentes e espirituosas
a Parker, que no perdia uma s de suas palavras.



#2


Apreensiva, Meredith olhou-se no espelho, enquanto a sra. Ellis a observava, movendo a cabea de modo aprovador. Quando ela e a governanta haviam comprado o
vestido de veludo, na semana anterior, o tecido parecera da cor de um topzio cintilante. Naquela noite, sob a luz artificial, tornara-se marrom-metlico, e os sapatos,
tingidos para combinar com a roupa, eram iguais aos de uma matrona, com aqueles saltos baixos e largos. O gosto da sra. Ellis pendia mesmo para esse lado severo,
mas ela obedecera s instrues de Philip, que a mandara comprar um vestido que fosse adequado para a idade e a posio de Meredith. Elas levaram trs vestidos
para casa para submeter  sua apreciao, e aquele fora nico que ele no achara aberto demais, ou muito frvolo.
Meredith s no podia queixar-se dos cabelos, que normalmente usava divididos e presos de um lado por uma fivela acima da orelha, mas os comentrios de Lisa
a tinham convencido de que ela precisava adotar um estilo novo, mais sofisticado. Naquela noite, persuadira a sra. Ellis a pente-los para cima, formando uma cascata
de cachos, com pequeninas mechas soltas sobre as orelhas, e gostara muito do resultado.
-Meredith - o pai chamou, entrando no quarto dela, folheando um mao grosso de entradas para a pera. - Park Reynolds precisou de mais duas entradas para a
apresentao de Rigoletto, e eu disse a ele que podia usar das nossas. Voc as entregaria ao jovem Parker, quando - S ento Philip encarou-a, franzindo a testa.
- O que fez com seus cabelos?
-Decidi prend-los para cima.
-Prefiro o modo como voc sempre se penteia, Meredith. - Lanando um olhar de desagrado na direo da sra. Ellis, disse: - Quando veio trabalhar para mim, acho
que concordamos em que, alm de cumprir seu dever de governanta, supervisionando os trabalhos caseiros, a senhora tambm orientaria minha filha em assuntos femininos,
sempre que necessrio. Considera esse penteado
-Eu mandei a sra. Ellis pentear meus cabelos dessa maneira, pai Meredith interveio, enquanto a governanta empalidecia e comeava a tremer.
-Nesse caso, em vez de mandar que ela a penteasse assim, voc deveria ter lhe pedido um conselho.
-Claro - respondeu Meredith.
Ela detestava desapontar ou aborrecer o pai. Ele a fazia sentir-se responsvel pelo fracasso de seu dia, ou noite, quando ela estragava seu humor.
-Bem, no faz mal - Philip concedeu, vendo que ela se mostrava contrita. - Ainda h tempo, antes de voc sair, para a sra. Ellis arrumar seus cabelos. Eu lhe
trouxe um presente, minha querida. Um colar acrescentou, tirando uma caixa de veludo verde, estreita e baixa, do bolso do palet. - Pode us-lo hoje, porque combinar
muito bem com seu vestido.
Meredith esperou, enquanto ele abria o fecho, imaginando um cordo de ouro com um pingente, ou
-Pertenceu a sua av Bancroft - ele explicou, tirando da caixa um longo fio de prolas gradas. - Vire-se para eu poder coloc-lo em seu pescoo.
Meredith escondeu a custo o desapontamento e obedeceu. Vinte minutos depois, voltou a olhar-se no espelho, tentando corajosamente convencer-se de que estava
bonita. Os cabelos penteados no velho estilo infantil no a agradavam, mas o colar de prolas era o pior de tudo. A av usara-o todos os dias de sua vida, morrera
com ele no pescoo. A jia pesava como chumbo no peito chato de Meredith.
-Com licena, senhorita. - A voz do mordomo, vinda do outro lado da porta, a fez girar nos calcanhares. - Uma moa chamada srta. Pontini est l embaixo e alega
ser sua amiga.
Sentindo-se encurralada, Meredith sentou-se na borda da cama, tentando desesperadamente encontrar uma sada para a situao, mas sabia que no havia nenhuma.
-Traga-a para c, por favor - respondeu.
Um minuto depois, Lisa entrava no quarto, olhando em volta, como algum que se visse num outro planeta.
-Tentei telefonar - explicou -, mas seu telefone est ocupado h uma hora, ento resolvi vir at aqui. - Fazendo uma pausa, deu meiavolta, examinando tudo.
- Quem  o dono deste monte de pedras, afinal?
Em qualquer outro momento, aquela irreverente descrio da casa faria Meredith rir.
-Meu pai - foi tudo o que pde dizer, com voz tensa. O rosto de Lisa fechou-se.
-Logo imaginei, quando o homem que abriu a porta disse seu nome no mesmo tom de voz com que o padre Vickers diz Virgem Maria. - Virando-se, ela marchou para
a porta.
-Lisa, espere! - Meredith implorou.
-Voc j se divertiu bastante. Ah, hoje foi um dia e tanto! - Lisa exclamou com sarcasmo, voltando-se para ela. - Primeiro, Mrio me leva para dar uma volta
de carro e tenta arrancar minhas roupas, e agora descubro que minha amiga tem me feito de boba.
-No  isso! - gritou Meredith. - Deixei que voc pensasse que Fenwick, nosso motorista, era meu pai, porque achei que a verdade nos separaria.
-Ah, claro - replicou Lisa com irnica incredulidade. - A menina rica queria loucamente fazer amizade com a pobrezinha aqui! Imagino como riu com seus amigos
ricos, quando contou que minha me convidou voc para comer espaguete l em casa.
-Pare com isso! - Meredith explodiu. - Voc no entende? Gosto de seu pai e de sua me e queria que voc fosse minha amiga. Voc tem irmos, tias e tios, tudo
aquilo que eu sempre quis ter. O que a leva a pensar que, s porque moro nesta casa idiota, tudo  maravilhoso para mim? Veja como ela afetou voc. Bastou v-la
para no querer nada comigo e  isso o que acontece com os colegas da escola, desde que entrei l. E, para seu governo, adoro espaguete, adoro casas como a sua,
onde as pessoas do risada e gritam!
Parou de falar, quando a expresso de raiva no rosto de Lisa deu lugar a um sorriso sarcstico.
-Voc gosta de barulho,  isso? - a amiga perguntou. Meredith sorriu com hesitao.
-Acho que sim.
-E seus amigos ricos?
-No tenho amigos. Isto , conheo pessoas de minha idade, e me encontro com elas, de vez em quando, mas todas frequentam as mesmas escolas e tm amizade h
anos. Sou uma intrusa no meio deles, um corpo estranho.
-Por que seu pai mandou voc para a St. Stephens?
-Acha que essa escola forma o carter dos alunos. Minha av e a irm estudaram l.
-Seu pai  esquisito.
-Acho que , mas as intenes dele so boas. Lisa deu de ombros.
-Ento,  muito parecido com todos os outros pais.
Era uma pequena concesso, uma relutante insinuao de que existia alguma igualdade entre as duas, e o silncio caiu sobre elas. Separadas por uma cama Lus
XIV, com colunas e dossel, e uma gigantesca brecha social, duas adolescentes extraordinariamente inteligentes reconheceram todas as diferenas entre elas e olharam-se
com uma mistura de frgil esperana e prudncia.
-Acho melhor eu ir embora - Lisa disse por fim.
Meredith olhou para a bolsa de nilon que a amiga levara, obviamente com a inteno de passar a noite. Ergueu a mo num gesto de apelo mudo, depois deixou-a
cair, sabendo que seria intil.
-Eu tambm vou ter de sair daqui a pouco - observou.
-Divirta-se.
-Fenwick pode lev-la para casa, depois que me deixar no hotel.
-Vou de nibus - Lisa comeou e parou, notando pela primeira vez o vestido de Meredith. Ento, perguntou em tom horrorizado: Quem escolheu? Helen Keller? No
vai com ele ao baile, vai?
-Vou. Voc detestou, no?
-Quer a verdade?
-No, acho que no.
-Bem, como voc descreveria esse vestido? Meredith deu de ombros, desolada.
-Pea de museu serve?
Mordendo o lbio para conter o riso, Lisa ergueu as sobrancelhas maliciosamente.
-Se no gostou, por que comprou?
-Meu pai gostou.
-Seu pai, ento, tem um gosto que  uma porcaria.
-Voc no devia dizer palavras como porcaria - observou Meredith mansamente, mas sabendo que Lisa tinha razo quanto ao vestido. - Isso a faz parecer dura
e grosseira, e voc no . No , mesmo. Eu no sei me vestir, nem arrumar os cabelos, mas sei como devo falar.
Lisa encarou-a boquiaberta e, ento, algo comeou a acontecer: uma ligao entre dois espritos totalmente diferentes, que de repente descobriam que tinham alguma
coisa a oferecer um para o outro. Um sorriso lento iluminou os olhos cor de avel de Lisa, e ela inclinou a cabea para um lado, observando cuidadosamente a roupa
de Meredith.
-Puxe um pouco os ombros do vestido para os lados, e vamos ver se isso ajuda - instruiu de repente.
Meredith tambm sorriu e obedeceu.
-Seus cabelos esto uma por horrveis - Lisa comentou, corrigindo-se rapidamente, antes de olhar em volta e ver um buqu de flores de seda em cima da penteadeira.
- Uma flor nos cabelos ou na faixa da cintura poderia ajudar.
Com o instinto de seus antepassados, Meredith pressentiu que a vitria estava ao alcance de sua mo e que era o momento de tirar vantagem disso.
-Quer dormir aqui? Voltarei l pela meia-noite, e ningum vai se incomodar em saber at que hora ficaremos acordadas.
Lisa hesitou por um instante, ento sorriu.
-Est bem. - Voltando novamente sua ateno para o problema da aparncia de Meredith, perguntou: - Por que escolheu sapatos com saltos to baixos?
-Porque assim no fico to alta.
-Ser alta est na moda, burrinha. E precisa usar esse colar?
-Meu pai quer.
-Pode tir-lo, quando estiver no carro.
-Ele se sentiria muito mal, se soubesse.
-Bem, eu no vou contar. Olhe, leve meu batom - acrescentou, j com a mo dentro da bolsa, em busca do estojo de maquilagem. E os culos? Tem mesmo de ficar
com eles?
Meredith sufocou uma risadinha.
-Se quiser enxergar.
Quarenta e cinco minutos depois, Meredith saa do quarto. Lisa dissera que tinha talento para decorar qualquer coisa, desde pessoas at casas, e Meredith s
podia acreditar. A flor de seda, presa entre os cabelos, atrs da orelha, fazia com que ela se sentisse mais elegante e na moda. O leve toque de blush nas faces
deixara-a com aparncia mais viva, e o batom, embora Lisa o achasse um pouco forte para sua pele clara, dava-lhe a sensao de ser mais velha e sofisticada.
Com a autoconfiana nas alturas, Meredith parou no vo da porta e virou-se, despedindo-se com um aceno de Lisa e da sra. Ellis. Depois, sorriu para a amiga.
-Redecore meu quarto enquanto eu estiver fora, se tiver vontade. Lisa ergueu os polegares, concordando.
-V. No faa Parker esperar.



#3

Dezembro, 1973

O som dos sinos badalando no crebro de Matt Farrell foi abafado pelas marteladas de seu corao, quando ele se enterrou inteiramente no corpo vido e exigente
de Laura, penetrando-a, enquanto ela o montava, movendo os quadris para for-lo a ir mais fundo. Ela estava louca quase no limite. Os sinos comearam a bimbalhar
ritmadamente. No os sinos melodiosos das torres das igrejas no centro da cidade, ou aqueles espalhafatosos do quartel dos bombeiros, no outro lado da rua.
-Ei, Farrell, voc est a dentro? - Sinos.
Ah, naturalmente que ele estava l dentro. Dentro dela, perto de explodir. Sinos.
-Que droga, Farrell! - Sinos. - Que diabo, onde voc est? - Sinos. Ele compreendeu, por fim. L fora, junto s bombas de gasolina,algum estava pulando por
cima da mangueira que corria por dentro do posto, gritando seu nome.
Laura gelou, e um gritinho escapou-lhe da garganta.
-Oh, meu Deus, h algum l fora!
Tarde demais. Ele no podia parar. No quisera fazer aquilo ali, mas ela insistira, provocara, e agora seu corpo j no reagia  ameaa de intruso. Agarrando
as ndegas redondas, puxou-a para baixo, afundou-se ainda mais dentro dela e gozou. Descansou por um segundo, ento sentou-se, livrando-se dela, apressado, mas com
gentileza.
Laura j estava baixando a saia e arrumando o suter. Ele empurrou-a para trs de uma pilha de pneus recapeados e levantou-se bem no momento em que a porta abriu-se
e Owen Keenan entrou no compartimento fechado do posto, carrancudo e desconfiado.
-Que diabo est acontecendo aqui, Matt? Fiquei berrando l embaixo um tempo.
-Eu estava descansando um pouco - respondeu Matt, passandoas mos nos cabelos despenteados pelas carcias sfregas de Laura. O que voc quer?
-Seu pai est bbado, l no Maxines. O xerife vai para l. Se no quer que seu velho passe a noite na cela dos bbados,  melhor chegar primeiro.
Quando Owen saiu, Matt pegou do cho o casaco de Laura, sobre o qual tinham se deitado, sacudiu-o para tirar o p e segurou-o, enquanto ela introduzia os braos
nas mangas. Sabia que uma amiga a levara, de maneira que ela precisaria de uma carona.
-Onde deixou seu carro? - perguntou. Ela disse, e ele assentiu.
-Vou lev-la at l, antes de ir buscar meu pai.
Cordes de luzes natalinas estendiam-se por todas as esquinas da Main Street, as cores parecendo borradas na neve que caa. Na extremidade norte da cidade, uma
guirlanda vermelha de plstico elevava-se acima da placa que dizia: BEM-VINDOS A EDMUNTON, INDIANA, POP. 38.124. De um alto-falante, doado pelo Elks Club, derramava-se
a melodia de Noite Feliz, colidindo com as notas de Jingle Bells que saam de um tren de plstico no telhado da casa de ferragens Horton.

A leve precipitao de neve e as luzes faziam maravilhas por Edmunton, dando a aparncia de um quadro de Norman Rockwell ao que era,  luz crua do dia, uma cidadezinha
encarapitada acima de um vale raso, onde erguiam-se as chamins das usinas de ao, lanando no ar seus eternos jorros de fumaa e vapor. A escurido escondia tudo
aquilo, e tambm o lado sul da cidade, onde acabavam as casas bonitas e comeavam os barraces, tabernas, e casas de agiotagem e penhor. Mais alm, comeavam as
terras cultivadas, ridas no inverno.
Matt parou a caminhonete num canto escuro do ptio de estacionamento da mercearia Jackson, onde Laura deixara o carro, e ela deslizou para perto dele.
-No esquea de me pegar hoje s sete, no p do morro - recomendou, abraando-o pelo pescoo. - Precisamos acabar o que comeamos uma hora atrs. Ah, Matt,
cuidado para no ser visto. Papai viu sua caminhonete aqui, na ltima vez, e comeou a fazer perguntas.
Matt olhou-a, de repente desgostoso com a atrao sexual que sentia por ela. Laura era linda, rica, mimada e, ele sabia, egosta. Deixara que ela o usasse como
um garanho, concordara com encontros clandestinos e carcias furtivas, rebaixando-se a ponto de ficar rondando pelo p domorro, em vez de ir  casa dela, como
os outros pretendentes, os aceitveis, certamente faziam.
A no ser pela atrao fsica, eles no tinham absolutamente nada em comum. O pai de Laura Frederickson era o cidado mais rico de Edmunton, e ela estava no
primeiro ano de uma faculdade muito cara do Leste. Matt trabalhava numa usina de ao durante o dia, como mecnico nos fins de semana, e estudava  noite, no campus
local da universidade estadual de Indiana.
Inclinando-se por cima dela, ele abriu a porta da caminhonete.
-Ou eu pego voc na porta de sua casa, hoje, ou trate de fazer outros planos para a noite - decretou, em tom frio e implacvel.
-Mas o que vou dizer a papai, quando ele vir sua caminhonete na entrada de carros? - perguntou Laura.
-Diga que minha limusine est na oficina - respondeu Matt, insensvel a sua perturbao.





#4


Dezembro, 1973



A longa fila de limusines arrastava-se em direo  entrada protegida por um toldo do Hotel Drake de Chicago, onde cada veculo parava para que seus jovens ocupantes
descessem.
Porteiros iam e vinham, acompanhando os recm-chegados de seus carros at o saguo de entrada. No revelavam, por palavras, ou mesmo pela expresso do rosto,
o menor sinal de divertimento ou condescendncia em relao aos jovens que chegavam em smokings feitos sob medida e vestidos longos, porque aqueles no eram adolescentes
comuns, enfarpelados para uma formatura ou um casamento, deslumbrados com o que os rodeava e incertos sobre como deveriam portar-se. Eram filhos das famlias mais
importantes de Chicago, seguros de si, e a nica evidncia de sua juventude talvez fosse o entusiasmo efervescente que demonstravam pela noite que iam ter.
No cortejo de carros dirigidos por motoristas particulares, Meredith observava o desembarque dos outros jovens. Todos eles, cujas idades variavam entre doze
e catorze anos, iam participar do jantar-danante anual da srta. Eppingham, de quem eram alunos, e deveriam exibir o traquejo social que haviam adquirido e aperfeioado
no curso de seis meses de durao. Precisavam desse treinamento para poderem mover-se com elegncia na rarefeita camada social que, automaticamente, presumiam que
habitariam quando adultos. Por essa razo, os cinquenta alunos, usando trajes a rigor, passariam por uma fila de pessoas que os recepcionariam, ocupariam seus lugares
para um jantar de doze pratos e, depois, participariam do baile.
Atravs das janelas do carro, Meredith observava os rostos alegres e confiantes dos colegas que se reuniam no saguo. Notou que era a nica a ir sozinha, pois
as outras garotas chegavam em grupos ou acompanhadas por irmos mais velhos ou primos, que j haviam feitoo curso da Eppingham. Apreensiva, observou os lindos vestidos
que as meninas usavam, os cabelos presos por fitas de veludo ou casquetes com pedrarias.
A srta. Eppingham reservara o salo de baile principal, de modo que Meredith atravessou o saguo de mrmore e subiu a escada, sentindo o estmago revolto e os
joelhos trmulos, de tanto nervosismo. Chegando ao patamar, logo viu o toalete das senhoras e dirigiu-se para l. Entrou e olhou-se no espelho, querendo ter certeza
de que estava com boa aparncia. De fato, depois de tudo o que Lisa fizera, ela no estava to mal assim. Os cabelos loiros e lisos, divididos no lado direito e
mantidos para trs pela flor de seda, desciam at quase os ombros. A flor dava-lhe um ar misterioso e sofisticado, ela refletiu, mais esperanosa do que convicta.
Abriu a bolsa, pegou o batom cor de pssego de Lisa e passou-o nos lbios. Satisfeita, levou as mos  nuca e soltou o fecho do colar, que tirou e colocou na bolsa.
Tambm tirou os culos, pondo-os junto com a jia.
-Muito melhor - decidiu com novo nimo.
Se no apertasse os olhos, se a luz fosse difusa, haveria uma chance de Parker ach-la bonita.
Do lado de fora do salo, os alunos da Eppingham acenavam uns para os outros, juntando-se em grupos, mas ningum acenou para ela, nem a chamou para dizer: Espero
que nos sentemos juntos, e voc? Mas no era culpa deles, ela sabia. Em primeiro lugar, aqueles jovens, em sua maioria, conheciam-se desde bebs, porque seus pais
eram amigos, e tinham ido s festas de aniversrio uns dos outros. A alta sociedade de Chicago formava um grupo exclusivo, e os adultos, naturalmente, achavam que
era incumbncia deles preservar essa exclusividade e, ao mesmo tempo, assegurar que seus filhos fossem admitidos em seu mundo. O pai de Meredith era o nico dissidente
dessa filosofia. Por um lado, desejava que Meredith tomasse seu lugar na sociedade e, por outro, no queria que ela fosse corrompida pelos jovens cujos pais eram
mais maleveis do que ele.
Meredith passou pela fila de recepo sem dificuldade, depois seguiu para as mesas do banquete. Como os lugares eram marcados por cartes com os nomes, ela tirou
disfaradamente os culos da bolsa e examinou cada um deles. Quando encontrou seu nome, na terceira mesa, descobriu que ficaria com Kimberly Gerrold e Stacey Fitzhugh,
duas das garotas que haviam sido duendes juntamente com ela na festa de Natal.
-Oi, Meredith - elas entoaram em coro, olhando-a com aquela divertida condescendncia que sempre a deixava sem jeito e acanhada.
Depois, desviaram a ateno para os rapazes entre elas.
A terceira menina era Rosemary, irm de Parker, que moveu a cabea na direo de Meredith num cumprimento desinteressado, antes de cochichar alguma coisa ao
garoto a seu lado, que riu, lanando um olhar para Meredith.
Reprimindo a inquietante impresso de que Rosemary estava falando dela, Meredith olhou em volta, fingindo estar fascinada pelos enfeites de Natal, vermelhos
e brancos. A cadeira a sua direita ficou vazia, e depois ela descobriu que a pessoa que iria ocup-la pegara gripe, o que a deixou na situao desagradvel de no
ter parceiro durante o jantar.
A refeio foi servida, prato aps prato, e Meredith pegava automaticamente o talher correto, entre os doze arrumados a sua frente. Jantar com toda aquela formalidade
era fato corriqueiro em sua casa, assim como nas dos outros alunos da Eppingham, de modo que ela no tinha nem mesmo a indeciso para faz-la esquecer a sensao
de isolamento que experimentava, enquanto ouvia os outros falarem sobre os ltimos filmes.
-Voc viu esse, Meredith? - perguntou Steven Mormont, seguindo tardiamente a regra da srta. Eppingham, segundo a qual, todos, numa mesa, deviam ser includos
na conversao.
-No - Foi poupada da necessidade de dizer mais alguma coisa, porque naquele momento a orquestra comeou a tocar, e a parede divisria abriu-se, indicando
que os convidados deviam terminar educadamente a conversa  mesa e ir com dignidade para o outro salo.
Parker prometera aparecer para o baile, e com a irm dele ali, Meredith tinha certeza de que cumpriria a promessa. Alm disso, ele j se encontrava no hotel,
porque sua confraria da faculdade estava fazendo uma festa num dos outros sales. Levantando-se, ela alisou os cabelos e rumou para o salo de baile, encolhendo
o estmago numa postura elegante.
Durante as duas horas seguintes, a srta. Eppingham cumpriu seu dever de anfitri, circulando entre os convidados e certificando-se de que todos tinham algum
com quem conversar e danar. Meredith cansou-se de v-la mandar um garoto atrs do outro ir at ela e convid-la para danar.
Por volta das onze horas, a pequena multido dividira-se em vriosgrupos e a pista de dana ficou quase vazia, devido, sem dvida, s msicas antigas que a
orquestra tocava. Entre os quatro pares que ainda danavam, estavam Meredith e Stuart Whitmore, e ele falava animadamente de sua meta, que era entrar para a firma
de advocacia do pai. Era srio e inteligente, e Meredith decidiu que gostava mais dele do que dos outros garotos de sua turma, principalmente porque Stuart quisera
danar com ela.
Enquanto ouvia-o falar, Meredith no tirava os olhos da entrada do salo, at que viu Parker materializar-se no vo da porta, acompanhado por trs amigos. Sentiu
o corao subir  garganta, notando como ele estava bonito no smoking preto, com aqueles bastos cabelos loiros, estriados de mechas clareadas pelo sol, e o rosto
bronzeado. Comparados com Parker, todos os outros jovens, inclusive os que estavam com ele, pareciam insignificantes.
Notando que Meredith ficara tensa, de repente, Stuart interrompeu sua descrio dos requisitos para ingressar na faculdade de direito e olhou na direo em que
ela estava olhando.
-Ah, o irmo de Rosemary veio - comentou.
-E, eu sei - respondeu Meredith, no percebendo o tom sonhador de sua voz.
Mas Stuart notou e fez uma careta.
-O que  que Parker Reynolds tem que faz todas as garotas perderem o flego e ficarem agitadas? - perguntou com um pouco de azedume. - Quero dizer, vocs preferem
Parker a mim, s porque ele  mais velho, mais alto, e seis vezes mais gentil?
-No devia menosprezar-se, Stuart - disse Meredith com distrada sinceridade, observando Parker atravessar o salo para cumprir o dever de danar com a irm.
- Voc  bonzinho e muito inteligente.
-Voc tambm  boazinha e inteligente.
-Vai ser um advogado brilhante, como seu pai.
-Quer sair comigo no sbado  noite?
-O qu? - Meredith espantou-se, olhando-o depressa. - Bem  muita gentileza sua me convidar, mas meu pai s me deixar sair com rapazes quando eu tiver dezesseis
anos.
-Obrigado por me rejeitar com tanta educao.
-No  isso! - exclamou Meredith, mas logo esqueceu tudo, porque um dos amigos de Rosemary Reynolds tirara-a para danar, antecipando-se a Parker, que virara-se
e comeara a andar na direo da porta.
-Desculpe, Stuart - murmurou, um tanto desesperada - mas preciso entregar uma coisa a Parker.
Ignorando o fato de que estava chamando a ateno de vrias pessoas e divertindo-as, atravessou a pista correndo e alcanou Parker quando ele j ia sair com
os amigos. Os trs rapazes olharam-na com curiosidade, como se ela fosse um inseto incmodo, mas Parker sorriu-lhe de modo caloroso e sincero.
-Oi, Meredith. Est gostando da festa?
Ela moveu a cabea afirmativamente, esperando que ele se lembrasse que lhe prometera uma dana. Sua esperana despencou, chegando a um nvel ainda desconhecido,
de to baixo, quando ele continuou  espera de que ela dissesse o que tinha a dizer e que a fizera correr at l.
Uma onda quente de rubor subiu-lhe s faces, quando, tarde demais, ela se deu conta de que o olhava fixamente, em silncio, como se o estivesse adorando.
-Te-tenho uma coisa para lhe dar - gaguejou com voz trmula e assustada, mexendo dentro da bolsa. - Meu pai pediu para lhe entregar isto.
Puxou para fora o envelope com as entradas para a pera e o carto de aniversrio, mas o colar foi junto e caiu no cho. Ela abaixou-se para apanh-lo, ao mesmo
tempo que Parker, e suas testas colidiram com fora.
-Desculpe! - ela quase gritou.
-Ai! - ele exclamou.
Meredith endireitou-se e o batom de Lisa caiu da bolsa aberta. Jonathan Sommers, um dos amigos de Parker, curvou-se para peg-lo.
-Por que no vira a bolsa de boca para baixo, para que possamos recolher tudo de uma vez? - brincou, o hlito cheirando a lcool.
Dolorosamente consciente das risadinhas dos alunos da Eppingham que estavam observando a cena, Meredith entregou o envelope a Parker, ps o colar e o batom na
bolsa e virou-se, contendo as lgrimas, pretendendo bater em vergonhosa retirada.
-E a dana que me prometeu? - perguntou Parker em tom gentil, finalmente lembrando-se.
Meredith girou para encar-lo, radiante.
-Ah, eu havia esquecido! Voc quer danar?
-Essa foi a melhor oferta que ouvi esta noite - Parker afirmou galantemente.
Assim, quando os msicos comearam a tocar Bewitched, Bothered e Bewildered, Meredith foi para os braos dele, vendo seu sonho tornar-se realidade. Sentia sob
os dedos a maciez do tecido do palet do smokinge a firmeza das costas slidas. A colnia dele tinha um aroma de especiarias, maravilhoso. E Parker era um danarino
soberbo.
-Voc dana maravilhosamente bem - ela exprimiu o pensamento em voz alta, dominada pela emoo.
-Obrigado.
-E est muito bem, de smoking.
Ele riu baixinho, e Meredith inclinou a cabea para tras, aquecendo-se ao calor do sorriso dele.
-E voc est muito bonita.
Sentindo que corava furiosamente, ela apressou-se em fixar o olhar no ombro dele. Por infelicidade, aquele movimento todo de abaixar-se, levantar-se, inclinar
a cabea para trs e para a frente fizera com que o grampo que segurava a flor em seus cabelos se soltasse, e a rosa de seda pendia precariamente, segura apenas
pela haste de arame.
Tentando com desespero dizer algo sofisticado e espirituoso, Meredith tornou a erguer a cabea.
-Est gostando de sua folga de Natal?
-Muito - ele respondeu, seu olhar deslizando para a flor cada.
-E voc?
-Tambm - ela respondeu, sentindo-se terrivelmente desajeitada. Os braos de Parker soltaram-na no instante em que a msica paroue, com um sorriso, ele se
despediu. Sabendo que no podia ficar l parada, observando-o afastar-se, Meredith virou-se depressa e captou sua imagem numa parede espelhada. Viu a flor pendendo
grotescamente e arrancou-a, com a esperana de que tivesse acabado de deslizar do grampo.
Enquanto esperava na fila para pegar o casaco, olhava para a flor entre seus dedos, horrorizada com a ideia de que pudesse ter ficado pendurada no lado de sua
cabea o tempo todo em que ela danara com Parker. Olhou para a menina a seu lado.
-Estava pendurada, enquanto voc danava com ele - a garota informou, como que lendo seus pensamentos.
-Era o que eu temia.
A outra menina sorriu com jeito solidrio, e Meredith lembrou-se do nome dela, Brooke Morrison, e de que sempre a achara simptica.
-Para que escola voc vai, no ano que vem? - perguntou Brooke.
-Bensonhurst, em Vermont - respondeu Meredith.
-Bensonhurst? - Brooke repetiu, franzindo o nariz. - Fica no fim do mundo e tem um regulamento de priso. Minha av estudou l.
-A minha tambm - disse Meredith com um suspiro desanimado, desejando que o pai no estivesse to decidido a mand-la para l.
Lisa e a sra. Ellis estavam afundadas em poltronas, no quarto de Meredith, quando ela chegou.
-E ento? - lisa quis saber, levantando-se de um salto. - Como foi?
-Foi tudo maravilhoso. - Meredith fez uma careta. - Se no levarmos em conta que caiu tudo da minha bolsa, quando fui entregar o carto de aniversrio a Parker.
Ou que fiquei tagarelando, dizendo como ele estava bonito e como danava bem.
Deixou-se cair na poltrona que Lisa ocupara e, s ento, notou que fora mudada de lugar. Na verdade, o quarto todo estava diferente.
-O que acha? - perguntou Lisa com um sorriso maroto, enquanto Meredith olhava em volta, seu rosto refletindo surpresa e prazer.
Alm de trocar os mveis de lugar, ela desmontara o buqu de flores de seda que ficava num vaso, e agora pequenos ramalhetes enfeitavam as presilhas que seguravam
as cortinas da cama. Plantas naturais tinham sido transportadas de outras partes da casa para l, e o quarto austero adquirira uma atmosfera de jardim, muito feminina.
-Lisa, voc  um espanto!
-Sou, mesmo, mas a sra. Ellis ajudou.
-Eu s forneci as plantas - a governanta protestou. - Lisa fez todo o resto. Espero que seu pai no faa objees - observou, preocupada, levantando-se.
Quando saiu do quarto, Lisa virou-se para Meredith com um sorriso.
-Eu quase estava desejando que seu pai viesse aqui olhar. Preparei um belo discursinho para dizer a ele. Quer ouvir?
Meredith tambm sorriu e concordou com um gesto de cabea.
-Boa noite, sr. Bancroft - Lisa comeou, radiando boa educao e com pronncia perfeita. - Sou Lisa Pontini, amiga de Meredith. Pretendo ser decoradora de interiores
e estava praticando aqui. Espero que no se importe, senhor.
Falou com tanta perfeio, que Meredith riu, antes de comentar:
-Eu no sabia que queria ser decoradora. Lisa olhou-a com ar cnico.
-Terei sorte, se puder terminar o colegial. Ir para a faculdade, para fazer um curso de decorao, nem pensar. No temos dinheiro para isso. - Ento, acrescentou,
em tom de reverncia: - A sra. Ellis me contou que seu pai  o Bancroft da Bancroft & Company. Ele viajou, ou qualquer coisa assim?
-No, foi a um jantar, com os membros da diretoria - Meredith respondeu e, achando que Lisa ficaria to encantada quanto ela com o funcionamento da empresa,
continuou: - O assunto em pauta  bem interessante. Dois dos diretores querem expandir os negcios, levando a Bancroft para outras cidades. O tesoureiro diz que
isso  uma irresponsabilidade, sob o ponto de vista fiscal, mas os executivos que cuidam da parte comercial insistem em que o maior poder aquisitivo que teramos
aumentaria o total de nossos lucros.
-Tudo isso  grego para mim - declarou Lisa, olhando com ateno para uma planta colocada num canto do quarto.
Foi at l e puxou-a cerca de sessenta centmetros para a frente. O efeito da mudana to simples foi surpreendente.
-Onde vai fazer o colegial? - perguntou Meredith, admirando seu quarto transformado e refletindo em como era injusto que Lisa no pudesse ir para a faculdade
e desenvolver ao mximo seu talento.
-Kemmerling - a amiga respondeu.
Meredith estremeceu. Passava por l, no caminho dirio para a St. Stephens que, apesar de antiga, tinha aparncia impecvel, enquanto a Kemmerling, uma escola
pblica frequentada por jovens pobremente vestidos e mal-educados, era feia, alm de velha. O pai dela sempre dizia que uma excelente educao s podia ser obtida
em excelentes escolas.
Lisa adormecera havia muito tempo, quando uma ideia tomou forma na mente de Meredith, e ela comeou a planejar sua estratgia com mais cuidado do que j planejara
qualquer outra coisa, com exceo de seus imaginrios encontros com Parker.




#5


Ainda era cedo, na manh seguinte, quando Fenwick levou Lisa para casa, e Meredith desceu para a sala de jantar, onde o pai estava lendo o jornal, esperando-a para
tomarem o caf da manh juntos. Normalmente ela estaria curiosa para saber o resultado da reunio da noite anterior, mas havia algo mais forte pressionando sua mente.
Ocupando uma cadeira, desejou bom dia ao pai e decidiu lanar sua campanha, enquanto ele ainda prestava ateno ao artigo que estava lendo.
-O senhor sempre disse que uma boa educao  essencial, no  verdade?
Philip concordou, movendo a cabea distraidamente.
-No disse tambm que algumas escolas pblicas no tm funcionrios suficientes e no so boas?
-Disse - ele afirmou, abanando a cabea novamente.
-E que a famlia Bancroft tem feito doaes  Bensonhurst durante dcadas?
-Hum-hum - ele engrolou, virando a folha do jornal.
-Bem - Meredith preludiou, tentando controlar a crescente excitao. - H uma aluna da St. Stephens, uma menina maravilhosa, filha de uma famlia muito dedicada.
Ela  inteligentssima, talentosa, e quer ser decoradora de interiores, mas ter de ir para a Kemmerling porque os pais no podem mand-la para uma escola melhor.
No  triste?
-Hum-hum - ele resmungou de novo, franzindo a testa enquanto lia um artigo sobre Richard Daley.
Os democratas no estavam na lista de suas pessoas favoritas.
-No acha uma tragdia, que tanto talento, tanta inteligncia, e ambio sejam desperdiados? - ela insistiu.
O pai ergueu os olhos do jornal e fitou-a com expresso atenta. Aos quarenta e dois anos, era um homem bonito, elegante, de maneirasdiretas, penetrantes olhos
azuis e cabelo castanho que comeava a ficar prateado nas tmporas.
-O que  que voc est sugerindo, Meredith?
-Uma bolsa de estudos. Se a Bensonhurst no conceder bolsas, o senhor poderia pedir que usassem parte do dinheiro que temos doado para custear uma.
-E eu tambm deveria especificar que essa bolsa ir para a garota de quem voc est falando, certo?
Philip disse isso como se Meredith houvesse pedido algo que ferisse a tica, mas ela j aprendera que o pai podia usar seu poder e suas conexes para beneficiar
seus objetivos, sempre e onde quer que fosse necessrio. Era para isso que o poder servia, ele dissera centenas de vezes.
Ela movimentou a cabea afirmativamente, encarando-o com olhos sorridentes.
-Certo - concordou.
-Entendo.
-O senhor nunca encontrar algum que merea mais uma bolsa do que essa menina - ela persistiu, ansiosa, ento acrescentou, tomada por sbita inspirao: -
Se no fizermos nada por Lisa, qualquer dia ela acabar dependendo da assistncia social.
Assistncia social era um assunto garantido para provocar uma reao profundamente negativa em Philip.
Meredith desejava falar mais sobre Lisa e contar como sua amizade era importante, mas uma espcie de sexto sentido alertou-a para no faz-lo. No passado, o
pai mostrara-se to superprotetor que criana nenhuma fora considerada adequada para fazer companhia a ela. Era mais fcil que ele achasse Lisa merecedora de uma
bolsa de estudos do que de ser amiga da filha.
-Voc me lembra sua av Bancroft - ele comentou depois de alguns instantes. - Ela sempre se interessava por pessoas de mrito, mas menos favorecidas.
Meredith sentiu uma pontada de culpa, pois seu interesse em levar Lisa para a Bensonhurst era to egosta quanto nobre, mas as palavras seguintes do pai fizeram
com que se esquecesse disso.
-Ligue para minha secretria, amanh, d todas as informaes que tiver sobre essa menina, e pea-lhe para me lembrar de telefonar para a Bensonhurst.
No decorrer das trs semanas que se seguiram, Meredith esperou com verdadeira aflio, receosa de contar a Lisa o que estava tentandoconseguir, porque no queria
que ela ficasse desapontada, se o plano no desse certo, embora no pudesse acreditar que a Bensonhurst se recusaria a atender um pedido de seu pai. As garotas americanas
estavam sendo mandadas para escolas na Sua e na Frana, no para Vermont, e muito menos para a Bensonhurst, com seus dormitrios de pedra, cheios de correntes
de ar, o currculo exigente e regras rgidas. Essa escola no ficava mais lotada como antigamente. Era bvio que no se arriscariam a ofender Philip Bancroft.
Na semana seguinte, chegou uma carta da Bensonhurst, e Meredith ficou se agitando em volta da cadeira do pai, enquanto ele a lia.
-Aqui diz que vo conceder a nica bolsa de estudos da escola  srta. Pontini, levando em conta seu notvel mrito como estudante e o fato de ela ter sido recomendada
pela famlia Bancroft.
Meredith soltou um grito de alegria, nada prprio de uma menina bem-educada, que lhe valeu um olhar glido do pai.
-A bolsa cobrir os estudos, o alojamento e a alimentao - ele continuou. - Mas ela ter de ir a Vermont por conta prpria e ter dinheiro para suas despesas
pessoais.
Meredith mordeu o lbio. Ela no levara em considerao o preo da passagem area para Vermont, nem o dinheiro de que Lisa precisaria para outros gastos, mas
como j conseguira tanto, estava quase certa de que pensaria em mais alguma coisa. Talvez convencesse o pai de que deveriam ir de carro, e a Lisa iria com eles.
No outro dia, levou para a escola todo o material que tinha sobre a Bensonhurst e a carta a respeito da bolsa de estudos. As horas pareceram durar uma semana,
mas por fim ela se viu sentada  mesa da cozinha dos Pontini, enquanto a me de Lisa, toda agitada, oferecia-lhe biscoitos italianos, leves como o ar, e cannoli
caseiros.
-Est ficando muito magrinha, como Lisa - observou a sra. Pontini, e Meredith obedientemente mordiscou um biscoito, tirando da bolsa as brochuras da Bensonhurst.
Apesar de um pouco constrangida em seu papel de filantropa, falou com entusiasmo da Bensonhurst, de Vermont e de como seria excitante viajar para l. Depois,
anunciou que Lisa ganhara uma bolsa de estudos. Por um momento houve completo silncio, enquanto a sra. Pontini e Lisa pareciam incapazes de entender o que ela dissera.
Ento, Lisa levantou-se vagarosamente.
-O que sou, afinal? - explodiu furiosa. - Sua mais recente obra de caridade? Quem, diabos, voc pensa que ?
Saiu correndo pela porta dos fundos, e Meredith foi atrs dela.
-Lisa, eu s estava tentando ajudar!
-Ajudar? - a amiga virou-se para encar-la. - O que a levou a pensar que eu gostaria de estudar com um bando de ricas esnobes como voc, onde seria considerada
um caso de caridade? At posso ver! Uma escola cheia de cadelinhas mimadas, daquelas que reclamam porque tm de passar o ms com a mesada de mil dlares que seus
papais mandam.
-Ningum saber que voc tem uma bolsa de estudos, a menos que conte - Meredith comeou, ento sentiu-se invadida por mgoa e raiva. - Eu no sabia que me considerava
uma rica esnobe, ou uma uma cadelinha mimada.
-Est vendo? Nem consegue dizer cadelinha sem gaguejar. Voc  to comportada, to metida a superior!
-Esnobe  voc, Lisa, no eu - Meredith interrompeu-a baixinho, sentindo-se derrotada. - V tudo em termos de dinheiro. No precisava preocupar-se com a possibilidade
de no se adaptar na Bensonhurst. Sou eu que pareo no me adaptar em lugar nenhum, no voc.
Disse tudo isso com uma calma dignidade que teria deixado seu pai muito satisfeito, depois virou-se e foi embora.
Fenwick encontrava-se  espera diante da casa dos Pontini. Meredith acomodou-se no banco traseiro do carro. Havia alguma coisa errada com ela, percebeu. Algo
que no deixava as pessoas sentirem-se bem em sua companhia, no importava a que classe social pertencessem. No lhe ocorreu que pudesse ser uma pessoa especial,
que possusse uma finura e uma sensibilidade que faziam os outros jovens querer rebaix-la ou ficar longe dela.
Mas isso ocorreu a Lisa, que ficou olhando o carro afastar-se, odiando Meredith Bancroft porque ela podia fazer o papel de uma fada-madrinha adolescente, e desprezando-se
por ser capaz de ter sentimentos to feios e injustos.
Na hora do recreio, no dia seguinte, Meredith estava sentada em seu lugar de costume, envolvida no casaco, comendo uma ma e lendo um livro, quando viu, pelo
canto dos olhos, que Lisa andava em sua direo. Tentou concentrar-se ainda mais na leitura.
-Meredith, desculpe pelo que aconteceu ontem.
-Tudo bem - respondeu Meredith, sem erguer os olhos do livro.
-Esquea.
- muito difcil esquecer que fui nojenta com a melhor pessoa que j conheci.
Meredith ergueu os olhos ligeiramente e depois tornou a baix-los para o livro.
-Isso no faz mais diferena, agora - declarou em tom gentil, mas decidido.
Lisa sentou-se a seu lado na mureta de pedras.
-Fui uma verdadeira bruxa, ontem, por uma poro de motivos egostas e estpidos. Fiquei com pena de mim mesma porque voc estava me oferecendo a fantstica
oportunidade de ir para uma escola especial, de me sentir especial, e eu sabia que no podia aceitar. Voc entende, minha me precisa de ajuda para cuidar das crianas
e da casa, mas, mesmo que no precisasse, eu no teria dinheiro para ir para Vermont e depois para outras coisas, quando estivesse na escola.
Meredith nunca imaginara que a sra. Pontini no pudesse ou no quisesse ficar sem Lisa, e pareceu-lhe tremendamente injusto que, pelo fato de uma me ter tido
oito filhos, a filha fosse obrigada a ajudar a criar os irmos.
-Eu no pensei que sua me ou seu pai pudessem no deix-la ir admitiu, encarando a amiga pela primeira vez. - Achei que bem, que todos os pais quisessem que
seus filhos recebessem uma boa educao.
-Em parte voc est certa - disse Lisa, e Meredith, ento, notou que ela parecia ter muitas novidades para contar. - Minha me quer. Teve uma briga e tanto
com meu pai, depois que voc foi embora. Ele disse que uma menina no precisa ir para escolas gr-finas, mas casar-se e ter filhos. Mame comeou a sacudir aquela
colher grandona na direo dele, gritando que eu podia fazer coisas melhores, ento tudo comeou a acontecer. Mame chamou vov, que chamou meus tios e tias, e todos
foram l para casa e comearam a me dar dinheiro, como um emprstimo. Acho que, se eu estudar bastante na Bensonhurst, depois talvez consiga uma bolsa em alguma
faculdade. Arrumarei um timo emprego e poderei pagar todo mundo.
Os olhos cor de avel brilhavam, quando ela estendeu a mo e apertou a de Meredith.
-Como se sente, sabendo que est mudando inteiramente a vida de uma pessoa? - perguntou. - Que est realizando meu sonho, o de minha me e minhas tias?
De modo inesperado, Meredith sentiu nos olhos o ardor das lgrimas.
-Eu me sinto muito bem.
-Acha que poderemos ficar no mesmo quarto?
Meredith fez um gesto afirmativo com a cabea, abrindo um sorriso.
A alguns metros de distncia, vrias garotas que tomavam lanche juntas ficaram olhando para as duas. Lisa Pontini, a aluna nova, e Meredith Bancroft, a menina
mais esquisita da escola, tinham-se levantado de repente e, abraadas, riam, choravam e pulavam.




#6

Junho, 1978


O quarto da Bensonhurst que Meredith dividira com Lisa durante quatro anos estava atulhado de caixas e malas meio vazias. Os capelos e becas azuis que elas haviam
usado na cerimnia de formatura na noite anterior encontravam-se pendurados na porta do closet, juntamente com as borlas douradas que indicavam que as duas formavam-se
com o mais alto louvor. Dentro do closet, Lisa guardava suteres numa caixa, e pela porta aberta do quarto chegava do corredor o som estranho de vozes masculinas.
Pais, irmos e namorados das garotas que iam partir carregavam malas e caixas para o andar de baixo. O pai de Meredith passara a noite num hotel local e devia chegar
 escola dentro de uma hora, mas Meredith perdera a noo do tempo. Dominada por uma onda de nostalgia, comeara a ver as fotos reunidas num mao grosso, que tirara
da gaveta da escrivaninha, sorrindo diante das lembranas que cada uma delas evocava.
Os anos que Lisa e ela passaram em Vermont foram maravilhosos para as duas. O receio de Lisa, que achara que seria uma pria em Bensonhurst, revelou-se infundado.
Ela se destacou depressa, como aquela que lanava as novas modas, e as outras a consideravam ousada e original. No primeiro ano, foi Lisa quem organizou e liderou
um ataque bem-sucedido aos rapazes da escola Litchfield, que haviam tentado invadir a Bensonhurst para roubar calcinhas, que guardariam como trofeus. No segundo
ano, projetou os cenrios para a pea anual da escola, e o resultado foi espetacular, merecendo fotos nos jornais de vrias cidades.
No penltimo ano, Bill Fletcher convidou-a para o baile de primavera da Litchfield. Alm de ser capito do time de futebol, Bill era tambm fantasticamente bonito
e inteligente. Um dia antes do baile, marcoudois gols num jogo e outro num motel das redondezas, onde Lisa entregou-lhe sua virgindade.
Depois desse acontecimento to importante, ela voltou ao quarto da Bensonhurst e alegremente deu a notcia a Meredith e s quatro garotas que haviam se reunido
l.
-No sou mais virgem - declarou, deixando-se cair na cama. De agora em diante, sintam-se livres para me fazer perguntas e pedir conselhos.
As outras moas obviamente viram aquilo como outra demonstrao da intrpida independncia de Lisa, porque riram e aplaudiram, mas Meredith ficou preocupada
e at um pouco assustada. Naquela noite, depois que as amigas foram embora, as duas tiveram a primeira briga de verdade, desde que tinham ido para Bensonhurst.
-No consigo acreditar que voc fez aquilo! - Meredith explodiu.
-E se ficou grvida? E se as garotas espalharem isso por a? E se seus pais ficarem sabendo?
Lisa reagiu com a mesma energia.
-Voc no  minha bab e de modo algum responsvel por mim, portanto pare de agir como se fosse minha me! - exclamou. - Se prefere esperar que Parker, ou outro
cavaleiro de brilhante armadura, a tome nos braos e a leve para a cama, ento espere, mas no queira que todas as pessoas sejam iguais a voc! As freiras da St.
Stephens no me convenceram, com aquelas besteiras sobre pureza com que quiseram nos entupir - continuou, jogando o blazer no closet. - Se voc foi bastante idiota
para engolir aquilo tudo, fique virgem por toda a eternidade, mas no devia esperar que eu tambm ficasse. E no sou to imprudente que v engravidar. Bill usou
preservativo. E as outras garotas no vo abrir a boca para dizer o que eu fiz, porque elas tambm j fizeram. A nica virgenzinha chocada neste quarto era voc!
-Chega. - Meredith interrompeu-a em tom calmo, dirigindo-se  escrivaninha. Apesar de sua aparente tranquilidade, estava dominada pelo sentimento de culpa e
pelo embarao. Sentia-se responsvel por Lisa, porque fora ela quem a levara para Bensonhurst. Mas j compreendera que era moralmente arcaica e que no tinha o direito
de impor restries a Lisa, s porque as impunha a si mesma. - No tive a inteno de julg-la, Lisa. S fiquei preocupada com voc.
Depois de um momento de silncio cheio de tenso, Lisa virou-se Para ela.
-Desculpe, Meredith.
- Esquea. Voc estava com a razo.
-No estava, no - Lisa negou, olhando-a com ar suplicante e at desesperado. -  que no sou igual a voc e no posso ser. No que eu j no tenha tentado
Essa declarao arrancou de Meredith uma risadinha amarga.
-E por que gostaria de ser igual a mim? Lisa sorriu.
-Porque voc tem classe, meu bem - respondeu, imitando Humphrey Bogart. - Classe com letra maiscula.
A briga acabou com uma trgua que foi declarada naquela mesma noite, enquanto as duas tomavam milk shake na sorveteria Paulsons.
Tudo isso Meredith recordou na noite da partida, enquanto olhava as fotografias, mas suas reminiscncias foram interrompidas abruptamente por Lynn McLaughlin,
que apareceu na porta e informou:
-Nick Tierney ligou para o telefone pblico do vestbulo, hoje de manh e disse que fez isso porque o telefone particular de vocs j foi desligado. Mandou
avisar que vai dar uma passadinha por aqui.
-Para qual de ns duas ele telefonou? - Lisa quis saber. Lynn respondeu que fora para Meredith. Assim que a moa foi embora, Lisa plantou as mos nos quadris
e virou-se para a amiga com ar zombeteiro.
-Eu sabia! Ele no conseguia tirar os olhos de cima de voc, ontem  noite, embora eu quase ficasse de cabea para baixo para chamar-lhe a ateno. No sei
por que fui ensinar voc a maquilar-se e vestir-se!
-L vem voc de novo! - exclamou Meredith, sorrindo. - Acha que minha msera popularidade entre um punhado de rapazes  mrito todo seu, no ?
Nick Tierney era estudante de Yale e fora a Bensonhurst para cumprir o dever de assistir  formatura da irm. Fascinara todas as moas com seu rosto bonito e
porte atltico. Depois de pousar os olhos em Meredith, porm, fora ele quem ficara fascinado e no tentara fazer segredo disso.
-Msera popularidade com um punhado de rapazes? - Lisa ecoou. Estava fantstica, mesmo com os cabelos avermelhados presos num coque displicente no alto da cabea.
- Se voc sasse com metade dos rapazes que a convidaram nos dois ltimos anos, quebraria meu recorde!
Ia dizer mais alguma coisa, mas naquele momento a irm de Nick Tierney bateu na porta, que continuava aberta.
-Meredith, Nick est l embaixo com dois amigos que vieram de New Haven para c, hoje de manh - a moa informou com um sorriso conformado. - Disse que quer
ajudar voc a arrumar a bagagem e fazer uma proposta.
-Mande o pobre homem apaixonado e seus amigos subirem Lisa pediu, rindo.
Quando Trish Tierney afastou-se, Lisa e Meredith encararam-se em silncio, com expresso divertida, diferentes em todos os sentidos, mas completamente de acordo.
Os quatro ltimos anos tinham operado muitas mudanas nas duas, mas essa transformao fora muito maior em Meredith. Lisa sempre fora atraente, nunca tivera
a desvantagem de precisar de culos, nem sofrera por causa de excesso de peso. As lentes de contato que Meredith comprara dois anos antes, com dinheiro de sua mesada,
alm de livr-la dos culos, haviam revelado a beleza de seus olhos. A natureza e o tempo cuidaram do resto, dando nfase s feies cinzeladas, aumentando o volume
dos cabelos loiro-claros, arredondando e afinando o corpo nos lugares certos.

Lisa, com os cabelos flamejantes e modos extrovertidos, era sensual e glamourosa j aos dezoito anos. Meredith, ao contrrio, tinha maneiras elegantes e uma
beleza serena. A vivacidade de Lisa atraa os homens, enquanto a reserva sorridente de Meredith desafiava-os. Aonde quer que as duas fossem juntas, os homens viravam-se
para olh-las. Lisa adorava essa ateno, a emoo dos encontros e a excitao causada por um novo namorado. Meredith, por sua vez, achava tediosa sua recente popularidade
junto ao sexo oposto. Gostava de sair com rapazes, que a levaram para esquiar, danar e a convidavam para suas festas, mas a novidade de ser procurada acabara, e
estar com moos por quem sentia apenas amizade tornara-se algo agradvel, mas no to excitante quanto seria de esperar. Sentia-se da mesma forma a respeito de ser
beijada. Lisa explicava isso, dizendo que ela idealizara Parker exageradamente e que comparava todos os homens com ele. Isso, sem dvida, era responsvel pela falta
de entusiasmo de Meredith, mas apenas em parte. O maior causador dessa atitude era, talvez, o fato de ela ter crescido entre adultos, numa casa dominada por um comerciante
forte e dinmico. E, embora a companhia dos rapazes da escola Litchfield fosse agradvel, Meredith normalmente sentia-se muito mais velha do que eles.
Ela sempre soubera, desde a infncia, que desejava conseguir um diploma universitrio e ocupar o lugar a que tinha direito na Bancroft & Company. Os rapazes
da Litchfield, e mesmo os irmos deles, mais velhos, que j estavam na universidade, no mostravam interesse em outras coisas que no fossem esportes, sexo e bebida.
Para Meredith,a ideia de entregar sua virgindade a um moo cujo maior objetivo era colocar o nome dela na lista de jovens da Bensonhurst defloradas por alunos da
Litchfield - uma lista que ficava ostensivamente pendurada no salo Crown da Litchfield - no era apenas insensata, como tambm humilhante e srdida.
Quando ela se tornasse ntima de um homem, queria que ele fosse uma pessoa digna de admirao e confiana. Desejava ternura e compreenso, e tambm romance.
Sempre que pensava em ter um relacionamento sexual, via mais do que o simples ato de fazer amor. Visualizava os dois dando longos passeios na praia, de mos dadas,
conversando, ou diante da lareira,  noite, observando as chamas e conversando. Depois de tentar durante anos, sem sucesso, comunicar-se realmente com o pai, queria
que seu amante, quando tivesse um, fosse um homem com quem pudesse conversar e que dividisse seus pensamentos com ela. E sempre que imaginava esse amante, via Parker.
Durante os anos que passara na Bensonhurst, ela conseguira v-lo com bastante frequncia, quando ia para casa, nas frias. Algo fcil, porque tanto a famlia
de Parker como a sua pertenciam ao Glenmoor Country Club. Nesse clube, era uma tradio os scios comparecerem em massa aos principais bailes e eventos esportivos.
At alguns meses atrs, quando completara dezoito anos, Meredith no tivera permisso para participar das atividades dos adultos, mas aproveitara bem as outras oportunidades
oferecidas pelo Glenmoor. Todos os veres, ela convidara Parker para ser seu parceiro em partidas de tnis para duplas, e ele sempre aceitara. Os dois s haviam
conhecido derrotas, principalmente por causa do nervosismo que Meredith sentia, jogando com ele.
Ela usara outros ardis, tambm, como o de convencer o pai a oferecer vrios jantares, cada vero, para um dos quais Parker e sua famlia sempre eram convidados.
Como os Reynolds eram proprietrios do banco onde a Bancroft & Company depositava seu dinheiro, e como Parker j trabalhava l, ele era quase obrigado a comparecer
ao jantar, tanto por razes profissionais, como para ser par de Meredith.
Por duas vezes, na poca do Natal, ela dera um jeito de ficar embaixo do ramo de visco que pendurara no vestbulo, quando Parker e sua famlia chegaram para
fazer a visita natalina aos Bancroft, e ele tivera de beij-la. E nunca deixara de acompanhar o pai, nas visitas aos Reynolds.
Como resultado do truque do ramo de visco, Parker foi o primeiro rapaz a beij-la, quando ela ainda era caloura na Bensonhurst. Meredithacalentou essa lembrana
at o Natal seguinte, recordando o contato, o cheiro de Parker, o sorriso que ele lhe dera antes do beijo.
Adorava ouvi-lo falar dos negcios do banco, quando ele ia jantar em sua casa, e, mais ainda, adorava as caminhadas que comearam a dar aps a refeio, enquanto
os pais tomavam conhaque e conversavam. Fora durante uma dessas caminhadas, no vero anterior, que Meredith fizera a mortificante descoberta de que Parker sabia
de sua paixo.
Ele perguntou como fora a temporada de esqui no inverno de Vermont, e ela o regalou com a histria engraada de quando fora esquiar com o capito da equipe de
esqui de Litchfield. Quando Parker parou de rir, depois de Meredith contar que seu acompanhante deslizara encosta abaixo atrs do esqui que ela perdera, disse, sorrindo,
mas em tom solene:
-Sempre que a vejo, voc est mais bonita do que da ltima vez. Devia ter adivinhado que, um dia, algum ocuparia meu lugar em seu corao, mas nunca imaginei
que seria um bobo que sai na perseguio de esquis. Na verdade, estava me acostumando com a ideia de ser seu heri romntico favorito.
Orgulho e bom senso impediram Meredith de declarar que ningum tomara seu lugar, e a maturidade no a deixou fingir que ele nunca ocupara um espao em seu corao.
Como, obviamente, ele no ficou arrasado com sua traio, ela fez a nica coisa que poderia fazer, que era tentar salvar a amizade e, ao mesmo tempo, referir-se
a sua paixo por ele como um episdio divertido da adolescncia.
-Voc sabia? - perguntou, conseguindo sorrir.
-Sabia - ele afirmou, retribuindo o sorriso. - Costumava me perguntar se seu pai descobriria e iria atrs de mim com uma arma. Ele  superprotetor.
-Tambm notei - Meredith brincou, embora, para ela, aquele assunto nunca houvesse sido motivo para gracejos.
Parker riu baixinho, mas logo tornou a ficar srio.
-Embora seu corao pertena a um esquiador, espero que isso no signifique o fim de nossos jantares, caminhadas e partidas de tnis - declarou. - Sempre gostei
de tudo isso, e estou dizendo a verdade.
Acabaram falando dos planos de Meredith para a universidade e de sua inteno de seguir os passos dos antepassados, trabalhando na Bancroft & Company at chegar
 presidncia. Parker parecia entender sua vontade de ocupar o lugar que lhe era devido e acreditava sinceramente que isso aconteceria, se seu desejo fosse bastante
forte.
Ali, no quarto da Bensonhurst, quase pronta para partir, Meredith pensou que logo o veria novamente, depois de um ano inteiro, durante o qual no parara de preparar-se
para a possibilidade de Parker ser sempre simplesmente um amigo. A ideia podia ser desanimadora, mas a amizade de Parker era uma certeza, e isso significava muito
para ela.
Lisa saiu do closet com uma braada de roupas, que jogou na cama, ao lado de uma mala aberta.
-Est pensando em Parker! - arreliou. - Sempre fica com esse ar sonhador, quando
Interrompeu-se, quando Nick Tierney surgiu na porta, ocultando com o corpo os dois amigos atrs dele.
-Disse a esses sujeitos que eles veriam mais beleza num quarto do que no Estado de Connecticut inteiro - contou, inclinando a cabea na direo dos amigos que
no podiam ser vistos. - Mas avisei que tenho o direito de escolher primeiro, porque cheguei aqui antes, e que j escolhi Meredith. - Piscou para Lisa e deu um passo
para o lado, fazendo um gesto amplo com a mo. - Cavalheiros, deixem-me apresent-los  minha segunda opo.
Os outros entraram com ar entediado, arrogante, dois perfeitos universitrios, modelos da Ivy League. Lanaram um olhar para Lisa e pararam, como que petrificados.
O loiro musculoso que entrara na frente recuperou-se primeiro.
-Voc deve ser Meredith - observou, sua expresso deixando claro que ele achava que Nick pegara o melhor pedao para si mesmo.
-Sou Craig Huxford, e esse  Chase Vauthier. - Fez um gesto de cabea na direo do jovem de cabelos escuros, que examinava Lisa como um homem que finalmente
deparava-se com a perfeio.
Lisa cruzou os braos no peito, olhando para os dois com ar divertido.
-No sou Meredith.
Eles se viraram para o canto oposto do quarto, onde Meredith encontrava-se de p.
-Deus - Craig Huxford murmurou em tom reverente.
-Deus! - ecoou Chase Vauthier, enquanto os dois olhavam alternadamente para Lisa e Meredith.
Meredith mordeu o lbio para no rir daquela reao absurda. Quando vocs acabarem de rezar ns lhes ofereceremos uma Coca-Cola-disse Lisa secamente, erguendo
as sobrancelhas, irritada. - Ser o pagamento por nos ajudarem a empilhar essas caixas, deixando-as prontas para os carregadores.
Eles deram alguns passos  frente, sorrindo. Foi ento que Philip Bancroft, meia hora adiantado, entrou e parou, obviamente furioso ao ver os trs rapazes.
-Que diabo est acontecendo aqui?
Os cinco jovens ficaram imveis, at que Meredith recuperou-se e tentou remediar a situao, apressando-se em apresentar os moos ao pai. Ignorando-a, Philip
fez um gesto brusco com a cabea, indicando a porta.
-Fora! - rosnou. Quando os rapazes saram, ele se virou para as moas: - Pensei que o regulamento da escola proibisse a entrada de homens, com exceo dos pais,
neste maldito prdio.
Ele no pensava, apenas. Sabia. Dois anos atrs, quando fora fazer uma visita  filha, de surpresa, chegara s quatro da tarde de um sbado e vira rapazes sentados
no salo, no andar de baixo do prdio dos dormitrios. Antes daquele dia, visitantes masculinos podiam ficar no salo, nas tardes de sbado e domingo. Depois, isso
fora proibido, porque Philip conseguira fazer com que o regulamento fosse mudado. Entrara como um furaco no escritrio da diretora, acusando-a de negligncia e
de estar contribuindo para a delinquncia juvenil. Ento, ameaara levar o fato ao conhecimento de todos os pais e de cancelar a grande doao anual que a famlia
Bancroft fazia  Bensonhurst.
Meredith lutava para controlar a raiva e a humilhao causadas pelo comportamento dele em relao aos trs rapazes, que no tinham feito nada para suscitar sua
ira.
-Em primeiro lugar, o ano letivo acabou ontem - ela comeou.
-Por isso, as regras no esto vigorando. Em segundo, eles estavam apenas querendo nos ajudar com a bagagem, de modo que pudssemos ir embora
-Tive a impresso de que eu viria aqui esta manh para fazer isso - o pai interrompeu-a. - Foi por esse motivo que me levantei s
Parou de falar quando a diretora apareceu na porta.
-Com licena, sr. Bancroft. Algum quer falar com o senhor ao telefone - ela anunciou. -  urgente.
Ele saiu, e Meredith deixou-se cair sentada na cama.
-No entendo seu pai! - exclamou Lisa, furiosa, pousando com fora a garrafa de Coca-Cola na escrivaninha. - Que homem impossvel! No deixa voc sair com um
rapaz que no conhea desde o nascimento e enxota todos os outros. Deu-lhe um carro, quando vocfez dezesseis anos, mas no a deixa dirigir! Tenho quatro irmos
que so italianos, droga, e todos juntos no so to sufocantes quanto ele. Sem perceber que s estava aumentando a raiva e a frustrao de Meredith, sentou-se na
cama ao lado dela.
-Voc precisa fazer alguma coisa, ou este vero ser ainda pior do que o ltimo - continuou. - Vou ficar fora um ms e meio, de modo que voc no ter nem a
mim para lhe fazer companhia.
Os dirigentes da Bensonhurst, impressionados com as notas e o talento artstico de Lisa, haviam conseguido para ela uma bolsa de estudos europeia de seis semanas.
Os estudantes premiados podiam escolher a cidade que melhor servisse para o desenvolvimento de seus planos futuros, e Lisa optara por Roma, onde faria um curso de
decorao de interiores.
Meredith recuou na cama at encostar-se na parede.
-No estou to preocupada com o vero, como com o que vai acontecer daqui a trs meses - confidenciou.
Lisa sabia que a amiga referia-se  batalha que vinha travando com o pai a respeito da universidade para a qual deveria ir. Ela prpria escolhera a Northwestern,
entre todas as que haviam lhe oferecido bolsas de estudo integrais, porque Meredith pretendia ir para l. Philip Bancroft, porm, insistia para que a filha frequentasse
a faculdade Maryville, que era pouco mais do que uma escola de aperfeioamento num subrbio de Chicago. Meredith consentira em candidatar-se a uma vaga nas duas,
e fora aceita tanto por uma como por outra. E assim criara-se o impasse.
-Acha mesmo que vai faz-lo desistir da ideia de mandar voc para Maryville? - perguntou Lisa.
-Para l eu no vou!
-Ns duas sabemos disso, mas  seu pai quem vai pagar as mensalidades.
Meredith suspirou.
-Ele vai se render. Tenta me proteger de uma maneira incrvel, mas quer o melhor para mim, e a faculdade de comrcio da Northwestern  a melhor. Um diploma
da Maryville no vale o papel em que  escrito.
A raiva de Lisa deu lugar  perplexidade, quando ela refletiu que conhecia Philip Bancroft, mas que no o compreendia.
-Sei que ele quer o melhor para voc - ela concordou. - E tambm que no  igual  maioria dos pais que mandam as filhas para c. Pelomenos, ele se importa
com voc! Telefona todas as semanas e nunca faltou a um evento escolar importante.
Lisa ficara chocada, no primeiro ano que passara em Bensonhurst, ao perceber que os pais, em sua maioria, pareciam levar uma vida  parte, longe das filhas,
e que os presentes caros que mandavam pelo correio eram geralmente para compensar a falta de visitas, de telefonemas e cartas.
-Eu poderia falar com ele em particular e procurar convenc-lo a deixar voc ir para a Northwestern - sugeriu.
Meredith lanou-lhe um olhar de esguelha.
-E o que acha que ia conseguir com isso?
Curvando-se, Lisa puxou a meia esquerda para cima e deu um lao no cordo desamarrado do sapato, com movimentos bruscos que revelavam sua frustrao.
-A mesma coisa que consegui daquela vez em que fiquei do seu lado e o enfrentei, isto , ele diria novamente que exero m influncia sobre voc.
Fora para evitar justamente isso, que Lisa, com exceo de uma nica vez, sempre tratara Philip Bancroft com todo o respeito que ele merecia como o benfeitor
bem-amado que lhe dera a oportunidade de estudar na Bensonhurst. Quando estava perto dele, ela era a personificao da cortesia e do decoro feminino, um papel to
oposto a sua personalidade ousada e extrovertida que a deixava desgastada e fazia Meredith rir. A princpio, Philip parecera considerar Lisa uma espcie de enjeitada
que ele tomara sob sua proteo e que o surpreendera ao dar-se to bem na Bensonhurst.  medida que o tempo passava, porm, ele comeou a demonstrar, naquele seu
jeito spero de pessoa fechada, que estava orgulhoso dela e que at lhe devotava alguma afeio. Os pais de Lisa no podiam dar-se ao luxo de comparecer a qualquer
funo da escola, de maneira que Philip assumira o papel deles. Quando ia a Vermont, levava-a para jantar fora, com ele e Meredith, e mostrava interesse em suas
atividades escolares.
Na primavera do primeiro ano que as meninas passaram na Bensonhurst, Philip chegou a pedir a sua secretria que ligasse para a sra. Pontini e perguntasse se
ela queria que ele levasse alguma coisa para Lisa quando fosse para Vermont passar o Fim de Semana dos Pais. A sra- Pontini aceitou prontamente o oferecimento e
combinou encontr-lo no aeroporto. L, entregou-lhe uma caixa branca repleta de cannoli e outras guloseimas italianas e um saco de papel pardo contendo longossalames
de odor pungente. Embora irritado por ter de embarcar parecendo, como ele mais tarde comentou com Meredith, um caipira subindo num nibus da Greyhound, carregando
o lanche de viagem, Philip levou a encomenda, entregou-a a Lisa e continuou a representar o papel de pai substituto.
Como presente de formatura, deu a Meredith um pingente de topzio rosado pendurado numa pesada corrente de ouro, da joalheria Tiffanys. Para Lisa, comprou,
tambm na Tiffanys, uma pulseira de ouro com as iniciais dela e a data da formatura artisticamente gravadas entre os arabescos. Um presente muito mais barato, mas
igualmente adorvel.
No comeo, Lisa ficara totalmente indecisa sobre como trat-lo, pois, embora Philip fosse perfeitamente corts com ela, parecia sempre distante e reservado,
um comportamento que demonstrava tambm em relao a Meredith. Mais tarde, pesando suas aes e ignorando as atitudes superficiais, Lisa, cheia de entusiasmo, disse
a Meredith que Philip Bancroft era na realidade um ursinho de pelcia de corao mole, que no mordia, apesar da aparncia severa.
Essa concluso totalmente errada levou-a a tentar interceder por Meredith no vero que se seguiu ao segundo ano delas na escola. Nessa ocasio, Lisa disse a
Philip, muito educadamente, com seu mais doce sorriso, que realmente acreditava que Meredith merecia ter um pouco mais de liberdade durante o vero. A reao de
Philip, ao que ele rotulou de ingratido e interferncia indesejvel, foi explosiva, e apenas o humilde e instantneo pedido de desculpas de Lisa impediu-o de
cumprir a ameaa de proibir sua amizade com Meredith e de sugerir  Bensonhurst que desse sua bolsa de estudos a uma jovem mais merecedora. O confronto deixou
Lisa abalada, tanto pela reao de Philip, incrivelmente violenta, como tambm porque ela percebeu que, alm de ele ter sugerido que a bolsa fosse concedida a ela,
o dinheiro para isso vinha do patrimnio da famlia Bancroft. A descoberta fez com que ela se sentisse uma ingrata completa, e a exploso de Philip deixou-a furiosa
e frustrada.
Agora, confusa, Lisa sentia a mesma raiva impotente diante das rgidas restries que Philip Bancroft impunha a Meredith.
-Voc realmente acredita que ele age com voc como se fosse um co de guarda porque sua me enganou-o? - perguntou.
-Ela no o enganou apenas uma vez - respondeu Meredith. Era uma vagabunda que dormiu com todo mundo, desde treinadores de cavalos at motoristas de caminho,
depois de casada. Transformou meu pai em objeto de zombarias, envolvendo-se, nada discretamente, com qualquer joo-ningum. No ano passado, Parker me contou, porque
pedi, tudo o que os pais dele sabem sobre ela. O que todos sabem, alis.
-Voc j me disse tudo isso, mas o que no entendo  por que seu pai age como se essa falta de moral fosse uma espcie de defeito gentico que voc pudesse
ter herdado - Lisa comentou em um tom que beirava a amargura.
-Ele age assim porque em parte acredita nisso.
As duas ergueram os olhos com ar de culpa, quando Philip Bancroft tornou a entrar no quarto. Bastou ver sua expresso sombria para que Meredith esquecesse os
prprios problemas.
-O que aconteceu?
-Seu av morreu esta manh - ele comunicou, parecendo entorpecido. - De um ataque cardaco. Vou ao hotel pagar a conta e pegar minhas coisas. Ns dois partiremos
num voo que sai daqui a uma hora.
-Virou-se para Lisa. - Vou confiar em voc e deixar que dirija meu carro de volta para casa.
Ele fora para Vermont de carro, em vez de viajar de avio, porque Meredith o induzira a isso, de modo que Lisa pudesse ir com eles.
- claro que farei isso, sr. Bancroft - Lisa respondeu depressa.
-E sinto muito por seu pai. - Quando ele saiu, ela voltou-se para Meredith, que fixara o olhar no vo da porta, parecendo nada ver, e indagou: - Voc est bem?
-Acho que sim.
-Esse av  aquele sujeito que casou com a secretria, h alguns anos?
-. Ele e meu pai no se davam muito bem. Eu o vi pela ltima vez quando tinha onze anos. Mas ele telefonava para conversar com meu pai a respeito da loja e
falava comigo tambm. Ele era era Eu gostava dele - declarou, em tom desolado. - Ele tambm gostava de mim.
Fez uma pausa e olhou para Lisa, os olhos nublados de tristeza.
-Alm de meu pai, era meu nico parente prximo - continuou.
-Agora s tenho alguns primos de quinto grau, e at sexto, que nem mesmo conheo.






#7


Jonathan Sommers entrou no grande vestbulo da casa de Philip Bancroft e hesitou, olhando, um tanto ansioso, o ajuntamento de pessoas que, como ele, estavam l para
apresentar suas condolncias aps o enterro de Cyril Bancroft. Parou um dos garons que servia bebidas e pegou dois copos. Depois de engolir a vodca com tnica,
depositou o copo vazio no vaso de uma samambaia e tomou um gole do usque contido no segundo copo, franzindo o nariz, porque no era Chivas Regai. A vodca, misturada
com o gim que ele j tomara l fora, no carro, comeava a faz-lo sentir-se um pouco mais fortalecido para cumprir as obrigaes sociais. A seu lado, uma velhinha
mida, apoiada numa bengala, olhava-o com curiosidade. Como as regras de boas maneiras exigiam que ele falasse com ela, Jon achou por bem iniciar uma conversa de
acordo com a ocasio.
-Odeio funerais - declarou. - E a senhora?
-Eu gosto - ela respondeu, com ar perversamente satisfeito. Na minha idade, encaro cada enterro a que vou como um triunfo pessoal, porque no sou a convidada
de honra.
Ele reprimiu uma gargalhada, porque rir alto numa situao to austera seria uma infrao da etiqueta que fora ensinado a respeitar. Pedindo licena, colocou
o copo de usque meio cheio numa mesinha ao lado e saiu  procura de uma bebida melhor. Atrs dele, a velhinha pegou o copo e tomou um gole.
-Usque barato! - exclamou com desgosto, recolocando o copo no lugar.
Minutos mais tarde, Jon viu Parker Reynolds num tipo de saleta aberta, perto da entrada da sala de estar, conversando com duas moas e outro homem. Depois de
parar na mesa de servio de bebidas para pegar um drinque, andou na direo do grupo.
-Grande festa, no? - comentou com um sorriso sarcstico.
-Pensei que detestasse funerais e nunca comparecesse a nenhum replicou Parker, quando a troca de cumprimentos terminou.
-De fato, detesto. Mas no vim aqui para lamentar a morte de Cyril Bancroft, e sim para proteger minha herana. - Jon tomou um gole da bebida, tentando lavar
o gosto amargo provocado pelo que ia dizer. - Meu pai est tentando novamente me deserdar, s que desta vez acho que o miservel no vai desistir da ideia.
Leigh Ackerman, uma bonita morena de corpo adorvel, olhou-o, divertida e incrdula.
-Seu pai o deserdar, se voc no comear a frequentar funerais?
-No, meu amor. Meu pai me deserdar, se eu no endireitar e me tornar algum imediatamente. Traduzindo, isso significa que preciso ir a enterros de velhos
amigos da famlia, como este, e participar do nosso mais novo negcio. Do contrrio, no pegarei nada daquele delicioso dinheiro que os Sommers possuem.
-Parece justo - observou Parker, com um sorriso frio. - Que novo negcio  esse de que voc precisa participar?
-Poos de petrleo - respondeu Jon. - Desta vez, meu velho fez um contrato com o governo venezuelano e adquiriu o direito de explorao.
Por cima do ombro dele, Shelly Fillmore olhou para o espelho dourado na parede e passou a ponta de um dedo no canto da boca, tirando um pequeno borro do batom
vermelho.
-No me diga que ele quer mandar voc para a Amrica do Sul!
-Nada to drstico assim - Jon respondeu em tom de amarga zombaria. - Meu pai me transformou num digno entrevistador de provveis empregados. Encarregou-me
de contratar o pessoal que ir para l. E querem saber o que o velho miservel fez?
Os amigos dele estavam acostumados com suas tiradas contra o pai e com suas bebedeiras, mas no se recusaram a ouvir novas queixas.
-O que foi que ele fez? - perguntou Doug Chalfont.
-Examinou meu trabalho. Depois que, numa primeira escolha, separei os quinze primeiros homens, todos capazes e experientes, o velho imsistiu em falar com eles
para avaliar minha capacidade de escolher operrios. Rejeitou quase metade. O nico de quem ele realmente gostou foi um sujeito chamado Farrell, empregado de uma
usina de ao, e a quem eu no ia contratar. O mais prximo que Farrell j chegou de POOS de petrleo foi quando trabalhou em alguns pequenos, nos camposde milho
de Indiana, dois anos atrs. Nunca viu de perto um dos grandes, como os que teremos na Venezuela. Se isso no bastasse, Farrell no tem o mnino interesse em explorao
de petrleo. S quer saber do bnus de cento e cinquenta mil dlares que receber, se aguentar-se por l durante dois anos. Disse isso na cara do meu pai.
-E por que seu pai contratou-o?
-Alegou que o estilo de Farrell agradou-o - Jon explicou com ar de zombaria, tomando o resto da bebida. - Gostou das ideias de Farrell de como empregar o dinheiro,
quando o receber. Merda, achei que meu pai ia desistir de mandar Farrell para a Venezuela e dar-lhe meu escritrio na empresa. Isso no aconteceu, mas fui encarregado
de trazer Farrell para c no ms que vem, mostrar-lhe como operamos e apresent-lo a todo mundo.
-Jon, voc est ficando bbado e falando muito alto - Leigh avisou calmamente.
-Desculpe, mas tive de ouvir meu pai tecendo elogios a esse cara durante dois dias seguidos. Farrell, para mim, no passa de um filho da puta arrogante e ambicioso.
No tem classe, no tem dinheiro, no tem nada!
-Ele est me parecendo maravilhoso! - Leigh provocou.
-Se vocs acham que estou exagerando, posso lev-lo ao jantar danante do Dia da Independncia, no clube, e vero por si mesmos que tipo de pessoa meu pai gostaria
que eu fosse - Jon disse, em tom defensivo, quando os outros trs permaneceram em silncio.
-No seja idiota! - Shelly repreendeu-o. - Seu pai pode gostar de Farrell como empregado, mas com certeza castrar voc, se lev-lo ao Glenmoor.
-Eu sei - concordou Jon com um sorrisinho. - Mas valeria a pena.
-No tente jog-lo para cima de ns, se o levar - Shelly alertou, trocando um olhar com Leigh. - No vamos ficar conversando com um operrio, para que voc
possa fazer um desaforo a seu pai.
-Tudo bem. Deixarei Farrell sozinho, para que meu pai o veja atrapalhar-se todo, sem saber que garfo usar. E o velho no poder me dizer uma nica palavra,
pois foi ele quem me mandou cuidar de Farrell e mostrar-lhe tudo, aqui em Chicago.
Parker riu da expresso furiosa de Jon.
-Deve haver um modo mais fcil de resolver seu problema ponderou.
-Claro que h - concordou Jon. - Arranjar uma esposa rica, quepossa me manter do jeito a que estou acostumado e, ento, mandar meu pai se foder.
Olhou por cima do ombro e fez sinal para uma bonita moa com o uniforme do buf, que passava com uma bandeja de drinques. Quando ela se aproximou, ele colocou
o copo vazio na bandeja e pegou outra bebida.
-Voc no  apenas bonita.  tambm uma salva-vidas. - Pelo modo acanhado como a jovem sorriu e corou, ficou bvio, tanto para Jon como para o resto do grupo,
que ela no ficara imune ao corpo atltico daquele homem de um metro e oitenta de altura com um belo rosto. Inclinando-se, ele cochichou-lhe ao ouvido, alto bastante
para que os outros o ouvissem: - Acho que voc trabalha como garonete para divertir-se, mas que na verdade seu pai  banqueiro ou ocupa um lugar na Bolsa.
-O qu?! Isto , no! - ela respondeu, atrapalhando-se de modo encantador.
O sorriso de Jon tornou-se provocante e sensual.
-Nada de Bolsa? Ele  industrial? Tem poos de petrleo?
-Meu pai  encanador - ela informou.
O sorriso de Jon desapareceu, e ele suspirou.
-Casamento, ento, est fora de cogitao. S vencer a candidata a ser minha esposa que preencher certos requisitos de ordem social e financeira. No entanto,
podemos ter um caso. Por que no se encontra comigo no meu carro, dentro de meia hora?  uma Ferrari vermelha.
A moa afastou-se, parecendo irritada e confusa.
-Isso foi nojento! - Shelly exclamou.

Doug Chalfont, porm, riu e deu uma cotovelada em Jon.
-Aposto cinquenta dlares como a garota estar esperando por voc no carro.
Jon ia replicar, mas uma jovem linda de tirar o flego, loira, usando um vestido preto de decote alto e mangas curtas, chamou-lhe a ateno. Ela descia a escadaria
e, quando chegou embaixo, dirigiu-se  sala de estar. Ele ficou de boca aberta, olhando para a moa, enquanto ela parava para falar com um casal idoso, e inclinou-se
para o lado para continuar a v-la, quando um grupo rodeou-a, bloqueando-lhe a viso.
-Para quem voc est olhando? - perguntou Doug, seguindo-lhe o olhar.
- No sei quem ela , mas gostaria de descobrir.
Onde est essa mulher? - Shelly quis saber, e todos viraram-se, seguindo o olhar de Jon.
-L! - Jon informou, apontando com o copo, quando o grupo ao redor da loira dispersou-se, permitindo-lhe v-la outra vez.
Parker reconheceu-a e sorriu.
-Faz anos que vocs a conhecem, s que no a vem h algum tempo. - Quatro rostos confusos viraram-se para ele, que tornou a sorrir. - Aquela, meus amigos,
 Meredith Bancroft.
-Voc est louco! - Jon declarou.
Olhou para Meredith fixamente, mas encontrou pouca semelhana entre a garota desajeitada e feiosa de que se lembrava e aquela jovem linda e elegante. Os culos
haviam desaparecido, no havia mais excesso de gordura, nem aparelho nos dentes, muito menos a eterna fivela que ela usava para manter para trs os cabelos lisos,
e que agora estavam presos num coque frouxo, que deixava escapar algumas pequenas mechas que emolduravam o rosto de lindas feies clssicas. Ela ergueu o olhar
na direo de algum e moveu a cabea num cumprimento. Jon, ento, viu-lhe os olhos, grandes e azuis como guas-marinhas, e, de repente, lembrou-se de t-los visto
voltados para ele, muito tempo atrs.
Estranhamente exausta, Meredith continuava em silncio, ouvindo o que as pessoas diziam-lhe, sorrindo quando elas sorriam, mas incapaz de absorver a ideia de
que seu av estava morto e que as centenas de pessoas, que pareciam invadir todas as salas, encontravam-se l por causa disso. O fato de ela no t-lo conhecido
bem amenizara o sofrimento agudo dos ltimos dias, reduzindo-o a uma dor surda.
Ela vira Parker de relance, durante o servio religioso junto ao tmulo, e sabia que ele devia estar em algum lugar da casa, mas, numa circunstncia to triste,
parecia-lhe errado e desrespeitoso ir procur-lo na esperana de ativar um relacionamento romntico. Alm disso, estava comeando a ficar cansada de ter sempre de
procur-lo e achava que era a vez dele de aproximar-se em primeiro lugar.
Ento, como se seu pensamento o chamasse, ela ouviu a voz mscula, dolorosamente familiar em seu ouvido:
-H um homem ali naquela saleta que ameaou me matar se eu no a levar at l para que ele possa cumpriment-la.
Sorrindo, Meredith virou-se e pousou as mos nas de Parker, espalmadas  espera das suas, sentindo-se fraca quando ele a puxou e beijou-a no rosto.
-Voc est linda, mas parece cansada - ele murmurou. - O que acha de darmos uma caminhada, depois?
-Est bem - Meredith respondeu, surpresa e aliviada ao notar que sua voz soara firme.
Chegaram  saleta e ela se viu na situao estranha de ser apresentadaa quatro pessoas que j conhecia, e que haviam agido como se no a vissem, quando as encontrara
pela ltima vez, vrios anos atrs. No momento, mostravam-se ansiosas para fazer amizade e inclu-la em suas atividades. Shelly convidou-a para uma festa na semana
seguinte,
Leigh exigiu que ela se sentasse com eles no jantar-danante do Dia da Independncia, no Glenmoor.
Parker apresentou-a a Jon por ltimo, deliberadamente.
No posso acreditar que seja voc, srta. Bancroft - declarou Jon,com seu mais encantador sorriso, a voz um pouco pastosa por efeito do lcool. - Eu estava explicando
a essa gente que preciso com urgncia de uma esposa linda e rica. Quer se casar comigo no prximo fim de semana? Philip Bancroft j falara a Meredith a respeito
das frequentes brigas de Jonathan com seus desapontados pais, de modo ela deduziu que aquela declarao era resultado de uma delas, o que no deixava de ser engraado.
-Perfeito, Jonathan. Mas meu pai no quer que eu me case antes de tirar o diploma universitrio, e por isso me deserdar. Teremos de morar com seus pais.
-Deus me livre! - exclamou Jonathan, estremecendo, e todo mundo riu, inclusive ele prprio.
Parker pegou Meredith pelo cotovelo, decidido a evitar que ela ouvisse mais bobagens.
-Estamos precisando de um pouco de ar fresco, de modo que vamos dar uma caminhada - disse.
Os dois saram, atravessaram o gramado e comearam a descer a alameda de entrada.
-Como est se sentindo? - ele perguntou.
-Bem. S um tanto cansada. - No silncio que se seguiu, ela tentou encontrar algo espirituoso e sofisticado para dizer, acabando Por optar pela simplicidade.
Ento, comentou com interesse sincero:
-Muita coisa deve ter acontecido com voc no ano que passou.
Ele concordou com um gesto de cabea, antes de dizer a ltima coisa que Meredith gostaria de ouvir:
-Se quiser, vai ser uma das primeiras a me dar os parabns. Sarah Ross e eu vamos nos casar. O anncio oficial do noivado ser feito numa festa, na noite de
sbado.
Meredith teve a impresso de que o mundo inclinava-se de modo nauseante. Conhecia Sarah Ross e no gostava dela, pois, embora a moa fosse extremamente bonita
e alegre, sempre parecera vazia e ftil.
-Espero que sejam muito felizes - murmurou, disfarando as dvidas e o desapontamento.
-Eu tambm espero.
Durante meia hora, andaram pela propriedade, falando dos planos de ambos para o futuro. Era maravilhoso conversar com Parker, pensou Meredith, com uma aguda
sensao de perda. Ele incentivava, compreendia, e apoiou-a completamente, quando ela disse que desejava ir para a Northwestern, e no para a Maryville.
Chegavam novamente diante da casa, no instante em que uma limusine parou na alameda e uma atraente morena desceu, seguida por dois jovens de vinte e poucos anos.
-A inconsolvel viva resolveu aparecer, finalmente - comentou Parker, com desusado sarcasmo, olhando para Charlotte Bancroft.
Ela usava grandes brincos de brilhantes e, apesar do simples conjunto cinzento que usava, ficava difcil no notar que tinha corpo curvilneo e sedutor.
-Notou que ela no derramou uma lgrima, no enterro? - Parker perguntou. - Alguma coisa nessa mulher me faz pensar em Lucrcia Brgia.
Meredith intimamente aprovou a analogia.
-Charlotte no veio aqui para receber condolncias - comentou.
-Quer que o testamento seja lido esta tarde, quando as visitas forem embora, de modo que possa voltar para Palm Beach hoje  noite.
-Por falar em ir embora - Parker resmungou, olhando para o relgio, antes de beijar Meredith fraternalmente numa das faces. Tenho um compromisso dentro de
uma hora. Passe minhas despedidas a seu pai.
Meredith observou-o afastar-se, levando com ele todos os seus sonhos de adolescente. A brisa de vero arrepiava-lhe os cabelos claros, com aquelas mechas clareadas
pelo sol, e suas passadas eram largas e firmes. Ele abriu a porta do carro, tirou o palet do terno escuro e colocou-o no encosto do banco do passageiro. Ento,
olhou para ela e acenou.

Tentando desesperadamente no se deixar dominar pela sensao de perda, Meredith forou-se a caminhar at Charlotte para cumpriment-la. Nenhuma vez, durante
o funeral, a esposa do av falara com ela ou com Philip. Ficara entre os dois filhos, o rosto impassvel.
Como est se sentindo? - perguntou Meredith com delicadeza.
Impaciente para voltar para casa - a mulher respondeu gelidamente. - Quando poderemos comear a tratar de negcios?
A casa ainda est cheia de gente - Meredith informou, chocada com aquela atitude. - Ter de perguntar a meu pai a respeito da leitura do testamento.
Charlotte, que comeara a subir a escada, parou e olhou para trs.
No falei mais com seu pai, desde aquele dia em Palm Beach. Es falarei com Philip Bancroft quando eu estiver no comando, e ele me implorar para que fale. At
l, voc ter de atuar como intermediria, Meredith.
Acabou de subir os degraus e entrou na casa com um filho de cada lado, como guardas de honra.
Meredith acompanhou-a com os olhos, sentindo-se gelar sob o impacto de suas emanaes de dio. O dia em Palm Beach a que a mulher se referira continuava vvido
em sua lembrana. Sete anos antes, ela e o pai haviam ido  Califrnia, a convite do av, que se mudara para l depois de um ataque cardaco. Quando chegaram, descobriram
que o convite no era apenas para passarem os feriados da Pscoa, mas tambm para assistirem ao casamento de Cyril com Charlotte, secretria dele durante vinte anos.
Com trinta e oito, ela era trinta mais jovem do que ele, viva e me de dois meninos mais velhos do que Meredith.
O motivo pelo qual Philip e Charlotte detestavam-se nunca ficou claro para Meredith, mas pelo pouco que ela ouviu da discusso explosiva entre o pai e o av
naquele dia, a animosidade comeara muito tempo antes, quando Cyril ainda morava em Chicago. Sem se importar com o fato de que Charlotte podia ouvi-lo, Philip xingou-a
de ardilosa e vagabunda ambiciosa, alm de chamar o pai de velho tolo, que estava sendo induzido ao casamento para que os filhos dela pegassem uma parte de
seu dinheiro.
Foi a ltima vez que Meredith viu o av, mas Philip continuou a dirigir tudo na Bancroft & Company, como ficara estabelecido quando Cyril mudara-se para Palm
Beach. Embora a loja de departamentos Apresentasse menos de um quarto do patrimnio lquido da famlia, a natureza do negcio exigia que Philip desse-lhe total ateno.
Ao contrrio dos outros bens dos Bancroft, a loja significava muito mais do que aes que rendiam dividendos. Era a base da riqueza da famlia e uma fonte de orgulho.

***

-Este  o ltimo testamento de Cyril Bancroft - o advogado do av de Meredith comeou, depois que ela e o pai acomodaram-se na biblioteca, juntamente com Charlotte
e os filhos.
As primeiras grandes doaes eram destinadas a casas de caridade, e as seguintes, no valor de quinze mil dlares cada, beneficiavam quatro empregados de Cyril:
seu motorista particular, a governanta, o jardineiro e o zelador.
Como o advogado pedira a presena de Meredith, ela presumira que receberia uma pequena doao, mas, a despeito disso, sobressaltou-se, quando Wilson Riley leu
seu nome:
-Para minha neta Meredith Bancroft, deixo a quantia de quatro milhes de dlares. - Ela abriu a boca, chocada e incrdula, e precisou concentrar-se para entender
o que o advogado continuou a ler: - Embora a distncia e as circunstncias tenham me impedido de conhec-la bem, notei, quando a vi pela ltima vez, que  uma menina
carinhosa e inteligente, que usar o dinheiro com sabedoria. Para ter certeza de que o far, estipulo que essa quantia fique sob custdia, assim como os juros e
dividendos, at que ela complete trinta anos. Para seu curador, nomeio meu filho, Philip Edward Bancroft, que dispensar todos os cuidados aos referidos fundos.
Riley fez uma pausa para limpar a garganta, olhando para Philip, Charlotte e os dois jovens, Jason e Joel.
-Por uma questo de justia, dividi o restante de meu patrimnio entre meus outros herdeiros - recomeou a ler. - Para meu filho, Philip Edward Bancroft, deixo
todas as minhas aes da Bancroft & Company, uma loja de departamentos que constitui cerca de um quarto de meu patrimnio. - Meredith ouvia, mas no conseguia apreender
o sentido. Por uma questo de justia, o av deixara ao filho nico um quarto de seus bens? Se fosse uma diviso justa, Charlotte deveria ficar apenas com a metade,
no com trs quartos. Ento, ela tornou a ouvir a voz do advogado, como que vinda de muito longe: - Para minha esposa, Charlotte, e meus filhos, legalmente adotados,
Jason e Joel, deixo os restantes trs quartos de meu patrimnio, divididos igualmente entre eles. Tambm estipulo que Charlotte seja curadora dos bens de Jason e
Joel, at que eles completem trinta anos.
As palavras legalmente adotados pareceram perfurar o corao de Meredith, quando ela viu a expresso de pessoa trada que passou pelo rosto lvido do pai.
Lentamente, ele virou a cabea e fitou Charlotte. Ela sustentou-lhe o olhar, enquanto abria um sorriso de triunfo.
Sua cadela conspiradora! - Philip sibilou por entre os dentes.
Voc disse que faria meu pai adotar seus filhos e conseguiu!
-Eu avisei, anos atrs, que isso aconteceria. E estou avisando agoraainda no ajustamos nossas contas completamente - ela declarou,
largando o sorriso, como se a fria dele a enchesse de prazer. - Pense nisso, Philip. Fique acordado,  noite, imaginando onde o atingirei da prxima vez, e
o que tirarei de voc. Fique acordado, preocupando-se,da mesma maneira que me fez ficar, dezoito anos atrs.
Os ossos do rosto de Philip esticaram a pele, quando ele apertou os maxilares para impedir-se de replicar. Meredith deixou de olhar para os dois para observar
os jovens. O rosto de Jason era uma cpia do da me, com aquela expresso triunfante e maliciosa. Joel, de testa franzida, olhava para os prprios sapatos. Joel
 mole, dissera Philip, anos atrs. Charlotte e Jason so barracudas gananciosos, mas j se sabe o que esperar dos dois. O mais novo, Joel, me d arrepios. Existe
alguma coisa estranha nele.
Como se sentisse que Meredith examinava-o, Joel ergueu os olhos, fitando-a com expresso neutra. Ela no o achava estranho, nem ameaador. Na verdade, por ocasio
do casamento, Joel tratara-a com muita gentileza, e Meredith ficara com pena dele, porque Charlotte no escondia a preferncia pelo outro filho. Por sua vez, Jason,
dois anos mais velho, parecia sentir apenas desprezo pela me.
De sbito, Meredith no pde mais suportar a atmosfera opressiva.
-Se me der licena, esperarei l fora - disse ao advogado, que espalhava papis na escrivaninha.
-Precisa assinar alguns papis, srta. Bancroft.
-Assinarei antes de o senhor ir embora, depois que meu pai os ler - ela respondeu.
Em vez de subir para o quarto, decidiu sair. Estava escurecendo, e ela desceu a escada para o jardim, deixando a brisa do entardecer refrescar-lhe o rosto. A
porta principal atrs dela abriu-se, e ela se virou, pensando que o advogado sara para cham-la de volta. Era Joel, que Parou, parecendo to surpreso quanto ela
com o encontro. Ele hesitava, como querendo ficar, mas incerto sobre se isso a agradaria.
Meredith aprendera desde cedo que uma pessoa devia ser sempre gentil com as visitas, de modo que tentou sorrir.  bonito, aqui fora, no?
Joel concordou com um gesto de cabea e desceu os degraus, aceitandoo convite implcito para juntar-se a ela. Com vinte e trs anos, era vrios centmetros
mais baixo do que o irmo, e no to bonito.
-Voc mudou - comentou finalmente.
-Acho que sim. Eu tinha onze anos, quando nos vimos pela ltima vez - ela o lembrou.
-Depois do que aconteceu l dentro, voc deve estar desejando nunca ter visto nenhum de ns.
Ainda um pouco confusa com os termos do testamento do av e incapaz de imaginar o que representariam no futuro, Meredith deu de ombros.
-Amanh talvez eu deseje isso, mas hoje s me sinto tonta.
-Quero que saiba que no fiz nada para roubar de seu pai o afeto e o dinheiro de seu av - Joel declarou, hesitante.
Incapaz de odi-lo ou perdo-lo por ser um dos que haviam lesado Philip, tirando-lhe parte da herana, Meredith suspirou e olhou para o cu.
-O que sua me quis dizer com aquilo de ela e meu pai no terem ajustado as contas, ainda?
-Tudo o que sei  que os dois se odeiam desde que me entendo por gente. No fao ideia de como isso comeou, mas conheo minha me e sei que no desistir,
at ficar satisfeita com a vingana.
-Meu Deus, que confuso!
-Moa, a confuso ainda est no comeo - ele afirmou, convicto. Diante de tal profecia, um arrepio percorreu a espinha de Meredith,e ela parou de olhar para
o cu para fitar Joel com ar intrigado. Ele, porm, simplesmente ergueu as sobrancelhas e recusou-se a dar maiores explicaes.





#8


Meredith tirou do armrio o vestido que usaria para a festa do Dia da Independncia no clube, jogou-o na cama e despiu o roupo. Aquele vero, que comeara mal
com a morte de Cyril, degenerara numa batalha de cinco semanas com o pai, por causa da faculdade que ela devia escolher. Uma batalha que evolura para uma guerra
acirrada no dia anterior. No passado, Meredith sempre curvara-se  vontade dele, para no desgost-lo. Mesmo quando Philip usava de rigidez desnecessria, ela o
desculpava, refletindo que ele fazia isso porque a amava e no queria que nada de ruim lhe acontecesse. Quando era brusco, ela dizia a si mesma que suas responsabilidades
eram grandes e deixavam-no exausto. Mas agora, depois que descobrira que o pai tinha planos que colidiam frontalmente com os dela, no estava disposta a desistir
de seus sonhos apenas para apazigu-lo.
Ainda muito pequena, compreendera que um dia teria a chance de seguir os passos de seus antepassados, ocupando a presidncia da Bancroft & Company. Em todas
as geraes, os Bancroft haviam chegado ao topo, na empresa, subindo todos os degraus da hierarquia. Comeavam como chefes de departamentos e seguiam para cima,
chegando a vice-presidentes e finalmente a presidentes-executivos. Por fim, quando estavam prontos para entregar a direo da loja aos filhos, tornavam-se presidentes
da mesa diretora. Nem uma nica vez, em quase cem anos, um Bancroft deixara de fazer isso, e nenhum, durante todo aquele tempo, fora ridicularizado pela imprensa
ou pelos empregados por mostrarem-se incompetentes ou sem mrito para os cargos que ocupavam. Meredith acreditava, sabia, que tambm poderia provar seu valor, se
tivesse oportunidade, que era tudo o que queria. E a nica razo para o pai no querer dar-lhe essa oportunidade era o fato de ela no ter sido bastante previdente
para ser filho, em vez de filha!
 beira das lgrimas, de to frustrada, ela vestiu o vestido pelos ps e puxou-o para cima. Pondo as mos para trs, lutou para fechar o zper, enquanto andava
at a penteadeira para olhar-se no espelho. Com total desinteresse, observou o vestido sem alas que comprara semanas antes para aquela ocasio. O corpete era formado
por duas partes que se entrecruzavam sobre os seios, no estilo de um sarongue, e cingiam a cintura, antes de o tecido multicolorido, nos tons pastel do arco-ris,
descerem numa saia ampla at um pouco abaixo dos joelhos.
Pegando uma escova, passou-a pelos longos cabelos, mas no esforou-se para pente-los de maneira diferente, preferindo prend-los num coque, deixando cadas
algumas mechas delicadas para suavizar o efeito. O cordo de ouro com o pingente de topzio rosado seria o complemento perfeito para aquele vestido, mas o pai tambm
iria ao jantar-danante do clube, e ela se recusava a dar-lhe o prazer de v-la usando a jia. Optou por um par de brincos de ouro com pedras rosadas incrustadas,
cujo brilho danavam na luz, desistindo de usar qualquer coisa no pescoo. O penteado dava-lhe um ar sofisticado, e a pele dourada, com o leve bronzeado que ela
adquirira, produzia um efeito adorvel com aquele vestido que lhe deixava os ombros nus. Mesmo que no fosse assim, ela no teria se importado, nem trocaria de roupa.
Sentia-se completamente indiferente ao que se referia  aparncia, pois o nico motivo de ela ir  festa era que no podia suportar a ideia de ficar em casa sozinha
e deixar que a frustrao a enlouquecesse. Alm disso, prometera a Shelly e seus amigos que ficaria com eles.
Sentando-se na banqueta da penteadeira, calou os sapatos de cetim cor-de-rosa que comprara para usar com o vestido. Quando endireitou-se, seu olhar pousou sobre
um exemplar emoldurado da revista Business Week, que pendia da parede. A foto mostrava a imponente fachada da Bancroft & Company com os porteiros uniformizados ladeando
a porta principal. O prdio de catorze andares era um ponto de referncia no centro de Chicago, e os porteiros um smbolo histrico da persistncia dos Bancroft
em dar o melhor tratamento possvel aos clientes. Dentro da revista havia um artigo longo e lisonjeador a respeito da loja, que dizia que a etiqueta dos Bancroft
era um sinal de status, e o B ornamentado que aparecia nas sacolas, a marca do consumidor exigente. O artigo tambm elogiava a competncia de todos os herdeiros
da Bancroft & Company na direo dos negcios. Dizia que o talento para as vendas e o amor pela loja pareciam estar nos genes dos Bancroft, desde o fundador do estabelecimento,
James D. Bancroft.
Quando o jornalista entrevistara o av de Meredith e lhe perguntara sobre isso, Cyril dera uma gargalhada e respondera que talvez fosse verdade. Acrescentara,
porm, que James D. Bancroft iniciara uma tradio que passara de pai para filho e que inclura o treinamento do herdeiro desde a poca em que ele deixava de ser
cuidado por uma bab e passava a jantar com os pais. Era ali, na mesa, que o pai contava ao filho tudo o que acontecia na loja. Para a criana, aqueles relatos sobre
o funcionamento do negcio funcionavam como as histrias contadas na hora de dormir, que prendiam a ateno e criavam excitao e suspense, ao mesmo tempo em que
passavam informaes sutis. Mais tarde, quando o herdeiro atingia a adolescncia, os problemas eram apresentados de forma simplificada, incentivando a participao
do jovenzinho na discusso. O pai pedia-lhe solues e ouvia as respostas, embora raramente aparecesse alguma aproveitvel. Encontrar solues, porm, no era o
verdadeiro objetivo, pois o pai desejava, principalmente, ensinar, estimular e despertar o interesse.
No fim da entrevista, o jornalista perguntara a Cyril sobre seus sucessores e, pensando na resposta do av, Meredith sentiu um n na garganta: Meu filho j
me sucedeu na presidncia. Ele tem apenas uma filha e, quando chegar a hora de Meredith assumir esse posto na Bancroft & Company, tenho certeza de que ela se sair
de modo admirvel. S espero estar vivo para ver.
Mas Meredith sabia que nunca seria presidente da Bancroft & Company, se deixasse o pai fazer as coisas a seu modo. Embora Philip sempre tivesse discutido as
operaes da loja com ela, como Cyril fizera com ele, opunha-se terminantemente  ideia de v-la trabalhando l. Ela descobrira isso uma noite, enquanto jantavam,
logo depois da morte do av. No correr dos anos, nunca escondera seu desejo de seguir a tradio e ocupar seu lugar na Bancroft & Company, mas ele no ouvira, ou
no acreditara. Naquela noite, levara-a a srio e informara com brutal franqueza que no esperava que ela o sucedesse e que nem queria isso. Era um privilgio que
pretendia reservar para um neto. Ento, friamente, falara de outra tradio, uma que ele realmente desejava que ela seguisse: mulheres da famlia Bancroft no trabalhavam
na loja, nem em nenhum outro lugar. Cumpriam seu dever, sendo mes e esPosas exemplares e dedicando qualquer talento que tivessem a obras de caridade e atividades
cvicas.
Meredith recusava-se a aceitar isso, nem poderia, mesmo que quiSesse. Era tarde demais. Muito antes de apaixonar-se por Parker, oude pensar que estava apaixonada,
j amava sua loja. Com verdadeira paixo. Aos seis anos de idade, j tratava pelo primeiro nome todos os porteiros e funcionrios da segurana. Aos doze, sabia
os nomes de todos os vice-presidentes e quais eram suas responsabilidades. Aos treze, pedira para ir com o pai a Nova York e passara uma tarde inteira na Bloomingdales,
onde mostraram-lhe toda a loja, enquanto Philip participava de uma reunio no auditrio. Ao voltar de Nova York, ela j formara sua prpria opinio, no totalmente
correta, sobre por que a Bancroft & Company era superior  Bloomingdales.
Agora, aos dezoito, j possua um conhecimento geral dos problemas, como remunerao dos empregados, margens de lucros e tcnicas de compra e venda, entre outros.
Eram coisas que a fascinavam, que desejava estudar, e no ia passar os prximos quatro anos de sua vida tendo aulas sobre lnguas mortas e arte renascentista!
Quando disse isso ao pai, naquela noite, ele bateu com a mo na mesa com tanta fora que os pratos saltaram.
-Voc vai para Maryville, onde suas duas avs estudaram, e continuar a morar em casa. Em casa, Meredith! Fui claro? Assunto encerrado! - decretou, levantando-se
e saindo da sala.
Nos tempos de menina, ela fizera de tudo para agrad-lo e conseguira, com notas excelentes, maneiras educadas e bom comportamento. Na verdade, fora um modelo
de filha. Agora, entretanto, estava finalmente percebendo que o preo de deixar Philip satisfeito e manter a paz ficava cada vez mais alto. Significava anular sua
individualidade e desistir de todos os sonhos para o futuro, para no mencionar o sacrifcio da vida social!
A atitude absurda do pai no que dizia respeito a namoros e festas no era o principal problema, no momento, mas chegara a um ponto crtico, pois as restries
haviam aumentado, em vez de diminuir, quando Meredith atingira os dezoito anos. Se ela ia sair com um rapaz, era Philip quem o recebia  porta, submetendo-o a um
exame minucioso, tratando-o com desprezo insultuoso, cujo objetivo era intimid-lo e fazlo desistir de convid-la novamente. E depois, ridiculamente, estabelecia
um horrio para a volta: meia-noite. Se ela ia passar a noite em casa de Lisa, ele arrumava uma desculpa para telefonar e verificar se de fato estava l. Se saa
de carro,  noite, ele exigia um itinerrio do passeio e crivava-a de perguntas, na volta, querendo saber tudo o que ela fizera. Depois de tantos anos em escolas
particulares regidas por regras severas, Meredith queria sentir o gosto da completa liberdade.
Merecia isso. A ideia de morar em casa durante quatro anos, sob os olhos cada vez mais vigilantes do pai, era insuportvel.
At ali ela nunca se rebelara abertamente, pois rebelio apenas atiava o mau gnio de Philip. Ele odiava que lhe fizessem oposio e, quando se zangava, podia
permanecer frio e irritado durante semanas. Mas no fora apenas o medo de sua ira que a induzira a ceder sempre, no passado. Em primeiro lugar, ela ansiava por ganhar
sua aprovao e, em segundo, compreendia que ele devia ser daquele jeito porque fora muito humilhado pelo comportamento da esposa. Quando Parker contara-lhe tudo
o que sabia sobre o caso, tambm dissera que Philip devia ser to superprotetor por ter receio de perder a filha, que era tudo o que ele tinha, e tambm por medo
de que ela fizesse qualquer coisa que reavivasse os falatrios sobre o escndalo que a me dela criara. Meredith no gostou dessa ltima ideia, mas aceitou-a como
uma possibilidade e tentou, durante cinco semanas, fazer o pai raciocinar. Quando isso falhou, ela passou para as discusses.
No dia anterior a hostilidade entre eles explodira numa verdadeira guerra. O formulrio para o depsito do pagamento da anuidade de Meredith na universidade
Northwestern chegou, e ela foi lev-lo ao pai no escritrio.
-No vou para Maryville - declarou calmamente. - Vou para a Morthwestern e tirar um diploma que valha alguma coisa.
Entregou-lhe o formulrio, que Philip colocou de lado, olhando-a com uma expresso que a fez sentir-se mal do estmago.
- mesmo? - ele zombou. - E como pretende pagar a anuidade? Eu j lhe disse que no vou pagar, e voc no pode usar um centavo de sua herana, at completar
trinta anos. Agora j  tarde demais para candidatar-se a uma bolsa de estudos, e voc jamais preencheria os requisitos para pedir um emprstimo para estudantes,
portanto esquea. Vai continuar morando aqui em casa e estudar na Maryville. Entendeu?
Anos de ressentimento reprimido explodiram, arrebentando a represa do autocontrole de Meredith.
-Voc  completamente irracional! - ela gritou. - Por que no consegue compreender
Ele se levantou lentamente, o olhar fustigando-a com furioso desdm.
-Compreendo muito bem - afirmou em tom sarcstico. - ComPreendo que quer fazer certas coisas, que outras pessoas tambm gostaro de fazer com voc, e que sabe
muito bem que no aprovo!  por isso qUe voc quer estudar numa grande universidade e morar numcampus. O que a atrai mais, Meredith? Morar em alojamentos mistos,
com homens enchendo os corredores, prontos para ir para a cama com voc, ou
-Voc  doente! - ela retrucou.
-E voc  igualzinha a sua me. Sempre teve o melhor de tudo e agora quer jogar-se na cama com a escria do mundo.
-V para o inferno! - Meredith gritou, atnita com a fora de sua prpria ira. - Eu nunca o perdoarei por isso. Nunca!
Girou nos calcanhares e marchou para a porta.
-Aonde voc pensa que vai? - A voz dele explodiu atrs dela como um trovo.
-Vou sair - ela respondeu por cima do ombro. - E saiba que no voltarei  meia-noite. Estou farta de horrios!
-Volte aqui! - Philip ordenou.
Meredith ignorou-o, atravessou o vestbulo e saiu de casa. Sua fria cresceu, em vez de diminuir, quando ela atirou-se no banco do Porsche branco que o pai dera-lhe
em seu dcimo sexto aniversrio. Philip Bancroft era um demente!
Foi para a casa de Lisa e voltou quando j eram quase trs da madrugada. O pai estava a sua espera, andando de um lado para o outro do vestbulo. Comeou a gritar
e a xing-la de nomes que cortaram o corao de Meredith, mas, pela primeira vez na vida, ela no se intimidou diante de sua ira. Suportou o terrvel ataque verbal
e, a cada palavra cruel que ele proferia, sua resoluo de desafi-lo aumentava.


Protegido de invasores e curiosos por uma alta cerca de ferro e um guarda na guarita, o clube Glenmoor espalhava-se por uma grande extenso de terra coberta
por gramados e pontilhada de flores e arbustos. Uma alameda comprida, iluminada por lampies ornamentais, serpenteava entre enormes carvalhos e bordos at a porta
principal do clube, depois descia pelo outro lado, de volta  estrada. A sede, um prdio branco de trs andares, com largos pilares perfilados ao longo da majestosa
fachada, era cercada por dois campos de golfe, e quadras de tnis estendiam-se em um dos lados, um pouco para trs. Nos fundos, portas francesas abriam-se para grandes
terraos em degraus, onde havia mesas protegidas por guarda-sis e arvorezinhas plantadas em vasos. Uma escada de pedra descia do terrao mais baixo, levando s
duas piscinas olmpicas. As piscinas no estariam abertas naquela noite, mas as almofadas de um amarelo vibrante tinham sido deixadas nascadeiraslongas para uso
dos scios que quisessem assistir dali  queima de fogos de artifcio e descansar entre duas danas, quando a orquestra fosse tocar l fora, depois dessa exibio.
Comeava a escurecer, quando Meredith passou de carro diante da orta principal, onde empregados ajudavam os scios a sair de seus veculos. Parou no ptio de
estacionamento, j quase todo lotado, e deixou o Porsche entre um cintilante Rolls Royce novo, que pertencia ao rico proprietrio de uma indstria txtil, e um Chevrolet
de oito anos de idade, cujo dono era um financista muito mais rico do que o industrial.
Normalmente, existia algo no entardecer que a animava, mas, saindo do carro, ela se sentia deprimida e preocupada. Alm das roupas, no tinha nada que pudesse
vender para conseguir o dinheiro de que necessitava para custear os estudos. O carro estava no nome do pai, e a herana sob o controle dele. Ela possua exatamente
setecentos dlares em sua conta bancria. Tentando imaginar um modo de pagar as mensalidades da universidade, comeou a andar lentamente na direo da entrada do
prdio central.
Em noites especiais como aquela, os salva-vidas do clube trabalhavam como atendentes. Um deles correu para abrir a porta para ela.
-Boa noite, srta. Bancroft - cumprimentou-a com um sorriso sedutor.
Era musculoso, bonito e estudava medicina na universidade de Illinois. Meredith sabia de tudo isso, porque ele mesmo contara, na semana anterior, enquanto ela
tomava banho de sol na piscina.
-Oi, Chris - respondeu, distrada.
Alm de ser o Dia da Independncia, em quatro de julho tambm comemorava-se a fundao do Glenmoor, e o clube ressoava com os risos e conversas dos scios que,
com seus drinques nas mos, andavam de sala em sala, usando smokings e vestidos de noite, trajes obrigatrios para a dupla comemorao. Por dentro, o Glenmoor era
muito menos luxuoso e elegante do que outros clubes de campo mais novos, que tinham sido construdos ao redor de Chicago. Os tapetes orientais que cobriam o piso
de madeira encerada comeavam a desbotar e a robusta moblia antiga espalhada pelas diversas salas criavam uma atmosfera mais de esnobe complacncia, do que de luxo.
Nesse aspecto, o clube era igual aos outros de sua categoria, existentes em toda a nao. Antigo e extremamente exclusivo, seu prestgio no vinha do mobilirio
e da Decorao, nem mesmo do que era oferecido em suas instalaes, mas a Posio social de seus scios. Dinheiro apenas no permitia quealgum conseguisse a adeso
to cobiada. A riqueza precisava estar acompanhada de suficiente destaque social. Nas raras ocasies em que um candidato a scio satisfazia essas duas condies,
ele ainda precisava receber a aprovao unnime dos catorze representantes da comisso encarregada de examinar todas as propostas, antes de ser apresentado ao resto
dos scios, que tinham o direito de dar sua opinio. Esses requisitos rgidos haviam frustrado as aspiraes de vrios empresrios de sucesso recente, incontveis
mdicos, inmeros polticos, jogadores do White Sox e do Bears e at de um juiz do Supremo Tribunal.
Meredith no se impressionava com toda essa exclusividade do clube nem com seus scios. Eram apenas pessoas que sempre via, algumas das quais conhecia bastante
bem. Andando pelo corredor do primeiro andar, cumprimentava e sorria automaticamente, enquanto olhava para dentro das diversas salas  procura do grupo a que ia
reunir-se. Um dos sales de jantar fora transformado numa imitao de cassino para aquela noite, e o outro oferecia o mais farto dos bufs. Todas as salas estavam
lotadas. No andar trreo os componentes da orquestra afinavam seus instrumentos no principal salo do clube, e, a julgar pelo barulho que Meredith ouviu ao passar
pela escadaria, havia uma verdadeira multido l embaixo tambm. Passando pela sala de jogos de cartas, olhou apreensivamente para dentro. O pai era um jogador inveterado,
mas ele no se encontrava l, e ela tampouco viu o grupo que procurava. Por fim, chegou ao salo de estar.
A despeito de suas enormes propores, o recinto fora decorado para oferecer aconchego. Sofs e poltronas estofados agrupavam-se ao redor de mesas baixas, e
as lmpadas das arandelas de bronze emitiam luz mortia, lanando um brilho morno nos painis de carvalho das paredes. Quase sempre as pesadas cortinas de veludo
mantinham-se fechadas, escondendo as portas francesas nos fundos do salo, mas naquela noite haviam sido abertas para permitir que as pessoas fossem ao terrao,
onde um conjunto tocava msica suave.  esquerda, um bar corria ao longo da parede toda, e os garons moviam-se incessantemente dos scios sentados diante do balco
at a parede espelhada na parte de trs, onde centenas de garrafas alinhavam-se em prateleiras iluminadas por spots de luz suave.
Naquela noite o salo tambm estava cheio, e Meredith ia virar-se para dirigir-se ao andar de baixo, quando viu Shelly Fillmore e Leigh Ackerman. Ambas haviam
ligado para lembr-la que esperavam sua companhia. Encontravam-se de p na extremidade mais distante do bar, juntamente com vrios amigos e um casal mais velho,
que Meredith finlmente identificou como os Sommers, tios de Jonathan. Fixando um sorriso no rosto, ela caminhou at eles, gelando por dentro ao ver o pai num grupo
prximo.
Meredith, adorei seu vestido - declarou a sra. Sommers, depois dos cumprimentos gerais. - Onde o comprou?
Meredith precisou olhar-se para lembrar o que estava usando.
- da nossa loja.
-De onde mais! - Leigh arreliou.
O sr. e a sra. Sommers viraram-se para falar com amigos, e Meredith ficou olhando para o pai, esperando que ele se mantivesse afastado dela. Ficou imvel durante
vrios instantes, deixando que a presena dele a perturbasse completamente, antes de refletir que Philip ia conseguir estragar-lhe a noite! Furiosa, tomou a deciso
de mostrar-lhe que ele no seria capaz disso e que ela ainda no fora derrotada. Virou-se para o balco e pediu um coquetel de champanhe, ento sorriu amplamente
para Doug Chalfont, fingindo de modo brilhante que estava fascinada pelo que ele dizia.
L fora, j escurecera completamente, e dentro as conversas tornavam-se mais altas e animadas,  medida que aumentava a quantidade de bebida ingerida. Meredith
bebericou seu segundo coquetel de champanhe, perguntando-se se devia arrumar um emprego e, assim fazendo, dar ao pai prova concreta de sua resoluo de ir para uma
boa faculdade. Pelo espelho do bar, pegou-o olhando-a com frio desagrado. Imaginou o que ele estaria desaprovando. O vestido que lhe deixava os ombros nus, talvez,
ou mais provavelmente a ateno que Doug dedicava-lhe. No podia ser a taa de bebida que ela estava segurando. Assim como o pai a obrigara a falar e comportar-se
como adulta, desde muito cedo, tambm permitira, quando ela completara doze anos, que se sentasse  mesa quando recebiam pessoas para jantar e que, aos dezesseis,
comeasse a tomar vinho com os convidados. Com moderao, naturalmente.
Shelly Fillmore comentou que talvez fosse bom dirigirem-se ao salo de jantar, ou correriam o risco de perder a mesa, apesar de que fora reservada. Meredith
obrigou-se a parar de pensar no pai, dizendo a si mesma que estava disposta a divertir-se.
-Jonathan disse que nos encontraria aqui - Shelly acrescentou.
-Algum o viu? - Esticou o pescoo para olhar em volta do salo que se esvaziava, pois muita gente dirigia-se ao salo de jantar. Ento,exclamou: - Meu Deus!
Aquele homem  absolutamente lindo! Quem  ele?
Falara mais alto do que pretendera, provocando uma onda de interesse no apenas entre seu grupo como tambm nos outros, e as pessoas viraram-se para olhar.
-Est falando de quem? - perguntou Leigh, olhando ao redor. Meredith, de frente para a porta de entrada, ergueu os olhos e soube
exatamente quem causara aquela expresso admirada e cobiosa no rosto de Shelly. Parado no vo da porta, com a mo direita no bolso da cala, estava um homem
de no mnimo um metro e oitenta e cinco de altura, cabelos quase to pretos como o smoking que vestia e cujo palet agarrava-se aos ombros largos. No rosto bronzeado
brilhavam olhos claros. Meredith perguntou-se como Shelly pudera cham-lo de lindo. As feies pareciam esculpidas em granito por um escultor que tivesse a inteno
de retratar fora bruta e intensa virilidade, no beleza masculina. O queixo era quadrado, o nariz reto, os maxilares fortes demonstravam determinao frrea. Meredith
achou-o arrogante, orgulhoso e duro. Mas isso no era de estranhar. Ela nunca se sentira atrada por homens morenos e msculos demais.
-Vejam que ombros! - Shelly deslumbrou-se. - Vejam que rosto!
-Virou-se para Doug com ar travesso e provocou: - Aquilo, sim,  erotismo, puro e completo!
Doug observou o homem e deu de ombros, sorrindo.
-No me sinto nada excitado. - Dirigiu-se a um homem que Meredith conhecera naquela noite: - E voc, Rick? Ele o excita?
-No posso dizer nada, at ver as pernas - o outro brincou. Sou louco por pernas, e  por isso que Meredith me excita.
Naquele instante, Jonathan surgiu na porta, parecendo pouco firme sobre os ps, e passou um brao pelos ombros do desconhecido, enquanto olhava para dentro do
salo. Meredith viu o sorriso triunfante que ele dirigiu ao amigo, quando descobriu o grupo na extremidade do bar. Percebeu que estava meio embriagado, mas ficou
surpresa com os gemidos de decepo e o riso de Shelly e Leigh.
-No! - Leigh exclamou, olhando de Shelly para Meredith com expresso de cmico espanto. - No me digam que aquele maravilhoso espcime masculino  o operrio
que o pai de Jonathan forou-o a contratar para trabalhar nos poos de petrleo!

A gargalhada de Doug Chalfont abafara metade das palavras de Leigh, de modo que Meredith inclinou-se na direo da outra moa.
-Desculpe, o que foi que voc disse?
Falando depressa, para terminar antes que os dois recm-chegados alcanassem o grupo, Leigh explicou:
Aquele homem  um metalrgico de Indiana. Trabalha numa usina de ao, e Jonathan foi obrigado pelo pai a contrat-lo para trabalhar em seus poos de petrleo
na Venezuela.
Por que Jonathan o trouxe aqui? - perguntou Meredith, confusacom os olhares zombeteiros trocados pelos outros e com a explicao de Leigh.
-Por brincadeira, Meredith! Jon est furioso com o pai por t-lo forado a contratar esse homem e por ter usado o sujeito como exemplo do que ele, seu filho,
deveria ser. Fez isso para provocar o velho, para obrig-lo a encontrar-se com o empregado numa atividade social. E sabe o que  muito engraado nisso tudo? - cochichou
Leigh, no momento em que os dois aproximavam-se. - Os tios de Jon disseram que os pais dele decidiram, na ltima hora, que preferiam passar o fim de semana em sua
casa de veraneio a vir  festa.
Os cumprimentos de Jonathan, com voz muito alta e pastosa, fizeram quem estava em volta virar-se para olh-lo, inclusive os tios dele e o pai de Meredith.
-Oi, todos vocs! - Jon gritou e fez um gesto largo que abrangia o grupo e as outras pessoas. - Oi, tia Harriet e tio Russell! - Esperou at ganhar total ateno.
- Gostaria de apresentar-lhes meu amigo, Matt Tarrell, no, Fa-Farrell - gaguejou entre soluos de bbado. Tia Harriet, tio Russell, digam oi a Matt.  o ltimo
exemplo que meu pai arrumou para me mostrar como devo ser quando crescer!
-Muito prazer - disse a tia, civilizadamente. Desviando o olhar glido do sobrinho embriagado, fez um esforo para ser corts com o homem que o acompanhava.
- De onde veio, sr. Farrell?
-De Indiana - ele respondeu com voz calma e segura.
-De Indianpolis? - A tia de Jonathan franziu a testa. - Acho que no conhecemos nenhuma famlia Farrell dessa cidade.
No sou de Indianpolis e tenho certeza de que no conhece minha famlia - declarou Matt.
De onde , ento? - intrometeu-se o pai de Meredith, pronto, como sempre, para interrogar e intimidar qualquer homem que se aproximasse da filha.
Matt Farrell virou-se, enquanto Meredith observava com secreta addmirao o modo impvido com que ele encarava Philip.
-Edmunton, ao sul de Gary.
-O que voc faz? - perguntou Philip Bancroft com rudeza.
-Trabalho numa usina de ao - respondeu Matt, conseguindo mostrar-se to duro e frio quanto o outro homem.
Silncio atnito seguiu-se a essa revelao. Vrios casais de meia-idade, mais afastados,  espera dos tios de Jonathan, entreolharam-se constrangidos e foram
embora.
A sra. Sommers obviamente decidiu-se por uma rpida retirada.
-Espero que tenha uma noite agradvel, sr. Farrell - disse em tom seco e afastou-se juntamente com o marido.
De repente, todo o mundo comeou a movimentar-se.
-Bem, vamos comer - sugeriu Leigh Ackerman, olhando para todos os companheiros, exceto para Matt, que se mantivera um pouco atrs. - Passou o brao pelo de
Jonathan e comeou a lev-lo na direo da porta, acrescentando: - Reservei uma mesa para nove pessoas.
Meredith fez um clculo rpido. Havia nove pessoas no grupo, excluindo Matt Farrell. Paralisada pelo desgosto que sentiu por Jonathan e os outros, ficou no mesmo
lugar por um instante. O pai, que ia sair com seus prprios amigos, viu isso e parou junto dela, lanando um olhar de antagonismo na direo de Matt Farrell.
-Livre-se dele - ordenou com um tom de voz bastante alto, para que Farrell o ouvisse. Ento, afastou-se.
Num estado de furiosa e desafiadora rebelio, Meredith observou-o sair do salo, antes de olhar para Matt Farrell, sem saber o que faria a seguir. Ele se virara
para as portas francesas e olhava para as pessoas no terrao com a indiferena de quem sabia que era um intruso indesejvel, pretendendo dar a impresso de que preferia
que o considerassem assim.
Mesmo que ele no tivesse dito que trabalhava numa usina de ao, Meredith teria percebido logo que ele no pertencia a seu meio. O palet do smoking no acomodava
direito os ombros largos, como aconteceria se o traje fosse feito sob medida, o que significava que provavelmente fora alugado. E Matt Farrell no falava com a arraigada
segurana de um socialite que espera ser bem-vindo e querido aonde quer que v. Havia falta de polimento em suas maneiras, uma sutil aspereza que a intrigava e repelia
ao mesmo tempo.
Por isso tudo, foi espantoso para Meredith descobrir que podia ver nele um pouco de si mesma. Olhou-o ali parado, completamente sozinho, como se no se importasse
de ter sido exilado, e reviu-se nosanos da St. Stephens, quando ficava lendo um livro durante o recreio, fingindo que a solido no a incomodava.
-Sr. Farrell, gostaria de uma bebida? - perguntou, no tom mais normal que conseguiu.
Ele se virou, surpreso, hesitou por um momento, ento fez um gesto de cabea, aceitando.
-Usque com gua.
Meredith acenou para um garom, que correu para junto dela.
Jimmy, o sr. Farrell gostaria de um usque com gua.
Quando voltou-se para Matt, viu-o examinando-a com ar meio carrancudo. O olhar dele deslizou do rosto dela para os seios e depois para a cintura, antes de voltar
a subir e fixar-se nos olhos. Sua expresso era desconfiada, como se ele se perguntasse por que ela se dava ao trabalho de dedicar-lhe ateno.
-Quem  aquele homem que mandou voc livrar-se de mim? Matt perguntou abruptamente.
-Meu pai - ela respondeu, odiando ter de alarm-lo com a verdade.
-Aceite minhas mais sinceras condolncias - ele brincou gravemente. Meredith deu uma risada, porque ningum jamais ousara criticar seu pai, nem mesmo indiretamente,
e porque adivinhou que Matt Farrell era um rebelde, algo que ela tambm decidira ser. Eram espritos afins e, ento, em vez de sentir pena dele, viu-o como um corajoso
cachorro vira-lata, injustamente atirado no meio de altivos ces com pedigree.
-Quer danar? - perguntou, sorrindo para Matt como se ele fosse um velho amigo.
Ele dirigiu-lhe um olhar divertido.
-O que a leva a crer que um metalrgico de Edmunton, Indiana, sabe danar, princesa?
-Voc no sabe?
-Me ajeito.
Minutos depois, enquanto danavam no terrao ao som de uma msica lenta tocada pelo conjunto, Meredith descobriu que ele fora modesto. Era um danarino bastante
competente, embora no conseguisse relaxar e tivesse um estilo conservador.
-Como estou me saindo? - Matt perguntou.
-Voc tem bom ritmo e se movimenta bem - ela respondeu, sem se dar conta do duplo sentido que ele poderia dar a sua avaliao. E isso  o que importa, afinal.
- Olhando-o nos olhos e sorrindo para afastar qualquer tom de crtica no que ia dizer, acrescentou: - Voc s precisa praticar um pouco.
-Quanto?
-No muito. Uma noite seria suficiente para voc aprender novos movimentos.
-Eu no sabia que existiam novos movimentos.
-Existem, mas primeiro voc precisa aprender a relaxar.
-Primeiro? - ele repetiu. - Sempre tive a impresso de que se relaxava depois.
Ela compreendeu instantaneamente o que ele estava pensando.
-No estamos falando de danar, sr. Farrell?
Ele obviamente percebeu a inconfundvel reprimenda em sua voz, pois, por um instante, observou-a com novo interesse, reavaliando-a. Os olhos dele no eram azul-claros,
como ela julgara a princpio, mas de um tom metlico de cinza, e os cabelos, que ela pensara serem pretos, tinham uma cor castanho-escura.
-Agora estamos - ele respondeu, e havia um pedido de desculpas em sua voz grave. Ento, explicou o motivo da limitao que ela percebera em seus movimentos:
- Rompi um ligamento da perna direita, semanas atrs.
-Desculpe - ela murmurou, arrependida de t-lo convidado para danar. - Di?
Um sorriso emoldurado por branco apareceu no rosto bronzeado.
-S quando dano.
Meredith riu, percebendo que suas prprias preocupaes dissolviam-se. Ficaram no terrao para danar mais uma vez, falando sobre nada mais importante do que
a msica ruim e o tempo excelente. Quando voltaram para o salo, Jimmy colocou seus drinques no balco.
Levada por um impulso travesso e pelo ressentimento contra Jonathan, que tanto a desagradara, Meredith disse ao garom:
-Ponha as bebidas na conta de Jonathan Sommers, por favor. Olhou para Matt e viu sua surpresa.
-Voc no  scia? - ele perguntou.
-Sou - ela respondeu com um sorriso desanimado. - Fiz isso por vingana.
-Vingana pelo qu?
-Por ele ter - Ela se calou, percebendo que qualquer coisa que dissesse poderia parecer piedade, ou, ento, deixar Matt embaraado. Depois de um instante,
declarou: - No gosto muito de Jonathan Sommers.
Ele a olhou de modo estranho, depois pegou o copo e tomou metade do drinque num gole s.
Voc deve estar zangada. No vou prend-la mais, para que possa reunir-se a seus amigos.
Era um jeito delicado de deix-la  vontade, mas Meredith j no qeria ficar com o grupo de Jonathan e, alm disso, se deixasse Matt sozinho, ningum mais no
salo se aproximaria dele para conversar.
Na verdade, todos os que ainda encontravam-se ali estavam ignorando os dois.
-A comida daqui no  to maravilhosa como dizem - comentou. Matt olhou em volta e pousou o copo no balco com uma brusquido que deixou claro que pretendia
ir embora.
-Nem as pessoas.
-No  por maldade ou arrogncia que esto se mantendo afastadas-ela assegurou. - No, mesmo.
-Ento, por que ? - perguntou Matt, lanando-lhe um olhar desinteressado.
Meredith olhou para os homens e mulheres de meia-idade, todos amigos de seu pai, pessoas boas.
-Um motivo  que ficaram envergonhadas pelo modo como Jonathan se comportou - comeou a explicar. - Outro,  que, sabendo onde voc mora e no que trabalha,
acham que no h nada em comum entre
-Est na hora de eu ir - ele interrompeu-a com um sorriso educado, naturalmente achando que ela estava sendo condescendente.
A ideia de deix-lo partir, levando s humilhao como lembrana daquela noite, pareceu muito injusta para Meredith. Na verdade, era algo desnecessrio e impensvel!
-No pode ir, ainda - declarou com um sorriso determinado. Venha comigo e traga seu drinque.
Ele estreitou os olhos.
-Por qu?
-Porque ajuda, fazer isso com um copo na mo - ela respondeu com maliciosa teimosia.
-Fazer o qu? - ele insistiu.
-Ns vamos nos misturar aos outros - ela anunciou.
-De jeito nenhum! - ele protestou, segurando-a pelo pulso. Mas era tarde demais. Meredith j decidira que obrigaria toda aquela gente a engoli-lo e ainda gostar
disso.
-Por favor, faa minha vontade - ela pediu, olhando-o com ar suplicante.
Ele sorriu com relutncia.
-Voc tem os olhos mais incrveis que eu
-Na verdade, sou terrivelmente mope. De tentar entrar pelas paredes - ela informou em tom brincalho, com seu sorriso mais encantador. - Uma coisa triste de
ver. Por que no me d o brao e no me guia para que eu no tropece?
Ele no ficou imune ao bom humor e ao sorriso dela.
-Alm de mope,  muito decidida - comentou, mas deu uma risadinha e ofereceu-lhe o brao, pronto para fazer-lhe a vontade.
Haviam dado alguns passos pelo corredor, quando Meredith viu um casal idoso, que ela conhecia.
-Oi, sr. e sra. Foster! - cumprimentou alegremente, quando eles iam passar sem v-la.
Os dois pararam no mesmo instante.
-Oh, alo Meredith - respondeu a sra. Foster.
Ela e o marido sorriram para Matt com delicada curiosidade.
-Gostaria que conhecessem um amigo de meu pai - disse Meredith, reprimindo o riso, enquanto Matt olhava-a, incrdulo. - Este  Matt Farrell, de Indiana. Ele
est no negcio do ao.
- um prazer - afirmou o sr. Foster com um sorriso simptico, apertando a mo de Matt. - Meredith e o pai no jogam golfe, mas acho que lhe disseram que temos
dois campeonatos aqui no Glenmoor, Vai ficar tempo suficiente para jogar algumas partidas?
-Nem sei se vou ficar tempo suficiente para terminar esta bebida-respondeu Matt, obviamente esperando estar isento de culpa, quando o pai de Meredith descobrisse
que fora apresentado como seu amigo.
O sr. Foster concordou, movendo a cabea, compreendendo a resposta de modo totalmente errado.
-Os negcios parecem estar sempre interferindo com nosso prazer-lamentou. - Mas ficar pelo menos para ver a queima de fogos.  o melhor espetculo da cidade.
-Voc vai mesmo ver fogos! - avisou Matt, olhando com seriedade para o rosto falsamente inocente de Meredith.
O sr. Foster voltou a falar de golfe, seu assunto predileto, enquanto Meredith lutava para no comear a rir.
-Qual  seu handicap? - perguntou a Matt.
-Esta noite, acho que o handicap dele sou eu - interferiu Meredith, olhando para Matt com um olhar sorridente e provocante.
-O qu? - murmurou o sr. Foster, piscando confuso.
Mas Matt no respondeu. Nem Meredith, porque os olhos cinzentos fixos em seus lbios e, quando ergueram-se para os dela, mostraram algo diferente em suas profundezas.
-Vamos, querido - a sra. Foster chamou, vendo a expresso distrada, hoje - Esses jovens no vo querer passar a noite discutindo golfe. Tarde demais, Meredith
recuperou a compostura e repreendeu-se por ter tomado champanhe em excesso. Depois, colocou a mo no brao de Matt.
Venha comigo - convidou, j comeando a descer a escada para ir ao salo de banquetes, onde a orquestra estava tocando.
Por quase uma hora, levou-o de grupo em grupo, os olhos cintilando quando o fitava, compartilhando o prazer de dizer desavergonhadas meias-verdades sobre ele
e seu trabalho. Matt ficava a seu lado, no propriamente ajudando-a, mas observando sua ingenuidade com franco divertimento.
-Viu? O que conta no  o que se diz, mas o que no se diz - ela instruiu, quando finalmente haviam deixado o barulho e a msica para trs, passado pela porta
principal e comeado a atravessar o gramado.
-Uma teoria interessante - ele aprovou, em tom de provocao.
-Tem mais alguma igual a essa?
Meredith abanou a cabea numa negativa, distrada ao pensar em algo que subconscientemente notara o tempo todo.
-Voc no fala como um homem que trabalha numa usina de ao-observou.
-Quantos deles conhece?
-S voc - ela admitiu.
-Vem sempre aqui? - ele indagou inesperadamente, em tom srio. Haviam passado a primeira parte da noite participando de um jogo idiota, mas Meredith pressentiu
que ele no queria mais jogar. Nem ela, e aquele momento marcou uma mudana distinta na atmosfera entre os dois. Enquanto andavam entre canteiros de rosas e de outras
flores, Matt comeou a fazer perguntas sobre ela, e Meredith contou que estivera estudando fora e acabara de formar-se. A prxima pergunta foi sobre seus planos
profissionais, deixando bvio que Matt achara que ela conclura um curso universitrio. Em vez de corrigi-lo e arriscar-se a provocar uma reao assustada quando
dissesse que s tinha dezoito anos, no vinte e dois, fugiu do assunto, pedindo a Matt que falasse sobre si mesmo.
Ele disse que partiria para a Venezuela dentro de um ms e meioe contou o que ia fazer l. Dali por diante a conversa deles fluiu com surpreendente facilidade,
saltando de um assunto para outro, at que pararam para que pudessem concentrar-se melhor no que estavam dizendo
De p sob uma velha rvore no gramado, ignorando o vento frio em suas costas nuas, Meredith ouviu-o, completamente enlevada. Descobriu que Matt tinha vinte e
seis anos e que, alm de ser espirituoso e falar extremamente bem, tinha uma maneira cativante de ouvir o que ela dizia, como se mais nada no mundo importasse. Era
algo lisonjeiro, mas tambm um tanto desconcertante, porque criava uma atmosfera falsa de intimidade.
Acabara de rir de uma piada que ele contara, quando um gordo besouro mergulhou no ar, passando perto de seu rosto e zumbindo em seu ouvido. Ela saltou para o
lado com uma careta, tentando ver para onde fora o inseto.
-Est nos meus cabelos? - perguntou, inclinando a cabea.
-No - Matt garantiu. - E era s um besouro de vero.
-Detesto qualquer besouro, e esse era do tamanho de um beija-flor!-ela exagerou e, quando ele riu, endereou-lhe um sorrisinho perverso.
-No vai rir, daqui a seis semanas, quando no puder sair de casa sem pisar em cobras!
- assim, l? - ele perguntou, mas sua ateno prendera-se  boca de Meredith.
Ps as mos no pescoo dela e subiu-as lentamente at aninhar o rosto entre as palmas.
-O que est fazendo? - murmurou Meredith, quando ele comeou a passar o polegar em seu lbio inferior.
-Estou tentando decidir se quero me divertir com os fogos de artifcio.
-Ainda falta meia hora para os fogos - ela comentou tremulamente, sabendo que ia ser beijada.
-Tenho o pressentimento de que vo comear agora - ele sussurrou, baixando a cabea.
E comearam. A boca mscula cobriu a dela num beijo de seduo eletrizante, que fez centelhas explodirem por todo o corpo de Meredith. A princpio o beijo foi
leve, persuasivo, com Matt explorando delicadamente o contorno dos lbios dela. Meredith j fora beijada antes, mas sempre por rapazes relativamente inexperientes
e ansiosos demais. Nenhum jamais a beijara com a lentido e a firmeza com que MattheW Farrell a estava beijando. Ele moveu as mos, descendo uma pelas costas de
Meredith, puxando-a para mais perto, e deslizando a outra para a nuca enquanto abria a boca vagarosamente sobre a dela. Perdida no encantamento produzido pelo beijo,
ela introduziu as mos sob o palet do smoking, deixando-as subir pelo peito amplo at os ombros largos.
Ento, enlaou Matt pelo pescoo.
No instante em que ela comprimiu-se contra ele, Matt comeou a passar a lngua por seus lbios, induzindo-os a abrirem-se, depois exigindo. Quando isso aconteceu,
ele invadiu a boca mida com a lngua, e o beijo explodiu. Com uma das mos, ele acariciou um seio coberto pelo tecido do vestido, e ento, ansioso, pegou Meredith
pelas ndegas, apertando-a de encontro ao corpo, deixando-a perceber sua excitao. Ela ficou um pouco tensa com essa intimidade forada, mas, por uma razo que
nada no mundo poderia explicar, entrelaou os dedos nos cabelos dele e comprimiu ainda mais os lbios entreabertos na boca firme e vida.
Parecia que horas haviam se passado, quando Matt finalmente interrompeu o beijo. Com o corao martelando loucamente, ela ficou no crculo dos braos dele, o
rosto encostado em seu peito, enquanto tentava lidar com as turbulentas sensaes que experimentava.
Em algum ponto de sua mente anuviada, comeou a formar-se o pensamento de que ele ia achar que ela estava comportando-se de modo muito estranho por causa de
algo que, na verdade, no passara de um simples beijo. Essa embaraosa possibilidade foi que a ajudou a erguer a cabea. Esperando v-lo observando-a com ar divertido
e intrigado, olhou para o rosto cinzelado e o que viu no foi menosprezo. Os olhos cinzentos tinham um brilho quente, e as feies duras estavam transformadas pelo
desejo. Matt apertou-a nos braos, como se no a quisesse soltar nunca mais.
Meredith percebeu que o corpo dele continuava com a rigidez da excitao e sentiu prazer e orgulho, porque ele fora to afetado pelo beijo quanto ela. Sem pensar
no que fazia, fixou o olhar nos lbios dele. Havia ousada sensualidade naquela boca firme, no entanto alguns dos beijos haviam sido ternos, de uma gentileza torturante.
Ansiando Por sentir aqueles lbios novamente nos seus, ergueu os olhos para os dele com uma expresso inconsciente de splica.
Matt compreendeu, e um som, entre um gemido e uma risada, escapou de seu peito.
- Est bem - ele disse em tom rouco, e apossou-se dos lbios delanum beijo violento e devorador, que deixou-a sem flego e meio louca de prazer.
Algum tempo depois, ouviram risos, e Meredith arrancou-se dos braos dele, girando nos calcanhares, alarmada. As pessoas estavam saindo do clube para assistir
 queima de fogos, e bem  frente de todas vinha o pai dela, marchando em sua direo, a ira evidente em seus passos largos e apressados.
-Oh, meu Deus! - ela murmurou. - Matt, voc precisa ir embora. J.
-No.
-Por favor! - ela quase gritou. - Ficar tudo bem, ele no me dir nada aqui. Vai esperar at ficarmos sozinhos, mas no sei o que poderia fazer com voc.
No momento seguinte, ela soube.
-Dois homens vo lev-lo para fora do clube, Farrell - sibilou o pai dela, o rosto retorcido de fria. Voltou-se para Meredith e agarrou-lhe o brao com fora.
- Voc vem comigo.
Dois dos garons j se aproximavam pela alameda. Meredith olhou para Matt por cima do ombro, enquanto o pai a puxava para afast-la.
-Por favor, v embora. No faa uma cena.
Philip Bancroft obrigou-a a dar dois passos, e Meredith, que no tinha outra escolha a no ser andar para no ser arrastada, sentiu um alvio que lhe provocou
lgrimas, quando viu os dois garons pararem. Matt devia ter tomado o rumo da estrada para sair do clube. O pai obviamente chegou  mesma concluso, porque quando
os garons olharam para ele, em dvida, disse:
-Deixem o miservel, mas comuniquem-se com o porto para termos certeza de que no vai voltar.
Chegando  porta principal, virou-se para Meredith com o rosto lvido.
-Sua me transformou-se no centro dos mexericos deste clube, e quero ser um desgraado, se deixar que voc faa a mesma coisa. Ouviu bem? - Soltou o brao dela
como se temesse ser contaminado, depois que Matt a tocara. Ento, acrescentou em voz baixa, porque um Bancroft jamais deixava transparecer problemas familiares em
pblico. - V para casa. Levar vinte minutos. Daqui a vinte e cinco vou telefonar, e Deus que a ajude, se voc no estiver l.
Com essa tirada, girou e entrou no prdio. Sentindo-se humilhada, Meredith observou-o afastar-se, antes de entrar tambm para ir buscar a bolsa. Momentos depois,
caminhando para o estacionamento, viu trs casais  sombra das rvores, e todos estavam se beijando.
Dirigindo pela alameda que levava  estrada, com a viso prejudicadapelas lgrimas, ultrapassou um homem, que levava o palet de smoking no ombro, antes de
perceber que se tratava de Matt. Parou, achando que no conseguiria encar-lo, cheia de culpa pela humilhao que lhe causara.
Ele se aproximou e inclinou-se para olh-la pela janela do motorista.
- Voc est bem? - perguntou.
- Estou. - Numa tentativa de fazer graa, olhou-o, acrescentando:-Meu pai  um Bancroft, e os Bancroft jamais brigam em pblico.
Ele viu lgrimas represadas nos olhos dela. Estendendo a mo, acariciou-lhe o rosto com os dedos calejados.
- E tambm no choram em pblico, certo?
-Certo - Meredith admitiu, tentando absorver um pouco da indiferena que ele sentia por Philip Bancroft e suas atitudes. - Estou indo para casa. Quer que o
deixe em algum lugar?
Ele desviou o olhar do rosto dela para as mos contradas de tenso que seguravam o volante.
-Quero, mas s se me deixar dirigir - sugeriu como se apenas desejasse uma chance de experimentar um carro daqueles, mas as palavras seguintes deixaram claro
que ele no a achava em condies de guiar. - Posso lev-la at sua casa e de l chamar um txi.
-Fique  vontade - ela concordou alegremente, determinada a salvar o resto de orgulho que lhe restava.
Desceu e deu a volta no veculo, tornando a entrar pela porta do passageiro.
Matt no teve dificuldade em manejar o cmbio, e um minuto depois saam dos terrenos do clube, entrando na estrada. A luz de outros faris voava na escurido,
e a brisa entrava pelas janelas abertas, enquanto os dois viajavam em silncio. Na distncia, alguma outra exibio de fogos de artifcio chegava ao grande finale,
numa espetacular cascata de luzes vermelhas, brancas e azuis. Meredith ficou olhando as centelhas brilharem e depois apagarem-se lentamente, caindo para o cho.
-Lamento o que aconteceu - disse por fim, lembrando-se das boas maneiras. - Por meu pai, quero dizer.
Matt lanou-lhe um malicioso olhar de esguelha.
Ele  quem devia pedir desculpas, no voc. Feriu meu orgulho, quando mandou aqueles dois molengas de meia-idade me expulsar, odia ter mandado quatro, pelo menos
para poupar meu ego. Meredith olhou-o com espanto, pois era evidente que ele no sesentira nem um pouco intimidado com a fria do pai dela. Depois sorriu, porque
era maravilhoso estar com algum que no tinha medo de Philip Bancroft.
-Se ele quisesse mesmo tirar voc de l contra sua vontade teria de mandar no mnimo seis - comentou, olhando para os ombros fortes.
-Meu ego e eu agradecemos - Matt respondeu com um sorriso lento, e Meredith, que minutos atrs achara que nunca mais sequer sorriria, deu uma gargalhada. -
Voc tem um riso delicioso -ele observou.
-Obrigada - ela murmurou, incrivelmente feliz com o elogio.  luz fraca do painel, examinou o perfil sombreado de Matt, vendo o vento alvoroar-lhe os cabelos,
imaginando como ele podia fazer com que algumas simples palavras parecessem carcias fsicas.
Pensou no que Shelly Fillmore dissera: Aquilo, sim,  erotismo, puro e completo. Horas antes, no achara Matt assim to extraordinariamente atraente. Mas agora
achava. Tinha certeza de que ele vivia rodeado de mulheres, e que esse era o motivo de saber beijar to bem.
-Vire aqui - instruiu um quarto de hora mais tarde, quando se aproximaram do porto duplo de ferro forjado de sua casa.
Estendeu a mo e apertou um boto no painel. O porto abriu-se, dando passagem para a alameda de entrada.








#9



-Esta  minha casa - informou Meredith, quando Matt parou o Porsche diante da manso.
Desceram do carro, e ele olhou para a majestosa construo de pedras, com janelas que exibiam vidraas cor de chumbo, enquanto Meredith abria a porta.
-Parece um museu - comentou.
-Pelo menos voc no disse mausolu - ela respondeu, sorrindo por cima do ombro.
-No disse, mas pensei.
Meredith ainda sorria de seus comentrios irreverentes, quando levou-o para a biblioteca s escuras e acendeu a luz do abajur sobre a mesa. Mas quando ele foi
direto ao telefone e ergueu-o do gancho, sentiu-se decepcionada e triste. Queria que ele ficasse, queria conversar, queria fazer qualquer coisa que afastasse o desespero
que certamente a dominaria, quando ficasse sozinha.
-No precisa ir to cedo. Meu pai ficar jogando cartas at o clube fechar, s duas horas.
Ele se virou, naturalmente percebendo o tom desesperado de sua voz.
-Meredith, no  por mim que me preocupo, mas por voc, que mora com ele. Se seu pai chegar e me encontrar aqui
- No vai chegar. No deixaria nem a morte interromper seu jogo de cartas.  um jogador obcecado.
-  obcecado por voc tambm - Matt declarou.
    Meredith prendeu o flego, enquanto ele hesitava e, por fim, recolocava o telefone no gancho. Aquela provavelmente seria a ltima noite agradvel que teria em
muitos meses, e estava determinada a faz-la durar.
- Quer conhaque? - perguntou. - Receio no poder oferecer-lhe nada para comer, porque os empregados j se recolheram.
-Conhaque est timo.
Meredith foi at o armrio de bebidas e tirou uma garrafa.
-Os empregados trancam a geladeira, antes de ir dormir? - ele indagou.
Ela hesitou por um momento, com um copo bojudo na mo.
-Mais ou menos isso - respondeu, evasiva.
Percebeu que Matt no se deixara enganar, quando levou-lhe o copo e viu um brilho divertido em seus olhos.
-No sabe cozinhar, no , princesa?
-Acredito que saberia, se algum me dissesse onde fica a cozinha e me mostrasse a geladeira e o fogo.
Matt sorriu em resposta, inclinando-se para pr o copo na mesa. Meredith adivinhou o que ia acontecer, mesmo antes de ele peg-la pelos pulsos e pux-la para
si.
-Tenho certeza de que saberia - afirmou, erguendo-lhe o queixo
-Como pode estar to certo?
-Voc me colocou no fogo, menos de uma hora atrs.
A boca firme estava a poucos milmetros da dela, quando o toque estridente do telefone a fez sair dos braos dele num movimento brusco Foi atender e ouviu a
voz do pai, gelada como o vento do inverno.
-Estou satisfeito em saber que teve bastante juzo para fazer o que mandei, Meredith - ele declarou. - Ah, eu estava quase permitindo que voc fosse para a
Northwestern, mas agora pode esquecer. Seu comportamento foi prova suficiente de que voc no merece confiana
Desligou, e ela pousou o telefone, sentindo a mo trmula. Ento foram os braos que tremeram, depois as pernas, at que todo seu corpo comeou a sacudir-se
numa reao de raiva impotente, obrigando-a a segurar-se na mesa para no cair.
Matt aproximou-se por trs e colocou as mos em seus ombros.
-Meredith? - chamou em tom preocupado. - O que foi? O que aconteceu?
-Era meu pai, querendo certificar-se de que vim para casa, como ele mandou - ela respondeu, notando que at a voz tremia.
Ele ficou em silncio por um instante.
-O que fez, para que ele desconfiasse tanto de voc? - perguntou por fim.
A mal velada acusao feriu o corao de Meredith, levando o que lhe restava de autocontrole.
-O que fiz? - gritou  beira da histeria. - O que eu fiz?
-Deve ter dado algum motivo para seu pai achar que deve vigi-la.
Um ressentimento selvagem ferveu no ntimo de Meredith e entrou em erupo. Com lgrimas nos olhos, movida por um objetivo meio inconsciente, girou e colocou
as mos no peito dele.
- Minha me era promscua. No podia ficar longe de homens.
Meu pai me vigia porque sabe que sou igual a ela.
Matt apertou os olhos, enquanto ela o abraava ferozmente pelo pescoo.
- Que diabo voc acha que est fazendo?
-Eu sei o que estou fazendo - ela murmurou e, antes que Matt pudesse responder, pressionou-se contra ele e beijou-o longamente.
Soube que era desejada, no momento em que ele apertou-a nos braos, deixando-a sentir o princpio de sua ereo. Matt a queria. Uniram-se num beijo faminto e
consumidor, e ela tentou fazer o melhor que podia para impedi-lo de mudar de ideia. Com gestos desajeitados mas urgentes, desabotoou a camisa dele e abriu-a, acariciando
o peito musculoso, coberto de plos escuros. Depois, fechando os olhos, ps as mos para trs e comeou a puxar o zper do vestido.
Eu quero, eu mereo, afirmou mentalmente.
-Meredith?
A voz calma obrigou-a a erguer a cabea, mas ela no teve coragem de fixar os olhos nos dele.
-Estou lisonjeado - ele prosseguiu. - Mas nunca vi uma mulher comear a arrancar as roupas, levada pelo desejo, depois de um nico beijo.
Derrotada, ela pousou o rosto no peito dele. Matt afagou-lhe o ombro, fechou os dedos longos ao redor de sua nuca, enquanto com o outro brao enlaava-a pela
cintura. Ento, desceu a mo para o zper, puxou-o, e o corpete do vestido afrouxou-se.
Engolindo em seco, ela ergueu os braos para esconder os seios, hesitante.
- No no sou muito boa nisso - confessou, fitando-o nos olhos.
- No ? - ele perguntou roucamente, curvando a cabea.
Meredith queria alcanar o nirvana e procurou-o no prximo beijo.
E alcanou. Apertando os msculos rijos das costas dele, beijou-o com deseijo cego, deixando-o invadir-lhe a boca com a lngua. Quando imitou-o, ele gemeu e
apertou-a com mais fora. Ento, de repente, ela no estava mais no controle de si mesma, no percebia nada, alm de sensaes. Sentiu o vestido descer, o ar frio
bater-lhe na pele. Os cabelos soltaram-se, tombando nos ombros, e a sala girou, quando ela se viu deitada no sof, comprimida contra um corpo masculino, nu e exigente.
A vertigem passou, e Meredith encontrou-se num mundo escuro mas agradvel, onde s existiam a boca e as mos de Matt correndo por sua carne. Ento, ele parou.
Ela abriu os olhos e viu-o apoiado num cotovelo, observando seu rosto  luz suave do abajur.
-O que est fazendo? - perguntou com uma voz que no parecia a dela.
-Olhando para voc - ele respondeu, deixando o olhar descer para os seios, a cintura, as coxas e as pernas femininas.
Embaraada, Meredith impediu-o de continuar o exame, encostando os lbios em seu peito. Os msculos rijos estremeceram sob o toque, e Matt enterrou os dedos
em seus cabelos, pegando-a pela nuca. Daquela vez, quando ela ergueu os olhos, ele inclinou a cabea e capturou-lhe a boca quase com rudeza num beijo ertico que
a deixou em chamas, a lngua forando os lbios a abrirem-se, penetrando, explorando.
Meio deitado sobre ela, Matt beijou-a at ouvi-la gemer baixinho, ento sugou-lhe os seios, provocando um prazer que era quase uma dor, enquanto as mos corriam,
atormentando-a, fazendo-a arquear o corpo num oferecimento. Ele se moveu, deitou-se em cima dela, pressionando-a com os quadris, beijando-a com ardor nas faces e
no pescoo. Beijou-a novamente na boca, pondo as pernas entre as dela, obrigando-a a abrir as coxas, o tempo todo movendo a lngua, retirando-a, introduzindo-a.
Ento, tornou a parar.
-Olhe para mim - ordenou, aninhando o rosto de Meredith entre as mos.
Ela conseguiu sair do nevoeiro sensual em que se encontrava e abriu os olhos, fitando os dele, cinzentos e ardentes. Nesse momento, Matt penetrou-a com uma fora
que obrigou-a a soltar um grito abafado e arquear o corpo. Ela percebeu que ele tirara-lhe a virgindade num timo de segundo, mas a reao de Matt foi mais violenta
que a sua.
Ele ficou imvel. Com os olhos fechados, os ombros e braos tensos, permaneceu dentro dela.
-Por qu? - perguntou num cochicho spero. Ela estremeceu ao imaginar que ele a acusava.
-Porque nunca fiz isso antes - respondeu, compreendendo mal a pergunta.
Matt abriu os olhos, ento, e o que ela viu neles no foi acusao nem desapontamento, mas ternura e tristeza.
-Por que no me disse, Meredith? Eu teria facilitado as coisas para voc.
-Mas foi fcil. E perfeito ela afirmou sorrindo e passando os dedos no rosto dele.
Ouviu Matt gemer, antes de beijar-lhe novamente a boca, com infinita gentileza, enquanto comeava a mover-se dentro dela, saindo quase completamente, tornando
a entrar, profundamente, aumentando o ritmo das investidas, at que Meredith julgou enlouquecer. Ela cravou as unhas nas costas e nos quadris dele, puxando-o, quando
o furor em seu ntimo cresceu, transformando-se num holocausto, mas aumentando mais at finalmente explodir em longas erupes de intenso prazer que pareciam destruir-lhe
a alma. Envolvendo-a nos braos, Matt entrelaou os dedos em seus cabelos, beijando-a com fogosa urgncia, e mergulhou dentro dela mais uma vez. A profunda e feroz
fome de seu beijo, o lquido que escorria do corpo musculoso para o dela fizeram Meredith agarrar-se a ele e gemer, dominada por deliciosa sensao.
Com o corao batendo freneticamente, virou-se para Matt, que rolara para o lado, abraada a ele, encostando o rosto em seu peito.
- Faz ideia de como voc  excitante, de como reage prontamente? ele murmurou com voz trmula e rouca, colando os lbios no rosto dela.
Meredith no respondeu, porque comeava a tomar conscincia do que fizera e no queria enfrentar a realidade. Ainda no. Nada devia estragar aquele momento.
Fechou os olhos e continuou a ouvir as coisas deliciosas que Matt dizia, afagando-lhe o rosto com o polegar.
Ento, ele fez uma pergunta que necessitava de resposta, e a magia esvaneceu-se, fugindo dela.
- Por que fez isso hoje, e comigo, Meredith?
Ela ficou tensa, pois era uma pergunta difcil, suspirou sob o peso de uma sensao de perda e saiu dos braos dele, envolvendo-se numa manta leve que estivera
na ponta do sof. Ela j aprendera teoricamente sobre a intimidade fsica do sexo, mas ningum lhe falara daquele depois estranho e desconfortvel. Sentiu-se emocionalmente
nua, exposta, indefesa, sem saber o que fazer.
- Acho melhor nos vestirmos sugeriu, nervosa. Depois, ento, direi o que voc quer saber. Volto j.
Subiu para seu quarto, vestiu um roupo azul-marinho e branco e voltou para baixo, descala. Passando pelo grande relgio do vestbulo, viu que faltava cerca
de uma hora para o pai chegar.
Matt estava ao telefone, completamente vestido, mas pusera a gravata no bolso do palet.
- Qual  o endereo daqui? indagou. Meredith disse e ele passou-oao servio de txis para o qual ligara. Pedi que viessem me buscar dentro de meia hora.
Voltando para o sof, pegou o copo de conhaque que deixara na mesa.
- Quer que eu lhe sirva mais alguma coisa? Meredith perguntou, porque parecia-lhe que era isso que uma boa anfitri normalmente fazia quando uma reunio chegava
ao fim.
Ou ser que so os garons e garonetes que fazem essa pergunta?, imaginou, dominada pelo nervosismo.
- Gostaria apenas que me desse a resposta que prometeu. Matt fez uma pausa. Por que tomou a deciso de fazer o que fez? Por que hoje?
Ela achou que havia tenso na voz dele, mas o rosto estava completamente inexpressivo. Suspirou e desviou o olhar, desenhando com a ponta de um dedo um quadrado
no tampo da mesa.
- Durante anos, meu pai me tratou como se eu fosse uma uma ninfomanaca potencial, e nunca fiz nada para merecer isso. Hoje, quando voc insistiu em dizer que
ele devia ter alguma razo para me vigiar,: alguma coisa arrebentou-se dentro de mim. Acho que decidi que podia ter a experincia de dormir com um homem, j que
sempre ia ser tratada como uma vagabunda. E, ao mesmo tempo, tive a ideia insana de que assim puniria meu pai. E puniria voc tambm, mostrando-lhe que estava errado.
Seguiram-se longos momentos de incmodo silncio.
- Voc poderia provar que eu estava errado, simplesmente me contando que seu pai  um tirano, um miservel desconfiado. Eu teria acreditado.
No fundo do corao, Meredith sabia que isso era verdade. Olhou para ele, imaginando se a raiva fora a nica razo que a instigara a fazer o que fizera, ou se
ela usara essa raiva como desculpa para conhecer intimamente o magnetismo sexual que sentira emanar de Matt o tempo todo. O fato era que, de uma maneira estranha,
ela se sentia culpada por ter usado um homem de quem gostara tanto como instrumento de retaliao contra o pai.
No prolongado silncio, Matt pareceu estar avaliando o que ela dissera e tambm o que no dissera, tentando adivinhar seus pensamentos. Fosse qual fosse a concluso
a que chegou, era bvio que no o agradou muito, porque ele pousou o copo bruscamente e olhou para o relgio.
- Vou esperar o txi no porto.
- Acompanho voc at a porta.
Frases educadas, trocadas entre dois estranhos que haviam compartilhado a mxima intimidade possvel, menos de uma hora atrs. Meredith captou essa incongruncia
e fitou-o. Ele olhou seus ps nus, depois o rosto e finalmente os cabelos soltos, cados nos ombros. Descala, despenteada, num roupo comprido, Meredith tinha conscincia
de que no estava com a mesma aparncia de quando usara o vestido de noite, os cabelos presos num coque elegante. Soube qual seria a prxima pergunta, antes mesmo
de ele comear a formul-la.
- Quantos anos voc tem?
- No tantos quanto voc pensou.
- Quantos?
- Dezoito - ela respondeu, esperando algum tipo de reao. Matt apenas olhou-a por um longo instante e, ento, fez algo que para Meredith no tinha sentido.
Ele foi at a escrivaninha e escreveu alguma coisa num pedao de papel.
- Este  o nmero do meu telefone em Edmunton explicou calmamente, entregando o papel a ela. Estarei l, nas prximas seis semanas. Depois, Sommers saber dizer-lhe
como entrar em contato comigo.
Quando ele foi embora, ela subiu a escada, olhando para o papel em sua mo. Se aquele fora o jeito de Matt sugerir que ela lhe telefonasse um dia, tratava-se
de uma atitude arrogante, rude, completamente repulsiva e humilhante.


Nos primeiros dias da semana seguinte, Meredith sobressaltava-se cada vez que o telefone tocava, receosa de que pudesse ser Matt. S de lembrar as coisas que
fizera, sentia o rosto queimar de vergonha. Queria esquecer tudo. Mas no esqueceu. Assim que a culpa e o medo diminuram, ela comeou a pensar nele constantemente,
revivendo os momentos que antes esforara-se para esquecer. Deitada na cama,  noite, sentia os lbios dele no rosto, no pescoo, e recordava cada palavra sensual
ou terna que ouvira. Mas lembrava outras coisas tambm, como O prazer que experimentara, conversando com ele no jardim do Glenmoor, o riso de Matt ao ouvir certas
coisas que ela dissera. Imaginava se ele pensava nela, e, se pensava, por que no telefonava.
Na outra semana, quando Matt no ligou, Meredith concluiu que fora esquecida. Que no era to excitante como ele afirmara. Pensou e repensou nas coisas que lhe
dissera depois, tentando descobrir se o ofendera de alguma maneira, sendo essa a razo de seu silncio. Consideroua possibilidade de t-lo ferido no orgulho
ao contar o que levara a fazer amor com ele, mas descartou-a. Matthew Farrell no era nem um pouco inseguro no que dizia respeito ao seu poder de atrao sexual.
Gracejara sobre sexo, minutos aps conhec-la, quando haviam danado pela primeira vez. Era mais provvel que houvesse decidido no telefonar por ach-la jovem demais,
uma garota com quem no valia apena perder tempo.
No fim da terceira semana, Meredith j no queria que ele ligasse. Sua menstruao estava quinze dias atrasada e ela pedia a Deus que nunca mais se encontrasse
com Matt Farrell. Os dias arrastavam-se, e s o pensamento aterrorizante de que podia estar grvida ocupava sua mente. Lisa encontrava-se na Europa, de modo que
no havia ningum que pudesse ajud-la ou fazer-lhe companhia para que o tempo passasse mais depressa. Esperava e rezava, prometendo que, se no estivesse grvida,
nunca mais teria uma relao sexual antes de casar-se.
Mas, ou Deus no ouviu suas preces, ou era imune a tentativas de suborno. Na verdade, o nico que notou que ela se consumia numa agonia silenciosa foi o pai,
que sempre perguntava o que estava acontecendo. E ela sempre respondia que no estava acontecendo nada. No comeo, ficara preocupada demais para falar com ele sobre
o incidente no Glenmoor, depois aparecera essa outra preocupao maior, e ela nem se lembrara de travar novas batalhas por causa da faculdade.
Pouco tempo atrs, seu nico problema fora no poder ir para a escola que escolhera. Um problema que se tornara nfimo diante do que estava enfrentando.
Seis semanas aps seu encontro com Matt, deveria ocorrer nova menstruao, que no veio. O medo que ela sentia transformou-se em terror. Tentando consolar-se
com o fato de que no sentia nuseas pela manh, nem em nenhum outro perodo do dia, o que poderia significar alarme falso, ela marcou um teste de gravidez.
Fazia cinco minutos que desligara o telefone, quando o pai chamou-a batendo na porta do quarto.
- Entre ela respondeu.
Ele entrou e entregou-lhe um grande envelope. O remetente informava que vinha da universidade Northwestern.
- Voc venceu, Meredith. No suporto mais v-la nesse desnimo em que se encontra. V para a Northwestern, se isso  to importante. Mas quero que venha para
casa todos os fins de semana, e essa  uma exigncia que me recusarei a negociar.
Meredith abriu o envelope e tirou uma carta, que dizia que ela fora matriculada no primeiro semestre, a comear no outono. Conseguiu sorrir, embora sem entusiasmo.
No foi ao seu prprio mdico, que era amigo do pai, preferindo uma clnica ordinria de planejamento familiar, perto da zona sul de Chicago, onde tinha certeza
de que ningum a conhecia. O mdico examinou-a e confirmou seus piores receios: ela estava grvida.
Meredith ouviu a notcia com calma feita de apatia, mas, quando chegou em casa, seu entorpecimento deu lugar a um pnico louco e torturante. No aceitava a ideia
de um aborto, no podia imaginar-se entregando o beb para adoo, nem contando ao pai que ia ser me solteira e trazer escndalo para a famlia Bancroft. Havia
apenas mais uma alternativa, e ela escolheu-a. Telefonou para o nmero que Matt lhe dera e, quando ningum atendeu, ligou para Jonathan Sommers e mentiu que desejava
mandar para Matthew Farrell uma coisa que ele perdera e ela encontrara. Jonathan deu-lhe o endereo de Matt e tambm a informao de que ele ainda no partira para
a Venezuela. O pai dela viajara, de modo que foi fcil colocar algumas roupas numa maleta, escrever um bilhete dizendo a ele que fora visitar amigas, entrar no carro
e rumar para Indiana.
Em seu abatido estado de esprito, viu Edmunton como uma cidadezinha deprimente, cheia de chamins, fbricas e usinas de ao. Matt morava numa distante zona
rural, que ela tambm achou deprimente. Depois de rodar meia hora, entrando numa estrada, depois na outra, sem encontrar a certa, desistiu e parou num posto de gasolina
para pedir informao.
Um mecnico gordo, de meia-idade, saiu, correndo os olhos pelo Porsche e depois olhando para Meredith de um jeito que a fez arrepiar-se. Ela mostrou-lhe o papel
onde marcara o endereo.
-Ei, Matt! ele chamou por cima do ombro. - No  nessa estrada que voc mora?
Meredith arregalou os olhos, quando um homem, que estava com a cabea sob o cap de um velho caminho, endireitou o corpo e virou-se. Era Matt, com as mos sujas
de graxa, jeans velho e desbotado, como qualquer mecnico de cidadezinha localizada no fim do mundo. Ela ficou atnita ao notar como ele estava diferente e no conseguiu
esconder essa reao, dominada pelo nervosismo causado pelo problema da gravidez.
Matt obviamente percebeu, porque o sorriso surpreso desapareceude seu rosto, enquanto ele se aproximava do carro, e as feies cinzeladas endureceram.
- O que a trouxe aqui, Meredith? - perguntou, sem nenhuma emoo na voz.
Em vez de olhar para ela, fixava a ateno nas mos, que limpava num trapo que tirara do bolso traseiro do jeans, e Meredith teve a sensao angustiante de que
ele adivinhara o motivo de sua visita e por isso mostrava-se to frio. Ela desejou ardentemente estar morta e, com o mesmo fervor, nunca ter ido procur-lo. Matt
no ia querer ajudar, e ela no queria ajuda forada e relutante.
- Nada - mentiu com uma risada falsa, a mo j segurando o cmbio. Decidi passear e me peguei vindo para c. Mas acho melhor ir embora e
Ele ergueu os olhos do trapo e fitou-a. Ela se calou, quando os olhos cinzentos cravaram-se nos dela, penetrantes, frios e indagadores. Olhos perceptivos.
- Eu dirijo  Matt declarou, abrindo a porta. Em sua perturbao, Meredith obedeceu prontamente, descendo do carro e rodeando-o. Matt virou-se e olhou para o
homem gordo, que se agitava em volta do Porsche, observando a cena com maldosa fascinao. - Volto em uma hora.
- J so trs e meia, Matt - o outro respondeu com um sorriso que mostrou a falha de um dente na frente. - No precisa voltar mais por hoje. Uma coisinha cheia
de classe como essa merece mais do que uma hora com voc.
A humilhao de Meredith foi completa e, para aumentar sua agonia, Matt parecia absolutamente furioso, quando ps o Porsche em movimento e entrou velozmente
na estradinha tortuosa, os pneus espalhando cascalho.
- Importa-se de ir um pouco mais devagar? - ela pediu, temerosa, e ficou surpresa e aliviada quando ele ergueu o p do acelerador. Achando que devia iniciar
uma conversa, disse a primeira coisa que lhe passou pela cabea: - Pensei que trabalhasse numa usina de ao.
- Trabalho l cinco dias por semana e nos outros dois, no posto, como mecnico.
- Ah - ela murmurou.
Alguns minutos mais tarde, fizeram uma curva, entrando numa pequena clareira entre rvores, onde havia uma velha e rstica mesa de piquenique. Na grama, junto
de uma desgastada churrasqueira de tijolos, uma placa de madeira com letras entalhadas dizia: rea de descanso para motoristas. Cortesia do Lions Clube de Edmunton.
Matt desligou o motor. No silncio que se seguiu, Meredith podia ouvir o sangue martelando freneticamente em seus ouvidos, enquanto olhava fixamente para a frente,
tentando acostumar-se  ideia de que aquele homem impassvel a seu lado era o mesmo com quem rira e fizera amor, um ms e meio antes. O problema que a fizera procur-lo
pesava sobre ela como uma mortalha sufocante, a indeciso machucava-a, e lgrimas que se recusava a derramar queimavam-lhe os olhos. Sobressaltou-se, quando Matt
fez um movimento, mas ele apenas estava saindo do carro. Viu-o dar a volta e abrir a porta do passageiro para ela descer.
- bonito, este lugar - ela disse, olhando em volta com fingido interesse e notando que sua voz soara tensa at mesmo para seus prprios ouvidos. - Mas preciso
mesmo ir embora.
Em vez de replicar, ele encostou-se na mesa de piquenique, apoiando o peso do corpo num dos ps, e olhou-a com uma sobrancelha erguida, esperando, Meredith imaginou,
uma explicao mais completa a respeito daquela visita. Seu longo silncio e o olhar perscrutador minavam o controle que ela lutava para manter. Os pensamentos que
a haviam perseguido o dia todo recomearam sua ladainha aterrorizante. Estava grvida, ia ser me solteira, e seu pai ficaria louco de raiva e dor. Estava grvida!
Grvida. E o homem que tambm era responsvel por aquele sofrimento continuava l, observando-a debater-se, com o frio interesse de um cientista examinando um inseto
contorcendo-se sob o microscpio.
De sbito, Meredith sentiu-se irracionalmente furiosa.
- Est zangado com alguma coisa, ou recusando-se a falar por simples perversidade? - atacou.
- Na verdade, estou esperando que voc comece - ele respondeu, em tom calmo.
A raiva de Meredith cedeu, a angstia e a incerteza voltaram, enquanto ela o olhava. Pediria conselho a ele, decidiu, contrariando a deciso de ir embora. S
conselho, nada mais. S Deus sabia como precisava conversar com algum! Cruzando os braos no peito, como que para proteger-se da reao de Matt, ergueu a cabea,
engolindo penosamente, enquanto fingia admirar a copa exuberante da rvore sob a qual encontravam-se.
- Tive uma razo especfica para vir aqui - comeou.
- Presumo que sim.
Ela olhou-o rapidamente, tentando adivinhar se ele presumia maisalguma coisa, mas sua expresso era indecifrvel. Voltou a olhar para a copa da rvore e viu
tudo borrado, quando lgrimas escaldantes encheram-lhe os olhos.
- Vim aqui porque - Calou-se, incapaz de dizer as palavras feias e vergonhosas.
- Porque est grvida - ele terminou por ela, sem emoo.
- Como adivinhou?
- Apenas duas coisas poderiam t-la trazido. Essa  uma delas. Afogando-se em solitria agonia, ela perguntou:
- Qual  a outra?
- Meu jeito soberbo de danar?
Ele estava brincando, e essa reao inesperada foi o que fez Meredith desmoronar. As lgrimas romperam os diques, e ela cobriu o rosto com as mos, enquanto
soluos sacudiam-lhe o corpo. Sentiu as mos de Matt fecharem-se em seus ombros e deixou que ele a puxasse para o meio de suas pernas, abraando-a.
- Como pode brincar numa hora dessa? - perguntou chorando, mas sentia-se agradecida pelo silencioso conforto daquele abrao.
Matt entregou-lhe um leno, e ela tentou desesperadamente controlar-se
- V em frente e diga que fui uma estpida, deixando que isso acontecesse - choramingou, enxugando os olhos.
- Desista. No vai conseguir comear nenhuma discusso - ele declarou.
- Obrigada - ela replicou em tom sarcstico, apertando o leno contra o nariz. - Estou me sentindo muito melhor.
Ento, percebeu que Matt estava reagindo com calma admirvel enquanto sua atitude s piorava a situao.
- Tem absoluta certeza dessa gravidez?
- Tenho. Fui a uma clnica, hoje de manh, e disseram que estou grvida h seis semanas. Tambm tenho certeza de que o beb  seu caso esteja duvidando e por
educao no queira perguntar.
No sou to educado assim - ele disse sardonicamente.
Meredith ergueu os olhos lacrimosos, afrontada pelo que entendera como um desafio, e Matt abanou a cabea para silenciar sua exploso.
- No foi por cortesia que no perguntei, mas porque tenho um conhecimento bsico de biologia. No posso ter dvida de que sou o responsvel.
Ela receara que Matt ficasse chocado, desgostoso, que fizesse ricriminaes, e o fato de ele estar reagindo com fria lgica era incrivelmentereconfortante e
surpreendente. Olhando para um dos botes da camisa que ele vestia, enxugou uma lgrima com as costas da mo.
-O que voc quer fazer, Meredith?
Aquela era a pergunta que a vinha torturando sem cessar.
-Me matar.
-Qual  sua segunda opo?
Ela ergueu a cabea rapidamente, percebendo, pela voz dele, que Matt sorria. Encarou-o de testa franzida, confusa, admirada com a fora inquebrantvel que viu
em seu rosto, confortada pela inesperada compreenso que brilhava no olhar firme. Recuou ligeiramente, precisando pensar, e experimentou um certo desapontamento,
quando Matt soltou-a imediatamente. No entanto, a calma aceitao que ele demonstrara passara para ela, que comeou a sentir-se muito mais capaz de raciocinar.
-Todas as minhas opes so horrveis. O pessoal da clnica disse que a melhor soluo seria o aborto. - Fez uma pausa,  espera da reao de Matt.
Se no captasse o modo como ele enrijeceu os maxilares, teria achado que ficara indiferente, ou que aprovara a ideia. Mas, de toda forma, ficou sem saber o que
ele pensava.
-Mas no me acho capaz de enfrentar isso, pelo menos sozinha-continuou com voz embargada, desviando o olhar. - Mesmo que fosse, acredito que depois sentiria
desprezo por mim mesma. - Respirou fundo, tentando falar com mais firmeza. - Eu podia ter o beb e d-lo para adoo, mas isso no resolveria o problema. No para
mim. Ainda teria de contar a meu pai que vou ser me solteira, ele ficaria arrasado e nunca me perdoaria. Fico pensando em como a criana se sentiria, mais tarde,
imaginando por que sua me livrara-se dela. Sei que passaria o resto de minha vida olhando para todas as crianas, Perguntando-me se uma delas era a minha, se pensava
em mim e me procurava. Acho que no conseguiria viver com as dvidas e o sentimento de culpa. - Enxugou outra lgrima, erguendo os olhos para o rosto impassvel
de Matt. - O que tem a dizer sobre isso tudo?
- No momento em que voc disser algo com que no concordo, avisarei - ele respondeu num tom autoritrio que nunca usara com ela antes.
Meredith ficou surpresa, mas encorajada com aquelas palavras. Passou as palmas das mos pelas pernas da cala castanha, num gesto de nervosismo.
- Meu pai divorciou-se de minha me porque ela era promscua.
Se eu voltar para casa e lhe contar que estou grvida, ele me expulsa. No tenho dinheiro, mas herdarei bastante, quando completar trinta anos. Poderia dar um
jeito de criar meu beb at que esse dia chegue.
-Nosso beb - Matt corrigiu-a laconicamente.
Ela moveu a cabea, concordando, to aliviada pelo fato de ele encarar as coisas dessa maneira, que voltou a chorar.
-A ltima opo  uma de que voc no vai gostar  preludiou-Eu tambm no gosto.  obscena e - Calou-se, cheia de angstia e humilhao, ento reuniu o
que ainda tinha de coragem e prosseguiu, apressadamente: - Matt, voc concordaria em me ajudar a convencer meu pai de que nos apaixonamos e decidimos casar imediatamente;
Claro que depois que o beb nascer, ns nos divorciaremos. Concordar com isso?
-Com grande relutncia - ele respondeu em tom seco, depois fez uma longa pausa.
Humilhada por sua hesitao, Meredith virou o rosto.
-Obrigada por ser to nobre - retrucou com sarcasmo. - Estou disposta a declarar por escrito que no quero nada de voc e que lhe darei o divrcio assim que
o beb nascer. Tenho uma caneta na bolsa-acrescentou, comeando a andar na direo do carro, decidida a escrever o contrato ali mesmo, naquele momento.
Matt segurou-a pelo brao, obrigando-a a parar, e virou-a para que o encarasse.
-Como queria que eu reagisse? - perguntou em tom agressivo.-No acha pouco romntico de sua parte dizer que acha obscena a ideia de casar-se comigo e comear
a falar em divrcio no mesmo instante em que falou em casamento?
-Pouco romntico? - repetiu Meredith, olhando-o atnita, sentindo o impulso de comear a rir histericamente daquela observao ridcula, mas alarmada com a
raiva que ele deixara transparecer.
Ento, foi atingida pelo significado das outras coisas que ele dissera e o desejo de rir desapareceu.
-Desculpe - murmurou, fitando os enigmticos olhos cinzentos. - Sinto muito. No quis dizer que seria obsceno ns nos casarmos. O motivo desse casamento foi
que me pareceu obsceno, porque no nos amamos.
O alvio que experimentou ao ver a expresso dele suavizar-se deixou-a mole.
-Se pudermos chegar ao frum antes das cinco horas, tiraremos a licena hoje e nos casaremos no sbado - ele disse, endireitando-se j no comando da situao.

***

Tirar uma licena de casamento pareceu a Meredith algo espantosamente fcil e inexpressivo. Ela ficou ao lado de Matt e apresentou os documentos que provavam
sua identidade e atestavam sua maioridade. Depois, ele assinou, e ela assinou embaixo. Saram do frum localizado no centro da cidade, e o servente, com evidente
impacincia, fechou depressa a porta atrs deles. Comprometidos. Simplesmente e sem emoo.
- Chegamos bem na hora - ela comentou com um sorriso alegre e incerto ao mesmo tempo, sentindo o estmago contrair-se. - Para onde vamos agora? - perguntou,
entrando no carro, automaticamente deixando Matt dirigir.
- Vou lev-la para casa.
- Para casa? - Meredith ecoou, notando que ele no ficara mais feliz do que ela pelo que acabara de acontecer. - No posso ir para casa antes de nos casarmos.
- No me referi quela fortaleza de pedra em Chicago - ele explicou, ocupando o banco do motorista. - Estava falando de minha casa.
Apesar de cansada e confusa, ela sorriu ao ouvir a descrio que ele fez da casa dos Bancroft. Comeava a descobrir que Matthew Farrell no se deixava impressionar
ou intimidar por coisa alguma.
Virando-se, ele passou um brao pelo encosto do banco dela.
- Tiramos a licena, mas antes de darmos o passo final, precisamos discutir algumas coisas e entrar num acordo.
- Que coisas?
- Ainda no sei. Conversaremos melhor em casa.
Quarenta e cinco minutos depois, saram de uma estrada ladeada por bonitos campos de milho e entraram num caminho marcado por sulcos profundos. O carro sacudiu-se
ao passar sobre as pranchas de uma pequena ponte embaixo da qual passava um riozinho, fez uma curva larga, e Meredith teve a primeira viso da casa de Matt. Em flagrante
contraste com os campos de milho bem-tratados, a antiga casa de madeira, precisando urgentemente de pintura, parecia abandonada. No ptio, o mato vencia a luta por
espao travada contra o gramado, e a porta do celeiro,  esquerda da casa, estava meio tombada, presa apenas por uma dobradia. A despeito disso tudo, havia sinais
de que um dia algum amara aquele lugar e cuidara dele. Roseiras floridas subiam por uma trelia ao lado do alpendre, e um velho balano pendia de um dos galhos
de um carvalho gigantesco.
No caminho, Matt contara-lhe que a me falecera sete anos atrs depois de uma longa batalha contra o cncer, e que ele morava na casa com o pai e uma irm de
dezesseis anos. Dominada pelo nervosismo que a ideia de conhecer a famlia dele causava-lhe, Meredith apontou para a direita, onde um homem dirigia um trator atravs
de um campo
-Aquele  seu pai?
Matt, que se preparava para abrir a porta do carro para ela, parou e olhou na direo indicada.
-No.  um vizinho. Vendemos a maior parte de nossas terras anos atrs, e arrendamos o resto. Meu pai perdeu o pouco interesse que tinha pela lavoura, depois
que minha me morreu.
Quando subiam os degraus para o alpendre, ele obviamente notou a tenso de Meredith, porque pegou-a com delicadeza pelo brao e perguntou:
-O que ?
-Estou morta de medo de enfrentar sua famlia.
-No h razo para medo - declarou Matt. - Minha irm vai achar voc interessante e sofisticada, porque  de uma cidade grande.-Depois de breve hesitao,
acrescentou: - Meu pai bebe, Meredith. Comeou quando lhe disseram que a doena de minha me era terminal. Mas tem emprego fixo e nunca se torna violento. Estou
lhe contando isso para que compreenda e consiga relevar o fato. Faz dois meses que ele se mantm sbrio, mas isso pode acabar a qualquer momento.
-Eu compreendo - ela afirmou, embora nunca houvesse convivido com um alcolatra e no fizesse a mnima ideia de como devia ser.
No teve tempo de pensar mais sobre o assunto, porque naquele momento a porta de tela abriu-se impetuosamente e uma garota esbelta, com os mesmos cabelos escuros
e olhos cinzentos de Matt, correu para o alpendre, fixando o olhar no carro.
-Meu Deus, Matt! -  um Porsche! - a mocinha bonita, de cabelos quase to curtos quanto os dele, exclamou, antes de virar-se para Meredith: -  seu?
- - respondeu Meredith, espantada ao perceber que gostara instantaneamente da garota que se parecia tanto com Matt, embora no tivesse nada de sua reserva.
-Voc deve ser incrivelmente rica! Isto , Laura Frederickson  muito rica, mas nunca teve um Porsche.
Meredith ficou espantada com tantas referncias a dinheiro e curiosa a respeito de Laura Frederickson, e Matt mostrou-se aborrecido com a tagarelice da irm.
- Chega, Julie - ordenou.
- Desculpe - ela pediu, sorrindo para ele, antes de dirigir-se a Meredith: - Oi, sou Julie, a irm mal-educada de Matt. Vocs vo entrar? - Abriu a porta de
tela, que se fechara, e olhou para o irmo, informando: - Papai acabou de levantar. Ele est no turno das onze da noite, de modo que o jantar ser s sete e meia.
Est bem, assim?
- Est timo - respondeu Matt, pondo a mo nas costas de Meredith e guiando-a para dentro.
Ela olhou em volta, com o corao aos saltos, preparando-se para conhecer o sr. Farrell. A casa, por dentro, era quase to esquisita como por fora, com sinais
de negligncia que anulavam o encanto que poderia ter uma residncia naquele estilo colonial. As tbuas do piso estavam profundamente arranhadas, e os tapetes de
retalhos tranados, pudos e desbotados. Diante da lareira de tijolos, ladeada por estantes de livros embutidas na parede, havia duas poltronas verdes e um sof
cujo tecido estampado um dia exibira coloridas folhas de outono. Na sala de jantar, logo depois da de estar, a moblia era de boa madeira, e dali via-se a cozinha
atravs de uma porta aberta.  direita da sala de jantar, ficava a escada para o segundo andar, e um homem muito alto e magro, de cabelos grisalhos e rosto enrugado,
vinha descendo os degraus. Tinha um jornal dobrado em uma das mos e um copo cheio de um lquido ambarino na outra. Meredith viu-o de repente e no conseguiu vencer
o constrangimento que sentiu e que devia estar aparente em seu rosto, quando ela olhou para o copo.
- O que est acontecendo? - ele perguntou, olhando um por um ao passar para a sala de estar.
Julie no lhe deu ateno, disfaradamente admirando a cala de pregas de Meredith, as sandlias italianas e a camisa caqui de modelo safari.
    Matt ento apresentou Meredith a ele e  irm.
- Ns nos conhecemos quando eu estive em Chicago explicou. -Vamos nos casar no sbado.
- Vocs vo o qu? - o pai perguntou.
- Fantstico! - Julie gritou, excitada, chamando a ateno dos trs. -Eu sempre quis ter uma irm mais velha, mas nunca imaginei que ela fosse chegar no seu
prprio Porsche!
- Seu prprio o qu? - indagou Patrick Farrell, olhando para sua exuberante filha.
- Porsche - repetiu Julie, parecendo em xtase, correndo  janela e abrindo a cortina para que ele visse.
O carro brilhava ao sol, elegante, branco, muito caro, completamente deslocado, como ela. Patrick Farrell obviamente tambm pensava assim, porque olhou do carro
para Meredith, franzindo tanto as sobrancelhas hirsutas que as rugas da testa e ao redor dos olhos azuis transformaram-se em sulcos profundos.
- Conheceram-se em Chicago? - Olhou para Matt. Mas voc esteve l durante apenas alguns dias!
- Amor  primeira vista! - cantarolou Julie, evitando um desconfortvel silncio. - Que romntico!
Patrick Farrell olhou mais uma vez para o carro e novamente para Meredith, que se mantinha imvel.
- Amor  primeira vista - repetiu, com indisfarvel dvida. - Foi isso mesmo?
- Naturalmente - respondeu Matt, num tom que o avisava para mudar de assunto.
Depois, salvou Meredith, perguntando-lhe se gostaria de descansar um pouco antes do jantar. Ela aceitou a sugesto, pois teria se agarrado a arame farpado, para
escapar daquela situao. O confronto com Matt para contar-lhe que estava grvida fora humilhante, mas aquele, com o pai dele, no estava sendo muito melhor.
Julie disse que ela podia usar seu quarto, e Matt saiu para ir buscar a maleta no carro. Pouco depois, Meredith sentava-se na cama de quatro colunas.
- O pior j passou - Matt comentou, pondo a parca bagagem numa cadeira.
Ela no olhou para ele, torcendo as mos no colo.
- No acredito - respondeu. - Acho que est apenas comeando. Seu pai me detestou assim que me viu - declarou, falando do menor de seus problemas.
- Teria ajudado, se voc no olhasse para o copo de ch gelado como se estivesse vendo uma cobra armando o bote - ele observou em tom de riso.
Caindo de costas na cama, Meredith olhou para o teto, confusa e envergonhada.
- Eu fiz isso? - gemeu, fechando os olhos como que para afastar a imagem desagradvel.
Matt olhou-a. Estendida na cama e completamente deprimida, parecia uma flor definhada. Ele se lembrou de como a vira no clube, seis semanas antes, risonha e
cheia de malcia, fazendo tudo o que podiapara diverti-lo. Notou as mudanas que haviam ocorrido, e algo estranho, que nunca sentira antes, apertou-lhe o corao,
enquanto a mente apontava para os absurdos do drama enfrentado pelos dois.
Eles no se conheciam, mas se conheciam intimamente.
Em comparao com todas as outras mulheres com quem ele fizera sexo, Meredith era uma inocente, no entanto estava grvida de um filho seu.
A brecha social entre os dois tinha quilmetros de largura, e iam construir uma ponte sobre ela atravs do casamento. Depois, destruiriam a ponte, divorciando-se.
No tinham nada, absolutamente nada em comum, a no ser uma inesperada noite de amor, durante a qual a virgem mostrara-se uma insistente sedutora, uma amante
deliciosa. Uma inesquecvel noite de amor, cuja lembrana o perseguira sem cessar, uma noite em que se deixara seduzir e seduzira, ansioso como nunca estivera na
vida, com mulher alguma, para dar a ambos um clmax que jamais esqueceriam.
E conseguira, com certeza. E, graas a sua determinao de alcanar seu objetivo, transformara-se num pai.
Uma esposa e um filho no faziam parte de seus planos, mas ele sempre soubera, desde quando os traara e comeara a coloc-los em prtica, dez longos anos atrs,
que algo aconteceria, e que ele seria obrigado a fazer modificaes para adapt-los a novos requisitos. Aquela responsabilidade por Meredith e pelo beb chegara
num momento inoportuno, mas ele estava acostumado a cumprir obrigaes pesadssimas. No, a responsabilidade no o perturbava tanto quanto outras coisas, uma das
quais era a ausncia de esperana e alegria no rosto de Meredith. Ele achou que seria horrvel se, por causa do que acontecera um ms e meio atrs, Meredith nunca
mais voltasse a rir.
Foi por isso que debruou-se sobre ela, apoiando as mos na cama.
- Anime-se, bela adormecida! - ordenou em tom de brincadeira. Ela abriu os olhos e estreitou-os, fixando-os no sorriso dele, antes de ergu-los para os olhos
cinzentos, aflita e confusa.
- No posso - murmurou com voz rouca. - Tudo isso parece uma loucura. As coisas s vo piorar, para ns e para o beb, se nos casarmos.
-Por que diz isso?
- Por qu? - ela repetiu, corando de humilhao. - Como pode perguntar por qu? Meu Deus, voc no me convidou para sair, depois daquela noite. No telefonou!
Como
- Eu pretendia convidar - ele a interrompeu. - Daqui a um ano ou dois, quando voltasse da Amrica do Sul.
Meredith teria rido com desprezo, se no estivesse to infeliz, mas as palavras que ele disse a seguir deixaram-na perplexa.
- Se eu tivesse imaginado, por um instante, que voc realmente queria falar comigo, teria ligado h muito tempo.
Dividida entre a descrena e uma dolorosa esperana, ela fechou os olhos, tentando inutilmente entender suas violentas e emaranhadas emoes. Tudo o que sentia
era exagerado: desespero, alvio, esperana, alegria
- Anime-se! - ele tornou a ordenar, estranhamente contente por saber que Meredith teria gostado de t-lo visto outra vez.
Presumira que ela,  luz crua do dia, avaliaria a situao, concluindo que, pelo fato de ele no ter dinheiro, nem posio de destaque na sociedade, qualquer
relacionamento entre os dois seria impossvel Mas era evidente que isso no acontecera.
Meredith respirou fundo.
- Est pretendendo tornar-se implicante? - perguntou, com um sorriso trmulo, e s ento Matt percebeu que ela estava lutando bravamente para sair da apatia.
- Acho que essa fala  minha - ele replicou.
- ? Por qu?
- Esposas  que implicam.
- E maridos?
- Maridos do ordens - ele respondeu, assumindo um ar de superioridade.
- Quer fazer uma aposta? - ela props com um sorriso angelical e voz doce.
Matt desviou o olhar dos lbios dela e fitou os olhos azuis, que brilhavam como jias.
- No - respondeu com honestidade.
Matt podia esperar tudo, menos o que aconteceu. Culpou-se, quando viu que, em vez de animar-se, Meredith comeava a chorar, abraando-o e puxando-o para baixo.
Deitou-se tambm, deixando-a virar-se e aninhar-se em seus braos, chorando tanto que seus ombros tremiam
- Uma esposa de fazendeiro precisa preparar conservas de legumes e fazer picles? - ela perguntou alguns minutos depois, de modo quase incompreensvel por causa
das lgrimas.
     Matt reprimiu uma risada de surpresa, acariciando-lhe os cabelos.
- No.
- Que bom, porque no sei fazer essas coisas.
- No sou fazendeiro, e voc sabe disso.
- Eu ia comear o curso na universidade no ms que vem. - A causa real da angstia que ela sentia escapou entre soluos de profundo sofrimento. - Preciso estudar!
Decidi que vou ser presidente, um dia.
Atnito, Matt baixou a cabea, tentando ver o rosto dela.
- Um objetivo difcil dos diabos - comentou. - Ser presidente dos Estados Unidos 
Uma risadinha chorosa cortou o que ele ia dizer.
- No dos Estados Unidos! - Meredith corrigiu, erguendo para ele os lindos olhos, onde havia riso, no mais desespero. - De uma empresa!
- Graas a Deus! - Matt arreliou, to ansioso por mant-la alegre que nem se deu conta das implicaes de sua brincadeira. - Pretendo ser um homem rico, daqui
a alguns anos, mas comprar-lhe a presidncia da nao talvez no esteja ao meu alcance.
- Obrigada - ela murmurou.
- Pelo qu?
- Por me fazer rir. Eu nunca tinha chorado tanto, desde os tempos de menina. Agora, parece que no vou conseguir parar.
- Espero que no tenha achado engraado meu plano de enriquecer.
     A despeito de seu tom brincalho, Meredith sentiu que ele estava falando srio. Viu determinao no queixo quadrado, inteligncia e experincia arduamente adquirida
nos olhos cinzentos. A vida no dera a Matt nenhuma das vantagens que oferecia aos homens da classe dela, mas era evidente que ele possua uma espcie rara de fora
combinada com indomvel desejo de vencer. E havia mais. Apesar do jeito arbitrrio e do leve cinismo que ela percebera nele, Matt era capaz de gentileza. O comportamento
naquele dia era prova disso. A gravidez e o casamento apressado deviam ser to desastrosos para a vida dele como eram para a dela. No entanto, em nenhum momento
ele a criticara por ter sido estpida e descuidada, nem a mandara para o inferno, quando ouvira sua proposta de casamento, como seria de esperar.
     Vendo o modo como Meredith o observava, Matt soube que ela estava avaliando suas chances de concretizar seu projeto de se tornar rico, e com certeza achava
seus planos absurdos, considerando sua verdadeira situao. Na noite em que haviam se conhecido, ele estivera com aparncia de homem prspero, mas agora ela o vira
como realmente era. Encontrara-o com a cabea embaixo de um cap de caminho, sujo de graxa, e ele notara sua rpida expresso de choque e repugnncia.
Ali na cama, olhando o lindo rosto, ficou esperando que ela comeasse a rir de sua pretenso. Talvez no fizesse isso, porque sua esmerada educao no lhe permitiria
rir em sua cara, mas diria algo condescendente, e os magnficos olhos azuis revelariam seus verdadeiros pensamentos.
-Parece que tem planos de pr fogo no mundo - Meredith comentou por fim, em tom suave e pensativo, sorrindo.
-Usando uma tocha - ele complementou.
Para total surpresa de Matt, ela ergueu a mo e pousou-a em seu queixo tenso, estendendo os dedos para afagar-lhe a face. O sorriso que havia em seus lbios
brilhava nos olhos tambm.
-Tenho certeza de que conseguir, Matt.
Ele abriu a boca para dizer alguma coisa, mas no conseguiu falar. O contato da mo dela, a proximidade do corpo esbelto e a expresso dos olhos azuis pareciam
estar drogando-o, anuviando-lhe a mente. A louca atrao que sentira por Meredith, seis semanas antes, voltou a explodir com fora irresistvel, obrigando-o a inclinar-se
e apossar-se da boca tentadora com sofreguido. Ele devorou a doura daqueles lbios, perplexo com sua prpria nsia e tambm por perceber que ela no o repelia.
Quando Meredith entreabriu a boca para deix-lo aprofundar o beijo e comeou a mov-la em retribuio, Matt assustou-se com a sensao de triunfo que experimentou.
O bom senso desapareceu, e ele desceu o corpo j rijo de desejo sobre o dela. Quase gemeu de frustrao, quando as mos delicadas pousaram em seu peito, empurrando-o.
Seu pai e sua irm esto l embaixo - ela murmurou, ofegante.
    Com relutncia, Matt retirou a mo do seio que desnudara. Esquecera onde estavam, a famlia, esquecera tudo. L embaixo, certamente o pai j compreendera o motivo
do casamento precipitado e tirara concluses erradas sobre Meredith, julgando-a uma vagabunda rica. Matt precisava descer e esclarecer as coisas. No precisava reforar
a opinio do pai ficando no quarto sozinho com ela. Estava espantado com sua falta de controle no que se referia a Meredith. Ele no pensara numa lenta e deliciosa
troca de carcias, mas em possu-la de forma completa e rpida Isso nunca lhe acontecera antes.
Erguendo a cabea, respirou fundo e pulou fora da cama, afastando-se da tentao. Encostado numa das colunas, ficou olhando Meredith sentar-se, olhar nervosamente
para ele e arrumar as roupas. Sorriu quando ela castamente cobriu o seio.
-Correndo o risco de parecer impulsivo demais, estou comeandoa acreditar que um casamento de aparncia ser impraticvel - comentou em tom casual. -  evidente
que sentimos forte atrao sexual um pelo outro. At j fizemos um beb! Talvez devamos levar em considerao a hiptese de vivermos realmente como casados. - Deu
de ombros, com um leve sorriso. - Talvez possamos gostar.
Meredith no ficaria mais surpresa, se ele criasse asas e comeasse a voar pelo quarto. Ento, percebeu que fora apenas uma ideia, no uma sugesto. Ficou entre
o ressentimento, a gratido e um tipo estranho de prazer, refletindo que pelo menos ele externara essa ideia.
- No h pressa - continuou Matt com um sorriso travesso, desencostando-se da coluna da cama. - Temos alguns dias para pensar e tomar uma deciso.
Quando ele saiu, Meredith ficou olhando para a porta fechada, incrdula com a rapidez com que aquele homem tirava concluses, dava ordens e mudava o rumo das
coisas. Matt Farrell tinha muitas facetas diferentes e surpreendentes, no deixando claro o que realmente era. Na noite em que o conhecera, ela percebera sua aspereza,
mas na mesma noite ele rira de suas brincadeiras, falara de si mesmo, beijara-a at deix-la tonta e fizera amor com ela, apaixonadamente e com ternura. Mesmo assim,
parecia que a gentileza com que a tratava quase sempre no era uma norma de seu carter, e que ele no devia ser subestimado. Com mais intensidade ainda, Meredith
sentia que, fosse o que fosse que ele escolhesse fazer no resto de sua vida, algum dia teria um poder que no poderia ser ignorado. Adormeceu, imaginando que esse
dia chegara.


Meredith no sabia o que Matt dissera ao pai, antes de ela descer para o jantar, mas o caso era que Patrick Farrell parecia ter aceitado o fato de que os dois
iam casar-se. Apesar disso, foi a tagarelice incessante de Juhe que impediu a refeio de tornar-se uma provao para ela. Matt ficou silencioso e pensativo durante
a maior parte do tempo, embora parecesse dominar a sala e a conversao, simplesmente por estar presente e ouvir o que era dito.
Patrick Farrell, que devia ser o chefe da casa, obviamente abdicara em favor do filho. O homem magro, calado, que trazia no rosto as marcas da tragdia e do
desregramento, passava para Matt a tarefa de responder, sempre que surgia uma pergunta sobre quem deveria fazer o qu. Meredith achava-o digno de piedade e tambm
um tanto assustador, continuando a pensar que ele no gostara dela.
Julie, que aparentemente aceitara de boa vontade o papel de cozinheira e governanta dos dois homens, era esfuziante. Cada um de seus pensamentos saa-lhe dos
lbios numa torrente de palavras entusiasmadas. Sua adorao por Matt era evidente e irrestrita. Ela se levantava para ir buscar caf para ele, fazia-lhe perguntas
e ouvia as respostas como se fosse o prprio Deus que estivesse dando uma opinio. Meredith, que tentava desesperadamente no pensar nos prprios problemas, imaginava
como a garota conseguira manter o entusiasmo em otimismo num lugar como aquele. Dava a impresso de ser muito inteligente, e era estranho pensar que talvez preferisse
cuidar do pai e de Matt em vez de preparar-se para ter uma profisso. Imersa em pensamentos, Meredith demorou para perceber que Julie falava com ela.
- H uma loja de departamentos chamada Bancrofts, em Chicago a mocinha comentou. - Vejo anncios na Seventeen, s vezes, mas mais na Vogue. Foi nessa loja,
que tem coisas maravilhosas, que Matt comprou uma echarpe de seda para mim. Voc faz compras l?
Meredith moveu a cabea, afirmando, seu sorriso aquecendo-se  meno do estabelecimento de sua famlia, mas no disse nada. No tivera tempo de contar a Matt
que seu pai era presidente da Bancroft & Company, e Patrick j reagira to mal a ela, que seria prefervel no fazer isso ali. Infelizmente, Julie no lhe deixou
escolha.
- Voc  parenta dos Bancroft da loja?
- Sou.
- Parentesco prximo?
- Muito prximo - respondeu Meredith, sem poder deixar de achar graa no brilho de excitao que viu nos grandes olhos cinzentos de Julie
- Como assim? - a garota insistiu, pousando o garfo.
    Meredith viu Matt parar o movimento de levar a xcara de caf a boca, encarando-a, e Patrick reclinar-se na cadeira, olhando-a carrancudo. Suspirou, admitindo
a derrota.
- Meu trisav fundou a loja.
- Mas isso  fantstico! - exclamou Julie. - Sabe o que meu tatarav fez?
- No. O qu? - perguntou Meredith, to contagiada pela animao da jovem que no olhou para Matt para ver sua reao.
- Ele era da Irlanda, veio para c como imigrante e comeou uma criao de gado - Julie contou, levantando-se e comeando a tirar a loua da mesa.
Meredith sorriu e tambm ergueu-se para ajud-la.
- O meu foi ladro de cavalos - informou.
Os dois homens pegaram suas xcaras de caf e dirigiram-se  sala de estar.
- Seu tatarav foi mesmo ladro de cavalos? - perguntou Julie, enchendo a pia com gua. - Tem certeza?
- Absoluta. Foi enforcado por isso - assegurou Meredith, recusando-se a olhar para trs e ver Matt afastar-se.
Comeou a trabalhar junto com a mocinha num silncio amigvel.
- Papai est fazendo turnos duplos esta semana - Julie informou, depois de alguns momentos. - Vou estudar na casa de uma amiga e passar a noite l, mas estarei
aqui de manh, a tempo de preparar o caf.
Pensando no que a garota dissera sobre estudar, Meredith no se deu conta de que ela e Matt passariam a noite sozinhos.
- Voc vai estudar? Mas estamos nas frias de vero! - comentou.
- Estou frequentando o curso de frias para poder me formar em dezembro, dois dias depois de completar dezessete anos.
- Muito jovem para acabar o colegial.
    - Matt tinha dezesseis.
- ? - Meredith imaginou qual seria a qualidade de ensino numa escola rural que deixava os alunos formarem-se to cedo. - O que voc vai fazer depois?
-Vou para a universidade. Quero me graduar em uma das cincias, mas ainda no decidi qual. Talvez biologia.
-Mesmo?
-Mesmo - confirmou Julie com orgulho. - Ganhei uma bolsa de estudos integral. Matt ainda no foi embora de casa porque queria ter certeza de que eu ficaria
bem, sozinha. Foi bom, porque assim, enquanto esperava que eu crescesse, fez mestrado em administrao de empresas. Teria de continuar em Edmunton do mesmo jeito,
trabalhando para pagar as dvidas que fizemos durante a doena de mame.
    Meredith girou para encar-la.
- Matt fez o qu, enquanto esperava voc crescer?
- Mestrado, ps-graduao, entende? Em administrao de empresas - Julie explicou. - Matt tirou dois diplomas universitrios: economia e administrao de empresas.
Inteligncia  uma marca de famlia-acrescentou, depois notou o espanto de Meredith e parou de falar por um instante, antes de continuar de modo hesitante: - Voc
no sabe nada a respeito de Matt, no ?
S sei como ele beija e como faz amor, pensou Meredith, envergonhada.
- Quase nada - confessou num fio de voz.
- No a culpo. A maioria das pessoas acha difcil conhecer Matt direito, e vocs dois passaram apenas dois dias juntos, no ?
Aquilo soou to srdido aos ouvidos de Meredith, que ela virou o rosto, incapaz de encarar a outra jovem. Pegou uma caneca e comeou a enxug-la.
- No  caso para se envergonhar - declarou Julie. - Voc estar grvida no faz nenhuma diferena para mim
Meredith deixou cair a caneca, que bateu no linleo e rolou para baixo da pia.
- No faz no - insistiu Julie, curvando-se e pegando a caneca
- Matt disse que estou grvida, ou voc adivinhou?
- Eu j havia percebido, mas ouvi, quando ele contou a papai.
- Que maravilha! - ironizou Meredith, sentindo-se mortificada.
- Achei muito bom. Isto , at ouvir Matt contar a papai tudo a seu respeito, eu achava que era a ltima garota ainda virgem aos dezesseis anos de idade.
Meredith fechou os olhos, um pouco tonta com aquela conversa reveladora e a raiva que sentia por Matt ter feito tantas confidncias ao pai.
- Os dois tiveram uma grande sesso de mexericos - comentou com amargura.
- No foram mexericos! - protestou Julie. - Matt s acertou as coisas, fazendo papai ver que tipo de moa voc  - continuou, e Meredith sentiu-se infinitamente
melhor. - Trinta e oito garotas, das duzentas da minha srie na escola, esto grvidas. Nunca precisei me preocupar com isso, porque os rapazes tm medo at de me
beijar
- Por qu?
- Todos os rapazes de Edmunton sabem que Matt  meu irmo e o que faria com eles, se tentassem alguma coisa comigo. - Ento, acrescentou com um suspiro cmico:
- Quando se trata de proteger a virtude de uma mulher, Matt funciona como um cinto de castidade.
- No sei por qu, mas no concordo - observou Meredith, antes de poder conter-se.
Pegou-se rindo, quando Julie deu uma gargalhada.
Foram para a sala de estar, e Meredith preparou-se para duas horas constrangedoras diante da televiso, mas Julie mais uma vez mudou a situao.
- O que vamos fazer? - perguntou, olhando para Matt e depois para Meredith. - Querem jogar alguma coisa? Cartas? No. O que acham de uma coisa bem idiota? -
Virou-se para uma das estantes. correu o dedo por uma pilha de caixas de jogos. - J sei! Monoplio!
- No quero jogar - declarou Patrick. - Prefiro assistir a esse filme.
Matt no estava com vontade de jogar nada, muito menos Monoplio, e ia convidar Meredith para uma caminhada, quando ocorreu-lhe que ela talvez no suportasse
mais tenso, que era o que uma conversa a ss indubitavelmente acarretaria. Alm disso, ela parecia ficar bastante  vontade com Julie. Pensando assim, concordou
em jogar, tentando mostrar animao, e olhou para Meredith, que no dava a impresso de estar muito animada, mas que tambm aceitou a sugesto.
Duas horas mais tarde, foi obrigado a admitir que estava se divertindo muito. O jogo transformara-se numa verdadeira pantomima, na qual as duas moas faziam
de tudo para derrot-lo, recorrendo at  trapaa, e a irm chegara at a roubar um pouco do dinheiro que ele ganhara. Meredith, por sua vez, comeara a apresentar
razes absurdas para no pagar o que lhe devia.
- Sem desculpas - ele avisou, quando viu-a pr uma ficha numa das propriedades que ele comprara. - Fazendo isso, voc ficou me devendo mil e quatrocentos dlares.
- No - ela negou com um sorriso maldoso, apontando para os hotis de plstico que ele colocara numa parte do tabuleiro, afastando um deles com a ponta do dedo.
- Isso  invaso de propriedade. Voc construiu em meu territrio, de modo que est me devendo.
- Voc vai ver o que  invaso de propriedade, se no me pagar o que deve - ele ameaou com uma risada.
Rindo tambm, Meredith virou-se para Julie.
- Tenho s mil dlares. Pode me emprestar o resto?
- Sem dvida - respondeu a garota, embora j houvesse gasto todo seu dinheiro.
Pegou vrias notas de quinhentos da pilha de Matt e entregou-as a Meredith, que mesmo assim foi obrigada a admitir a derrota, minutos mais tarde.
Julie foi pegar os livros, e Meredith guardou as peas do jogo na caixa, pondo-a na estante.
Patrick levantou-se da poltrona.
- Deixou a caminhonete na oficina? - perguntou ao filho.
Matt respondeu que deixara, mas que iria busc-la pela manh, e Patrick, que durante todo o jogo ficara observando Meredith, virou-se para ela com um sorriso
incerto.
    - Boa noite, Meredith.
Matt levantou-se tambm e perguntou a ela se gostaria de dar um passeio.
- Gostaria, sim - Meredith aceitou, contente com a oportunidade de escapar da provao de ficar deitada na cama, sem dormir, preocupando-se.
L fora a brisa noturna estava agradvel, e o luar traava uma trilha luminosa no ptio. Haviam descido a escada do alpendre, quando Julie saiu da casa, com
um suter nos ombros e os livros no brao.
- At amanh - ela se despediu, acrescentando: - Joelle vai me pegar na entrada da alameda. Vou estudar na casa dela.
Matt olhou-a, franzindo a testa.
- Vai l s dez da noite?
    A mocinha parou, apoiando a mo livre no corrimo da escada, e fitou-o com um sorriso exasperado.
- Ah, Matt! - exclamou, revirando os olhos.
- Mande lembranas a Joelle - ele disse por fim.
     Julie desceu os degraus e correu na direo da luz dos faris de um carro no fim da alameda de cascalho, e Matt voltou-se para MeredithJ
- Como voc sabe de coisas como invaso de propriedade e violao de territrio? - indagou.
   Inclinando a cabea para trs, ela olhou para a lua, que parecia um disco de metal no cu.
- Meu pai sempre conversou comigo a respeito de negcios. Houve um problema sobre territrio, quando construmos nossa filial no subrbio, e outro envolvendo
invaso de propriedade, quando o construtor pavimentou o ptio de estacionamento.
Ela fez uma pausa e arrancou uma folha da rvore, sob a qual estavam parados, decidindo fazer a pergunta que a vinha perturbando havia mais de duas horas.
- Julie me disse que voc fez mestrado em administrao de empresas. Por que deixou que eu pensasse que era um metalrgico comum e que ia para a Venezuela tentar
a sorte no trabalho com petrleo?
- O que a faz pensar que metalrgicos so pessoas comuns, e que mestres em alguma rea so especiais?
Meredith percebeu a leve censura em sua voz e ressentiu-se.
- Acha que sou esnobe? - quis saber, encostando-se no tronco da rvore.
- Voc ? - ele perguntou, pondo as mos nos bolsos e encarando-a.
- Eu - Ela hesitou, observando as feies fortes onde as sombrasbrincavam, tentada a dizer tudo o que achava que Matt desejava ouvir, mas contendo-se. - Talvez
seja.
Ele devia ter captado o tom de desgosto em sua voz, porque sorriu de um modo que fez seu corao bater mais forte.
- Duvido, Meredith.
Duas simples palavras, mas que tiveram o poder de deix-la imensamente satisfeita.
- Duvida, por qu?
- Porque os esnobes no se preocupam em saber se so, ou no. Agora, respondendo a sua pergunta, no falei nada sobre minha ps-graduao porque isso no significa
nada, pelo menos at que eu coloque em prtica o que aprendi. Tudo o que tenho  uma poro de ideias e projetos que podem no funcionar do jeito que espero.
Julie dissera que muitas pessoas achavam difcil conhecer Matt, e Meredith s podia concordar. No entanto, havia momentos, como aquele, em que ela se sentia
to sintonizada com ele que era quase possvel ler-lhe a mente.
- Penso que tambm me deixou pensar que era s um metalrgico porque desejava ver se isso fazia diferena para mim. Foi um um teste, no?
Ele deu uma risadinha surpresa.
- Acho que foi, sim. No entanto, pode ser que eu nunca venha a ser outra coisa.
- Mas voc trocou as usinas de ao por poos de petrleo - ela provocou, rindo. - Porque queria um trabalho mais charmoso, talvez.
Com esforo, Matt venceu o impulso de tom-la nos braos e abafar sua risada com um beijo. Meredith era jovem demais e mimada, e ele iria para um pas estrangeiro,
onde muitas necessidades corriqueiras seriam consideradas luxo. O desejo repentino de lev-la com ele para a Venezuela era simplesmente insano. Por outro lado, ela
provara ser corajosa, meiga, e estava grvida de um filho dele. Talvez a ideia no fosse to louca, afinal. Erguendo o rosto para o cu, Matt olhou a lua, tentando
ignorar esse pensamento, mas reconhecendo que era incapaz.
- Meredith, muitos casais levam meses se conhecendo, antes de casar - comeou, resolvido a fazer uma sugesto que talvez o ajudasse a decidir. - Ns dois temos
apenas dias at nosso casamento, e em menos de uma semana estarei partindo. Acha que podemos fazer caber alguns meses em poucos dias?
- Acho que sim - ela respondeu, surpresa com o tom intenso da voz dele.
- timo - Matt murmurou, confuso, no sabendo como continuar, como se no estivesse esperando aquela resposta positiva. - O que voc gostaria de saber sobre
mim?
Engolindo uma risada de surpresa e constrangimento, ela olhou-o, hesitante, at que lhe ocorreu que ele poderia estar se referindo a perguntas sobre gentica,
j que era o pai de seu beb.
- Est imaginando que desejo saber se h casos de insanidade mental em sua famlia, se voc tem ficha na polcia, coisas assim?
Matt reprimiu uma gargalhada diante daquilo.
- Nunca houve loucos na famlia, e no tenho ficha na polcia - informou com forada gravidade. - E voc?
- Digo o mesmo - ela respondeu solenemente.
Ento, ele viu riso nos olhos dela e, pela segunda vez, precisou conter-se para no abra-la.
- Agora  sua vez de perguntar - Meredith concedeu. - O que deseja saber?
- S uma coisa. Voc  to meiga quanto eu acho que ?
- Talvez no.
Ele sorriu, porque estava quase certo de que ela errara na resposta
- Vamos andar, antes que eu me esquea do que foi que viemos fazer aqui fora. E, em nome da honestidade, devo dizer que me lembra que j passei pela polcia,
sim.
Tinham comeado a caminhar pela alameda que se encurvava na direo da estrada, e Meredith parou e virou-se para olh-lo.
- Fui preso duas vezes, quando tinha dezenove anos - ele contou
- Por qu?
- Por brigas. Arruaas talvez fosse uma palavra melhor. Antes de minha me morrer, enfiei na cabea que, se ela tivesse os melhores mdicos, os melhores hospitais,
talvez se curasse. Conseguimos o melhor para ela, meu pai e eu. Quando o seguro estourou, vendemos o equipamento agrcola e tudo o mais de que podamos abrir mo,
para pagar as contas. Ela morreu, apesar de tudo - Matt explicou, no deixando transparecer emoo. - Meu pai agarrou-se  bebida, e eu procurei alguma coisa a que
me agarrar. Durante meses, senti necessidade de brigar e, como no podia pr as mos em Deus, em quem minha me tinha tanta f, contentei-me em pegar os mortais
que me desafiassem. Em Edmunton no  difcil arranjar uma briga.
Fez uma pausa, sorrindo, e s ento percebeu que estava contando a uma garota de dezoito anos o que nunca contara a ningum, admitindo fatos que nunca admitira.
E a garota de dezoito anos olhava para ele com calma compreenso, prpria de uma pessoa mais amadurecida.
- Os tiras interromperam duas dessas brigas e prenderam todos os envolvidos - prosseguiu. - No foi nada grave e no h registro em lugar algum, a no ser na
delegacia de Edmunton.
- Voc devia amar demais sua me - comentou Meredith, emocionada. Mas, percebendo que pisava em terreno perigoso, acrescentou:-No conheci a minha. Ela foi
para a Itlia, depois que se divorciou de meu pai. Acho que tive sorte, no acha? Seria pior, se convivesse com ela durante anos e depois a perdesse.
Matt captou-lhe a inteno e no ridicularizou seu esforo.
- Voc  muito gentil - declarou. Ento, livrou-se do estado de nimo sombrio e disse: - Tenho gosto excelente, no que se refere a mulheres.
Meredith riu e experimentou enorme prazer, quando ele rodeou-lhe a cintura com um brao, no momento em que recomearam a andar.
- Voc j foi casado?
- No. E voc? - Matt brincou.
Sabe muito bem que no e que nunca - Ela silenciou, acanhada.
- Sei, sim - ele confirmou. - O que no entendo  como voc, to bonita, pde chegar aos dezoito anos sem entregar sua virgindade a algum rapazinho rico do curso
colegial.
- No gosto de rapazinhos - Meredith informou, olhando para ele com surpresa. - Mas sabe que eu nunca havia percebido isso?
Matt sentiu-se imensamente satisfeito, pois de forma alguma ele se encaixava na categoria. Esperou que Meredith dissesse mais alguma coisa, mas ela continuou
calada.
-  essa a resposta para o que desejo saber?
- Apenas em parte. A verdade  que eu era to feia, at os dezesseis anos, que garoto nenhum queria aproximar-se de mim. Quando fiquei menos feia, estava com
tanta raiva deles por terem me ignorado que formei uma opinio nada favorvel a seu respeito.
Matt observou o rosto lindo, a boca tentadora, os olhos brilhantes e sorriu.
- Voc era mesmo feia?
- Se tivermos uma menina, ser muito melhor que se parea com voc, quando for adolescente.
A gargalhada de Matt explodiu no ar silencioso, e ele puxou-a paraseus braos. Rindo, afundou o rosto nos cabelos perfumados, surpreso com a ternura que o invadia
ao pensar que ela fora ou se julgara feia, emocionado porque merecera sua confiana e enlevado porque Recusou-se a tentar descobrir o motivo. Tudo o que importava
era que Meredith tambm estava rindo e que o abraara pela cintura.
- Tenho um gosto raro no que diz respeito a mulheres cochichou, esfregando o queixo no alto da cabea dela.
- No pensaria assim, se me visse h dois anos - ela comentou, rindo outra vez e inclinando-se para trs para olh-lo.
- Sou um homem de viso - ele afirmou. - Pensaria do mesmo jeito, mesmo naquela poca.
Uma hora mais tarde, encontravam-se sentados na escada do alpendre, virados de frente um para o outro, as costas apoiadas nas grades, Matt, um degrau acima,
estendera as pernas a sua frente, e Meredith puxara os joelhos para cima, abraando-os contra o peito. No estavam mais fazendo um esforo consciente para conhecerem-se
s porque Meredith estava grvida e precisavam casar-se. Eram apenas um casal sentado fora de casa numa noite de fim de vero, apreciando o fato de estarem juntos.
Recostando a cabea na grade, Meredith semicerrou os olhos e ficou ouvindo um grilo que cricrilava ali perto.
- Em que est pensando? - Matt quis saber.
- Que logo estaremos no outono - ela respondeu, olhando para ele. - Minha estao favorita. Superestimam a primavera, quando chove muito e as rvores ainda esto
despidas. O inverno se arrasta, o vero  agradvel, mas sempre a mesma coisa. O outono  diferente Existe perfume que se compare ao cheiro de folhas queimando?
O outono  excitante, porque as coisas esto mudando.  como o crepsculo,
- O crepsculo?
- A hora do dia de que mais gosto, pela mesma razo. Quando eu era menina, costumava descer a alameda de nossa casa, ao entardecer, e ficava parada perto da
cerca, observando os veculos passarem com os faris acesos. Todo mundo tinha um lugar para ir, alguma coisa para fazer. A noite estava apenas comeando - Ela fez
uma pausa, embaraada. - Nossa, voc deve achar que eu era boba demais.
- No - ele negou. - Solitria demais.
- Eu no me sentia solitria. Gostava de devanear, s isso. Sei que voc teve pssima impresso de meu pai, no Glenmoor, mas ele no  o monstro que imagina.
Meu pai me ama e sempre tentou me protegere me dar o melhor de tudo. - Sem aviso, o suave estado de esprito de Meredith desapareceu, e a realidade caiu sobre ela
com fora esmagadora. - Em troca, vou chegar em casa daqui a alguns dias, grvida e
- Combinamos que no amos pensar em nada disso, hoje - ele a lembrou.
Meredith concordou com um gesto de cabea e tentou sorrir, mas no conseguia controlar os pensamentos to bem quanto Matt aparentava ser capaz. Visualizou sua
criana de p, junto de uma cerca, em algum lugar de Chicago, vendo os carros passarem, sem famlia, sem irmos, sem pai. Ela no tinha certeza de poder suprir todas
essas faltas.
- O outono  a coisa de que voc mais gosta. O que  que mais a desagrada? - perguntou Matt, numa tentativa de distra-la.
Ela refletiu por um momento.
- Floriculturas que vendem rvores de Natal, um dia depois do Natal - respondeu. - H alguma coisa muito triste naquelas belas rvores que ningum comprou. So
como rfos que ningum quer.
- J passa de meia-noite - ele avisou, levantando-se. Notara que no havia mais como erguer o nimo de Meredith. - Por que no vamos para a cama?
Era como se ele tivesse como certo que dormiriam juntos, e Meredith experimentou uma onda de pnico. Matt ia casar-se com ela porque era obrigado. A situao
toda j era srdida demais, fazendo-a sentir-se vulgar e humilhada.
Em silncio, entraram, apagaram as luzes da sala de estar e subiram a escada. O quarto de Matt ficava  esquerda, ao lado do patamar, e o de Julie, logo depois,
mas havia um banheiro entre os dois.
- Boa noite, Matt - Meredith despediu-se, quando chegaram diante da porta do quarto dele.
Afastou-se, dirigindo-lhe um sorriso por cima do ombro. Quando ele no fez meno de impedi-la, suas emoes penderam contraditoriamente entre o alvio e o desapontamento.
Talvez, uma mulher grvida no seja sexualmente atraente, pensou, abrindo a porta do quarto de Julie, nem mesmo para o homem que enlouquecera nos braos dela poucos
dias antes.
Empurrou a porta e deu um passo para dentro, virando-se para ver se Matt ainda estava no corredor. Estava. Apoiara-se no batente e cruzara os braos no peito.
- Sabe o que mais me desagrada, Meredith?
- No.
- Dormir sozinho, quando sei que no outro quarto h algum que deveria estar dormindo comigo - Matt esclareceu.
Ele pretendera fazer um convite, no uma seca observao, e surpreendeu-se com sua falta de tato. Vrias expresses sucederam-se no rostinho adorvel, e ele
reconheceu embarao, inquietao, incerteza
- Boa noite - ela disse por fim com um sorriso hesitante.
    Matt viu-a entrar e fechar a porta, mas ficou parado, embora soubesseque, se fosse atrs dela e tentasse persuadi-la com ternura, ela acabaria indo para a cama
com ele. Todavia, por alguma razo, no sentiu desejo de fazer isso. Entrou no quarto, mas deixou a porta aberta, ainda convencido de que ela queria ficar com ele
e que voltaria, quando estivesse vestida para dormir.
Teve de revirar as gavetas para encontrar um pijama, mas vestiua cala, antes de ir at a janela e ficar admirando o gramado banhado de luar. Ouviu Meredith
sair do banheiro depois de tomar uma ducha e ficou tenso, prestando ateno nos passos dela, que se afastaram pelo corredor. A porta do quarto de Julie abriu-se
e tornou a fechar-se. Ele se sentiu surpreso, aborrecido e decepcionado, e sabia que no era uma reao gerada pela frustrao do desejo sexual, mas por algo muito
mais profundo. Queria um sinal de que Meredith estava preparada para um verdadeiro relacionamento com ele, mas isso devia partir apenas dela, sem que ele tentasse
pression-la. Devia ser uma livre escolha E ela escolhera, deixando-o sozinho no corredor. Talvez houvesse ficado em dvida sobre o que ele desejava, mas ouvira-o
dizer o que achara de dormir sozinho, estando ela no outro quarto, to perto.
Afastando-se da janela com um suspiro, Matt refletiu que talvez estivesse exigindo demais de uma garota de dezoito anos. Mas era muito difcil lembrar como Meredith
era jovem. Puxou o lenol para trs e deitou-se, cruzando as mos sob a cabea, continuando a pensar nela. Naquela noite, ele a ouvira falar de Lisa Pontini e de
como haviam se tornado amigas, concluindo que ela no s sentia-se  vontade em clubes de campo e manses, como tambm na casa de uma famlia como a daqueles italianos.
Meredith era completamente despojada de artifcios, no tinha nenhuma afetao, no entanto possua uma finura indisfarvel, uma elegncia inerente que o atraam
tanto quanto seu rosto bonito e seu sorriso feiticeiro.
O cansao finalmente venceu-o, e ele fechou os olhos. Infelizmentt nenhum desses atributos a ajudaria, nem a levaria a achar sedutora a sugesto de ir para a
Venezuela em sua companhia, a menos que sentissealguma coisa por ele. A ideia de tentar convencer uma jovem relutante e mimada a partir para um lugar daqueles,
quando ela no tivera coragem ou vontade de percorrer o corredor e entrar em seu quarto, no parecia apenas repugnante como tambm intil.


Meredith ficou de p ao lado da cama de Julie, sentindo-se dilacerada por anseios e apreenses que no podia controlar ou prever. A gravidez ainda no estava
causando nenhum efeito fsico, porm era claro que fizera uma desordem em suas emoes. Menos de uma hora antes, no quisera ir para a cama com Matt, mas naquele
momento queria. O bom senso alertava-a de que seu futuro j era tremendamente incerto e que render-se  atrao que sentia por ele s complicaria as coisas. Com
vinte seis anos, Matt, alm de bem mais velho, era tambm muito mais experiente e levava uma vida totalmente estranha para ela. Seis semanas atrs, quando o conhecera,
Matt usava smoking, e ela se encontrava em seu prprio meio, onde estava familiarizada com tudo o que a rodeava. Ele ento, parecera-lhe igual a todos os homens
que conhecia. Mas ali, usando camisa e jeans, parecia vulgar, algo que a atraa e assustava ao mesmo tempo. Momentos antes, deixara claro que desejava que dormissem
juntos. No que se referia a mulheres e sexo, Matt era to seguro de si que podia ficar parado na porta do quarto e dizer o que desejava ela fizesse. No pedira,
nem tentara persuadi-la, dera uma ordem! Sem dvida era considerado um garanho, em Edmunton. Em sua nica noite de amor, ele a fizera contorcer-se de desejo, embora
ela estivesse sentindo-se doente de medo. Soubera que lugares tocar, como movimentar-se, para faz-la perder a cabea, e no adquirira toda aquela percia lendo.
Devia ter feito amor centenas de vezes, com centenas de mulheres, sempre de modo diferente.
Contudo, mesmo pensando assim, Meredith recusava-se a acreditar que a atrao que Matt sentia por ela fosse meramente sexual. Certo, no telefonara, depois do
encontro em Chicago, e, certo tambm, ficara to perturbada que no o deixara perceber que gostaria disso. A alegao dele, de que pretendia telefonar quando voltasse
da Amrica do Sul, da a dois anos, parecera grotesca, no momento. Mas ali, na escurido silenciosa, depois de ouvi-lo falar de seus planos para o futuro, ela compreendera
que Matt pretendera procur-la apenas quando fosse algum. Pensou no que ele contara sobre a doena e a morte da me, refletindo que um garoto que sofrera e se
revoltara tanto no podia ter se transformado num homem irresponsvel, que s se interessava pelas mulheres para
Ela interrompeu o pensamento. Ele estava longe de ser irresponsvel i Nenhuma vez, desde o instante em que ela chegara, tentara fugir  responsabilidade pelo
beb. Alm disso, por algumas coisas que o prprio Matt dissera e por observaes de Julie, era bvio que fazia tempo que ele arcava com a maior parte das responsabilidades
familiares
Se sexo fosse sua nica inteno, por que no tentara persuadi-la ir para a cama com ele, se ficara claro que era isso o que desejava Mas ela vira ternura nos
olhos cinzentos, quando Matt perguntara-lhe se era meiga como parecia, e tambm em vrios momentos, enquanto conversavam na escada do alpendre.
De sbito, ela compreendeu, sem saber como, por que ele no insistira para que dormissem juntos, sentindo-se imensamente aliviada e de certo modo assustada.
Matt queria fazer amor e poderia t-la convencido, mas se recusara. Naquela noite, ele queria algo mais, no apenas o corpo dela.
Talvez fosse uma concluso correta, mas tambm podia ser que estivesse emotiva demais nos ltimos dias e inclinada a fantasiar.
Endireitou-se, trmula de incerteza, passando a mo no ventre ainda chato num gesto inconsciente. Estava amedrontada, confusa e poderosamente atrada por um
homem que no conhecia e no compreendia. Com o corao aos saltos, foi at a porta e abriu-a. Ao sair do banheiro vira que Matt deixara a porta do quarto dele aberta.
Olharia para dentro e, se ele estivesse dormindo, voltaria. Deixaria tudo nas mos do destino.
Ele estava adormecido, e ela ficou observando-o  luz do luar que se filtrava pela cortina fina. As batidas do corao normalizaram enquanto ela continuava parada
na porta, maravilhada com a fora e impulso emocional que a levara at l.
Matt no sabia o que o acordara, at ver Meredith, que se virara para ir embora.
-No faa isso! - Ele disse as primeiras palavras que lhe passaram pela cabea para impedi-la de ir embora.
Ao ouvir a ordem autoritria, Meredith girou nos calcanhares, os cabelos flutuando a sua volta. Incerta sobre o que ele quisera dizer tentou decifrar-lhe a expresso
na escurido, mas no conseguiu. Ento aproximou-se da cama.
Matt observou-a andar em sua direo. Ela usava uma camisola deseda que mal cobria as coxas bem torneadas. Ele afastou-se para o lado e ergueu o lenol num
convite mudo.
Meredith hesitou e acabou sentando-se na borda da cama, fitando-o com evidente confuso e receio.
- No sei por qu, mas desta vez estou com mais medo do que da primeira - confessou, com voz baixa e meio trmula.
Matt sorriu, erguendo a mo e pegando-a pela nuca.
- Eu tambm estou - murmurou.
No longo silncio que se seguiu, ficaram imveis, o nico movimento sendo o dos dedos de Matt acariciando o pescoo dela, os dois percebendo que estavam para
dar o primeiro passo numa trilha desconhecida. Meredith sentia isso de modo subconsciente, e Matt via o fato com clareza, mesmo assim achando que o que iam fazer
era totalmente correto. Ela no era mais uma herdeira de um outro mundo, mas a mulher que ele desejara possuir no instante em que a vira, que estava sentada junto
dele, os cabelos tombando em seu brao como uma cascata de seda.
- Acho que devo avis-la de que podemos estar correndo um risco muito maior do que aquele de seis semanas atrs - ele disse, comeando a pux-la para baixo para
que seus lbios se aproximassem.
Meredith fitou os olhos ardentes de desejo, sabendo que ele estava se referindo  possibilidade de um profundo envolvimento emocional.
- Decida - murmurou Matt em tom rouco.
Ela hesitou, olhando para a boca firme. Teve a impresso que o Corao ia parar, recuou bruscamente e sentiu que Matt a soltava.
- Eu - comeou, abanando a cabea numa negativa, pronta para levantar-se.
Algo, porm, impediu-a. Com um gemido suave, inclinou-se e beijou-o, esmagando a boca contra a dele. Matt envolveu-a nos braos, ajeitando-a a seu lado, beijando-a
com avidez.
A mesma magia de seis semanas antes reapareceu, um pouco diferente, porque era mais quente, mais deliciosa e turbulenta. E mil vezes mais significativa.
Quando tudo acabou, Meredith virou-se de lado, lnguida, mida e saciada, sentindo as pernas dele comprimidas na parte de trs das dela. Flutuou num cochilo,
enquanto Matt passava o brao por cima de seu corpo e pousava a mo num dos seios, num gesto possessivo e provocante. Seu ltimo pensamento, antes de adormecer sorrindo,
foi que ele estava reclamando um direito que no exigira e que ela no concedera. Era bem de Matt fazer algo assim.


***

-Dormiu bem? - perguntou Julie na manh seguinte, enquanto passava manteiga nas torradas, junto ao balco.
- Muito bem - afirmou Meredith. - Posso ajudar em alguma coisa?
- No. Papai daqui a pouco estar aqui, mas entrar em servio novamente s trs e sair amanh, s sete. Quando chegar, tudo o que vai querer  comer e ir para
a cama, e j preparei tudo. Matt no come nada pela manh. Quer levar uma xcara de caf para ele? Sempre fao isso, um pouco antes de o despertador tocar. - Julie
olhou para o relgio de plstico no formato de uma chaleira, pendurado na parede. -E isso vai acontecer dentro de dez minutos.
     Satisfeita com a ideia de fazer algo to domstico como ir acordar Matt, levando-lhe caf, Meredith concordou e verteu um pouco do lquido quente numa caneca.
Depois, olhou para o aucareiro, indecisa.
- Ele toma puro - Julie disse, sorrindo para ela. - Ah, meu irmo;  um verdadeiro urso, pela manh, por isso no espere muita conversa.
-  mesmo? - perguntou Meredith, analisando mais aquela informao.
- Ele no fica zangado, mas no fala.
A garota estava certa, pelo menos em parte. Quando Meredith entrou, Matt virou-se de costas e abriu os olhos, parecendo completamente desorientado. Seu nico
cumprimento foi um leve sorriso de agradecimento, enquanto ele se sentava, estendendo a mo para a caneca. Ela ficou perto da cama, observando-o tomar o caf como
se precisasse dele para sobreviver aos minutos seguintes, ento virou-se para sair, sentindo-se uma intrusa. Matt segurou-a pelo pulso, e ela docilmente, sentou-se
na cama.
- Por qu s eu estou exausto esta manh? - indagou por fim, a voz ainda um pouco sonolenta.
- Gosto de levantar cedo - Meredith informou. - Mas acho que  tarde vou estar caindo.
Ele olhou para a camisa xadrez de Julie, cujas pontas Meredith amarrara na cintura, e depois para o short branco, tambm da irm.
Em voc, essas roupas parecem aquelas que a gente v em anncios.
    Era o primeiro elogio que Meredith ouvia dele, a no ser pelas coisas que cochichava quando estavam fazendo amor. Ela, que nunca prestava muita ateno a galanteios,
guardou aquele no corao. No tanto pelas palavras, mas pela ternura com que Matt as pronunciara.
Patrick chegou, comeu e foi para a cama. Julie saiu para a escola as oito e meia, acenando alegremente e avisando que iiia para a casa daamiga depois das aulas
e talvez dormisse l outra vez. s nove e meia, Meredith decidiu ligar para casa e falar com o mordomo, deixando um recado para o pai. Albert atendeu e passou-lhe
um recado de Philip, que mandara dizer que era para ela voltar para casa imediatamente, com uma explicao bastante convincente para aquela ausncia. Meredith pediu
para Albert dizer-lhe que voltaria no domingo e que tivera um motivo maravilhoso para ausentar-se.
Depois disso, o tempo pareceu arrastar-se e, andando com cuidado para no acordar Patrick, ela comeou a procurar alguma coisa para ler, na sala de estar. Havia
muitos livros, mas sua inquietao no a deixaria concentrar-se numa leitura longa. Entre as revistas na prateleira de cima, encontrou um folheto antigo sobre croch
e, interessada, comeou a imaginar artsticos sapatinhos de beb.
Decidiu, ento, que tentaria aprender a crochetar e, com a inteno de comprar o material necessrio, foi  cidade. No armazm Jacksons, comprou uma revista
dedicada ao croch, alguns novelos de fio espesso e uma agulha de madeira to grossa quanto seu dedo, que o vendedor assegurou ser a melhor para principiantes.
Estava abrindo a porta do Porsche, que deixara estacionado diante da casa de ferragens True Value, quando ocorreu-lhe que era responsvel pelo jantar daquela
noite. Jogando a sacola com o material dentro do carro, voltou a atravessar a rua e entrou na mercearia. Vagueou entre as prateleiras por vrios minutos, assaltada
por dvidas bastante justificadas sobre sua habilidade como cozinheira. No balco de carnes, ficou olhando os pacotes, mordendo o lbio, indecisa. Na noite anterior,
haviam comido um delicioso bolo de carne moda preparado por Julie, mas Meredith s se achava capaz de preparar algo bem simples. Examinou os bifes, as costeletas
de porco, o fgado de vitela e, quando viu as salsichas, teve uma inspirao. Com um pouco de sorte, evitaria uma catstrofe culinria e transformaria o jantar numa
aventura nostlgica. Comprou salsichas, pes para cachorros-quentes, prontos para assar, e um grande pacote de marshmallows.
Chegando em casa, guardou as compras e sentou-se no sof com a revista de croch, que exibia instrues ilustradas, a agulha e um dos novelos de fio. Aprendeu
que a base de todos os pontos era uma correntinha, e que uma principiante no devia tentar fazer outra coisa, antes de ser capaz de crochetar uma corrente de no
mnimo cem elos perfeitamente uniformes. Ela comeou a formar os elos, que ficavamcom mais de um centmetro de comprimento, devido  exagerada espessura da agulha
e do fio.
A tarde, as preocupaes das quais vinha fugindo voltaram a assalt-la, de modo que ela dedicou-se com mais afinco ao croch para distrair-se. No queria pensar
que bebs precisavam de pediatras, nem imaginar como seria o trabalho de parto. Matt pleitearia o direito de visitar a criana? Ele estaria mesmo pensando que poderiam
ser marido e mulher de verdade?
Os elos da corrente fluam da agulha, grandes e uniformes, formando um macio cordo cor de creme que se amontoava a seus ps. Ela sabia que j podia passar para
a segunda etapa do aprendizado, mas no estava com vontade de enfrentar o desafio e, alm disso, a tarefa repetitiva dava-lhe uma certa satisfao, uma sensao
de controle. s duas horas, a gravidez que ainda no parecia real, manifestou-se sob a forma de um sono incontrolvel, obrigando-a a deixar o croch. Em rodilhando-se
no sof, ela olhou para o relgio. Teria tempo de dormir um pouco e ainda estar preparada para receber Matt, quando ele chegasse. Quando Matt chegasse A ideia de
v-lo voltando para ela depois de um dia de trabalho encheu-a de alegria. Apoiando uma das facas na mo, lembrou-se do modo como fizeram amor e teve de obrigar-se
a pensar em outra coisa, pois comeou a desej-lo intensamente. Sabia que corria o grave perigo de apaixonar-se pelo pai de seu filho. Grave perigo?, refletiu com
um sorriso. Nada poderia ser mais delicioso, desde  claro, que Matt tambm se apaixonasse por ela. E era nisso que desejava acreditar.
O barulho de pneus rodando no cascalho entrou pela janela aberta e Meredith abriu os olhos, voltando-os para o relgio. Eram quatro e meia. Sentou-se no sof
e passou as mos nos cabelos, tirando-os do rosto. Levantou-se e, no momento em que estendia a mo para a mesinha de centro para pegar o novelo com a agulha e a
corrente, pretendendo esconder o trabalho, a porta abriu-se, e Matt entrou. Sentiu o corao saltar de alegria, quando o viu.
- Oi - cumprimentou-o, visualizando outras tardes, iguais quela em que o veria voltar para sua companhia. Imaginou se ele teria pensado nela, depois chamou-se
de tola, porque naturalmente Matt estivera ocupado o tempo todo. - Como foi seu dia?
Ele a olhou, e imagens de outros dias iguais quele, quando voltaria para junto de uma deusa loira, passaram por sua mente. Para junto deuma linda mulher,
cujo sorriso dava-lhe a sensao de ser um heri capaz de matar um drago, de curar resfriados e promover a paz mundial.
- Tive um dia bom - respondeu, sorrindo. - E voc?
Ela no podia dizer que passara quase o tempo todo pensando nele, sonhando e preocupando-se.
- Decidi aprender a fazer croch - respondeu, pegando o trabalho para provar o que afirmava.
- Muito domstico - ele brincou, olhando para a corrente que descia do novelo e amontoava-se sob a mesinha de centro. Ento, pareceu espantado e perguntou: -
O que est fazendo?
Meredith reprimiu uma risadinha acanhada. No tinha a mnima ideia do que resultaria dali.
- Adivinhe - desafiou, tentando disfarar a verdade.
Matt aproximou-se da mesinha, pegou a corrente e, ao estend-la, andando at a outra extremidade da sala, viu que devia medir uns trs metros e meio de comprimento.
- Um tapete? - arriscou em tom zombeteiro.
    Ela conseguiu no rir e fingir-se de magoada.
-  claro que no!
Ele foi para junto dela, mostrando-se contrito.
- Me d uma pista - pediu com gentileza.
- Para qu pistas? D para perceber perfeitamente o que vai sair da - ela declarou, prendendo o riso. - Vou fazer vrias carreiras, para que fique com uma boa
largura, e depois engomar. A voc poder usar a tira como cerca em volta de sua propriedade!
Rindo, Matt abraou-a, ignorando a agulha pressionada contra seu peito.
- Comprei algumas coisas para o jantar - ela contou, inclinando-se para trs.
Matt, que pretendia lev-la para jantar fora, olhou-a com um sorriso surpreso.
- Voc no disse que no sabe cozinhar?
- Vai entender, quando vir o que comprei.

Foram para a cozinha, com Matt envolvendo-lhe os ombros com um brao.
Ela mostrou-lhe as salsichas e os marshmallows.
    - Muito esperta - ele comentou, sorrindo. - Deu um jeito de com que eu cozinhe.
-  mais seguro assim, acredite.
No fazia mais do que dez minutos que Matt estava em casa, e por duas vezes j sentira que sua vida enchera-se de alegria e risos.
Ela levou um cobertor e a comida para fora, enquanto ele acendia uma fogueira. Jantaram no ptio de trs, comendo satisfeitos as salsichas assadas demais, pes
meio crus e marshmallows que derretiam, pingando no fogo. Falaram de tudo: da topografia da Amrica do Sul, da notvel falta de sintomas da gravidez de Meredith
e at discutiram qual seria o ponto ideal de cozimento dos marshmallows. Quando comeou a escurecer, j haviam acabado de comer, e ela recolheu os pratos, que levou
para a cozinha para lavar. Matt ficou  espera de que ela voltasse, olhando ora para o cu, ora para as folhas que empilhara no fogo para surpreend-la.
Quando Meredith retornou, o ar estava impregnado do cheiro pungente do outono, e Matt encontrava-se sentado no cobertor, fingindo que no era nada de estranho
aquele aroma de folhas queimando em pleno agosto. Ela se ajoelhou no cobertor, olhou para o fogo e depois para ele, que, mesmo na obscuridade, viu o brilho nos olhos
azuis.
- Obrigada, Matt.
- De nada - ele respondeu, achando a prpria voz estranhamente rouca. Estendeu a mo para ela e teve de lutar contra uma onda de desejo quando Meredith foi sentar-se
entre suas pernas, apoiando as costas em seu peito.
- Esta  a noite mais linda que j tive - ela declarou baixinho, e o desejo que ele sentia transformou-se em deliciosa satisfao.
Abraando-a pela cintura, acariciou-lhe a barriga, tentando no mostrar como estava emocionado. Com a mo livre, afastou os cabelos espessos e beijou-a na nuca.
- E o que me diz da noite passada?
Ela inclinou a cabea para a frente, expondo mais o pescoo.
- Ento,  a segunda noite mais linda - corrigiu.
Matt sorriu e mordiscou uma das orelhas delicadas, o desejo correndo por seu corpo, espalhando-se pelas veias como fogo, recusando-se a ser negado. Abalado por
essa fora, ele virou o rosto dela e capturou-lhe a boca num beijo. Ela correspondeu, suavemente a princpio, depois de modo provocante, quando ele introduziu a
lngua entre seus lbios
Matt perdeu o controle. Deslizou a mo sob a camisa dela e segurou um seio, provocando um gemido de prazer que anulou tudo o que lhe restava de hesitao. Virando-a,
deitou-a no cobertor e tornou a beij-laa sintonia entre os dois era to perfeita que ele sentiu quando ela hesitou, atnita com a voracidade de seu beijo. Aquela
necessidade desesperada de possu-la, que s era abrandada com muito esforo, deixava-o perplexo tambm. Dominar-se para prolongar os momentos de amor era quase
impossvel, mas ele obrigou-se a despi-la lentamente e acarici-la at que ela comeou a contorcer-se embaixo dele, correndo as mos por sua pele aquecida. O toque
das mos e da boca de Meredith incendiavam-no, e cada gemido que ela deixava escapar acelerava o fluxo de seu sangue, enquanto ele a levava de um grau de prazer
a outro mais alto, murmurando palavras loucas que exprimiam seu xtase. E ela o acompanhou, alcanou-o e finalmente gritou, o corpo sacudido por tremores, enquanto
ele derramava o lquido quente em seu corpo.
     Quando tudo serenou, Matt envolveu os dois no cobertor e ficaram deitados, olhando o cu pontilhado de estrelas, aspirando o aroma nostlgico de uma noite de
outono. Para Matt, fazer amor com outras mulheres fora apenas um ato para o prazer mtuo. Com Meredith, porm, era um ato de encantadora beleza. Rara, atormentadora,
mgica beleza. Pela primeira vez na vida, ele se sentia profundamente contente, em completa paz. E certo de que seria capaz de enfrentar o futuro, que se apresentava
mais complicado do que nunca, adaptando-o para acomodar os dois. Conseguiria, se Meredith lhe desse uma chance e tempo.
     Mais tempo com ela. Era do que precisava desesperadamente para fortalecer os laos frgeis que se apertavam mais a cada hora que passavam juntos, unindo os
dois. Se ela concordasse em ir para a Venezuela com ele, haveria tempo para isso, e permaneceriam casados. No dia seguinte ligaria para Jonathan Sommers e, sem explicar
o motivo, perguntaria sobre as acomodaes e a assistncia mdica naquela regio. Para ele, qualquer coisa serviria, mas Meredith e o beb eram uma histria completamente
diferente.
E se ele no pudesse lev-la? Esse seria um grande problema. No rodia desistir de ir para a Amrica do Sul, primeiro porque assinara um contrato, depois porque
precisava do prmio de cento e cinquenta mil dlares que receberia no fim de dois anos e que pretendia investir. Como o alicerce de um arranha-cu, aquele dinheiro
seria a base de seus planos. No era uma quantia to grande quanto ele desejava, mas seria suficiente para comear.
Deitado ao lado de Meredith, considerou a hiptese de abandonar todo o projeto e ficar nos Estados Unidos com ela, mas isso tambm era impossvel. Meredith estava
acostumada ao que havia de melhor,merecia o melhor, e era o que ele queria dar-lhe. Mas isso no seria possvel, se ele abrisse mo do emprego na Venezuela, sua
nica esperana de subir na vida.
Matt sabia que ela poderia cansar-se de esperar por ele, se no fosse junto, ou perder a f na sua capacidade de progredir, e essa ideia era um tormento. Mas
havia o beb. A criana daria a Meredith uma forte razo para esperar e confiar.
A gravidez, que ela encarara como uma calamidade, representara para ele um presente inesperado do destino. Quando a deixara, naquela noite em Chicago, pensara
que s aps dois anos poderia voltar e tentar namor-la, seguindo todas as regras, desde que ela no estivesse comprometida com outro homem. Mas era to linda e
cativante que seria assediada por centenas de pretendentes, e um deles certamente a conquistaria.
Mas o destino decidira agir e entregara o mundo em suas mos. O fato de esse destino nunca ter sido muito generoso com a famlia Farrell no o desanimava. Ele
estava finalmente pronto para acreditar em Deus e na benevolncia do universo, tudo por causa de Meredith e do beb
A nica coisa que achava um pouco difcil de acreditar era que aquela jovem e sofisticada herdeira, a loira encantadora que tomava coquetis de champanhe e comportava-se
com tanta elegncia, estava deitada a seu lado, adormecida em seus braos, abrigando seu beb no ventre
Matt espalmou a mo sobre a barriga dela e sorriu, porque Meredith no fazia ideia do que ele sentia em relao  criana. Nem como ficara feliz por ela no
ter tentado livrar-se do beb, ou dele. No primeiro dia, quando ela enumerara suas opes e falara em aborto, ele se sentira mal do estmago, como se fosse vomitar.
Queria conversar com ela sobre a criana e dizer-lhe tudo o que sentia, mas continha-se, porque sabia que estava agindo como um egostta miservel, experimentando
uma alegria to grande a respeito de algo que a angustiava tanto. Alm disso, Meredith apavorava-se cada vez que pensava no confronto com o pai, e qualquer meno
 gravidez lembrava-a do que a esperava.
O confronto com o pai Matt refletiu que o homem era um filho da me, mas fora ele quem criara aquela mulher fabulosa e por isso merecia sua gratido. Sentia-se
to grato, na verdade, que estava disposto a fazer tudo o que pudesse para facilitar as coisas entre ela e o pai, quando a levasse de volta a Chicago, no domingo.
Tentaria noesquecer que Meredith era filha de Philip Bancroft, a nica, e que amava o desgraado arrogante por razes que s ela poderia entender.


#10

- Onde est Meredith? - Matt perguntou a Julie, quando voltou do trabalho, na tarde seguinte.
A garota ergueu os olhos do dever de casa, que fazia na mesa da cozinha.
- Foi andar a cavalo. Disse que estaria de volta antes de voc chegar! mas voc chegou duas horas adiantado. - Sorriu, e acrescentou: - No sei o que o atrai
tanto aqui em casa.
- Menina - Matt murmurou, alvoroando o cabelo dela, antes de dirigir-se para a porta dos fundos.
No dia anterior, depois que Meredith dissera que gostava de cavalgar ele falara com Dale, o vizinho, e pedira-lhe emprestado um de seus cavalos.
Atravessou o ptio traseiro e depois o pedao de terra coberto de mato, onde um dia sua me cultivara uma horta, olhando para o campo esperando ver Meredith.
Aproximava-se da cerca, quando a viu, e um arrepio de medo percorreu-lhe a espinha. O cavalo castanho galopava velozmente ao longo da cerca, e ela estava inclinada
sobre o pescoo do animal, os longos cabelos esvoaando ao vento. Quando Meredith chegou mais perto, Matt percebeu que ela ia entrar e levar o cavalo na direo
do celeiro. Mudando de rumo, ele comeou a andar para l, observando-a e notando que o medo diminura e que o corao j no batia de modo descontrolado. Meredith
Bancroft cavalgava como a aristocrata que era, leve e linda sobre a sela, no total controle da montaria
- Oi! - ela o cumprimentou, corada e radiante, levando o cavalo para dentro do celeiro e fazendo-o parar junto de um fardo de feno. -  Agora, preciso andar com
ele at que esfrie.
Matt ergueu a mo para pegar o cabresto, mas pisou num ancinho jogado no cho, no momento em que Meredith comeava a descer. Ocabo do ancinho levantou-se e
bateu no focinho do cavalo, que, com um relincho de ultraje, recuou, corcoveando. Matt fez uma tentativa intil de segurar Meredith, e ela tombou para trs, caindo
sentada no feno e deslizando para o cho.
- Diabos! - ele praguejou, agachando-se e pegando-a pelos ombros. - Voc se machucou?
O fardo amortecera a queda, e ela no se ferira, mas estava mortificada.
- Se me machuquei? - ecoou, levantando-se. - Mais do que isso! Meu orgulho foi destrudo!
Ele observou-a, franzindo a testa com preocupao.
- E o beb?
Meredith parou de tirar o feno e a terra grudados na parte de trs do jeans que Julie emprestara-lhe.
- Matt, nosso beb no est aqui! - informou com ar de superioridade, pondo as mos nas ndegas.
Ele, finalmente, entendeu o gesto e viu o lugar onde ela cara, sentindo-se invadido por uma onda de alvio. Fingiu espanto, j achando graa na situao.
- No est, ?
Por vrios minutos, ela ficou observando-o com satisfao, enquanto ele puxava o cavalo lentamente de um lado para o outro. Ento, sorriu, lembrando-se de algo.
- Hoje, acabei um suter de croch para voc.
    Ele parou e encarou-a, duvidoso.
- Transformou aquela tripa num suter para mim?
- Claro que no! - ela exclamou, fingindo zanga. - Aquela tripa foi s um exerccio. Hoje fiz um suter. Bem, devo confessar que se trata de um colete, na
verdade. Quer ver?
    Ele respondeu que queria, mas parecia to constrangido que Meredith precisou morder o lbio para no rir. Momentos depois, quando voltou, ela trazia o colete
enrolado, a agulha de croch espetada nele, e um novelo de fio bege.
Matt ia saindo do celeiro, e os dois encontraram-se junto de vrios fardos de feno empilhados do lado de fora.
- Aqui est. - Ela retirou a agulha e abriu o colete. - O que acha?
     Ele olhou com indisfarvel receio para a pea e depois fitou o rosto de Meredith, parecendo atnito e impressionado. E tambm comovido. Ela no esperara por
isso e sentiu-se um pouco desconfortvel.
-  espantoso - ele comentou por fim. - Acha que vai me servir?
Meredith tinha certeza de que serviria. Antes de comprar o colete certificara-se do tamanho, olhando o nmero dos suteres dele. Quando chegara em casa, tivera
o cuidado de tirar a etiqueta que a denunciaria
- Acho que vai servir, sim respondeu.
- Quero experimentar.
- Aqui? - ela perguntou, lutando contra o repentino remorso por ter feito aquela brincadeira.
- Aqui.
Matt pegou o colete e vestiu-o com infinito cuidado, alisando-o no corpo e ajeitando o colarinho da camisa listrada para fora do decote em V.
- Como estou? - perguntou, pondo as mos nos quadris e afastando as pernas.
Meredith achou-o simplesmente maravilhoso, com aqueles ombros largos, os quadris estreitos, aquele rosto de rude beleza. Letalmente sensual, apesar do jeans
desbotado e do colete barato.
- Gostei - ele declarou. - Principalmente porque voc o fez com suas prprias mos.
- Matt - ela comeou, pronta para confessar o embuste.
- O qu?
- O colete
- No, meu bem, no se desculpe por ter feito apenas um. Poder fazer muitos outros, amanh.
Ela ainda gozava o prazer de ter ouvido Matt cham-la de meu bem, quando o sentido das palavras atingiu-a em cheio. Olhou-o e viu um brilho divertido nos olhos
cinzentos.
Numa atitude deliberadamente ameaadora, ele abaixou-se e pegou uma varinha do cho. Avanou na direo de Meredith, que comeou a recuar, rindo s gargalhadas.
- No se atreva, Matt! - ela gritava, correndo entre os fardos recuando na direo da porta do celeiro.
Colidiu com a parede e saltou agilmente para o lado, mas Matt agarrou-a pelo pulso e puxou-a, apertando-a contra o corpo.
Rindo, ela fitou-lhe o rosto sorridente.
- Agora que me pegou, o que vai fazer? - desafiou.
- Que pergunta! - ele disse com voz rouca.
    Inclinou a cabea e beijou-a com lentido sensual, at que ela reagiu entreabrindo os lbios, deixando-o aprofundar o beijo.
Meredith esqueceu que estavam em plena luz do dia, e que da casapoderiam v-los. Abraou Matt pelo pescoo, alimentando a fome dele com a sua, seguindo o ritmo
sugestivo da lngua que invadira sua boca. Quando finalmente interromperam o beijo, ofegavam, e o corpo excitado dele deixara uma marca invisvel no dela.
Matt respirou fundo e olhou para o cu, sentindo instintivamente que aquele era o momento certo para pedir a Meredith que fosse com ele para a Venezuela. Pensando
numa forma de fazer isso, dominado pelo medo de que ela recusasse, decidiu exercer uma certa coero.
- Acho que chegou o momento de conversarmos seriamente - declarou, olhando-a nos olhos. - Eu lhe disse, quando decidimos casar, que provavelmente teramos de
entrar em acordo sobre algumas coisas. Eu no sabia o que seria, exatamente, mas agora sei.
- Fale, ento.
- Quero que v comigo para a Venezuela - ele informou e ficou a espera.
Ela sentiu-se dividida entre o choque e o prazer causados por aquela declarao, e a exasperao pelo tom autoritrio que Matt usara.
- H uma coisa que preciso saber - disse. - Est querendo dizer que no nos casaremos, se eu no concordar em ir?
- Prefiro que responda a minha pergunta, antes de eu respondera sua.
Meredith levou vrios segundos para entender que, depois de pression-la com a implicao de que talvez no se casassem, Matt desejava ver se ela concordava,
sem a necessidade de uma ameaa real. Com um sorriso ntimo, provocado pelo modo desnecessariamente arbitrrio que ele usara atingir seu objetivo, Meredith fingiu
estar considerando a proposta com muito cuidado.
- Voc quer que eu v com voc? - perguntou.
- Quero. Falei com Sommers, hoje, e ele disse que as moradias e a assistncia mdica so boas, mas prefiro ver pessoalmente e me certificar. Se as condies
forem aceitveis, gostaria que voc fosse encontrar-se comigo l.
- No me parece uma proposta muito justa - ela comentou, mantendo-se sria, vingando-se dos mtodos dele, fazendo-o esperar por sua resposta.
-  a melhor que posso fazer, no momento - Matt replicou, parecendo tenso.
Meredith soltou-se dos braos dele e comeou a andar na direo da casa para esconder um sorriso.
- Voc no levar muita vantagem - declarou. - Veja bem. Fico com um marido e um beb, alm da excitao de ir para a Amrica do Sul, onde serei dona de minha
prpria casa. Voc, no entanto, ficar com uma esposa que provavelmente cozinhar suas camisas, engomar sua comida e desarrumar suas
Deu um gritinho de susto, quando Matt segurou-a por trs. Girou nos calcanhares e encarou-o. Matt estava sorrindo, olhando-a com expresso indefinvel, quando
apertou-a contra o peito.


    Da cozinha, Julie ficou olhando Matt beijar Meredith e depois solt-la com relutncia.
- Papai! - chamou por cima do ombro, sorrindo enlevada. - Matt est se apaixonando!
- Que Deus o ajude, se isso for verdade.
    Julie virou-se, surpresa.
- Por qu? No gosta de Meredith?
- Vi o jeito como ela olhou nossa casa, na primeira vez em que entrou aqui. Com ar de superioridade.
- Ela estava apavorada, papai. Notei isso logo que a vi.
- Matt  quem deveria estar apavorado. Se no alcanar o sucesso que deseja, ela o largar por algum desgraado rico, e ele no ficar com nada, nem mesmo com
o direito de visitar meu neto.
- No acredito que ela faa isso.
- Matt tem uma chance em um milho de ser feliz com essa moa - prosseguiu Patrick asperamente. - Sabe o que significa um homem casar com a mulher que ama, querer
dar tudo a ela, pelo menos algo melhor do que ela possua antes de casar, e depois no poder realizar esse desejo? Pode imaginar o que ele sente todos os dias, ao
olhar-se no espelho e ver que  um fracasso?
- Est falando de voc e mame - Julie observou, examinando o rosto enrugado. - Mas ela nunca o considerou um fracasso. Disse a mim e a Matt, mais de duzentas
vezes, como era feliz com voc.
- Eu devia t-la feito menos feliz e mant-la mais tempo viva - o pai declarou com tristeza, virando-se para sair da cozinha.
Aquele comentrio era absurdo, e os sinais de depresso no escaparam a Julie. Trabalhar em turnos duplos estava acabando com seu pai. E ela sabia que, mais
cedo ou mais tarde, talvez no dia seguinte mesmo, ele se embebedaria at ficar inconsciente.
- Mame viveu cinco anos alm do prazo previsto pelos mdicos-lembrou-o, antes de comentar: - E se Matt quer ficar com Meredith, encontrar um jeito de fazer
com que isso acontea. Ele  como mame. um batalhador.
    Patrick virou-se e encarou-a com um sorriso triste.
- Isso foi para me lembrar de que devo lutar contra a tentao?
- No. Foi minha maneira de implorar que pare de culpar-se porque no pde fazer mais do que fez. Mame lutou bravamente, e voc e Matt lutaram junto com ela.
Vocs dois finalmente acabaram de pagar as contas do hospital, no comeo deste vero. No acha que  hora de esquecer?
O pai aproximou-se e ergueu-lhe o queixo.
- Algumas pessoas sentem o amor no corao, Julie. Outras, como ele, deixam o amor invadir-lhes a alma e nunca conseguem esquecer.-Retirou a mo do rosto da
filha e olhou pela janela, os olhos assumindo uma expresso dura. - Pela felicidade de Matt, espero que ele no seja uma dessas. Seu irmo tem grandes planos para
o futuro, e isso significa que ter de fazer sacrifcios. Aquela moa nunca fez um sacrifcio na vida e no ter coragem suficiente para ficar ao lado dele, quando
as coisas ficarem difceis.
Meredith, que chegara momentos antes, ficou parada na porta, chocada com o que acabara de ouvir. Patrick virou-se, e os dois viram-se frente a frente.
-Voc ouviu o que eu disse, Meredith, e lamento - ele declarou, mostrando-se ligeiramente embaraado. - Mas  isso o que penso.
Mesmo magoada, ela continuou a olh-lo nos olhos.
-Espero que tambm no hesite em confessar que se enganou a meu respeito, quando isso ficar claro, sr. Farrell - ela disse com dignidade.
Virou-se e marchou na direo da escada, enquanto Patrick seguia-a com os olhos, perplexo.
- Deixou a coitada morta de medo - Julie zombou. - Agora entendo por que disse que Meredith no tem coragem.
O pai olhou-a, carrancudo, e saiu da cozinha, pronto para ir para o trabalho. Ao atravessar a sala de jantar, parou e olhou para a escada,vendo que Meredith
estava descendo com um suter na mo.
-Se voc provar que estou enganado, Meredith, ficarei muito feliz - declarou.
    Era uma tentativa de promover uma trgua, que ela aceitou, fazendo gesto de cabea.
     -Voc vai ser me do meu neto - Patrick continuou. - Eu gostariaque esse beb fosse criado por pais que ainda estivessem juntos, quando ele sasse da universidade.
- Eu tambm gostaria, sr. Farrell - ela respondeu, quase arrancando um sorriso dele.




#11

 luz do sol que entrava pelas janelas do carro, Meredith olhou para a aliana de ouro que Matt pusera em seu dedo no dia anterior, na simples cerimnia civil
oficiada pelo juiz local e assistida apenas por Julie e Patrick. Em comparao com os luxuosos casamentos religiosos a que ela comparecera, o seu fora rpido e mais
parecido com uma transao comercial. A noite de npcias, porm, foi tudo, menos isso. Com a casa s para eles, Matt mantivera-a acordada at o amanhecer, e haviam
feito amor vrias vezes. Talvez ele a quisesse compensar por no poder dar-lhe uma verdadeira lua-de-mel.
Pensou em todas essas coisas, enquanto esfregava a aliana no corpete do vestido que tomara emprestado de Julie. Na cama, Matt dava amor, no entanto no parecia
querer ou precisar que ela, em troca, fizesse algo para agrad-lo. s vezes, quando faziam amor, ela desejava oferecer a ele o mesmo prazer avassalador que recebia,
mas hesitava em tomar a iniciativa, e Matt no a encorajava. Ficava aborrecida, refletindo que ganhava mais do que dava, mas quando ele a penetrava, aprofundando-se
em seu corpo, esquecia tudo. Esquecia o mundo.
     Naquela manh, Matt levantara-se primeiro e levara-lhe o caf da manh. Pusera a bandeja no criado-mudo e sentara-se na borda da cama.
    - Acorde, bela adormecida, para dar um beijo neste sapo - murmurara, acordando-a.
Ela abrira os olhos e vira um sorriso de garoto em seu rosto, um sorriso de que nunca se esqueceria, enquanto vivesse.
    Agora, observando-o dirigir, notou que no havia nada de infantil naqueles maxilares quadrados e no queixo forte, mas havia momentos, quando ele ria, ou quando
adormecia, em que suas feies suavizavam-se de modo delicioso. E aqueles clios! Ela gostava de admirar os clios longos e espessos, quando ele estava dormindo,
e sentia o impulsode inclinar-se e ajeitar as cobertas a seu redor, porque ele parecia um garotinho.
Matt virou-se para ela e pegou-a examinando-o.
- Esqueci de fazer a barba? - brincou.
    Ela riu, porque a pergunta contrariava seus pensamentos.
- Na verdade, estava pensando que qualquer mulher daria tudo para ter clios iguais aos seus.
- Cuidado, moa - ele avisou, olhando-a com uma carranca cmica. - Na sexta srie, soquei um garoto porque ele disse que eu tinha clios de menina.
Meredith tornou a rir, mas como aproximavam-se de sua casa e do confronto com o pai, o bom humor que ambos haviam tentado preservar comeou a desintegrar-se.
Alm disso, Matt partiria para a Venezuela da a dois dias, de modo que o tempo que ainda tinham para ficar juntos escoava-se rapidamente. Ele, apesar de haver concordado
em que no contariam ao pai dela sobre a gravidez, era contra essa ideia
Meredith gostaria de contar, pois esconder o fato aumentava sua sensao de ser uma daquelas esposas adolescentes, que s se casavam por estarem grvidas, e
isso era odioso. Decidira que, enquanto estivesse esperando pelo momento de ir ao encontro de Matt, aprenderia a cozinhar. Nos ltimos dias, a perspectiva de ser
uma esposa de verdade com um marido e uma casa para cuidar, tornara-se extremamente atraente, apesar das conjeturas desanimadoras de Matt a respeito de como poderia
ser essa casa.
- Chegamos - ela murmurou instantes depois, quando entraram na alameda da manso. - Lar, doce lar.
- Se seu pai a ama tanto quanto voc pensa, ele tentar agir da melhor maneira, depois de superado o choque - Matt afirmou, ajudando-a a sair do carro.
Meredith esperava que ele estivesse certo, porque, se no estivesse ela teria de morar na fazenda dos Farrell, enquanto no chegasse o dia de partir para a Venezuela.
E no queria isso, sabendo como Patrick sentia-se a seu respeito.
- Aqui vamos ns - disse, respirando fundo, quando subiam a escada para a porta principal.
Como telefonara pela manh e pedira a Albert para avisar seu pai de que chegaria no comeo da tarde, achava que Philip encontrava-se a sua espera.
E no estava enganada. No momento em que abriu a porta, ele sauda sala de estar, com a aparncia de quem no dormira uma semana inteira.
- Onde, pelos diabos, voc esteve? - Philip gritou, parecendo querer agarr-la e sacudi-la. Parecendo no notar a presena de Matt, parado alguns passos atrs
dela, esbravejou: - Est tentando me deixar louco, Meredith?
- Fique calmo e deixe-me explicar - ela pediu, indicando Matt com um gesto.
- Filho da puta! - o pai explodiu ao notar quem a acompanhava.
- No  o que o senhor est pensando! - ela gritou. - Ns nos casamos!
- Vocs o qu?!
- Casamos - respondeu Matt em tom calmo.
Philip Bancroft levou apenas trs segundos para concluir que s existia uma razo pela qual Meredith se casaria com um homem que mal conhecia. Ela estava grvida.
- Deus! - exclamou, e a expresso devastada de seu rosto, a angstia profunda em sua voz magoaram Meredith mais do que qualquer coisa que ele pudesse dizer ou
fazer.
Mas quando ela imaginou que o pior j passara, descobriu que apenas comeava.
No mais chocado ou aflito, o pai ficou furioso. Girando nos calcanhares, ordenou que os dois o seguissem at o escritrio. Esperou que entrassem e fechou a
porta, batendo-a com violncia.
Ignorando Meredith completamente, comeou a andar de um lado para o outro como uma pantera enlouquecida e, cada vez que olhava para Matt, seus olhos cintilavam
com um brilho de dio que revelava desejo de matar. Por momentos que pareceram horas, dirigiu todos os improprios possveis a Matt, chamando-o at de estuprador,
ficando ainda mais irado, porque suas tiradas no tinham mais do que o silncio como resposta.
Tremendo de nervosismo e vergonha, Meredith sentou-se ao lado de Matt no sof onde tinham feito amor pela primeira vez. Abalada como estava, levou vrios minutos
para perceber que o pai ficara menos furioso por causa da gravidez do que pelo fato de ela se casar com um degenerado ambicioso de classe baixa. Quando ele finalmente
esgotou o repertrio de insultos, deixou-se cair na poltrona atrs da escrivaninha e ficou calado, batendo com um abridor de cartas no tampo, os olhos fixos em Matt.
As lgrimas no derramadas formavam um n doloroso na garganta de Meredith. Matt enganara-se. O pai no aceitaria o que eles haviam feito. Ela ia ser expulsa
da vida de Philip, como sua me fora, e, a despeito de todas as divergncias que tivera com ele, senta-se arrasada. Matt ainda era um estranho e, a partir daquele
dia, o pai seria um estranho tambm. No adiantaria tentar explicar o que acontecera, nem defender Matt, porque de todas as vezes em que ousara interromper a enxurrada
de ofensas de Philip, ele a ignorara ou ficara ainda mais furioso.
Ela se levantou.
- Eu ia ficar aqui, at que pudesse ir para a Venezuela - declarou com toda a dignidade que conseguiu demonstrar. - Mas  bvio que isso no ser possvel. Vou
ao meu quarto, pegar algumas coisas.
Virou-se para sugerir que Matt a esperasse no carro, mas no teve tempo.
- Esta  sua casa, Meredith - o pai interrompeu-a com voz tensa. - Seu lugar  aqui. Agora, gostaria de falar em particular com Farrell.
Meredith no gostou da ideia de deixar os dois homens a ss, mas Matt fez um gesto de cabea, pedindo-lhe para sair.
Quando a porta fechou-se atrs dela, ele esperou nova onda de insultos, mas Philip Bancroft parecia ter readquirido o autocontrole. Com as mos unidas no tampo
da mesa, ficou olhando para Matt, provavelmente planejando o prximo ataque. No conseguira nada, com sua demonstrao de fria, de modo que talvez usasse outra
ttica.
Matt no esperava, porm, que Philip Bancroft fosse to perspicaz que conseguisse atingi-lo no nico ponto fraco no que se referia a Meredith: o sentimento de
culpa. E muito menos que sua eficincia nisso fosse to letal.
- Parabns, Farrell - Philip escarneceu com amargura na voz - Voc engravidou uma inocente, uma menina de apenas dezoito anos com uma vida promissora pela frente,
e que teria o melhor de tudo formao universitria, viagens, tudo. - Lanando um olhar de desprezo para Matt, prosseguiu: - Sabe por que existem clubes como o Glenmoor?
Para proteger nossas famlias, nossas filhas de gente imunda como voc.
Pareceu sentir que arrancara sangue com aquelas palavras e, con os instintos de um vampiro, continuou, depois de uma breve pausa
- Meredith tem dezoito anos, e voc roubou-lhe a juventude, engravidando-a e transformando-a numa mulher casada. E agora quer lev-la para os confins do mundo,
para que viva como sua empregada.J estive na Venezuela e conheo Sommers. Sei exatamente como ele vai dirigir as operaes, onde, e como so as coisas por l.
Vocs tero de abrir trilhas na mata entre o que aquela gente chama de civilizao e o lugar onde os poos sero perfurados. A primeira chuva que cair destruir
as trilhas, os suprimentos tero de ser transportados por helicpteros, no h telefones, aparelhos de ar condicionado, nada! E  para aquele buraco mido e quente
que voc quer levar minha filha?
     Apesar de Matt saber que o prmio de cento e cinquenta mil dlares oferecido pela empresa era para compensar certas privaes que os trabalhadores sofreriam,
tivera a esperana de poder acomodar Meredith com um pouco de conforto. E, a despeito do antagonismo que sentia por Philip Bancroft, reconhecia que tinha a obrigao
de tranquiliz-lo quanto ao bem-estar da filha.
- H uma cidadezinha a noventa quilmetros de distncia - informou com voz firme, falando pela primeira vez, desde que chegara.
- Grande coisa! Naquele lugar, noventa quilmetros significam uma viagem de jipe de oito horas, e isso se a mata j no houver engolido as trilhas abertas anteriormente.
 naquela vila que voc pretende enterrar minha filha durante um ano e meio? E quando ir v-la? Estar trabalhando em turnos de doze horas, se no me engano.
- Existem casas no local da perfurao - Matt observou.
Isso era verdade, mas ele no podia ter certeza de que as moradias satisfariam seus padres, apesar de Sommers ter afirmado que eram boas. E Philip Bancroft
estava certo a respeito das trilhas e das inconvenincias da decorrentes. Matt contava com a possibilidade de Meredith achar o lugar bonito e considerar sua permanncia
l uma espcie de aventura.
-Que grande vida voc pretende dar a sua mulher! - zombou Phillip-Um barraco no local de trabalho, ou uma cabana numa vila perdida no fim do mundo! - Ento,
virou abruptamente o ngulo da prxima facada verbal: - Voc tem couro duro, Farrell, isso tenho de reconhecer. Mas tem tambm conscincia? Tomou tudo o que eu tinha
num piscar de olhos. Vendeu seus sonhos a minha filha, e ela pagou com sua vida inteira. Bem, ela tambm tinha sonhos, seu miservel. Queria ir para a universidade.
Esteve apaixonada pelo mesmo homem desde o incio da adolescncia, o filho de um banqueiro, que poderia ter dado o mundo a ela. Ela acha que no sei disso, mas sei.
Voc sabia?
    Matt cerrou os dentes com fora e no disse nada.
    - Diga-me uma coisa, Farrell. De onde Meredith tirou a roupa queest usando? - Sem esperar pela resposta, Philip Bancroft continuou: -Faz poucos dias que ela
est com voc e j nem parece a mesma. Aquele vestido deve ter sido comprado na K Mart. Isso nos leva a um assunto que imagino seja de vital importncia para voc:
dinheiro. No vai ver um centavo do dinheiro de Meredith! Fui claro?
Fez uma pausa e inclinou-se para a frente.
- Voc j roubou a vida e os sonhos de minha filha declarou. -Mas no vai pr a mo num centavo do dinheiro dela. Estarei no controle da herana por mais doze
anos. Se, por acaso, Meredith ainda estiver com voc daqui a doze anos, investirei tudo em coisas que no possam ser vendidas, nem trocadas, durante vinte e cinco
anos.
Matt permaneceu num silncio glido.
- Se acha que vou ter pena quando souber da vida que Meredith est levando com voc, e que comearei a dar dinheiro para facilitar as coisas, engana-se - Philip
informou. - Voc no me conhece. Pensa que  duro, Farrell, mas ainda no sabe o que significa dureza. No me deterei diante de nada para livrar minha filha de voc
e, se para isso for preciso v-la maltrapilha, descala e grvida, assim ser. Estou sendo claro? - perguntou rispidamente, seu autocontrole ligeiramente abalado
pela falta de reao de Matt.
- Perfeitamente. Agora, deixe-me lembr-lo de uma coisa - Matt preludiou. - H uma criana envolvida nessa histria. Meredith est grvida, portanto a maior
parte do que o senhor disse no ten importncia.
- Ela ia para a universidade e todo o mundo sabe disso - retrucou Philip. - Ser fcil mand-la para longe para ter o beb. Tambm ainda est em tempo de considerar
outra alternativa
    Uma fria quase incontrolvel acendeu-se em Matt.
- Ningum far mal ao beb! - ele declarou em tom baixo e irado.
- timo. Se quer a criana, fique com ela.
    No caos da semana anterior, Matt e Meredith no haviam comentadoessa opo. No fora necessrio, devido ao rumo que as coisas tomaram.
- Isso  totalmente irrelevante, porque Meredith quer ficar comigo. -Matt esclareceu com mais convico do que sentia no momento.
- claro que quer! - Philip concordou com escrnio. - Sexo  uma experincia nova para ela. - Olhou para Matt com expresso sugestiva e desdenhosa. - Para voc
no  to nova assim, ?
Como dois esgrimistas, eles rodeavam-se numa luta mental, onde o ataque rpido era o de Philip, enquanto Matt ficava apenas na defensiva.
- Quando voc se for, levando a fascinao do sexo, Meredith pensar com mais clareza - Philip afirmou com absoluta confiana. - Ela quer realizar os prprios
sonhos, no os seus. Quer ir para a universidade e sair com amigos. Assim, vou lhe pedir que faa uma concesso, pela qual estou disposto a pagar muito bem. Se Meredith
saiu  me, a gravidez s ser notada depois dos seis meses. Para que ela tenha tempo de refletir, quero que voc a convena a manter o casamento e a gravidez em
segredo.
- Meredith j decidiu que far isso, pelo menos at ir encontrar-se comigo na Venezuela - Matt informou.
O ar de satisfao no rosto de Philip fez Matt apertar os dentes com fora.
- timo. Se ningum souber que esto casados, ningum saber do divrcio. Tudo limpo e em ordem. O que lhe ofereo por abrir mo de minha filha, Farrell,  o
seguinte: uma polpuda quantia, que lhe permitir financiar qualquer empreendimento louco, depois que voltar da Amrica do Sul.
Em silncio, Matt viu o sogro tirar um talo de cheques da gaveta. Por puro desejo de vingana, deixou que ele preenchesse um deles, embora no fosse aceitar.
Era uma pequena desforra pelo tormento ntimo que aquele homem causara-lhe.
Por fim, Philip pousou a caneta, ergueu-se e foi em direo a Matt, que se levantou lentamente.
- Assim que voc sair daqui, vou falar com o banqueiro e dizer que este cheque no deve ser pago at segunda ordem - Philip Bancroft avisou. - Quando voc convencer
Meredith a desistir desse casamento e a deixar a criana a seus cuidados, o pagamento ser liberado.  uma recompensa de cento e cinquenta mil dlares, por voc
no destruir a vida de uma garota de dezoito anos de idade. Pegue!
Matt ignorou a ordem.
- Pegue o cheque, porque ser o nico dinheiro meu em que por as mos - o sogro insistiu.
-No estou interessado no seu maldito dinheiro!
-Estou avisando, Farrell. Pegue o cheque!
- Enfie no
O pai de Meredith fechou a mo, preparando-se para desferir um soco. Matt desviou-se, quando o punho veio em sua direo, e agarrou o brao de Philip, torcendo-o
para trs.
- Oua bem o que vou dizer, Bancroft - recomendou, em tom zombeteiro. - Dentro de alguns anos, terei dinheiro para comprar voce depois revend-lo, mas se tentar
interferir no meu casamento, eu o matarei. Estamos entendidos?
- Solte meu brao, seu filho da puta!
    Matt empurrou-o para longe e marchou na direo da porta.
- Aos domingos, almoamos s trs horas - Philip informou, recuperando a compostura com rapidez espantosa. - Espero que no perturbe Meredith, contando-lhe o
que aconteceu aqui. Afinal, ela est grvida.
Surpreso, Matt parou, j com a mo na maaneta, e virou-se, olhando-o em tcito acordo. A ira de Philip Bancroft parecia ter-se esvado e o homem dava a impresso
de estar comeando, embora com relutncia, a aceitar o fato de que no podia desfazer o casamento, e que insistir nessa tentativa abriria uma brecha talvez intransponvel
entre ele e Meredith.
- No quero perder minha filha, Farrell.  evidente que voc e eu nunca chegaremos a gostar um do outro, mas, pelo bem de Meredith acho que poderamos tentar
viver em paz.
Matt examinou o rosto transtornado, mas no viu sinal de duplicidade em sua expresso. E o que Philip propunha era algo lgico, sensato que interessava tanto
a ele prprio quanto  filha.
- Podemos tentar, sim.
Philip Bancroft observou-o sair e fechar a porta. Ento, picou o cheque em pedacinhos, sorrindo maldosamente.
- Farrell, voc cometeu dois erros: recusou o cheque e subestimou seu adversrio.


Deitada ao lado de Matt, Meredith olhava para o dossel escuro acima de sua cama, alarmada com a mudana que notara nele aps aquela conversa em particular com
seu pai. Quando perguntara o que haviam falado, Matt apenas dissera que Philip tentara convenc-lo a sair davida dela. Como depois os dois trataram-se com educao,
ela assumiu que fora declarada uma trgua, e, brincando, perguntara se o pai o convencera a deix-la. Matt respondera que no, e ela acreditara, e naquela noite
ele a amara com fria, como se quisesse deixar uma marca indelvel em seu corpo. Ou como se estivesse se despedindo.
Desviando o olhar do dossel, olhou para Matt, que, completamente desperto, parecia perdido em pensamentos, o rosto indecifrvel. No saberia dizer se ele estava
com raiva, triste, ou simplesmente preocupado. Fazia apenas seis dias que viviam juntos e um tempo to curtoera uma desvantagem, pois ela no conseguia, de modo
algum, avaliar o estado de esprito de seu marido.
- Est pensando em qu? - ele perguntou de repente.
- Que estamos juntos h apenas seis dias.
Um sorriso distendeu a boca atraente, como se fosse exatamente aquela a resposta que ele esperara.
- Uma tima razo para desistir da ideia de levar o casamento adiante, no?
A inquietao de Meredith transformou-se em doloroso medo com essas palavras e, com absoluta clareza, ela compreendeu o motivo dessa violenta reao. Estava
apaixonada por Matt. Perdidamente. E isso a deixava vulnervel. Pretendendo aparentar naturalidade, virou-se de bruos, apoiando o corpo nos cotovelos, sem saber
definir se ele fizera uma observao, ou se tentava adivinhar o que ela pensava a respeito. Seu primeiro impulso foi achar que Matt apenas expusera sua opinio e
para salvar o orgulho, ela teria de concordar ou aparentar indiferena. Mas se fizesse isso, jamais saberia com certeza o que passava pela cabea dele, e incerteza
era algo que quase a enlouquecia. Alm disso, no lhe parecia uma atitude madura, tirar concluses sem discutir o assunto, especialmente naquela situao em que
havia tanta coisa em jogo. Decidiu, ento, procurar descobrir o que ele quisera dizer.
- Pediu minha opinio, ou deu a sua? - indagou.
- Perguntei se era isso o que voc estava pensando.
    Meredith foi invadida por uma onda de alvio.
- No, s pensei que  difcil para mim compreender voc, porque apenas seis dias que estamos juntos - ela explicou, esperando que ele dissesse alguma coisa,
mas ele permaneceu calado, ainda com aquela expresso fechada. Ento, com um sorriso nervoso, pressionou:-Em que voc est pensando?
-Que nos casamos s porque voc deseja que o beb seja filho legtimo e porque no queria que seu pai soubesse da gravidez. Masele j sabe. E a criana vai
nascer legitimada. Assim, em vez de tentarmos fazer o casamento funcionar, podemos optar por outra soluo, que no nos ocorreu antes: o beb ficar comigo.
     A resoluo de Meredith, de reagir com calma e maturidade, desabou,e ela chegou a uma concluso bvia.
- Isso o livraria do fardo de uma esposa indesejvel, no ?
- No fiz a sugesto por esse motivo.
- No? - ela duvidou em tom de escrnio.
- No - ele assegurou, virando-se de lado e comeando a acariciar-lhe o brao.
O temperamento forte de Meredith, ento, explodiu.
- No ouse querer fazer amor comigo outra vez! Nunca mais! - gritou, puxando o brao. - Posso ser muito nova, ainda, mas tenho direito de saber o que est acontecendo,
e no quero ser usada, noite aps noite, como se fosse apenas um corpo sem crebro para pensar. Se quer acabar com o casamento,  s dizer!
- Diabos, Meredith! No estou querendo acabar com nada! - ele retrucou, tambm exasperado. - Mas estou me afundando em sentimento de culpa! Culpa, Meredith,
no covardia! Voc ficou grvida! me procurou, apavorada, de modo que a transformei numa mulher casada, para usar as palavras de seu pai. Roubei sua juventude, seu
sonhos, e a fiz comprar os meus.
Cheia de alegria por saber que era por se sentir culpado, e no arrependido, que Matt ficara to diferente, Meredith soltou um longo suspiro e abriu a boca para
dizer alguma coisa, mas ele a impediu com um gesto.
- Voc disse que no quer morar na fazenda, enquanto eu estiver fora, mas a casa de minha famlia  um lugar mil vezes melhor do que meu local de trabalho na
Venezuela. Tem a iluso infantil de que levar esta mesma vida na Amrica do Sul, ou aqui, depois que voltarmos? Se tem, vai ficar decepcionada. Mesmo que as coisas
saiam como esperl anos se passaro, antes que eu consiga lhe dar a vida a que est acostumada. Talvez eu nunca possa comprar uma casa igual a esta.
- Uma casa igual a esta - Meredith repetiu, enterrando o rosto no travesseiro e desatando em riso.
- No acho nada engraado - Matt informou, parecendo zangado e surpreso.
-  engraado, sim - ela afirmou, continuando a rir. - Esta casa  horrvel, no tem nada de aconchegante, e nunca gostei dela. - Quando Matt no fez nenhum
comentrio, ela ergueu a cabea, afastou o cabelo que lhe cara no rosto e fitou-o, ainda rindo. - E quer saber uma coisa?
Determinado a faz-la compreender os sacrifcios que teria de fazer por causa dele, Matt resistiu ao impulso de mergulhar os dedos na cascata brilhante de cabelos
loiros.
- O qu? - perguntou em tom suave, quase divertido.
- Tambm no gosto de ser to jovem! - ela declarou.
Como resposta, Matt tomou-lhe o rosto entre as mos e beijou-a sofregamente, deixando-a sem flego e incapaz de pensar.
- Prometa-me uma coisa, Meredith - pediu, quando o beijo acabou. Se mudar de ideia sobre nosso casamento, enquanto eu estiver longe, prometa que no far um
aborto. Darei um jeito de criar nosso beb.
- No vou mudar de
- Prometa que no se livrar da criana!
Percebendo que era intil argumentar, ela moveu a cabea numa afirmativa, fitando os magnficos olhos cinzentos.
- Prometo - murmurou com um sorriso meigo.
Sua recompensa por aquela promessa foi mais uma hora de prazer, e daquela vez Matt voltou a ser o homem que ela conhecia.


Parada com Matt na entrada de carros da manso, Meredith beijou-o em despedida pela terceira vez. O dia comeara bem. No caf da manh, uma hora antes, o pai
perguntara se mais algum sabia do casamento, e Meredith lembrou-se de que telefonara para Jonathan Sommers na semana anterior, depois que ligara para a casa de
Matt e ningum atendera.
Para disfarar a verdade, dissera a Jonathan que encontrara no carro um carto de crdito de Matt, a quem dera carona na sada do Glenmoor, e que queria devolver.
Ficara sabendo que Matt continuava em Edmunton. Contou isso ao pai, que comentou que seria ridculo anunciar que os dois haviam se casado poucos dias aps ela telefonar
para Jonathan  procura de Matt. Philip sugeriu que fossem para a Venezuela e deixassem que todos pensassem que o casamento acontecera l. No deixava de ter razo,
mas Meredith nunca soubera dissimular a verdade. estava zangada por ter criado uma situao que exigia tantas mentiras. Ento, chegara o momento da despedida, e
a partida de Matt pairava sobre ela como uma nuvem negra.
- Telefonarei do aeroporto - ele prometeu. - E falarei com voc tambm da Venezuela, assim que verificar como so as coisas por l. Vou me comunicar por telefone,
mas atravs de ondas de rdio, e a ligao no ser muito boa. O equipamento no estar  total disposio dos empregados, mas poderemos us-lo em casos de emergncia.
Vou convenc-los de que ligar para voc, para dizer que cheguei bem, no tontraria essa regra. No entanto, no poderei usar a mesma estratgia de novo, voc entende.
- Me escreva, ento - ela pediu, tentando sorrir.
- Vou escrever. O servio postal de l talvez seja ruim, de maneira que no se surpreenda se os dias passarem e voc no receber nenhuma carta e, de repente,
chegar uma poro delas de uma vez.
Ela ficou parada na alameda, observando-o partir, ento voltou lentamente para casa, forando-se a pensar que, se tivessem sorte, dentro de poucas semanas estariam
juntos novamente.
O pai esperava-a no vestbulo, e olhou-a com ar de compaixo.
- Farrell  o tipo de homem que precisa de novas mulheres, novos lugares e novos desafios, o tempo todo. Voc se machucar, se ficar contando com ele.
- Pare com isso - Meredith exigiu, recusando-se a ficar perturbada. - O senhor est enganado e vai descobrir.


Matt cumprira o que prometera e ligara do aeroporto. Mas ainda no se comunicara da Venezuela, e, para preencher o tempo nos dois dias seguintes, Meredith dedicou-se
a fazer uma arrumao em suas coisas. No terceiro dia ele telefonou, mas Meredith fora ao ginecologista, pois percebera um ligeiro sangramento e achara que estava
abortando
- Pequenos sangramentos nos trs primeiros meses no so muito raros - o dr. Arledge explicou, depois que ela se vestiu. - Por outro lado, a maioria dos abortos
ocorre tambm nesse perodo.
Disse aquilo como se esperasse que Meredith ficasse aliviada. O mdico era amigo de Philip e a conhecia desde que ela era menina. Com certeza tambm adivinhara
que o casamento acontecera apenas por causa da gravidez.
- Mas no h motivo para achar que voc esteja abortando -  ele acrescentou.
Quando ela perguntou sua opinio a respeito de sua ida para a Venezuela, ele franziu a testa.
- No aconselho, a menos que voc tenha certeza da boa qualidade da assistncia mdica.
Meredith passara quase um ms rezando para no estar grvida e, no caso de estar, para que acontecesse um aborto. Agora, sentia um alvio imenso em saber que
no ia perder o filho de Matt. O beb dos dois
Fez o percurso todo de volta para casa, sorrindo.
- Farrell telefonou - o pai informou com desdm. - Disse que tentar ligar novamente,  noite.
Ela ficou sentada ao lado do telefone e atendeu ao primeiro toque. Matt no exagerara. A ligao era pssima.
- Sommers no sabe o que significa lugar adequado - ele criticou. - De modo algum voc poder vir para c, pelo menos no j. Isto aqui  quase um acampamento
de exrcito. Mas a boa notcia  que uma das casas estar desocupada dentro de alguns meses.
- Est bem - ela disse, tentando mostrar-se alegre.
- Parece que no ficou muito desapontada por ter de esperar.
- Fiquei! - ela respondeu enfaticamente. - Mas o mdico disse que os abortos geralmente ocorrem nos trs primeiros meses, ento ser melhor eu continuar aqui
por mais um tempo.
- Voc se preocupou com um aborto? Por qu? - ele perguntou, quando os zumbidos e estalidos de esttica permitiram.
Meredith conseguiu dizer que estava tudo bem. Ficara triste, quando ele dissera que no poderia telefonar mais depois daquela primeira vez,mas isso j no tinha
importncia. Conversar daquele jeito, gritando para se fazer ouvir acima dos rudos e das vozes dos homens que falavam ao redor de Matt, era horrvel. Seria muito
melhor escrever cartas.
Lisa voltou da Europa duas semanas aps a partida de Matt, e sua reao, quando soube de tudo, foi quase cmica.
- No acredito! No acredito! - repetia, tomada de pasmo, at que arreliou: - Tem alguma coisa errada nessa histria. Eu era a ovelha negra da Bensonhurst, e
voc, a prpria Mary Poppins, sem dizer que nunca conheci pessoa mais cautelosa. Se algum tinha de apaixonar-se  primeira vista por um homem, ficar grvida e casar,
esse algum era eu!
Meredith sorriu, contagiada por sua animao.
- J estava na hora de eu ser a primeira a fazer alguma coisa.
- Ele deve ser maravilhoso, no , Meredith? Se no for, no serve para voc - declarou a amiga, olhando com ar srio para Meredith, sentada a seu lado na cama.
Falar de Matt e de seus sentimentos por ele era uma experincia nova e complicada, porque Meredith sabia que pareceria estranho ela afirmar que o amava, depois
de apenas seis dias de convivncia.
-Matt  maravilhoso, sim - disse, pretendendo parar por a. Masera difcil, porque precisava falar dele. - Lisa, voc j sentiu, cinco minutos depois de conhecer
um homem, que ele seria a pessoa mais importante de toda sua vida?
- Geralmente sinto isso em relao a todos os homens que conheo. Estou brincando! - Lisa riu, e Meredith jogou um travesseiro em cima dela.
- Matt  especial. Tem uma inteligncia brilhante,  forte, um pouco autoritrio, s vezes, mas gentil, bom e
- Por acaso tem uma foto desse modelo de perfeio? - Lisa interrompeu-a.
Meredith pegou uma foto da gaveta do criado-mudo.
- Encontrei esta num lbum que a irm dele, Julie, me mostrou, e ela disse que eu podia trazer. Foi tirada um ano atrs e, embora no seja muito boa, no me
faz lembrar apenas o rosto de Matt, mas um pouco de sua personalidade tambm.
Lisa pegou a fotografia e olhou-a. Matt estava com as mos nos bolsos do jeans e sorria para Julie, que tirara a foto, apertando os olhos por causa do sol.
- Meu Deus! - Lisa exclamou baixinho. - Isso  que  magnetismo animal, carisma masculino
Rindo, Meredith tirou a foto da mo dela.
- Pare de babar em cima de meu marido - ordenou.
    A amiga fitou-a, intrigada.
Mas voc sempre gostou de rapazes loiros, esguios, do tipo ben americano.
- Na verdade, no achei Matt muito bonito, na primeira vez en que o vi. Mas meu gosto melhorou, desde ento.
- Acha que est apaixonada por ele, Meredith?
- Adoro estar com ele.
- E no  a mesma coisa?
    Meredith sorriu.
    - , mas parece tolice dizer que me apaixonei por um homem que mal conheo.
Lisa levantou-se.
- Vamos sair para comemorar - sugeriu. - O jantar  por sua conta.
- Vamos! - concordou Meredith, descendo da cama e caminhando na direo do armrio para escolher uma roupa.


O servio de correios na Venezuela era muito pior do que Matt imaginara. Nos dois meses seguintes, Meredith escreveu-lhe trs ou quatro cartas por semana, mas
recebeu apenas cinco. Philip no deixava de salientar esse fato, e ela sempre replicava, dizendo que as cartas de Matt eram muito longas, chegando a ocupar dez pginas,
e que ele estava trabalhando doze horas por dia. O que nunca disse foi que as duas ltimas cartas tinham sido bem menos calorosas que as anteriores. Ele, que nunca
deixara de afirmar que sentia falta dela e de falarde seus planos, comeara a dedicar mais pginas  descrio do local de trabalho e dos arredores do que a qualquer
outra coisa. Meredith explicava a si mesma que ele fazia isso, no porque perdera o interesse por ela, mas porque desejava anim-la a respeito do pas para onde
iria em breve.
Para se manter ocupada e ajudar o tempo a passar mais depressa, lia livros sobre gravidez e puericultura, comprava roupinhas e artigos de beb, planejava e sonhava
acordada. A criana, que a princpio no parecera real, comeou a manifestar-se, provocando as famosas nuseas, que deveriam ter ocorrido mais cedo, e dores de cabea
que foravam Meredith a ficar deitada no escuro. Ela encarava tudo com bom humor e convicta de que estava passando por uma experincia muito especial. E desenvolvera
o hbito de falar com o beb, pondo a mo na barriga que ainda no crescera.
- Espero que esteja se divertindo a dentro - disse um dia, reclinada contra os travesseiros, quando a dor de cabea diminuiu. - Porque est me fazendo comer
o po que o diabo amassou, mocinha.
Em respeito  imparcialidade, s vezes chamava o beb de mocinha, e em outras de rapazinho, mas no tinha realmente nenhuma preferncia.
No fim de outubro, no quarto ms de gestao e com a cintura mais grossa, ela estava preocupada com a falta de cartas de Matt. E foi a que os constantes comentrios
do pai sobre seu marido querer cair fora comearam a surtir efeito.
- Foi timo voc no ter dito a ningum, exceto a Lisa, que se casou com ele - Philip observou, alguns dias antes do Dia das Bruxas. -Voc ainda tem opes,
Meredith - acrescentou com surpreendente gentileza. - Quando a gravidez tornar-se evidente, diremos que voc foi para a universidade, comear o primeiro semestre.
-Pare de falar desse jeito, droga! - ela explodiu e subiu para o quarto.
Decidira castigar Matt pela falta de cartas, diminuindo a quantidade das que escrevia para ele. Comeara a sentir-se uma idiota, escrevendo com tanta frequncia,
quando no recebia nem um carto-postal.
Lisa ligou ao entardecer e no levou dois minutos para sentir a tenso e Meredith e adivinhar a causa.
- Nenhuma carta de Matt, no ? E seu pai continua assobiando a mesma msica de sempre em seu ouvido, certo?
- Certo. Faz quinze dias que a ltima carta chegou.
- Vamos sair - decidiu Lisa. - Bem-arrumadas, que isso melhora o estado de esprito, e escolheremos um lugar bem gostoso para ir.
- O que acha de irmos jantar no Glenmoor? - Meredith props, pondo em movimento as engrenagens de um plano que acalentava havia vrias semanas. - Talvez Jonathan
Sommers esteja l, e voc comear a fazer muitas perguntas sobre a extrao de petrleo. Pode ser que ele faa algum comentrio sobre Matt.
- Por mim, tudo bem - Lisa concordou.
Meredith, porm, sabia que a opinio da amiga sobre Matt piorava cada vez mais, enquanto os dias passavam e no chegava nenhuma carta.
Jonathan encontrava-se no salo de estar com vrios outros homens, bebendo. Quando as duas entraram, causaram evidente agitao e logo foram convidadas para
juntar-se ao grupo, no jantar.
Durante quase uma hora, Meredith ficou sentada ao balco do tal bem perto do lugar onde estivera com Matt quatro meses atrs, enquanto Lisa desempenhava seu
papel numa atuao que mereceria um Oscar mentindo a Jonathan que estava pensando em estudar geologia e dedicar-se  explorao de petrleo, crivando-o de perguntas.
Isso fez com que Meredith aprendesse muito sobre o assunto, que absolutamente no a interessava, mas Jonathan no tocou no nome de Matt.
Duas semanas depois, o dr. Arledge no estava mais sorridente e confiante, quando falou com Meredith aps o exame. O sangramento voltara mais srio, e o mdico
recomendou repouso. Ela, ento, mais do que nunca desejou que Matt estivesse por perto. Quando chegou em casa, ligou para Julie, s para conversar com uma pessoa
ligada a ele. J telefonara duas vezes para a mocinha, pelo mesmo motivo, e em ambas as ocasies soube que os Farrell haviam recebido carta de Matt.
Na cama, naquela noite, ficou acordada durante muito tempo, desejando que o beb estivesse bem e que o pai dele escrevesse. Fazia um ms que chegara a ltima
carta, na qual ele explicara que se encontrava extremamente ocupado e que  noite sentia-se cansado demais. Isso Meredith podia compreender, mas no entendia por
que ele achava tempo para escrever para a famlia e para ela no.
- Seu papai vai receber uma carta bem mal criada da mame, por causa disso - confidenciou ao beb, afagando a barriga.
Esse pensamento devia ter funcionado, porque Matt fez uma viagem de oito horas de jipe para telefonar para ela. A alegria de Meredith fora enorme, mas ele parecia
um tanto frio.
- A casa no local de trabalho ainda no est desocupada - Mattcontou. - Encontrei uma, na vila prxima, mas s poderei ir at l para v-la nos fins de semana.
Meredith no poderia ir, mesmo que quisesse, porque o mdico desejava v-la a cada sete dias, e a proibira de toda atividade fsica, limitando at suas caminhadas.
No seria possvel ir para junto de Matt, nem ela desejava contar-lhe que corria o risco de perder o beb. No entanto, estava to zangada, por ele no escrever,
e to preocupada com a criana, que decidiu assust-lo um pouco.
- No posso ir, Matt. O mdico quer que eu permanea em casa, sem me movimentar muito.
- Que estranho - ele comentou. - Sommers esteve aqui e disse que na semana passada voc e sua amiga Lisa estiveram no Glenmoor, fascinando todos os homens presentes.
- Isso foi antes de o mdico me mandar no sair de casa.
- Entendo.
- O que esperava que eu fizesse? Que ficasse trancada, dia aps dia, esperando uma carta sua? - perguntou, exasperada.
- Podia tentar - ele retrucou. - Por falar nisso, voc tambm no  uma correspondente muito boa.
Tomando aquilo como uma crtica ao seu jeito de escrever, ela ficou to furiosa que quase reps o telefone no gancho.
- No tem mais nada a dizer? indagou.
- Pouca coisa.
Quando desligaram, Matt apoiou a cabea na parede onde ficava o telefone pblico e fechou os olhos, tentando livrar-se da agonia causada pela conversa. Fazia
trs meses que ele partira, e Meredith j no queria ir ao seu encontro, nem mesmo escrevia mais. Ela mentira. Dissera que o mdico a proibira de sair de casa, mas
fora ao clube. No entanto, s tinha dezoito anos, e era natural que desejasse divertir-se.
- Droga! - ele murmurou por entre os dentes.
Depois de alguns instantes, endireitou-se, sabendo o que deveria fazer Dentro de poucos meses a situao no local das perfuraes estaria mais estabilizada,
e ele pediria quatro dias de folga para ir a Chicago ver Meredith. Apesar de tudo, sabia, no fundo do corao, que ela o queria e que desejava continuar casada.
Ele pegaria um avio, iria visit-la e faria de tudo para lev-la para a Venezuela.
Depois de pousar o telefone no gancho, Meredith jogou-se na cama e chorou at ficar com os olhos inchados. Quando Matt falara da casa, no se esforara para
pintar um quadro atraente, nem se mostraraansioso para que ela fosse para junto dele. Quando conseguiu parar de chorar, escreveu-lhe uma longa carta, pedindo desculpas
por no ser uma correspondente muito boa e por ter perdido a calma. Desistindo de todo o orgulho, confessou que as cartas dele eram muito importantes para ela
e descreveu detalhadamente a conversa que tivera com o mdico.
Quando terminou, levou a carta para baixo com a inteno de pedir a Albert para coloc-la no correio. No demorou muito para encontrar o homem, que desempenhava
as tarefas de mordomo, motorista e zelador, e que no momento tirava o p dos mveis da sala de estar. Como a sra. Ellis tirara frias de trs meses, o primeiro perodo
de descanso em tantos anos de trabalho, ele estava fazendo tambm o servio dela.
- Albert, voc colocaria esta carta para mim no correio?
- Naturalmente - ele respondeu.
Mas, assim que viu Meredith subir a escada, foi ao escritrio de Philip, destrancou uma gaveta da escrivaninha antiga e colocou a carta numa pilha formada por
muitas outras, quase todas com selos e carimbos da Venezuela.
Meredith entrou no quarto e estava atravessando o aposento para voltar  escrivaninha, quando a hemorragia comeou.
Passou dois dias no hospital Cedar Hills, na ala Bancroft, que recebera esse nome como agradecimento  famlia de Meredith, por suas doaes generosas. Ela rezou
quase que o tempo todo para que a hemorragia no recomeasse e que Matt, miraculosamente, aparecesse para v-la. Queria o beb e tambm o marido, mas tinha o horrvel
pressentimento de que estava perdendo os dois.
Quando o dr. Arledge deu-lhe alta, foi sob a condio de que ficasse em repouso absoluto, na cama, at o fim da gravidez. Assim que chegou em casa, ela escreveu
a Matt e, com o objetivo de assust-lo e obrig-lo a preocupar-se, contou-lhe em detalhes tudo o que acontecera. Decidiu fazer qualquer coisa para no deixar que
ele a esquecesse.
O repouso pareceu afastar o risco de um aborto imediato, mas sem nada para fazer, alm de ler e assistir  televiso, ela ficou com tempo de sobra para pensar
na dura realidade: Matt a apreciara como parceira de cama, mas j a esquecera, e ela precisava planejar o que faria para criar a criana sozinha.
Esse era um problema com o qual no precisaria preocupar-se. No quinto ms de gestao, repentinamente no meio da noite, aconteceunova hemorragia. Todos os
recursos mdicos foram impotentes para salvar o beb, uma menina, que Meredith chamou de Elizabeth, em [homenagem  me de Matt. E quase no puderam salvar Meredith.
Seu estado permaneceu crtico durante trs dias. Na primeira semana que permaneceu no hospital, imobilizada, com tubos ligados a seu corpo, ela nunca deixou de prestar
ateno aos rudos no corredor, esperando ouvir os passos rpidos e largos de Matt. O pai dela tentou falar com ele por telefone, mas no conseguiu, ento mandou
um telegrama.
Matt no apareceu. Nem telefonou.
No meio da segunda semana, todavia, ele enviou um telegrama em resposta. Curto, direto, mortal: O divrcio  uma excelente ideia. Pea o nosso.
Ela se recusou a acreditar que Matt houvesse sido capaz de enviar um telegrama daqueles, estando ela no hospital.
- Lisa, para fazer isso, ele deve me odiar - comentou, chorando histericamente. - No fiz nada para merecer o dio de Matt! No foi ele que mandou o telegrama.
No foi!
Pediu  amiga para ir  Western Union e descobrir quem mandara a mensagem. Com relutncia, um funcionrio confirmou que o telegrama fora enviado da Venezuela
por Matthew Farrell, que o pagara usando um carto de crdito.
Meredith saiu do hospital num dia frio de dezembro, amparada por Lisa e pelo pai. Olhou para o cu brilhante e azul, mas ficou indiferente. Tudo parecia estranho
demais.
Por insistncia de Philip, concordou em comear o primeiro semestre na universidade Northwestern, onde ela e Lisa ficariam no mesmo quarto.
Fez isso sem nenhum entusiasmo, esquecida de que um dia desejara ardentemente estudar l. Mas, com o tempo, lembrou-se dos planos que tecera, reaprendeu a sorrir
e, depois, a rir. O mdico avisara que uma futura gravidez seria ainda mais perigosa, para o beb e para ela, mas Meredith conseguiu lidar com isso tambm.
A vida desferira-lhe grandes golpes, mas ela sobrevivera e descobrira uma fora interior que no sabia que possua.
Philip contratou um advogado que fez o divrcio. Ela no teve notcias de Matt, mas superara tudo to bem que podia pensar nele sem sofrimento ou animosidade.
Tornara-se bvio que ele concordara em casar-se apenas por causa da gravidez e porque era ganancioso. No vira mais utilidade para ele, quando descobrira que Philip
estava nocontrole de sua herana. Com o tempo, Meredith parou de culp-lo, reconhecendo que tambm se casara por motivos egostas, pois ficara grvida e tivera
medo de enfrentar sozinha as consequncias. E Matt nunca a enganara, nunca dissera que a amava. Haviam se casado por todas as razes erradas, e o casamento estivera
fadado ao fracasso desde o incio.
Estava cursando o primeiro ano na universidade, quando um dia encontrou-se com Jonathan no Glenmoor, e ficou sabendo que o pai dele gostara tanto de uma ideia
de Matt, que fizera uma sociedade limitada com ele, fornecendo o capital para a execuo do projeto.
O empreendimento deu certo. Nos onze anos que se seguiram, muitos outros negcios de Matt tambm deram. Ele comeou a aparecer em revistas e jornais. Meredith
lia os artigos, via as fotos, mas estava ocupada demais com sua prpria carreira, para prestar muita ateno ao que ele fazia. A imprensa, porm, prestava, e muita.
Noticiar seu exuberante sucesso e casos com mulheres, inclusive vrias estrelas do cinema, tornou-se uma obsesso para os jornalistas. Para as pessoas comuns, ele
devia representar o sonho americano do rapaz pobre que subira na vida. Para Meredith, no passava de um estranho, cujo nome ela jamais mencionava, com quem um dia
tivera um relacionamento ntimo. Como apenas o pai e Lisa soubessem que os dois haviam sido casados, os casos romnticos de Matt, cercados por ruidosa publicidade
no lhe causavam nenhum constrangimento.








#12

Novembro, 1989

O vento soprava as pedrinhas soltas, fazendo-as cair na areia, seis metros abaixo da plataforma rochosa onde Brbara Walters caminhava ao lado de Matthew Farrell.
Uma cmera de televiso seguia-os, observando-os com seu olho escuro, emoldurando-os entre a propriedade palaciana de Farrell, na Califrnia, e o turbulento oceano
Pacfico.
O nevoeiro parecia um cobertor grosso que se desdobrava, ondulante, impulsionado para a frente pelas mesmas rajadas impiedosas de vento que despenteavam os cabelos
de Brbara e jogavam areia na lente da cmera. No ponto combinado, a mulher parou, virou-se para Farrell e comeou a fazer-lhe uma pergunta. A cmera moveu-se tambm,
focalizando apenas os dois contra o nevoeiro cinzento.
-Corte! - ela gritou, afastando os cabelos do rosto com impacincia, puxando algumas mechas grudadas no batom em seus lbios. Virando-se para a maquiladora,
perguntou: - Tracy, voc tem alguma coisa que possa segurar meus cabelos?
- Cola Elmers? - sugeriu Tracy, numa tentativa desajeitada de fazer graa.
Pedindo licena a Farrell, Brbara Walters seguiu a jovem maquiladora na direo da perua estacionada entre alguns ciprestes, no jardim da propriedade.
- Odeio nevoeiro! - exclamou o operador da cmera, olhando carrancudo para a bruma espessa que amortalhava a linha costeira, obstruindo a vista panormica da
baa Half Moon, que ele planejara usar como cenrio naquela entrevista. - Odeio - repetiu, erguendo o rosto furioso para o cu. - E odeio vento!
Endereara sua queixa ao Todo-Poderoso e, como em resposta, um punhado de areia rodopiou a seus ps e subiu, atingindo-o no peito e no rosto.
- Parece que Deus tambm no gosta muito de voc - comentou seu assistente, rindo. Esperou que o irado companheiro tirasse a areia das sobrancelhas e estendeu-lhe
uma xcara de caf fumegante.  O que sente a respeito de caf?
- Tambm odeio - o cmera respondeu, mas pegou a xcara.
    O assistente indicou com um gesto de cabea o homem alto que parado a alguns metros de distncia, olhava para o oceano.
- Por que no pede a Farrell para fazer parar o vento e desmanchar o nevoeiro? Pelo que tenho ouvido dizer, ele d ordens a Deus.
Alice Champion, que cuidava do roteiro, juntou-se aos dois, bebericando seu prprio caf.
- Se querem minha opinio, Matthew Farrell  Deus - declarou com uma risadinha.
Eles lanaram-lhe um olhar irnico, mas no disseram nada, e AW tomou seu silncio como prova da admirao, embora relutante, que sentiam por aquele homem.
Olhando por cima da borda da xcara, ela observou Farrell, que continuava a olhar para o mar. Ele era presidente de um imprio financeiro chamado Intercorp,
que criara com o suor do rosto e muita ousadia. Aquele monarca urbano, que sara das usinas de ao de Indiana, expurgara de sua personalidade qualquer trao que
pudesse lembrar sua baixa origem.
Ali, na beira do penhasco, esperando que a entrevista continuasse ele emanava sucesso, autoconfiana e virilidade, refletiu Alice. E pode Mais que tudo. Matthew
Farrell irradiava poder rude e frio. Bronzeado e educado, vestido de modo impecvel, deixava transparecer algo perigoso e implacvel, que o sorriso gentil e as roupas
perfeitas no conseguiam disfarar. As pessoas sentiam, s de olhar para ele, que no deviam aborrec-lo.
Brbara Walters desceu a trilha at a plataforma, usando as duas mos para segurar os cabelos contra o rosto.
- Sr. Farrell, o tempo est horrvel demais. Teremos de continuar a entrevista dentro de casa. Podemos usar a sala de estar? No levaremos meia hora para arrumar
tudo.
- Tudo bem - Matt concordou, disfarando com um sorriso a irritao causada por aquela demora.

No gostava de reprteres de nenhum meio de comunicao. Matt concedera aquela entrevista a Brbara Walters porque nos ltimos tempos houvera uma enxurrada de
publicidade sobre sua vida particullare seus casos amorosos, e ele achara que a Intercorp se beneficiaria, se ele, o chefe-executivo, mostrasse sua faceta de homem
de negcios. No que se referia  empresa, Matt no media sacrifcios.
Nove anos atrs, ao voltar da Venezuela, comprara uma fbrica de peas automotivas, que estava  beira da falncia, usando o dinheiro do prmio e o que Sommers
quisera investir no negcio. Um ano depois, vendera-a pelo dobro do preo que pagara. Com sua parte dos lucros, mais o dinheiro que emprestara de bancos e investidores
particulares, criara a Intercorp e continuara a comprar empresas que corriam o risco de falir, no por serem mal administradas, mas por no terem capital para resistir.
Escorava essas empresas com o capital da Intercorp, at aparecer um comprador.
Mais tarde, em vez de vend-las, comeara um programa de aquisio cuidadosamente planejado. Como resultado, construra, numa dcada, o imprio financeiro que
imaginara enquanto ainda suava nas usinas de ao e nos poos de petrleo da Venezuela. A Intercorp, sediada em Los Angeles, tornara-se uma empresa enorme e dirigia
negcios diversificados, que iam de laboratrios farmacuticos a indstrias txteis.
No ano anterior, entrara em negociaes para a compra de uma corporao com sede em Chicago que fabricava produtos eletrnicos. Essa empresa, que valia muitos
bilhes de dlares, procurara Matt, propondo que a Intercorp a comprasse. Ele gostara da ideia, mas depois de um longo trabalho de muitos meses para concluir o negcio,
os diretores da Haskell Electronics recusaram-se, de repente, a aceitar os termos combinados anteriormente. Zangado por ter perdido tempo e dinheiro, Matt decidiu
comprar a Haskell, nem que fosse  fora. Como resultado, iniciou-se um conflito que deu muito assunto  imprensa. No final os dirigentes da Haskell saram mutilados
do campo de batalha, enquanto a Intercorp ganhava uma lucrativa fbrica de eletrnicos.
No entanto, essa vitria deu a Matt uma fama de predador implacvel. Isso no o aborreceu, assim como tambm no o aborrecia sua reputao de playboy internacional,
criada pela imprensa. Publicidade danosa e perda da privacidade faziam parte do preo a pagar pelo sucesso, e ele aceitava isso com a mesma filosfica indiferena
com que encarava tanto a adulao e a hipocrisia da sociedade que o cercava, como os procedimentos traioeiros de seus adversrios nos negcios. Bajuladores e inimigos
sempre acompanhavam algum que alcanara sucesso extraordinrio, e Matt, lidando com eles, tornara-se extremamentecnico e desconfiado, mas isso tambm fora um
preo que no pudera deixar de pagar.
Essas coisas no o aborreciam. O que o aborrecia era perceber que o xito j no lhe dava tanta satisfao. Fazia anos que no sentia o, entusiasmo arrebatador
que um dia experimentara ao conduzir um negcio difcil. No precisara mais enfrentar desafios, porque sara vitorioso da terrvel luta pelo sucesso.
Pelo menos, no enfrentara, at adquirir a Haskell Electronics. Comprara a empresa e, pela primeira vez em anos, voltara a sentir um pouco da antiga excitao.
A enorme corporao precisava ser totalmente reestruturada, pois suas fbricas eram antiquadas, e as estratgias de mercado, desatualizadas. Tudo isso precisaria
ser modificado, antes que Matt pudesse avaliar o potencial de lucro, e ele estava ansioso para ir a Chicago e comear a trabalhar.
Sempre que comprava uma nova empresa, colocava-a nas mos de seis homens, que a Business Week apelidara de comisso de posse, e que tinham a incumbncia de
avaliar a situao. Fazia quinze dias que eles estavam na Haskell, trabalhando no arranha-cus de sessenta andares que a empresa possua e ocupava, esperando pela
chegada de Matt, que comprara um apartamento de cobertura em Chicago, sabendo que precisaria estar na cidade de vez em quando.
Na noite anterior, chegara da Grcia, onde as negociaes para a compra de uma frota de navios haviam sido concludas aps quatro longas semanas, em vez de duas,
como ele julgara. A nica coisa que o estava impedindo de partir para Chicago era aquela maldita entrevista.
Exasperado, comeou a andar na direo da casa. Numa das extremidades do gramado, seu helicptero j se encontrava  espera para lev-lo ao aeroporto, onde o
jato Lear de sua propriedade estava pronto para voar para Chicago.
O piloto do helicptero retribuiu o aceno de Matt, depois ergueu os polegares, anunciando que a aeronave j fora abastecida e vistoriada podendo decolar a qualquer
momento, mas olhou com ar de preocupao para o manto de nevoeiro que se fechava sobre eles.
Matt percebeu que o homem estava to ansioso por partir quanto ele. Atravessou o terrao e entrou na casa atravs da porta francesa que levava a seu escritrio.
Ia pegar o telefone para ligar para a sede da Intercorp, em Los Angeles, quando a porta interna abriu-se impetuosamente.
- Oi, Matt! - Joe OHara cumprimentou, sem entrar.
O tom spero, de pessoa sem cultura, e a aparncia desleixada do homem criavam um contraste gritante com o ambiente luxuoso, onde um tapete felpudo, cor de creme,
estendia-se no piso de mrmore, sob a escrivaninha de tampo de vidro. Oficialmente, Joe era motorista de Matt, e no oficialmente, seu guarda-costas, uma funo
na qual saa-se muito melhor do que na de chofer, porque quando dirigia um carro parecia que estava brigando pelo primeiro lugar no Grand Prix.
- Quando vai partir para Chicago, Matt?
- Assim que essa droga de entrevista acabar.
- Certo. J telefonei para l, e a limusine estar a sua espera no Aeroporto Midway. Mas no foi para dizer isso que vim aqui - Joe OHara explicou, andando
at uma das janelas e afastando a cortina para o lado.
Fez um gesto para Matt, chamando-o, e apontou na direo da larga alameda sinuosa que corria entre os ciprestes na frente da casa.
- D uma olhada naquela coisinha linda - disse em tom sonhador, quando Matt juntou-se a ele. Quem no o conhecesse poderia julgar que se referia a uma mulher,
mas Matt sabia que no era isso. Depois que a esposa de Joe falecera, os carros tinham se tornado seu nico amor. -  de um dos cmeras que vieram com a Walters.
A coisinha linda era um Cadillac vermelho, conversvel, de 1959, em perfeitas condies.
- Olhe para aquelas bolas - Joe murmurou, falando dos faris no tom lascivo de um adolescente olhando para um poster da Playboy. - Que curvas! D vontade de
passar a mo, no d? - Cutucou Matt com o cotovelo. - J viu coisa mais linda?
Matt foi poupado da obrigao de dar uma resposta, pois a moa do roteiro apareceu na porta, avisando que tudo estava pronto na sala de estar.


A entrevista decorria de maneira previsvel havia quase uma hora, quando a porta abriu-se, e uma mulher entrou, o lindo rosto iluminado de alegria.
- Matt, querido! Voc voltou!
Todos os que se encontravam na sala viraram-se para ela. Os membros da equipe da ABC ficaram embasbacados, esquecidos de tudo,olhando para Meryl Saunders,
que corria para Matt, usando apenas um penhoar vermelho, sensualmente transparente.
Mas no era para o corpo de Meryl que as pessoas olhavam, e simpara o rosto bonito, que aparecia nas telas de cinema e televiso do mundo todo. A beleza juvenil,
aliada  firme crena religiosa que ela afirmava ter, havia feito daquela moa a queridinha da Amrica. Os adolescentes a amavam, porque ela era linda e parecia
muito jovem, os pais dos adolescentes tambm, porque achavam que ela representaria um modelo saudvel para seus filhos. Os produtores adoravam-na, porque ela era
uma atriz de grande talento, e qualquer filme que fizesse transformava-se em sucesso de bilheteria.
Naquele momento, pouco importava que ela tivesse vinte e trs anos e um voraz apetite sexual, pois no silncio chocado causado por sua apario, Matt sentiu-se
como se houvesse seduzido Alice, a menina do Pas das Maravilhas.
Com o mesmo comportamento de valente escoteira que exibia durante as filmagens, Meryl sorriu educadamente para o grupo, pediu desculpas a Matt por interromp-lo,
virou-se e saiu com toda a dignidade de uma aluna de colgio de freiras, um verdadeiro tributo a seu talento de atriz, porque atravs do fino tecido vermelho viam-se
as ndegas nuas e a tira da calcinha entre elas.
O rosto de Brbara Walters revelava reaes contrastantes, e Matt preparou-se para o inevitvel bombardeio de perguntas indiscretas sobre Meryl, aborrecido ao
pensar que a imagem pblica da atriz, cuidadosamente construda, estava prestes a desmoronar. Brbara, no entanto, apenas perguntou se Meryl Saunders era uma hspede
assdua em sua casa. Matt respondeu que a jovem gostava de ficar ali sempre que ele viajava, o que frequentemente acontecia.
Para sua surpresa, a jornalista aceitou a explicao e voltou ao assunto que estavam discutindo antes da chegada de Meryl.
- Como encara o aumento de fuses de empresas que so feitas com o uso de mtodos hostis? - ela perguntou.
-  uma tendncia que se manter at que sejam tomadas medidas para control-la - respondeu Matt.
- A Intercorp planeja engolir mais alguma empresa?
    Uma pergunta importante, mas no inesperada.
- Estamos sempre interessados em adquirir boas empresas, a fim de favorecer nosso crescimento e tambm o delas.
- Mesmo que alguma no queira ser comprada?
-  um risco que todas as empresas correm, at mesmo a Intercorp - Matt informou, sorrindo com educao.
- Mas apenas uma corporao igualmente gigantesca poderiaengolir a sua. Existe alguma empresa com imunidade contra uma fuso forada com a Intercorp? De amigos,
ou conhecidos, por exemplo? Nossa ABC poderia ser sua prxima presa? - a jornalista brincou.
- O objeto de uma tentativa de fuso  chamada de alvo, no de presa. Mas pode ficar tranquila, que a Intercorp no est de olho na ABC, por enquanto - ele
arreliou.
Brbara riu e depois dirigiu-lhe seu melhor sorriso de profissional da mdia.
- Podemos conversar um pouco sobre sua vida particular, agora?
- Eu poderia evitar? - replicou Matt, sorrindo brandamente para esconder a irritao.
Ela sorriu mais amplamente, abanando a cabea numa negativa.
- No decorrer dos ltimos anos, voc teve trridos casos com diversas estrelas de cinema, uma princesa e, mais recentemente, com Maria Calvaris, a herdeira de
um armador grego. Esses casos, to noticiados, foram reais, ou inventados por colunistas sociais que se dedicam a publicar mexericos?
- Foram - Matt respondeu, sem responder.
    A jornalista tornou a rir.
- E seu casamento? Quer falar sobre isso? - indagou, j sria.
A surpresa de Matt foi to grande, que por um momento ele ficou sem fala.
- Meu o qu? - perguntou por fim, incapaz de acreditar no que ouvira.
Ningum jamais soubera de seu curto e desastroso casamento com Meredith Bancroft, onze anos atrs.
- Sei que nunca foi casado - Brbara esclareceu. - Mas eu gostaria de saber se planeja casar-se, um dia.
Matt relaxou.
- Pode ser - ele respondeu.








#13

Novembro, 1989

Uma verdadeira multido andava devagar ao longo de um trecho da avenida Michigan, e sua falta de pressa devia-se no s ao clima ameno daquele dia de outono,
como tambm ao obstculo formado pelo grande ajuntamento de pessoas que admiravam as vitrinas da Bancroft & Company, espetacularmente decoradas para o Natal.
A loja, que evolura muito desde a inaugurao, em 1891, quando comeara a funcionar num prdio de dois andares com toldos amarelos nas janelas, ocupava um edifcio
de catorze andares, de mrmore e vidro, que tomava um quarteiro inteiro. Mas, apesar de todas as transformaes, uma coisa no mudara: a tradio de manter dois
porteiros de uniformes marrons com detalhes dourados na entrada principal. Esse pequeno toque de elegncia permanecia como uma confirmao do tratamento digno e
corts oferecido pela Bancrofts.
Os dois porteiros idosos, cuja mania de competio fizera com que raramente se falassem nos trinta anos de trabalho em conjunto, observaram disfaradamente a
chegada de um BMW preto, cada um esperando que parasse no seu lado da enorme porta.
O carro aproximou-se do meio-fio, e Leon, um dos porteiros, prendeu o flego e depois soltou-o num suspiro exasperado, quando o veculo passou por ele e parou
diante do territrio do adversrio.
-Velho nojento - resmungou, vendo Ernest andar na direo do carro
-Bom dia, srta. Bancroft - Ernest cumprimentou, abrindo a porta para Meredith sair.
Vinte cinco anos atrs, fazendo aquilo para o pai dela, vira-a pela primeira vez e saudara-a daquela mesma maneira, no mesmo tom reverente.
-Bom dia, Ernest - respondeu Meredith, sorrindo e entregando-lhe as chaves do BMW. - Quer pedir a Cari para estacionar o carro paramim? No quero carregar
da garagem at o elevador tudo o que tenho para levar para cima.
Manobristas, como Cari, eram outra convenincia que a loja oferecia a seus clientes.
- Certamente, srta. Bancroft.
- Diga a Amlia que mandei lembranas - ela acrescentou, referindo-se  esposa do porteiro.
Tratava com intimidade muitos dos empregados que trabalhavam l havia anos e que considerava parentes. De fato, sentia-se mais em casa ali na loja, matriz de
uma cadeia de sete estabelecimentos em vrias cidades, do que na velha manso onde crescera, ou no apartamento para o qual se mudara.
Parando na calada, observou a multido reunida diante das vitrinas e sorriu, quando um delicioso prazer encheu-lhe o corao. Essa era uma sensao que experimentava
sempre que olhava para a elegante fachada da Bancrofts, uma mistura de orgulho, entusiasmo e desejo de preservar tudo aquilo.
Naquele dia, porm, sua felicidade era ainda maior, pois, na noite anterior, Parker tomara-a nos braos, declarara seu amor e pedira-a em casamento. Quando ela
concordara, ele pusera um anel de noivado em seu dedo.
- As vitrinas esto mais lindas do que nunca - comentou com Ernest, quando algumas pessoas afastaram-se e ela pde ver parte da estonteante decorao que o talento
de Lisa criara.
Lisa Pontini j merecera o reconhecimento de todos na Bancrofts pelo trabalho que vinha fazendo, e, quando seu chefe se aposentasse, Lisa ficaria no lugar dele
como diretora do departamento de decorao.
     Ansiosa por ver a amiga e contar-lhe sobre o noivado, Meredith rodeou o carro, abriu a porta do passageiro e retirou duas pastas e algumas caixas de fichas
de arquivo que deixara no banco. Ento, encaminhou-se para a entrada da loja.
Assim que entrou, um segurana foi a seu encontro.
    - Posso ajud-la a levar essas coisas, srta. Bancroft?
    Ela ia recusar, mas seus braos comeavam a doer e, alm disso, sentira o impulso repentino de dar uma volta pela loja antes de subir. Queria deliciar-se com
o que lhe parecia um movimento recorde, pois enorme nmero de pessoas aglomerava-se nos balces e ao longo dos corredores entre eles.
-Obrigada, Dan - agradeceu, entregando a pilha de caixas e as duas pastas ao homem.
Quando ele se afastou na direo dos elevadores, Meredith arrumou o leno azul que passara sob a gola do blazer branco e, pondo as mos nos bolsos, atravessou
a seo de cosmticos, dirigindo-se s escadas rolantes no meio da loja. Os clientes esbarravam nela, apressados, mas isso, em vez de irrit-la, aumentava seu prazer.
Inclinando a cabea para trs, olhou para a rvore de Natal, que com seus nove metros de altura, erguia-se acima de toda a agitao os galhos brancos exibindo
luzes, laos e outros enfeites, tudo em vermelho. Guirlandas, trens e sinos ornamentavam os pilares quadrados e espelhados que se enfileiravam naquele andar, e
o sistema de som espalhava a melodia alegre de Deck the Halls. Uma mulher que escolhia uma bolsa, cutucou a amiga que a acompanhava ao ver Meredith.
- Meredith Bancroft - informou. - O jornalista que disse que ela se parece com Grace Kelly quando jovem estava certo!
Meredith ouviu, mas no se impressionou. Nos ltimos anos, acostumara-se aos olhares e comentrios das pessoas. A Women Wear chamara-a de a encarnao da pura
elegncia, a Cosmopolitan, de totalmente chique, e The Wall Street Journal, de princesa regente da Bancroft & Company. E, na privacidade da sala de reunies,
por trs de suas costas, os diretores chamavam-na de um chute na canela.
Era s a essa ltima descrio que Meredith dava importncia. Pouco se incomodava com o que os jornais e revistas escreviam sobre ela, a no ser que suas matrias
aumentassem o prestgio da loja. Mas o quadro de diretores era outra coisa, muito diferente, pois aqueles homens tinham o poder de colocar obstculos em seus planos,
de bloquear seu sonho de expandir a Bancroft & Company, levando-a para mais cidades O presidente no a tratava com mais afeto que os diretores. E o presidente era
seu pai.
No momento, porm, nem mesmo a luta que travava com Philip e os outros por causa de seus planos de expanso seria capaz de abater-lhe o nimo. Ela se sentia
to feliz, que precisou conter o impulso de cantar junto com a msica de Natal espalhada pelos alto-falantes. Mas no refreou o desejo de fazer algo que costumava
fazer em menina: aproximando-se de um dos pilares espelhados, olhou-se e, fingindo que colocava uma mecha de cabelos no lugar, sorriu e piscou para o segurana que,
ela sabia, estava sentado dentro do pilar, vigiando para impedir a ao de ladres.
Virando-se, caminhou para uma das escadas-rolantes. Lisa tivera a idia de decorar cada andar com uma cor diferente, em tons que tivessem algo a ver com as mercadorias.
Meredith adorou o que viu,quando chegou ao segundo andar, onde ficavam os agasalhos de peles  os vestidos com etiquetas de costureiros famosos. Ali, todas as rvores
brancas haviam recebido enfeites rosados e laos dourados. Bem na frente da escada-rolante, estava Papai Noel, vestido de branco e dourado, sentado diante de sua
casa. Em seu colo, um manequim, uma linda mulher, usando um luxuoso penhoar de renda francesa, apontava dengosamente para um casaco de pele de marta de vinte e
cinco mil dlares.
Um sorriso pairou no rosto de Meredith, quando ela percebeu que a aura de luxo e extravagncia criada pelo arranjo era um sutil mas eficiente incentivo para
os clientes que se aventuravam a ir quele andar. A julgar pelo nmero de homens que examinavam peles, e mulheres que experimentavam vestidos, o incentivo no fora
em vo.
Naquele andar, cada costureiro tinha seu prprio espao para expor as colees. Meredith andou pelo corredor central, cumprimentando os empregados que conhecia.
No ateli de Geoffrey Beene, duas mulheres robustas, usando casacos de marta, admiravam um vestido azul, com bordados em pedrarias, no valor de sete mil dlares.
-Voc iria parecer um saco de batatas com esse vestido, Margaret-uma delas alertou a companheira.
Ignorando-a, a outra virou-se para a vendedora.
-Voc no teria esse modelo em tamanho cinquenta?

No ateli seguinte, de Valentno, uma mulher animava a filha, uma moa de mais ou menos dezoito anos, a experimentar um vestido de veludo.
-Se gostou, compre para voc - declarou a filha, sentando-se no sof forrado de seda. - No vou a sua festa idiota. Eu disse que queria passar o Natal na Sua.
- Eu sei, querida - replicou a me com ar contrito, olhando para mocinha amuada. - Mas achamos que, pelo menos uma vez, seria bompassarmos o Natal todos juntos,
em casa.
Meredith olhou para o relgio de pulso e viu que j era quase uma hora. Encaminhou-se para os elevadores, pretendendo procurar Lisapara contar-lhe as novidades.
Passara a manh no escritrio do arquiteto examinando o projeto para a loja de Houston, e tinha uma tarde movimentada pela frente.
    O departamento de decorao funcionava num enorme armazmlocalizado no poro, abaixo do nvel da rua, e era atulhado de mesasde desenho, manequins desmontados,
rolos gigantescos de tecido e toda a parafernlia que fora usada para decorar as vitrinas e o interior da loja na ltima dcada. Meredith abriu caminho naquele caos
com facilidade, pois conhecia bem o lugar. Trabalhar em todos os departamentos fora parte de seu treinamento.
-Lisa! - chamou, e todos os ajudantes da amiga olharam para ela. - Lisa!
-Estou aqui - respondeu uma voz abafada. Ento, Lisa afastou a saia que rodeava uma mesa e ps a cabea para fora, sacudindo os cabelos avermelhados e crespos.
- O que foi agora? Como posso trabalhar, com tantas interrupes?
-Juro que no sei - respondeu Meredith, rindo e sentando-se na borda da mesa. - Nunca entendi como voc consegue achar o que precisa nessa baguna, muito menos
criar alguma coisa.
-Oi - Lisa cumprimentou-a e saiu de debaixo da mesa, engatinhando. - Estava firmando as pernas dessa coisa com arames. Vamos arrum-la como se fosse para um
jantar de Natal, no departamento de mveis. Como foi seu encontro com Parker?
-Foi bem - respondeu Meredith, mexendo propositalmente na gola do blazer para mostrar o anel de safira. No dia anterior, dissera a Lisa que estava com o pressentimento
de que Parker a pediria em casamento naquela noite, o que tornava a brincadeira ainda melhor.-A mesma coisa de sempre.
Lisa plantou as mos nos quadris.
-A mesma coisa de sempre?! Parker est divorciado h dois anos e faz nove que vocs esto namorando. Voc passa um bocado de tempo com as filhas dele.  linda,
inteligente, os homens se atropelam por sua causa, mas esse sujeito no se decide. Acho que est perdendo tempo coff ele, querida. Se aquele idiota quisesse pedi-la
em casamento, j
-Ele pediu - anunciou Meredith com um sorriso triunfante.
     Lisa, porm, iniciara um de seus sermes favoritos e demorou um pouco para captar o sentido do que ouvira.
-De toda forma, ele no  o homem certo. Voc precisa de algum que a tire dessa casca de conservadora e a obrigue a fazer coisas loucas, como votar num candidato
do partido Democrata, ou ir  pera na sexta-feira, em vez de no sbado. Parker  muito parecido com voc, muito metdico, estvel, cauteloso O que voc disse?
Est brincando? Ele pediu?
-Pediu - confirmou Meredith.
O olhar de Lisa finalmente caiu sobre a safira escura presa num engaste antiquado.
- O anel de noivado? - perguntou, pegando a mo de Meredith para olhar a jia mais de perto. Franziu a testa. - O que  isso?
-Uma safira - respondeu Meredith, sem se perturbar com a falta de entusiasmo da amiga pela pea antiga.
Sempre apreciara a franqueza de Lisa e, alm disso, ela prpria, que estava apaixonada por Parker, no podia dizer que o anel era lindo. Mas tratava-se de uma
jia fina, herana de famlia, que a deixara muito satisfeita.
-Estou vendo que  uma safira - replicou Lisa. - Mas e essas pedrinhas em volta? No brilham, como os bons brilhantes.
-So brilhantes de lapidao antiga, sem muitas facetas - explicou Meredith. - O anel  velho. Foi da av de Parker.
-No v me dizer que ele no podia comprar um novo! - Lisa brincou. - Sabe, antes de conhecer voc, eu achava que os ricos viviam comprando coisas maravilhosas,
e que preo no era problema.
-Apenas os novos-ricos fazem isso - disse Meredith. - Os velhos so moderados.
-Acho que vocs, os velhos, tm muito o que aprender com os novos, ento. Usam as coisas at que fiquem gastas! Se um dia eu ficar noiva de um homem rico e
ele tentar me impingir o anel da av, acabo com tudo na hora. - Lisa fez uma pausa, tornando a olhar para a jia.-De que  feito o engaste? No tem brilho!
-Platina - Meredith respondeu, reprimindo uma risada.
-Eu devia ter adivinhado! No acaba nunca! Foi por isso que quem comprou o anel, duzentos anos atrs, escolheu esse material.
Exatamente - concordou Meredith, comeando a rir.
    Lisa riu com ela, mas havia lgrimas em seus olhos.
-Sinceramente, meu bem, se voc no achasse que precisa ser um anncio ambulante da Bancroft & Company, ainda estaria usando as roupas dos tempos de universidade.
- S se fossem roupas muito resistentes - comentou Meredith.
-Parker no  bom o bastante para voc - murmurou Lisa, abraando-a com fora. - Ningum .
-Ele  perfeito para mim - afirmou Meredith, retribuindo o abrao. - Escute, o baile beneficente  amanh. Vou reservar entradas para voc e Phil. Daremos uma
festa de noivado, depois.
-Phil est em Nova York - Lisa informou, referindo-se ao namorado,um fotgrafo de comerciais. - Mas eu irei. Afinal, se Parker vai ser membro de nossa famlia,
preciso aprender a gostar dele. - Sorriu, maliciosa. - Mesmo que seu noivo goste de executar hipotecas de vivas.
-Lisa, voc sabe que Parker odeia suas piadas sobre banqueiros Agora que ns dois ficamos noivos, ser que voc pode parar de implicar com ele?
-Vou tentar. Nada de implicncias e nada de piadas sobre banqueiros.
-E vai parar de cham-lo de sr. Drysdale?
-E tambm parar de assistir s reprises de Beverly Hills, juro.
-Obrigada - Meredith agradeceu, levantando-se. Viu Lisa virar-se abruptamente e comear a alisar com fora exagerada as rugas do feltro vermelho que cobria
a mesa. - Alguma coisa errada?
Lisa voltou-se para ela com um sorriso amplo demais.
-Coisa errada? Como, se minha melhor amiga ficou noiva do homem de seus sonhos? - Mudou rapidamente de assunto: - Com que roupa voc vai ao baile?
-No sei, ainda. Vou dar uma passada no segundo andar, amanh, e escolher algo deslumbrante. Posso aproveitar para dar uma olhada nos vestidos de noiva. Parker
quer que a cerimnia e a festa de casamento sejam no estilo tradicional, com todas as formalidades. Acha que no posso ser privada disso, s porque ele j teve um
casamento assim.
-Ele sabe daquilo do seu outro casamento? - Lisa cochichou.
-Sabe. Foi muito gentil e compreensivo. Parker - Meredith calou-se de repente, quando a badalada suave de uma sineta ecoou atravs do sistema de som. Era um
sinal de chamada para os que trabalhavam na loja, e cada departamento tinha seu cdigo. Meredith prestou ateno. Dois toques, pausa, um toque. - Isso  comigo.
Preciso correr. Tenho uma reunio dentro de uma hora e ainda no li algumas anotaes.
-No seja mole com aqueles diretores - recomendou Lisa, voltando a entrar embaixo da mesa.
Meredith foi at o telefone preso na parede, perto da porta, e chamou a telefonista.
-Meredith Bancroft - identificou-se. - Algum me chamou, no ?
-O sr. Braden, da segurana. Pediu para a senhorita ir ao escritrio dele o mais rpido possvel. Disse que  importante.





#14


O escritrio do chefe da segurana ficava no sexto andar, atrs do departamento de brinquedos, discretamente escondido por uma parede falsa. Meredith era vice-presidente
da diviso de operaes, de modo que o departamento de segurana estava sob sua superviso. Caminhando pelos corredores, onde clientes examinavam sofisticados trens
eltricos e casas de bonecas em estilo vitoriano, ela se perguntava quem fora apanhado roubando, para que exigissem sua presena. Devia ser algum empregado, porque,
se fosse um comum ladro de lojas, os seguranas cuidariam do assunto sozinhos. Embora oitenta por cento dos furtos fossem obra de pessoas de fora, eram os empregados
desonestos que causavam maior prejuzo, pois tinham muito mais oportunidade para roubar, todos os dias. No ms anterior, haviam apanhado um vendedor que aceitava
trocas de mercadorias, usando amigos a quem dava notas falsas de devoluo. E tambm havia o caso do comprador de jias da loja, que fora demitido por aceitar
propinas no valor de dez mil dlares para comprar peas de qualidade inferior de trs fornecedores diferentes. Meredith sempre considerara srdido e repulsivo um
empregado que roubava, porque tomava isso como uma traio.
Preparando-se para enfrentar uma situao desagradvel, parou por um momento diante da porta do escritrio de Mark Braden, diretor da Segurana. Depois, empurrou
a porta e entrou na espaosa sala de espera. Viu duas mulheres, uma que aparentava vinte e poucos anos, e
outra que devia estar com mais de setenta, sentadas em cadeiras junto da parede, sob o olhar vigilante de um segurana uniformizado. A moa,obviamente pobre,
apertava o estmago com os braos e parecia aterrorizada, com marcas de lgrimas nas faces. A idosa, porm, era o retrato da elegncia e da serenidade. Parecia uma
antiga boneca de porcelana, naquele conjunto Chanel vermelho e preto, empertigada na cadeira e segurando a bolsa nos joelhos.
-Bom dia, minha querida - dirigiu-se a Meredith. - Como est?
-Estou bem, sra. Fiorenza - respondeu Meredith, contendo a raiva ao reconhecer a velha senhora.
O marido de Agnes Fiorenza era um dos pilares da comunidade pai de um senador, alm de membro da diretoria da Bancroft & Company, o que tornava a situao extremamente
delicada.
-Como vai a senhora? - perguntou Meredith, sem pensar.
-Muito infeliz, querida. Estou sentada aqui h mais de meia hora, apesar de ter explicado ao sr. Braden que no posso me demorar. Preciso estar presente num
almoo em homenagem ao senador Fiorenza, que ficar muito preocupado se eu no aparecer. Pode pedir ao sr. Braden que resolva logo esse assunto?
-Verei o que posso fazer - respondeu Meredith, dirigindo-se  sala de Mark Braden.
Encostado na escrivaninha, ele bebericava um caf fumegante, enquanto conversava com o segurana que vira a mulher mais jovem furtar alguns objetos. Mark, um
homem atraente, de quarenta e cinco anos, cabelos loiros e olhos castanhos, fora especialista em segurana na Fora Area e levava seu trabalho na Bancroft to seriamente
quanto o fizera a servio do pas. Meredith gostava dele, alm de respeit-lo.
-Vi Agnes Fiorenza na sala de espera - ela disse com um sorriso.-Pediu-me para dizer-lhe que tem um almoo muito importante e que voc a est atrasando.
-Dei instrues para que deixassem voc lidar com o caso, Meredith.
-O que foi que ela roubou desta vez?
-Um cinto Lieber, uma bolsa Givenchy e isto aqui.
Mostrou um par de enormes brincos de cristal azul sobre a mesa. Eram bijuterias finas, mas uma mulher to mida quanto Agnes ficaria ridcula com eles.
-Quanto ela ainda tem de crdito? - perguntou Meredith, referindo-se  conta que o diretor Fiorenza abrira para cobrir os furtos da esposa.
-Quatrocentos dlares. A quantia no cobre o valor disso tudo.
-Falarei com ela. Mas, primeiro, posso tomar uma xcara desse caf? - Meredith estava farta de encobrir os erros de Agnes, enquanto outras pessoas, como a moa
pobre, eram processadas sem compaixo.
Tomou uma deciso, mesmo sabendo que o diretor Fiorenza ficaria furioso com ela. - Vou dar ordem aos porteiros para que no a deixem entrar na loja de hoje em
diante. O que foi que aquela moa furtou?
-Roupas infantis. Um macaco de inverno, um par de luvas e dois suteres. Ela nega ter roubado - informou Mark, entregando uma xcara de caf a Meredith. -
Mas est tudo gravado numa fita. O valor das mercadorias  de duzentos dlares, mais ou menos.
Meredith tomou um gole do caf, desejando que a pobre me l fora houvesse confessado o roubo. Mas negara, e isso forava a loja a provar a acusao e process-la
como medida de proteo contra um processo que a mulher poderia abrir sob a alegao de calnia.
-Ela tem ficha na polcia, Mark?
-Entrei em contato com a polcia e disseram que no.
-Voc desistiria de entrar com um processo, se ela assinasse uma confisso?
-E por que eu faria isso?
-Processos ficam caros, e a moa no tem passagem pela polcia. Alm disso, acho horrvel deixar Agnes Fiorenza ir embora com uma simples repreenso, depois
de ela ter roubado artigos de luxo, e processar uma mulher pobre por furtar roupas de inverno para um filho.
-Vamos fazer um trato. Voc probe mesmo a entrada da sra. Fiorenza na loja, e eu no processo a moa, desde que ela assine uma confisso. Feito?
-Feito - respondeu Meredith enfaticamente.
-Mande a mulher mais velha entrar - Mark disse ao segurana.
    Agnes Fiorenza entrou instantes depois, envolta numa nuvem de perfume, obviamente apressada.
-Meu Deus, sr. Braden, como demorou para me chamar! - reclamou com um sorriso.
-Sra. Fiorenza, temos tido muito trabalho com a senhora, que insiste em levar artigos sem pagar por eles - declarou Meredith.
- Sei disso, mas no precisa falar comigo nesse tom de censura replicou a mulher, pondo a bolsa que carregava em cima da escrivaninha.
-H pessoas que vo para a cadeia por furtarem objetos de valor muito menor do que esses - Meredith apontou para os artigos sobrea escrivaninha, irritada,
como se estivesse lidando com uma criana malcriada. - Aquela jovem l fora roubou roupas de inverno parauma criana e pode ser presa por isso, mas a senhora furtou
coisas de que no precisa!
- Por Deus, Meredith, acha que peguei os brincos para mim?- perguntou a sra. Fiorenza, parecendo ofendida. - No sou to egosta como pensa. Tambm gosto de
fazer caridade.
Confusa, Meredith hesitou.
-Quer dizer que doa os objetos que rouba, como esses brincos para obras de caridade?
-Credo! - a idosa exclamou, o rosto de boneca de porcelana assumindo uma expresso escandalizada. - Que instituio de caridade que se preze aceitaria esses
brincos horrveis? Peguei-os para dar a minha empregada. Ela tem um gosto atroz e ia adorar. Mas voc devia dizer  pessoa que adquire bijuterias para a loja que
coisas como esses brincos no fazem bem  imagem da Bancroft & Company. Na verdade
-Sra. Fiorenza, eu a avisei, no ms passado, de que se fosse apanhada roubando novamente, os porteiros receberiam ordem para barrar sua entrada na loja - Meredith
lembrou-a.
-No pode estar falando srio!
-Estou.
-No vou poder entrar na loja?
-No.
-Isso  um ultraje!
-Lamento.
-Meu marido vai ficar sabendo disso! - Agnes Fiorenza declarou, mas sua voz assumira um tom de pattica timidez.
-S se a senhora contar a ele - observou Meredith, compreendendo que havia mais medo do que ameaa nas palavras da mulher.
Agnes ergueu a cabea com altivez.
-Nunca mais vou comprar coisa alguma nesta loja - disse com voz embargada. - S vou frequentar a L. Magnins. L, eles no vendem brincos horrorosos como esses!
Pegou a bolsa, passou uma das mos pelos cabelos brancos e saiu Encostando-se na parede, Meredith olhou para os dois homens e tomou um gole do caf, sentindo-se
triste e perturbada, como se tivesse esbofeteado a velha senhora.
Afinal, o marido de Agnes pagava por tudo o que ela roubava, de modo que os furtos no representavam prejuzo para a loja, pelo menos quando os seguranas a
apanhavam.
-Notou que ela ficou arrasada? - perguntou a Mark.
-No.
-Fiz isso pelo bem dela mesma - continuou Meredith, observandofrieza no rosto dele. - Acho que lhe demos uma lio, punindo-a, em vez de ignorar seu erro.
Concorda?
Mark sorriu como se estivesse se divertindo, ento, sem responder, ergueu o telefone e pressionou quatro botes.
- Dan, a sra. Fiorenza est descendo - disse ao segurana do andar trreo. - Pea a ela que devolva o cinto Lieber que leva na bolsa. Certo, o mesmo que voc
a pegou roubando. Ela acabou de peg-lo de cima de minha mesa.
Desligou e sorriu para Meredith, que estava atnita. Ela olhou para o relgio de pulso, pensando na reunio marcada para aquela tarde.
-Vou indo, Mark. Vejo voc na reunio. O relatrio sobre a situao de seu departamento est pronto?
-Est. Meu departamento vai bem. O ndice de perdas baixou oito por cento, este ano.
-Isso  maravilhoso! - ela elogiou com sinceridade.
Mais do que nunca, desejava que os departamentos sob sua superviso se destacassem pela eficincia. O cardiologista de seu pai vinha insistindo para que ele
se retirasse da presidncia da Bancroft & Company, ou que pelo menos tirasse uma licena de seis meses. Philip decidira-se por uma licena e, no dia anterior, reunira-se
com os diretores para discutir quem deveria ficar como presidente interino durante sua ausncia.
Meredith queria desesperadamente ocupar o posto. Outros quatro vice-presidentes desejavam a mesma coisa, mas ela trabalhara muito mais arduamente do que eles
para alcanar esse objetivo, com obstinada diligncia e inegvel sucesso. Alm disso, a presidncia sempre fora ocupada por um membro da famlia Bancroft e, se Meredith
no fosse mulher, assumiria o cargo automaticamente. O av tornara-se presidente com menos idade do que ela, mas, por ser homem, no sofrera discriminao por parte
do prprio pai. Tampouco enfrentara obstculos criados por uma diretoria que exercia tamanho controle sobre certas decises, algo que, em parte, estava acontecendo
por culpa dela mesma. Para expandir a Bancroft, ideia pela qual lutara exaustivamente, fora necessrio levantar um enorme capital, e para isso a empresa tivera de
colocar suas aes no mercado. Dessa maneira, qualquer pessoa podia comprar aes, e cada ao significava um voto. Assim, a diretoria era eleita pelos acionistas,
a quem tinha de prestar contas, e os diretores haviam deixado de ser meros fantoches, escolhidos ou rejeitados por Philip Bancroft. Para piorar a situao de Meredith,
os diretores eramfortes acionistas, dispondo de muitos votos, o que lhes dava poder ainda maior.
Doze deles, membros da diretoria havia anos, eram amigos do pai dela, como haviam sido do av, e tendiam a apoiar todas as sugestes de Philip. Se ele recomendasse
Meredith como sua substituta durante a licena, era quase certo que esses homens, e outros tambm, aprovariam. E ela precisava daqueles seis meses de interinidade
para provar que estava preparada para as responsabilidades da presidncia, quando o pai se aposentasse. Ele, no entanto, recusara-se a contar o resultado da reunio
e at mesmo a revelar a data em que divulgariam o resultado das discusses.
Pondo a xcara na mesa de Mark, Meredith olhou para o macacozinho que a moa l na sala de espera roubara e sentiu a mesma dor que a assaltava sempre que pensava
que nunca poderia ter um beb. Mas aprendera, havia muito tempo, a disfarar os sentimentos diante dos colegas de trabalho.
-Vou falar com a moa que furtou as roupinhas - anunciou com um sorriso sereno. - Qual o nome dela?
Mark deu-lhe a informao, e ela foi para a outra sala.
-Sra. Jordan, sou Meredith Bancroft - apresentou-se.
-Sei. Tenho visto suas fotos nos jornais - Sandra Jordan replicou.
-E da?
-Da, que, se insistir em negar o roubo, a loja ser obrigada a process-la.
Havia hostilidade no rosto plido da jovem, e Meredith abandonaria sua tentativa de ser generosa, se no visse medo e lgrimas nos olhos fixos nos seus.
-Escute o que tenho a dizer, sra. Jordan, porque fao isso por compaixo. Pode aceitar meu conselho, ou, caso contrrio, arcar com as consequncias. Se negar
que furtou, e ns a deixarmos ir, sem process-la e sem provar que o fez, a senhora poder abrir um processo contra ns, alegando que foi detida e acusada injustamente.
Entende o que estou dizendo? H uma fita, gravada por uma das cmeras instaladas no teto do departamento de roupas infantis, que mostra a senhora roubando algumas
peas. Ns exibiremos a fita no tribunal se for necessrio provar que nossa acusao no foi injusta.
Meredith fez uma pausa, examinando o rosto rgido da mulher, no poderia dizer se ela estava aceitando a tbua de salvao que lhe era oferecida.
-Devo acreditar que vocs soltam os ladres, quando eles confessam que roubaram? - Sandra Jordan perguntou, desconfiada e desdenhosa.
-A senhora  uma ladra de lojas? - Meredith indagou. - Temo hbito de roubar? Mulheres de sua idade geralmente furtam roupas para si mesmas, perfumes ou jias.
A senhora pegou agasalhos para uma criana e, alm disso, no tem antecedentes criminais. Prefiro pensar que cometeu esse erro por desespero, para poder aquecer
seu beb.
A moa, que obviamente estava mais acostumada a enfrentar dificuldades do que a ser alvo de compaixo, desabou diante dos olhos de Meredith, comeando a chorar.
-Vi na televiso, que no se deve confessar nada, a no ser que um advogado esteja presente - declarou.
-A senhora tem advogado?
-No.
-Se no admitir que roubou aquelas coisas, certamente precisar de um.
-Vocs fariam uma declarao por escrito, dizendo que no colocaro a polcia trs de mim, se eu confessar?
A proposta pegou Meredith de surpresa, deixando-a indecisa. Precisaria consultar os advogados da loja para saber se esse documento, mais tarde, poderia ser considerado
uma forma de suborno ou causar qualquer outro transtorno.
-Est complicando as coisas desnecessariamente, sra. Jordan. A jovem estremeceu e emitiu um longo e trmulo suspiro.
-Bem, se eu admitir que roubei, vocs no mandaro a polcia atrs de mim?
-Aceitaria minha palavra?
Sandra Jordan examinou o rosto de Meredith atentamente.
-Posso aceitar?
-Pode.
- Est bem. Eu roubei.
Meredith olhou por cima do ombro, para Mark, que abrira a porta Atenciosamente e observava a cena.
-A sra. Jordan admite ter roubado aquelas peas - informou.
-timo - ele comentou, aproximando-se com um papel e umacaneta, que entregou  perturbada jovem.
-No sabia que precisaria assinar uma confisso - ela protestou.
-Assim que assinar, poder ir embora - Meredith assegurou gentilmente.
A moa olhou-a por um longo momento, ento assinou o papel e devolveu-o a Mark com um gesto brusco.
-Pode ir, sra. Jordan - ele disse.
Ela se levantou e agarrou-se s costas da cadeira, como se estivesse tonta.
-Obrigada, srta. Bancroft - murmurou.
-De nada - Meredith respondeu e saiu da sala.
-Srta. Bancroft! - Sandra Jordan chamou-a, quando ela j entrava no departamento de brinquedos.
Meredith parou e virou-se para olh-la.
-Eu queria bem queria dizer que j a vi nos noticirios, usando casacos de peles e lindos vestidos, mas que  muito mais bonita pessoalmente do que na televiso.
-Obrigada - Meredith agradeceu com um leve sorriso meio acanhado.
-Tambm quero que saiba que nunca roubei nada antes - a moa continuou. Ento, tirou uma carteira da bolsa, abriu-a e retirou a foto de um beb de olhos azuis
e com a boquinha sem dentes aberta num amplo sorriso. - Veja.  minha Jenny. Ela ficou doente, na semana passada, e o mdico mandou-me mant-la aquecida, mas no
posso ligar o aquecimento porque gastaria muita eletricidade. Ento, pensei em conseguir roupas quentes - Calou-se e piscou depressa para conter as lgrimas que
ameaavam tombar. - O pai dela foi embora, quando fiquei grvida, mas no faz mal, porque eu e Jenny estamos juntas e isso  o que importa. Eu no suportaria, se
perdesse minha filhinha.
Girou nos calcanhares e afastou-se quase correndo. Meredith acompanhou-a com os olhos, mas via apenas o beb com um pequeno lao cor-de-rosa nos cabelinhos ralos
e um sorriso angelical no rosto.
Minutos mais tarde, quando ia sair da loja, Sandra Jordan foi detida por um segurana.
-Espere - ele ordenou. - O sr. Braden est descendo.
A jovem comeou a tremer, naturalmente achando que fora induzida a assinar uma confisso para que pudessem entreg-la  polcia. Essa suposio tornou-se mais
forte, quando Mark Braden apareceu, carregando uma grande sacola, que abriu para que ela pudesse ver o contedo. Ali estavam o macacozinho e as outras peas que
ela tentara furtar, mas havia tambm um grande urso de pelcia que nem tocara.
-Vocs me enganaram - ela gritou em lgrimas, enquanto Braden estendia-lhe a sacola.
-No. Pode levar essas coisas para casa, sra. Jordan. Todos ns, da Bancroft & Company, desejamos  senhora e sua filhinha um feliz Natal - ele recitou, o sorriso
impessoal e o tom de voz deixando claro que apenas repetia as palavras que algum o mandara dizer.
Sandra, incrdula e grata, pegou a sacola e apertou-a contra o peito. Sabia que aqueles presentes no vinham dele, nem eram doao da loja. Ergueu os olhos para
o mezanino, procurando a linda jovem que olhara para a foto de Jenny com um sorriso to carinhoso. Achou que viu Meredith Bancroft l em cima, sorrindo para ela,
mas no podia ter certeza, pois lgrimas escaldantes transbordavam de seus olhos, inundando-lhe as faces.
-Diga a ela que Jenny e eu agradecemos - murmurou para Braden com voz entrecortada.




#15

Os escritrios dos principais executivos ficavam no dcimo quarto andar, ladeando dois longos e largos corredores carpetados que partiam da rea circular de
recepo. Retratos dos presidentes da Bancroft & Company, em suas ornamentadas molduras douradas, pendiam das paredes dessa rea, acima de sofs e poltronas em estilo
rainha Ana ali colocados para os visitantes. Logo no comeo do corredor  esquerda da mesa da recepcionista, ficavam o escritrio e a sala de reunies particulares
de Philip Bancroft.
Meredith saiu do elevador e olhou para o retrato de James Bancroft, seu bisav, fundador da loja.
Boa tarde, senhor, ela cumprimentou-o mentalmente.
Fazia isso todos os dias e sabia que era tolice, mas havia alguma coisa naquele homem com fartos cabelos loiros, barba cheia e colarinho duro que lhe despertava
afeio. Eram os olhos, certamente. A despeito da pose de extrema dignidade de James, os olhos azuis revelavam audcia e malcia.
De fato, ele fora no s audacioso, como tambm inovador. Em 1891; decidira romper com a tradio e oferecer o mesmo preo a todos os clientes. At aquela poca,
os habitantes de um determinado lugar pagavam preos mais baixos do que os forasteiros, tanto em armazns de secos e molhados, como em outras lojas. James colocara
um aviso discreto na vitrina da Bancroft & Company, anunciando que ali o preo era um s para todos. Tempos depois, James Cash Penney, um lojista empreendedor de
Wyoming, adotara o mesmo sistema e, nas dcadas seguintes, ficara com a fama de t-lo inventado. Meredith, porm, conhecia a verdade, porque encontrara, num antigo
dirio, a informao de que a deciso de seu bisav, de cobrar preo nico, fora anterior de J.C. Penney.
Deu pouca ateno aos outros retratos, o pensamento j voltado para a reunio de executivos para a qual se dirigia.
A sala de conferncias estava estranhamente silenciosa, quando ela entrou, e a tenso que pairava no ar era quase tangvel. Todos ali, esperavam que Philip Bancroft
desse uma pista sobre quem o substituiria durante sua licena. Sentando-se numa cadeira perto da cabeceira da longa mesa, Meredith cumprimentou nove homens e uma
mulher, todos vice-presidentes, como ela. A hierarquia, na Bancroft, era simples e eficiente. Um executivo comandava a diviso de finanas; o consultor-chefe ficava
 testa do setor jurdico; cinco vice-presidentes funcionavam tambm como gerentes-gerais das transaes comerciais, e eram encarregados de comprar toda a mercadoria
para a gigantesca loja e todas as filiais. Dois outros vice-presidentes eram encarregados de promover a venda dessa mercadoria toda: o da publicidade, que supervisionava
as campanhas no rdio, na televiso, em jornais e revistas, e o da apresentao visual, para quem Lisa trabalhava, e cujo pessoal era responsvel pela decorao
da loja e exposio da mercadoria.
Meredith, como vice-presidente da diviso de operaes, cuidava de tudo o mais que envolvia o funcionamento das lojas, desde a segurana, expanso do quadro
de empregados, at planejamento de inovaes. Fora nessa ltima rea que ela encontrara terreno propcio para fazer nome na comunidade varejista. Alm das cinco
lojas abertas por sua sugesto, havia cinco locais selecionados para a construo de outras, das quais duas j estavam sendo erguidas.
A outra mulher  mesa de reunies, Theresa Bishop, era responsvel pela previso antecipada das tendncias da moda e orientava a compra das mercadorias.
-Bom dia - Philip Bancroft cumprimentou, entrando na sala. Tomou seu lugar na cabeceira da mesa, enquanto todos o olhavam em tensa expectativa. - Se esto querendo
saber se tomamos uma deciso a respeito de quem ser o presidente interino, a resposta  no. Quando isso acontecer, vocs todos sabero. Agora, podemos dispensar
esse assunto e passar para o que interessa. - Olhou para Ted Rothman, o vice-presidente encarregado do abastecimento de cosmticos, roupas femininas, sapatos e casacos
de inverno. - De acordo com os relatrios que recebemos de todas as outras lojas, a venda de casacos caiu em onze por cento, comparada com a da mesma poca do ano
passado. alguma explicao para isso, Ted?
-Minha explicao  o tempo quente, nada caracterstico da estao-respondeu o homem com um sorriso. - Os clientes ainda no esto pensando em comprar agasalhos
pesados, o que  compreensvel. - Levantou-se, foi at um dos monitores de computador embutidos num armrio na parede e pressionou rapidamente algumas teclas. -
A venda de casacos em Boston, onde a temperatura caiu, aumentou dez por cento, na ltima semana.
-No estou interessado na ltima semana! - exclamou Philip. - Quero saber por que a venda diminuiu em relao ao ano passado!
Meredith olhou para o pai, pensando na conversa que tivera por telefone com uma amiga da Womers Wear Daily na noite anterior.
-De acordo com a VVWD, a venda de casacos baixou em todas as cadeias de lojas - aparteou. - Vo publicar uma matria sobre isso na prxima edio.
-No quero desculpas, mas uma explicao - Philip retrucou com aspereza.
Ela intimidou-se, mas s um pouquinho. Desde o dia em que forara o pai a reconhecer sua eficincia como executiva da Bancroft, ele fizera o possvel e o impossvel
para provar a todos que no a tratava com favoritismo, muito pelo contrrio.
-As jaquetas so a explicao - Meredith disse em tom calmo. - A venda de jaquetas de inverno subiu doze por cento em todo o pas.
Philip ouviu-a, mas no deu demonstrao disso, tornando a olhar para Ted Rothman.
-O que vamos fazer com os casacos que ficaro encalhados? - perguntou.
-Cortamos as encomendas que havamos feito, Philip - respondeu Ted, paciente. - E acho que no teremos sobras.
No informou que Theresa Bishop aconselhara-o a comprar grandes quantidades de jaquetas e cortar os pedidos de casacos.
-Se no me engano, compramos jaquetas em vez de mais casacos porque Theresa avisou-nos da tendncia para o uso de saias curtas, explicando que as mulheres dariam
preferncia a jaquetas, em vez de casacos - comentou Gordon Mitchell, responsvel pela compra de roupas femininas, infantis e acessrios.
Meredith sabia que ele estava dando essa informao, omitida pelo colega, no para tornar evidente a eficincia de Theresa, mas para mostrar que a de Ted deixara
a desejar. Mitchell nunca perdia uma oportunidade de fazer com que os outros vice-presidentes parecessem menoseficientes do que ele. Era mesquinho, astucioso, e
Meredith no conseguia gostar dele, apesar de sua bela aparncia.
- Todos ns conhecemos e apreciamos a viso de Theresa no que se refere  moda - declarou Philip com evidente menosprezo, porque no gostava que mulheres fossem
vice-presidentes e no fazia segredo disso.
Theresa revirou os olhos, mas no olhou na direo de Meredith em busca de solidariedade, pois fazer tal coisa seria demonstrar uma espcie de mtua dependncia,
at mesmo fraqueza, e ambas evitavam dar esse prazer ao temvel presidente.
     Philip olhou para suas anotaes e depois para Ted.
     - O que nos diz do perfume que aquela cantora de rock vai lanar?
- O nome do perfume  Charisma. A moa se chama Cheryl Aderly blssima estrela do rock, um smbolo sexual que
    - Eu sei quem ela ! Philip interrompeu-o. - A Bancrofts vai conseguir o direito de lanar o perfume, ou no?
- Ainda no sabemos - respondeu Ted, obviamente inquieto.
Os perfumes estavam entre os artigos mais lucrativos de uma loja de Bepartamentos, e lanar um deles com exclusividade era um feito e tanto. Significava publicidade
paga pelo fabricante, publicidade grtis, quando a cantora fosse  loja promover o produto, e bandos enormes de mulheres rodeando os balces para experiment-lo
e compr-lo.
     - O que quer dizer com ainda no sabemos? indagou Philip, carrancudo. - Voc disse que praticamente estvamos com o contrato no bolso!
- Cheryl Aderly est se fazendo de difcil - Ted admitiu, hesitante. - Pelo que entendo, deseja livrar-se da imagem de estrela do rock e tornar-se atriz sria,
mas
    Philip jogou na mesa a caneta que segurava.
- Pelo amor de Deus! No me interessam os planos que ela fez para sua carreira! S quero saber se a Bancrofts vai conseguir o direito de lanar o perfume e,
se no, por qu.
- Estou tentando explicar - Ted defendeu-se em tom apaziguador. - Cheryl gostaria de lanar o perfume numa loja de primeira classe, para comear a ganhar uma
imagem diferente, mas
- Que loja poderia ter mais classe do que a Bancroft? - Philip interrompeu-o, franzindo a testa. - Voc descobriu em qual outra ela est pensando?
-Na Marshall Fields.
- Mas isso  uma idiotice! A Fields no tem nossa classe e no  capaz de fazer o trabalho que podemos oferecer a Cheryl Aderly!
- Nossa classe  que  o problema - observou Ted, erguendo a mo quando Philip comeou a ficar vermelho de raiva. - Cheryl quer uma imagem de elegncia, mas
seu agente e seus consultores esto querendo convenc-la de que ser um erro abandonar a de roqueira smbolo sexual com a qual ganhou uma infinidade de fs adolescentes.
Foi por isso que pensaram na Fields.
- Eu quero que a Bancrofts faa o lanamento, Ted - declarou Philip de maneira autoritria. - Oferea-lhes uma margem de lucro maior, se for necessrio, ou
diga que dividiremos os custos da publicidade local, mas consiga o direito de lanamento.
- Farei o melhor que puder.
- No  o que tem feito at agora? - Philip desafiou.
    - Virou-se para o vice-presidente sentado ao lado de Ted, olhou-olongamente, depois examinou o rosto de cada pessoa ao redor da mesa de modo escrutinador. Por
fim, assestou fogo sobre Gordon Mitchel: - Os vestidos Dominic Avanti so horrveis, parecem sobras do ano passado, e no esto tendo sada.
- No esto tendo sada porque o pessoal do departamento de apresentao visual fez com que parecessem ridculos - Mitchell informou olhando acusadoramente para
Neil Nordstrom, chefe de Lisa. - Que ideia mais estpida, colocar chapus recobertos por lantejoulas e luvas nos manequins que exibiam os vestidos!
Neil fitou-o com ar de superioridade.
- Pelo menos, Lisa Pontini e sua equipe conseguiram apresentar de modo interessante aquela mercadoria sem graa.
- Basta, senhores - ordenou Philip, antes de virar-se para o comsultor-chefe do setor jurdico e perguntar: - Sam, como vai o processo que aquela mulher abriu
contra ns, alegando ter tropeado em alguma coisa no departamento de mveis, cado e machucado as costas?
- Foi tudo uma armao - Sam Green respondeu. - Nossa seguradora descobriu que essa mulher j processou quatro lojas, pelo mesmo motivo, e recusa-se a pagar
a indenizao. Ela perder a causa, se insist num julgamento.
Philip, ento, dirigiu seu olhar frio para Meredith.
- Alguma novidade sobre a aquisio daquele terreno em Bouston que voc est to determinada a comprar?
- Sam e eu estamos cuidando dos detalhes finais. Os proprietrios finalmente concordaram em vend-lo, e logo poderemos fazer o contrato.
Philip virou-se na cadeira para falar com o vice-presidente sentado a sua direita.
- Allen, o que tem a relatar?
O homem, responsvel por tudo o que dizia respeito s finanas, inclusive o departamento de credirio da loja, olhou para o bloco de papel amarelo a sua frente.
Meredith refletiu que os vinte e cinco anos de luta intelectual estressante contra o pai dela deviam ter contribudo muito para a calvcie de Allen, que o deixava
com aparncia de sessenta e cinco anos, e no cinquenta e cinco, sua idade real. A diviso de finanas no gerava renda. O mesmo acontecia com a diviso jurdica
e a de pessoal, e Philip apenas tolerava as trs, considerando-as um mal necessrio. Achava extremamente irritante o fato de seus chefes estarem sempre dizendo que
ele no podia fazer determinada coisa, em vez de mostrar-lhe como seria possvel faz-la. Ainda faltavam cinco anos para Allen Stanley pedir aposentadoria especial,
e Meredith muitas vezes perguntava-se se ele aguentaria at l.
- Recebemos uma quantidade extraordinria de pedidos de cartes de crdito no ms passado - Allen comeou, falando devagar e com visvel hesitao. - Quase oito
mil.
- Quantas propostas vocs aprovaram?
    -Sessenta por cento.

- O qu?! - Philip exclamou, furioso. - Pode me explicar por que rejeitaram trs mil? - indagou, batendo com a caneta na mesa, como que para enfatizar cada palavra.
- Estamos tentando atrair usurios de cartes, no enxot-los. Acho que no preciso dizer como essa prtica  lucrativa para a loja. E nem estou calculando o que
deixaremos de vender a essas trs mil pessoas, s porque elas no podem comprar a crdito na Bancroft!
- As propostas rejeitadas vinham de pessoas que no merecem crdito - argumentou Allen com firmeza. - Caloteiros no pagam o que compram, muito menos os juros
de mora. Voc pode achar que rejeitar propostas significa perda de dinheiro, mas minha equipe economizou uma fortuna, evitando vender para quem no paga. Estabelecemos
requisitos bsicos, que um proponente deve satisfazer para conseguir um carto da Bancroft, e o fato  que trs mil pessoas noforam capazes disso.
- Os requisitos so exigentes demais - comentou Gordon Mitchell
-Por que diz isso? - Philip quis saber, sempre ansioso para encontrar falhas no trabalho do chefe da diviso de finanas.
-Negaram um carto para minha sobrinha, que j est na universidade - explicou Mitchell com maldosa satisfao.
-No achamos seus dados satisfatrios - retrucou Allen.
- mesmo? Mas a moa tem cartes da Fields e da Macys! Aqui disseram a ela que seu histrico  insuficiente, no que diz respeito a crdito. Significa que
no puderam encontrar nada desfavorvel ou favorvel
O vice-presidente das finanas abanou a cabea numa afirmativa, o rosto fechado numa carranca.
-Foi o que com certeza aconteceu.
-E o que me diz, ento, da Fields e da Macys? - indagou Philip. - O pessoal de l tem mais acesso a informaes do que voc e sua equipe?
-No, no tem - respondeu Allen. Essas lojas usam o mesmo servio de proteo ao crdito que ns. Seus requisitos, porm, so mais complacentes do que os meus.
-Seus, uma ova - rosnou Philip. - A loja no  sua.
Meredith decidiu interferir, sabendo que, embora Allen Stanley defendesse ferozmente seus mtodos de trabalho, apenas em raras ocasies tinha coragem suficiente
para enfrentar Philip, apontando-lhe os prprios erros, inclusive aquela falta de discernimento no caso em questo. Se ela no fizesse alguma coisa, todos os executivos
ali reunidos teriam de tolerar uma longa briga entre os dois.
-Com licena - pediu, dirigindo-se ao pai. - Na ltima vez em que esse assunto foi discutido, o senhor mesmo nos fez ver que  arriscado conceder crdito a
universitrios. E sugeriu a Allen que negasse cartes a todos eles, exceto em casos excepcionais.
O silncio invadiu a sala, como sempre acontecia quando Meredith opunha-se ao pai. Naquele dia, porm, foi um silncio ainda mais pesado e alerta, porque todos
queriam ver se Philip mostraria alguma indulgncia com a filha, sinal de que a escolhera para ser sua substituta. Na verdade, ele no era mais exigente e severo
do que os presidentes da Saks, Macys, ou qualquer outra grande loja, e Meredith sabia disso. Era ao seu modo brusco e desptico de agir que ela fazia objees,
no s exigncias. Os executivos sentados ao redor daquela mesa, ao decidirem-se por uma carreira no comrcio varejista, sabiam que estavam entrando num negcio
frentico, onde trabalhar sessenta horas por semanaera regra geral, no exceo, pelo menos para quem desejava chegar ao topo e permanecer l. Meredith tambm sabia
disso, alm de ter conscincia de que, no seu caso, teria de trabalhar ainda mais arduamente e com mais eficincia do que os outros, se quisesse a presidncia, que
seria sua por direito se ela fosse homem.
Entrando na discusso entre Philip e Allen, no ignorava que irritaria o pai, embora pudesse tambm ganhar seu respeito.
-O que sugere, Meredith? - ele perguntou, olhando-a com ar desdenhoso, no admitindo, nem negando, que dissera a Allen para negar crdito a estudantes.
-A mesma coisa que sugeri na ltima vez. Que podemos conceder nosso carto aos universitrios com ficha limpa no servio de proteo ao crdito, mas com um
limite baixo, digamos, quinhentos dlares, durante o primeiro ano. No fim desse prazo, se o pessoal de Allen estiver satisfeito com o cliente, o limite poder ser
aumentado.
Por um momento, Philip apenas olhou-a, depois deu continuidade  reunio como se no houvesse ouvido o que ela dissera. Uma hora mais tarde, comeou a guardar
as anotaes na pasta de couro.
-Tenho vrias outras reunies marcadas para hoje, senhores e senhoras. - Ele sempre fazia essa pausa antes da palavra senhoras, que pronunciava em tom condescendente,
o que deixava Meredith furiosa. - Por isso, no h tempo para falarmos sobre os artigos mais vendidos na semana que passou. Muito obrigado por terem vindo. A reunio
est encerrada. Allen, pode emitir cartes para universitrios, com um limite de quinhentos dlares.
Foi simplesmente assim. Aceitou a sugesto de Meredith, sem um gesto de reconhecimento, como sempre fazia quando ela demonstrava alento e bom senso. Nunca admitia
o valor das sugestes da filha, que como todo o mundo sabia, traziam apenas benefcios  loja.
Meredith juntou as anotaes e saiu da sala, acompanhando GordonMitchell. Todos achavam que o cargo de presidente interino seria ocupado por um deles dois.
Mitchell, com trinta e sete anos, tinha mais tenpo de trabalho no comrcio varejista do que ela, o que lhe dava alguma vantagem, mas fazia apenas trs que estava
na Bancrofts. Meredith comeara a trabalhar l sete anos atrs e, mais importante, fora a grande responsvel pela expanso da loja, levando-a para cidades de vrios
Estados, depois de muita luta para fazer o pai e a diretoria concordarem com essa ideia. Ela prpria escolhera os locais dos novos estabelecimentos e supervisionara
todo o processo de sua criao. Por
isso tudo, e pela experincia que adquirira, trabalhando em todas as divises, podia oferecer  empresa coisas que nenhum dos outros candidatos possua, nem mesmo
Gordon Mitchell: versatilidade e profundo conhecimento de todos os aspectos do negcio.
-Philip me disse que vai fazer um cruzeiro, por recomendao do mdico - comentou Mitchell, quando passavam diante de seu escritrio cuja porta aberta mostrava
a sala de recepo. - Aonde ele planeja
-Sr. Mitchell, um momento! - a secretria chamou-o, fazendo-o parar. - Uma chamada em sua linha particular.  a secretria do st. Bender, e diz que  urgente.
-Eu lhe disse para no atender, quando a chamada for para meu telefone particular, Debbie - ele ralhou.
Pedindo licena a Meredith, atravessou a sala de recepo e entrou na sua, fechando a porta.


    Debbie mordeu o lbio, vendo Meredith continuar seu caminho. Quando a secretria do sr. Bender ligava, Gordon ficava tenso e excitado e s comeava a falar
ao telefone depois de fechar a porta. Fazia um ano que ele prometia divorciar-se da esposa e casar-se com Debbie, mas ela comeava a achar que a secretria do sr.
Bender era apenas o coguinome de uma nova amante. Ele fizera outras promessas, que tambm no cumprira, como a de promov-la a compradora de um dos departamentos
da loja, com um bom aumento. Com o corao aos saltos, Debbie ergueu o telefone do gancho para ouvir a conversa.
-Eu lhe disse para no ligar para o escritrio! - dizia Gordon em tom baixo e nervoso.
-Calma, vou ser breve - um homem respondeu. - Estou com uma sobra enorme daquelas blusas de seda que voc comprou e uma montanha de bijuterias. Dou-lhe o dobro
da comisso de costume, se voc tirar essa porcaria de minhas mos.
Debbie ficou to aliviada ao descobrir que existia mesmo um sr Bender, que suspirou, pensando em desligar. Ento, percebeu que a proposta de Bender cheirava
a negcio sujo e continuou ouvindo.
-No posso! - exclamou Gordon. - Vi as ltimas blusas e peas de bijuteria que voc despachou para c. So uma merda! At agora nosso arranjo deu certo porque
sua mercadoria tinha um pouco de qualidade, mas se algum olhar de perto o que chegou recentemente vai querer saber quem comprou e por qu. Quando isso acontecer,
os dois compradores da loja que esto sob minha responsabilidade voapontar o dedo para mim e dizer que fui eu quem os mandei comprar de voc.
- Se est preocupado com isso, despea os dois - Bender aconselhou. - A no podero apontar o dedo para voc.
- Vou ter de fazer isso, mas nada mudar. Olhe, Bender, nosso trato foi vantajoso para ns dois, mas acabou. Continuar seria arriscado demais. Acho que serei
nomeado presidente interino e, caso seja, no terei mais nada a ver com as transaes de compra e venda.
- Oua bem o que tenho a dizer, sua besta, porque no vou repetir-recomendou Bender em tom ameaador. - O negcio entre ns estava indo bem, e suas ambies
no me interessam. Paguei-lhe cem mil dlares no ano passado e
- Eu disse que nosso trato acabou - Gordon declarou rispidamente.
- S vai acabar quando eu quiser, e no quero, por enquanto. Me deixe na mo, e ligarei para o chefo Bancroft.
- E o que vai dizer a ele? - Gordon zombou. - Que no aceitei suborno para comprar suas porcarias?
- No. Vou dizer que sou um negociante honesto, e que voc s deixa seu pessoal comprar minhas mercadorias, depois que lhe dou uma comisso exorbitante. Isso
 extorso. - Bender fez uma pausa, talvez para deixar que suas palavras surtissem efeito, ento continuou:-E existe tambm a questo de imposto de renda. Bastar
um telefonema annimo para que comecem a investigar. A, descobriro que voc no declarou que ganhou uma quantia extra de cem mil dlares. Sonegao de impostos
 crime, nen. Que tal ser acusado disso e de extorso?
Mesmo em pnico, Gordon percebeu um rudo estranho, que parecia vir da outra sala, atravs do telefone.
- Espere um pouco. Preciso pegar uma coisa em minha pasta - mentiu.
Foi at a porta e girou a maaneta vagarosamente. Pela fresta que se abriu, quando empurrou um pouco a porta, viu Debbie com um dos telefones no ouvido, tapando
o bocal com a mo. E no estava usando outra linha, porque s havia um boto iluminado no aparelho principal. Furioso e apavorado, ele fechou a porta e voltou para
a escrivaninha.
- Vamos ter de acabar esta discusso  noite - declarou, voltando a falar com Bender. - Ligue para minha casa.
- Estou avisando
- Tudo bem! Ligue para minha casa e resolveremos isso.
-Assim  melhor. Sou compreensivo, portanto no tenha medo. Como vai ter de rejeitar a presidncia da Bancroft, aumentarei sua comisso.
Gordon desligou bruscamente e apertou o boto do interfone.
-Debbie, quer vir aqui, por favor? - pediu. Ento, soltou o boto e acrescentou: - Cadela intrometida!
Um instante depois, Debbie entrou, sentindo-se mal do estmago vendo esfaceladas suas iluses sobre Gordon, com medo de que ele olhando-a no rosto, descobrisse
o que ela fizera.
-Tranque a porta - o executivo ordenou em tom rouco, antes de rodear a mesa e dirigir-se ao sof. - Venha c.
Confusa pela sensualidade que julgou notar em sua voz, Debbie aproximou-se e soltou um grito abafado, quando ele a abraou impetuosamente.
-Sei que ouviu minha conversa ao telefone - Gordon declarou.-Mas estou fazendo isso por ns, querida. Quando minha mulher tirar tudo o que puder de mim, no
divrcio, ficarei quase sem nada, E preciso de dinheiro, para que voc tenha tudo o que merece. Entende, no , meu bem?
Debbie fitou o rosto bonito e viu uma expresso suplicante, que a comoveu. Sim, ela entendia. Acreditava que ele dizia a verdade. Deixou-o tirar-lhe o vestido,
o suti, a calcinha. Deu-lhe o corpo, seu amor e seu silncio.


Meredith erguia o telefone do gancho, quando sua secretria apareceu na porta.
Eu estava usando a mquina copiadora - a moa explicou.
     Philips Tilsher tinha vinte e sete anos, era inteligente e intuitiva,completamente sensata, a no ser num ponto: sentia-se irresistivelmente atrada por homens
irresponsveis. Meredith sabia disso, porque ela nunca escondera essa fraqueza.
-Jerry Keaton, do departamento de pessoal, telefonou enquanto voc estava na reunio - Philips avisou. - Disse que h a possibilidade de um dos balconistas
abrir um processo contra a loja por discriminao.
-Ele falou com o setor jurdico?
-Falou, mas quer conversar com voc tambm.
-Preciso voltar ao escritrio do arquiteto para acabar de examinar o projeto para a loja de Houston - Meredith explicou. - Diga a Jerry que falarei com ele
na segunda-feira de manh.
- Certo. Quem tambm telefonou foi
Philips interrompeu-se, quando Sam Green bateu educadamente no batente da porta.
-Com licena - ele pediu. - Meredith, pode me dar alguns minutos?
Ela concordou com um gesto de cabea.
-O que aconteceu?
-Acabei de falar com Ivan Thorp pelo telefone - Sam informou, caminhando at a mesa dela. - Pode haver um empecilho para a compra do terreno de Houston.
Meredith passara mais de um ms naquela cidade, procurando um local adequado para a construo de um shopping center, onde ficaria a nova loja. Encontrara o
lugar ideal e iniciara negociaes com a empresa Thorp Empreendimentos, proprietria do terreno.
-Que tipo de empecilho?
-Quando eu disse que estvamos prontos para fazer o contrato, ele respondeu que talvez j tivesse um comprador para todas as propriedades, inclusive o terreno
que queremos.
A empresa possua diversos edifcios comerciais, shopping centers e terras, e era de conhecimento geral que os irmos Thorp tencionavam vend-la, porque a notcia
sara no Wall Street Journal.
-Voc acredita mesmo que eles tenham um comprador? - perguntou Meredith. - Ou esto querendo nos forar a pagar um preo maior pelo terreno?
-Pode ser que seja isso, mas eu queria que voc soubesse que talvez tenhamos um adversrio com o qual no contvamos.
-Vamos ter de resolver isso, Sam. Quero construir a loja naquele terreno. O lugar  perfeito. Houston est comeando a recuperar-se do colapso, os preos dos
imveis continuam baixos, mas quando inaugurarmos a loja, a economia da cidade dever estar bem melhor.
Meredith olhou para o relgio e levantou-se. Eram trs horas da tarde de sexta-feira, e o trnsito j devia estar ficando ruim.
-Preciso me apressar - disse, desculpando-se com um sorriso.  Veja se aquele seu amigo de Houston pode descobrir se de fato Thorp tem um comprador para a empresa.
J telefonei. Ele vai investigar.



#16

Naquela tarde de sexta-feira, a limusine de Matt abria caminho no trfego do centro de Chicago, indo na direo do prdio de sessenta andares onde funcionava
a sede nacional da Haskell Electronics. Acomodado no banco traseiro, ele lia um relatrio, mas ergueu os olhos, aborrecido, quando Joe OHara ultrapassou um txi
com uma guinada brusca, atravessou um sinal vermelho e, buzinando sem parar, espalhou um grupo de intrpidos pedestres que atravessavam a rua. Chegando  entrada
da garagem subterrnea da Haskell, Joe pisou no freio e virou o carro para a rampa.
-Desculpe, Matt - pediu com um sorriso desconfiado, olhando para o patro pelo espelho retrovisor.
-Voc est num daqueles dias - Matt replicou secamente. - Eu gostaria de saber por que insiste em querer transformar pedestres em ornamentos de cap.
O carro comeou a descer a rampa, os pneus guinchando nas curvas interminveis, a lateral quase raspando a parede, indo para o andar de estacionamento reservado
aos executivos. Por mais caro e elegante que fosse o veculo, Joe sempre dirigia como um adolescente irresponsvel ao volante de seu velho automvel, com uma loira
atravessada no colo e uma caixa de cerveja no banco de trs. Se seus reflexos tambm no fossem de adolescente, ele j teria perdido a carta de motorista e talvez
a vida.
Mas era to leal quanto ousado. Dez anos antes, na Venezuela, salvara a vida de Matt, quando o caminho que ele dirigia perdera o freio e despencara por um barranco
e pegara fogo. Ignorando o perigo, Joe enfrentara as chamas e arrancara-o do veculo. Como recompensa, Matt dera-lhe uma caixa de bom usque e sua eterna gratido.
Joe sempre carregava uma pistola automtica calibre quarenta e cincopresa no ombro por uma tira de couro e escondida sob o palet. Comprara a arma anos atrs
quando Matt adquirira sua primeira empresa, uma transportadora, e tivera de forar passagem atravs dos piquetes dos grevistas que tentavam impedir sua entrada.
Matt achava que ele no precisava andar armado, pois, embora tivesse apenas um metro e setenta e cinco de altura, possua msculos poderosos, responsveis por seus
cem quilos de peso. Alm disso, o rosto feio de pugilista tornava-se assustador, quando se fechava numa carranca ameaadora. Mais adequado para guarda-costas do
que para motorista, o homem tinha a aparncia de um lutador de sumo e dirigia como um demente.
-Chegamos - Joe anunciou, conseguindo parar o carro bem perto do elevador privativo. - Lar, doce lar.
-Por um ano, ou at menos - Matt comentou, fechando a pasta.
    Em geral, quando comprava uma empresa, ficava l por no mximo dois meses, s o suficiente para acompanhar o trabalho de seus homens, enquanto eles avaliavam
o desempenho dos dirigentes. At ento, porm, comprara apenas empresas bem gerenciadas, cujos problemas haviam sido gerados por vrios fatores que resultavam em
esgotamento do capital de giro. As mudanas efetuadas nesses lugares nunca eram muito grandes e visavam apenas colocar o gerenciamento em sintonia com os mtodos
de operao da Intercorp. A Haskell, no entanto, era diferente. Mtodos e procedimentos antiquados teriam de ser abandonados em favor de outros, novos e mais eficientes,
os salrios precisavam ser reajustados, e certas alianas alteradas. Alm disso, Matt planejara construir uma enorme fbrica no municpio de Southville, onde j
comprara o terreno. Em resumo, a Haskell precisava de um trato completo.
     Matt tambm acabara de comprar uma empresa de navegao, que necessitava de seus cuidados, de modo que teria um longo perodo de trabalho rduo pela frente.
Mas estava acostumado a isso. No comeo, trabalhara como um desesperado, impulsionado pelo desejo de alcanar sucesso. Ento, depois de conseguir um xito que no
imaginara nem mesmo em seus sonhos mais audaciosos, mantivera o ritmo exaustivo,no mais pelo sucesso, mas porque adquirira o hbito. Em outros tempos nada lhe
dera mais prazer do que o trabalho. Contudo, ultimamente, nem os negcios proporcionavam-lhe muita satisfao, como se o tdio ameaasse domin-lo.
Haskell, necessitando de total reorganizao para ficar do jeitoque ele queria, aparecera como um excitante desafio. Talvez houvesseerrado formando sua corporao
com empresas boas, bem organizadas,que s precisavam do apoio financeiro da Intercorp para florescer, refletiu, destrancando a porta do elevador que o levaria ao
andar dos executivos. Deveria ter comprado algumas que precisassem de mais coisas, alm de dinheiro, para mant-lo interessado.
No sexagsimo andar, a recepcionista Valerie atendeu o telefone ouviu o recado do guarda do trreo, que tambm cuidava da portaria. Quando desligou, virou-se
para a secretria sentada a sua direita.
- Pete Duncan disse que uma limusine prateada acabou de entrar na garagem cochichou. Ele acha que foi Farrell quem chegou.
- O novo chefo deve adorar essa cor - comentou Joanna, olhando para a enorme placa prateada com o logotipo da Intercorp, que foi afixada na parede com revestimento
de madeira atrs de sua mesa.
Quinze dias aps a Haskell ter passado para a Intercorp, aparecera por l uma equipe de operrios dirigida por um decorador. Duas semanas depois, a sala de recepo
daquele andar, assim como a de reunies e o futuro escritrio de Matt Farrell, estava totalmente redecorada. Os desgastados tapetes orientais haviam sido retirados,
e um carpete prateado cobrira at o ltimo centmetro de piso. No lugar dos mveis escuros, marcados pelo tempo, viam-se sofs e poltronas de couro cor de vinho
e mesinhas com tampo de vidro. Era notria aquela idiossincrasia de Matt Farrell, que insistia em que cada empresa adquirida pela Intercorp fosse imediatamente redecorada
para tornar-se semelhante s outras da corporao.
Valerie e Joanna, assim como as outras funcionrias daquele andar haviam recebido bastante informao sobre Matthew Farrell e sabiam que ele era um patro exigente
e implacvel. Apenas alguns dias aps a venda da empresa, seu presidente, Vern Haskell, fora forado a aposentar-se, um tanto prematuramente, e dois vice-presidentes,
um filho e um genro dele, a demitir-se. Outro VP recusara-se a pedir demisso e fora despedido. Agora, alguns dos escritrios deles, naquele mesmo andar, mas na
ala oposta, estavam sendo usados por trs homens Farrell. Os outros trs encontravam-se aquartelados em outro lugar do prdio, espionando, fazendo perguntas, fazendo
listas, certamente de pessoas a serem demitidas.
No s os grandes estavam caindo, como funcionrios tambm. A secretria do sr. Haskell tivera de escolher entre ficar e trabalhar para um executivo menos importante,
ou ir embora com seu chefe, porque Matt Farrell decidira trazer da Califrnia sua prpria secretria. Ele criara uma onda de medo e ressentimento entre as secretrias
restantes, mas isso no fora nada, em comparao ao que elas sentiram quando Eleanor Stern chegou. A mulher era magra, empertigada, uma tirana diligente, que as
observava com olhos de falco e ainda usava palavras como impertinncia e decoro. Chegava no escritrio antes de todos os outros e era a ltima a sair. Quando
ouvia risos ou conversas das moas, aparecia na porta com a expresso de um sargento irritado e ficava olhando para elas at que, acanhadas, ficassem em silncio.
Fora por essa razo que Valerie resistira ao impulso de ligar para algumas das colegas e avisar que Farrell estava chegando, apesar de saber que elas gostariam de
ir  recepo para v-lo.
As revistas e jornais mostravam-no como um sofisticado bonito que saa com estrelas do cinema e mulheres da realeza europeia. Tte Watt Street Journal chamara-o
de empresrio genial que tinha o toque de Midas. Mas o sr. Haskell, no dia da partida, dissera que Matthew Farrell era um filho da me arrogante e desumano, com
instintos de tubaro e moral de um lobo saqueador. O fato era que Joanna e Valerie estavam predispostas a desprez-lo, sem mesmo conhec-lo.
A nica badalada suave da campainha do elevador soou na rea de recepo como um martelo batendo num gongo. Matt Farrell saiu e o ar pareceu estalar, perturbado
pela energia que ele emanava. Bronzeado, atltico, com um sobretudo de casimira pendurado no brao e carregando uma pasta, caminhou rapidamente na direo das duas
moas, lendo um relatrio.
Valerie levantou-se, hesitante.
-Boa tarde, sr. Farrell.
Sua gentileza mereceu apenas um olhar frio e um aceno de cabea como resposta. Matt passou como o vento, poderoso, perturbador e completamente indiferente a
meros seres mortais, como Valerie e Joanna.
Ele j estivera antes no prdio, para uma reunio, de modo que andou sem hesitar para o conjunto de salas que pertencera ao presidente askell e sua secretria.
Entrou e fechou a porta, s ento parando de ler o relatrio para lanar um olhar rpido para a mulher que trabalhava Para ele havia nove anos. Nunca se cumprimentavam,
nem se permitiam observaes pessoais.
- Como esto indo as coisas? - Matt indagou.
- Bastante bem - respondeu Eleanor.
-Est tudo pronto para a reunio? - ele perguntou, quase rspido, olhando para a porta dupla que levava a sua sala.
-Naturalmente - ela afirmou no mesmo tom.
Os dois formavam um par perfeito desde o dia em que Matt a escolhera entre vinte outras candidatas, quase todas jovens e atraentes mandadas por uma agncia de
empregos. Naquele dia, ele vira a foto de Meredith na revista Town and Country, que algum deixara na cantina. Ela estava deitada na areia de uma praia jamaicana
em companhia de um universitrio, jogador de plo. A legenda dizia que ela fora para l em companhia de colegas da universidade. Ento, ele se sentira mais determinado
do que nunca a subir na vida, e fora nesse estado de esprito que comeara a entrevistar as candidatas. Queria uma pessoa inteligente e confivel, forte o bastante
para acompanh-lo na rdua caminhada em direo ao topo. Acabara de jogar no cesto de papis o currculo da ltima moa com quem falara, quando Eleanor entrara na
sala, parecendo marchar com aqueles sapatos de saltos largos, usando um conjunto preto e com os cabelos grisalhos presos num coque apertado. Ela entregou-lhe o currculo
e esperou em estico silncio, enquanto ele o lia. Matt ficou satisfeito ao ser informado de que ela estava com cinquenta anos, era solteira, datilografava cento
e vinte palavras por minuto e taquigrafava cento e sessenta, no mesmo tempo. Ergueu os olhos, tencionando fazer algumas perguntas, mas no teve tempo.
-Sei que sou vinte anos mais velha do que a maioria das moas l fora, e vinte vezes menos atraente - ela declarou em tom glido. - Mas, como nunca fui bonita,
precisei desenvolver as qualidades que tinha.
-E quais so essas qualidades? - perguntou Matt, surpreso.
-Mente privilegiada e habilidade em vrias coisas, no apenas em datilografia e taquigrafia. Entendo de leis, porque trabalhei como assistente de um advogado,
e sou contadora. Alm disso, conheo a fundo uma coisa que poucas jovens de hoje conhecem.
-E o que ?
-Ortografia. Sei redigir muito bem.
Matt compreendeu que ela era uma daquelas pessoas que s contentavam-se com a perfeio, e isso agradou-o. A mulher tambm tinha um certo orgulho, algo que ele
admirava, e dava a impresso de no deixar que nada a impedisse de terminar um trabalho. Baseado no instinto que lhe dizia ser ela a secretria certa, decidiu contrat-la.
-Ter de trabalhar longas horas por dia, e o salrio, por enquanto no ser muito bom - avisou. - Estou comeando agora. Se subir a levarei junto. Aceita?
-Aceito.
-Terei de viajar muito, e haver vezes em que precisar ir comigo
Ela apertou os olhos inesperadamente, com jeito desconfiado.
Talvez o senhor deva ser mais claro no que diz respeito a meus deveres. Sei que as mulheres devem ach-lo extremamente atraente, mas
Matt ficou estupefato ao perceber que ela achava que ele poderia estar planejando seduzi-la e tambm furioso com sua observao sobre as mulheres acharem-no
extremamente atraente.
- Seus deveres sero apenas aqueles de uma secretria, nada mais-respondeu em tom ainda mais frio que o dela. - No estou interessado em ter um caso, no quero
bolo no meu aniversrio, nem bajulao, como tambm no quero sua opinio sobre minha vida particular, que diz respeito apenas a mim. Tudo o que desejo  que dedique
seu tempo e suas habilidades ao trabalho.
Sabia que fora mais spero do que o necessrio, e que essa reao devera-se mais ao fato de ter visto a foto de Meredith na revista do que  atitude da mulher.
Eleanor, porm, no pareceu importar-se.
-Para mim est timo - ela declarou.
-Quando pode comear?
-Agora.
Matt nunca se arrependeu de hav-la contratado. Dentro de uma semana, j percebera que, como ele, Eleanor era capaz de trabalhar incessantemente, sem reclamar
e sem perder a energia. Jamais venceram a barreira que se erguera entre os dois quando ela mostrara-se desconfiada quanto s intenes dele. No princpio, ficaram
ocupados demais com o trabalho para pensar naquilo, depois o fato perdera a importncia, quando entraram numa rotina que ainda funcionava de modo magnfico para
ambos. Matt chegara ao topo, e ela trabalhara ao lado dele, noite e dia, sem queixar-se, tornando-se quase indispensvel. Cumprindo o que prometera, ele a recompensara
generosamente, e Eleanor estava ganhando sessenta e cinco mil dlares por ano, mais do que um executivo de nvel mdio da Intercorp.
Naquele primeiro dia de Matt na Haskell, ela seguiu-o at o escritrioe ficou  espera, enquanto ele punha a pasta sobre a escrivaninha de pau-rosa e pendurava
o sobretudo no armrio. Em geral, ele lhe entregava uma fita cassete com as instrues para o dia e ditados para serem transcritos.
-Nenhum ditado - Matt informou, voltando para junto da escrivaninha. Abriu a pasta e retirou uma pilha de fichas de arquivo. - E no tive chance de examinar
o contrato da Simpson no avio. O Lear apresentou um defeito no motor e vim para c num voo comercial.Havia um beb na minha frente, que parecia estar com dor de
ouvidos e chorou o tempo todo.
Como ele iniciara uma conversao, Eleanor achou que devia dizer alguma coisa.
-E ningum fez nada? - perguntou.
-O homem a meu lado ofereceu-se para asfixi-lo, mas a me no aprovou a soluo, assim como no aprovou a minha.
-E qual era a sua?
-Obrig-lo a beber vodca misturada com conhaque. - Matt fechou a pasta. - O que me diz dos funcionrios daqui?
-Alguns so muito dedicados, mas outros, como essa Joanna Simons, por quem o senhor passou agora h pouco, no servem. Dizem que ela foi mais do que simples
secretria do sr. Morrissey, e estou inclinada a acreditar. Como no  nada eficiente no trabalho, logicamente deve ter talento para outra coisa.
Eleanor fungou com afetao, mas Matt j estava pensando em outra coisa.
-Esto todos l? - ele perguntou, apontando na direo da sala de reunies, adjacente a seu escritrio.
-Naturalmente.
-Todos tm cpias da ordem do dia?
-Naturalmente - ela repetiu.
-Vo me telefonar de Bruxelas - Matt informou, andando para a sala de reunies. - Passe a ligao para mim imediatamente, mas segure as outras.
Seis dos mais talentosos vice-presidentes da Intercorp estavam acomodados em dois longos sofs cor de vinho numa das extremidades da sala, no lado oposto de
uma grande mesa de mrmore e vidro. Os homens levantaram-se para apertar-lhe a mo quando Matt aproximou-se, olhando-o como se quisessem adivinhar, por sua expresso
qual fora o resultado da viagem  Grcia.
- bom ver voc de volta, Matt - disse o ltimo homem que o cumprimentou.
-No nos deixe ansiosos - acrescentou Tom Anderson. - Como estava Atenas?
-Extremamente agradvel - Matt respondeu, enquanto dirigia-se para a mesa com os companheiros. - E a Intercorp, agora,  proprietria de uma frota de navios-tanques.
Uma atmosfera de triunfo, forte e deliciosa, envolveu a todos,comearam a falar ao mesmo tempo, expondo planos para aquele novo ramo da famlia.
Matt sentou-se  cabeceira da mesa e reclinou-se na cadeira, olhando para os seis executivos a quem delegava tanto poder. Eram homens dinmicos, dedicados, os
melhores em seus campos de ao. Cinco haviam sado das universidades de Harvard, Princeton, Yale, UCLA e MIT, e usavam ternos de oitocentos dlares, camisas de
algodo egpcio e gravatas de seda. Juntos, como estavam ali, pareciam estar posando para um anncio em quatro cores da Brooks Brothers, que poderia declarar: Quando
voc chega ao topo, s o melhor lhe serve. Em contraste, o sexto homem, Tom Anderson, destoava de todos eles, com a jaqueta xadrez, marrom e verde, a cala e a
gravata verdes. A paixo de Tom por roupas coloridas era uma fonte de divertimento para seus colegas de equipe, mas eles raramente o arreliavam por causa disso.
O motivo era simples: no queriam abusar, zombando de um homem com um metro e noventa de altura e cento e vinte quilos.
Tom Anderson terminara o colegial, mas no fora para a universidade e mostrava-se agressivamente orgulhoso disso, dizendo que se diplomara na escola da vida.
O que no alardeava era que possua um talento fantstico que escola nenhuma podia dar: captava, por instinto, por intuio, todas as nuances da natureza humana.
Sabia, depois de conversar alguns minutos com uma pessoa, o que a motivava: vaidade, ganncia, ambio saudvel ou qualquer outra coisa.
Era, aparentemente, apenas um grandalho que falava de modo simples e gostava de trabalhar em mangas de camisa. Por baixo dessa superfcie sem polimento, porm,
existia o dom da negociao e a habilidade para resolver problemas importantes, que emergiam especialmente quando ele lidava com sindicatos em nome da Intercorp.
Entre todas as qualidades de Tom, havia uma que Matt prezava mais: lealdade. Na verdade, ele era o nico homem naquela sala que no venderia seus talentos a
quem fizesse a oferta maior. Trabalhara na primeira empresa que Matt comprara e, quando essa fora vendida, ele optara por arriscar-se, acompanhando o patro, em
vez de ficar com os novos proprietrios, apesar de eles lhe oferecerem um excelente cargoe umsalrio muito melhor.
Matt pagava aos outros homens daquela equipe o bastante para que eles no ficassem tentados a vender-se a uma corporao rival, mas pagava ainda mais a Anderson,
por sua dedicao a ele e  Intercorp. No havia ningum melhor do que os seis, e eles mereciam o queganhavam, mas era Matt quem canalizava toda aquela eficincia
na direo certa. Ele traara sozinho o plano principal para a exparisr da Intercorp, que alterava quando necessrio.
-Senhores, falaremos dos navios-tanques mais tarde - disse, interrompendo a conversa dos homens sobre a frota. - Agora, vamos falar dos problemas da Haskell.
Seus mtodos de trabalho no perodo que se seguia  aquisio de uma empresa eram nicos e eficientes. Em vez de passar meses tentando encontrar as causas e
as solues dos problemas e demitindo os executivos que no tinham um desempenho satisfatrio, Matt fazia algo bem diferente. Enviava aqueles seis homens para que
trabalhassem com os vice-presidentes da empresa recm-adquirida. Em questo de semanas, eles familiarizavam-se com o funcionamento de cada diviso, descobriam seus
pontos fracos e fortes e avaliavam as qualidades do vicepresidente responsvel por ela.
Matt olhou para Elliott Jamison.
-Vamos comear por voc, Elliott. De modo geral, que impresso teve da diviso de comercializao da Haskell?
-No  ruim, mas tambm no  tima. H muitos gerentes, tanto aqui como nos escritrios regionais, e poucos representantes correndo as praas para vender os
produtos. Os clientes existentes so bem atendidos, mas os representantes no tm tempo para conseguir novos. Levando em conta a alta qualidade dos produtos, o nmero
de clientes deveria ser de trs, at quatro vezes maior. Em minha opinio, deveramos reforar a equipe de vendas, contratando cinquenta representantes. Assim que
a fbrica de Southville ficar pronta e estiver funcionando, sugiro que coloquemos mais cinquenta.
Matt fez uma anotao no bloco a sua frente e tornou a olhar para Elliott.
-O que mais?
-Paul Cranshaw, o vice-presidente da diviso de comercializao ter de ir embora, Matt. Est na Haskell h vinte e oito anos e sua filosofia de trabalho 
antiquada e ingnua. Ele  inflexvel e se recusou a mudar de mtodos.
-Que idade tem?
-Cinquenta e seis.
-Aceitar uma aposentadoria antecipada, se lhe oferecermos isso?
    -  possvel. No vai demitir-se, com certeza. O filho da puta  arrogante e no esconde o ressentimento contra a Intercorp.
Tom Anderson, que fitava a prpria gravata, ergueu os olhos.
-No  de surpreender. Ele  primo distante do velho Haskell.
Elliott olhou-o com espanto, obviamente admirando sua habilidade para descobrir certas coisas.
- Verdade? Isso no consta da ficha dele. Como foi que descobriu?
-Tive uma deliciosa conversa com uma encantadora senhora, l embaixo, na sala de arquivos. Ela  a funcionria mais antiga da empresa, uma fonte ambulante de
informaes.
-Agora entendo a hostilidade de Cranshaw. Ele precisa mesmo ir embora - declarou Elliott. - Sua atitude  um problema, mas h outros motivos para mand-lo embora.
Bom, Matt, o que tenho a dizer  isso, no geral. Na semana que vem examinaremos tudo mais especificamente.
Matt virou-se para John Lambert, responsvel pela anlise da situao financeira, indicando-lhe que era sua vez de falar.
-Os lucros so bons, como j sabamos - o homem preludiou. - No entanto, h setores em que podemos fazer um corte nas despesas. Alm disso, metade dos clientes
leva seis meses para pagar o que deve. Haskell no adotou a poltica de ser mais agressivo na cobrana.
-Vamos ter de substituir o vice-presidente das finanas, ento? - perguntou Matt.
John hesitou.
-Deciso difcil de tomar. Ele alega que Haskell no queria que os clientes fossem pressionados a pagar mais depressa. Diz que tentou, durante anos, adotar
um procedimento mais enrgico, inutilmente. Tirando isso, ele  um bom chefe, sabe delegar responsabilidades, e os supervisores que dirige desempenham bem suas funes.
-Como ele reagiu, quando voc invadiu seus domnios? Mostrou-se disposto a aceitar mudanas?
-Ele  daqueles que preferem seguir um lder do que liderar, mas  dedicado. Se dissermos o que desejamos que seja feito, ele far. Mas no podemos esperar
que faa inovaes por conta prpria.
-D-lhe instrues e coloque-o nos trilhos - disse Matt, depois de um momento de hesitao. - A diviso de finanas  grande e Parece estar em boa forma. Se
o pessoal de l est satisfeito, acho melhor que as coisas continuem assim.
-Concordo. No prximo ms, estarei pronto para discutir o oramento e a poltica de preos com voc.
-timo. - Matt olhou para o homenzinho loiro especializado em assuntos referentes ao quadro de pessoal. - David, o que me diz sobreo departamento de recursos
humanos?
- bom. A porcentagem de empregados das classes minoritrias  um pouco baixa, mas no tanto que possamos aparecer nos jornais por causa disso, ou perder contratos
pblicos - David Talbot respondeu. - O departamento estabeleceu bons sistemas de contratao, promoo e assim por diante. Lloyd Waldrup, o vice-presidente que comanda
a diviso,  perspicaz e bem qualificado para a funo.
- um discriminador disfarado - comentou Tom Anderson, inclinando-se na direo de um servio de prata e porcelana no centro da mesa, para servir-se de uma
xcara de caf.
-Essa  uma acusao ridcula - protestou David, irritado. - Lloyd Waldrup entregou-me os relatrios com o nmero de mulheres e representantes de minorias nos
vrios setores, e h uma boa porcentagem dessas pessoas ocupando cargos de chefia.
-No acredito nesses relatrios - declarou Tom.
-Meu Deus, homem, o que h com voc? - explodiu David, virando-se para fitar o rosto imperturbvel do colega. - Toda vez que adquirimos uma empresa, voc comea
a implicar com os chefes do departamento de recursos humanos! Qual  o motivo dessa averso?
-Quase sempre so um bando de puxa-sacos, que s querem chegar ao poder.
-Inclusive Waldrup?
-Especialmente ele.
-E qual de seus famosos instintos fez com que voc chegasse a essa concluso?
-Ele elogiou minhas roupas, dois dias seguidos. Nunca confiei numa pessoa que fizesse isso, principalmente em algum como Waldrup, que usa ternos conservadores.
A risadinha de Matt aliviou a tenso que se avolumava.
-Mais algum motivo para acreditarmos que os relatrios mentem -perguntou David, relaxando.
-Perfeitamente - afirmou Tom, tendo o cuidado de no deixar a manga da jaqueta entrar na xcara de caf, enquanto estendia o brao para pegar o aucareiro.
- Faz duas semanas que ando para c e para l neste prdio, e no pude deixar de notar uma coisinha.
Parou de falar, enquanto punha o acar no caf, e depois ficou mexendo o lquido por longos instantes, irritando a todos, com exceo de Matt, que continuou
a olh-lo com tranquilo interesse.
-Tom! - David chamou, perdendo a pacincia. - Quer, por favor dizer logo o que notou em suas andanas pelo prdio?
- Vi muitos homens com escritrios prprios.
-E da?
No vi nenhuma mulher, a no ser na diviso de contabilidade,onde sempre houve mulheres na chefia. E apenas duas delas tm secretrias. Pergunto-me se Waldrup
no distribuiu alguns ttulos de fantasia, s para deixar as damas satisfeitas e dar uma boa aparncia aos relatrios. Se aquelas mulheres realmente tm cargos de
chefia, onde esto as secretrias? Onde ficam seus escritrios?
-Vou verificar - David concedeu com um suspiro exasperado. - Eu teria descoberto, mais cedo ou mais tarde, mas foi bom saber agora. - Virou-se para Matt. -
No futuro, vamos ter de fazer modificaes no sistema de frias e na poltica salarial para que satisfaam os padres da Intercorp. Na Haskell, os empregados podem
ter trs semanas de frias depois de trs anos de trabalho, e quatro semanas aps oito anos. Essa prtica est custando uma fortuna  empresa, em termos de tempo
perdido e da constante necessidade de contratar substitutos em regime temporrio.
-E quanto aos salrios? - perguntou Matt.
-So mais baixos do que os nossos. A filosofia de Haskell era dar mais frias e pagar menos. Voltaremos a discutir o assunto assim que eu fizer todos os clculos.
Durante mais duas horas, Matt ouviu o que os outros homens tinham a dizer sobre os problemas encontrados em suas reas e as possveis solues. Quando a discusso
sobre a Haskell acabou, ele colocou-os a par do que acontecia em outras divises da Intercorp, inclusive a ameaa de uma greve na tecelagem da Gergia.
No decorrer de toda a reunio, um homem, Peter Vanderwild, permanecera to atento quanto um brilhante e fascinado universitrio que compreendia tudo o que os
mestres diziam, mas que ainda estava aprendendo certos segredos que s um grupo de peritos poderia ensinar. Peter sara de Harvard, tinha vinte e oito anos e um
Q.I. de gnio, era especializado em escolher empresas para a Intercorp comprar, avaliando o potencial de lucro. A Haskell Electronics fora uma de suas indicaes,
e ele acertara, pela terceira vez consecutiva.
Matt mandara-o a Chicago com o resto da equipe, para que ele visse de Perto o que acontecia depois que uma empresa era adquirida, que visse o que no era visto
nos relatrios financeiros em que tanto confiava como, por exemplo, diretores de recursos humanos que faziam discriminao, embora disfaradamente. Ele estava l
para observar, mas tambm para ser observado. Apesar do sucesso de Peter at ali,Matt sabia que ele ainda precisava de orientao. O jovem era convencido, hipersensvel,
arrojado ou tmido, dependendo da situao, e isSo era algo que Matt pretendia cortar. O talento de Peter era enorme, mas precisava ser canalizado.
-Deseja falar alguma coisa sobre sua rea? - Matt perguntou-lhe
-Estou pensando em vrias empresas que seriam excelentes aquisies - Peter anunciou. - No to grandes quanto a Haskell, mas com bom potencial. Uma delas 
uma pequena empresa de software no vale
-Nada de empresas de software - Matt declarou com firmeza.
-Mas a JHL 
-Nada de empresas de software - repetiu Matt. - Representam muito risco, no momento. - Viu Peter corar de embarao, ento, lembrando-se de que seu objetivo
era guiar o extraordinrio talento do jovem, no acabar com seu entusiasmo, refreou a impacincia, acrescentando: - No o estou censurando. Eu nunca lhe disse o
que penso sobre essas empresas. Qual outra gostaria de recomendar?
-O senhor mencionou que desejava expandir nossa diviso de propriedades comerciais - Peter comeou com alguma hesitao. - H trs empresas do ramo  venda:
uma em Atlanta, outra aqui em Chicago e a terceira em Houston. As duas primeiras possuem quase que s edifcios de escritrios, e a outra investiu mais em terras.
Os donos so dois irmos. Eles dirigem a empresa desde que o pai morreu, anos atrs, mas no se suportam. Acontece que Houston passou por um longo perodo de depresso,
e suponho que no h razo para acreditar que o recente processo de recuperao continuar. Alm disso, como os irmos Thorp no se do bem, acho que um negcio
com eles nos daria mais problemas do que
-Est tentando me convencer de que sua ideia  boa ou m? Matt interrompeu-o com um sorriso. - Voc faz as escolhas, usando seu discernimento. Deixe que eu
as rejeite ou aprove. Esse  meu trabalho, e se voc comear a faz-lo por mim, me sentirei intil.
Os homens riram da observao feita em tom de brincadeira, e Peter levantou-se para entregar a Matt uma pasta contendo relatrios sobre as trs empresas que
ele mencionara e vrias outras.
Enquanto o jovem voltava a sentar, Matt abriu a pasta e notou que os relatrios eram demasiadamente longos, e as anlises, muito complexas.
-Peter foi meticuloso como sempre, senhores, de modo que levaria muito tempo para ler as informaes todas. Acho que j conversamossobre tudo o que era necessrio
no momento. Falaremos novamente a semana que vem. Avisem  srta. Stern, quando estiverem prontos para apresentar mais detalhes a respeito de suas reas. Dirigiu-se
a Peter: Vamos ver isto aqui no meu escritrio.
    - Instantes depois, quando Matt acabara de sentar-se  escrivaninha,o interfone tocou, e Eleanor informou que ia completar a ligao de Bruxelas. Com o telefone
preso entre o queixo e o ombro, Matt comeou a ler o relatrio sobre a situao financeira da empresa de Atlanta que Peter recomendara.
-Matt! exclamou Josef Hendrick, a voz alegre elevando-se acima da esttica. A ligao est ruim, meu amigo, mas a boa notcia que tenho para dar no pode esperar
por uma melhor. Meu pessoal est totalmente de acordo com a sociedade limitada que lhe propus no ms passado. No fizeram oposio a nenhuma de suas estipulaes.
- Isso  timo, Josef - afirmou Matt, mas sem muito entusiasmo, porque era muito mais tarde do que imaginara, e ele comeava a sentir o cansao provocado pela
viagem.
Quando pousou o telefone no gancho, olhou para fora atravs das janelas que tomavam quase uma parede inteira. O cu estava escuro, e luzes brilhavam nos edifcios
vizinhos. Da avenida Michigan, subia o som insistente de buzinas, normal na hora do rush, quando os motoristas tentavam abrir caminho no trnsito pesado.
Matt acendeu a luminria em cima de sua mesa e olhou para Peter,que se levantou e acendeu as lmpadas do teto tambm.
- Vou levar os relatrios para casa e examin-los durante o fim de semana, Peter. Conversaremos na segunda-feira de manh, s dez horas.




#17

Sentindo-se refrescado depois de uma sauna e um banho, Matt passou uma toalha em volta da cintura e pegou o relgio, que deixara no toucador de mrmore preto
de seu banheiro circular. O telefone tocou e ele ergueu-o do gancho.
-Voc est nu? - Alicia Avery perguntou com voz aveludada antes que ele pudesse dizer uma palavra.
-Que nmero voc discou? - ele indagou, fingindo surpresa.
-O seu, querido. Voc est nu?
-Seminu - Matt respondeu. - E atrasado.
-Estou contente por voc estar em Chicago. Quando chegou?
-Ontem.
-Tenho voc em minhas garras, finalmente! - Ela riu. - Voc nem imagina que fantasias tenho tido, pensando em hoje  noite, quando voltarmos do baile beneficente.
Senti saudade de voc, Matt - acrescentou, direta e franca como sempre.
-Ns nos veremos dentro de uma hora - Matt lembrou-a. - isto , se voc me deixar desligar o telefone.
-Est bem. Na verdade, foi papai quem me fez telefonar. Ele ficou com receio de que voc pudesse esquecer o baile. Est quase to ansioso por v-lo quanto eu,
por razes muito diferentes,  claro.
-Naturalmente - Matt concordou com uma risadinha.
-Ah, devo avis-lo de que ele pretende propor sua adeso ao Glen moor Country Club. O baile ser a ocasio perfeita para apresentar voc a alguns dos scios
e garantir os votos deles, de modo que papai o arrastar por todos os cantos, se voc permitir. A imprensa estar presente em massa, por isso prepare-se para ser
massacrado.  uma humilhao, sr. Farrell, saber que meu acompanhante causar mais sensao do que eu.
Matt cerrou os dentes com fora, invadido por irnica tristeza, ao ouvir Alicia falar do Glenmoor, onde ele conhecera Meredith naquele Quatro de Julho distante.
J era scio de dois clubes de campo, to exclusivos quanto esse, mas frequentava-os raramente. Se, por acaso, se associasse a um, em Chicago, com certeza no seria
o Glenmoor.
- Diga a seu pai que agradeo a ateno, mas prefiro que esquea o assunto.
- Matt, voc no esqueceu o baile em benefcio da pera, no ?-o pai de Alicia entrou na conversa, atravs da extenso.
-No, Stanton, no esqueci.
-Muito bom. Pensei em pegar voc s nove. Podemos parar no Yatch Club para um drinque e ir direto para a festa. Dessa maneira, no teremos de aturar La Traviata.
A menos que voc goste muito dessa pera.
-peras, em geral, me deixam em estado comatoso - brincou Matt, fazendo Stanton dar uma risadinha.
Nos anos anteriores, assistira a dezenas de peras e apresentaes de orquestras sinfnicas e tambm patrocinara alguns desses eventos culturais, porque no meio
em que vivia isso era importante para os negcios. No entanto, continuava achando tudo aquilo muito tedioso.
-s nove est timo - concordou.
Assim que recolocou o telefone no gancho, ps o relgio no pulso e pegou o barbeador, pensando em seu relacionamento com Stanton Avery. Conhecera o homem quatro
anos antes, em Los Angeles, e sempre que um visitava a cidade do outro, davam um jeito de encontrar-se. Matt gostava imensamente dele, porque, ao contrrio de muitos
socialites de suas relaes, o amigo era um homem de negcios duro, spero, prtico e realista. Na verdade, se tivesse de escolher um sogro, escolheria Stanton.
Alicia era bem parecida com o pai. Apesar de sofisticada e bem-educada, agia sempre de modo direto, quando queria alguma coisa.Assim, fora com prazer que Matt no
s aceitara o convite dos dois para o baile, como concordara em contribuir com cinco mil dlares.
Dois meses atrs, quando Alicia estivera em Los Angeles e sugerira que deviam casar-se, Matt no rejeitara a ideia imediatamente, mas oimpulso de aprov-la
passara bem depressa. Gostava de Alicia, e no s na cama, mas j se casara uma vez com uma moa rica e mimadae no tinha a inteno de repetir a experincia. Na
verdade, nunca pensara seriamente em tornar a casar-se, porque no voltara a sentir, por ningum, o que sentira por Meredith. No mais conhecera a necessidade violenta,
possessiva, louca, de ver uma mulher, de toc-la efaz-la rir, com uma paixo vulcnica e insacivel. Nenhuma de suas amantes olhara-o como Meredith, fazendo-o
sentir-se humilde e poderoso ao mesmo tempo, acendendo nele o desejo desesperado de provar que podia ser melhor do que era. Casar-se com algum que no o fizesse
sentir-se assim seria aceitar um relacionamento de segunda escolha, e isso no seria satisfatrio. Por outro lado, ele no desejava experimentar novamente aquelas
emoes atormentadoras, tempestuosas e esmagadoras. Quando seu casamento acabara, a mera recordao do que sentira por Meredith, uma esposa desleal a quem ele adorara,
transformara sua vida num inferno que durara muitos anos.
O fato era que, se Alicia fosse capaz de tomar conta de seu corao, de entrar em seu sangue, como Meredith fizera, ele romperia com ela antes que fosse tarde
demais. Jamais permitiria que os sentimentos voltassem a deix-lo to vulnervel. Talvez Alicia tornasse a falar em casamento, mas, mesmo que no o fizesse, ele
teria de deixar claro que isso estava fora de cogitao ou, ento, terminar o relacionamento que lhe dava tanto prazer.
Matt vestiu o smoking e foi para a sala do apartamento. Stanton e Alicia chegariam em quinze minutos, de modo que ele tinha tempo para um drinque. Atravessou
a sala na direo do bar, que ficava num nvel mais elevado, atrs de um conjunto de sofs e poltronas arrumados de modo aconchegante. Escolhera aquele prdio para
morar, porque todas as paredes externas eram formadas por imensas janelas de vidro que permitiam uma viso deslumbrante da avenida Lake Shore e do perfil de Chicago
recortado contra o cu. Parou por um momento para olhar para fora, antes de subir os degraus que levavam ao recanto do bar, pretendendo tomar um conhaque. Recomeou
a andar e esbarrou numa mesinha, derrubando o jornal que a empregada deixara l. Os cadernos espalharam-se e ele abaixou-se para junt-los.
Foi quando viu a fotografia de Meredith, na ltima pgina do primeiro caderno. Ela parecia olhar para ele, com aquele sorriso perfeito os cabelos impecveis,
a expresso serena. Ela j era bonita, aos dezoito anos, e ficara linda com a maturidade. Alm disso, tornava-se evidente que os fotgrafos superavam-se para faz-la
ficar parecida com Grace Kelly na juventude.
Matt parou de olhar para a foto e comeou a ler o artigo logo abaixo ficando surpreso e tenso com a notcia de que Meredith ficara noiva do namorado de infncia,
Parker Reynolds III e que a Bancroft& Cmpany pretendia comemorar o casamento, em fevereiro, com uma fantstica liquidao em todas assuas lojas.
Um sorriso irnico desenhou-se no rosto de Matt, enquanto ele jogava o jornal para um lado e andava at a janela. Ele estivera casado com aquela cadelinha traioeira,
e ela nunca lhe falara daquele namorado de infncia. Mas, tambm, haviam passado to pouco tempo juntos que seria impossvel conhecerem-se bem. E o que ele sabia
dela s merecia desprezo.
De repente, deu-se conta de que esse pensamento no combinava com o que ele sentia. No, no a desprezava mais. Lembrava-se dela apenas com frio desgosto. Fazia
tantos anos que tudo acontecera que o tempo corroera todas as emoes que ela provocara, inclusive a repugnncia. No restara nada, alm de desgosto e piedade. Para
agir como agira, Meredith tinha de ser uma pessoa fraca, dominada totalmente pelo pai. Fizera um aborto quase no sexto ms de gestao e mandara-lhe um telegrama,
contando isso e informando que ia dar entrada no divrcio. Apesar de tudo, ainda louco por ela, ele pegara um avio e fora para Chicago com a inteno de tentar
faz-la desistir da separao. Quando chegara ao hospital, fora informado, na recepo da ala Bancroft, que Meredith no desejava v-lo, e um segurana pusera-o
para fora. Imaginando que tal instruo fora dada por Philip, no por Meredith, voltara ao hospital no dia seguinte, s para ser barrado por um policial que lhe
entregara uma declarao legal que dizia que ele no devia tentar aproximar-se dela.
Numa luta que durara anos, Matt trancara as lembranas e a angstia por ter perdido o beb num recanto remoto e escuro da mente, porque no podia suport-las.
Olhando para as luzes piscantes da avenida que acompanhava a margem do lago, refletiu que as recordaes no mais o magoavam, pois para ele, Meredith simplesmente
deixara de existir.
Soubera, desde o momento em que decidira passar um ano em Chicago que poderia encontrar-se com ela, mas recusara-se a deixar que essa possibilidade afetasse
seus planos. E acertara, porque acabara de descobrir que no havia nada a temer. Tudo ficara no passado. Alm disso, os dois eram adultos, tinham traquejo social
e, no caso de um encontro, saberiam tratar-se com cortesia.


Matt acomodou-se na limusine de Stanton, apertou a mo do amigoe olhou para Alicia, envolta num casaco comprido da mesma cor deseus cabelos escuros e brilhantes.
Ela estendeu a mo para ele, sorrindo de modo sedutor.
-H quanto tempo no nos vemos! - exclamou com aquela sua voz suave.
-Tempo demais - ele afirmou com sinceridade.
-Dois meses. Vai simplesmente apertar minha mo, ou me beijar de maneira adequada?
Matt lanou um olhar comicamente desamparado para Stanton, que deu sua permisso com um sorriso indulgente. Ento, puxou Alicia para o colo, sem nenhuma cerimnia.
-At que ponto da maneira adequada? - perguntou.
-Voc vai ver.
S Alicia teria a audcia de beijar um homem daquele jeito, na frente do pai. Mas, tambm, nenhum outro pai viraria o rosto para olhar pela janela, enquanto
a filha beijava um homem com lnguida sensualidade tencionando excit-lo sexualmente. Matt ficou excitado, e ela percebeu.
-Acho que voc sentiu mesmo minha falta, querido.
-Pois eu acho que um de ns dois devia pelo menos corar.
-Que coisa mais provinciana, Matt! - ela censurou, rindo, enquanto tirava as mos dos ombros dele. - Tpica de classe mdia.
-Houve um tempo em minha vida, em que eu ficaria feliz, se fosse da classe mdia - ele a lembrou.
-Voc tem orgulho disso, no ?
-Suponho que sim.
Ela deslizou do colo dele para o banco e cruzou as pernas, abrindo o casaco para mostrar o vestido longo, preto, com uma fenda do lado que ia at o meio da coxa.
-O que acha? - perguntou.
-Voc pode descobrir mais tarde o que ele acha - resmungou Stanton subitamente irritado com o fato de a filha monopolizar a ateno de seu amigo. - Matt, ouviu
dizer que vai haver uma fuso da Edmund Mining com a Ryerson Consolidated? Mas, antes de responder, diga-me como vai seu pai. Ainda insiste em continuar morando
na fazenda?
-Meu pai est bem - respondeu Matt, e era verdade, pois fazia onze anos que Patrick no bebia. - Consegui convenc-lo a vender as terras que restaram e mudar-se
para a cidade. Ele vai ficar comigo algumas semanas, depois ir visitar minha irm. Por falar nisso, preciso ir  fazenda, ainda este ms, para pegar as lembranas
de famlia que ele no teve coragem.

***

O vasto salo, com suas colunas de mrmore, cintilantes lustres de cristal e o teto abobadado sempre fora esplndido, mas naquela noite Meredith achou-o especialmente
maravilhoso. Os decoradores haviam-o transformado numa linda terra hibernal, onde quiosques brancos, cobertos de neve artificial, exibiam enormes arranjos de rosas
vermelhas e ramos de azevinho. No centro do salo, num quiosque maior, com roseiras subindo pelos pilares e montes de neve ao redor, a orquestra tocava uma seleo
de Rodgers e Hart. Fontes decoradas com pingentes de gelo artificial soltavam jorros de champanhe, e garons circulavam entre os grupos, oferecendo bebidas e hors
doeuvres.
Perto do centro do salo, Meredith mantinha-se de p ao lado de Parker, que lhe rodeava a cintura possessivamente com um brao, enquanto os dois recebiam os
cumprimentos e votos de felicidade dos amigos e conhecidos que sabiam do noivado.
Quando ficaram sozinhos por alguns instantes, ela virou-se para ele, o rosto iluminado pelo riso.
-O que foi que voc achou engraado? - ele quis saber com um sorriso terno.
-A msica que a orquestra est tocando - ela explicou. - Foi a que danamos quando eu tinha treze anos, na festa da srta. Eppingham, no Hotel Drake.
-Ah, sei! - ele exclamou, rindo. - A noite da tortura, para os alunos da Eppingham.
-Eu, principalmente, me senti a mais infeliz das criaturas. Derrubei a bolsa, bati com a cabea na sua e pisei nos seus ps o tempo todo, enquanto danvamos.
-Voc derrubou a bolsa e ns batemos nossas cabeas - ele a corrigiu com aquela sensibilidade que ela tanto amava. - No pisou nos meus ps e estava adorvel.
Na verdade, foi naquela noite que notei, pela primeira vez, como seus olhos so lindos. Voc me olhava com uma expresso estranha, to atenta
Meredith riu.
-Talvez eu estivesse tentando decidir qual seria a melhor maneira de pedir-lhe que fosse meu namorado.
- mesmo?
-, - Meredith afirmou, ento seu sorriso desapareceu, quandoela viu uma colunista social andando na direo dos dois. - Parker, vou ao toalete. - Sally Mansfield
est vindo para c e no quero falarcom ela at descobrir quem foi que lhe disse que a Bancroft vai comemorar nosso casamento com uma liquidao em todas as lojas.
    Fez uma pausa, desvencilhando-se do brao dele.
-A pessoa que fez isso vai ter de pedir a Sally que escreva uma retratao - continuou. - No vai haver liquidao nenhuma. por favor, preste ateno para ver
se Lisa chega. Ela j deveria estar aqui h muito tempo.
Ento, comeou a andar na direo da larga e imponente escadaria que levava ao andar superior.
    -Calculamos o tempo perfeitamente - comentou Stanton, enquanto Matt pegava o casaco de Alicia e entregava-o  moa encarregada dos agasalhos, numa sala pegada
ao salo.
Matt ouviu o comentrio, mas sua ateno estava presa s costas nuas de Alicia.
- Que vestido! - exclamou baixinho, divertido e excitado.
-  Ela se virou e sorriu para ele.
-Voc  o nico homem que consegue dizer isso de um jeito que parece um convite para ficarmos juntos na cama durante pelo menos uma semana.
Ele riu, e os trs caminharam na direo do salo ruidoso e brilhantemente iluminado. J da entrada, Matt viu dois fotgrafos e uma equipe de televiso percorrendo
o salo e preparou-se para o inevitvel ataque da imprensa.
-Foi? - perguntou Alicia, quando o pai parou para falar com amigos
-Foi, o qu? - Matt pegou duas taas de champanhe da bandeja de um garom.
-Um convite para uma semana de sexo, como tivemos h dez meses atrs?
-Alicia, comporte-se - ele ralhou brandamente, cumprimentando com um gesto dois homens que conhecia.
-Por que voc nunca se casou?
-Vamos falar disso em outra hora, est bem?
-Voc sempre foge do assunto - ela se queixou.
    Aborrecido com a insistncia e a falta de senso de oportunidade de Alicia, Matt pegou-a pelo brao, que o tecido da comprida luva preta cobria, e levou-a para
um lado.
-Bem, suponho que queira mesmo falar sobre isso aqui e agora.
-Quero - ela confirmou, erguendo o queixo num desafio.
-Por qu?
-Porque quero casar.
-Com quem? - ele perguntou, mesmo sabendo que estava sendo perverso.
Obviamente magoada com o insulto e talvez furiosa consigo mesma por ter forado a situao, Alicia examinou o rosto dele longamente.
-Acho que mereci isso - admitiu num murmrio.
-No, no mereceu.
Ela olhou-o, parecendo confusa, ento sorriu de leve.
-Bem, vamos esquecer o assunto, por enquanto.
O sorriso de Matt foi breve, frio e nada encorajador. Com um suspiro, Alicia passou o brao pelo dele.
-Voc  o homem mais difcil que j conheci - declarou, quando os dois recomearam a andar.


    Lisa entregou o convite ao porteiro e entrou no vestbulo do hotel. Parando apenas o tempo necessrio para tirar o casaco e deix-lo na sala dos agasalhos, foi
para o salo, onde comeou a procurar por Meredith. No a encontrou, mas depois de algum tempo viu a cabea loira de Parker acima das outras, perto do quiosque da
orquestra, e dirigiu-se para l. No caminho, esbarrou levemente em Alicia Avery, que andava ao lado de um homem muito alto, de cabelos escuros e ombros largos, cujo
rosto pareceu-lhe vagamente familiar.
Os homens viravam-se  passagem de Lisa para olh-la, porque ela realmente chamava a ateno, com aquele corpo esbelto, os fartos cabelos arruivados emoldurando-lhe
o rosto, a cala larga, vermelha, a Decotada blusa preta de veludo e uma irreverente faixa preta de contas e miangas em volta da cabea, algo que ficaria ridculo
em qualquer outra mulher.
-Oi - ela cumprimentou, parando junto de Parker, que enchia a taa numa das fontes de champanhe.
Ele se virou e franziu a testa, enquanto examinava-a com franca desaprovao.
-Oh, no! - exclamou Lisa, irritada com a muda censura. - O juros baixos j vai comear?
Exasperado, ele desviou o olhar do decote da blusa dela para os olhos que o fitavam com ar de desafio.
-Por que no se veste como as outras mulheres? - indagou.
-No sei. - Lisa fingiu pensar no assunto, ento anunciou comum amplo sorriso: - Talvez pelo mesmo desejo de chocar que faz voc executar hipotecas de vivas
e rfos. Onde est Meredith?
-No toalete.
Depois da rude troca de palavras, algo costumeiro entre os dois evitaram olhar-se, fixando a ateno nas pessoas que os circundavam. Em dado momento, os reprteres
de jornais e da televiso comearam a dirigir-se para um ponto  direita deles, obviamente prontos para cair sobre uma presa suculenta. Momentos depois, osflashes
comearam a espoucar, e Lisa viu que os fotgrafos e cmeras focalizavam o homem que ela vira em companhia de Alicia Avery.
-Quem ? - perguntou, olhando para Parker com relutncia.
-No d para ver - ele respondeu, ento ficou tenso, quando abriu-se uma brecha no ajuntamento, mostrando quem causara toda aquela agitao. - Ʌ  Farrell!
Lisa, ento, soube que o homem que acompanhava Alicia era o desalmado ex-marido de Meredith. Cheia de hostilidade, observou-o responder s perguntas que lhe
gritavam, enquanto Alicia sorria para os fotgrafos, sempre pendurada em seu brao. Por um momento, pensando em tudo o que Meredith sofrera por causa de Matt Farrell,
sentiu o impulso de ir at ele e cham-lo de filho da puta diante de todos. Mas conteve-se porque sabia que a amiga detestava cenas e se zangaria. Ento, um pensamento
sbito cruzou-lhe a mente, deixando-a angustiada.
-Meredith sabia que ele estaria aqui?
-No. V procur-la e avise-a - instruiu Parker com uma rapidez que indicava que pensara a mesma coisa, ao mesmo tempo que ela.
Forando passagem entre a aglomerao, Lisa viu que Matt livrara-se da imprensa, menos da colunista Sally Mansfield, que estava parada a seu lado, enquanto ele
conversava com Stanton Avery ao p da escadaria. Apressou-se, mas parou, abalada, quando viu Meredith aparecer l no alto e comear a descer os degraus. Com nervosismo
inpotente, pois no chegaria  amiga a tempo de avis-la da presena de Matt, consolou-se com o pensamento de que Meredith nunca estivera to deslumbrante, e que
era assim que seu maldito ex-marido iria v-la pela primeira vez, depois de onze anos! Desprezando a moda de vestidos justos, Meredith optara por um longo de cetim
branco, de saia ampla e corpete sem alas. No pescoo, exibia um maravilhoso colar de rubis e brilhantes, talvez presente de Parker, o que Lisa duvidava ou que fora
tomado emprestado da joalheria da Bancroft, algo mais provvel.
No meio da escada, Meredith parou para falar com um casal idoso que subia, e Lisa prendeu a respirao, em suspense. Parker aproximara-se e olhava inquieto de
Matt Farrell para Sally Mansfield e depois para Meredith.


    Alicia afastara-se para falar com amigos, e Matt, em dado momento, olhou em volta, procurando-a. Seu olhar vagueou pelos arredores e ento subiu. Ele ficou petrificado,
a taa de champanhe parada a meio caminho da boca, os olhos fixos na mulher que fora sua esposa. Compreendeu por que a imprensa insistia em compar-la a Grace Kelly.
Linda, com os cabelos presos na nuca, Meredith era a prpria imagem da finura e da serenidade. O corpo assumira formas mais arredondadas, o rosto delicado exibia
uma beleza fascinante.
Matt recuperou-se rapidamente do choque e conseguiu tomar um gole de champanhe, respondendo com um gesto de cabea a uma observao de Stanton, mas sem deixar
de olhar para a bela mulher no meio da escada, embora a observasse apenas com o interesse de um perito examinando uma obra de arte, sabendo que no passava de uma
falsificao.
No entanto, ele no podia endurecer o corao inteiramente, vendo Meredith conversar com o casal de velhos. Matt lembrava-se de ela ter contado que sempre se
dera bem com pessoas de muito mais idade, vira sua gentileza com os idosos, naquela noite distante, no Glenmoor, e seu corao abrandou-se ainda mais. Procurou traos
da enrgica executiva, mas viu apenas um sorriso meigo, cintilantes olhos azuis e uma aura de pessoa Ele procurou a palavra adequada e s pde pensar em intocvel.
Talvez fosse um efeito causado pelo vestido branco, de modelo recatado, diferente dos trajes sedutores das outras mulheres, com seus decotes vertiginosos e fendas
na saia que subiam quase at a cintura. Apenas os ombros de Meredith estavam expostos, mas, mesmo assim, ela parecia mais provocante do que as outras. Provocante,
maJestosa, inatingvel.
Matt sentiu os ltimos resqucios de amargura desaparecerem.
Um dia, ele descobrira que, alm de bonita, Meredith tambm era bondosa,mas esquecera-se disso. S um medo muito grande poderia sufocar essa bondade e lev-la
a cometer algo repelente, como livrar-se do filho.
Ela fora obrigada a casar-se com ele, ainda jovem demais, e nem o conhecia. Com certeza, Philip induzira-a a imaginar-se morando em lEdmunton, aquela cidadeznha
suja, onde criaria um filho praticamente sozinha, pois Matt poderia transformar-se num bbado, como o pai.
Aquele homem seria capaz de tudo para impedi-la de continuar casada com um joo-ningum, at mesmo de obrig-la a abortar e divorciar-Se. Olhando para Meredith,
naquele momento, Matt compreendeu algo que no compreendera em onze anos. No fora ela quem impedira o beb de nascer. Inexperincia, medo e um pai dominador haviam
feito isso.
-Linda, no? - comentou Stanton, dando-lhe uma leve cotovelada
-Muito.
-Venha. Vou apresent-lo a ela e ao noivo. Voc precisa mesmo conhecer Parker. Ele dirige um dos maiores bancos de Chicago.
Matt hesitou, mas acabou concordando. Ele e Meredith iriam encontrar-se, num evento social ou outro, de modo que no havia motivo para protelar um momento que
inevitavelmente chegaria.
Ela desceu a escada e ao chegar embaixo parou para examinar a multido,  procura de Parker.
Stanton tocou-a no brao para chamar-lhe a ateno.
-Pode me dar um momento? Quero que conhea uma pessoa. Meredith virou-se, sorrindo, mas o sorriso desapareceu, quando ela olhou para o homem alto e bronzeado
ao lado de Stanton e reconheceu Matt.
-Meu amigo, Matthew Farrell. - A voz do velho conhecido chegou at ela como atravs de um tnel.
Meredith sentiu o estmago apertar-se e a mente debater-se, aflita, sob o impacto das lembranas do passado. Reviu o homem que no fora v-la no hospital, quando
ela perdera o beb, e mandara um telegrama mandando-a iniciar o processo de divrcio.
E ali estava ele, fitando-a com um sorriso encantador. Algo rompeu-se no ntimo de Meredith, e ela ignorou a mo que Matt lhe estendia Apenas olhou-o com glido
desprezo por mais um momento, antes de virar-se para Stanton.
-Devia escolher melhor seus amigos, sr. Avery - aconselhou. - Com licena.
Afastou-se sob o olhar curioso e excitado de Sally Mansfield, deixando Stanton atnito, e Matt furioso.

    Eram trs da madrugada, quando os ltimos convidados para a comemorao do noivado saram do apartamento de Meredith, deixando com Parker e Philip.
-No devia ficar acordado at to tarde - ela disse ao pai, sentando-se numa poltrona.
Ainda estremecia ao pensar no encontro inesperado com Matt, incapaz de esquecer a fria que vira nos olhos dele quando rejeitara sua mo
- Voc sabe perfeitamente bem por que ainda estou aqui - respondeu Philip, servindo-se de um pouco de xerez.
Ficara sabendo que Meredith encontrara-se com Matthew Farrell atravs de Parker, cerca de uma hora antes, e era bvio que desejava ouvir detalhes.
- No beba isso, pai. Os mdicos proibiram
- Os mdicos que se danem. Quero saber o que Farrell disse, quando voc no quis apertar a mo dele.
- No teve chance de dizer coisa alguma - ela explicou.
Contou tudo o que acontecera, ento ficou observando o pai, enquanto ele tomava a bebida proibida, pensando em como seus cabelos haviam embranquecido, como ele
parecia velho, embora ainda mantivesse o porte imponente. Fora manipulada e dominada por aquele homem durante quase que toda sua vida, at que encontrara coragem
para lutar contra sua vontade frrea e enfrentar seu temperamento explosivo. Apesar disso, amava-o e preocupava-se com ele, sofrendo quando olhava para o rosto desfigurado
pela doena e pelo cansao. Assim que seu substituto fosse escolhido, ele partiria para um cruzeiro, durante o qual, por recomendao mdica, no deveria sequer
pensar na Bancroft & Company. Tambm teria de desistir dos jornais e dos noticirios da televiso, evitando aborrecer-se com o que acontecia no mundo. Seria um perodo
apenas de descanso e divertimento.
-No precisava ter contado a meu pai o que aconteceu na festaela observou, olhando para Parker.
O noivo reclinou-se na poltrona com um suspiro desgostoso.
-Sally Mansfield estava l, Meredith - argumentou. - Teremosmuita sorte, se ela no contar, na coluna de amanh, o que viu e ouviu.
-Espero que conte Philip declarou.
-Eu, no - replicou Parker, ignorando o olhar irritado do futuro sogro. No quero que as pessoas comecem a perguntar por que Meredith fez o que fez.
Ela apoiou a cabea no encosto da poltrona e fechou os olhos.
-Se eu no tivesse sido apanhada desprevenida, no faria aquilo.Pelo menos, no to abertamente.
- Os nossos amigos ficaram intrigados, e vrios deles j me fizeramperguntas Parker avisou. - Temos de pensar numa explicao.
- Por favor, hoje no - ela pediu. - Agora, s quero ir para a cama.
- Certo - o noivo concordou, levantando-se.
Saiu pouco depois, e Philip acompanhou-o, sem outra alternativa.




#18


Era quase meio-dia, quando Meredith saiu do banheiro, depois de uma ducha. Vestiu um conjunto de cala e suter de l cor de vinho, prendeu os cabelos num rabo-de-cavalo
e foi para a sala, olhando com renovado desgosto para o jornal que jogara no sof depois de ler o que Sally Mansfield escrevera em sua coluna: As mulheres, em todo
o mundo, parecem sucumbir ao charme de Matthew Farrell, mas nossa Meredith Bancroft mostrou-se imune a ele. No baile em benefcio da pera, ontem, ela, sempre to
gentil com todos, tratou-o com desprezo, recusando-se a apertar-lhe a mo. S nos resta imaginar por qu.
Tensa demais para ler os relatrios que levara para casa e muito cansada para sair, ficou parada no meio da sala, sentindo a mente tumultuada. Olhou em volta,
observando os lindos mveis antigos, o tapete persa, com seus desenhos em rosa e verde sobre fundo bege, as cortinas nas janelas, a preciosa escrivaninha francesa
que comprara num leilo em Nova York, refletindo que a decorao ficara exatamente como ela imaginara. No entanto, naquele dia, tudo lhe parecia estranho, como o
estado de esprito em que se encontrava.
Foi  cozinha e serviu-se de caf, que tomou apoiada no balco, esperando que a bebida revigorante acabasse com aquela sensao de estar vivendo fora da realidade.
As plantas que pendiam do teto, acima da mesa aninhada num canto, naquele dia no receberiam a luz do sol que normalmente entrava pelas janelas, pois o cu estava
encoberto. Tudo l fora parecia cinzento e melanclico, exatamente como ela se sentia por dentro.
O caf quente e forte fez mais efeito do que o banho, e Meredith comeou a sentir a mente desanuviar-se. Ento, permitiu-se pensar no que acontecera na noite
anterior, no baile, e encheu-se de vergonha. Lamentou o modo como se comportara, mas no por temer a repercussodo que Sally Mansfield escrevera. O que mais a
aborrecia era reconhecer que perdera o controle por causa de um homem que pensara ter esquecido ou, pelo menos, parado de julgar e culpar. Fazia muito tempo que
no sentia rancor contra ele, por seu prprio bem, porque, se mantivesse acesas as chamas da raiva e do sofrimento, estaria arruinada.
Um ano aps ter perdido o beb, obrigara-se a refletir objetivamente sobre seu desastroso relacionamento com Matt. Objetividade e um psiclogo com quem fizera
um tratamento na universidade ajudaram-na a compreender que o que acontecera fora inevitvel. Ela e Matt haviam se casado apenas porque ela estava grvida e, a no
ser pelo beb, no havia a mnima razo para permanecerem juntos. No tinham nada em comum e nunca teriam. Matt fora insensvel, no indo v-la, quando ela abortara,
e mais insensvel ainda, propondo o divrcio num momento to difcil. Mas como poderia no ser, criado como fora, enfrentando tantas dificuldades desde cedo, arcando
com a responsabilidade de um pai alcolatra e de uma irm mais nova, abrindo caminho  fora na vida? Se no fosse duro e no tivesse uma determinao de ferro,
jamais sairia de Edmunton e das usinas de ao.
No caso de Meredith, ele cumprira seu dever, casando com ela, mas talvez fora parcialmente movido pela ambio. Ento, Philip informara-o de que Meredith no
teria acesso  herana deixada pelo av at os trinta anos, e nem depois, se dependesse dele. Assim, quando acontecera o aborto, o nico motivo para manter o casamento
desaparecera. Mesmo que continuassem casados, ele a faria sofrer, pois seus valores eram muito diferentes dos dela.
Meredith compreendera tudo isso, ou pelo menos achara que compreendera. No entanto, na noite anterior, perdera completamente a objetividade e a compostura. Isso
no teria acontecido, se algum a avisasse, com alguns minutos de antecedncia, que ia encontrar-se com Matt, ou se ele no a olhasse com o sorriso clido de que
ela se lembrava to bem. Naquele instante, sentira desejo de esbofete-lo, mas felizmente contivera-se.
E se acontecesse de novo e ela no conseguisse controlar-se? No, no havia a mnima possibilidade. Pelo simples motivo de que no sentia mais nada por Matt,
apesar de reconhecer que ele ficara mais bonito com o passar dos anos e ganhara um charme que nenhum homem to imescrupuloso deveria ter. A exploso de emoes que
a pegara de surpresa no momento em que ela o reconhecera fora a ltima e dbil erupo de um vulco extinto.
Depois de todo esse raciocnio, Meredith sentiu-se bem melhor. Encheu novamente a xcara e levou-a para a sala, onde acomodou-se a escrivaninha para trabalhar.
Olhou para o telefone e, por um momento, sentiu o impulso de ligar para Matt e pedir desculpas, s por educao. No, isso era absurdo, pensou, descartando a ideia.
Abriu a pasta e retirou o planejamento financeiro da construo da loja de Houston Por que deveria pedir desculpas a Matt? Ele era to egosta e to duro, que nada
poderia feri-lo ou ofend-lo.




#19

Na segunda-feira de manh, s dez em ponto, Peter Vanderwild apresentou-se  srta. Stern, a quem apelidara secretamente de Esfinge. Ela o fez esperar, enquanto
acabava de datilografar alguma coisa, ento fitou-o com seu olhar de cobra.
- O sr. Farrell marcou uma entrevista comigo para as dez horas -Peter informou.
- Ele est ocupado e s ficar livre dentro de quinze minutos.
- Acha que devo esperar?
- No vejo por que no, se no tiver nada para fazer no prximo quarto de hora - ela respondeu gelidamente.
Dispensado como um aluno rebelde que fora repreendido pela diretora, Peter saiu e pegou o elevador, voltando para sua sala. Isso era muito melhor do que ficar
no sexagsimo andar e deixar a Esfinge saber que ele no tinha mesmo nada para fazer.
s dez e quinze, ela o levou ao escritrio de Matt, no momento em que trs vice-presidentes da Haskell estavam saindo. Mas, antes que Peter pudesse abrir a boca
para dizer alguma coisa, o telefone na escrivaninha tocou.
- Sente-se, Peter - Matt pediu. - Falarei com voc em um minuto. Com o telefone no ouvido, abriu uma das pastas com as informaes sobre as empresas que o jovem
indicara como boas aquisies. Todas possuam uma grande quantidade de imveis, e Matt examinara a situao de cada uma durante o fim de semana. Ficara satisfeito
com vrias das escolhas de Peter, impressionado com sua meticulosidade e um tanto perplexo com algumas das recomendaes. Quando desligou o telefone, reclinou-se
na poltrona giratria e concentrou nele sua ateno.
- Do que  que voc mais gosta na empresa de Atlanta?
- Muitas coisas, senhor. Suas propriedades so, na maioria, prdioscomerciais de porte mdio, com alta porcentagem de conjuntos ocupados. Quase todos os inquilinos
so empresrios com contratos de locao de longo prazo, e todos os edifcios so extremamente bem-cuidados e administrados.
- E a de Chicago?
- Trabalham com prdios residenciais de classe, onde o aluguel alto e os lucros so excelentes.
- Pelo relatrio que li, muitos desses prdios tm mais de vint anos. O custo com reformas e consertos comear a engolir esses lucros excelentes daqui a uns
sete anos, dez, no mximo - Matt observou
- Levei isso em conta, quando fiz a projeo de lucros. Sem falar que os terrenos onde os edifcios foram construdos sempre valer uma fortuna.
Satisfeito, Matt abriu outra pasta. Ali estava a indicao que o fizera imaginar se a aclamada genialidade de Peter e seu bom senso no haviam sido superestimados.
- Por que escolheu essa empresa de Houston? - perguntou, franzindo a testa.
Se Houston continuar a recuperar-se economicamente, as propriedades subiro de preo e
- Isso eu sei - Matt interrompeu-o, impaciente. - O que desejo saber  por que motivo voc indicou a Thorp como uma possvel aquisio. Todos os que lem o Wall
Street Journal sabem que faz dois anos que essa empresa est  venda e que no conseguem vend-la porque  mal administrada e esto pedindo um preo astronomicamente
alto. Sentindo-se como se a cadeira em que estava sentado ficasse electrificada de repente, Peter remexeu-se, pigarreando.
- Tem razo, mas se me ouvir um momento, poder mudar de opinio a respeito da vantagem de compr-la - persistiu.
- Fale - Matt concedeu.
- A Thorp pertence a dois irmos, que a herdaram do pai, falecido dez anos atrs. Desde que assumiram o controle, fizeram maus investimentos e por isso tiveram
de hipotecar a maior parte das propriedades que o velho Thorp comprara. Como resultado, esto de dvidas at s orelhas, e o credor  o banco Continental City, em
Houston. Os dois irmos brigam como co e gato e no entram em acordo sobre nada. Um deles quer, h anos, vender a empresa inteira, com todos os seus bens, num lote
s, enquanto o outro acha melhor vender os imveisseparadamente. Agora, s lhes resta essa ltima alternativa, e precisam ser rpidos, porque a Continental est
prestes a executar a hipoteca.
- Como sabe de tudo isso? - Matt indagou.
- Em outubro, quando fui a Houston visitar minha irm, aproveitei para investigar a situao da Thorp e dar uma olhada em algumas de suas propriedades. Descobri,
atravs de Max Thorp, que o nome do presidente do Continental  Charles Collins, para quem liguei quando voltei para c. Collins est desesperado, querendo ajudar
os Thorp a encontrar um comprador, e falou pelos cotovelos durante nossa conversa. Comecei a suspeitar que seu desespero vem da necessidade de receber rapidamente
o que os Thorp devem ao banco. Na ltima quinta-feira, ele me ligou e disse que os irmos esto ansiosos por fazer negcio conosco, dispostos a vender as propriedades
a um preo bastante baixo. Se formos rpidos, acho que podemos comprar qualquer uma, pagando o valor da dvida incidente sobre ela, em vez do valor real, porque
Collins vai executar as hipotecas e os Thorp sabem disso.
- Por que voc acha que ele vai executar?
    Peter sorriu.
- Telefonei para um banqueiro de Dallas, amigo meu, e perguntei se ele conhecia Charles Collins, do Continental City. Ele disse que conhecia e depois ligou para
Collins com a desculpa de querer bater um papo No decorrer da conversa, lamentou a situao difcil dos bancos do Texas, e Collins contou-lhe que os inspetores bancrios
estavam pressionando-o para executar as hipotecas de clientes inadimplentes, inclusive as dos Thorp.
Fazendo uma pausa, Peter esperou que seu frio patro o elogiasse por to cuidadosa pesquisa, mas tudo o que recebeu foi um breve sorriso e um gesto de aprovao
quase imperceptvel. Sentindo-se como se o prprio Deus o houvesse abenoado, inclinou-se para a frente, inflado de orgulho.
- Est interessado em saber detalhes de algumas das propriedades dos Thorp? H dois terrenos de primeira qualidade, que podero ser vendidos por uma fortuna
depois de receberem infra-estrutura.
- Estou ouvindo - disse Matt, embora no estivesse to interessado em terrenos brutos quanto em prdios comerciais.
- A melhor propriedade dos Thorp  uma gleba de terra de quinze acres, a dois quarteires do The Galleria, um enorme shopping center de luxo que inclui hotis.
A Neiman-Marcus tem loja l, a Saks Fifth Avenue e muitos atelis de alta-costura ficam bem perto. O terreno o lugar ideal para a construo de uma loja de departamentos
ou outro shopping.
-Vi o terreno, quando estive em Houston a negcios - Matt informoo
-Ento, sabe que ser um negcio e tanto, compr-lo por vinte milhes que  o valor de sua hipoteca. Depois, ou poderamos fazer as melhorias ou deixar como
est e vend-lo mais tarde com um timo lucro. Cinco anos atrs, valia quarenta milhes. Se a recuperao econmica de Houston continuar, valer isso novamente,
no mesmo perodo.
Matt fez algumas anotaes na pasta da Thorp, esperando uma pausa no discurso de Peter para poder dizer que preferia investir em edifcios comerciais.
-Se decidir compr-lo, ter de ser logo - continuou o jovem. - Tanto os Thorp quanto Collins disseram que h um interessado que far uma oferta a qualquer momento.
Pensei que fosse um truque para nos apressar, mas eles acabaram por revelar que a Bancroft & Company daqui de Chicago est louca pelo terreno. No me admira.  o
melhor lugar de Houston para uma loja de departamentos. Se comprarmos agora por vinte milhes, podemos vender aos Bancroft daqui a alguns meses, por vinte e cinco,
at trinta. Penso
Parou de falar, quando viu Matt erguer a cabea bruscamente e fit-lo com uma expresso muito estranha.
-O que voc disse, Peter?
-Que a Bancroft & Company quer comprar o terreno.  uma empresa da categoria da Bloomingdales e da Neiman-Marcus, antiga, elegante, com clientes das classes
mais altas. Est se expandindo e
-Conheo a Bancroft - Matt declarou secamente, voltando a examinar a pasta da Thorp com muito mais interesse.
De fato, o terreno oferecia um grande potencial de lucro, mas no era em lucro que ele estava pensando. Com renovada raiva, pensava no que Meredith fizera-lhe
na noite de sbado.
-Compre - disse laconicamente.
-No quer ouvir nada sobre as outras propriedades?
-S estou interessado no pedao de terra que a Bancroft quer. Pea para o departamento legal redigir uma proposta e um contrato. leve-os a Houston amanh e
entregue pessoalmente aos Thorp.
-Proposta? Quanto vai oferecer?
-Quinze milhes. D a eles vinte e quatro horas para responder. Eles pediro vinte e cinco milhes, com certeza. Oferea vinte e diga que queremos a escritura
da propriedade em trs semanas, ou cancelaremos o negcio.
-No acho
-H mais uma exigncia. Diga a eles que essa transao dever ser mantida em segredo. Ningum pode saber que estamos comprando o terreno, at o negcio estar
consumado. Isso deve ser includo na proposta e no contrato.
Peter inquietou-se, porque Matt nunca antes investira em empresas, ou comprara alguma por sua recomendao, sem primeiro ouvir as opinies dos vice-presidentes
e muito menos sem verificar a situao pessoalmente. Daquela vez, se algo sasse errado, ele levaria a culpa sozinho.
-Sr. Farrell, acho
-Compre a maldita propriedade, rapaz - Matt ordenou num tom que no admitia protestos. - Telefone para Art Simpson, do nosso departamento jurdico em Los Angeles,
passe-lhe as instrues e diga que quero a proposta e o contrato aqui, amanh. Quando os documentos chegarem, discutiremos os prximos passos.
Assim que ficou sozinho, Matt girou a poltrona e olhou para fora da janela. Com certeza, Meredith considerava-o um verme desprezvel e tinha o direito de pensar
assim. Tambm tinha o direito de deixar isso claro para todo o mundo e fora o que fizera, pois o que acontecera entre os dois no sbado sara no jornal de maior
circulao em Chicago. No entanto, fazer valer esses direitos ia custar-lhe muito caro. Para conseguir o terreno em Houston que tanto desejava, teria de pagar 
Intercorp dez milhes a mais do que pagaria, se o comprasse da Thorp.




#20

- O sr. Farrell disse que eu deveria entregar estes documentos a ele, assim que chegassem - Peter explicou a Eleanor Stern, no fim da tarde seguinte.
-Nesse caso, sugiro que obedea - ela replicou, erguendo as sobrancelhas grisalhas numa expresso altiva.
Irritado por ter sido derrotado mais uma vez pela Esfinge, ele marchou para a porta do escritrio de Matt, bateu e entrou. Em seu desespero para tentar dissuadir
o patro de agir precipitadamente em relao ao terreno em Houston, no viu Tom Anderson, que numa das extremidades do amplo aposento examinava um quadro que acabara
de ser pendurado na parede.
-Sr. Farrell, preciso dizer-lhe que estou inquieto a respeito desse negcio com a Thorp - despejou.
-Trouxe a proposta e o contrato?
-Trouxe - respondeu Peter, entregando-lhe os papis. - Maspor favor, quer pelo menos ouvir o que tenho a dizer?
-Sente-se. Espere eu ler isso, a poder falar.
O jovem sentou-se numa das poltronas cor de vinho dispostas em semicrculo  frente da escrivaninha e, em nervoso silncio, observou Matt ler os extensos e complexos
documentos. A transao, que envolvia milhes de dlares, no parecia causar-lhe nenhuma emoo, e Peter imaginou que ele no teria nenhuma fraqueza humana, como
medo e indeciso.
J vira Matt Farrell decidir que desejava uma coisa e conseguir resolver facilmente situaes complicadas, que haviam feito todo o seu pessoal correr em crculos,
sem resultado, derrubar obstculos e fechar o negcio em uma semana ou duas. Quando ia em busca de um objetivo Matt passava por cima de todas as barreiras em seu
caminho como um tornado impiedoso, com fora total e sem nenhuma emoo.
Os outros homens da equipe de organizao eram mais hbeis em esconder o receio e a incerteza que Matt inspirava, mas Peter sabia que sentiam o mesmo que ele.
Os seis haviam combinado jantar juntos, duas noites atrs, aps o trabalho, que terminaria por volta das dez horas, mas no ltimo instante Tom Anderson desistira,
alegando querer trabalhar mais um pouco. Peter percebera, pelas conversas durante a refeio, que nenhum dos quatro conhecia Matt Farrell melhor do que ele. Apenas
Tom parecia ter sido privilegiado com a confiana e a amizade de Matt, embora ningum soubesse como conseguira isso.
As reflexes do jovem executivo chegaram ao fim, quando Matt, depois de ler os documentos, assinou-os e passou-os para ele.
-Tudo certo, Peter. Bem, qual  sua dvida quanto a esse negcio?
-Em primeiro lugar, tenho a impresso de que o senhor est indo em frente com isso porque levei-o a acreditar que poderia obter lucro fcil e rpido, vendendo
o terreno para a Bancroft & Company. Ontem, eu achava que isso aconteceria, mas, daquele momento at agora  tarde, andei pesquisando o sistema operacional da Bancroft
e telefonei para amigos que tenho na Wall Street. Por fim, falei com uma pessoa que conhece Philip e Meredith Bancroft pessoalmente.
-E ento? - Matt perguntou, imperturbvel.
-No estou completamente seguro de que eles tm condies financeiras para comprar o terreno. Baseado em tudo o que descobri, acho que posso dizer que esto
indo ao encontro de uma grande encrenca.
-Que tipo de encrenca?
-A explicao seria muito longa, e s estou fazendo conjeturas, com base em alguns fatos e em minha intuio.
-Continue - pediu Matt, em vez de repreend-lo por estar fazendo tantos rodeios.
Peter sentiu-se encorajado por aquela nica palavra, e seu nervosismo desapareceu. Voltou a ser o gnio dos investimentos, como o haviam chamado as revistas
sobre negcios, estando ele ainda na universidade.
- Muito bem, vou esboar o quadro geral. At poucos anos atrs,a Bancroft tinha duas lojas em Chicago, e estava estagnada. Suas tcnicas de comercializao
eram antiquadas, os dirigentes fiavam-se demais no prestgio da loja e, como os dinossauros, caminhavam para a extino. Philip Bancroft, que ainda  o presidente,
administrava a empresa do modo como seu pai fizera, como se fossem uma dinastia que no precisava preocupar-se com as tendncias econmicas. Ento, apareceu Meredith,
que em vez de cursar uma escola para moas econtentar-se em enfeitar as colunas sociais, decidiu ocupar na Bancroft o lugar que  seu por direito. Foi para a universidade,
graduou-se em comrcio e fez mestrado. Nada disso deixou o pai dela muito contente que tentou faz-la desistir da ideia de fazer carreira como executiva mandando-a
ser balconista no departamento de lingerie da loja.
     Peter fez uma pausa breve.
-Estou contando tudo isso para que o senhor tenha uma ideia de quem est dirigindo a empresa, literalmente - explicou.
-Continue - disse Matt, mas parecia entediado e pegou um relatrio de cima da escrivaninha, comeando-a l-lo.
-No correr dos anos, Meredith foi subindo na hierarquia - prosseguiu Peter, um tanto constrangido. - E aprendendo um bocado sobre o comrcio varejista. Foi
ela quem forou a Bancroft a vender produtos com sua prpria etiqueta, um lance inteligente e lucrativo que deveria ter sido feito muito antes. Quando isso deu certo,
o papai promoveu-a para o setor de mveis, no muito proveitoso para a loja. Em vez de falhar, ela incentivou as vendas, formando um museu de antiguidades com peas
emprestadas de museus de verdade, uma poderosa atrao para os clientes, que vo l s para olhar e acabam andando pelo departamento de mveis comuns e comprando
coisas ali, em vez de nas lojas especializadas.
Parou de falar por um momento para limpar a garganta.
-A, o papai a transforma em gerente de relaes pblicas, um cargo inexpressivo, que at ali envolvera pouco mais do que uma doao ou outra para obras de
caridade e a organizao da festa de Natal dos funcionrios. Meredith comeou a promover eventos para atrair clientes mas no apenas os eternos desfiles de modas.
Usando as ligaes sociais da famlia, conseguiu fazer com que o Museu de Arte de Chicago fizesse uma exposio na loja e que o bal apresentasse a Sute Quebra-Nozes
no auditrio da Bancroft na poca do Natal. Claro que isso causou furor na mdia, que criou uma imagem elitizada da loja. Philip Bancrof transferiu a filha para
o departamento de modas, onde ela tambm venceu, provavelmente mais pela aparncia fsica do que por talento para esse tipo de trabalho. Pelas fotos que vi nos jornais,
Meredith no s tem muita classe, como  linda. E os estilistas europeus devem pensar o mesmo. Um deles concordou em permitir que a Bancroft vendesse seus modelos
com exclusividade, mas exigiu que a prpria Meredith os usasse e criou uma coleo inteira s para ela. A publicidade foi espetacular, e as mulheres afluram em
peso ao departamento de altacostura da loja. Os lucros do costureiro europeu subiram, assim como os da Bancroft.
Matt lanou-lhe um olhar impaciente por cima do relatrio.
-Por que est me contando tudo isso? - indagou.
-Para dizer que Meredith Bancroft  uma comerciante nata, como seus ascendentes, mas seus pontos fortes so planejamento e expanso. De algum modo, conseguiu
convencer o pai e os diretores, gente nada progressista, a entrar num programa de expanso que levou a loja a vrias outras cidades. Para isso, precisaram de centenas
de milhes de dlares, que conseguiram do jeito costumeiro, tomando emprestado o que puderam de bancos e comeando a vender aes da empresa na bolsa de valores
de Nova York.
-Que diferena isso faz? - perguntou Matt.
-No faria, se no fossem duas coisas, sr. Farrell. Esto empenhados at o ltimo fio de cabelo e usam a maior parte dos lucros para abrir novas lojas. Portanto,
no tm bastante dinheiro para enfrentar um grande contratempo econmico. No sei como pretendem a pagar pelo terreno de Houston. Em segundo lugar, tem havido uma
onda de fuses, com uma loja de departamentos engolindo a outra. Se algum quisesse fazer isso com a Bancroft, eles no teriam condies de lutar e vencer. Esto
maduros para uma fuso e acho que algum j percebeu.
Matt, em vez de mostrar-se preocupado, pareceu ficar satisfeito.
-Ento, as coisas esto assim?
-Esto - respondeu Peter, desconcertado com a estranha reao ao que, em sua opinio, era uma notcia m. - Algum comeou a comprar aes da Bancroft sistematicamente,
em lotes pequenos, para no alarmar a Bancroft ou a Wall Street. - Fez um gesto na direo dos trs computadores alinhados numa bancada atrs da mesa de Matt. -
Posso?
-Claro.
Peter levantou-se e foi at a bancada. Dois dos computadores estavam ligados e exibiam informaes sobre as vrias divises da Intercorp, de modo que Peter ligou
o terceiro e digitou o cdigo que usava em seu prprio escritrio para ter acesso aos dados que lhe interessavam.
    - Olhe para isto - pediu, quando Matt girou a cadeira para ver a tela. Duas colunas de nmeros alinhavam-se sob o ttulo: Histrico comercial da Bancroft &
Company. - At seis meses atrs, o preo das aes da empresa era de dez dlares a unidade, mantido durantedois anos. At ento, a quantidade de aes negociadas
numa semanafoi de cem mil. Agora, veja, sr. Farrell. - Correu o dedo pela colunada esquerda. - De seis meses para c, o preo veio subindo e agora  de doze dlares,
e o volume de aes negociadas foi sempre maior a cada ms.
Desligou o computador e voltou para seu lugar.
- apenas uma intuio, mas acho que algum, ou alguma entidade est tentando obter o controle da Bancroft & Company.
Matt levantou-se, colocando um ponto final na conversa.
-Ou isso, ou os investidores descobriram que as aes dessa empresa representam um bom negcio. Ainda quero comprar o terreno de Houston.
Peter, percebendo que estava sendo dispensado, ergueu-se e pegou os documentos de cima da escrivaninha.
-Sr. Farrell, gostaria de saber por que est me mandando cuidar dessa negociao. No  meu trabalho.
-No ser difcil fechar o negcio - Matt assegurou com um sorriso. - E servir para aumentar sua experincia. No foi para isso, em parte, que decidiu trabalhar
na Intercorp?
-Foi - o jovem respondeu, animado e orgulhoso pela confiana que o patro depositava nele.
-No estrague tudo - recomendou Matt, jogando gua no fogo de sua satisfao.
-No estragarei - Peter respondeu, preocupado com o tom de advertncia na voz do poderoso Farrell.
Saiu em seguida, e Tom Anderson, que ficara em silncio, junto a uma janela o tempo todo, andou at a poltrona que ele ocupara e sentou-se.
-Voc deixa esse rapaz morto de medo - comentou.
-Esse rapaz tem um Q.I. de cento e sessenta e cinco - replicou Matt. - E j rendeu alguns milhes de dlares  Intercorp.  um bom investimento.
-E aquele terreno de Houston tambm ?
-Acho que sim.
-Bom. - Estendendo as longas pernas a sua frente, Tom continuou
-Odiaria pensar que voc est disposto a gastar uma fortuna s para vingar-se de uma socialite que o insultou diante de uma reprter.
-Por que diz isso?
-No domingo, li no jornal que uma moa de sobrenome Bancroft deu-lhe uma esnobada no baile da pera. E aqui est voc, pronto para comprar uma coisa que ela
quer para si mesma. Quanto esse terreno vai custar  Intercorp?
- Vinte milhes, provavelmente.
-E quanto custar  srta. Bancroft, se ela o comprar de ns?
-Bem mais.
-Voc se lembra daquele dia, oito anos atrs, quando meu divrcio foi homologado?
Matt ficou surpreso com a pergunta, mas lembrava-se muito bem. Alguns meses depois de Tom ter comeado a trabalhar para a Intercorp, a esposa dele, Marilyn,
anunciara que estava tendo um caso e queria o divrcio. Arrasado, mas orgulhoso demais para suplicar que ela mudasse de ideia, Tom sara de casa, porm, at a data
do divrcio, tivera a esperana de que ela se arrependesse e concordasse em continuar com ele. No dia da homologao, no fora trabalhar e ligara para Matt s seis
da tarde, de uma delegacia, onde ficara retido por bebedeira e arruaa.
-No me lembro dos detalhes, Tom, mas sei que nos embebedamos juntos.
-Isso foi depois. Eu j estava bbado, quando voc foi me buscar e pagou a fiana. Ento, fomos a um bar e, a sim, enchemos a cara juntos. Mas me lembro bem
de que voc comeou a recordar o passado e lamentar-se por causa de uma moa chamada Meredith, que o abandonou ou coisa assim. Voc chamou-a de cadela mimada e,
no fim, disse que mulheres com nomes comeados com M no prestam.
-Sua memria  melhor do que a minha - comentou Matt evasivamente, mas apertando os maxilares de modo tenso.
-Bem, agora que ficou evidente que aquela Meredith  a srta. Bancroft, pode me dizer o que aconteceu entre vocs dois, para que se odeiem tanto?

-No - respondeu Matt, pegando os projetos arquitetnicos da fbrica de Southville. - Vamos acabar nossa conversa sobre a nova fbrica.


#21


O trfego estava congestionado nas redondezas da Bancroft, e o vento que soprava do lago Michgan estava gelado. As pessoas, pesadamente agasalhadas, atravessavam
a avenida de modo imprudente, ignorando o sinal que as mandava parar. Buzinas soavam num ritmo frentico, e motoristas xingavam pedestres que os impediam de seguir
adiante, mesmo o semforo estando verde para eles. Do BMW preto, Meredith observava as pessoas juntarem-se na frente das vitrinas da Bancroft e depois entrarem.
Naquele dia, porm, ela no estava interessada no nmero de consumidores que procuravam a loja. Dentro de vinte minutos, estaria enfrentando a diretoria para
apresentar formalmente os planos para a loja de Houston e, embora j houvesse notado alguns sinais de aprovao, no poderia dar prosseguimento ao projeto sem sua
permisso oficial.
Entrando em seu conjunto de salas, viu quatro mulheres agrupadas ao redor da escrivaninha de sua secretria. Parando atrs, olhou por cima do ombro de uma delas,
esperando ver uma cpia da revista Playgirl sobre a mesa.
-O que ? - perguntou. - Mais um pster de homem bonito e nu.
-No - respondeu Phyllis, enquanto as outras debandavam e levantou-se para acompanhar Meredith a sua sala. - Era o novo horscopo que Pam mandou buscar, com
previses para o ms que vem. Esse diz que ela encontrar amor, fortuna e fama.
-O ltimo no dizia a mesma coisa? - perguntou Meredith, divertida, entrando no escritrio.
-Exatamente. Eu disse a Pam que, por quinze dlares, farei o prximo horscopo. - Riu, antes de avisar: - A reunio com os diretores  daqui a cinco minutos.
-Sei. A maquete do arquiteto j est na sala de reunies?
-J.E tambm liguei o projetor de slides.
-Voc  uma jia - Meredith elogiou. - Pegou uma pasta de uma das gavetas e andou para a porta, onde parou, virando-se. - Ligue para Sam Green e diga a ele
para estar pronto para vir falar comigo assim que a reunio acabar. Quero revisar a proposta para o negcio de Houston que ele redigiu e mand-la para a Thorp at
o final da semana. Se tiver sorte, os diretores aprovaro meu projeto.
- Acabe com eles - Phyllis incentivou, j pegando o telefone.


A sala de reunies no mudara nada nos ltimos quinze anos, apenas adquirira uma atmosfera de nostalgia, continuando grandiosa como sempre, com seus tapetes
orientais, painis de madeira escura revestindo as paredes e paisagens inglesas em molduras barrocas. No meio do enorme recinto estendia-se uma mesa de mogno de
nove metros de comprimento, cercada por vinte cadeiras entalhadas e com estofamento de veludo vermelho. No centro da mesa, naquele dia, uma floreira de prata ostentava
um arranjo de rosas vermelhas e brancas, ladeada por um aparelho de ch e outro de caf, tambm de prata, e xcaras de porcelana pintadas  mo. Jarros com gua
gelada e copos de cristal haviam sido colocados a intervalos regulares, de uma extremidade  outra.
O lugar tinha a aparncia de sala do trono de algum rei, e Meredith suspeitava que fora essa a inteno de seu av, quando mandara fazer a moblia, meio sculo
atrs. s vezes, quando ia l, ela achava a sala feia, mas quase sempre se sentia como se estivesse entrando no passado. Naquela manh, porm, estava pensando na
abertura de uma nova loja, o que representava futuro, no passado.

- Bom dia, senhores - disse, cumprimentando os doze homens que tinham o poder de aceitar ou rejeitar seu projeto e que j se achavam acomodados ao redor da mesa.
Eles responderam de modo quase frio, com exceo de Parker, que lhe sorriu com carinho, e do velho Cyrus Fortell, que cumprimentou-a com aquele costumeiro sorriso
lascivo. Parte dessa reserva, quase animosidade, era devida  cautela diante de um negcio novo, mas Meredith sabia que isso tambm acontecia porque ela induzia-os
a investir os lucros na expanso da Bancroft, em vez de us-los para pagar dividendos maiores aos acionistas. Alguns deles, porm, eram reservados porque a consideravam
um enigma e ficavam incertos sobre como deveriam lidar com ela. Todos ocupavam lugares mais altos na hierarquia, pois, apesar de ser vice-presidente, Meredith no
pertencia  diretoria.
Por outro lado, ela era uma Bancroft, descendente direta dofundador da loja, e isso obrigava-os a trat-la com certo respeito. O pai, que era tanto um Bancroft,
como presidente da empresa, dava a impresso de apenas toler-la. No era segredo que ele nunca quisera v-la trabalhando na loja, assim como no era segredo que
ela conseguira dobr-lo e alcanara sucesso em tudo o que fizera. Em conseqncia, aqueles homens viam-se sempre numa situao que deixaria qualquer um nervoso,
por mais autoconfiante que fosse, e tendiam a reagir negativamente aos planos de Meredith.
Ela sabia disso tudo e, ao ocupar seu lugar  mesa, perto de onde fora colocado o projetor, recusou-se a deixar que os rostos carrancudos abalassem sua segurana.
- Agora que Meredith chegou, podemos comear - disse Philip, insinuando que ela estava atrasada e os fizera esperar.
Durante a leitura da ata da reunio anterior, Meredith ficou olhando para a maquete mandada pelo arquiteto, e que Phyllis levara para l numa mesinha com rodas.
O magnfico shopping em estilo espanhol teria espao para lojas tambm ao redor do ptio central e, imaginando-o pronto, ela sentiu sua autoconfiana aumentar. Nenhuma
cidade seria mais indicada do que Houston para acolher o maior empreendimento da Bancroft & Company e, graas ao fato de o local ser bem prximo do The Galleria,
a loja seria um sucesso desde o momento em que abrisse as portas.
Assim que a ata foi aprovada, Nolan Wilder, presidente da reunio anunciou que Meredith desejava submeter o projeto definitivo do shoping e da loja de Houston
 apreciao da diretoria.
Ela se levantou, colocando-se atrs do projetor.
- Senhores, suponho que tiveram bastante tempo para examinar a maquete.
Dez homens moveram a cabea numa afirmativa, mas Philip fixou os olhos na maquete, e Parker sorriu para Meredith, entre orgulhoso e divertido. Isso sempre acontecia
quando ele a via em ao no trabalho, como se ficasse satisfeito com sua eficincia, embora no entendesse por que ela insistia em fazer aquilo. Como banqueiro da
Bancroft participava das reunies da diretoria, mas Meredith sabia que no era sempre que podia contar com seu apoio, que ele s fazia o que achava que devia fazer,
e respeitava-o por isso.
- J discutimos quase todos os aspectos do projeto na ltima reunio - ela continuou, estendendo a mo para o interruptor e apagandoquase as luzes. - Ento,
vou tentar exibir os slides o mais rapidamente possvel. - Apertou um boto no controle remoto do projetor, e uma imagem na parede mostrou uma avaliao de custos.
- A construo da loja isoladamente ficara em trinta e dois milhes de dlares, incluindo o acabamento, iluminao e ptio de estacionamento. O terreno que pretendemos
comprar da Thorp nos custar entre vinte e vinte e trs milhes, dependendo das negociaes. Precisaremos de mais vinte para a formao de estoque e de dois para
cobrir as despesas no perodo anterior  inaugurao, publicidade e outras coisas.
Tornou a apertar o boto do controle remoto e novo slide apareceu, mostrando somas muito mais altas do que as anteriores.
- Aqui temos a previso de gastos para a construo da loja e do shopping center todo - explicou. - Penso que j entenderam que ser muito melhor construir tudo
de uma vez, embora o custo adicional seja de cinquenta e dois milhes, uma quantia que recuperaremos com o arrendamento de lojas para outros varejistas.
- Podemos recuperar, mas no imediatamente, como voc insinuou, Meredith - o pai aparteou.
- Insinuei? - ela perguntou sorrindo.
Ento, ficou uns instantes em silncio como para repreend-lo por sua injustia e impacincia.
- Estamos esperando - Philip observou.
- Alguns de vocs acham que no devemos construir o shopping agora - ela prosseguiu. - Mas h fortes razes para que decidamos fazer tudo ao mesmo tempo.
- Que razes? - perguntou um diretor, enchendo um copo com agua gelada.
- Teremos de comprar o terreno inteiro, quer construamos apenas aloja ou tambm o shopping. E economizaremos vrios milhes de dlares, fazendo tudo junto, porque
todos sabem que ficaria mais barato do que ampliar mais tarde. O momento certo  este, porque os preos da construo civil em Houston subiro, se a economia da
cidade continuar melhorando. Por fim, as outras lojas do shopping levaro clientes  nossa. Mais alguma pergunta?
Esperou e, como ningum se manifestou, mostrou outro slide.
-Como podem ver por esses grficos, nossa equipe de avaliao examinou o local em questo e seu parecer foi o melhor possvel. Oestudo estatstico da populao
demonstrou que aquela  uma rea comercial perfeita. No h barreiras geogrficas e
O velho Cyrus Fortell, de oitenta anos de idade, que fazia parte da diretoria da Bancroft desde os trinta e tinha ideias to antiquadas quanto sua bengala de
casto de marfim e o colete de brocado, ergUeu a mo, pedindo a palavra.
-Acho tudo isso um monte de asneiras, mocinha. Para que essas coisas de equipe de avaliao, estudo estatstico da populao, rea comercial e barreiras
geogrficas? Nem sei o que tudo isso significa.
Meredith experimentou uma mistura de exasperao pelo aparte e de afeto por Cyrus, a quem conhecia desde menina.
-Em resumo, significa que uma equipe de tcnicos especializados em avaliar locais para casas de comrcio foi a Houston e examinou a rea onde fica o terreno
que escolhi. Eles concluram que demograficamente
-Demo o qu? - o velho zombou. - Essa palavra nem existia, quando comecei a abrir farmcias em todo o pas. Qual o significado?
-No sentido em que a usei, Cyrus, quer dizer que as caractersticas da populao nas redondezas daquela rea, idade das pessoas, quanto ganham
-No meu tempo, ningum pensava nisso - o idoso interrompeu-a, irritado, olhando para os colegas, que se mostravam impacientes. Eu, quando queria uma nova farmcia,
mandava construir, comprava mercadorias e pronto, punha em funcionamento.
-Hoje, as coisas so um pouco diferentes, Cyrus - comentou Ben Houghton. - Agora escute com ateno o que Meredith tem a dizer, para que possa votar.
-No posso votar numa coisa que no entendo - replicou Cyrus, mexendo no controle de seu aparelho auditivo, talvez para aumentar o volume. - Prossiga, minha
querida, mas primeiro veja se entendi o que voc est explicando. Mandou uma turma de peritos a Houston, e eles descobriram que as pessoas que moram na rea da loja
tm idade suficiente para irem l sozinhas, a p ou de automvel, e bastante dinheiro para gastar, certo?
Meredith e vrios diretores riram.
-Certo - ela concordou.
-Ento, por que no explicou desse jeito? Vocs, jovens, gostam de complicar as coisas, inventando palavras difceis para nos confundir. Agora, me diga o que
so barreiras geogrficas.
- qualquer coisa que um cliente potencial no queira transpor para chegar  loja. Por exemplo, zonas industriais, bairros perigosos
-E esse local de Houston no tem nada disso?
- No.
-Ento, voto a favor do projeto - anunciou Cyrus, e Meredith reprimiu a vontade de rir.
-Tem mais alguma coisa a dizer, antes de passarmos  votao, Meredith? - perguntou Philip.
-Como j discutimos todos os outros detalhes nas reunies anteriores, no tenho nada a acrescentar - ela respondeu, olhando um por um os rostos indecifrveis
dos diretores. - Mas devo lembr-los de que, s expandindo-se, a Bancroft ter condies de competir com outras lojas de departamentos do mesmo nvel. Acho que no
preciso dizer que nossas cinco lojas novas esto produzindo lucros acima das expectativas. Acredito que esse sucesso deve-se, em grande parte, ao cuidado com que
escolhemos os locais onde as abrimos.
-O cuidado com que voc escolheu - o pai corrigiu-a, mas sua expresso era to fria e severa, que Meredith levou alguns segundos para compreender que ele lhe
fizera um elogio.
Ela viu naquilo no apenas um sinal de que Philip apoiaria o projeto, como tambm de que pediria aos membros da diretoria para aprov-la como presidente interina
da Bancroft durante sua licena.
-Obrigada - agradeceu suavemente, acendendo as luzes e voltando a sentar-se.
Philip virou-se para Parker.
-Acredito que seu banco ainda esteja disposto a financiar a execuo do projeto, se ele for aprovado.
- o que pretendemos, Philip, mas apenas sob as condies estabelecidas na reunio passada.
Meredith conhecia essas condies, mas precisou morder o lbio para esconder o momento de pnico que experimentou. Os diretores do banco, numa reviso das enormes
quantias de dinheiro emprestadas  Bancroft nos ltimos anos, haviam ficado inquietos diante das cifras astronmicas e estabelecido novos termos para os emprstimos
para a construo da loja de Phoenix e, agora, daquela de Houston. Exigiam que Philip e Meredith garantissem pessoalmente os emprstimos com alguns bens, inclusive
parte de suas aes da empresa. Meredith estava jogando com seu prprio dinheiro e achava isso um tanto assustador. Alm das aes e do salrio que recebia, tudo
o que tinha era a herana do av, que o pai daria como garantia ao banco.
-Sabe o que penso dessas condies estabelecidas, Parker - disse Philip, obviamente to zangado quanto ficara ao saber das exignciasdo banqueiro e seus
diretores. - Faz mais de oitenta anos que somos clientes do Reynolds Mercantile, e acho isso descabido e insultuoso.
-Compreendo - afirmou Parker calmamente. - E at concordo com voc. Reuni-me novamente com os diretores e tentei persuadi-los a amenizar as exigncias, mas
foi intil. No entanto, o fato de exigirem garantia pessoal no significa que sua opinio da Bancroft & Company no seja boa, como sempre foi.
-Pelo jeito, no  mais to boa - declarou Cyrus. - Parece-me que seu banco considera-nos devedores inadimplentes em potencial.
-No  nada disso! - exclamou Parker. - O clima econmico para cadeias de lojas de departamentos no  mais to saudvel. Duas delas, para ter tempo de reequilibrar-se,
pediram concordata, evitando que os credores as fechassem. Esse foi um fator que influenciou nossa deciso, mas existe outro, de igual importncia. Bancos esto
falindo, em nmero nunca visto desde a grande depresso. Devido a isso, temos de ser cada vez mais cautelosos a respeito de conceder emprstimos grandes demais.
E tambm precisamos satisfazer os inspetores bancrios, que esto examinando o que fazemos mais minuciosamente que nunca. As normas para emprstimos ficaram muito
mais severas.
-Acho que devemos procurar outro banco - sugeriu Cyrus com um olhar cheio de maldosa vivacidade para os companheiros. - Por que no mandamos Parker para o inferno
e vamos buscar dinheiro em outro lugar?
-Podamos tentar conseguir outro financiamento - disse Meredith ao velho, lutando para separar seus sentimentos pelo noivo dos motivos daquela discusso. -
Acontece, porm, que o banco de Parker est nos dando uma vantajosa taxa de juros, que no encontraremos em nenhum outro. Ele, naturalmente
-No h nada de natural nisso - Cyrus interrompeu-a, lanando-lhe aquele seu olhar lascivo, antes de dirigir-se a Parker: - Se eu fosse me casar com uma jovem
to linda, daria a ela tudo o que me pedisse, em vez de criar empecilhos para seus planos.
-Cyrus - Meredith repreendeu-o brandamente, imaginando por que alguns velhos perdiam a dignidade, agindo e falando como adolescentes impulsivos. - Negcios
so negcios.
-Mulheres no devem meter-se em negcios, a menos que sejam feias e no consigam um homem para cuidar delas. No meu tempo, moas como voc ficavam em casa,
fazendo coisas naturais, como ter filhos e
-No estamos mais no seu tempo! - Parker explodiu. - Continue, Meredith. O que voc ia dizer?
Ela sentiu as faces em fogo, notando que os homens entreolhavam-se com ar divertido.
-As exigncias de seu banco no nos preocupam, porque a Bancroft & Company vai fazer todos os pagamentos pontualmente.
-Isso  verdade - o pai observou, parecendo impaciente. - Agora, a no ser que algum queira dizer alguma coisa, passaremos  votao do projeto de Houston.
Pegando a pasta, Meredith levantou-se. Agradeceu a todos pela ateno e retirou-se da sala.

    -E a? - perguntou Phyllis, seguindo-a at seu escritrio. - Vamos ter uma filial em Houston, ou no?
-Esto votando.
-Vou fazer figa.
Comovida com a dedicao da moa a ela e a Bancroft, Meredith sorriu-lhe de modo encorajador.
-Eles vo aprovar o projeto - afirmou com segurana, refletindo que o pai mostrara-se a favor, embora de uma maneira relutante, e isso era bastante animador.
- Resta saber se aprovaro a construo do shopping inteiro, ou s da loja. Quer dizer a Sam que j estou aqui e pedir-lhe que traga a proposta da Thorp?
Poucos minutos depois, Sam entrou. Tinha apenas um metro e setenta de altura e cabelos da cor e da textura de l de ao, mas a aura de competncia e autoridade
que o cercava era imediatamente notada, prinCIpalmente por aqueles que o enfrentavam em qualquer questo legal. Os olhos verdes e inteligentes brilhavam por trs
das lentes dos culos com armao de metal, quando pousaram em Meredith.
-Phyllis disse que voc est pronta para apresentar  Thorp a proposta para a compra do terreno - ele comeou, aproximando-se da mesa dela. - Isso quer dizer
que temos a aprovao da diretoria?
Penso que a teremos dentro de alguns minutos. De quanto voc acha que deveria ser nossa oferta inicial?
-Esto pedindo trinta milhes - ele observou, sentando-se numa das poltronas diante da escrivaninha. - O que me diz de comearmosoferecendo dezoito, mas no
passarmos de vinte? O terreno est hipotecado, e acho que se contentaro com isso.
    - Acha, mesmo?
-Bem, talvez no - ele confessou com uma risadinha.
-Se for necessrio, pretendo chegar a vinte e cinco - Meredith informou. - O terreno vale trinta, mas at agora no conseguiu vend-lo por essa quantia e
O telefone tocou e ela atendeu, no acabando o que ia dizer.
-Aprovamos o projeto de Houston, Meredith - o pai anunciou secamente. - Mas s em parte. A construo do shopping ser adiada at que comecemos a ter lucros
com a loja.
-Penso que esto cometendo um erro - ela respondeu, falando em tom neutro e profissional para esconder o desapontamento.
-Foi a deciso da diretoria.
-O senhor poderia ter arrazoado com eles - ela declarou ousadamente
- Muito bem, foi minha deciso. Satisfeita?
- No. Foi um erro.
-Quando voc for presidente da empresa, tomar as decises Meredith sentiu o corao saltar no peito.
-Vou ser presidente interina?
-Enquanto eu estiver na direo, farei o que achar melhor - ele continuou, sem responder  pergunta dela. - Vou para casa. No estou me sentindo muito bem.
Na verdade, teria adiado a reunio, se voc no insistisse tanto em dar andamento nesse negcio do terreno.
Sem saber se ele estava mesmo doente, ou usando aquela desculpa para evitar uma discusso, Meredith suspirou.
-Cuide-se, pai. Jantaremos juntos na quinta-feira.
Depois de desligar, concedeu-se alguns momentos de tristeza pelo fato de o shopping no poder ser construdo, ento fez o que fizera anos atrs, quando sara
do casamento catastrfico: encarou a realidade e procurou um objetivo pelo qual lutar.
-Temos a aprovao da diretoria para iniciar o projeto de Houston-informou num forado tom de entusiasmo, sorrindo para Sam.
-Tudo, ou s a loja? - ele perguntou, apesar de obviamente ter ouvido a conversa dela com o pai e adivinhado a deciso da diretoria.
-S a loja.
-Um erro.
-Em quanto tempo poder preparar a proposta e o contrato e entreg-los  Thorp Empreendimentos? - Meredith mudou de assunto pois adotara o sistema de guardar
para si mesma suas opinies a despeito do procedimento de Philip.
-Os documentos estaro prontos amanh  noite, mas se voc estplanejando me mandar a Houston para tratar do negcio, precisa saber que s poderei ir daqui
a uns quinze dias, porque estamos cuidando do processo contra a Wilson Toys.
-Prefiro que voc v, mesmo que tenhamos de esperar mais alguns dias. At l, teremos conseguido o emprstimo do banco e no precisaremos pedir  Thorp um prazo
para o pagamento.
-O terreno est  venda h anos - ele comentou com um sorriso.
-No ser vendido em duas semanas. Alm disso, quanto mais esperarmos, mais propensos os Thorp estaro a aceitar nossa proposta. Vou tentar fazer meu pessoal
andar mais depressa com o processo da Wilson. Assim que estiver pronto, irei a Houston.
Passava das seis, quando Meredith ergueu os olhos do relatrio que lia e viu Phyllis andando em sua direo com o jornal da tarde na mo, j de casaco, pronta
para ir embora.
-Lamento muito pelo negcio de Houston - a secretria declarou.
-Isto , por no terem aprovado o shopping.
Meredith reclinou-se na poltrona e sorriu com desnimo.
-Obrigada.
-Por eu lamentar?
-No - respondeu Meredith, pegando o jornal. - Por importar-se comigo. Mas posso dizer que foi um dia bom, basicamente.
Phyllis apontou para o jornal que entregara dobrado, mas j aberto na segunda pgina.
-Espero que isso a no a faa mudar de ideia a respeito do dia. Intrigada, Meredith desdobrou o jornal e viu uma foto de Matt ao lado de uma atriz de cinema
qualquer. De acordo com a legenda, ela fora a Chicago no jato particular dele, para acompanh-lo a uma festa, na noite anterior.
-Deveria ficar aborrecida, Phyllis?
-D uma olhada no caderno de economia, antes de decidir se deve, ou no.
Meredith pensou em dizer  moa que ela estava saindo da linha, mas descartou o pensamento rapidamente. Fora a primeira chefe de Phyllis, que por sua vez fora
sua primeira secretria. Nos ltimos seis anos haviam trabalhado juntas durante muitos fins de semana e at muito tarde, em incontveis noites. Formavam uma equipe
eficiente, gostavam uma da outra e respeitavam-se.
A primeira pgina do caderno de economia mostrava outra foto de Matt e um artigo lisonjeiro sobre a atuao dele como lder da Intercorp,suas razes para haver
mudado para Chicago e a deciso de construir uma enorme fbrica em Southville. O artigo tambm mencionava o luxuoso apartamento de cobertura que ele comprara no
condomnio Berkeley Towers. Ao lado da foto de Matt, mas um pouco abaixo, havia uma de Meredith, acompanhada de uma matria sobre a bem-sucedida expanso da Bancroft,
uma empresa de destaque no mercado varejista nacional
-Esto dando a maior ateno a Matthew Farrell - comentou Phyllis, sentando-se na borda da escrivaninha. - Faz menos de quinze dias que o homem mudou-se para
Chicago, e os jornais j esto cheios de notcias sobre ele.
-Os jornais tambm esto cheios de casos de assalto e estupro observou Meredith, com raiva do artigo lisonjeador sobre Matt e furiosa consigo mesma porque,
por alguma razo obscura, sentia-se trmula, olhando para a foto dele.
Sem dvida, essa estranha reao devia-se ao fato de ela saber que ele se encontrava em Chicago, e no a quilmetros de distncia, como antes.
-Ele  mesmo to bonito como parece nas fotos? - perguntou a secretria.
-Bonito? - Meredith repetiu com estudada indiferena, levantando-se para pegar o casaco no armrio. - No acho.
-Ele  muito cheio de si, no ?
-Como adivinhou?
-Li a coluna de Sally Mansfield. Para voc esnob-lo daquele jeito, na frente de todo o mundo, ele s pode ser. J vi voc lidar com homens que no suporta
e conseguir ser educada e at sorrir para eles.
-Sally Mansfield entendeu tudo errado - declarou Meredith, voltando para a escrivaninha e trancando-a. - Na verdade, mal conheo Matthew Farrell. - Ento, mudou
de assunto: - Se seu carro ainda estiver na oficina, posso lhe dar uma carona.
-No, obrigada. Vou jantar na casa de minha irm, e ela mora no lado oposto.
-Eu a levaria at l, mas est ficando tarde e  quarta-feira.
-Dia em que seu noivo vai jantar com voc em seu apartamento, correto?
-Correto.
-Ainda bem que voc gosta de rotina, Meredith, porque eu ficaria louca, se meu homem tivesse dias certos para fazer isso ou aquilo, ms aps ms, ano aps ano.
Meredith comeou a rir.
- Pare! Voc est me deixando deprimida. Mas no se preocupe. gosto de rotina, ordem e segurana.
- Eu no. Gosto de espontaneidade.
- por isso que seus namorados quase nunca aparecem nos dias certos, nem na hora marcada - Meredith arreliou.
 verdade.

#22


Meredith gostaria de esquecer completamente tudo o que lera sobre Matthew Farrell, mas Parker chegou em seu apartamento com o jornal na mo.
-Viu o artigo a respeito de Farrell? - ele perguntou, depois de beij-la.
-Vi. Quer tomar alguma coisa?
-Quero, obrigado.
-O qu? - ela indagou, indo at o armrio do sculo dezenove que usava como bar.
-O de sempre.
Abrindo a porta do mvel, Meredith lembrou-se de um comentrio de Lisa, ligando-o ao que Phyllis dissera-lhe naquela tarde. Voc precisa de algum que a obrigue
a fazer algo louco, como votar num democrata afirmara a amiga de tantos anos. Eu ficaria louca, se meu homem tivesse dias certos para fazer isso ou aquilo, ms
aps ms, ano aps ano, fora a declarao da secretria.
-Tem certeza de que no quer um drinque diferente, Parker? Que tal um gim-tnico?
-No seja boba. Eu sempre tomo usque com gua, meu bem e voc, vinho branco.  praticamente um hbito.
-Parker, minha secretria, Phyllis, e Lisa andaram me dizendo umas coisas que me fizeram pensar se ns - Parou de falar, achando-se uma tola, e preparou um
gim-tnico para si mesma.
-Fez voc pensar se ns, o qu? - ele quis saber, indo para junto dela
-Se no camos na rotina.
-Adoro a rotina! - ele exclamou, abraando-a por trs. - Gosto de tudo o que  previsvel, e voc tambm.
-Eu sei, mas voc no acha que com o passar dos anos isso vainos deixar entediados? Quero dizer, variar um pouco no nosso modo de agir no seria excitante?
-No. - Ele virou-a e acrescentou com firmeza: - Se est zangada porque meu banco exigiu que voc e seu pai garantam o emprstimo com bens pessoais, diga logo.
Mas, por favor, no fique implicando com outras coisas.
-No estou com raiva - ela respondeu honestamente. - At tirei do cofre os certificados de minhas aes para entreg-los a voc. Esto em cima da escrivaninha,
naquela pasta grande.
Ele no olhou na direo da escrivaninha, continuando a fit-la, sem dizer nada.
-Admito que  assustador entregar ao banco tudo o que tenho ela prosseguiu. - Mas sei que voc no mentiu, quando disse que sua diretoria no quis abrir mo
dessa exigncia.
-Tem certeza de que realmente pensa assim?
-Certeza absoluta - ela assegurou, tornando a virar-se para o bar. Por que no examina os certificados para verificar se esto em ordem, enquanto arrumo a mesa
e vejo o que a sra. Ellis deixou para o nosso jantar?
A governanta que fora de Philip no trabalhava mais para ele, mas ia todas as quartas-feiras ao apartamento de Meredith, para limpar e fazer compras, e nunca
deixava de preparar alguma coisa para ela comer  noite.
Parker sentou-se  escrivaninha, abriu a pasta e retirou um envelope amarelo, enquanto Meredith comeava a arrumar as toalhas individuais de linho rosa-claro
na mesa de jantar, no outro extremo da sala enorme.
-Esto neste envelope? - ele perguntou.
-No - ela respondeu, olhando por cima do ombro. - A esto meu passaporte, certido de nascimento e outros documentos.
Ele ergueu outro envelope.
-E neste?
-Os papis de meu divrcio.
-Nunca foi aberto. Voc no leu os papis?
Ela deu de ombros, pondo os guardanapos sobre as toalhas.
-Depois que os assinei, no. Mas lembro-me bem de tudo, principalmente de uma declarao que diz que Matthew Farrell recebeu dez mil dlares de meu pai para
me conceder o divrcio e desistir dodireito de reclamar qualquer coisa que eu tivesse ou viesse a ter.
-Aposto como no usaram essas palavras. Importa-se, se eu der uma olhada?
-No, mas no sei por que quer fazer isso. Ele sorriu.
-Curiosidade profissional. No se esquea de que sou advogado no apenas o banqueiro chato que sua amiga Lisa me considera. Como voc sabe, ela vive me alfinetando
por causa de minha profisso.
No era a primeira vez que ele reclamava das implicncias e piadas de Lisa, e Meredith decidiu que falaria com a amiga mais seriamente fazendo-a ver que aquilo
tinha de acabar.
-Pode olhar o que quiser - concedeu, caminhando at ele e beijando-o na testa. - Gostaria que voc no precisasse ir  Sua. Vou sentir saudade.
-Sero apenas duas semanas - Parker observou. - Por que no vai comigo?
Ela adoraria v-lo fazer seu discurso na conferncia mundial de banqueiros de que ia participar, mas no podia acompanh-lo.
-Gostaria demais, mas esta poca
- a mais trabalhosa do ano - ele terminou. - Sei disso. Meredith foi  cozinha e viu que a sra. Ellis preparara uma travessa de salada de palmito e outra de
fils de frango com molho. Sorriu, satisfeita. Cozinhar era algo que tentara aprender e no conseguira. O mximo que podia fazer era aquecer alguma coisa no microondas
ou assar pratos semiprontos no forno convencional.
A chuva batia contra as vidraas, quando ela acendeu as velas na mesa de jantar e colocou a garrafa de vinho branco que acabara de abrir num balde com gelo.
Ento, foi  cozinha buscar o frango e a salada, que colocou no centro da mesa, ladeando uma floreira com rosas ch. Recuando um passo, observou o efeito produzido
pelos pratos de porcelana fina e talheres de prata sobre as toalhas cor-de-rosa.
-O jantar est na mesa - anunciou, indo na direo de Parker, que por um momento, pareceu no t-la ouvido, olhando com expresso preocupada para o documento
a sua frente. - Alguma coisa errada, querido?
-No tenho certeza - ele respondeu. - Quem foi que se encarregou do divrcio? Voc?
Despreocupada, ela sentou-se no brao da cadeira e abraou Parker pelos ombros, olhando para o papel que legalizava o divrcio de Meredith Alexandra Bancroft
e Matthew Allan Farrell.
-No. Meu pai cuidou de tudo. Por qu?
-Porque esses documentos parecem muito irregulares sob o ponto de vista legal.
-Irregulares, como? - ela preocupou-se, notando que o advogado de seu pai escrevera errado o nome do meio de Matt. Em vez de Allen escrevera Allan.
-Em tudo - ele resmungou, folheando os papis, bastante agitado.
A tenso em sua voz contagiou Meredith, e ela, que odiava pensar em Matt e no divrcio, tentou convencer-se de que, se realmente houvesse uma irregularidade,
devia ser insignificante, embora no fizesse a menor ideia do que poderia ser.
Foi meu pai quem acompanhou o processo todo, e voc sabecomo ele  cuidadoso com os mnimos detalhes.
-De qualquer modo, esse advogado, Stanislaus Spyzhalski, seja l quem for, no estava nada preocupado com os detalhes. Veja isso. Parker mostrou uma carta do
advogado para Philip Bancroft. - O homem escreveu que estava mandando a certido de divrcio e todos os outros documentos usados no processo.
-E o que h de errado nisso?
-No encontrei nenhum documento que prove que apresentaram a petio de divrcio a Farrell, nem que ele tenha comparecido ao tribunal para depor, ou reclamado
esse direito. E no  s com isso que estou intrigado.
Meredith sentiu os primeiros sinais de verdadeiro alarme, mas esforou-se por ignor-los.
-Que diferena isso faz? Ele e eu estamos divorciados, no estamos? Em vez de responder, Parker recomeou a ler a primeira pgina da petio, ficando mais carrancudo
aps cada pargrafo. No suportando mais a tenso, Meredith levantou-se.
-O que foi agora? - indagou, obrigando-se a falar em tom calmo.
-Uma homologao de divrcio  redigida por um advogado e assinada por um juiz, mas esta aqui no se parece com nenhuma das que j li, escritas por advogados
de competncia razovel. Veja os termos: Em troca de dez mil dlares pagos a Matthew A. Farrell, MatthewFarrell abandona todo o direito de reclamar quaisquer bens
que Meredith Bancroft Farrell possua ou venha a possuir no futuro. Este tribunal, por meio deste documento, concede o divrcio a Meredith Bancroft Farrell.
Mesmo depois de onze anos, Meredith sentiu um aperto no peito ao lembrar-se do que sofrera quando soubera que Matt aceitara dinheiro do pai dela. Por ocasio
do casamento, ele afirmara categoricamente que nunca tocaria num centavo do dinheiro dos Bancroft. Mentira descaradamente, fora um hipcrita completo.
-No acredito no que estou vendo! - exclamou Parker com raiva arrancando-a das reflexes. - Parece mais um contrato imobilirio! Quem  esse sujeito? - Apontou
para o nome do advogado. - Agora veja o endereo! Por que seu pai escolheria algum com escritrio na zona sul da cidade, quase nas favelas?
-Por discrio - respondeu Meredith, satisfeita por finalmente poder explicar alguma coisa. - Ele me contou, na poca, que contratara um joo-ningum da zona
sul, que no sabia quem ramos, porque queria manter tudo em segredo. O que est fazendo? - perguntou vendo o noivo tirar o telefone do gancho.
-Vou falar com seu pai. Fique tranquila. No vou assust-lo. Nem tenho certeza de que haja motivo para sustos.
Quando Philip atendeu, Parker conversou um pouco com ele e, ento, em tom natural, disse que examinara os documentos do divrcio de Meredith. Como se estivesse
apenas achando engraado o fato de ele ter procurado um advogado da zona mais pobre da cidade, perguntou quem lhe indicara o dr. Stanislaus Spyzhalski, Riu da resposta
de Philip, mas quando desligou o telefone, olhou para Meredith com expresso preocupada.
-Seu pai escolheu o advogado, procurando nas pginas amarelas da lista telefnica.
-E o que tem isso? - ela perguntou, tentando dominar o medo que ameaava domin-la, provocado por uma ameaa indefinida. Notou que Parker tirara do bolso uma
pequena agenda e tornara a erguer o telefone do gancho. - Para quem vai ligar agora?
-Para Howard Turnbill.
-Por qu? - ela insistiu, confusa e irritada por estar recebendo respostas to pouco esclarecedoras.
-Estudamos juntos na Princeton.
-Parker, se quer me deixar com raiva, est conseguindo! - Meredith avisou, enquanto ele comeava a pressionar as teclas. - Quero saber por que est ligando
para um colega de universidade agora.
Para sua surpresa, ele sorriu.
-Adoro, quando voc fala nesse tom de voz. Me faz lembrar minha professora do jardim de infncia. Estou ligando para Howard porque ele  presidente da Ordem
dos Advogados de Illinois e - Interrompeu-se, quando o amigo atendeu. - Howard, aqui  Parker Reynolds - Fez uma pausa, ouvindo algo que o outro dizia. - Tem razo,
esqueci que lhe devo um jogo de squash. Voc tem direito a umarevanche. - Parou de falar novamente, riu de alguma observao do amigoe perguntou: - Por acaso voc
tem uma lista dos scios da Ordem de Illinois  mo? No estou em casa, agora, e preciso saber se o nome de certo indivduo consta da lista. - Soletrou o nome de
Stanislaus Spyzhalski, sinal de que Howard dissera que podia ajud-lo.
Enquanto aguardava, tapou o bocal com a mo e sorriu de modo encorajador para Meredith.
-Pode ser que esteja me preocupando  toa - admitiu. - O fato de Stanislaus ser incompetente no significa que ele no seja realmente advogado. No instante
seguinte, voltou a falar com Howard, e seu sorriso desapareceu. - No consta da lista? Tem certeza? Pode consultar a da Ordem Americana e ver se o nome dele est
l? - Ouviu a resposta do amigo, ento disse com forada jovialidade: - No, no  nenhuma emergncia. Pode ser amanh, claro. Ligue para meu escritrio e aproveitaremos
para marcar aquele jogo. Obrigado, Howard. Lembranas a Helen.
Pensativo, pousou o telefone no gancho.
-No entendi por que est se preocupando tanto - declarou Meredith.
-Vou tomar outro drinque - ele anunciou, caminhando para o bar.
-Parker, como esse assunto me diz respeito, tenho o direito de saber o que voc est pensando.
-No momento, estou pensando nos inmeros casos de impostores que se estabelecem como advogados sem ser, geralmente nos bairros mais pobres. Tiram dinheiro das
pessoas que lhes confiam suas causas e naturalmente, no resolvem nada. H advogados autnticos que tambm fazem sujeiras. Soube de um deles que embolsou o dinheiro
das taxas cobradas pelo tribunal e concedeu o divrcio a um casal, assinando os documentos no lugar do juiz.
-E como conseguiu?
-Como eu j disse, os advogados redigem tudo, e os juizes apenas assinam.
- E esses advogados desonestos no so desmascarados?
-  fcil fazer certas coisas, quando no h contestao de nenhuma das partes.
Meredith pegou o copo que deixara em cima da mesinha de centro engoliu metade da bebida, sem perceber.
- Mas nesses casos, quando as partes envolvidas agiram de boa f, apesar da falcatrua do advogado, um juiz homologa o divrcio, no ?
-Voc  que pensa.
-No estou gostando do rumo de nossa conversa - Meredith confessou,um pouco tonta por causa do drinque. - O que os tribunais fazem, quando duas pessoas descobrem
que no esto de fato divorciadas?
-No as acusam de bigamia, se voltaram a casar-se.
-Ainda bem.
-Mas o segundo casamento fica anulado, e o primeiro tem de ser dissolvido legalmente.
-Meu Deus! - murmurou Meredith, deixando-se cair numa poltrona Mas sabia, com toda a certeza, que seu divrcio era vlido. Sabiaporque no podia nem pensar
na outra alternativa.
Parker afagou-lhe os cabelos, naturalmente percebendo sua perturbao
-Mesmo que Spyzhalski no pertena  Ordem, mesmo que no seja advogado, seu divrcio ainda poder ser considerado legtimo, se, por acaso, ele conseguiu fazer
com que um juiz assinasse aquela petio absurda. Amanh, mandarei algum ao tribunal para verificar se o divrcio est registrado l. Se estiver, no haver mais
motivo para preocupao.



#23


-Dormiu mal? - perguntou Phyllis na manh seguinte, quando Meredith passou por sua mesa com um cumprimento distrado.
-No to bem quanto deveria. Como est minha agenda para hoje?
-s dez horas, uma reunio aqui mesmo, com o pessoal da publicidade, para discutirem a campanha de inaugurao da loja de Nova Orleans - a secretria respondeu,
acompanhando-a ao escritrio. Jerry Keaton, do departamento de pessoal, quer v-la para falar de um aumento que voc precisa aprovar e perguntou se podia ser s
onze.
-Pode.
-As onze e meia, Ellen Perkvale, do departamento jurdico, vir para conversar sobre um processo que abriram contra a loja. Trata-se de uma senhora que alega
ter quebrado um dente no salo Clarendon.
Meredith ergueu os olhos para o teto com um suspiro desgostoso.
-Vai nos processar porque quebrou um dente comendo na nossa rea de alimentao?
-No, exatamente. Ela mordeu um pedao de noz, comendo uma truta.
-Ah, isso muda as coisas - comentou Meredith, enquanto destrancava uma gaveta da escrivaninha, aceitando a possibilidade de precisar chegar a um acordo com
a reclamante.
- Onze e meia est bem para voc?
-Est - Meredith afirmou, no instante em que seu telefone comeou a tocar.
- Eu atendo - disse Phyllis.
Foi assim que o dia comeou, deslanchando para a atividade frentica que Meredith s vezes achava exaustiva, apesar de excitante. Nos raros tenpos de paz que
teve nas horas seguintes, ela se pegou olhandopara o telefone, desejando que Parker ligasse para dizer que no havia nada errado com seu divrcio.
Eram quase cinco horas, quando Phyllis finalmente anunciouque ele estava ao telefone. Tomada por sbita tenso, Meredith tirou bruscamente o aparelho do gancho.
-O que descobriu? - perguntou.
-Nada conclusivo, ainda - ele respondeu, mas sua voz estava diferente, tensa. Spyzhalski no pertence  Ordem Americana de Advogados. Estou esperando uma resposta
de algum do tribunal. Ele me ligar dando a informao que pedi, assim que a tiver. Dentro de algumas horas, saberei qual  realmente a situao. Voc vai estar
em casa,  noite?
-No - ela negou com suspiro. - Estarei na casa de meu pai. Ele vai oferecer uma pequena festa de aniversrio ao senador Davies. Ligue para l.
-Certo.
-No momento em que tiver a resposta?
-Prometo.
-A festa acabar cedo, porque o senador partir para Washington no voo de meia-noite. Se eu j tiver ido embora, ligue para minha casa.
-No se preocupe. Eu a encontrarei.



#24


Na casa do pai,  noite, Meredith achou impossvel no se preocupar. Tentava bravamente acreditar que estava angustiando-se  toa, enquanto conversava com os
convidados de Philip, mantendo o sorriso, embora com enorme esforo.
O jantar terminara uma hora atrs, e Parker ainda no telefonara. Para distrair-se, ela ficou no salo de jantar, enquanto os empregados retiravam os pratos,
talheres e copos da mesa, depois foi  biblioteca, onde os convidados haviam se reunido para tomar um conhaque antes de irem embora.
Algum ligara a televiso, e vrios homens, de p junto ao aparelho, assistiam a um noticirio.
-Foi uma festa adorvel, Meredith - a esposa do senador Davies elogiou. - Eu
Meredith no ouviu o resto de suas palavras, pois o apresentador do noticirio comeara a falar de Matthew Farrell, dizendo que a gravao de uma entrevista
com ele fora levada ao ar momentos antes, no programa de Brbara Walters.
- Agora, vamos ver alguns trechos da entrevista, durante a qual ele fez comentrios sobre o aumento recente de fuses de empresas - anunciou o apresentador.
As pessoas reunidas na biblioteca, que com certeza haviam lido a coluna de Sally Mansfield, naturalmente acharam que Meredith estariainteeressada em saber o
que Matthew Farrell tinha a dizer. Depois deolharem para ela com curiosidade, viraram-se para o televisor, no momento em que Matt e Brbara Walters apareceram na
tela.
- Como encara o aumento de fuses de empresas que so feitas com o uso de mtodos hostis? - Brbara perguntou, e Meredith notou, irritada, que ela parecia fascinada
por Matt.
- uma tendncia que se manter at que sejam tomadas medidas para control-la.
-Existe alguma empresa com imunidade contra uma fuso forada com a Intercorp? De amigos, ou conhecidos, por exemplo? Nossa ABC poderia ser sua prxima presa?
- a jornalista brincou.
-O objeto de uma tentativa de fuso  chamada de alvo, no de presa. Mas pode ficar tranquila, que a Intercorp no est de olho na ABC, por enquanto.
Os homens riram da resposta, mas Meredith no achou graa nenhuma.
-Podemos conversar um pouco sobre sua vida particular, agora?
-Eu poderia evitar?
Brbara negou com um gesto de cabea, sorrindo de modo exagerado para Matt.
-No decorrer dos ltimos anos, voc teve trridos casos com diversas estrelas de cinema, uma princesa e, mais recentemente, com Maria Calvaris, a herdeira de
um armador grego. Esses casos, to noticiados, foram reais, ou inventados por colunistas sociais que se dedicam a publicar mexericos?
-Foram.
Os convidados de Philip tornaram a rir, apreciando a presena de esprito de Matt, e Meredith experimentou uma onda de raiva ao refletir que ele tinha uma facilidade
incrvel para ganhar a simpatia das pessoas.
-Sei que nunca foi casado - a entrevistadora estava dizendo. - Mas eu gostaria de saber se planeja casar-se, um dia.
-Pode ser - Matt respondeu, sorrindo.
Meredith apertou os dentes, lembrando que aquele sorriso j fizera seu corao disparar.
O apresentador tornou a aparecer na tela, pondo fim  exibio dos trechos da entrevista de Matt, e Meredith respirou, aliviada.
-Imagino que ns todos lemos a coluna de Sally Mansfield - o senador preludiou, sorrindo para Meredith, que sentiu seu alvio evaporar-se. - Poderia satisfazer
nossa curiosidade, contando-nos por que no gosta de Farrell?
Ela conseguiu sorrir de modo displicente.
-No - respondeu, fazendo todos rirem.
No entanto, notou que os convidados haviam ficado ainda mais curiosos e escapou de mais perguntas, comeando a arrumar as almofadas sobre o sof.
-Stanton Avery props Farrell como scio de nosso clube - o senador informou, falando com Philip.
Mentalmente amaldioando Matt por ter-se mudado para Chicago, Meredith lanou um olhar de advertncia ao pai, mas era tarde demais.
-Tenho certeza de que todos ns, aqui reunidos, temos bastante influncia para no permitir que ele entre para o clube, mesmo que o resto dos scios queira
isso, o que no acredito - comentou Philip, dominado por seu gnio explosivo.
O juiz Northrup ouviu a tirada e interrompeu a conversa que estava tendo com outro homem.
- isso o que deseja, Philip? - perguntou. - Que barremos a entrada de Farrell?
-Exatamente.
-Se voc o considera indesejvel, isso basta para mim - declarou o juiz, olhando em volta para ver a reao dos outros.
Todos moveram a cabea, concordando, e Meredith soube que, a partir daquele momento, as chances de Matt ser scio do Glenmoor eram nulas.
-Ele comprou uma enorme gleba de terra em Southville - o juiz disse a Philip. - E agora quer que o lugar seja rezoneado, de modo que possa construir um complexo
industrial de alta tecnologia.
-? - Pelo tom da voz do pai, Meredith imaginou que ele acabaria com aquele plano tambm, se pudesse. Ento, viu que estava certa, quando ele prosseguiu: -
Quem  que ns conhecemos, na comisso de rezoneamento do municpio de Southville?
-Muita gente. Paulson, por exemplo.
-Pelo amor de Deus! - Meredith interferiu, forando uma risada, enquanto olhava de modo suplicante para o pai. - No h necessidadede assestar os canhes sobre
Matt Farrell, s porque no gosto dele.
-Estou certo de que seu pai e voc tm fortes razes para no gostar - comentou o senador.
-E no se enga - Philip comeou.
-Razo nenhuma - assegurou Meredith, interrompendo-o. Com um sorriso falsamente divertido, continuou: - A verdade  que Matt Farrell me passou uma cantada,
quando eu tinha dezoito anos, e papai nunca o perdoou por isso.
-Agora j sei onde foi que conheci Farrell! - a sra. Foster exclamou, olhando para o marido. Ento, dirigiu-se a Meredith: - Ele esteve no Glenmoor, muitos
anos atrs. Eu me lembro que o achei lindo, e foi voc quem nos apresentou!
-Bem, detesto sair de minha prpria festa de aniversrio, mas preciso pegar o avio de meia-noite para Washington - o senador anunciou, salvando Meredith da
conversa difcil.
Cerca de meia hora mais tarde, ela estava com o pai no prtico acenando para os ltimos convidados, que partiam em seus carros quando viu um veculo subindo
a alameda na direo da casa.
-Quem ser, a esta hora? - resmungou Philip, carrancudo. Quando o carro passou sob uma das lmpadas, Meredith identificou o Mercedes azul-metlico do noivo.
- Parker, pai.
-s onze da noite?
Meredith comeou a tremer, abalada por um mau pressentimento, observando Parker parar o carro, descer e subir a escada para o prtico,
-Calculei que a esta hora a festa estivesse terminando e vim porque preciso falar com vocs dois - ele explicou, aproximando-se dela.
-Parker, no esquea que meu pai est doente - ela pediu num cochicho.
-No vou perturb-lo desnecessariamente - o noivo prometeu, quase empurrando os dois para dentro. - Mas ele precisa saber dos fatos, para que possamos tomar
providncias.
-Parem de falar de mim como se eu no estivesse aqui - Philip protestou, quando atravessavam o vestbulo. - Que fatos? Que diabo est acontecendo?
Parker no disse nada, at entrarem na biblioteca.
-Acho melhor vocs se sentarem - aconselhou, fechando a porta
-Droga, Parker, nada me deixa mais irritado do que o suspense-reclamou Philip.
-Muito bem. Ontem  noite, li o processo do divrcio de Meredith e achei vrias irregularidades. Lembra-se, Philip, do caso daquele advogado, oito anos atrs,
que embolsava o dinheiro que os clientes pagavam-lhe e no registrava as causas?
-Lembro. E da?
-E daquele sujeito da zona sul, chamado Joseph Grandola, que h cinco anos levou cinquenta e dois processos por fraude, porque se fazia passar por advogado,
aceitava causas, cobrava honorrios e nunca sequer chegou perto de um tribunal?
Parker esperou um momento, mas Philip no respondeu, embora seu rosto ficasse rgido de tenso.
-Grandola fez apenas o primeiro ano da faculdade de direito, antes deser expulso. Alguns anos mais tarde, abriu um escritrio num bairro onde a maioria de
seus clientes era quase analfabeta. Por mais de uma dcada, nada lhe aconteceu, porque ele s aceitava causas que no precisassem de julgamento, nem envolvessem
um advogado opositor, como divrcios sem contestao, redao de testamentos e assim por diante.
Meredith sentou-se no sof, sentindo-se mal do estmago, zonza, j sabendo o que Parker ia comunicar, enquanto seu corao apertava-se, gritando que aquilo no
era verdade, no estava acontecendo.
-Ele entendia um pouco de leis e conhecia o jargo jurdico, de modo que podia redigir uma boa imitao de qualquer documento legal. Quando um cliente o procurava,
querendo um divrcio, ele primeiro certificava-se de que o outro cnjuge estava de pleno acordo ou, ento, desaparecido. Depois, cobrava os honorrios e fazia os
documentos, que ele prprio assinava, sabendo que seria desmascarado, se tentasse apresent-los a um juiz.
-Est tentando me dizer que aquele homem que contratei h onze anos no era advogado? - perguntou Philip com voz irreconhecvel, de to tensa.
-Receio que sim.
-No acredito! - Philip gritou, como se, com sua fria, pudesse afastar a horrvel possibilidade.
-No vai adiantar nada ter outro ataque cardaco, porque isso no mudar nada - observou Parker com toda a tranquilidade.
Meredith sentiu ligeiro alvio ao notar que o pai esforava-se para recuperar a calma.
-V em frente - ele murmurou aps um momento, agarrando-se ao espaldar de uma cadeira.
-Hoje, depois de descobrir que Spyzhalski no pertencia  Ordem Americana de Advogados, mandei ao tribunal um investigador muito discreto, que usamos para verificar
assuntos que interessam ao banco - Parker contou. - Ele descobriu que o divrcio de Meredith no foi registrado.
-Vou matar aquele miservel! - declarou Philip.
-Se est se referindo a Spyzhalski, ter de procur-lo muito, porque ele desapareceu. Se est falando de Farrell, sugiro que reconsidere essa atitude.
-Quero ser um desgraado, se vou reconsiderar! Mas Meredithpode sair-se dessa facilmente, indo a Reno e conseguindo um divrcio rpido.
-J pensei nisso, mas no vai dar certo - Parker informou. - Mesmo que Meredith fizesse o que voc sugeriu, esse divrcio no desataria o n complicado que
 a questo dos direitos sobre propriedades. Isso teria de ser feito por um tribunal daqui do Estado de Illinois
-Meredith no precisa dizer a ele que esse n continuaria.
-Alm de ser algo moralmente incorreto e antitico,  tambm impraticvel - replicou Parker com um suspiro de frustrao. - AOrdem Americana j recebeu duas
queixas contra Spyzhalski e passou-as para as autoridades. Vamos supor que Meredith faa o que voc aconselhou, que Spyzhalski seja preso e confesse. No minuto em
que isso acontecer, as autoridades avisaro Farrell de que o divrcio dela no teve validade. Faz ideia do processo que ele pode abrir contra vocs por causa disso?
Farrell agiu de boa f, deixando que cuidassem do divrcio, e vocs foram negligentes, deixando-o exposto a uma possvel bigamia durante todos esses anos e
-Chega! - ordenou Philip. - Parece que voc j examinou todos os ngulos do problema. O que acha que devemos fazer?
-Tudo o que for preciso para apaziguar Farrell e faz-lo concordar com um divrcio rpido e descomplicado - Parker respondeu, ento virou-se para Meredith:
- Sinto muito, mas penso que isso ter de ser feito por voc.
Durante a conversa toda, ela ficara sentada, mergulhada em estranha apatia, da qual foi arrancada pelas ltimas palavras do noivo.
-Por que ele precisa ser apaziguado, por mim ou por qualquer outra pessoa? - indagou.
-Por causa do lado financeiro e suas enormes implicaes. Voc  uma jovem rica, Meredith, e Farrell pode exigir uma parte de seus bens. Queira ou no, ele
ainda  seu marido.
-No diga isso!
-Mas  a verdade - replicou Parker. - Sempre existe a possibilidade de Farrell no querer colaborar com o divrcio, assim como a de process-la por negligncia.
-Deus meu! - ela exclamou, levantando-se e comeando a andar, inquieta. - No posso acreditar numa coisa dessas! - Forando-se a pensar com lgica, analisou
o assunto por alguns instantes. - Esperem! Acho que estamos exagerando. Se tudo o que li sobre Matt Farrell for verdade, ele  muito mais rico do que ns.
-Muito mais - confirmou Parker, sorrindo com aprovao ao v-la novamente capaz de raciocinar. - E teria muito mais a perder do que voc, numa disputa por causa
de propriedades.
-Ento, no precisamos nos preocupar - ela observou. - Farrell vai querer acabar com essa coisa to rapidamente quanto eu, e ficar aliviado, quando souber
que no quero nada dele.
-No  bem assim - Parker alertou-a. - Voc e seu pai assumiram a responsabilidade de obter o divrcio e, para todos os efeitos, fracassaram. Os advogados de
Farrell podero convencer o juiz de que a culpa foi de vocs e exigir que reparem os danos. Voc, Meredith, por outro lado, teria muita dificuldade em arrancar alguma
coisa de Farrell, porque os advogados alegariam que tramou um divrcio fraudulento para, mais tarde, poder tirar dinheiro dele.
-O canalha vai apodrecer no inferno, antes de tirar mais um centavo nosso - Philip rosnou. - J dei dez mil dlares a ele, para sair de nossas vidas e esquecer
nosso dinheiro.
-De que forma fez esse pagamento? - perguntou Parker.
-Eu fiz o que Spyzhalski sugeriu. Dei um cheque, que s poderia ser pago a ele e Farrell, no a apenas um deles.
-Spyzhalski  um vigarista, Philip. Acha que hesitaria em forjar o endosso de Farrell, retirar o dinheiro e ficar com ele?
-Eu devia ter matado Farrell no dia em que Meredith o trouxe aqui!
-Pare com isso! - gritou Meredith. - No v ter um infarto! Tudo o que temos a fazer  mandar um advogado entrar em contato com o advogado dele.
-No  to simples - Parker avisou. - Se voc quer que Farrell colabore e que esta confuso no vire um escndalo, acho melhor comear a acertar as coisas com
ele.
-Que coisas?
-Para comear, pea desculpas pessoalmente pela desfeita que fez a ele, na frente de Sally Mansfield.
Meredith sentou-se numa poltrona diante da lareira e ficou olhando as chamas.
-Estou comeando a ter dvidas a seu respeito, Parker - declarou Philip em tom alto e irritado. - Que tipo de homem  voc, para sugerir que ela v pedir desculpas
quele filho da me? Eu lido com ele!
-Sou um homem prtico e civilizado, isso  o que sou - respondeu Parker, indo at Meredith e afagando-lhe o ombro num gesto de consolo.
-E voc, Philip,  explosivo, portanto a pessoa menos indicada paraisso. Meredith contou-me tudo o que aconteceu entre ela e Farrell. Que se casaram porque
ela ficou grvida. O que ele fez quando ela perdeu o beb foi cruel, mas tambm foi uma deciso prtica, e talvez ele tenha sido mais gentil fazendo isso, do que
se tentasse levar avante um casamento fadado ao fracasso desde o incio.
-Gentil?! - Philip cuspiu a palavra. - Ele era um interesseiro, tinha vinte e seis anos e seduziu uma menina de dezoito, uma herdeira, engravidou-a e, ento,
gentilmente casou-se com ela.
-Pare, pai! - Meredith tornou a pedir. - Parker tem razo. E o senhor sabe muito bem que Matt no me seduziu. Eu lhe contei como e por que aconteceu. Nada
disso importa, agora. Vou entrar em contato com Matt, to logo decida qual o melhor modo de faz-lo.
-Menina corajosa! - Parker aplaudiu. Olhou para Philip, ignorando sua expresso furiosa. - Tudo o que Meredith precisa fazer  encontrar-se com ele de maneira
civilizada, expor o problema e sugerir que entrem com um pedido de divrcio, sem exigir nada um do outro financeiramente. - Fitou o rosto de Meredith com um sorriso
carinhoso
-Voc j enfrentou coisas piores do que essa, no  meu bem?
Meredith viu encorajamento e orgulho nos olhos dele, mas isso no diminuiu sua consternao.
-No - respondeu. - Nunca.
-Mas  claro que j! - ele afirmou, ento animou-a: - Tudo j ter passado, daqui a vinte e quatro horas, se voc conseguir fazer com que ele a receba amanh
mesmo.
-Me receber? Por que no posso falar com ele por telefone?
-Seria assim que agiria, se fosse um difcil assunto de negcios, de extrema importncia para voc?
-No, claro que no - ela admitiu com um suspiro.


    Depois que Parker foi embora, Meredith e o pai ainda ficaram mais um pouco na biblioteca, olhando para o nada, como que em transe.
-Suponho que me culpe por tudo isso - observou Philip por fim. Meredith olhou para ele, achando-o plido, com ar derrotado.
-No, pai. O senhor s tentou me proteger, contratando um advogado que no nos conhecia.
-Telefonarei a Farrell, pela manh.
-No. Parker est certo sobre isso. O senhor fica furioso e perde a capacidade de raciocinar, s de ouvir o nome de Matt. Se falasse com ele, perderia a calma
em dez segundos e teria outro ataque. Por queno vai se deitar, agora, e tenta dormir? - Meredith sugeriu, levantando-se. - Ns nos veremos amanh, no trabalho.
Sabe, as coisas sempre parecem menos ruins durante o dia - acrescentou com um sorriso confortador.
Saram da biblioteca e dirigiram-se  porta da frente da manso.
-No sou mais uma menina de dezoito anos, pai, e no tenho medo de enfrentar Matt Farrell. Na verdade, mal posso esperar para mostrar-lhe que ele no me assusta
- mentiu.
Philip pareceu estar procurando desesperadamente por uma alternativa que a livrasse daquela situao difcil, cada vez mais plido, porque no encontrava nenhuma.
Meredith despediu-se, fingindo despreocupao, e desceu a escada quase correndo. Entrou no carro e fechou a porta. Ento, pousou a testa no volante.

-Meu Deus - murmurou, aterrorizada diante da ideia de que ia ter de encontrar-se com aquele demnio de cabelos escuros que voltara do passado.



#25


- Bom dia! - Phyllis cumprimentou animadamente, seguindo Meredith, que caminhava para a porta do escritrio.
-Posso chamar este dia de muitas coisas, menos de bom - respondeu Meredith, indo pendurar o casaco no armrio. Para adiar o momento de ligar para Matt, perguntou:
- Algum telefonou?
-O sr. Sanborn em pessoa, porque voc no devolveu o formulrio de atualizao do seguro. Disse que precisa dele imediatamente - Phyllis informou, entregando-lhe
o formulrio.
Suspirando, Meredith sentou-se  mesa, pegou uma caneta e escreveu seu nome e o endereo. Depois, leu o item seguinte, com revolta e confuso: Estado Civil.
Conteve a custo o riso histrico que lhe subiu  garganta, enquanto olhava para a opo Casado(a). Ela era casada H onze anos. Com Matthew Farrell.
-Est se sentindo bem? - Phyllis perguntou, ansiosa, ao v-la apoiar a cabea numa das mos, os olhos fixos no papel.
-O que pode acontecer, se a gente mentir ao preencher um formulrio desses?
-Acho que eles se recusaro a pagar o seguro ao seu beneficirio se voc morrer.
-timo - observou Meredith com humor sombrio, marcando opo Solteiro(a). Acabou de preencher o formulrio e entregou-o a Phyllis, que a olhava, intrigada.
- Por favor, feche a porta, quando sair, e no me passe nenhuma ligao por alguns minutos.
Assim que a secretria saiu, ela tirou a lista telefnica da gaveta, procurou o nmero da Haskell Electronics eanotou-o. Guardou a lista e ficou parada, olhando
para o telefone como se o aparelho tivesse garras ameaadoras, sabendo que chegara o momento que tanto temera. Fechando os olhos por alguns segundos, preparou-se,
ensaiando novamenteo que faria. Se Matt estivesse zangado pelo que acontecera no baile da pera, e certamente estaria, ela se desculparia com simples dignidade.
Em seguida, diria que precisava encontrar-se com ele para tratar de um assunto urgente. Com um movimento que parecia filmado em cmera lenta, estendeu a mo e pegou
o telefone.
Pela terceira vez, no espao de uma hora, o interfone soou na escrivaninha de Matt, interrompendo um acalorado debate entre seus executivos. Irritado, ele apontou
para o interfone.
-A srta. Stern viajou para ver uma irm que est doente - explicou aos homens. - Ela no nos perturbaria a todo momento. Continuem, por favor. - Apertou o boto
e repreendeu a secretria que substitua Eleanor Stern. - Eu lhe disse para no me passar nenhuma chamada!
-E-eu sei, senhor, mas mas a srta. Bancroft disse que  algo extremamente importante - gaguejou Joanna Simons, sua voz nervosa ecoando na sala.
-Anote o recado - Matt instruiu, brusco. Ia soltar o boto, mas subitamente tenso, pressionou-o com mais fora: - Quem voc disse que quer falar comigo?
-Meredith Bancroft - respondeu Joanna em tom sugestivo, deixando claro que ficara sabendo, atravs da coluna de Sally Mansfield, do incidente entre os dois.
Era bvio que os homens sentados em semicrculo diante da mesa tambm sabiam do caso, porque calaram-se abruptamente, quando ouviram o nome de Meredith. Voltaram
a falar depois de um breve momento, mais alto do que antes, como para encobrir sua curiosidade e espanto.
-Estou no meio de uma reunio - Matt informou com aspereza.
-Pea a ela para me ligar daqui a quinze minutos.
Soltou o boto, sabendo que, por cortesia, deveria telefonar para Meredith, no pedir que ela ligasse de novo. Isso no importava. No teriam nada para dizer
um ao outro. Lanou um rpido olhar para
Tom Anderson e concentrou-se na discusso.
-No haver nenhum problema com o rezoneamento de Southvilleassegurou. - Temos um contato na comisso, que nos disse que a cidade est ansiosa para que a fbrica
seja construda l.
Dez minutos mais tarde, acompanhou os homens at a porta, fechou-a e voltou a sentar-se  escrivaninha. Passou-se meia hora, e Meredith no ligou. Ele continuava
a olhar para o interfone silencioso, a hostilidade crescendo a cada segundo. Bem do feitio de Meredith,telefonar-lhe pela primeira vez em onze anos, fazer sua secretria
interromper uma reunio e depois, s porque ele no atendera, deix-lo ali plantado,  espera. Ela sempre agira como se pertencesse a alguma famlia real. Nascera
com aquela percepo de seu prprio valor e crescera acreditando que era melhor do que todo o mundo.
Tamborilando os dedos na escrivaninha, Meredith reclinou-se na cadeira e olhou para o relgio para ver se j haviam se passado os quarenta e cinco minutos que
decidira esperar antes de telefonar novamente para Matt. O arrogante tivera o desplante de mand-la ligar outra vez, o que deixava claro que a riqueza no lhe dera
boas maneiras. Se fosse educado, saberia que, se ela tivera a cortesia de dar o primeiro passo para entrar em contato com ele, cabia-lhe dar o segundo. Por baixo
daquela capa de polidez que exibia em pblico, Matt continuava o mesmo bruto ambicioso
Meredith interrompeu essa linha hostil de pensamento, que no a ajudaria a vencer a dificuldade que tinha pela frente. Alm disso, seria injusto culpar Matt
por tudo o que acontecera anos atrs. Ela no se recusara a fazer amor com ele, na noite em que haviam se conhecido, muito pelo contrrio, nem tomara a precauo
de evitar uma gravidez. Ficara grvida, e ele, com toda a decncia, assumira a responsabilidade, concordando com o casamento. Mais tarde, ela se convencera de que
Matt amava-a, embora no dissesse. Na verdade, ele nunca a enganara, e seria estupidez e infantilidade culp-lo por no ter realizado suas ingnuas esperanas.
Sentindo-se mais calma, Meredith ps de lado o orgulho ferido e prometeu a si mesma que manteria a compostura, evitando trat-lo do jeito que fizera na festa
da pera, o que fora uma tolice. O relgio marcou dez e quarenta e cinco, e ela ergueu o telefone do gancho.
Matt estremeceu, quando o interfone tocou, e apertou o boto depressa
-A srta. Bancroft est na linha - Joanna avisou. Ele soltou o boto e pegou o telefone.
-Meredith? Que surpresa!
Ela notou que ele no dissera que surpresa agradvel, de acordo com o costume, e que sua voz parecia mais profunda do que se lembrava.
-Meredith! - a irritao de Matt vibrou atravs da distncia que os separava e arrancou-a de sua perturbadora reflexo.
-Se telefonou para ficar respirando em meu ouvido, fico lisonjeado, mas um pouco indeciso. O que espera que eu faa?
-Vejo que continua o mesmo convencido, mal-educado
-Ah, ligou para criticar meus modos - ele comentou.
Ela se obrigou a pensar que seu objetvo era apazigu-lo, no exasper-lo.
-No. Estou ligando porque gostaria de enterrar o machado de guerra.
-Em que parte do meu corpo?
Ela no pde conter uma risada, e Matt lembrou-se de que um dia encantara-se com aquele riso.
-O que voc quer, Meredith? - perguntou em tom rspido.
Quero Preciso falar com voc pessoalmente.
Na semana passada, voc se recusou a apertar minha mo e virou-me as costas na presena de quinhentas pessoas - ele a lembrou gelidamente. - Por que essa mudana
de atitude, agora?
-Aconteceu uma coisa sobre a qual precisamos conversar, de modo civilizado.  algo que diz respeito a ns dois.
-No somos mais ns dois - ele observou, implacvel. - E conversar de modo civilizado parece algo alm de sua capacidade, a julgar pelo que aconteceu no
baile da pera.
Uma rplica furiosa subiu aos lbios de Meredith, mas ela engoliu-a. No queria uma guerra contra Matt. Queria um tratado de paz. Era uma mulher de negcios,
acostumada a lidar com homens teimosos e arrogantes como ele. Deixar-se levar pela raiva s estragaria tudo.
-Eu no vi que Sally Mansfield estava por perto, quando o tratei daquele jeito - explicou em tom calmo. - Peo desculpas pelo que fiz e disse.
-Estou abismado - ele declarou em tom zombeteiro. - Fez um curso de diplomacia?
Meredith fez uma careta de irritao.
- Matt, estou pedindo trgua - disse, mantendo um tom suave.
-Ser que no pode colaborar nem um pouquinho?
Ouvi-la falar seu nome abalou-o, e ele levou alguns segundos para recuperar-Se.
- Vou partir para Nova York dentro de uma hora - informou abruptamente. - E s voltarei na segunda-feira. Meredith sorriu, sentindo-se triunfante.
- Quinta-feira  o Dia de Ao de Graas. - Podamos marcar um encontro para antes, digamos, na tera, se voc no estiver muito ocupado?
-Matt abriu a agenda e viu que havia compromissos marcados para os dias teis da semana de Ao de Graas. Ele estaria muitoocupado.
-Tera - decidiu. - Voc pode vir ao meu escritrio s onze quarenta e cinco?
-Posso - ela concordou no mesmo instante, mais aliviada do qUe desapontada pelo fato de que ainda teria de esperar cinco dias para resolver o difcil assunto.
-Seu pai sabe que voc quer falar comigo pessoalmente? - perguntou Matt, o tom de voz revelando que seu rancor contra Philip no diminura.
-Sabe.
-Ento, fico surpreso em saber que ele no a amarrou com correntes para impedi-la. Deve estar ficando mole.
-No. Ele est doente. - Para abrandar a inevitvel animosidade de Matt, quando ele descobrisse que o pai dela contratara um falso advogado para fazer o divrcio,
Meredith acrescentou: - Pode morrer a qualquer momento.
-Quando isso acontecer, espero que algum se lembre de cravar uma estaca de madeira no corao dele - declarou Matt sarcasticamente.
Meredith sufocou uma risadinha horrorizada ao ouvir a irreverente tirada e despediu-se educadamente. Mas foi invadida por uma onda de melancolia, quando desligou
e reclinou-se na cadeira, pensando na insinuao de Matt sobre Philip ser um vampiro. Ela prpria, no passado, sentira-se como se realmente o pai estivesse sugando
seu sangue. Uma coisa era certa. Ele lhe roubara quase toda a alegria da juventude.



#26


    Na tera-feira, olhando-se no espelho do banheiro privativo de seu escritrio, Meredith disse a si mesma que seria perfeitamente capaz de ter uma conversa educada
com Matt e de faz-lo concordar com um divrcio rpido e sem complicaes.
Retocou o batom, escovou os cabelos, deixando-os soltos e leves, ento recuou para observar o efeito do vestido preto de l fina, com decote rente ao pescoo
e mangas compridas. Um conjunto cintilante de colar e pulseira de ouro quebrava a monotonia do preto. Por orgulho e bom senso, queria estar com a melhor aparncia
possvel para o encontro, pois, afinal, Matt saa com sensuais artistas de cinema e glamourosas modelos, e ela sabia que se sentiria mais autoconfiante ao lidar
com ele estando bem vestida. Satisfeita, guardou os artigos de maquilagem na bolsa, pegou o casaco e as luvas e saiu.
Decidira ir de txi para no ter de cansar-se na luta do trnsito, nem andar na chuva, se estacionasse o carro longe do prdio da Haskell Electronics. J no
txi, observou os pedestres atravessando a avenida Michigan apressadamente, levando guarda-chuvas ou jornais dobrados na cabea. As gotas batiam como minsculos
martelos no teto do veculo e ela aconchegou-se no luxuoso casaco de peles com que o pai apresenteara em seu vigsimo quinto aniversrio.
Durante cinco noites e dias, planejara sua estratgia, ensaiara o que pretendia dizer a Matt, determinada a agir com calma e tato, como se estivesse tratando
de um negcio. No ia rebaixar-se, criticando-o por suas aes passadas, primeiro porque ele no tinha conscincia e, segundo, porque ela jamais lhe daria a satisfao
de saber que sua traio machucara-a profundamente. Nada de recriminaes, repetia para si mesma. Calma e tato. Talvez, agindo assim, estabelecesse um exemplo que
Matt seguiria. Outracoisa que no podia fazer era entrar bruscamente no assunto que a levara a procur-lo. Precisava ir devagar, amaciando o choque.
Percebeu que as mos tremiam e colocou-as nos bolsos, fechando-as numa reao de nervosismo. A gua escorria como uma cascata pelo pra-brisa do txi, borrando
a luz do semforo  frente, criando manchas verdes, amarelas e vermelhas, quando o sinal mudou. Olhando-as, Meredith lembrou-se dos fogos de artifcio daquele Quatro
de Julho que mudara todo o curso de sua vida.
-Chegamos, senhorita - o motorista avisou pouco depois, tirando-a do devaneio.
Ela pagou e desceu, correndo para o abrigo do edifcio de ao e vidro que era a mais recente aquisio de Matt.
Quando saiu do elevador, no sexagsimo andar, viu-se numa espaosa rea de recepo, cujo piso fora revestido por um carpete prateado, Andou at a mesa da recepcionista,
uma elegante morena que, com maldisfarada curiosidade, observava-a aproximar-se.
-O sr. Farrell j vai receb-la, srta. Bancroft - a moa informou, obviamente reconhecendo-a pelas fotos que devia ter visto em jornais e revistas. - Encontra-se
em reunio, no momento, mas estar livre em poucos minutos. Por favor, sente-se.
Aborrecida, porque Matt parecia estar querendo faz-la esperar como uma camponesa aguardando ser atendida por um rei, Meredith olhou para o relgio na parede.
Chegara dez minutos adiantada. Sua raiva evaporou-se, e ela se acomodou numa poltrona de couro, pegando uma revista. Acabara de abri-la, quando um homem saiu apressadamente
de um conjunto de salas, deixando a porta aberta. Ento, ela viu Matt numa sala adjacente  de sua secretria e, por cima do topo da revista, ficou olhando, com
relutante fascinao, para o homem que era seu marido.
Ele estava atrs da escrivaninha, reclinado na cadeira, ouvindo o que alguns homens diziam. A despeito da postura relaxada, o rosto de feies firmes denotava
autoridade, autoconfiana, e, mesmo em mangas de camisa, Matt parecia cercado por uma aura de poder e dinamismo que Meredith achou um tanto surpreendente e estranhamente
perturbadora. Naquela noite, na festa da pera, ela ficara abalada demais para olh-lo direito. Mas ali, podendo observ-lo sem ser notada, viu que ele no mudara
muito em onze anos, embora houvesse algo sutilmente diferente. Aos trinta e sete anos, ele no tinha mais o ar impetuoso que ela conhecera e que fora substitudo
por uma expresso de fora inabalvel que o deixara ainda mais atraente. Os cabelos eram maisescuros do que ela se lembrava, os olhos mais claros, mas a boca cinzelada
ainda possua a mesma sensualidade. Um dos homens devia ter dito algo engraado, porque Matt sorriu de repente, e Meredith sentiu um aperto no corao. Ignorando
essa inexplicvel reao, ela tentou ouvir o que estava sendo discutido l dentro. Captando palavras esparsas, deduziu que Matt pretendia fundir duas divises da
Interior numa s, e que estavam procurando a forma mais suave de fazer isso.
Com interesse profissional, notou que Matt conduzia uma reunio de modo bastante diferente do pai dela. Philip convocava os executivos para dar ordens e ficava
irado se algum ousasse contradiz-lo. Matt, porm, parecia preferir o sistema de falar e ouvir, exigir e conceder, permitindo uma livre expresso de opinies. Ele
ouvia, avaliando em silncio as ideias e as objees apresentadas. Em vez de colocar seus homens num estado de humilde submisso, era evidente que utilizava os talentos
deles, beneficiando-se com a percia de cada um. Meredith s pde achar aquele mtodo muito sensato e produtivo.
Procurando ouvir o mximo que pudesse, ela sentiu que uma semente de admirao caa em seu ntimo, germinava e crescia rapidamente. Ergueu o brao para pr a
revista na mesinha ao lado, e o movimento chamou a ateno de Matt, que olhou diretamente para ela.
Meredith ficou paralisada, ainda com a revista na mo, enquanto os olhos cinzentos pareciam penetrar os dela. Ento, ele desviou o olhar bruscamente.
-J  mais tarde do que eu pensava. Continuaremos a reunio depois do almoo - disse, dispensando os executivos.
Os homens comearam a sair, e Meredith sentiu a garganta apertada, quando viu Matt andando em sua direo.
Calma, tato, como se estivesse tratando de um negcio, recomendou-se numa cantilena nervosa, enquanto subia o olhar para fit-lo no rosto. Nada de recriminaes,
entre devagar no assunto, no se precipite.
Matt observou-a levantar-se.
-H quanto tempo - comentou, deliberadamente fingindo que o breve e desagradvel encontro no baile da pera no acontecera.
Meredith pedira desculpas, provara sua inteno de acabar com as hostilidades, indo ao escritrio dele. Nada mais natural que colaborasse com ela. Afinal, tudo
ficara no passado, e seria tolice alimentar rancor por algum que j no significava mais nada para ele.
Encorajada por sua aparente afabilidade, Meredith estendeu a mo enluvada para cumpriment-lo, lutando para vencer o nervosismo.
-Oi, Matt - conseguiu dizer com uma calma que absolutamente no sentia.
Ele apertou-lhe a mo rapidamente.
-Vamos para meu escritrio. Preciso dar um telefonema, ante de sarmos.
-Vamos sair? - ela perguntou, andando ao lado dele. - Como assim? Entraram no escritrio com vista panormica de Chicago, e Matt pegou o telefone.
-Comprei alguns quadros e o decorador e sua equipe estaro aqui em alguns minutos para pendur-los - explicou. - Alm disso, achei que seria bom conversarmos
durante o almoo.
-Almoo? - Meredith repetiu aturdida, procurando um jeito de rejeitar a sugesto.
-No me diga que j almoou, porque eu no acreditaria - ele avisou, pressionando algumas teclas. - Voc sempre achou que no era civilizado almoar antes das
duas horas da tarde.
Meredith lembrava-se de ter dito algo parecido durante os dias que passara na fazenda. Que idiotinha presumida ela fora aos dezoito anos! Agora, comia qualquer
coisa, sentada  escrivaninha, isso quando tinha tempo para comer. De fato, almoar com Matt num restaurante no era m ideia, pois ele no poderia xingar, esbravejar,
fazer uma cena quando ela contasse o motivo de sua visita.
Em vez de ficar parada, enquanto ele esperava que a pessoa para quem ligara o atendesse, ela comeou a andar pelo escritrio, olhando as obras de arte moderna.
A nica pea de que gostou estava na outra extremidade da sala espaosa, um grande mobile de Calder. Da parede ao lado pendia um quadro enorme, exibindo bolhas amarelas,
azuis e marrons, e ela recuou um pouco, tentando ver o que havia ali para uma pessoa gostar. Em sua opinio, as bolhas pareciam olhos de peixes flutuando em gelia
de uva. O quadro seguinte representava uma viela de Nova York, e Meredith virou a cabea para um lado, examinando-o atentamente. No, no era uma viela, mas talvez
um mosteiro, ou montanhas de cabea para baixo com uma vila e um riacho que corria em diagonal por toda a tela, entre lates de lixo.
De p junto  mesa, esperando que completassem sua ligao, Matt observava-a com o interesse frio de um conhecedor da beleza feminina. Envolta naquele casaco
de peles, com um colar de ouro brilhando no pescoo, Meredith tinha aparncia elegante, de mulher rica e mimada, uma impresso que entrava em choque com a pureza
do perfil de madona,perfeitamente visvel, porque ela erguera a cabea para olhar um quadro e os cabelos loiros haviam tombado para trs, brilhando como que salpicados
de ouro,  luz dos spots do teto. Ela beirava os trinta anos, mas ainda projetava a mesma aura de requinte sem artifcios e inconsciente sensualidade. Sem dvida
fora aquela combinao de beleza e pose de rainha que o atrara tanto, aperfeioada por um toque de falsa meiguice e bondade simulada. Mesmo agora, onze anos mais
velho, muito mais experiente, ele ainda a acharia irresistivelmente atraente, se no soubesse que no passava de uma mulher egosta.
Quando acabou de falar e desligou o telefone, foi at onde ela estava e esperou em silncio por sua opinio a respeito do quadro que examinava com tanta ateno.
-E  maravilhoso - Meredith mentiu.
-Acha? O que a agradou mais?
-Ah, tudo. Gostei das cores, da sensao de entusiasmo que transmite, das imagens.
-Das imagens - ele repetiu, incrdulo. - O que voc v, quando olha para esse quadro?
-Vejo algo parecido com montanhas, ou torres gticas viradas ao contrrio, ou - Meredith parou de falar por um momento, constrangida, ento perguntou: - O
que voc v nele?
-Um investimento de um quarto de milho de dlares - ele respondeu. - E que agora vale meio milho.
Ela ficou atnita.
-Quinhentos mil dlares por isso a? - perguntou, antes de poder conter-se.
-Por isso a - ele afirmou.
Meredith fitou-o e poderia jurar que vira um brilho de divertimento em seus olhos.
-Eu no quis dizer que - Calou-se, hesitante. - Bem, no entendo muito de arte moderna.
Ele apenas deu de ombros.
-Vamos?
Enquanto ele vestia o palet do terno e pegava o sobretudo no armrio, Meredith foi para perto da escrivaninha, em cima da qual viu a foto de uma jovem muito
bonita, sentada num tronco de rvore cado, uma perna estendida e a outra flexionada contra o peito, cabelos soltos ao vento e um sorriso exuberante. Ou era modelo
profissional, para exibir aquele sorriso, ou, ento, estava apaixonada pelo fotgrafo.
-Quem tirou essa foto? - perguntou, quando Matt virou-se para ela
-Eu, por qu?
-Por nada. - A jovem no era nenhuma das estrelinhas de cinema ou socialites com quem ele fora visto. E sua beleza era pura, sem artifcios
-No conheo essa moa.
-No frequenta os mesmos lugares que voc - ele declarou sardonicamente, vestindo o sobretudo. -  apenas uma garota que trabalha como qumica pesquisadora
em Indiana.
-Ela ama voc - Meredith opinou. Matt olhou para a foto da irm.
-De fato, ela me ama.
Meredith sentiu, intuitivamente, que Matt importava-se muito com a moa e que, talvez, poderia estar pensando em casar-se com ela. Quando soubesse que ainda
era um homem casado, ficaria ansioso para conseguir o divrcio o mais rapidamente possvel.
Quando atravessavam a sala da secretria, Matt parou para falar com a mulher de cabelos grisalhos sentada  escrivaninha.
-Tom Anderson est na audincia sobre a questo do zoneamento de Southville - disse. - Se ele voltar, e eu no tiver voltado do almoo, d-lhe o nmero do telefone
do restaurante e pea que me ligue.



#27


Uma limusine prateada estava  espera deles diante do edifcio, e o motorista que abriu a porta era um homem com nariz quebrado e fsico de bfalo. Meredith
sempre achara repousante e delicioso ser transportada numa limusine, mas, assim que se afastaram do meio-fio, agarrou-se ao brao do banco, assustada e surpresa.
Percebeu que o motorista dirigia como um louco, mas conseguiu esconder o medo, at que ele atravessou um sinal vermelho e deu uma guinada para desviar-se de um nibus
da empresa de transportes coletivos. Ento, no pde deixar de olhar para Matt, alarmada.
Ele respondeu  sua reclamao muda, dando de ombros com displicncia.
-Joe no desistiu do sonho de correr na Frmula Indy.
-No estamos na Indy - ela observou, segurando-se com mais fora quando o veculo virou uma esquina em alta velocidade.
-E Joe no  motorista - ele replicou.
-No? O que ele , ento?
-Meu guarda-costas.
Meredith sentiu-se nauseada diante do pensamento de que Matt devia ser odiado por pessoas a quem desagradara e que seriam capazes de mat-lo. Ela nunca se sentira
atrada pelo perigo. Gostava de paz esegurana e achava um costume brbaro aquele, de uma pessoa andaracompanhada por um guarda-costas.
Nenhum dos dois disse mais nada, e pouco depois o carro paroucom um solavanco na frente da entrada protegida por um toldo dorestaurante Landrys, um dos mais
elegantes e exclusivos de Chicago.
John, o maitre, que tambm era co-proprietrio do estabelecimento,usava smoking e estava parado em seu lugar habitual, perto da porta.
Meredith conhecia-o desde o tempo em que estudara na Bensonhurst,quando o pai a levava l para almoar, sempre que ela ia para casa. John costumava mandar-lhe
o refrigerante que ela pedisse, servido em copo especial e apresentado como se fosse um extico drinque para adultos, cortesia da casa, como dizia.
-Boa tarde, sr. Farrell - o homem entoou formalmente, mas depois acrescentou com um sorriso: - V-la  sempre um prazer, srta. Bancroft
Meredith olhou disfaradamente para Matt, tentando descobrir o que ele estaria sentindo ao perceber que ela era cliente antiga do Landrys, e estimada. Esqueceu
essa infantilidade, quando, no caminho para a mesa, viu muitos conhecidos que estavam ali almoando. Por seus olhares espantados, era bvio que haviam reconhecido
Matt e perguntavam-se por que ela estaria em companhia de um homem a quem insultara publicamente. Sherry Withers, uma das maiores mexeriqueiras que Meredith conhecia,
acenou, olhando para Matt com um ar de franca especulao.
O garom que os guiava levou-os a uma das mesas que ficavam atrs de uma trelia, perto o bastante do piano de cauda no centro do salo para que a msica pudesse
ser apreciada, mas no tanto que atrapalhasse a conversa. A no ser que uma pessoa fosse frequentadora regular do Landrys, era quase impossvel reservar uma mesa
com menos de duas semanas de antecedncia, principalmente uma boa como aquela. Meredith imaginou como Matt conseguira.
-O que gostaria de tomar? - ele perguntou, assim que se sentaram.
-S gua gelada, por favor - ela respondeu, refletindo que o momento desagradvel aproximava-se. Ento, decidiu que devia escolher uma bebida que lhe acalmasse
os nervos, e corrigiu: - No. Vou aceitar um drinque.
-De que gostaria?
-De estar no Brasil - ela resmungou com um suspiro.
-Desculpe, no entendi.
-Uma bebida forte - Meredith informou, sem saber o que pedir, exatamente. - Um manhattan. - Ento, abanou a cabea numa negativa, dizendo a si mesma que desejava
apenas acalmar-se, no ficar tonta e ser incapaz de controlar as prprias palavras e aes. Precisava de alguma coisa que pudesse beber devagar, s at livrar-se
da tenso. Algo de que no gostasse. - Um martni.
-S isso? - ele indagou com ar srio. - gua gelada, um manhattan e um martni?
-No. S o martni - ela respondeu com um sorriso hesitante.
Matt viu aflio nos olhos azuis e tambm um apelo para que ele tivesse pacincia. Ficou intrigado pelos contrastes que Meredith apresentava naquele momento.
Usando um vestido preto de decote alto e mangas compridas, estava to elegante quanto atraente. Isso apenas no o impressionaria, mas um leve rubor coloria as faces
lisas, e inegavelmente havia splica nos imensos e lindos olhos. Meredith parecia uma menina acanhada, o que a tornava quase irresistvel. Raciocinando que ela o
procurara para desculpar-se, Matt decidiu portar-se com gentileza, esquecendo o passado.
Teria outro ataque de indeciso, se eu lhe perguntasse que tipo de martni deseja?
-De gim - ela respondeu. - No, vodca. No, no. De gim. Matt divertiu-se ao v-la ficar ainda mais ruborizada.
-Seco ou suave? - indagou.
-Seco.
-Para acompanhar, cebolas ou azeitonas?
-Azeitonas.
-Valium ou aspirina? - ele persistiu em tom severo, mas seus lbios ensaiavam um sorriso.
Meredith, ento, percebeu que ele estivera brincando com ela o tempo todo. Sentiu-se grata e aliviada e conseguiu fit-lo nos olhos e sorrir.
-Desculpe - murmurou. - Estou um pouco nervosa. Quando o garom afastou-se, depois de anotar os pedidos, Matt olhou em volta, pensando que naquele restaurante
uma refeio custava o que ele, nos velhos tempos, ganhava por um dia de trabalho na usina de ao. Voltou a olhar para Meredith. Se ela quebrara a atmosfera imPessoal
entre eles, admitindo que estava nervosa, ele tambm podia fazer algo parecido.
-Eu costumava sonhar acordado, imaginando que um dia poderia lev-la para almoar num lugar assim - contou.
Distrada, tentando decidir como abordaria o assunto que a fizera encontrar-se com ele, Meredith olhou em volta, observando os enormes arranjos de flores naturais
em recipientes de prata, os garons envergando smokings, as mesas cobertas por toalhas de linho, onde cintilavamcopos de cristal e os talheres requintados.
-Assim, como?
Matt deu uma risadinha.
-Voc no mudou nada, Meredith. O luxo mais extraordinrioainda  coisa comum para voc.
-Voc no pode saber se mudei ou no - ela declarou. - Passamos apenas seis dias juntos.
-E seis noites - ele acrescentou sugestivamente, tentando faz-la corar outra vez, querendo abalar aquela compostura, ver de novo a moa confusa que no sabia
o que pedir para beber.
- difcil acreditar que j fomos casados - ela comentou, ignorando a velada referncia sobre as atividades sexuais dos dois.
-No  de surpreender, porque voc nunca sequer usou meu nome
-Tenho certeza de que h muitas mulheres mais merecedoras disso do que eu - ela replicou, forando um tom de indiferena.
-Parece que est com cime.
-Se acha isso,  porque sua capacidade de julgamento no  muito boa - ela criticou, reprimindo a irritao.
Matt esboou um sorriso relutante.
-Eu havia esquecido esse jeito altivo de menina educada que voc tem de expressar-se, quando fica zangada.
-Est tentando deliberadamente arrastar-me para uma discusso?-ela perguntou em tom baixo.
-No. O que eu disse foi um elogio.
Surpresa e um pouco agitada, Meredith desviou o olhar para o drinque que o garom estava pousando a sua frente. Pediram os pratos, e o homem afastou-se. Ela
decidiu esperar at que Matt tomasse boa parte de sua bebida, para ento dar-lhe a notcia desastrosa, na esperana de que o lcool o deixasse mais receptivo.
Matt ergueu o copo, aborrecido consigo mesmo por hav-la irritado.
-De acordo com as colunas sociais, voc toma parte ativa em vrias atividades benemerentes e ajuda no patrocnio  orquestra sinfnica, a pera e ao bal -
observou com cortesia e interesse genuno. - Com que mais ocupa seu tempo livre?
-Trabalho cinquenta horas por semana - ela informou, decepcionada por ele no fazer meno a seu sucesso profissional.
Matt sabia que ela fora bem-sucedida em vrios empreendimentos na Bancroft, mas queria descobrir se era realmente uma boa executiva, e sabia que podia formar
uma opinio a respeito, simplesmente ouvindo-a falar. Continuou a fazer perguntas, inclusive sobre seu trabalho na loja
Meredith respondeu, hesitante a princpio, depois mais segura, Prolongando-se nas explicaes porque estava com medo de contar-lhe o motivo daquele encontro.
Ele fazia perguntas inteligentes e parecia verdadeiramente interessado nas respostas, que no demorou muitopara ela comear a falar de seus objetivos, sucessos
e fracassos. Matt tinha um jeito de ouvir que incentivava confidncias, e Meredith, encorajada por sua ateno, falou at do problema que enfrentara, quando fora
acusada de subir na hierarquia por favoritismo do pai e da dificuldade que encontrara para lidar com isso, assim como com o chauvinismo de Philip, que contaminava
os outros homens da empresa com sua atitude.
Quando o garom retirou os pratos usados, ao fim do almoo, ela contara quase tudo o que lhe acontecera nos ltimos anos e tomara meia garrafa do excelente vinho
que Matt pedira. Sabia que chegara o momento de inform-lo de que continuavam casados, mas, apesar disso, sentia-se mais relaxada do que no incio da refeio.
Em amigvel silncio, olharam-se.
-Seu pai tem sorte em poder contar com voc entre seus executivos
-Matt comentou e estava sendo sincero, pois no havia mais dvida de que ela era realmente talentosa.
-Quem tem sorte sou eu. A Bancroft  tudo para mim, a coisa mais importante de minha vida.
Matt reclinou-se na cadeira, absorvendo aquela nova faceta que descobria em Meredith. Olhando para o copo de vinho, tentou entender por que ela falava das lojas
como se fossem pessoas amadas. Por que a empresa tornara-se a coisa mais importante de sua vida? Onde ficava Parker Reynolds nessa histria? Refletindo, ele concluiu
que sabia a resposta para todas aquelas perguntas. Philip Bancroft conseguira o que desejara. Dominara a filha de modo to avassalador, que a fizera perder o interesse
em homens quase que completamente. Ela ia casar-se com Parker Reynolds, mas no devia estar apaixonada por ele. Pelo seu jeito entusiasmado de falar do trabalho,
era fcil compreender que dedicara todo seu amor  Bancroft.
Compadecido, Matt fitou-a. Compadecido e triste, como na noite em que a conhecera e desejara com uma fria que anulara seu bom senso. No momento em que a vira,
no Glenmoor, perdera a cabea. Lembrou-se, com emoo, de como ela o apresentara quele bando de esnobes como se ele fosse um magnata de Indiana, risonha e cheia
de vida e, mais tarde, to inocente e ansiosa em seus braos. Ele quisera tir-la do pai opressor e lev-la embora para cobri-la de carinhos e proteo. Se continuassem
casados, agora ele teria imenso orgulho dela. De alguma maneira, estava orgulhoso. Se houvesse podido proteg-la
Percebendo o rumo que seus pensamentos haviam tomado, apertouos dentes, irritado. Meredith no precisava de que ningum cuidasse dela. Tornara-se auto-suficiente
e perigosa como uma aranha viva-negra. O nico ser humano com que ela se importava era o pai e, para satisfaz-lo, matara o prprio filho. Era vazia, mimada e m,
uma marionete feita para usar roupas de luxo e ocupar o lugar de anfitri numa elegante mesa de jantar. Era s para aquilo que ela servia, e fora sua beleza que
o fizera esquecer isso, naquela hora que estavam passando juntos. A culpa era daquele rosto perfeito, dos olhos cor de gua marinha, franjados por clios espessos,
da boca generosa, do som melodioso de sua voz, do riso contagiante.
O antagonismo que Matt sentia abrandou-se, quando ele refletiu que ela o magoara muito, mas numa poca em que era muito jovem e estava assustada. E que tudo
acontecera muitos anos atrs. No havia mais razo para raiva.
Girando o copo entre os dedos, encarou-a.
-Parece-me que voc se tornou uma executiva de sucesso. Se ainda fssemos casados, eu tentaria convenc-la a passar para minha organizao.
Sem querer, ele dera a Meredith a deixa de que ela precisava.
-Ento, pode comear a tentar, Matt. Ele apertou os olhos, desconfiado.
-O que quer dizer com isso?
Ela respirou fundo e inclinou-se para a frente, cruzando os braos na mesa.
-Tenho tenho algo para lhe dizer. Por favor, procure no ficar perturbado demais.
Ele deu de ombros, levando o copo de vinho  boca.
-No existe mais nenhum sentimento entre ns, Meredith, portanto nada do que possa dizer me perturbar.
-Ainda somos casados - ela anunciou. Ele franziu a testa.
-Nada me perturbaria, a no ser isso.
-Nosso divrcio no teve validade - ela continuou. - O advogado que cuidou de tudo era falso, e agora est sendo procurado pelas autoridades. Nenhum juiz assinou
os papis. Nenhum juiz sequer viu o processo. Ele pousou o copo na mesa com alarmante brusquido.
-Ou voc est mentindo, ou  estpida demais para saber cuidar-se. Onze anos atrs, induziu-me a dormir com voc e no se protegeu contra uma gravidez. Ficou
grvida e correu para mim, jogando a bomba em minhas mos. Agora est dizendo que no teve juzo suficientepara encarregar um advogado autntico de fazer nosso
divrcio, e que por isso ainda somos casados. Como pode ser chefe de diviso de uma cadeia de lojas de departamentos, sendo to burra? Cada palavra agressiva aoitou
o orgulho de Meredith como um chicote, mas a reao de Matt poderia ter sido muito pior, e ela aceitou os golpes como se os merecesse.
-Sei como se sente - murmurou em tom suave, quando ele se calou, talvez dominado pela raiva e pelo choque.
Matt queria acreditar que era uma grande mentira, que tudo no passava de uma louca tentativa de extorquir dinheiro dele, mas seus instintos diziam-lhe que ela
falava a verdade.
-Se eu estivesse em seu lugar, sentiria a mesma coisa - prosseguiu Meredith.
-Quando foi que descobriu?
-Algumas horas antes de eu telefonar para voc, querendo marcar o encontro. Soube  noite e liguei na manh seguinte.
-Supondo que esteja dizendo a verdade, o que deseja de mim?
-O divrcio. Rpido, discreto e descomplicado.
-No quer penso? - ele zombou. - Partilha de propriedades? Nada de nada?
-No.
-Bom, porque no conseguiria coisa alguma.
Zangada por aquele grosseiro lembrete de que ele era muito mais rico do que ela, Meredith olhou-o com desdm.
-Voc sempre pensou apenas em dinheiro! - acusou. - Eu no queria me casar com voc e no quero nada seu! Prefiro morrer a deixar que algum saiba que fomos
casados.
O maitre escolheu aquele momento totalmente imprprio para aproximar-se da mesa e perguntar se a refeio fora de seu agrado e se queriam mais alguma coisa.
-Queremos - respondeu Matt. - Um usque duplo com gelo para mim e outro martni para minha esposa.
Apesar de odiar cenas em pblico, Meredith no escondeu a raiva ao olhar para o maitre, a quem considerava um amigo.
-Eu lhe darei mil dlares para voc envenenar o drinque dele! declarou.
Curvando-se ligeiramente, John sorriu.
-Pois no, sra. Farrell - respondeu com grave cortesia, ento olhou para Matt que parecia prestes a explodir de fria. - Prefere arsnico, sr. Farrell, ou algo
mais extico?
-Nunca mais ouse me chamar assim, John! - Meredith advertiu severamente. - Farrell no  meu sobrenome.
O bom humor e o afeto desapareceram do rosto do maitre, que tornou a curvar-se.
-Peo desculpas por ter tomado tal liberdade, srta. Bancroft. Seu drinque ser cortesia da casa.
Meredith sentiu-se uma bruxa por desabafar a raiva em cima dele. Arrependida, observou-o afastar-se, ento encarou Matt.
-No chegaremos a nada, nos insultando - comentou. - No podemos agir como gente civilizada? Se pudermos, ser muito mais fcil lidar com o problema.
Ele sabia que ela estava certa e, aps um momento de hesitao moveu a cabea numa afirmativa.
-No custa tentar. Como voc acha que devemos lidar com o problema?
-Discretamente - ela respondeu e sorriu, aliviada. - E de modo rpido. A necessidade de discrio e rapidez talvez seja maior do que voc pensa.
-Entendo. Os jornais anunciaram que voc pretende casar-se em fevereiro - ele comentou, sentindo-se mais capaz de pensar com clareza.
-Esse  um dos motivos. Parker sabe de tudo o que houve entre ns. Foi ele quem descobriu que o homem que meu pai contratou no  advogado e que nosso divrcio
no  vlido. Mas h outra coisa, de suma importncia para mim, e que eu perderia, se o caso fosse descoberto.
-E o que ?
-Nosso divrcio tem de ser discreto, ou melhor, secreto, para que no haja nenhuma publicidade, nenhum escndalo. Meu pai vai tirar uma licena para tratar
da sade, e eu quero desesperadamente ser nomeada presidente interina. Preciso dessa oportunidade para provar  diretoria que posso ocupar a presidncia de modo
permanente, quando meu pai aposentar-se. Os diretores so muito conservadores, como j lhe contei, e fazem restries a meu respeito por me considerarem jovem demais
para ocupar o cargo e por eu ser mulher. A imprensa no tem ajudado nada, apresentando-me como uma frvola socialite. Se descobrir nossa situao far um carnaval.
Anunciei meu casamento com um banqueiro importante e idneo, e voc tem vrias candidatas a esposa. Mas somos casados, e bigamia potencial no vai me ajudar a chegar
 presidncia da Bancroft. Muito pelo contrrio, destruir minhas chances.
-No acho que seria algo to danoso quanto voc pensa.
-Claro que seria. Pense em como voc reagiu, quando soube. No mesmo instante, julgou-me uma imbecil, incapaz de cuidar de minha [prpria vida. O que me diz
de cuidar de uma cadeia de lojas? A diretoria tambm me acharia uma perfeita idiota, porque aqueles homens, assimcomo voc, no gostam de mim.
-Seu pai no poderia simplesmente deixar claro que deseja que voc o substitua?
-Poderia, mas no adiantaria muito. Uma pessoa s  eleita para a presidncia, se houver unanimidade de votos.
Matt no fez comentrios, porque um garom chegava com os drinques e outro aproximava-se com um telefone sem fio na mo.
-Para o senhor - o homem informou, apresentando-lhe o telefone. Sabendo que era Tom Anderson, Matt pediu licena a Meredith epegou o aparelho.
-Qual foi o resultado da audincia com a comisso de zoneamento de Southville? - perguntou sem nenhum prembulo.
-Nada bom, Matt. Nosso requerimento foi indeferido.
-Por que motivo, em nome de Deus, no aprovariam um rezoneanento que apenas beneficiaria a comunidade? - perguntou Matt, mais atnito do que zangado.
-Nosso contato informou que algum com muita influncia pediu  comisso para fazer isso.
-Sabe o nome?
-Um cara chamado Paulson  quem dirige a comisso. Ele disse a vrios membros, inclusive nosso contato, que o senador Davies consideraria o indeferimento como
um favor pessoal.
-Esquisito - resmungou Matt, tentando lembrar-se se doara dinheiro para a campanha de Davies, ou de seu oponente.
-Voc soube da festa de aniversrio que foi oferecida ao senador?
-perguntou Tom com uma risadinha sarcstica.
-No.
-De acordo com um colunista social, foi dada por um tal de sr. Philip Bancroft. H alguma ligao entre ele e a Meredith de quem falamos na semana passada?
Fria cega explodiu no peito de Matt. Ergueu os olhos, e a palidez que viu no rosto de Meredith s podia ter sido causada por sua meno a comisso de zoneamento
de Southville.
-H ligao, sim - respondeu a Tom, contendo a raiva. - Voc est no escritrio?
-Estou.
-Ento, fique a - Matt ordenou. - Estarei de volta s trs horas e discutiremos o assunto.
Devolveu o telefone ao garom, que afastou-se depressa, ento olhou para Meredith e viu-a passar o dedo numa ruga na toalha, com ar de culpa. Naquele momento,
ele a odiou com uma violncia quase incontrolvel. No fora para enterrar o machado de guerra, como alegara que ela quisera o encontro. O que aquela mulher desprezvel
queria era casar com seu rico banqueiro e ser presidente da Bancroft e, para isso, precisava de um divrcio rpido e discreto. Mas no teria nada disso. O que
ela e o pai iam ter era uma guerra, que perderiam, juntamente com tudo o que possuam.
Fez um gesto, pedindo a conta.
Meredith percebeu que ele estava pondo um ponto final na conversa, apesar de no terem chegado a nenhum acordo sobre o divrcio, e o medo que sentira ao ouvi-lo
falar da comisso de zoneamento transformou-se em pnico.
Matt tirou da carteira uma nota de cem dlares, que colocou sobre a conta apresentada num estojo de couro, sem nem mesmo verificar o total, e levantou-se.
-Vamos - disse em tom de comando.
Rodeou a mesa e pegou Meredith pelo brao, quase arrancando-a da cadeira.
-Mas ainda no combinamos nada! - ela protestou no caminho para a porta.
-Discutiremos no carro.
A chuva torrencial lavava o toldo vermelho, quando saram, e um porteiro levou-os at a limusine, protegendo-os com um enorme guarda-chuva.
Matt mandou o motorista ir para a Bancroft, antes de voltar sua ateno para Meredith.
-O que voc deseja fazer? - perguntou.
Seu tom de voz insinuava que ele estava disposto a colaborar, e ela foi invadida por uma onda de alvio. E de vergonha, pois sabia por que a comisso indeferira
seu pedido de rezoneamento, assim como sabia que ele no ia ser aceito no Glenmoor Country Club. Prometeu a si mesma que foraria o pai a sanar o mal que lhe causara.
-Quero um divrcio rpido e secreto, de preferncia em outro Estado, ou at em outro pas. E quero que o fato de termos sido casados permanea em segredo.
- Suponha que eu no concorde com o divrcio - ele disse, assustando-a. - Como se vingar de mim? Continuar a me rebaixar diante de todos, sempre que nos encontrarmos
nesses aborrecidos eventos sociais? Ou seu pai sabotar minha admisso em todos os clubes de Chicago?
Perplexa, Meredith percebeu que ele sabia que fora Philip quem o impedira de ser scio do Glenmoor.
- Sinto muito pelo que ele fez contra voc e
-Quero que seu precioso clube se dane! O amigo que me indicou fez isso de teimoso, porque eu disse a ele que no se incomodasse.
A despeito dessas palavras, Meredith no acreditou que ele no se importasse, pois no seria humano, se no ficasse profundamente embaraado por ter sido rejeitado
como scio. Desviou o olhar, envergonhada pela baixeza do pai. Descobrira que no queria que Matt fosse seu inimigo. Achara bom conversar com ele, como se o feio
passado nunca houvesse existido. Os dois levavam vidas diferentes, construdas com o prprio esforo. Ela estava orgulhosa dos sucessos que alcanara, e ele podia
orgulhar-se dos seus.
Olhou para as mos dele, msculas, bonitas, bem-tratadas, no mais calejadas como no tempo em que se conheceram. Precisou conter o impulso de tomar uma delas
entre as suas e dizer que sentia muito pelas coisas dolorosas que haviam feito um ao outro.
-Est tentando ver se ainda tenho graxa embaixo das unhas? Matt perguntou, zombeteiro.
-No - ela murmurou, fitando-o nos olhos. - Estava pensando que, se as coisas tivessem acabado de modo diferente, talvez pudssemos ser amigos.
-Amigos? - ele repetiu com ironia. - A ltima vez em que tentei ser seu amigo, perdi minha condio de solteiro e muito mais.
Perdeu muito mais do que pensa, ela refletiu amargamente. Perdeu a oportunidade de construir a fbrica em Southville, mas darei um jeitode remediar o mal que
lhe fizeram.
-Matt - chamou-o baixinho, desesperada para acabar com o antagonismo que ele demonstrava. - Quero esquecer o passado e
- Muita gentileza sua - ele escarneceu.
Meredith ficou tensa, tentada a dizer-lhe que ela fora a parte mais Prejudicada, a esposa abandonada, mas conteve-se.
-Quero esquecer o passado - repetiu. - Se voc concordar comum divrcio amigvel, farei tudo o que puder para que sua situaoaqui em Chicago melhore.
-E como espera fazer isso, princesa?
-No me chame de princesa! No estou sendo condescendente mas tentando ser justa.
-Peo desculpa por ter sido rude, Meredith. O que acha que pode fazer por mim?
-Para comear, posso fazer com que voc no seja mais tratado como um pria da sociedade. Sei que meu pai bloqueou sua admisso no Glenmoor, mas farei com que
ele mude isso.
-Esquea - Matt sugeriu calmamente, mas estava revoltado com tanta hipocrisia.
Gostara mais de Meredith, quando ela o insultara no baile da pera. Era repugnante v-la bajulando-o, s porque precisava de sua colaborao para o divrcio,
to desesperadamente, que ficaria arrasada, quando soubesse que no a teria.
-Quer um divrcio amigvel e discreto, porque deseja casar-se com seu banqueiro e ser presidente da Bancroft, certo?
-Certo.
-E a presidncia  muito, muito importante para voc?
-Quero ser presidente mais do que qualquer outra coisa que j quis na vida - ela declarou. - Voc vai colaborar, no vai?
Nesse momento, a limusine parou diante do prdio da Bancroft.
-No, no vou - ele respondeu com tanta polidez, que por um instante a mente de Meredith ficou em branco.
-No? - ela ecoou por fim, incrdula e chocada. - Mas o divrcio.
-Pode esquecer - ele retrucou, spero.
-Como posso esquecer? Tudo o que desejo depende disso!
-Que pena!
-Ento, conseguirei um divrcio a sua revelia - ela afirmou, furiosa
-Tente, e farei uma sujeira da qual voc nunca se recuperar. Em primeiro lugar, processarei seu banqueiro por alienao de afeto.
-Alienao de - Atnita demais para ter cautela, Meredith deu uma gargalhada sarcstica. - Ficou louco? Se fizer isso, vai ganhar a imagem de marido trado,
ser considerado um idiota.
-E voc ser considerada uma adltera - ele contraps.
-V para o inferno! - ela gritou, descontrolando-se. - Se ousar envergonhar Parker, juro que o matarei com minhas prprias mos! Voc no presta nem para amarrar
os sapatos dele! Parker  dez vezes mais homem do que voc! No se sente na obrigao de levar para a cama toda mulher que conhece! Tem princpios,  um cavalheiro,
masno posso esperar que voc entenda, porque embaixo dessas roupas caras, ainda  um operrio sujo, sado de uma cidadezinha suja, filho de um bbado sujo!
-E voc continua a mesma cadela m e presumida! Meredith ergueu a mo para esbofete-lo, mas Matt segurou-lhe o pulso com fora, fazendo-a gemer de dor.
-Se a comisso de zoneamento de Southville no revogar a deciso que tomou, no haver mais nem discusso sobre divrcio. Se a revogao acontecer, e eu concordar
em me divorciar, estabelecerei os termos, e seu pai e voc tero de aceit-los. - Puxou-a, at que seus rostos ficaram a poucos centmetros um do outro. - Voc entendeu,
Meredith? Voc e seu pai no tm poder sobre mim. Tente me contrariar e se arrepender de ter nascido.
Meredith puxou o brao, livrando-o.
-Voc  um monstro! - sibilou.
Pegou as luvas e a bolsa e olhou para o motorista, que abrira a porta de seu lado e estava assistindo  altercao com o interesse entusiasmado de um torcedor
num jogo de tnis.
Ernest correu a seu encontro, quando ela saiu do carro, parecendo pronto para defend-la de qualquer perigo.
-Viu aquele homem dentro da limusine? - Meredith perguntou-lhe.
-Vi, srta. Bancroft.
-timo. Se algum dia ele se aproximar da loja, chame a polcia!




#28

Matt abriu a porta da limusine e saiu, assim que Joe OHara encostou-a no meio-fio, diante do prdio da Haskell, agora Intercorp.
-Pea a Tom Anderson para subir - ele disse  srta. Stern, momentos depois, ao passar pela mesa dela. - E me arranje aspirina.
Cerca de dois minutos mais tarde, ela entrou na sala dele com um copo de gua e dois comprimidos.
-O sr. Anderson est subindo - avisou, observando-o tomar o analgsico. - Sua agenda est apertada, hoje. Espero que no esteja pegando gripe. O sr. Hursh,
dois vice-presidentes e uma poro de gente do departamento de digitao pegaram. Comea com uma dor de cabea.
Como Eleanor nunca mostrara o menor interesse em seu bem-estar, Matt sups que sua preocupao era que ele continuasse inteiro para dar conta do trabalho.
-No estou ficando gripado - declarou. - Nunca fico doente. Passou a mo na nuca, massageando os msculos doloridos. A dor de cabea, que no passara de um
incmodo pela manh, estava tornando-se intensa.
-Se for gripe, pode durar duas semanas e at virar pneumonia Foi isso o que aconteceu com a sra. Morris, da publicidade, e o sr Lathrup, do departamento de
pessoal. Os dois esto hospitalizados. Talvez o senhor devesse pensar em descansar, em vez de viajar para Indiana na semana que vem.
-No  gripe - Matt assegurou secamente. -  s uma dor de cabea comum.
Ela se empertigou ao ouvir seu tom rspido, girou nos calcanhares e marchou para a porta, colidindo com Tom Anderson, que acabara de entrar.
- Que bicho mordeu a srta. Stern? - o homem perguntou.
- Ela est com medo de precisar remanejar meus compromissos - Matt respondeu, impaciente. - Vamos falar da comisso de zoneamento.
- Ok. O que voc quer que eu faa?
-Por enquanto, pea um adiamento da demarcao.
- E depois?
Em vez de responder, Matt pegou o telefone e ligou para Peter Vanderwild
-Qual o valor das aes da Bancroft & Company? - perguntou. Ouviu a informao e ordenou: - Compre. Use a mesma tcnica que usamos para adquirir a Haskell e
seja discreto. - Desligou e olhou para Tom. - Investigue todos os diretores da Bancroft. Um deles pode estar querendo vender-se. Descubra quem, e pergunte seu preo.
-Voc est falando de suborno! - exclamou o amigo, perplexo, pois nunca, nos anos todos em que trabalhava com Matt, vira-o recorrer a um recurso to drstico.
-Estou falando em derrotar Philip Bancroft em seu prprio jogo. Ele est usando sua influncia para comprar votos dos membros da comisso de zoneamento, ns
usaremos dinheiro para comprar votos de seus diretores. Quando eu acabar com aquele miservel vingativo, ele estar recebendo ordens de mim, em suas prprias reunies
de diretoria.
-Tudo bem - Tom concordou depois de um momento de hesitao.
-Mas teremos de fazer isso de modo muito discreto.
-Mais uma coisa - Matt comeou, entrando na sala de reunies adjacente ao escritrio. Apertou um boto na parede, e o painel espelhado que escondia o bar deslizou
para um lado. Verteu usque num copo e tomou um gole generoso antes de continuar: - Quero saber tudo sobre o funcionamento da Bancroft. Trabalhe nisso com Vanderwild.
Vocs tm dois dias para me apresentar um relatrio sobre as finanas e os executivos da empresa. O mais importante  descobrir seu ponto fraco.
-Imagino que est pretendendo fundi-la a ns. Matt tomou outro gole.
-Verei isso mais tarde. O que quero agora  uma quantidade suficiente de aes para assumir o controle.
- E quanto a Southville? Investimos uma fortuna naquele terreno.
Matt torceu os lbios num sorriso onde no havia alegria.
-Telefonei do carro para Pearson e Levinson e expus a situao informou, referindo-se a seus advogados em Chicago. - Vamos conseguir o rezoneamento, e a Bancroffs
vai nos dar um belo lucro.
-Como?
-Eles querem desesperadamente aquele terreno de Houston.
-E da?
-Da, que o terreno agora  nosso.
-Entendo. - Tom deu dois passos na direo da porta, parou e virou-se para trs. - Como vou estar na linha de frente com voc nessa batalha com os Bancroft,
gostaria de pelo menos saber como o conflito comeou.
Se qualquer outro de seus executivos fizesse esse pedido, Matt o poria em seu lugar rispidamente. Confiana era um luxo que os homens com situao financeira
igual a sua no podiam ter. Ele, como tantos outros que haviam chegado ao topo, aprendera que era arriscado, at mesmo perigoso, confiar demais em algum. Era fato
bem comum amigos confiveis usarem informaes para obter favores em outros lugares, e s vezes faziam isso simplesmente para provar que mereciam a confiana de
homens famosos por seu sucesso. Entre todas as pessoas que conhecia, Matt confiava apenas em quatro: o pai, a irm, Tom Anderson e Joe OHara. Tom estava com ele
desde o comeo, quando a audcia era grande, mas o capital, pequeno. Tom e Joe haviam provado sua lealdade e tinham a seu favor algo que levara Matt, instintivamente,
a ach-los dignos de sua confiana: nenhum dos dois sara das classes privilegiadas, nem frequentara elegantes escolas particulares.
-Onze anos atrs, fiz uma coisa de que Philip Bancroft no gostou
-Matt explicou, aps alguma relutncia.
-Nossa! Deve ter sido algo muito ruim, para o velho guardar rancor por tanto tempo. O que voc fez?
-Ousei invadir seu mundinho de elite.
-Como?
Matt tomou mais um pouco do usque, como se quisesse lavara amargura das lembranas.
-Casei-me com a filha dele.
-Voc casou com a filha dele? Com Meredith Bancroft?
-Ela mesma - Matt confirmou. Tom ficou olhando-o, estupefato, enquanto ele prosseguia: - Existe mais uma coisa que voc tambm deve saber. Hoje, ela me contou
que o divrcio, que pensara ter conseguido h onze anos, no  vlido. O advogado era falso e no apresentou o processo a um juiz. Pedi para Levinson verificar isso,
mas tenho a intuio de que ela no mentiu.
Tom ficou em silncio por alguns instantes, sua mente gil obviamente analisando a situao.
-E agora ela quer uma fortuna para acertar as coisas, certo? conjeturou.
-Quer o divrcio - Matt corrigiu-o. - Meredith e o pai me arruinariam, se pudessem, mas ela alega que no deseja nada de mim.
Tom deu uma risada sarcstica.
- Quando acabarmos com eles, vo lamentar ter comeado essa guerra - comentou, caminhando para a porta.
Ficando sozinho, Matt foi at uma das janelas e olhou para fora, observando o cu nublado e triste como sua alma. Era possvel que Tom estivesse certo sobre
o desfecho da histria, mas a sensao de triunfo que Matt experimentara, pensando a mesma coisa, j se dissolvera. Ele se sentia vazio. Olhando para a chuva, recordou
o modo como Meredith insultara-o na limusine: Voc no presta nem para amarrar os sapatos de Parker! Ele  dez vezes mais homem do que voc! No se sente na obrigao
de levar para a cama toda mulher que conhece! Tem princpios,  um cavalheiro, mas no posso esperar que voc entenda, porque embaixo dessas roupas caras, ainda
 um operrio sujo, sado de uma cidadezinha suja, filho de um bbado sujo!
Tentou expulsar essas palavras da mente, mas elas teimaram em ficar, mostrando-lhe como fora estpido, como fizera papel de idiota por causa de Meredith. Mesmo
acreditando que estavam divorciados, durante anos ele no conseguira tir-la do corao. Trabalhara exaustivamente para construir seu imprio, impulsionado pela
ideia insensata de que um dia poderia impression-la com seu sucesso.
Torcendo os lbios num sorriso, zombando de si mesmo, refletiu que a impressionara no encontro daquela manh, provando sua prosperidade. O terno que estava usando
custara mais do que a velha caminhonete que possura no tempo em que a conhecera. Ele a levara a um restaurante carssimo, numa limusine dirigida por motorista particular
e, ainda assim, fora chamado de operrio sujo. Tinha orgulho de sua origem, mas as palavras de Meredith haviam feito com que se sentisse um monstro pegajoso que
se levantara do fundo lamacento de um pntano e trocara as escamas por pele.
Eram quase sete horas, quando Matt deixou o edifcio. Joe abriu-lhea porta da limusine, e ele entrou, ainda com a cabea doendo, sentindo-se horrivelmente cansado.
Reclinou-se no encosto do banco, tentando ignorar o perfume de Meredith, ainda impregnado no estofamento. Lembrou-se do jeito que ela sorrira para ele, durante o
almoo, falando em seu trabalho na loja. Como podia ser to hipcrita? Tentara agrad-lo para obter um divrcio amigvel e discreto, embora estivesse ajudando
opai, que tramava arruin-lo. Ela teria o divrcio, mas no ainda.
O carro virou bruscamente para a direita, provocando um violento protesto de buzinas. Matt ergueu a cabea e viu Joe observando-o pelo espelho retrovisor.
-J pensou em olhar para os lados e para a frente, quando dirige-perguntou. - A viagem no seria uma aventura, mas certamente seria mais repousante.
-Fico hipnotizado, se olhar demais para carros em movimento Joe defendeu-se, bem-humorado, ento abordou o assunto que devia estar perturbando-o desde que assistira
 discusso entre Matt e Meredith: - Aquela era sua mulher, no era? Isto , vocs estavam falando em divrcio, de modo que acho que so casados.
-Somos.
-Ela  bem nervosinha, no? - O motorista riu, ignorando o olhar irritado de Matt. - E no gosta muito de voc, certo?
-Certo.
-O que ela tem contra operrios?
-Detesta sujeira.
-Vai precisar de mim, quando for para a fazenda, na semana que vem? - Joe perguntou, quando ficou bvio que Matt no lhe daria mais nenhuma informao sobre
Meredith. - Se no, seu pai e eu cairemos numa orgia de jogo de damas.
-No vou precisar de voc. Fique com ele.
Fazia mais de dez anos que Patrick deixara de beber, mas vendera casa e o resto das terras abalara-o emocionalmente, apesar de essa deciso ter sido sua. Se
ficasse sozinho, poderia querer afogar as mgoas no lcool, principalmente sabendo que Matt fora  fazenda para buscar seus pertences e tudo o que representasse
uma recordao da famlia, algo que ele no tivera coragem de fazer.
-Voc vai sair esta noite? - Joe quis saber.
-Vou, mas com o Rolls Royce. Eu mesmo posso dirigir. Dou-lhe a noite de folga - respondeu Matt, pensando no encontro que teria com Alicia.
-Se precisar de mim
-Diabos, homem! Eu disse que vou sozinho!
-Matt?
-O qu?
-Sua mulher  um estouro - observou Joe com uma risadinha.-Pena que deixe voc to rabugento.
Matt estendeu a mo e fechou a janela de comunicao entre os dois.

***

Com o brao de Parker carinhosamente rodeando-lhe os ombros, Meredith olhava para o fogo crepitando em sua lareira, diante da qual estavam sentados, pensando
no infeliz encontro com Matt. Ele fora gentil no comeo, arreliando-a por sua indeciso na escolha do drinque, ouvindo-a falar de seu trabalho.
Fora o telefonema a respeito da comisso de zoneamento de Southville que estragara tudo. Mas havia algumas coisas que ela no entendia e que a deixavam inquieta.
Mesmo antes do telefonema, notara que Matt ainda guardava um certo rancor pelo que acontecera no passado. Apesar de tudo o que fizera, onze anos atrs, ele agira
como se ela o houvesse rejeitado e magoado profundamente, e no o contrrio. Chamara-a de cadela m e presumida!
Irritada, Meredith afastou esses pensamentos ao perceber que estava procurando justificativas para as aes de Matt, tentando desculp-lo. Na primeira noite
em que o vira, no Glenmoor, ficara to deslumbrada por sua fora e seu magnetismo, que o transformara num cavaleiro de brilhante armadura. Guardando as devidas propores,
voltara a fazer a mesma coisa durante o encontro daquele dia, s porque seus sentidos haviam reagido de modo quase igual ao de onze anos atrs.
Uma tora em brasa caiu da grelha num chuveiro de centelhas douradas, e Parker olhou para o relgio.
-Sete horas. Acho bom eu ir embora.
Suspirando, Meredith levantou-se e acompanhou-o at a porta, grata por sua compreenso. O pai ficara hospitalizado a tarde toda, para passar por alguns exames,
mas insistira em ir ao apartamento dela  noite, para saber com detalhes o resultado de sua conversa com Matt. O que ia ouvir certamente o deixaria furioso, e, apesar
de estar acostumada a suas exploses, Meredith ficaria embaraada se ele desse vazo  ira na frente de Parker.
-Preciso fazer com que ele reverta a situao que criou com a comisso de zoneamento, ou no haver chance de Matt concordar com um divrcio amigvel - comentou.
-Voc vai conseguir - o noivo animou-a, abraando-a. - Seu pai no tem muita escolha e perceber isso.
Ela ia fechar a porta, quando ouviu Parker cumprimentar Philip, no corredor. Respirou fundo, preparando-se para o confronto.
-O que ficou decidido com Farrell? - o pai perguntou, entrando no apartamento.
-Qual foi o resultado dos exames? O que o mdico disse sobre seu corao?
-Disse que ainda continua dentro do peito - Philip respondeu com sarcasmo, tirando o sobretudo e jogando-o numa cadeira.
Odiava mdicos em geral e o seu em particular, porque o dr. Shaeffer no se deixava enganar, intimidar ou subornar, negando-se a declarar que seu corao era
forte e a dar-lhe um atestado de boa sade.
-No brinque, pai.
-No importa o que Shaeffer disse. Quero saber qual foi a reao de Farrell - exigiu Philip, indo at o bar.
Serviu-se de um copo de xerez e tirou um charuto do bolso.
-Est tentando suicidar-se? - perguntou Meredith, atnita. - No beba isso e largue o charuto!
-Voc est causando mais danos ao meu corao, no respondendo as minhas perguntas, do que umas gotas de xerez e algumas baforadas. Lembre-se de que sou seu
pai, no seu filho.
Meredith observou-o, exasperada com sua teimosia. Achou-o com melhor aparncia, sinal de que os resultados dos exames haviam sido animadores. E ele no se arriscaria
a beber e fumar, se no fosse assim.
-Est certo, vou contar tudo - rendeu-se.
Era timo que ele estivesse mais forte, porque, de repente, ela se sentiu incapaz de amenizar o que tinha para dizer. O pai queria um relato fiel do que acontecera,
e foi o que ela fez. De modo estranho, quando acabou, viu que Philip parecia quase aliviado.
-Isso foi tudo, Meredith? Farrell no disse nada meio - Ele olhou para o charuto, como se estivesse tentando encontrar a palavra certa. - Meio esquisito?
-Nada alm do que lhe contei. Agora, gostaria que me desse algumas respostas, pai. Por que impediu Matt de ser scio do Glemour? Por que fez a comisso rejeitar
seu pedido de rezoneamento? Depois de tantos anos, ainda sente desejo de vingar-se? Por qu?
-No o quero no clube, para que voc no seja obrigada a v-lo quando vai l. Pedi para a comisso negar o rezoneamento, porque desejo que Farrell suma de Chicago,
assim no nos encontraremos com ele em todos os lugares. Mas nada disso importa. Fiz, e est feito.
-Pois ter de desfazer. Philip ignorou o comentrio.
-No quero que voc volte a falar com ele, Meredith. Permiti isso, hoje, porque Parker me fez ver que no havia outro jeito. Achei queseu noivo a acompanharia,
mas estou comeando a acreditar que  um fraco. E no gosto de homens fracos.
Meredith conteve uma risada.
-Em primeiro lugar, Parker no  fraco. Ele sabia que sua presena apenas complicaria uma situao j bastante difcil. Em segundo, se um dia o senhor encontrasse
um homem com a sua fora, o odiaria.
Ele erguera o sobretudo da cadeira, mas tornou a solt-lo e olhou para ela por cima do ombro.
-Por que est dizendo isso? - indagou, carrancudo.
-Porque o nico homem que conheci, que pode ser comparado ao senhor, em coragem, energia e fora de vontade,  Matthew Farrell. Em certos pontos, vocs dois
so muito parecidos. Tm a mesma perspiccia, sentem-se invulnerveis e no medem esforos para conseguir o que desejam. No princpio, o senhor odiou-o, porque o
considerava um joo-ningum e porque ele ousou dormir comigo. Mas odiou-o ainda mais por no ser capaz de intimid-lo. Agora, descobriu que ele  o nico que j
encontrou to indomvel quanto o senhor, e por isso o menospreza.
-Voc no gosta de mim, no ? - Philip perguntou, parecendo indiferente ao que ela dissera.
Meredith ficou pensativa. Ele lhe dera a vida, depois tentara controlar todos os seus passos, dia aps dia, incansavelmente. Ningum poderia acus-lo de no
se importar com ela, pois comportara-se como um gavio, protegendo-a de tudo, desde a infncia. Fora opressor e desmancha-prazeres, mas fizera tudo por amor, um
amor asfixiante, mas sincero.
-Eu amo o senhor. Mas no gosto de muitas coisas que faz. Do mesmo modo que Matt, magoa as pessoas e no se arrepende.
-Fao o que acho que deve ser feito - ele replicou, pegando o sobretudo e vestindo-o.
- O que precisa fazer agora  remediar o mal que causou a Matt,tanto no caso do Glenmoor, como no da comisso de zoneamento de Outhville - ela lembrou-o, levantando-se
do sof para lev-lo  porta.
-Assim que fizer isso, telefonarei a ele e pedirei que concorde com o divrcio.
E acha que Farrell vai concordar? - Philip zombou.
-Acho. Est sedento de vingana, agora, mas no  louco e novai querer ficar casado, complicando o resto de sua vida, s para vingar-sedo senhor e de mim.
Promete que amanh de manh ligar para a comisso, pedindo que atendam ao pedido de Matt?
-Vou pensar no assunto.
-Isso no basta.
- o mximo que estou disposto a fazer.
Meredith decidiu que o pai estava blefando, e beijou-o no rosto, com alvio. Quando ele foi embora, ela voltou a sentar-se no sof. Olhando para as brasas mortias
na lareira, lembrou que Parker dissera que a diretoria da Bancroft se reuniria na manh seguinte para eleger o presidente interino. Devia estar excitada ou ansiosa,
mas a nica coisa que sentia era cansao.
Viu o controle remoto do televisor sobre a mesinha e pegou-o, lembrando-se subitamente da entrevista de Brbara Walters com Matt, quando haviam falado do sucesso
dele e das mulheres famosas em sua vida. No, ela nunca poderia ser feliz com um homem como Matthew Farrell. O marido certo para ela era Parker, porque os dois compreendiam-se,
vinham da mesma classe social, onde as pessoas faziam donativos generosos a hospitais e encontravam tempo para dedicar-se a causas beneficentes e cvicas. Pessoas
que no falavam da prpria riqueza na televiso, muito menos de seus casos amorosos.
Por mais dinheiro que Matt tivesse, por mais mulheres lindas que conquistasse, nunca deixaria de ser o que sempre fora, um homem rancoroso, implacvel, ganancioso,
arrogante, inescrupuloso Meredith apertou uma tecla do controle remoto e ficou olhando para a tela, sem nada ver, pois ocorreu-lhe que Matt, no encontro daquele
dia, dera a impresso de pensar o mesmo a seu respeito. Talvez tivesse o direito, pois ela o insultara, chamando-o de operrio sujo, xingara o pai dele e agira de
uma forma que a fazia sentir-se envergonhada. Descontrolara-se e dissera uma poro de asneiras. Na verdade, tinha admirao por pessoas com nimo e fsico fortes
o bastante para fazerem trabalhos pesados. Requeria muita coragem, continuar num emprego que no oferecia nenhum desafio mental, apenas um salrio. Atacara as origens
de Matt, porque esse era seu nico ponto fraco.
O telefone tocou, tirando-a dos pensamentos, e ela foi atender.
-Meredith, como foi o encontro com Farrell? - perguntou Lisa em tom preocupado. - Voc disse que me ligaria para contar.
-Eu sei, e liguei, mas voc no estava no departamento.
-Sa por alguns minutos. Ento, o que aconteceu?
-No fui bem-sucedida - respondeu Meredith, sem vontade de repetir tudo pela terceira vez. - Prefiro contar os detalhes amanh.
-Claro, eu entendo. Podemos jantar juntas, e voc me contar tudo. Est bem, assim?
- Est, mas  minha vez de cozinhar.
-No! - Lisa gritou, rindo. - Fiquei com indigesto, na ltima vez em que voc fez o jantar. Quer que eu pegue comida chinesa, no caminho?
-timo, mas fao questo de pagar.
-  justo. Devo levar mais alguma coisa?
-Se pretende ouvir o que aconteceu no meu encontro com Matt, acho melhor trazer uma caixa de lenos de papel - Meredith forou-se a brincar.
- Foi to ruim assim?
- Foi.
-Nesse caso, vou levar uma arma. Depois de jantarmos, podemos ir  caa de Matt.
-Que tentao! - Meredith exclamou, obrigada a sorrir.



#29

Na tarde seguinte, por volta de uma e meia, Meredith deixou o departamento de publicidade e dirigiu-se ao prprio escritrio. Desde de manh, aonde quer que
fosse, era seguida por olhares especuladores. E ela sabia o motivo.
Apertou o boto do elevador com fora desnecessria, pensando no que Sally Mansfield escrevera em sua coluna na Tribune daquele dia:


Os amigos de Meredith Bancroft, que h duas semanas atrs ficaram atnitos ao v-la esnobar Matthew Farrell, o solteiro mais cobiado de Chicago, no baile da
pera, no imaginavam que outra surpresa aguardava-os. Ontem, viram o casal almoando numa das mesas mais resguardadas do Landrys! Nosso Matthew , com certeza,
um homem muito ocupado, pois,  noite, acompanhou a linda Alicia Avery  estreia de A Megera Domada, no Little Theater.

No escritrio, Meredith abriu uma das gavetas da escrivaninha com um puxo irritado, perplexa com a mesquinha vingana da colunista que era amiga ntima da ex-esposa
de Parker. Escrevera sobre seu almoo com Matt simplesmente para fazer Parker parecer um tolo, prestes a ser chutado pela noiva.
-Meredith - Phyllis chamou-a com voz tensa. - A secretria de seu pai acabou de telefonar e disse que ele quer v-la imediatamente.
Era muito raro Philip cham-la a seu escritrio, porque marcava hora para falar com os executivos a respeito de suas atividades, e no fazia exceo para Meredith.
As duas mulheres olharam-se em silncio por alguns segundos, certamente pensando a mesma coisa: a convocao inesperada devia ter algo a ver com a nomeao do
presidente interino.
Meredith percebeu que no se enganara, quando chegou  sala de recepo do escritrio do pai e viu todos os outros vice-presidentes ali reunidos, inclusive Allen
Stanley, que sara de frias na semana anterior.
- O sr. Bancroft disse que era para a senhorita entrar assim que chegasse - a secretria informou-a.
Com o corao disparado, Meredith caminhou at a porta da sala do pai. Como seria a primeira a saber da deciso da diretoria, era lgico que a escolhida fora
ela, que finalmente ocuparia o lugar que era seu por direito. Para ser mais correta, teria a oportunidade de provar sua eficincia nos seis meses seguintes.
Achando-se uma tola por estar  beira das lgrimas, bateu na porta, abriu-a e entrou. A cadeira atrs daquela escrivaninha nunca fora ocupada por algum que
no fosse um Bancroft, e o pai no poderia ignorar uma to grandiosa tradio.
Philip olhava para fora por uma das janelas.
-Bom dia - ela cumprimentou em tom alegre.
-Bom dia, Meredith - ele respondeu, virando-se com uma expresso extraordinariamente amigvel.
Ela se aproximou da mesa, quando ele se sentou. Apesar de haver um conjunto de sofs na sala, ele jamais os ocupava, ou convidava algum a faz-lo. Preferia
acomodar-se na cadeira giratria de espaldar reto, mantendo distncia da pessoa com quem falava. Meredith no sabia se fazia isso inconscientemente, ou de modo deliberado,
para intimidar quem estivesse conversando com ele. Fosse como fosse, isso era enervante.
Ela notou que ele se sentara antes de v-la acomodada, o que era falta de educao. Embora Philip se levantasse quando qualquer mulher entrava em sua sala, nunca
tinha essa gentileza com Meredith. Permanecia sentado, mesmo que outros homens estivessem ali e se erguessem ao v-la entrar. Meredith sabia que era uma forma de
critic-la por insistir em fazer parte do corpo de executivos, sendo mulher. Em qualquer outro lugar, ele a tratava com toda a cortesia exigida pelas boas maneiras
e, por tudo isso, ela passara a v-lo como duas pessoas diferentes, embora s vezes ficasse desconcertada. Se ia visit-lo,  noite, ou se saam juntos, sempre se
despedia dele com um beijo carinhoso, mas na manh seguinte, quando o encontrava na Bancroft, recebiacomo cumprimento apenas um breve gesto de cabea.
- Gostei da roupa que est usando - ele declarou, olhando parao vestido de lzinha bege.
-Obrigada.
-Detesto v-la com aqueles conjuntos que mais parecem ternos que voc usa s vezes. Mulheres devem usar vestidos.
Meredith, que continuava de p, sentou-se numa das cadeiras diante da escrivaninha.
Philip inclinou-se para a frente, cruzando os braos no tampo da escrivaninha de mogno.

-Chamei todos os executivos, porque tenho algo a anunciar - preludiou. - Mas queria falar com voc em primeiro lugar. A diretoria escolheu o presidente interino.
- Fez uma pausa, deixando Meredith ainda mais ansiosa, antes de prosseguir: - Escolheram Allen Stanley.
-O qu?! - ela exclamou, sentindo-se abalada, irada e incrdula, tudo ao mesmo tempo.
-Eu disse que escolheram Allen Stanley. E no vou mentir para voc. Fizeram isso sob minha recomendao.
-Allen tem estado  beira de um colapso nervoso, desde que a esposa morreu! - argumentou Meredith em tom furioso, levantando-se. - Alm disso, no tem conhecimento
e experincia suficientes para dirigir
-Ele  responsvel pelas finanas da Bancroft h vinte anos o pai interrompeu-a bruscamente.
Meredith, porm, no se intimidou. Estava fora de si de raiva, no s por ter perdido a oportunidade pela qual tanto esperara, como tambm por saber que Allen
Stanley no fora uma boa escolha.
-Allen  apenas contador! Foi um erro nome-lo, e o senhor sabe disso! Teria sido melhor escolher qualquer outro! Ah - Ela parou de falar por um momento, atingida
por sbito pensamento. - J sei por que o indicou! Porque ele no ser capaz de dirigir a Bancroft to bem ou melhor que o senhor! Est pondo nossa empresa em perigo
porque seu ego
-No vou tolerar que fale assim comigo!
-No tente exercer sua autoridade paterna! - Meredith avisou-o furiosa. - O senhor me disse mais de mil vezes, que aqui dentro nosso parentesco no existe.
No sou mais criana e no estou falando como sua filha. Sou vice-presidente e uma das maiores acionistas!
-Se qualquer outro vice-presidente ousasse falar assim comigo, o despediria no ato.
-Ento, me despea! - ela retrucou. - No, no vou lhe dar o prazer. Peo demisso. Dentro de quinze minutos, receber minha carta
-Sente-se! - Philip ordenou. - J que voc prefere protestar en momento to inoportuno, vamos pr as cartas na mesa.
-Seria timo, para variar! - Meredith replicou, sentando-se.
-Na verdade, no est zangada porque eu escolhi Allen, mas porque no escolhi voc - ele acusou com sarcasmo contundente.
- Pelas duas coisas - ela esclareceu.
-Que seja, mas tive boas razes para no indicar voc, Meredith. Em primeiro lugar, no tem idade suficiente, nem bastante experincia para tomar as rdeas
da empresa.
- mesmo? E como chegou a essa concluso? O senhor s tinha um ano a mais do que tenho agora, quando vov entregou-lhe a presidncia.
- diferente.
-Claro que  - ela concordou, irnica. - Sua folha de servio, na loja, era muito menos lisonjeira do que a minha. A nica coisa que fazia era chegar na hora,
todos os dias. - Viu o pai levar a mo ao peito, como se estivesse sentindo dor, e isso deixou-a ainda mais exasperada. - No comece a fingir que vai ter um ataque,
porque no vai me impedir de dizer tudo o que j deveria ter dito, muitos anos atrs. O senhor  um discriminador! No me d uma chance apenas porque sou mulher!
-No est to errada assim - ele resmungou, obviamente reprimindo a raiva. - L fora, h cinco homens que dedicaram dcadas de sua vida  loja. No alguns anos,
mas dcadas.
-Quantos investiram aqui quatro milhes de dlares, do prprio dinheiro? E o senhor est mentindo. Dois deles comearam a trabalhar no mesmo ano que eu e, devo
acrescentar, com salrios mais altos.
Philip cruzou as mos na mesa.
-Esta discusso  intil.
-Eu sei que  - Meredith respondeu com amargura, erguendo-se.
-Meu pedido de demisso ainda est de p. - E aonde pensa que vai trabalhar, se sair da Bancroft?
- Em qualquer grande empresa varejista do pas - ela respondeu, furiosa demais para imaginar a angstia que sentiria por tal ato de traio  loja, que era sua
vida. - A Marshall Fields me contratariaem dois minutos, assim como a May Company ou a Neimans
- Est blefando - Philip declarou.
-Espere e ver. - Apesar de aparentar firmeza, ela j se sentia doente com a ideia de ir trabalhar para qualquer concorrente da Bancroft, e esgotada pela convulso
de emoes. - Vou lhe fazer uma pergunta.
- Poderia ser completamente honesto comigo, pelo menos uma vez? Philip permaneceu em silncio.
- Nunca pretendeu passar a presidncia para mim, no ? Nem agora, nem no futuro, por mais que eu trabalhasse. Estou errada?
-No.
No fundo, ela sempre soubera disso, mas ouvir a confirmao arrasou-a.
-Porque sou mulher.
-Um dos motivos. Aqueles homens l fora no trabalhariam sob as ordens de uma mulher.
-Idiotice pura! Alm de uma coisa estpida,  contra a lei. Mas o senhor sabe que a verdade no  essa. H muitos homens, nos departamentos sob minha direo,
e trabalhamos bem, juntos.  seu preconceito, seu egosmo, que o levam a achar que no posso dirigir nossa empresa.
-Pode ser. Talvez seja por isso que me recuso a ajud-la e a incentivar essa sua teimosia de querer construir a vida ao redor da Bancroft. Se quer saber, farei
tudo o que puder para evitar que faa carreira, aqui, ou em qualquer outro lugar. Esses so meus motivos para no entregar-lhe a presidncia, Meredith. E, quer voc
os aprove, ou no, eu aprovo. Sei o que quero. Quanto a voc, nem sabe por que est to determinada a ser presidente.
-No sei? Quem sabe, ento? O senhor?
-Exatamente.
-Por que acha que quero a presidncia?
-Onze anos atrs, voc se casou com um miservel que estava atrs de seu dinheiro e deixou-a grvida. Perdeu o beb e descobriu que nunca mais poderia ter filhos.
De repente, comeou a sentir verdadeira paixo pela Bancroft & Company. Voltou seus instintos maternais para a loja.
Meredith encarou-o com um n de emoo na garganta.
-Amo a Bancroft desde que era pequena. Amei antes de conhecer Matt e depois que ele saiu de minha vida. Posso dizer-lhe quando foi que decidi trabalhar aqui
e ser presidente, um dia. Eu tinha seis anos, e o senhor me trouxe, deixando-me  espera, enquanto se reunia com a diretoria. - Respirou fundo, tentando controlar
o tremor da voz. - Disse que eu podia me sentar em sua cadeira. Eu me sentei, rabisquei um papel com sua caneta-tinteiro, chamei a secretria pelo interfone, ela
entrou e deixou que eu lhe ditasse uma carta para o senhor. A carta dizia
Foi obrigada a fazer uma pausa, para conter as lgrimas, decidida a no permitir que o pai a visse chorar. Viu-o empalidecer, compreendendo que ele se lembrava
daquela carta to bem quanto ela.
-Querido papai, vou estudar bastante, para que fique to orgulhosode mim, que um dia me deixe trabalhar aqui, como o senhor e o vov. A, vou poder sentar
de novo na sua cadeira, no vou? - recitou. Calou-se por um instante, suspirando.
-O senhor leu a carta e disse: Naturalmente que vai, Meredith. Cumpri minha palavra, mas sua promessa caiu no vazio. Todas as outras meninas brincavam de
casinha, enquanto eu brincava de dona de uma loja de departamentos!
Erguendo o queixo orgulhosamente, fez uma breve pausa, olhando para Philip com desdm.
-Eu achava que o senhor me amava, apesar de desejar que eu fosse menino. Nunca percebi que pouco se importava com o que eu queria, s por eu ser menina. Ensinou-me,
minha vida toda, que eu devia desprezar minha me porque ela nos deixou, mas agora me pergunto se o senhor no a afastou, exatamente como tem me afastado. Meu pedido
de demisso estar em sua mesa amanh.
Viu o ar de zombaria no rosto de Philip, causado pelo fato de antes ela ter dito que enviaria o pedido em quinze minutos e depois adiado para o dia seguinte.
-Tenho alguns compromissos marcados e no terei tempo de escrever a carta - explicou em tom glido, virando-se para a porta lateral que levava  sala de conferncias,
que pretendia atravessar para chegar ao corredor.
-Se no estiver presente, quando eu anunciar o nome do presidente interino, os homens vo pensar que saiu daqui chorando porque no foi a escolhida - o pai
avisou.
Meredith parou e voltou-se para lanar-lhe um olhar carregado de desprezo.
-No se faa de tolo, pai. Embora me trate como uma pedra em seu caminho, diante de todos, ningum sabe o quanto o senhor  mau. Todos pensaro que j me contou
h dias quem indicaria para presidente interino.
-Vo pensar diferente, quando voc entregar seu pedido de demisso - ele observou.
-Estaro muito ocupados, ajudando o coitado do Allen a dirigir a empresa, para prestar ateno nessas coisas - replicou Meredith, voltando a andar.
-Eu mesmo vou controlar Allen Stanley.
Ela parou com a mo na maaneta e olhou por cima do ombro. Apesar de sentir-se vazia por dentro, conseguiu rir.
-Eu sei. Embora acreditasse que seria a escolhida, nunca achei que fosse dirigir a empresa sozinha, sem sua interferncia, mesmo o senhor estando de licena.
Tinha medo que eu tentasse?
Sem esperar resposta, abriu a porta e passou para a sala de reunies
O desapontamento de Meredith por ter perdido a chance de ocupar temporariamente a presidncia foi eclipsado pela dor que ela sentiu ao descobrir que significava
muito pouco para o pai. Durante anos, dissera a si mesma que ele a amava, mas que no sabia demonstrar. Enganara-se
Enquanto esperava o elevador, sentia-se como se seu mundo houvesse virado do avesso e de cabea para baixo. A porta abriu-se e ela entrou. Olhou para os nmeros
iluminados no painel, sem saber qual apertar, porque no sabia para onde queria ir. Ou mesmo quem era. A vida toda fora a filha de Philip Bancroft. Esse era seu
passado. Seu futuro sempre estivera ali, na loja. De repente, descobria que o passado fora uma mentira, e o futuro um vazio.
Vozes masculinas no corredor tiraram-na do torpor, e ela apertou o boto do mezanino, rezando para que a porta do elevador fechasse antes que os homens a vissem.
O mezanino formava uma galeria sobre o andar trreo da loja, e era o lugar preferido de Meredith. Segurando-se na grade de metal dourado, olhou para baixo, onde
os corredores entre os balces estavam cheios de gente que faziam suas compras de Natal. Sentiu-se isolada, totalmente sozinha, mesmo olhando a multido. Percebeu
que o sistema de som espalhava as notas de White Christmas, que nos balces de lingerie, mulheres examinavam camisolas e pijaminhas, que a sra. Hollings, gerente
daquele setor, acenava para ela, um gesto que fingiu no ver, porque no conseguiria retribuir nem mesmo com um breve sorriso.
Virou-se e viu que no departamento de roupas masculinas informais o movimento era grande, e que os roupes de banho estavam atraindo muito interesse. Ouvia a
msica, as vozes, o rudo das caixas registradoras computadorizadas, mas no sentia nada. O sistema de comunicao da loja estava emitindo um sinal. Duas badaladas
suaves, pausa outra badalada. Era seu cdigo, mas ela no se importou.
-Voc trabalha aqui? - uma cliente perguntou-lhe de longe Parecendo impaciente. Obrigando-se a reagir, Meredith andou at ela. A mulher jogou um penhoar de
seda nos braos.
-Como no est usando casaco de rua, imagino que trabalhe aqui-explicou.
-Trabalho - respondeu Meredith.
-Pode me dizer onde esto os penhoares em liquidao? Li num anncio que custariam oitenta e nove dlares, mas na etiqueta desse a o preo  de quatrocentos
e vinte e cinco!
-Os de oitenta e nove esto sendo vendidos no quinto andar Meredith instruiu.
O sinal com seu cdigo tornou a soar, e ela continuou parada, incerta sobre se estava despedindo-se da loja, de seus sonhos, ou simplesmente atormentando-se.
Quando tornou a ouvir o chamado, caminhou at um dos balces da seo de roupes e ligou para o nmero da central telefnica da loja.
-Meredith Bancroft - identificou-se. - Fui chamada?
-Sim, senhorita. Sua secretria pediu que ligue com urgncia para seu escritrio.
Quando desligou, Meredith olhou para o relgio de pulso. Tinha duas reunies marcadas para aquela tarde, mas no sabia se poderia conduzi-las, como se tudo estivesse
normal. Mesmo que pudesse, de que adiantaria o sacrifcio? Com relutncia, ligou para o ramal de Phyllis.
-Sou eu. Voc me chamou?
-Desculpe perturb-la - a secretria pediu em tom triste, porque a reunio dos executivos certamente acabara e a moa j devia saber que Meredith no fora escolhida
para substituir Philip. - O sr. Reynolds ligou duas vezes, na ltima meia hora, e parece muito preocupado.
Meredith imaginou que Parker tambm j estava sabendo.
-Se ligar de novo, diga, por favor, que entrarei em contato com ele mais tarde.
No suportaria ser consolada, sem desabar de uma vez. E ela no queria ouvir o que ele certamente diria: que havia males que vinham para o bem.
-Certo - Phyllis concordou. - Voc tem uma reunio com o diretor de publicidade, daqui a meia hora. Quer que eu cancele?
Meredith hesitou, observando melancolicamente a atividade a sua volta. No podia deixar a empresa naquele momento. Alm da compra do terreno de Houston, muitos
projetos ainda exigiam sua ateno. Se ela trabalhasse ainda mais, nas duas semanas seguintes, poderia terminar a maioria das tarefas e deixar o resto aos cuidados
de seu sucessor. Sair sem deixar tudo o mais bem arrumado possvel no seria bompara a loja. Sua loja. Prejudicar a Bancroft seria como prejudicar a si mesma. No
importaria aonde fosse, o que fizesse, aquele lugar sempre seria parte dela.
-No, no cancele nada - respondeu. - Vou subir daqui a pouco
-Meredith, se servir de consolo, saiba que a maioria de ns acha que voc  quem deveria assumir a presidncia.
-Obrigada, Phyllis.
No, as palavras da secretria, apesar de carinhosas, no tinham servido de consolo.


#30

O telefone na sala de estar comeou a tocar, e Parker olhou parao aparelho e depois para Meredith, que se encontrava perto da janela.
-Deve ser seu pai, outra vez.
-Deixe que a secretria eletrnica atenda - Meredith sugeriu, dando de ombros.
Sara do escritrio s cinco horas, e at aquele momento recusara-se a atender trs telefonemas do pai e de vrios reprteres que estavam ansiosos por saber
como ela estava se sentindo, aps ser passada para trs na eleio para a presidncia da Bancroft.
Parker estava certo. Era Philip, que comeou a falar, furioso, logo aps o sinal da secretria eletrnica: Meredith, eu sei que voc est a, droga! Atenda!
Quero falar com voc!
Indo at ela, Parker abraou-a pelos ombros.
-Sei que no quer falar com seu pai, mas  a quarta vez que ele liga. Por que no atende e acaba com isso?
-No quero falar com ningum, no momento, muito menos com ele - Por favor, compreenda. Eu eu gostaria de ficar sozinha.
-Entendo, sim - Parker afirmou com um suspiro, mas no se moveu do lugar, oferecendo solidariedade, enquanto Meredith continuava a olhar para fora. - Vamos
sentar no sof - sugeriu, beijando-a na tmpora. - Eu lhe preparo um drinque.
-No quero tomar nada - ela declarou, mas acompanhou-o ato sof, onde sentou-se, aninhando-se em seus braos.
-Tem certeza de que ficar bem, sozinha, Meredith? - Parker perguntou, uma hora mais tarde. - Preciso acertar algumas coisas, se quiser partir para a Sua
pela manh, mas detesto ir embora, deixando-a nesse estado. Amanh ser o Dia de Ao de Graas, e voc no vai querer pass-lo com seu pai, como havia planejado.
- Fez uma pausa,ento declarou: - Olhe, vou cancelar a viagem. Uma outra pessoa poder falar em meu lugar, na conferncia. Nem notaro
-No! - Meredith exclamou, levantando-se. - Fique tranquilo que no me atirarei pela janela - prometeu com um sorriso, enlaando o noivo pelo pescoo, quando
ele tambm ergueu-se. - Comemorarei o Dia de Ao de Graas com a famlia de Lisa. Quando voc voltar j terei feito novos planos para minha carreira e estarei com
a vida em ordem. Ento, comearei os preparativos para nosso casamento.
-O que pretende fazer a respeito de Farrell?
Fechando os olhos com desnimo, Meredith perguntou-se como poderia lidar com tantos problemas e decepes ao mesmo tempo. No turbilho daquele dia, esmagada
pelo desapontamento, esquecera que ainda estava casada com Matthew Farrell.
-Meu pai ter de concordar em parar de bloquear os planos de Matt - comentou, abrindo os olhos. - Ele me deve isso. Ento, mandarei um advogado entrar em contato
com Matt para oferecer-lhe essa oferenda de paz.
-Acha que conseguir cuidar disso e dos preparativos para o casamento, assim como est? - Parker indagou com gentileza.
-Com certeza - ela afirmou, obrigando-se a fingir entusiasmo. Casaremos em fevereiro, como planejamos.
-Mais uma coisa - ele comeou, tomando o rosto dela entre as mos. - Prometa que no se comprometer com outro emprego, at minha volta.
-Por qu?
Parker respirou fundo.
-Sempre compreendi seu desejo de trabalhar na Bancroft, mas como isso no ser mais possvel, gostaria que voc considerasse a ideia de abraar apenas a carreira
de esposa. Teria muito o que fazer. Alm de dirigir nossa casa e organizar recepes, poderia dedicar-se a obras de caridade e atividades cvicas.
Dominada por um desespero que no conhecia havia anos, Meredith pensou em protestar, mas desistiu.
-Boa viagem, Parker - murmurou, quando ele se inclinou e beijou-a no rosto.
Estavam a meio caminho da porta, quando o interfone comeou a soar num ritmo agitado e familiar.
- Lisa - explicou Meredith. Foi at o aparelho e pressionou o boto para destravar a portadesegurana do vestbulo do prdio, sentindo-se culpada por ter
esquecido o jantar com a amiga e lamentando ter perdido a chance de ficar sozinha, algo de que precisava desesperadamente.
Momentos depois, Lisa entrou no apartamento, sorrindo com propositada alegria e carregando recipientes de comida chinesa, que colocou na mesa de refeies.
-Soube do que aconteceu hoje - contou, abraando Meredith rapidamente, mas com fora. - Desconfiei que esqueceria nosso jantar e que no estaria com fome, mas
no pude suportar a ideia de que voc ficaria aqui sozinha, por isso vim assim mesmo - tagarelou, tirando o casaco. - Desculpe, Parker, mas eu no podia adivinhar
quevoc estava aqui. Teremos de esticar a comida.
-Ele est de sada - Meredith informou, esperando que os dois no se engalfinhassem numa luta verbal, como de costume. - Vai viajar amanh, para a Sua, onde
participar da conferncia mundial de banqueiros.
-Que divertido! - a amiga exclamou, sorrindo maliciosamente para Parker. - Vai poder comparar suas tcnicas de executar hipotecas de vivas com as de banqueiros
do mundo todo.
Meredith viu o rosto dele enrijecer, os olhos brilharem de raiva, e surpreendeu-se novamente com o fato de as implicncias de Lisa descontrol-lo tanto. Mas,
no momento, seus prprios problemas superavam tudo o mais.
-Por favor, vocs dois! - ralhou. - No vo comear a se bicar. Hoje, no. Lisa, eu sei que no vou conseguir engolir nada, por isso
-Precisa comer, Meredith, para manter a energia.
-Eu gostaria de ficar sozinha.
-Nem pensar! Seu pai estava estacionando o carro do outro lado da rua, quando entrei no prdio.
Confirmando o que Lisa dissera, o interfone tocou.
-Ele pode ficar l embaixo a noite toda, se quiser - disse Meredith.
-Meu Deus! - o noivo gemeu. - No poderei sair, se ele estiver l. Vai querer que eu o deixe entrar.
-No deixe, simplesmente - sugeriu Meredith, lutando para controlar as emoes.
-O que vou dizer a Philip, quando ele me pedir para segurar a porta aberta e deix-lo passar?
-Posso fazer uma sugesto, Parker? - Lisa pediu. - Simplesmente diga no, como faz com os pobres-coitados, cheios de filhos, que vopedir-lhe um emprstimo.
-Lisa, vou acabar odiando voc - ele ameaou, carrancudo, antes de virar-se para Meredith. - Por favor, seja razovel. Philip no  seu pai.  um cliente do
meu banco, tem negcios comigo.
Plantando as mos nos quadris, Lisa dirigiu-lhe um sorriso desafiador.
-Parker, onde est sua coragem, seu carter?
-Cuide de sua vida! - ele retrucou. - Se tivesse alguma educao, perceberia que este  um assunto particular entre mim e Meredith e iria esperar na cozinha!
Lisa, que normalmente revidava ofensa com ofensa, corou, parecendo humilhada.
-Idiota - resmungou por entre os dentes, comeando a andar em direo da cozinha. - Vim aqui para ajud-la, Meredith, no para perturb-la, por isso vou fazer
o que seu noivo sugeriu.
Na cozinha, enxugou as lgrimas que tinham subido-lhe aos olhos e ligou o rdio, aumentando o volume quase ao mximo. - Pode continuar com sua arenga, Parker.
No vou ouvir uma palavra - declarou, enquanto uma soprano chorava aos gritos numa ria de Madamme Butterfly.
Na sala de estar, o som exigente do interfone juntou-se aos lamentos da soprano, e Parker bufou, desejando poder quebrar o rdio e estrangular Lisa. Olhou para
Meredith, que, completamente infeliz, parecia no ouvir o barulho ensurdecedor.
-Meredith, quer mesmo que eu impea seu pai de entrar? - ele perguntou, quando o interfone silenciou.
-Quero.
-Est bem, ento.
-Obrigada.
-Que praga! - A voz de Philip assustou os dois, que se viraram para a porta. Ele entrara na sala e olhava-os, furioso. - No acredito que precisei esperar at
que um morador chegasse e abrisse a porta! O que  isso? Uma festa? - indagou, erguendo a voz para fazer-se ouvir acima da gritaria vinda do rdio. - Deixei dois
recados com sua secretria, esta tarde, e mais quatro nessa mquina infernal!
-No temos nada para dizer um ao outro - declarou Meredith, a raiva sobrepujando o desnimo.
O pai jogou o sobretudo no sof e tirou um charuto do bolso interno do palet.
-Muito pelo contrrio. - Cortou a ponta do charuto com os dentes e encarou Meredith. - Allen Stanley no aceitou o cargo de presidente interino. Disse que no
estava  altura.
-Ento, o senhor decidiu oferec-lo a mim - Meredith conjeturou, magoada demais com o que ouvira dele  tarde, para excitar-se com anotcia.
-No. Ofereci a Gordon Mitchell, o segundo na minha isto , o segundo na preferncia da diretoria.
-Ento, por que veio aqui?
-Mitchell tambm no aceitou.
-Mas ele  ambicioso como o diabo! - observou Parker, claramente surpreso, como Meredith ficara. - Eu podia jurar que ele estava morrendo para pegar essa oportunidade.
-Eu tambm - disse Philip. - Contudo, ele acha que pode contribuir mais para o sucesso da loja, ficando onde est. A Bancroft  mais importante para ele do
que uma vitria pessoal - comentou, olhando para Meredith como para acus-la de desejar apenas engrandecimento prprio. - Voc  a terceira escolha, e por isso estou
aqui.
-Suponho que esteja esperando que eu agarre essa chance - ela replicou, ainda magoada demais.
-Espero que voc se comporte como a executiva responsvel que pensa que  - Philip gritou, vermelho de raiva. - Isso significa que deve deixar de lado nossas
diferenas pessoais e aceitar a oportunidade que lhe est sendo oferecida!
-H outras oportunidades por a.
-No seja idiota! Nunca ter chance melhor de mostrar o que  capaz de fazer.
-Est me dando uma chance de provar minha competncia?
-Estou!
-O que acontecer, se eu provar?
-Quem sabe?
-Nesse caso, no estou interessada. Arrume outra pessoa.
-Que inferno, Meredith! Sabe que no temos ningum mais qualificado para o cargo do que voc! As palavras escaparam dele numa exploso de ressentimento, frustrao
e desespero. Para Meredith, aquela confisso relutante de que ele a considerava competente foi infinitamente mais agradvel do que um elogio de qualquer outra pessoa.
A excitao que se recusara a sentir at aquele momento comeou a crescer em seu ntimo.
-Se  assim, aceito - disse, forando-se a aparentar indiferena.
-timo. Discutiremos os detalhes amanh, durante o jantar. Tenho cinco dias para cuidar de projetos pendentes, antes da viagem - explicou, fazendo meno de
pegar o sobretudo.
-No v embora to depressa - ela pediu. - Primeiro quero saber de quanto vai ser meu salrio.
-Cento e cinquenta mil dlares por ano, com validade a partir de um ms aps ocupar o posto. - Cento e setenta e cinco mil, com validade imediata - ela argumentou.
-Est certo - ele concordou em tom irritado. - Com a condio de que seu salrio volte a ser o que  agora, se quando eu retorne da licena.
-De acordo.
-No faa grandes mudanas, sem falar comigo primeiro.
-De acordo - ela repetiu.
-Ento, est tudo arranjado.
-No. H mais uma coisa que quero do senhor. Pretendo dedicar-me inteiramente ao trabalho, mas preciso resolver dois assuntos de ordem pessoal.
-Que assuntos?
-Um divrcio e um casamento. Acredito que Matt concordar com o divrcio, se eu mostrar-lhe a bandeira branca da paz, que  a aprovao do rezoneamento de Southville.
Alm disso, ele precisa ter certeza de que, de nossa parte, no haver mais interferncia em sua vida.
-Acha mesmo que ele vai concordar?
-Na verdade, tenho quase certeza, mas o senhor parece duvidar. Por qu?
-Voc disse que sou parecido com ele. Pois bem, eu no aceitaria uma troca dessas. Nunca. Eu faria o homem que se atravessou em meu caminho arrepender-se amargamente
disso e, depois, proporia uma barganha nos meus termos, um negcio que o sufocaria. Meredith sentiu um arrepio gelado correr-lhe pela espinha.
-De todo modo, antes de assumir a presidncia, quero que me d sua palavra de que a comisso aprovar o rezoneamento - persistia
O pai hesitou, ento moveu a cabea, afirmando.
-Vou cuidar disso.
-D sua palavra de que no interferir em mais nada do que Matt fizer, se ele concordar com um divrcio do jeito que ns queremos?
-Dou minha palavra. - Philip pegou o sobretudo e virou-se para o futuro genro: - Parker, desejo-lhe uma boa viagem.
Foi embora, e Meredith olhou para o noivo com um sorrisinho incerto.
-Meu pai no conseguiu pedir desculpas, nem admitir que estavaerrado, no me escolhendo em primeiro lugar, mas concordou em fazer tudo o que pedi, e isso foi
um jeito de me compensar, voc no acha?
-Provavelmente - Parker respondeu, no muito convicto. Meredith ignorou a dbia reao e abraou-o pelo pescoo, dominada por sbita euforia.
-Vou dar conta de tudo! - exclamou, rindo. - Da presidncia, do divrcio, dos preparativos para nosso casamento! Voc vai ver!
-Tenho certeza - ele afirmou com um sorriso, puxando-a para mais perto de si.
Sentada  mesa da cozinha, com as pernas apoiadas no assento de outra cadeira, Lisa acabara de decidir que aquela pera de Puccini no era apenas tediosa, mas
insuportvel. Ergueu os olhos e viu Meredith parada no vo da porta.
-Parker e seu pai j foram? - perguntou, desligando o rdio. -
Deus, que noite!
-J foram, sim - respondeu Meredith com um sorriso exuberante. -E esta  uma noite maravilhosa! Fantstica!
Lisa olhou-a com espanto.
-Algum j lhe disse que suas mudanas de humor so alarmantes?
-Por favor, queira dirigir-se a mim com um pouco mais de respeito.
-Como assim?
-O que acha de me chamar de senhora presidente?
-Est brincando! - Lisa gritou, deliciada, e levantou-se.
-No, no estou. Vamos abrir uma garrafa de champanhe! Quero celebrar!
-Isso mesmo! - Lisa concordou, dando-lhe um abrao. - Mas depois quero saber como foi seu encontro com Farrell.
-Foi horrvel! - Meredith informou com uma risada. Ento, foi  geladeira, pegar uma garrafa de champanhe.


#31


Na semana que se seguiu, Meredith mergulhou no trabalho como presidente interina. Tomou decises com cautela e habilidade, reuniu-se com os executivos, ouvindo
suas opinies, sugerindo, e em poucos dias eles comearam a demonstrar confiana e entusiasmo. Tambm conseguiu manter em dia os compromissos que tinha como vice-presidente
de operaes, graas  ajuda, competncia e lealdade de Phyllis, que, como ela, no se importava de trabalhar alm das horas normais.
Teve tempo at de fazer alguns preparativos para o casamento. Encomendou os convites e, quando o ateli dedicado a vestidos de noiva, ali da prpria loja, ligou
para avisar que tinham modelos novos, ela foi at l para v-los. O que mais a agradou foi um de seda gelo, bordado com prolas e um profundo decote nas costas,
pois fora algo como aquilo que imaginara.
- perfeito! - exclamou, rindo e abraando o desenho contra o peito, contagiando com sua alegria o pessoal do ateli.
Pouco depois, de volta a sua sala, sentou-se na cadeira que sempre pertencera aos Bancroft, colocando a sua frente o desenho do vestido e uma amostra do convite
de casamento. As vendas atingiam nveis muito altos, ela estava resolvendo todos os problemas que passavam por sua mesa, por mais complicados que fossem, e ia casar-se
com o melhor dos homens, uma pessoa a quem amara desde a adolescncia.
Reclinando-se na cadeira giratria, sorriu para o retrato do fundador da loja, pendurado na parede oposta.
-O que acha de mim, bisav? Estou me saindo bem? - perguntou ao homem de brilhantes olhos azuis, numa exploso de felicidade e emoo.
A semana foi passando, e ela continuou alegre, apreciando os desafios e totalmente absorvida pelo trabalho. Estava sendo bem-sucedida em tudo o que fazia, menos
numa coisa. Antes de partir para o cruzeiro, o pai cumprira a promessa a respeito do pedido de rezoneamentoquea intercorp apresentara  comisso, mas ela ainda
no conseguira falar com Matt para comunicar o fato.
Telefonava todos os dias para o escritrio dele, em horrios diferentes, mas, ou a secretria respondia que ele no se encontrava ali, ou que sara da cidade.
Na quinta-feira  tarde, Matt ainda no telefonara, apesar de Meredith haver deixado recado para que ligasse assim que fosse possvel. Ela decidiu tentar de novo.
-O sr. Farrell pediu para dizer-lhe que deve entrar em contato com os advogados dele, Pearson e Levinson, e que no atender seus telefonemas - a secretria
informou em tom gelado. - Tambm mandou avisar que, se a senhorita continuar insistindo em ligar para c, ele a processar por assdio.
A mulher desligou, e Meredith afastou o telefone do ouvido e ficou olhando para ele, incrdula. Pensou em ir ao escritrio de Matt e dar um jeito de v-lo, de
qualquer maneira, mas havia a possibilidade de ele mandar os seguranas expuls-la. Dizendo-se que precisava manter a calma e a objetividade, passou suas alternativas
em revista, exatamente como faria se aquele fosse um problema profissional. Seria intil falar com os advogados de Matt, pois eles representavam a oposio e tentariam
intimid-la, nem que fosse apenas para divertir-se. Ela soubera, desde o incio, que precisaria contratar um advogado, assim que Matt concordasse com um divrcio
amigvel, mas tornara-se evidente que teria de fazer isso antes do que calculara. Um advogado que servisse de intermedirio, levando sua proposta de paz a Pearson
e Levinson, que, por sua vez, a apresentariam a Matt.
Um advogado qualquer, mesmo que fosse competente, no serviria, pois Matt era representado por uma das firmas de advocacia mais poderosas de Chicago. Ela precisava
de algum do mesmo nvel, que no se deixasse intimidar, nem se transformasse num joguete nas mos de Pearson e Levinson. Alm disso, o advogado que contratasse
teria de ser discreto, capaz de resguardar sua vida particular, assim como de proteger seus interesses. Algum em quem pudesse confiar completamente, que no discutisse
o caso com os colegas, quando se reunisse com eles para um drinque no bar da Associao dos Advogados.
Parker sugerira um amigo dele, mas Meredith queria algum que ela conhecesse e de quem gostasse. Como preferia no misturar negcios com assuntos pessoais, Sam
Green estava fora de cogitao.
Pegando uma caneta, comeou a fazer uma lista dos advogados que conhecia. Quando acabou, leu os nomes e riscou-os, um a um. Eramprofissionais bem conceituados,
mas todos pertenciam ao Glenmour, jogavam golfe juntos e provavelmente trocavam mexericos.
Havia apenas um homem que atendia as suas exigncias, embora ela detestasse a ideia de ter de contar-lhe a histria que sempre mantivera em segredo.
-Stuart - murmurou afetuosamente.
Stuart Whitmore fora o nico que a tratara bem, que a apreciara no tempo em que ela era uma feiosa menina de treze anos, o mesmo que se oferecera para ser seu
par no baile da srta. Eppingham. Estava agora com trinta e trs anos e, fisicamente, continuava sem atrativos com aqueles ombros estreitos e cabelos castanhos que
comeavam a ficar ralos. Mas era um advogado brilhante, um homem inteligente, que fascinava as pessoas com sua conversa, e, mais importante que tudo, era amigo de
Meredith. Dois anos antes ele fizera a ltima e mais insistente tentativa de lev-la para a cama, usando todos os argumentos, como se estivesse defendendo uma causa
no tribunal, acabando por dizer que havia at a possibilidade de virem a casar-se.
Embora surpresa e comovida por ele ter pensado em casamento, Meredith rejeitara-o com gentileza, dizendo que achava sua amizade muito importante e que esperava
que continuassem amigos.
-Deixaria, pelo menos, que eu a representasse numa ao legal?-ele perguntara. - Assim, poderei dizer a mim mesmo que no posso me envolver com voc por uma
questo de tica, e no porque no existe reciprocidade de sentimentos.
Meredith sorrira, cheia de gratido e afeto.
-Deixaria, claro. Vou roubar um frasco de aspirinas de uma farmcia qualquer, amanh cedo, e voc poder pagar a fiana e tirar-me da cadeia.
-Apele para o artigo quinto, enquanto eu no chegar - ele recomendara com uma risadinha, entregando-lhe um carto de visitas.
Na manh seguinte, ela obrigara Mark Braden a falar com um amigo tenente do distrito central, chamado Reicher, e convenc-lo a participar de uma trama. Como
resultado, o policial telefonara a Stuart e disse que Meredith fora apanhada roubando numa drogaria. Suspeitando um trote, Stuart ligara de volta e descobrira que,
de fato, existia um tenente Reicher, e que Meredith estava detida.
Sentada num degrau da escada externa da delegacia, ela vira Stuart chegar, fazendo os pneus do Mercedes guinchar numa parada brusca.
Ele descera, deixando o motor ligado e a porta aberta, e correra para o prdio.
-Stuart! - Meredith chamara, comovida ao notar que o amigo realmente importava-se com ela.
S ento ele a vira encolhida num degrau, percebendo que fora vtima de uma brincadeira. Subira a escada, carrancudo.
-Desculpe - Meredith pedira, levantando-se e indo a seu encontro. -Eu s queria mostrar do que sou capaz para preservar uma amizade que prezo tanto.
-Deixei dois envolvidos num divrcio litigioso sozinhos na sala de reunies,  espera do outro advogado - Stuart contara, com um sorriso, a irritao dissipada.
- A essa altura j se mataram, ou, pior, reconciliaram-se, privando-me de meus honorrios.
Ainda sorrindo com a lembrana daquele dia, Meredith apertou o boto do interfone.
-Phyllis, quer ligar para Stuart Whitmore, da Whitmore e Northkrige, por favor, e pedir que me telefone?
Comeou a ficar nervosa, e suas mos tremiam ao pegar uma pilha de papis com informaes impressas pelo computador. No vira Stuart mais do que duas vezes,
no ano anterior. E se ele no quisesse falar com ela? Ou, se falasse, estaria disposto a envolver-se com seus problemas pessoais? E se
O som do interfone assustou-a, interrompendo suas reflexes pessimistas.
-O sr. Whitmore, na linha nmero um - Phyllis informou. Meredith respirou fundo e ergueu o telefone.
-Stuart, muito obrigada por me ligar to depressa.
-Eu ia sair para uma audincia, quando ouvi minha secretria receber seu recado - ele informou, parecendo apressado, mas em tom gentil.
-Estou com um problema - ela explicou. - Bem grande. No, grande  pouco. Um problema enorme, e
-Estou ouvindo - ele incentivou, quando ouviu-a hesitar.
-Quer que eu diga o que  agora, por telefone, num momento em que voc est com pressa?
-No, mas poderia me dar uma pista, pelo menos para aguar neu apetite profissional.
Ela captou o humor velado na voz dele e suspirou, aliviada.
-Trata-se de meu divrcio.
-Nesse caso, aconselho-a a casar com Parker, primeiro.
-No  outra brincadeira minha, Stuart. Estou no meio da maiorconfuso judicial que voc possa imaginar. E preciso sair dela o mais rpido possvel.
-Prefiro arrastar os processos, assim meus honorrios ficam mais caros - ele arreliou. - No entanto, por uma velha amiga, acho que posso sacrificar a ganncia.
Aceitaria jantar comigo, hoje?
-Voc  um anjo!
-Sou? Ontem, um advogado, meu adversrio numa causa, reclamou com o juiz, dizendo que eu era um filho da puta manipulador!
-Mas voc no ! - ela protestou. Ele riu.
-Sou, sim, beleza.



#32

Stuart no se arvorou em juiz, nem se mostrou escandalizado, quando Meredith contou-lhe o que fizera aos dezoito anos de idade. Ouviu a histria toda sem nenhum
sinal de emoo e no deixou transparecer surpresa, quando soube a identidade do homem que a engravidara.
-Deixei tudo bem claro? - ela perguntou no fim, confusa com o silncio e a expresso impassvel do amigo.
-Perfeitamente - ele afirmou, acrescentando: - Voc acabou de me contar que seu pai usou o prestgio que tem para induzir o senador Davies a impedir o rezoneamento
de Southville, e que agora o est usando para conseguir a liberao do projeto, com igual descaso pela lei que condena o trfico de influncias. Certo?
-A-acho que sim - Meredith gaguejou, inquieta com aquela acusao contra o pai.
- a Pearson e Levinson que est representando Farrell?
-.
Stuart fez um sinal ao garom, pedindo a conta.
-Vou telefonar para Bill Pearson logo pela manh - assegurou. - Direi que Farrell est sujeitando minha cliente favorita a uma desnecessria angstia mental.
-E a?
- A, pedirei a ele que faa Farrell assinar alguns papis que eu mesmo vou redigir.
Meredith sorriu, entre esperanosa e incerta.
    - Isso bastar?
    - Talvez.


    No dia seguinte,  tarde, Stuart ligou para Meredith.
-Falou com Pearson? - ela indagou.
-Consegui peg-lo agora h pouco.
-Explicou o que meu pai est oferecendo a Matt? O que Pearson disse?
-Disse que o problema entre voc e Farrell  altamente pessoal que  de maneira pessoal que seu cliente deseja resolv-lo. E que, mais tarde, o prprio Farrell
ditar os termos do divrcio.
-Meu Deus - ela murmurou. - O que isso significa? No entendi
-Nesse caso, terei de abandonar o educado palavreado legal e traduzir o recado para voc. Pearson mandou que eu fosse me foder
Pelo modo cru de Stuart expressar-se, Meredith deduziu que ele estava mais aborrecido do que desejava deixar transparecer, e isso alarmou-a.
-Ainda no entendi! - lamentou-se. - Quando almocei com Matt ele estava disposto a colaborar, at receber aquele telefonema sobre o rezoneamento de Southvlle.
Agora, que estamos prometendo que seu pedido ser aprovado, ele no quer saber do assunto!
-Meredith, escondeu alguma coisa, quando me falou de seu relacionamento com Farrell?
-No, nada. Por qu?
-Porque, pelo que tenho ouvido falar dele, Farrell  um homem inteligente, capaz de tratar qualquer coisa com lgica fria e, de acordo com certas pessoas, quase
desumana. E, pela lgica, homens ocupados com negcios no perdem tempo vingando-se de pequenas ofensas. Tempo, para eles, representa muito dinheiro. Mas todo homem
tem seu limite, e parece que Farrell ultrapassou o dele e agora est declarando guerra. Isso me deixa muito preocupado.
-Por que acha que ele quer comear uma guerra?
-S posso pensar que seja por vingana.
-Ele quer se vingar de qu? - Meredith gritou, abalada. - Por que voc acha isso, Stuart?
-Por uma coisa que Pearson disse. Ele avisou que, se voc insist em dar entrada no processo de divrcio sem a aprovao de Farrel s estar procurando mais
aborrecimentos.,
-Mais aborrecimentos? Que satisfao isso daria a Matt, agora. Ele tentou ser gentil, durante o almoo. At brincou comigo, embora me despreze, e
-Por que acha que ele a despreza? - Stuart interrompeu-a.
-No sei, mas  algo que sinto. Matt ficou furioso por causa daqueleassunto de Southville e ofendeu-se com as coisas que eu lhe disse no carro, depois do
almoo. Isso poderia ter feito com que ele ultrapassasse seus limites?
-Quem sabe?
-O que voc vai fazer agora, Stuart?
-Vou pensar. Estou de partida para Palm Springs para passar o fim de semana com Teddy e Liz Jenkins, no iate deles. Falaremos outra vez quando eu voltar. Tente
no preocupar-se demais.
- Vou tentar - Meredith prometeu.
Quando desligou, fez um esforo enorme para tirar Matt da cabea e afundou no trabalho. Duas horas mais tarde, Sam Green pediu para v-la, mandando dizer que
se tratava de assunto importante. Como prometera, conseguira apressar seu pessoal, que aprontara rapidamente os documentos para a oferta de compra do terreno de
Houston. Entrara em contato com Ian Thorp, trs dias atrs, querendo marcar uma reunio imediata, mas o homem dissera que s poderia receb-lo na semana seguinte.
Sorrindo, Meredith observou-o andar na direo de sua mesa.
-Pronto para a viagem a Houston, na segunda-feira? - perguntou.
-Thorp acabou de ligar, cancelando a reunio - ele anunciou com ar zangado, largando-se numa cadeira. - Aceitaram uma oferta de vinte milhes pelo terreno.
O comprador exigiu segredo at o final da transao, por isso Thorp adiou o encontro comigo. O terreno agora pertence  diviso imobiliria de uma grande corporao.
Meredith sentiu-se mal, de tanto desapontamento, mas recusou-se a aceitar a derrota.
-Entre em contato com os novos proprietrios e pergunte se querem vend-lo.
-J fiz isso. Esto perfeitamente dispostos a vender - Sam informou num tom sarcstico que a surpreendeu.
-Ento, vamos parar de perder tempo - ela decidiu. - Precisamos iniciar as negociaes.
-Tentei. Esto pedindo trinta milhes e no aceitam contraproposta.
-Trinta?! Isso  ridculo! E loucura! Na situao atual da economia, o terreno vale no mximo vinte e sete milhes, e pagaram apenas vinte Por ele.
- Fiz o diretor da diviso imobiliria ver isso, e ele disse que era Pegar ou largar.
Meredith levantou-se e foi para junto de uma janela, tentando decidir que fazer em seguida. Queria que a loja de Houston fosse construda naquele terreno, cuja
localizao era a melhor da cidade, e no ia render-se to depressa.
-Pretendem construir alguma coisa l? - quis saber.
-No.
-Que corporao  essa?
Sam Green hesitou, permanecendo calado por um instante.
-Intercorp - respondeu por fim.
-Voc deve estar brincando! - Meredith explodiu.
Apesar do choque, compreendeu a relutncia dele, pois Sam, com todo o resto do pessoal da Bancroft, ficara sabendo do incidente entre ela e Matthew Farrell.
Era necessrio conter-se para no deix-lo adivinhar que havia algo mais.
-Sou homem de brincar com coisas srias? - ele perguntou.
-Vou matar Matthew Farrell por estragar meu negcio! - ela ameaou, furiosa.
-Se o matar, no precisarei depor contra voc, porque poderei considerar essa declarao apenas como parte de uma conversa entre advogado e cliente - Sam comentou
com um sorrisinho desanimado.
Dominada por emoes violentas, Meredith ficou olhando para ele, os pensamentos atropelando-se em sua mente. O que Stuart dissera, sobre Matt estar querendo
vingana, anulava qualquer possibilidade de ter sido por mera coincidncia que a Intercorp comprara justamente o terreno que ela queria. Com certeza, aquele era
um dos aborrecimentos que Pearson mencionara.
-O que voc pretende fazer depois, Meredith?
-Depois de qu? De matar Farrell? Jogar o corpo no lago para os peixes comerem. Aquele nojento - Interrompeu-se, respirou fundo e, fingindo estar mais calma,
voltou para junto da mesa. - Preciso pensar, Sam. Falarei com voc na segunda-feira.
Comeou a andar pela sala, assim que ele saiu, indo de uma ponta a outra e voltando, procurando controlar a raiva para poder refletir com objetividade. Uma coisa
era Matt transformar sua vida particular num pesadelo, pois isso ela poderia contornar, com a ajuda de Stuart, Mas aquele ataque fora dirigido  Bancroft & Company,
enfurecendo-a e assustando-a mais do que qualquer coisa que ele pudesse tratar contra ela particularmente. Aquilo precisava parar, e j!
-Por que ele est fazendo isso? - perguntou em voz alta, quando se sentiu mais capaz de raciocinar.
A resposta era clara. Ele estava se vingando do que o pai dela fizera para arruinar seus planos para Southville. Mas tudo fora resolvido e ela precisava, de
qualquer maneira, falar com ele, faz-lo entender que vencera a batalha, que Philip corrigira o erro que cometera. Tudoo que Matt precisava fazer era reapresentar
o requerimento  comisso de gouthville, e o rezoneamento seria aprovado.
Como Stuart no estava disponvel para aconselh-la, ela tomou uma deciso sozinha. Marchou para a mesa, ergueu o telefone e discou o nmero do escritrio de
Matt.
-Aqui  Phyllis Tilsher - mentiu, disfarando a voz, quando a secretria atendeu. - O sr. Farrell est, por favor?
-O sr. Farrell j foi para casa. S estar aqui na segunda-feira.
Meredith olhou para o relgio, surpresa ao ver que passava das cinco horas.
-Ah, no percebi que j era to tarde - explicou. - No estou com minha agenda, no momento. Ser que a senhora poderia me dar o nmero do telefone da residncia
dele?
-No tenho permisso para isso.
Meredith desligou, sabendo que no suportaria esperar at segunda-feira. E ligar novamente para o escritrio de Matt seria perda de tempo, mesmo que usasse um
nome falso, porque a secretria dele no completaria a ligao antes de saber o que ela queria. Tambm de nada adiantaria ir l, pois ele simplesmente se recusaria
a receb-la, ou at mandaria os seguranas lev-la para fora do prdio.
Tomando a deciso de telefonar para o apartamento dele, ligou para o servio de informaes da empresa telefnica e pediu o nmero, mas a telefonista informou-a
de que no constava da lista.
Desapontada, mas longe de sentir-se derrotada, Meredith desligou. Tentou pensar em algum que pudesse saber o nmero particular de Matt. Alicia Avery acompanhara-o
 festa da pera, e Stanton Avery apresentara sua candidatura a scio do Glenmoor. Sorrindo, satisfeita, Procurou o nmero de Stanton na agenda e discou-o.
De acordo com o mordomo, os Avery encontravam-se na casa que Possuam em St. Croix e no voltariam antes de uma semana. Meredith Pensou em pedir o telefone de
l, mas refletiu que era pouco provvel que Stanton lhe desse o nmero de Matt, a quem ela insultara em pblico e que fora impedido de tornar-se scio do Glenmoor
por obra de seu pai.
Assim que desligou, telefonou para o clube, pretendendo falar como secretrio e pedir-lhe que procurasse o nmero do telefone da residncia de Matt na proposta
de scio. Mas Timmy Martin j fora para casa disseram-lhe, e a secretaria estava fechada.
Mordendo o lbio, pensativa, aceitou o fato de que no lhe restavaoutra alternativa a no ser ir procurar Matt em seu apartamento, embora achasse assustadora
a ideia de enfrent-lo em seu prprio territrio. Sentiu um arrepio percorrer-lhe o corpo, lembrando-se da expresso de fria que vira no rosto dele, quando xingara
Patrick Farrell de bbado sujo.
Por que o pai dela tivera de intrometer-se na vida de Matt, sabotando seu pedido de rezoneamento? Por que o humilhara, no o deixando ser scio do Glenmoor?
E ela, por que perdera a calma, na limusine! Se o almoo tivesse acabado de modo to agradvel como comeara, as coisas seriam muito mais fceis.
Arrependimento e lamentaes, porm, no iam resolver seu monumental problema. Preparou-se para o que tinha de fazer. Podia no saber o telefone de Matt, mas,
como todos os leitores do Chicago Tribune sabia onde ele morava. Um suplemento de domingo, no ms anterior mostrara em cores a planta do fabuloso apartamento de
cobertura que o mais novo e mais rico empresrio de Chicago comprara no condomnio Beverly Towers, na avenida Lake Shore.



#33

O trnsito, na avenida Lake Shore, estava arrastando-se por causa da chuva misturada com granizo, e Meredith pegou-se imaginando se o tempo horrvel no seria
um indcio de que sua visita a Matt acabaria em desastre. O vento uivava, aoitando o carro, quando ela sara da garagem da Bancroft, e agora, naquele congestionamento
monstruoso, havia um verdadeiro mar de luzes vermelhas a sua frente, formado pelas lanternas traseiras dos veculos.  direita, o lago Michigan agitava-se como um
caldeiro de gua fervente.
Grata pelo calor no interior do carro, ela ensaiava o que diria a Matt no primeiro momento, de modo a acalm-lo e convenc-lo a ouvi-la. Precisava ser algo muito
diplomtico. Seu senso de humor, que no tivera muitos motivos para manifestar-se naquele dia, escolheu justamente aquele momento para subir  tona. Ela visualizou-se
abanando uma bandeira branca, pedindo trgua, assim que Matt abrisse a porta.
A imagem era to ridcula que a fez sorrir, mas o pensamento seguinte arrancou-lhe um gemido de frustrao. O prdio onde Matt morava, como todos os outros de
alto luxo, devia oferecer muita segurana aos moradores, e para chegar ao apartamento dele, ela sem dvida teria de passar por pelo menos um guarda, que anunciaria
sua chegada Pelo interfone. Matt jamais a receberia.
Apertou as mos no volante, ameaada pelo pnico, mas obrigou-se a Aspirar fundo, vrias vezes, tentando recuperar a calma. A fila decarros comeou a mover-se,
e ela acelerou lentamente. Tinha de encontrar um meio de burlar a vigilncia do guarda e entrar no prdio, massabia que no ia ser fcil. Devia haver um porteiro
no vestbulo, quepediria que se identificasse e examinaria a lista de pessoas esperadaspelos moradores. Quando no encontrasse o nome dela, talvez a deixasse usar
o telefone para falar com Matt, e a  que estava o problema.
No sabia o nmero e, mesmo que soubesse, era quase certo que ele se recusaria a receb-la.
Vinte minutos mais tarde, quando estacionou diante do edifcio, ain da no sabia como entraria e subiria  cobertura, mas um plano esboava-se em sua mente.
Um porteiro foi a seu encontro com um guarda-chuva, ela entregou-lhe as chaves do carro e depois retirou da pasta um envelope grande que continha a correspondncia
do pai.
No momento em que entrou no vestbulo e caminhou para a mesa de recepo, as coisas comearam a acontecer do jeito que ela previra. Um guarda uniformizado perguntou
seu nome, procurou na lista de visitantes esperados e, no encontrando nada, fez um gesto para o telefone de marfim e metal dourado.
-Seu nome no se encontra na lista, srta. Bancroft, mas pode falar com o sr. Farrell pelo telefone. Preciso da permisso dele para deix-la subir e peo desculpas
pelo incmodo.
Meredith notou que ele era bastante jovem e parecia ingnuo, o que j ajudava bastante. Um guarda mais velho e experiente no cairia em sua armadilha facilmente.
-No precisa desculpar-se - ela respondeu com seu melhor sorriso, olhando para o crach no peito dele. - Entendo perfeitamente, Craig. Vou telefonar ao sr.
Farrell. Tenho o nmero.
Consciente de que ele a olhava com admirao, abriu a bolsa, fingindo procurar o livrinho de endereos e telefones. Exibindo outro sorriso, bateu nos bolsos
e finalmente olhou para dentro do envelope.
-Ah, no! - exclamou, mostrando-se desolada. - No trouxe minha agenda! Craig, o sr. Farrell est esperando estes papis - mentiu, sacudindo o envelope. - Voc
precisa me deixar subir!
-No posso - ele negou, examinando-lhe o rosto, obviamente fascinado. - Seria contra as regras.
-Mas preciso subir! - ela suplicou e, como de fato estava desesperada, fez algo que no faria em nenhuma outra circunstncia. Fitando o jovem nos olhos, tornou
a sorrir. - Ei! J vi voc em algum lugar. Onde? Ah, j sei. Na loja!
-Loja? Que loja?
-Na Bancroft! Sou Meredith Bancroft - anunciou, dizendo seu nome inteiro.
Craig estalou os dedos.
-Eu sabia que seu rosto no me era desconhecido! J a vi nos noticirios da televiso, e suas fotos sempre saem nos jornais. Sou grande f da senhorita!
Meredith foi obrigada a sorrir ao ver o entusiasmo ingnuo do rapaz, que estava agindo como se ela fosse uma artista de cinema.
-Bem, agora que j sabe que no sou nenhuma marginal, pode me deixar subir?
-No. Alm disso, no poderia pegar o elevador para a cobertura porque  privativo, e s poderia us-lo se tivesse a chave, ou se algum l em cima acionasse
o boto pra destravar a porta.
-Entendo - ela murmurou, totalmente desanimada.
-Vou fazer uma coisa - o jovem guarda declarou, erguendo o telefone e comeando a pressionar uma srie de teclas. - O sr. Farrell deu ordens para no perturb-lo
por causa de visitantes no esperados, mas vou fazer isso pela senhorita.
-No! - ela quase gritou, alarmada. - Quero dizer ordens so ordens e
-Pela senhorita eu desobedeceria qualquer uma - o rapaz afirmou, galanteador, antes de dizer ao telefone: -  o segurana do vestbulo, sr. Farrell. - A srta.
Meredith Bancroft est aqui e deseja subir. No, senhor, no  Banker.  Bancroft. O senhor sabe, da loja de departamentos.
Achando-se incapaz de ver o rosto do jovem, quando Matt lhe dissesse para p-la na rua, Meredith fechou a bolsa, pretendendo bater em retirada.
-Sim, senhor - Craig concordou. - Com certeza. - Virou-se para Meredith, pousando o telefone. - Srta. Bancroft, ele mandou dizer que pode subir.
Tirou do bolso a chave do elevador e entregou-a a ela, que ficara Paralisada de surpresa.
Foi o guarda-costas, que tambm fazia o papel de motorista, que abriu a porta do apartamento.
-Por aqui, senhora - guiou-a, falando com uma voz e um sotaque que lembravam os de um gngster da dcada de trinta.
Tremendo de tenso, ela seguiu-o atravs do vestbulo. Passaramsobre dois graciosos pilares brancos, desceram trs degraus e cruzarammetade da imensa sala
de estar para chegar a um conjunto de trs sofs verde-claros dispostos de modo a ficarem virados para uma enorme mesa de centro com tampo de vidro.
Meredith olhou para o tabuleiro de damas sobre a mesa, depois para um homem de cabelos brancos sentado num dos sofs, e ento para o guarda-costas, supondo que
os dois deviam estar jogando, quando ela chegara.
-Vim falar com o sr. Farrell - explicou, vendo que o guarda-costa sentava-se num sof, fitando-a com curiosidade.
-Ento abra os olhos, menina - o homem de cabelos brancos ordenou, levantando-se. - Estou bem na sua frente.
Meredith encarou-o, confusa. Era esbelto, mas musculoso, tinha cabeleira farta e ondulada, bigode bem aparado e penetrantes olhos azuis
-Deve haver algum engano, senhor. Vim falar com o sr. Farrell
-Meu nome  Farrell - o homem afirmou de modo hostil. - E o seu no  Bancroft, mas Farrell tambm.
De sbito, Meredith percebeu quem ele era, e seu corao bateu mais forte.
-Desculpe, no o reconheci, sr. Farrell. Preciso falar com Matt.
-Por qu? O que voc quer?
-Quero falar com Matt - Meredith persistiu, incapaz de acreditar que aquele homem alto e forte, que a olhava com raiva, pudesse ser a mesma pessoa acabada e
triste que ela conhecera.
-Matt no est.
Ela j passara por muita coisa naquele dia e aguentara tudo com firmeza. No ia deixar-se derrotar com tanta facilidade.
-Nesse caso, vou esperar at que ele volte.
-Ter de esperar muito - Patrick avisou com sarcasmo. - Ele est na fazenda, em Indiana.
-A secretria de Matt disse que ele estava em casa.
-A casa dele sempre foi aquela! - o homem declarou, avanando na direo dela. - Esqueceu isso, menina? Acho que no. Olhou tudo com menosprezo, quando esteve
l.
Meredith ficou com medo da fria que adivinhava por trs das rgidas feies do pai de Matt, e comeou a recuar.
-Mudei de ideia - murmurou. - Falarei com Matt numa outra hora. Girou nos calcanhares, mas Patrick agarrou-a pelo brao e virou-a aproximando o rosto do dela.
-Fique longe de Matt! - ele exigiu. - Ouviu bem? Quase o matouanos atrs, e agora no vai voltar para faz-lo em pedaos novamente. Ela tentou livrar-se, mas
no conseguiu, e foi dominada por uma raiva que sobrepujou o medo.
-No quero voltar para seu filho! - gritou. - Quero o divrcio mas ele no colabora!
-Nem sei por que ele quis casar com voc e, por todos osdiabosno entendo por que deseja continuar casado - Patrick declarou,soltando-a bruscamente. - Voc
matou o filho dele, para no carregar um msero Farrell nesse seu ventre! Dor e ira percorreram o corpo de Meredith como facas afiadas.
-Como ousa dizer uma coisa dessas! Eu perdi o beb!
-Voc fez aborto! - o homem gritou. - No sexto ms de gravidez! Ento, mandou um telegrama para Matt. Um maldito telegrama!
O sofrimento que Meredith mantivera preso no corao durante tantos anos explodiu, e ela apertou os dentes para poder suport-lo sem gritar.
-Mandei um telegrama, sim, dizendo que perdera o beb, mas seu maravilhoso filho no foi capaz nem de me telefonar! - informou, enquanto lgrimas abundantes
comeavam a jorrar de seus olhos.
-No brinque comigo, menina! Estou avisando. Sei que Matt pegou um avio para ir ver voc e sei o que o telegrama dizia, porque vi meu filho e li aquela maldita
mensagem.
-Ele ele voltou para me ver? - Meredith perguntou, atnita, percebendo que algo estranho e suave brotava em seu corao. Mas essa sensao murchou to abruptamente
quanto surgira. -  mentira. No sei por que ele voltou, mas no foi para me ver, porque no me visitou.
-Ele tentou, mas no conseguiu! - disse Patrick em tom furioso. -Voc estava na ala Bancroft do hospital e mandou que barrassem a passagem de Matt.
Parou de falar por um instante, como se houvesse esgotado toda a raiva que o impulsionara, olhando para ela com ar incrdulo.
-Juro por Deus que no entendo como voc pde fazer uma coisa daquelas - disse em tom baixo e amargurado. - Quando livrou-se do beb, deixou Matt desesperado,
mas quando se recusou a v-lo, quase o matou. Ele foi para a fazenda e ficou l, dizendo que no queria voltar para a Venezuela. Durante semanas, vi-o embriagar-se
sem parar, tentando amenizar o sofrimento, a mesma coisa que eu fizera durante anos. Obriguei-o a parar de beber. Depois, mandei-o de volta para a Amrica do Sul,
esperando que l esquecesse voc.
Meredith mal ouviu as ltimas frases, tendo a impresso de que inos cruis badalavam em seu crebro, ameaando enlouquec-la. A ala Bancroft do hospital recebera
esse nome porque o pai dela doara o dinheiro para sua construo. As enfermeiras particulares haviam sido contratadas pelo pai dela. O mdico era amigo do pai dela.
Todos a quem ela vira nos dias de hospitalizao eram ligados, de algum modo, a Philip Bancroft, que odiava Matt. Meredith comeou a compreender o que poderia ter
acontecido.
Uma alegria incontrolvel perfurou as camadas de gelo que haviamcercado seu corao por onze longos anos. Com receio de acreditar em Patrick Farrell, e com
receio de no acreditar, ergueu os olhos para seu rosto duro.
-Sr. Farrell - murmurou tremulamente. -  verdade que Matt tentou me ver?
-Voc sabe que sim! - Patrick retrucou. Mas examinou o rosto de Meredith e certamente viu que ela estavaconfusa, porque sua expresso mudou, tornando-se agoniada
e perplexa, como se ele pressentisse que suas acusaes eram injustas.
-O que dizia o telegrama supostamente mandado por mim, que o senhor leu? - ela perguntou.
-Dizia - Patrick fez uma pausa, fitando os olhos dela, ento prosseguiu: - Dizia que voc fizera aborto e queria o divrcio.
Meredith sentiu o sangue fugir-lhe das faces, e uma vertigem sbita obrigou-a a agarrar-se no encosto do sof. A raiva contra o pai martelava-lhe o crebro,
o choque corria por seu corpo em ondas geladas, e a dor quase a fez cair de joelhos, quando ela pensou nos meses de angstia e solido aps o aborto, nos anos de
reprimido sofrimento pela desero de Matt. Uma enorme tristeza pelo beb perdido e pelas vtimas da manipulao de Philip Bancroft abateu-se sobre ela. Lgrimas
ardentes tombaram de seus olhos, inundando-lhe o rosto.
-Eu no fiz aborto e no mandei o telegrama - declarou, olhando para Patrick atravs das lgrimas. - Juro que no!
-Ento, quem mandou?
-Meu pai - ela respondeu entre soluos. - S pode ter sido ele! Patrick olhou-a longamente, ento, murmurando uma praga, puxou-a para seus braos.
-Posso estar sendo tolo por acreditar em voc, mas acredito resmungou.
Meredith abraou-o pelo pescoo e enterrou o rosto em seu peito, chorando com desespero.
-Chore, menina, chore - Patrick ficou repetindo, mantendo-a abraada, dando-lhe tapinhas consoladores nas costas. - Ponha toda a dor para fora.
Depois de um longo tempo, ela ergueu a cabea e, por cima do ombro dele, viu o motorista de Matt saindo da sala.
-Est se sentindo melhor? - perguntou Patrick, soltando-a.
-Estou - ela afirmou, aceitando o leno que ele lhe estendia.
-Bom. Enxugue os olhos, enquanto vou buscar alguma coisa para voc beber. Depois conversaremos sobre o que deve ser feito.
-Eu sei exatamente o que deve ser feito. Vou assassinar meu pai.
-Se eu no o pegar primeiro - comentou Patrick em tom rude.pegou Meredith pela mo e levou-a at um dos sofs, ajudando-a a sentar-se. Ento, desapareceu
na direo da cozinha, voltando minutos mais tarde com uma xcara de chocolate quente na mo.
Ela se comoveu com o gesto carinhoso e sorriu, pegando a xcara.
-Agora, precisamos ver o que voc vai dizer a Matt - ele observou,sentando-se junto dela.
-Vou dizer a verdade.
- isso mesmo o que precisa fazer - o sogro aprovou, parecendo deleitado. - Ainda  esposa de Matt e tem a obrigao de contar tudo o que aconteceu. E, como
seu marido, ele tem a obrigao de ouvi-la e acreditar em voc. Os dois tm outras obrigaes, como perdoar e esquecer, consolar e apoiar, honrar os votos que trocaram.
Meredith entendeu o que se passava na cabea de Patrick. Filho de imigrantes irlandeses, ele achava, como sua gente, que casamento era um lao indissolvel.
Estava querendo dizer que ela e Matt deviam ficar juntos.
-Sr. Farrell
-Quero que me chame de pai - ele interrompeu-a. Esperou, e o afeto desapareceu de seus olhos, quando ela se manteve calada. - No faz mal. No posso esperar
que uma pessoa como voc queira
-No  isso! - ela protestou, pondo a xcara na mesa. - Mas no deve alimentar esperanas quanto a mim e Matt.
Precisava faz-lo entender que era tarde demais para tentar salvaro casamento, mas, depois de todo o sofrimento que acabara de inflingir-lhe, no podia feri-lo
ainda mais, declarando que no amava seu filho. S queria uma chance de falar com Matt e contar-lhe a verdade sobre o aborto. Desejava pedir-lhe perdo e conceder
o seu.
-Sr. Farrell pai, sei o que est tentando fazer, mas no dar certo.Matte eu convivemos apenas por alguns dias antes de nos separarmos,no tivemos tempo
para para
- Para saber se havia amor? - Patrick perguntou, quando ela siciou. - Eu soube, na primeira vez em que olhei para minha esposa,ela era a mulher certa para mim.
-No sou to impulsiva - Meredith disse.
Ento, quis desaparecer no cho, quando notou o brilho divertidonos olhos azuis do sogro e adivinhou o que ele estava pensando.
- Mas devia ser muito impulsiva, onze anos atrs - Patric],; comentou. - Esteve com Matt apenas uma noite, aquela vez em Chicago e ficou grvida. Parece-me que
decidiu bem depressa que meu filho era o homem de sua vida, porque, de acordo com o que ele me contou nunca tivera relacionamento ntimo com nenhum outro.
-Por favor, no vamos falar disso - ela implorou, trmula.
-No sabe o que sinto o que senti por Matt, durante anos. Nos ltimos dias aconteceram certas coisas entre ns e  tudo to complicado!
Patrick lanou-lhe um olhar aborrecido.
-No h nenhuma complicao.  tudo muito simples. Voc amou meu filho, e ele amou voc. Fizeram um beb, so casados. S precisam passar algum tempo juntos
para redescobrirem o amor que um dia sentiram um pelo outro. Muito simples.
Meredith quase riu do modo ingnuo como ele interpretara a situao entre ela e Matt.
-Acho bom decidir depressa o que vai fazer - Patrick aconselhou.
-Existe uma moa que ama meu filho profundamente, e ele  capaz de acabar casando com ela.
Meredith sups que o sogro referia-se  moa cuja foto ela vira na escrivaninha de Matt e sentiu um estranho aperto no corao.
-A que est em Indiana? - perguntou, levantando-se. Patrick hesitou um instante, ento concordou com um gesto de cabea.
-Matt recusa-se a atender meus telefonemas - ela contou, mudando de assunto, enquanto pegava a bolsa. - Preciso falar com ele de qualquer modo.
-A fazenda  o lugar ideal para isso - Patrick comentou com um sorriso, levantando-se tambm. -  uma viagem de apenas duas horas at l, mas voc ter tempo
para pensar na melhor maneira de contar tudo, e Matt ser obrigado a ouvi-la.
-Est sugerindo que eu v procur-lo sozinha? No, no  boa ideia
-Acha que precisa de um acompanhante? - Patrick perguntou com ar incrdulo.
-No. Acho que Matt e eu precisaremos de um rbitro, quando nos encontrarmos. Estava pensando que o senhor, ele e eu podamos nos reunir aqui.
O velho ps as mos nos ombros dela.
-Meredith, v  fazenda. L, poder dizer a seu marido tudo que for preciso. Nunca ter chance melhor. Vendemos a casa e o resto das terras e  por isso que
Matt est l, para pegar nossas coisas
O telefone j foi desligado, de modo que vocs no sero interrompidos. Ele no poder fugir de voc, porque o carro em que viajou precisou ser guinchado para
a oficina por causa de um problema mecnico que apareceu no caminho. Joe ir busc-lo s na segunda-feira de manh. Patrick obviamente percebeu que ela comeava
a ceder, porque endereou-lhe um sorriso de incentivo.
-H onze anos de dio e mgoa entre vocs - persistiu. - Podem acabar com isso hoje mesmo! No  o que voc realmente quer? Sei como deve ter se sentido, quando
pensou que Matt no se importava com voc nem com o filho, mas pense no que ele sentiu todo esse tempo! Hoje  noite, todas as amarguras podero ficar para trs,
e vocs voltaro a ser amigos, como foram um dia.
Meredith estava propensa a aceitar o conselho, mas ainda hesitava.
-Depois que acabarem de conversar, voc pode ir para o hotel de Edmunton e ficar l - o sogro sugeriu.
Quanto mais ela analisava os argumentos de Patrick, mais percebia que ele tinha razo. Sem telefone, Matt no poderia chamar a polcia para expuls-la sob a
alegao de que ela invadira sua propriedade. Sem carro, no poderia fugir. Seria obrigado a ouvi-la. Imaginou como ele se sentira ao receber o telegrama forjado
por Philip, como ainda devia sentir-se, e, de repente, desejou desesperadamente colocar fim no ressentimento que se erguera entre os dois, para que pudessem separar-se
como amigos.
-Terei de passar em meu apartamento para pegar algumas roupas - disse simplesmente.
Patrick sorriu-lhe com ternura.
-Voc me deixa orgulhoso, Meredith - murmurou, deixando claro que sabia que o encontro com Matt no seria nada fcil.
-Acho que devo ir, agora. - Ela se ergueu na ponta dos ps e beijou-o.
Ele abraou-a com fora, e aquele gesto de carinho paternal quase a fez romper em lgrimas. Por mais que tentasse, Meredith no conseguia lembrar-se quando fora
a ltima vez que recebera um abrao do pai.
-Joe a levar - Patrick anunciou ao solt-la, e sua voz estava embargada de emoo. - Vai nevar, e as estradas ficaro escorregadias.
Meredith recuou um passo, movendo a cabea numa negativa.
-No, obrigada. Estou acostumada a dirigir na neve.
-Ainda acho que seria melhor Joe lev-la.
-No se preocupe comigo - ela pediu, virando-se para sair.
Ento, lembrou-se de que Lisa a convidara para jantar e ver a exposio de fotos de seu namorado numa galeria de arte.
-Posso usar o telefone? - pediu, voltando-se para Patrick.
-Naturalmente.
Aborrecida, Lisa exigiu uma explicao para o cancelamento dos planos e ficou furiosa, quando Meredith contou aonde ia e por qu. Furiosa com Philip Bancroft.
-Meu Deus! - exclamou. - Voc e Matt passaram todos esses anos pensando o pior um do outro! E tudo por causa do canalha de seu pai, aquele - Interrompeu-se
e fez uma pausa antes de concluir.
-Bem, boa sorte.
Assim que Meredith saiu, Patrick ficou em silncio por longo tempo, depois olhou para Joe, que estivera bisbilhotando, parado no vo da porta que levava  cozinha.
-O que achou de minha nora? - perguntou com um amplo sorriso. Joe entrou na sala, caminhando na direo dos sofs.
-Acho que seria timo, se ela me deixasse lev-la  fazenda. No poderia fugir, mesmo que quisesse, porque tambm estaria sem carro.
Patrick riu.
-Meredith pensou nisso, Joe. Foi por esse motivo que se recusou a ir com voc.
-Matt est furioso com ela e no vai ficar nada contente, com sua visita. Mais do que furioso. Nunca o vi desse jeito. Toquei no nome dela, ontem, e ele me
olhou de um modo que fez meu sangue gelar. Pelos telefonemas que ele d no carro, deduzi que pretende assumira direo da Bancroft. Em minha opinio, por pura vingana.
No sei de ningum que o enlouquea tanto quanto Meredith.
-Nem eu - declarou Patrick com um sorriso ainda mais largo.
-S ela tem esse poder.
-Voc est achando que, depois de Meredith contar o que o pai dela fez, e Matt esfriar a cabea, ele no vai deix-la sair da fazenda antes de segunda-feira?
-No estou apenas achando. Estou contando com isso.
-Aposto cinco dlares como vai errar. Patrick ficou srio.
-Joe, voc est apostando contra os dois?
-Normalmente, eu apostaria dez dlares, no cinco, como Matt olharia para aquele rosto lindo, para aqueles olhos, que ficam maravilhososcheios de lgrimas,
e a levaria para a cama no mesmo instante. Mas agora, se apostar vou perder.
-Por que diz isso?
-Porque Matt est doente. Pegou aquela maldita gripe no comeo da semana e ainda teimou em ir para Nova York. Quando fui busc-loao aeroporto, ontem, ele tossia
tanto que fiquei preocupado.
-Quer aumentar a aposta para dez dlares?
-Feito.
Sentaram-se para continuar a partida de damas, mas Joe no olhou para o tabuleiro, fitando o outro homem com ar duvidoso.
-Patrick, cancelo a aposta. No  justo eu tomar seus dez dlares. Voc mal viu Matt durante a semana. No sabe como ele est doente e furioso. Tenho certeza
de que expulsar Meredith.
-Ele pode estar furioso como voc diz, mas no to doente.
-Como pode ter tanta certeza?
Patrick fingiu concentrar-se nas peas espalhadas no tabuleiro.
-Matt esteve no mdico e comprou remdios, antes de partir para Indiana. Ele me ligou do carro, no caminho para a fazenda, e disse que j estava melhor.
-Voc est blefando, Patrick! Seu olho direito comeou a repuxar.
-Quer aumentar a aposta?


#34

Quando Meredith deixou o prdio onde morava, levando uma maleta, a neve mal comeara a cair. No entanto, quando entrou no Estado de Indiana, viu que ia enfrentar
uma nevasca. Trabalhadores limpavam a pista, e as luzes amarelas de seus caminhes e mquinas giravam, brilhando na escurido. Um caminho de mudanas passou por
ela, jogando neve suja nos vidros do carro. Cerca de trs quilmetros depois, ela viu o mesmo caminho meio tombado numa valeta, com o motorista ao lado, conversando
com outro caminhoneiro que parara para ajud-lo.
De acordo com o rdio, a temperatura continuava a cair, e a neve chegaria a uma altura de trinta centmetros nas prximas horas. Meredith, porm, estava pouco
preocupada com as ms condies do tempo. S conseguia pensar no passado e na necessidade de fazer Matt entender o que realmente acontecera. Quando Patrick sugerira
que fosse  fazenda, ela ainda estava chocada demais com a descoberta do que o pai fizera, para pensar com clareza. Agora, mais calma, tinha pressa de esclarecer
o mal-entendido que os fizera sofrer durante tanto tempo.
Fora maravilhoso descobrir que Matt tentara v-la no hospital, que no a abandonara. Ele tambm precisava livrar-se da carga de amargura que carregava por pensar
que ela fizera aborto e riscara-o de sua vida sumariamente.
Meredith tirou o p do acelerador, quando os faris iluminaram o trecho coberto de gelo, mas j era tarde demais, e o BMW deslizou para a frente, sem trao,
at chegar ao ponto em que a neve voltava a cobrir o asfalto. Assim que assumiu o controle do carro, ela voltou a pensar em Matt. Entendia, finalmente, a hostilidade
que pressentira nele.
Compreendia tudo, inclusive a ameaa feroz que ele lhe fizera na semana anterior: Tente me contrariar e se arrepender de ter nascido.
Considerando as injustias que Matt sofrera, era fcil entender porque vinha agindo de modo to vingativo. Levando em conta tudo o que ele acreditara a respeito
dela, era de admirar que ainda houvesse tentado ser gentil, tanto no baile da pera, como no almoo no Landrys. No seu lugar, Meredith no teria sido capaz de ser
educada, muito menos gentil.
De sbito, um pensamento de desconfiana cruzou-lhe a mente. Matt poderia ter mandado aquele telegrama para si mesmo, para justificar-se perante Patrick, mostrando
que fora ela quem o abandonara. No. Ele s fazia o que queria, sem dar satisfaes a ningum. Deixara-a grvida, casara com ela, enfrentara a ira de Philip sem
medo e sem apresentar desculpas. No teria se acovardado diante do prprio pai. Ele era um homem direito. Apesar de ter recebido um telegrama cruel, antes de enviar
a resposta, mandando-a dar entrada no divrcio, pegara um avio e fora a Chicago para v-la, talvez para tentar demov-la da ideia de separao.
Lgrimas nublaram a viso de Meredith, e ela acelerou sem perceber. Precisava chegar at ele, tinha de conseguir seu perdo e perdo-lo. A tristeza e a ternura
que sentia por Matt, o desejo de fazer com que ele fosse seu amigo no pareciam representar nenhuma ameaa ao seu futuro com Parker. Ela s queria sufocar o tumulto
do passado e viver em paz. Da prxima vez que Matt lhe estendesse a mo, como fizerano baile da pera, ela a apertaria, sorrindo. A amizade entre eles tambm no
precisaria ficar limitada a encontros durante eventos sociais. Matt era um empresrio brilhante, um grande ttico, que poderia aconselh-la, quando ela tivesse dvidas
sobre como agir nos negcios. Almoariam juntos, ela exporia o problema, e ele a orientaria. Era assim que velhos amigos comportavam-se.
A estrada rural que saa de Edmunton estava em pssimas condies, mas Meredith mal notou, dominada pela nsia de chegar  fazenda. Por fim, alcanou a ponte
de madeira sobre o riacho que corria pela propriedade dos Farrell e viu que a neve acumulara-se, formando uma camada alta. Acelerou para evitar que o carro atolasse
e o poderoso veculo atravessou a ponte, derrapando perigosamente, os pneus guinchando, at chegar ao caminho que levava ao ptio fronteiro da casa.
 luz da lua, refletida na expanso de neve, as rvores nuas do ptio erguiam-se fantasmagricas, imagens distorcidas do que haviam sido naquele vero to distante.
Como esqueletos assustadores, lanando sua sombra na casa pintada de branco, pareciam estar dizendo a Meredith para ir embora. Ela sentiu um arrepio, mas continuou
emfrente at parar perto da escada. Apagou os faris e desligou o motor. Uma luz filtrava-se fracamente por uma vidraa, no andar de cima. Matt estava mesmo l
e ainda no fora dormir. E ficaria furioso quando a visse.
Reclinando a cabea no encosto do banco, ela fechou os olhos, reunindo coragem para enfrentar o que aconteceria nos prximos minutos.
-Por favor, faa com que Matt acredite em mim - pediu a Deus num murmrio.
Abrindo os olhos, endireitou-se, tirou a chave da ignio e pegou a bolsa. Onze anos atrs, suas preces para que Matt fosse v-la no hospital haviam sido atendidas,
embora ela no ficasse sabendo. Mas, depois disso, nunca mais rezara, e Deus devia estar zangado. Reprimiu um impulso histrico de riso ao refletir que era espantoso,
mas conseguira despertar a raiva de muita gente, mesmo esforando-se tanto para ser uma boa pessoa.
Saiu do carro e, no instante em que fechava a porta, viu a luz do alpendre acender-se. Tensa, comeou a andar, mas perdeu o equilbrio, quando os ps afundaram
na neve, e precisou agarrar-se ao pra-choque dianteiro para no cair. Derrubou as chaves, que sumiram perto do pneu, e abaixou-se para peg-las. Mas, ento, lembrou-se
que tinha cpias na bolsa e decidiu que no valia a pena ficar cavando a neve. No num momento daqueles, em que estava prestes a enfrentar a situao mais difcil
de sua vida.
Parado no vo da porta, Matt olhava para a cena desconcertante a sua frente. Na luz que se espalhava no cho branco, viu uma mulher andar junto a um carro, abaixar-se,
erguer-se novamente e comear a andar para a escada, cercada pela neve rodopiante. Agarrou-se ao batente, pois se sentia fraco e tonto por causa da gripe. A febre
devia estar causando alucinaes. A mulher no podia ser real. Mas, quando ela afastou do rosto os cabelos salpicados de neve, ele achou o gesto to familiar que
seu corao apertou-se dolorosamente.
Ela subiu os degraus e parou diante dele, encarando-o.
-Oi, Matt.
Ele teve certeza de que estava delirando. Ou, talvez, sonhando, ou morrendo, l no andar de cima, deixando seu esprito livre para vaguear. A apario, imagem
perfeita de Meredith, ensaiou um sorriso
-Posso entrar? - perguntou. Um violento golpe de vento atirou neve no rosto de Matt, sacando-o do torpor. No era nenhuma apario, mas sim Meredith,em carne
e osso. Fraco demais para agarr-la e lev-la de volta ao carro, temeroso de ficar exposto ao frio, doente como estava, ele se virou e entrou, deixando com ela a
deciso de segui-lo ou no.
Ela entrou tambm e fechou a porta, indo atrs dele para a sala escura.
-Voc deve ter os instintos de um co de caa e a tenacidade de um buldogue, para me encontrar aqui - Matt comentou, acendendo a luz do teto.
Meredith, que se preparara para uma recepo muito pior e mais explosiva, respirou, ligeiramente aliviada.
-Tive ajuda - admitiu e, para resistir ao impulso terno de tomar o rosto carrancudo entre as mos e pedir perdo, tirou o casaco.
-O mordomo est de folga - ele zombou. - Voc mesma ter de pendurar seu agasalho.
Em vez de replicar no mesmo tom, como seria de esperar, Meredith abriu o casaco sobre uma cadeira.
-E ento? - ele perguntou. - O que voc quer? Ela riu, meio sem flego por causa do nervosismo.
-Quero uma bebida.
-Infelizmente, estamos sem Dom Prignon - ele informou, sarcstico. - Ter de contentar-se com usque ou vodca.
-Vodca, por favor.
Matt, caminhando para a cozinha, teve a impresso de que seus joelhos haviam se transformado em gelia, mas conseguiu verter um pouco de vodca num copo e voltar
para a sala.
Ela pegou o copo, que ele lhe entregou bruscamente, e olhou em volta.
- estranho ver voc aqui de novo, depois de tantos anos - observou.
-Por qu? Foi daqui que eu sa. No passo de um operrio sujo, esqueceu?
Incrdulo, Matt viu-a ficar rubra, parecendo embaraada.
-Sinto muito por ter dito isso - ela se desculpou. - Queria mago-lo, mas no penso assim, no h nada de errado em ser operrio. Na verdade, admiro uma pessoa
trabalhadora, decente, que
-Onde voc quer chegar, Meredith? - ele interrompeu-a com violncia e cambaleou, quando sentiu uma forte pontada na cabea.
Apoiou-se na parede, enquanto a sala girava a sua volta.
-O que foi? - Meredith perguntou, alarmada. - Est doente? Matt achou que ia tombar, como um beb aprendendo a andar, ou vomitar na frente dela.
-Saia daqui - ordenou, andando com dificuldade na direo da escada.
-Voc est doente! - Meredith gritou, correndo at ele, quando o viu segurar-se no corrimo e oscilar como se fosse cair. Pegou-o pelo brao para ajud-lo e
sentiu o calor exagerado de sua pele. - Est queimando de febre!
-V embora! - Matt gritou, empurrando-a.
-Pare de falar e apie-se em mim - ela comandou, passando o brao dele ao redor dos ombros.
Ele no protestou, talvez fraco demais para isso, e, quando finalmente chegaram ao quarto, desabou na cama. Fechou os olhos e ficou imvel. Aterrorizada, Meredith
pegou-lhe o brao para sentir a pulsao e, en seu nervosismo, no captou nada. Era como se ele estivesse morto,
-Matt! No pode morrer agora! Vim at aqui para contar certas coisas que voc precisa saber, para pedir perdo! - Meredith gritou sacudindo-o pelos ombros.
Por fim, o tom de desespero que havia na voz dela penetrou a mente entorpecida de Matt e, naquele estado de prostrao, ele no foi capaz de sentir nenhuma animosidade.
S podia pensar que estava muito doente e que Meredith encontrava-se a seu lado.
-Pare - pediu num murmrio. - Pare de me sacudir, droga!
Meredith soltou-o, profundamente aliviada, e tentou recuperar a calma. A ltima pessoa que vira to doente fora o pai, e ele quase morrera. Mas Matt era jovem
e forte, no sofria do corao. Incerta sobre o que fazer para ajud-lo, olhou em volta e viu dois frascos de comprimidos no criado-mudo. Nos rtulos havia a instruo
de que os medicamentos deviam ser tomados de trs em trs horas.
-Matt? A que horas tomou os remdios?
Ele ouviu a pergunta e esforou-se para abrir os olhos, mas, antes de conseguir, sentiu que Meredith tomava-lhe a mo e inclinava-se sobre ele.
-Matt, est me ouvindo? - ela perguntou, suplicante.
-No sou surdo. E no estou morrendo. Peguei gripe e fiquei com os brnquios inflamados. Tomei os comprimidos mais ou menos h meia hora.
O colcho afundou, quando ela sentou-se a seu lado, e ele podia jurar que sentia dedos macios afastando os cabelos de sua testa. Estava obviamente  beira do
delrio, e viu a cena que se desenrolava diante de seus olhos fechados como se estivesse tendo um sonho. Visualizou
Meredith debruada sobre ele, preocupada, afastando seus cabelos para trs carinhosamente. Uma cena hilariante.
-Tem certeza de que  s gripe? - ela perguntou, e sua voz parecia vir de muito longe.
Ele torceu os lbios num sorriso meio espasmdico.
-Queria que fosse coisa pior?
-Acho melhor chamar um mdico.
-No. S preciso dos afagos de uma mulher.
-Essa mulher pode ser eu? - ela perguntou com uma risadinha trmula.
-Muito engraado.
-Bem, vou deix-lo sozinho, para que descanse.
-Obrigado - ele murmurou, virando o rosto para o lado, j quase adormecido.
Meredith cobriu-o, notando, pela primeira vez, que ele estava descalo. Ajeitou os cobertores cuidadosamente a sua volta e andou at a porta, erguendo a mo
para o interruptor. Antes de apagar a luz, olhou para Matt mais uma vez. Ele respirava com dificuldade, estava com olheiras e abatido, mas, mesmo doente e dormindo,
ainda tinha a aparncia de um temvel adversrio.
-Matt, por que as coisas nunca acontecem como deveriam, quando chego perto de voc? - ela perguntou baixinho, apagando a luz.
Sempre odiara enfrentar confuso e incerteza em sua vida pessoal, pois isso a deixava com a sensao de estar desamparada diante de um perigo. No trabalho, no
entanto, essas situaes eram estimulantes, desafiadoras, porque, quando ela assumia riscos e usava a intuio, quase sempre era recompensada. Se isso no acontecia,
vinha a frustrao, mas no era nenhum desastre.
Em toda sua vida de adulta correra apenas dois graves riscos pessoais, e em ambas as vezes os resultados haviam sido catastrficos: entregara-se a Matthew Farrell
e depois casara-se com ele. Mesmo aps onze anos, ainda tentava desvencilhar-se das consequncias.
Refletiu que Lisa vivia criticando Parker por ser um homem previsvel demais, mas ele era totalmente confivel, e a amiga no entendia que ela s queria uma
vida sem grandes surpresas e um homem em quem pudesse confiar.
Na sala novamente, vestiu o casaco e saiu para ir buscar a maleta no carro. Quando voltou, parou um momento para olhar ao redor. Nada mudara. O sof e as poltronas
diante da lareira ainda eram osmesmos. Os abajures e os livros no haviam sido mudados de lugar. De diferente, s as caixas abertas no cho, prontas para receber
os pertences dos Farrell. Apenas uma delas estava cheia de objetos embrulhados em jornal.



#35

Ainda nevava, na manh seguinte, quando Meredith foi ver como Matt estava. Pousou a mo na testa dele e constatou que a febre continuava, mas no to alta.
Voltando para o quarto onde dormira, vestiu cala de l azul-marinha e um suter grosso, da mesma cor, com listras amarelas, e foi para a frente do espelho pentear
o cabelo. Comeou a rir baixinho, sem poder conter-se. Quanto mais pensava na noite anterior, mais achava engraado o que acontecera. Depois de ter feito uma viagem
atravs da neve, dominada pelo nervosismo e pela ansiedade, encontrara-se com Matt, esperando pelo pior, e ele desabara sem que pudessem trocar mais do que algumas
poucas palavras! Era bvio que alguma perversa influncia sobrenatural entrava em ao, sempre que os dois aproximavam-se um do outro.
Na verdade, ela devia agradecer o fato de Matt estar to doente que no poderia p-la para fora  fora, mesmo que quisesse.  tarde, provavelmente, ele estaria
sem energia para mand-la embora, mas bastante bem para que ela abordasse o assunto explosivo, sem receio de v-lo piorar. No caso de ele insistir em expuls-la,
ela ganharia tempo, alegando que no podia ir embora porque perdera as chaves do carro na neve, sem explicar que tinha outras na bolsa. No estaria mentindo, aPenas
omitindo parte da verdade.
Satisfeita com o plano, escovou os cabelos e ajeitou-os com as mos, deixando-os soltos. Passou batom, escureceu os clios com rmel e recuouum passo para examinar
o efeito. Gostou da prpria aparncia, apesar de achar que os cabelos estavam compridos demais.
Determinada a encontrar um termmetro e aspirinas, foi ao banheiro,no fim do corredor. Abriu o pequeno armrio com espelho e viu um termmetro e vrios frascos,
a maioria deles com os rtulos amareladospelo tempo. Franziu a testa, indecisa. A no ser por uma rara clica menstrual ou uma dor de cabea, nunca precisava de
remdios.
O que uma pessoa gripada e com os brnquios inflamados devia tomar? Muitos dos empregados da loja haviam contrado a gripe que atacara Matt, inclusive Phyllis,
e Meredith tentou lembrar-se do que a secretria dissera sobre os sintomas. Febre, dor de cabea lancinante nuseas, dores musculares, tosse e peito congestionado.
Pegou o termmetro e um frasco de aspirinas. Havia um vidrinho de Mertiolate, mas isso era s para cortes, e um tubinho comprido, que ela examinou, descobrindo
que se tratava de um creme para friccionar msculos doloridos. Tirou a tampinha, e o cheiro forte fez seus olhos lacrimejarem.
Continuando a procurar, encontrou um vidro grande de cor marrom, cujo rtulo dizia: leo de Castor Smiths. Ela no fazia a mnima ideia do que aquilo curava,
mas devia ter um gosto horrvel. Rindo, pegou-o, pretendendo coloc-lo na bandeja que levaria para Matt s de brincadeira. Ocorreu-lhe que estava muito alegre, para
uma mulher presa numa casa de fazenda, com um homem doente que a odiava, mas justificou-se, atribuindo a alegria ao fato de que logo seria capaz de dissipar aquele
dio. Na verdade, estava to contente, que parecia ter dezoito anos outra vez.
Viu um pote azul, baixo e largo, e reconheceu o rtulo. Era uma substncia descongestionante, de odor quase to forte quanto a do tubinho, mas ela sabia que
ajudaria Matt a sentir-se melhor. Olhando para o frasco de aspirinas, lembrou que o remdio podia curar dor de cabea, mas fazia mal ao estmago. Se Matt estava
com nuseas, seria melhor procurar outra coisa. Gelo! Compressas de gelo eram muito eficientes.
Desceu para a cozinha, levando tudo o que selecionara, e comeou a procurar nos armrios e gavetas algo que pudesse servir como bolsa de gelo, mas no encontrou
nada adequado. Ento, lembrou-se de que vira um estranho saco de borracha no armrio sob a pia do banheiro quando o abrira para pegar uma toalha. Tornou a subir
e pegou o saco decepcionando-se ao ver que estava sem tampa. Ajoelhando-se no cho apalpou o armrio no espao atrs das toalhas e embaixo delas, e encontrou a tampa,
mas havia um tubo comprido saindo dela, com uma braadeira de metal na extremidade.
Endireitando-se, examinou o apetrecho e pensou em arrancar o tubo da tampa, mas descobriu que era tudo feito numa pea s. Sem outra alternativa, puxou a braadeira
para baixo, apertou-a e, por medida desegurana, deu um n no tubo. Voltou para a cozinha para encher o saco com gua e gelo.
Isso feito, decidiu preparar alguma coisa para o caf da manh, mas havia pouca escolha. Tinha de ser algo leve, fcil de ser digerido, o que eliminava quase
tudo o que havia no armrio, mas felizmente havia po de forma. Na geladeira, ela encontrou um pacote de presunto fatiado, um de bacon, um tablete de manteiga, ovos
e dois bifes. Era evidente que Matt no se preocupava com colesterol.
Colocou duas fatias de po na torradeira e foi ao armrio ver o que poderia fazer para o almoo. A no ser por algumas latas de sopa, todo o resto era condimentado
demais, ou oleoso. No fundo de uma prateleira, achou uma lata de leite condensado e quase deu um grito de triunfo.
Leu o rtulo, que dizia que o leite podia ser usado puro ou diludo, e, incerta sobre a preferncia de Matt, decidiu mistur-lo com gua quente e um pouquinho
de manteiga.
Quando tudo ficou pronto, foi  sala e tirou o tampo removvel de uma mesinha, que tambm servia como bandeja, de modo a poder levar todas as coisas para cima
de uma s vez.
Matt acordou de um sono agitado, sentindo a cabea latejar horrivelmente. Virando-se de lado, obrigou-se a abrir os olhos e ficou meio confuso ao ver um antiquado
despertador, cujos ponteiros marcavam oito e meia, em vez do rdio-relgio que tinha em seu quarto. Ento, lembrou-se de que se encontrava na fazenda e que estivera
muito doente. Pelo jeito ainda estava. A cabea parecia que ia estourar, ele se sentia fraco, mas a camisa estava ensopada de suor, sinal de que a febre cedera.
Tirou dois comprimidos de cada frasco sobre o criado-mudo e colocou-os na boca, pegando o copo de gua, e esses movimentos simples Custaram-lhe enorme esforo.
Depois de tomar o remdio, pensou em levantar-se e tomar um banho, mas sentia-se to exausto que decidiudormir mais um pouco. Voltou a ajeitar a cabea no travesseiro
e fechouos olhos, mas uma lembrana vaga percorria sua mente, algo relacionado com Meredith. No pico da febre, tivera um sonho delirante, noqual ela chegara numa
tempestade de neve e ajudara-o a ir para a cama. Como seu subconsciente podia ter criado imagens to estranhas? Meredith o jogaria num rio, num precipcio, ou o
arruinaria financeiramente, se pudesse. Nunca o ajudaria, em circunstncia alguma. Ele comeava a cochilar, quando ouviu os degraus da escada rangerem,como se algum
estivesse subindo. Sobressaltado, sentou-se e comeou a afastar os cobertores, embora o movimento brusco o tivesse deixado tonto e nauseado.
Nesse momento, bateram na porta.
-Matt?
Era a voz de Meredith, suave, musical, educada, inconfundvel. Ele ficou imvel, olhando para a porta, completamente confuso.
-Matt, eu vou entrar.
A maaneta girou, a porta abriu-se, e Meredith entrou. No fora um sonho, afinal. Ela estava mesmo l.
-O que est fazendo aqui? - Matt perguntou em tom to furioso que Meredith quase derrubou a bandeja.
-Vim trazer uma bandeja com remdios e seu caf da manh ela explicou, aproximando-se da cama, ignorando a expresso de raiva no rosto dele.
Matt olhou para a bandeja, e seus olhos fixaram-se no saco de borracha em cujo tubo ela dera um n.
-O que pensa que vai fazer com isso?
-Pr na sua cabea - ela respondeu, determinada a no se deixar intimidar.
-Isso  piada, no ? - ele perguntou em tom de maldosa zombaria.
-No - ela respondeu, desconcertada, pondo a bandeja na cama.
-Eu precisava pr gelo
-Dou-lhe cinco segundos para sair deste quarto e um minuto para deixar esta casa - Matt gritou. - Se no desaparecer, eu mesmo a jogarei para fora!
Inclinou-se para a frente, empurrando os cobertores, com a clara inteno de levantar-se.
-No! - Meredith exclamou em tom de splica. - No adianta me ameaar, porque no posso ir embora. Deixei as chaves do carro cair na neve e elas desapareceram.
Mas, mesmo que isso no tivesse acontecido, eu no sairia daqui sem lhe dizer tudo o que preciso.
-No estou interessado, seja l o que for - ele declarou, lutando para afastar os cobertores.
-Voc no se comportou assim, ontem  noite - Meredith observou levantando a bandeja antes que ele a derrubasse. - No precisa ficar to alterado, s porque
preparei um saco de gelo para pr na sua cabea.
Ele a fitou com evidente assombro.
-Voc fez o qu? - indagou num murmrio.
-Tentei explicar. Preparei um saco de gelo para voc pr na cabea.
Assustada, Meredith viu-o cobrir o rosto com as mos e cair para trs, notando que os ombros largos estremeciam. Ento, Matt comeou a tremer dos ps  cabea,
emitindo sons estranhos, abafados pelas mos grandes. Ela achou que ele estava tendo uma convulso e apavorou-se.
-O que foi? Vou chamar uma ambulncia! - gritou, pousando a bandeja no criado-mudo e correndo para a porta. - Tenho um telefone no carro.

Sara do quarto e aproximava-se da escada, quando a risada de Matt explodiu, alta, prolongada, parecendo incontrolvel. Estacou, atnita, percebendo que a convulso
fora na realidade um louco ataque de riso que ele tentara conter. No conseguia entender o que podia haver de to hilariante num saco de gelo. Ela tambm achara
estranho aquele tubo de borracha flexvel que saa da tampa, como se o saco fosse um irrigador para higiene ntima, mas descartara a ideia ao refletir que nunca
vira nada parecido entre os produtos descartveis usados para esse fim, encontrados em farmcias.
Virou-se e voltou para o quarto, mas parou um pouco antes da porta, acanhada e indecisa. Num ponto, a bobagem que cometera fora til, porque fizera Matt rir
e esquecer a ameaa de expuls-la. O riso devia ter acalmado sua raiva, deixando-o menos assustador. Mas, mesmo que ele continuasse furioso, ela precisava tentar
conversar e promover a paz entre os dois. Decidida, ps as mos nos bolsos da cala e entrou no quarto.
No instante em que a viu, Matt precisou sufocar outro acesso de riso. Ela se aproximava da cama, com as mos nos bolsos, numa pose Displicente, fingindo que
no sabia o que ele achara to engraado. para completar o quadro de cmica ingenuidade, s precisava olhar para o teto e comear a assobiar.
De sbito, Matt perdeu toda a vontade de rir. Com o crebro anulado pela doena, demorara para atinar com o motivo que levara Meredith a procur-lo. Ela se dera
quele trabalho todo de ir at a fazenda Porque descobrira que ele era o novo proprietrio do terreno de Houston e que, se quisesse compr-lo, teria de pagar dez
milhes de dlares amais do que previra. Com certeza fora atrs dele para faz-lo baixar o Preo, disposta a usar de qualquer recurso, e sujeitara-se at a servir-lhe
de enfermeira.
-Como me encontrou? - ele quis saber, enojado com aquela transparente tentativa de manipulao.
Meredith percebeu sua alarmante mudana de humor e ficou inquieta.
-Fui ao seu apartamento, ontem  noite - explicou. - Nessa bandeja
-Esquea a bandeja - ele ordenou em tom rspido. - Perguntei como me encontrou.
-Seu pai me disse que voc estava aqui.
-Voc deve ter feito uma tremenda cena dramtica para convenc-lo a ajud-la - Matt conjeturou com bvio desprezo. - Meu pai no lhe daria a mnima informao
sobre nada.
Meredith estava to desesperada para obrig-lo a ouvi-la e acreditar em suas palavras, que, sem pensar, sentou-se na borda da cama.
-Seu pai e eu conversamos e expliquei certas coisas - comeou.
-Ele acreditou em mim e me disse onde voc estava, para que eu pudesse explicar-lhe tambm.
-Ento, explique - Matt concedeu sarcasticamente, recostando-se nos travesseiros. - Mas seja breve.
Meredith examinou o rosto hostil, respirando fundo para acalmar-se e conseguir fit-lo nos olhos.
-Vai falar, ou ficar a, olhando para minha cara? - ele perguntou com grosseria.
Ela estremeceu, mas no baixou o olhar.
-Vou falar, mas o que tenho a dizer  um pouco complicado.
-Mas convincente, pelo jeito - Matt observou.
-Espero que sim.
-Comece, ento, mas v direto aos pontos principais: o que deseja que eu acredite, o que oferece e o que quer em troca. Na verdade, at podemos pular o ltimo,
porque sei muito bem o que voc quer, mas estou curioso para ver como planeja conseguir.
As palavras dele atingiram Meredith como chicotadas, mas ela se manteve firme, olhando-o nos olhos.
-Desejo que acredite na verdade, que  o que vou lhe contar. O que tenho a dar so algumas oferendas de paz, e foi para entreg-las que fui ao seu apartamento.
O que quero em troca  uma trgua e entendimento entre ns.
Ele sorriu com desdm.
-Quer apenas uma trgua, um entendimento? - Fez uma pausa e, como Meredith no dissesse nada, incentivou rudemente: - Prossiga!
-Agora que vi que seus motivos so nobres, diga o que tem de bom para oferecer.
Meredith percebeu a ironia, pois era evidente que Matt imaginava que ela lhe ofereceria algo insignificante. Ento, preparou-se para colocar o trunfo na mesa,
oferecendo o que era de vital importncia para ele.
-Ofereo a aprovao do projeto para o rezoneamento de Southville - declarou, vendo momentnea surpresa nos olhos dele. - Sei que meu pai impediu que seu pedido
fosse aprovado, mas gostaria quevoc soubesse que nunca concordei com isso. Briguei com ele por esse motivo, muito antes daquele dia em que ns dois fomos almoar
juntos.
-Que senso de justia voc adquiriu, de repente! - Matt zombou. Ela sorriu de leve.
-Imaginei que fosse reagir assim. No seu lugar, eu faria o mesmo-admitiu. - O que importa  que seu pedido ser aprovado, assim que voc tornar a apresent-lo
 comisso. Meu pai usou a influncia que tem para bloquear o projeto e prometeu que tornar a us-la para reverter a situao. Dou-lhe minha palavra de que o farei
cumprir apromessa. Matt deu uma risada desagradvel.
-Se meu pedido de rezoneamento for aprovado at s cinco da tarde de tera-feira, sem ser apresentado novamente, mandarei que meus advogados cancelem os processos
a que daro entrada na quarta-feira. Um deles  contra o senador Davies e seu pai, por exerccio ilegal de influncia sobre funcionrios pblicos, e outro contra
a comisso de zoneamento de Southville por deliberadamente deixar de levar em considerao os interesses da comunidade.
Meredith sentiu-se mal ao descobrir o que Matt planejara fazer para vingar-se, mobilizando foras com uma rapidez incrvel. Lembrou-se do que a Business Week
dissera sobre as atitudes dele, chamando-as de um retorno ao tempo em que a lei do olho por olho, dente por dente, era considerada justia, no vingana cruel e
desumana. Ento, refletiu que, a despeito de sua reputao de homem implacvel, apesar de ter todos os motivos para desprez-la, Matt tentara ser amigvel no baile
da pera e no almoo no Landrys. Ele s assestara seu poder contra ela e Philip, quando fora atacado alm de seu limite de tolerncia. Esse pensamento encheu-a
de nova coragem.
-O que mais? - Matt indagou, impaciente.
-No haver mais nenhum ato de vingana por parte de meu pai.
-Isso significa que poderei ser scio do clube esnobe que vocs frequentam?
Meredith corou, concordando com um gesto de cabea.
-No estou interessado - ele informou. - Nunca estive. O que mais tem para oferecer?
Ela hesitou, torcendo as mos cruzadas no colo.
-Nada mais? - ele insistiu, perdendo a pacincia. - Essa  toda sua oferta? Voc espera que eu a perdoe e lhe d o que voc realmente quer
-Como assim, o que realmente quero?
-O terreno de Houston - ele esclareceu em tom glido. - Entre os motivos nobres que a levaram a me procurar em meu apartamento e depois aqui, h esse, que
voc no mencionou. Ou estarei enganado a respeito da pureza de suas intenes, Meredith?
-Admito que decidi procur-lo quando fiquei sabendo que voc havia comprado o terreno - ela confessou calmamente.
-E agora que me encontrou, est disposta a dizer ou fazer qualquer coisa para me convencer a vend-lo pelo mesmo preo que o comprei, certo? Existe algum limite?
-No entendo o que est querendo dizer.
-O que mais est preparada para me dar, alm do que j ofereceu?
-Eu
-No se d ao trabalho de responder. Nada do que faa ou diga ter a menor importncia para mim. Mesmo que banque a enfermeira, ou se oferea para ir para a
cama comigo, o preo do terreno continuar sendo de trinta milhes de dlares. Fui claro?
Matt surpreendeu-se com a expresso calma que viu no rosto dela. Ele a agredira com cada uma das palavras que dissera, ameaara-a com processos que desencadeariam
um escndalo, insultara-a at no tom de voz, falando com zombaria e desprezo, tentara intimid-la de um modo que j assustara ou enfurecera pessoas muito mais endurecidas
mas no fora capaz de faz-la perder o controle sobre as emoes. Muito pelo contrrio, se ele no soubesse que isso era impossvel, diria que Meredith olhava-o
com ar de arrependimento e ternura.
-Foi bastante claro - ela concordou, levantando-se.
-Vai embora?
-No - ela respondeu sorrindo. - Vou dar-lhe seu caf da manhe continuar bancando a enfermeira.
-Pelo amor de Deus! - Matt explodiu. - No entendeu o que eu disse? Nada do que fizer me levar a mudar de ideia sobre o terreno de Houston!
-Entendi muito bem e aceito sua deciso como uma espcie de punio por erros passados. Voc no poderia ter escolhido outra melhor,Matt - ela declarou. -
Eu queria aquela propriedade para Bancroft & Company, e vai ser horrvel, quando voc a vender para outra empresa, mas no podemos pagar trinta milhes. Fez uma
pausa, enquanto ele a olhava, atnito.
-Voc tirou de mim algo que eu desejava desesperadamente - prosseguiu. - Podemos, agora, nos considerar quites e fazer uma trgua?
O primeiro impulso de Matt foi mand-la para o inferno, mas essa foi uma reao puramente emocional e, quando se tratava de negcios, ele nunca permitia que
as emoes prejudicassem seu raciocnio. E, raciocinando, concluiu que iniciar um relacionamento pelo menos civilizado com Meredith fora o que ele esperara nas duas
ltimas vezes em que a encontrara. E ali estava ela, oferecendo-lhe isso e, ao mesmo tempo, concedendo-lhe a vitria com elegncia admirvel. E quase irresistvel.
Parada junto  cama, com os cabelos soltos nos ombros, as mos nos bolsos, esperando pela deciso dele, Meredith parecia mais uma estudante que fora chamada  diretoria,
do que uma executiva de umagrande empresa. E ainda conseguia manter a aparncia de orgulhosa mulher de sociedade, majestosa, serena, linda.
Olhando-a, Matt compreendeu, finalmente, sua antiga obsesso por ela. Meredith Bancroft era a essncia mais pura da feminilidade, mutvel, imprevisvel, altiva
e meiga, espirituosa e solene, serena e explosiva, recatada, inconscientemente provocante.
Continuar com aquela guerra ridcula contra ela no levaria a nada, ele refletiu. Se declarassem a paz, cada um poderia seguir seu caminho, sem mgoas nem rancor.
Era hora de enterrar o passado, algo que deveria ter sido feito muito tempo atrs. A vingana, no valor de dez milhes de dlares, j fora executada.
De repente, ele se lembrou do momento em que a vira entrar no quarto, carregando a bandeja com vrias coisas e uma bolsa de gelo improvisada, e precisou conter
o riso. Meredith pareceu notar a mudana em seu humor e perceber que ele estava prestes a capitular, porque relaxou os ombros, e seus olhos mostraram um brilho de
alvio. O fato de ela poder ver to bem o que se passava em seu ntimo desconcertou-o e fez com que ele decidisse prolongar o suspense.
-No posso fazer negcios, se estou de cama - disse, cruzando os braos no peito.
-Acho que, se voc comesse alguma coisa, teria mais disposio-ela comentou, sorrindo.
-Duvido - ele respondeu, carrancudo, mas o sorriso dela era to contagiante que ele foi obrigado a sorrir tambm.
-Trgua? - Meredith ofereceu-lhe a mo. - Mas, antes que Matt tivesse tempo de apert-la, puxou-a para trs. - Antes de selarmos o trato, preciso avis-lo de
uma coisa.
-O qu?
-No quero que pense que desisti do terreno de Houston, s porque disse que aceitava a derrota como uma punio. Quis dizer que, se com um processo judicial,
eu no conseguir fazer com que me venda a propriedade pelo preo de mercado, a, sim, aceitarei o fato de que perdi, sem ressentimento contra voc. Espero que entenda
que no  nada pessoal, s uma questo de negcios.
Matt precisou reprimir novamente a vontade de rir.
-Admiro sua honestidade e sua determinao - declarou. - Contudo, sugiro que reconsidere essa ideia de levar o caso  justia. Um processo contra mim custar
uma fortuna, e voc acabaria perdendo.
Meredith sabia que ele tinha razo e, na verdade, a perda do terreno no significava tanto, no momento. Conseguira uma vitria muito mais importante, levando
aquele homem poderoso e difcil da raiva ao riso fazendo-o aceitar a ideia de uma trgua.
Olharam-se e sorriram um para o outro. Naquele instante de compreenso, a barreira de raiva e sofrimento, erguida entre eles durante onze anos, comeou a desmoronar.
Meredith estendeu a mo num gesto de paz e amizade, observando a de Matt aproximar-se, os dedos longos deslizarem pelos dela, fechando-se num aperto firme.
-Obrigada - murmurou, fitando-o nos olhos.
-De nada - ele respondeu, soltando a mo dela, soltando o passado Como dois estranhos que por acidente houvessem partilhado algo mais profundo e perturbador
do que esperavam, retraram-se imediatamente para territrios mais seguros. Matt reclinou-se nos travesseiros e Meredith voltou a ateno para a bandeja esquecida.
Pelo canto dos olhos, ele a viu pegar o ofensivo utenslio de borracha e coloc-lo no cho, onde no poderia ser visto.
-Achei que voc no estaria com muita fome, mas preparei alguma coisa para o caf - ela explicou.
-Parece tudo muito gostoso - ele mentiu, olhando para a bandeja
-Adoro leo de castor, como aperitivo, naturalmente. O que h naquele pote azul? Mingau?
Meredith riu e pegou um prato coberto por uma tigela emborcada
-No! E o leo de castor foi uma brincadeira.
Agora, que a batalha emocional entre os dois terminara, Matt percebeu que no ia conseguir manter-se acordado, dominado por uma invencvel sonolncia que deixava
as plpebras pesadas como chumbo. No se sentia mais doente, mas estava exausto.
-Agradeo, Meredith, mas no estou com fome - disse.
-Eu sei, mas precisa comer.
-Por qu? - ele perguntou.
Ento, refletiu que ela, que onze anos atrs no sabia acender um fogo, tivera o trabalho de preparar-lhe o caf da manh. Forou-se a endireitar o corpo, apoiando
as costas na cabeceira da cama, disposto a comer um pouco.
-Porque, se no comer, perder as foras - ela respondeu. Pegou um copo que continha um lquido branco e sentou-se ao lado dele. - Tome.
Ele pegou o copo e girou-o, olhando-o com desconfiana.
-O que  isso?
-Leite, que agora est apenas morno. Achei uma lata de leite condensado no armrio da cozinha.
Ele fez uma careta, mas levou o copo aos lbios e tomou um gole.
-Coloquei um pouco de manteiga - ela acrescentou, quando ele engoliu depressa, parecendo ter achado o gosto horrvel.
Matt entregou-lhe o copo, deitou-se e fechou os olhos.
-Manteiga? Por qu?
-No sei - ela admitiu. - Mas acho que  porque minha governanta me dava leite com manteiga, quando eu ficava resfriada.
Ele abriu os olhos, esboando um sorriso.
-E eu, que costumava invejar as crianas ricas! Meredith sorriu, erguendo a tigela que cobria o prato.
-O que tem a?
-Veja.
Ele olhou para as torradas frias e suspirou, aliviado, pois no conseguiria ficar acordado tempo suficiente para com-las.
-Prometo que comerei mais tarde - assegurou. - Agora, s quero dormir.
Parecia to cansado e abatido, que Meredith teve de concordar.
-Tudo bem, mas tome pelo menos uma aspirina. Se for ingerida com leite, no agredir seu estmago - ela argumentou, dando-lhe um comprimido e o copo.
Matt tomou o remdio, tentando ignorar o gosto ruim do leite.
Satisfeita, Meredith levantou-se.
-Precisa de mais alguma coisa? Ele estremeceu exageradamente.
-De um padre - respondeu baixinho.
Ela riu, e o som de seu riso permaneceu no quarto, flutuando na mente sonolenta de Matt, como uma suave melodia.



#36


Por volta de meio-dia, a sonolncia extrema, que devia ser efeito dos comprimidos, desaparecera, e Matt sentia-se muito melhor, embora fraco. Ficara extremamente
cansado aps o esforo simples de tomar um banho e trocar de roupa. A cama era um convite quase irresistvel, mas ele venceu a tentao de voltar a deitar-se. Do
andar de baixo subiam rudos que o levaram a adivinhar que Meredith encontrava-se na cozinha, preparando o almoo. Pensativo, tirou da mala o barbeador eltrico
e foi para a frente do espelho da cmoda. Ligou o aparelho e, distrado, ficou com ele na mo, olhando para o nada. Meredith estava l embaixo
Impossvel! Inconcebvel! No entanto, era verdade. Ele entendia os motivos dela para procur-lo, mas pressentia que havia algo mais, embora sua mente se recusasse
a analisar a situao com mais cuidado. Talvez porque fosse muito mais agradvel no fazer isso imediatamente. L fora, a neve caa, o vento gelado soprava, mas
ali dentro estava quente, Meredith lhe faria companhia, e ele no tinha nada com que se ocupar, porque sentia-se fraco demais para embalar o resto dos objetos de
sua famlia e bem o bastante para no desejar ficar deitado, olhando para as paredes. Se analisasse a atitude de Meredith e descobrisse algo que o deixasse furioso,
o prazer de ter algum com quem conversar iria por gua abaixo.
Meredith ouviu-o andar l em cima e sorriu, enquanto punha num Prato a sopa enlatada que aquecera. Embrulhou um sanduche num guardanapo de papel, pensando no
momento em que Matt apertara-lhe a mo. Uma paz estranha invadira-a e florescera com a doura de rosas desabrochando na primavera. Nunca conhecera o verdadeiro MatthewFarrell,
refletiu, imaginando se havia algum que o conhecia realmente. De acordo com tudo o que lera a respeito de Matt, ele era temido eodiado pelos adversrios nos negcios,
admirado e respeitado por seus executivos, cortejado pelos banqueiros, visto como um falco pelos dirigentes da bolsa de valores.
Com poucas excees, mesmo as pessoas que o estimavam, quando falavam sobre ele em entrevistas davam a impresso de que Matt era um predador perigoso que devia
ser tratado com cautela.
No entanto, deitado naquela cama l em cima, doente, ainda acreditando que ela matara seu beb e friamente pedira o divrcio, apertara-lhe a mo, disposto a
perdo-la. A lembrana daquele momento causava emoes incrivelmente pungentes. Era bvio que todas aquelas pessoas que falavam dele com receio no o conheciam de
fato. Se conhecessem, saberiam que ele era capaz de agir com compreenso e generosidade.
Pegando a bandeja com o almoo, ela caminhou na direo da escada. S  noite, ou na manh seguinte, ela lhe contaria o que acontecera com o beb e revelaria
a manipulao de Philip. Por mais que desejasse acabar de uma vez com a raiva e a mgoa que havia entre eles, dando o primeiro passo para uma possvel amizade, temia
o momento das explicaes, porque no sabia qual seria a reao de Matt quando ele soubesse dos danos causados pelo pai dela. Precisava de um pouco de repouso, depois
das vinte e quatro horas estressantes que passara, para estar preparada para uma discusso que seria arrasadoramente dolorosa para os dois.
Meredith parou diante da porta do quarto de Matt e bateu.
-Est decentemente vestido? - perguntou. Divertido, ele imaginou que ela lhe levara outra bandeja.
-Estou, pode entrar.
Ela abriu a porta e viu-o barbeando-se diante do espelho. Matt vestira jeans, mas estava sem camisa, e, constrangida com a situao de intimidade, ela desviou
os olhos das costas bronzeadas, onde os msculos poderosos ondulavam a cada movimento que ele fazia.
-No  nada que voc j no tenha visto antes - ele arreliou, olhando-a pelo espelho.
Repreendendo-se por estar comportando-se como uma mocinha inocente, Meredith sorriu.
-Certo, mas sou uma mulher comprometida, agora. Ele parou de correr o barbeador pelo rosto.
-, agora voc tem um marido e um noivo. Um problema e tanto.
-Uma compensao. Eu era feia, na adolescncia, e nenhum garoto queria saber de mim - ela brincou, pondo a bandeja no criado-mudo. Ento virou-se para ele com
ar mais srio. - Pelo que seu pai me disse, no sou a nica com esse problema.  evidente que voc deseja casar com a moa da foto em sua escrivaninha.
Matt ergueu a cabea para passar o barbeador sob o queixo.
-Meu pai disse isso?
-Disse.  verdade?
-Interessa?
Ela hesitou, aborrecida com o rumo que a conversa tomara.
-No - respondeu depois de um instante. Ele desligou o barbeador.
-Posso pedir-lhe um favor? - perguntou.
-Claro.
-Tive duas semanas exaustivas e vim aqui com a inteno de ter um pouco de descanso e paz.
Meredith sentiu-se como se ele a houvesse esbofeteado.
-Lamento se perturbei seu sossego - murmurou. Ele sorriu, voltando-se para ela.
-Voc sempre perturbou meu sossego, Meredith. Toda vez que nos aproximamos um do outro, uma legio de demnios escapa do inferno. Eu no disse que no a quero
aqui. Ao contrrio, espero passar uma tarde repousante a seu lado, sem ter de lidar com assuntos difceis.
- o que espero tambm - ela admitiu.
Ficaram se olhando por alguns segundos, at que Meredith virou-se e pegou um roupo azul-marinho com etiqueta da Neiman-Marcus do espaldar de uma cadeira.
-Por que no veste isto e senta-se para comer? - sugeriu.
Ele aceitou o roupo e vestiu-o, amarrando-o na cintura, ento sentou-se na cama.
-O que h nesse prato coberto?
-Uma rstia de alho - ela informou com ar solene. - Para pr em volta de seu pescoo. Afasta o mal. - Matt riu, e ela destampou o prato, acrescentando: - At
eu sei esquentar sopa enlatada e fazer um sanduche.
-Obrigado. Foi muita gentileza.
Depois que Matt acabou de comer, desceram, e ele insistiu em acender fogo na lareira. Por algum tempo, conversaram, sentados ao calor das chamas, abordando apenas
assuntos incuos, como livros, filmese o clima. Apesar de estar evidente que Matt recuperava-se rapidamente, Meredith notou, a certa altura, que ele parecia cansado.
-No gostaria de voltar para a cama? - perguntou.
-No. Gosto mais de ficar aqui embaixo - ele respondeu, deitando-se no sof e apoiando a cabea numa almofada.
Dormiu. Quando acordou, uma hora mais tarde, teve o mesmo pensamento que lhe ocorrera assim que ele abrira os olhos, pela manh. Apenas sonhara com Meredith,
pois era impossvel que ela estivesse l. Mas, virando a cabea para olhar para a poltrona onde a vira sentada antes de adormecer, descobriu que no fora um sonho.
Ela continuava l, escrevendo num bloco amarelo apoiado nas pernas dobradas no assento. A luz do fogo lanava um brilho de ouro nos cabelos loiros banhava as faces
levemente coradas e realava as feies perfeitas.
Ele observou-a, divertido, pois ela parecia uma estudante fazendo o dever de casa, no a presidente interina de uma cadeia de lojas.
-O que est escrevendo? - perguntou, sentando-se e virando as pernas para fora do sof.
Ela ergueu os olhos para ele e sorriu.
-Um sumrio das tendncias do mercado, que preciso apresentar  diretoria na prxima reunio. Espero convenc-los de que devemos aumentar as mercadorias que
levam nossa etiqueta. Lojas de departamentos alcanam grandes lucros trabalhando com etiquetas prprias, e a Bancroft & Company no est aproveitando-se desse fato
como a Bloomingdales e algumas outras.
Matt ficou intrigado por aquela faceta de sua personalidade, como ficara na semana anterior, quando a levara para almoar, principalmente porque era uma imagem
que no combinava com a da jovem que conhecera anos atrs.
-Por que a loja no est se aproveitando dessa tendncia? -indagou, curioso e, de modo estranho, loucamente orgulhoso do tino comercial de Meredith, que a fazia
ver coisas que os diretores, muito mais experientes, pareciam no ver.
Ela explicou tudo detalhadamente.
-Nunca pensaram em comprar fbricas de roupas na Coreia ou em Taiwan para produzirem seus prprios artigos? - Matt perguntou - No poderamos fazer isso - ela
confessou
-Por que no? Eliminaria todos os seus problemas com controle de qualidade e perda de confiana dos clientes.
-Voc tem razo, mas no h dinheiro para um empreendimento desses, agora, nem mesmo num futuro prximo.
-No estou sugerindo que usem seu prprio dinheiro - ele explicou. - Tomem emprestado de bancos.  para isso que essas instituies existem. Os banqueiros emprestam
aos clientes dinheiro deles mesmos, cobrando juros e exigindo garantias, e quando o emprstimo  pago, ainda fazem a pessoa pensar que tem sorte por merecer sua
confiana. Bem,  claro que voc sabe como isso funciona.
Meredith deu uma gargalhada.
-Fala como minha amiga Lisa! Ela no respeita nem um pouquinho a profisso do meu noivo. Acha que Parker devia me emprestar dinheiro, quando preciso, sem cobrar
juros e sem exigir garantias.
Matt franziu a testa ao ouvi-la falar do noivo, estranhamente aborrecido.
-Estou ficando perita em emprstimos - ela declarou. - Na verdade, a Bancroft est endividada, e eu tambm.
-Como assim, voc tambm? - perguntou Matt, espantado com a confisso.
-Expandimos os negcios muito depressa. Se abrimos uma loja num prdio ou shopping que no seja nosso, os custos caem, mas os lucros tambm. Dessa maneira,
preferimos construir nossos estabelecimentos e temos tomado muito dinheiro emprestado para esse fim.
-Entendo, mas o que isso tem a ver com voc pessoalmente?
-A Bancroft & Company j entregou tudo o que podia, como garantia. Ficamos sem fundos para isso, quando construmos a loja em Poenix - ela contou. - Queremos
entrar em Nova Orleans e Houston, de modo que meu pai e eu estamos dando como garantia nossas aes e a herana que recebi de meu av, que estar sob meu controle
daqui a uma semana, quando completarei trinta anos.
Fez uma pausa, examinando o rosto de Matt para ver sua reao e viu-o franzir a testa, parecendo preocupado.
-No h motivo para preocupao - apressou-se em dizer. - A loja de Nova Orleans est conseguindo pagar o emprstimo que pernitiu sua construo. Enquanto isso
estiver acontecendo, ir tudo bem.
-No acredito que tenha garantido o emprstimo pessoalmente, com suas propriedades particulares!
-Tive de garantir, Matt.
-Nunca mais faa isso - ele avisou. - Nunca coloque dinheiro seu num negcio da empresa. Os bancos lucram com os juros, portanto que corram os riscos. Se sua
loja de Nova Orleans no pudesse pagar o emprstimo, voc teria de pagar e, se no conseguisse, seu banco tiraria tudo o que possui.
-Mas no havia outra maneira! Eu
-Se seu banco no lhe deu outra alternativa,  uma espelunca Matt interrompeu-a. - A Bancroft & Company  uma empresa estabelecida e lucrativa. A nica situao
em que um banco tem o direito de pedir garantia pessoal de um emprstimo  quando o cliente no pode comprovar o que possui e no apresenta um histrico decente
de crdito.
Ela abriu a boca para protestar, mas ele impediu-a, erguendo a mo
-Sei que vo tentar faz-la assinar, responsabilizando-se pessoalmente, Meredith. Adorariam ter cinquenta assinaturas numa hipoteca comum, porque isso eliminaria
os riscos que de outra forma correriam. Nunca concorde em ser fiadora de um emprstimo da Bancroft. Voc acha que um executivo da General Motors, por exemplo, seria
fiador de um emprstimo da empresa?
-No, claro que no. Mas nosso caso  um pouco diferente.
- isso que os banqueiros sempre dizem. Com quem a Bancroft & Company trabalha, afinal?
-Com meu noivo do banco Reynolds Mercantile - ela respondeu vendo espanto e depois aborrecimento no rosto de Matt.
-Um grande negcio que seu noivo arranjou para voc - ele observou com sarcasmo.
-No est sendo razovel - ela replicou em tom calmo. - E esqueceu de uma coisa. Existem fiscais bancrios, e agora, com bancos falindo por todos os lados,
eles esto apertando os banqueiros que emprestam dinheiro demais para um s cliente. A Bancroft & Company deve centenas de milhes de dlares ao Reynolds Mercantile.
Parker no poderia continuar a nos emprestar dinheiro, principalmente agora, que estamos noivos, sem ser censurado por isso. A menos que eu e meu pai fssemos fiadores.
-No havia nada que pudessem usar como garantia? - Matt insistiu. - Mais aes?
-Apenas uma acionista da famlia ainda no usou suas aes.
-Quem?
-Minha me.
-Sua me?
-, eu tive uma, embora no parea. Recebeu um grande lote de aes, no divrcio.
-Por que ela no as entrega ao banco como garantia? Nada mais lgico, j que participa dos lucros. As aes subiro de preo,  medida que a Bancroft & Company
for expandindo-se e prosperando.
Meredith ps o bloco de lado e encarou-o.
-Ningum lhe pediu que fizesse isso.
-Seria constrangedor me contar por qu? - Matt perguntou, querendo ajudar, no bisbilhotar.
-Ela mora em algum lugar da Itlia, e no tivemos mais nenhum contato, desde que eu tinha um ano de idade - Meredith explicou, decidindo, de repente, que contaria
a ele o que no contava a ningum.
-Minha me era  Caroline Edwards.
Matt franziu a testa, parecendo confuso.
-Lembra de um filme de Cary Grant, em que ele, como protagonista, encontra na Riviera uma princesa fugitiva? - Meredith ajudou-o.
Soube, ao ver o sorriso de Matt, que ele se lembrara do filme e da estrela principal.
- A atriz que fez o papel de princesa  sua me, Meredith?
- .
Em silncio, Matt observou o belo rosto a sua frente. Caroline fora linda, mas Meredith era muito mais, com aquele brilho que parecia vir de dentro, iluminando-lhe
as feies. Meredith tinha um nariz perfeito, rosto delicado, boca sensual que era um convite, e uma aura de elegncia e recato que era um aviso para que os homens
mantivessem distncia. Mesmo que um deles fosse seu marido.
Matt afastou esse pensamento no momento em que o captou. Era casado com ela apenas tecnicamente. Na realidade, os dois no passavam de estranhos. Estranhos ntimos,
uma vozinha diablica soprou-lheao ouvido, e ele precisou desviar o olhar dos seios de Meredith, delineados suavemente pelo suter. Mas lembrava-se perfeitamente
daqueles seios firmes, que um dia beijara com tanta paixo, da textura da pele, da rigidez dos mamilos, do perfume Aborrecido com o rumo ertico dos pensamentos,
tentou convencer-se de que sua reao era natural, a mesma de qualquer homem teria, olhando para uma mulher que conseguia parecer inocente e provocante, mesmo usando
roupas que a cobriam por inteiro, revelando apenas sutilmente as curvas do corpo esbelto. Percebendo que a olhara por tempo demais, sem dizer nada, pigarreou.
-Sempre me perguntei de quem voc herdou esse rosto lindo comentou. - Deus sabe que no poderia ser de seu pai.
Surpresa com o elogio inesperado, e feliz porque ele ainda a achava bonita, apesar de ela j estar s vsperas de completar trinta anos, Meredith sorriu e deu
de ombros, porque no sabia o que dizer.
-Por que nunca me contou quem  sua me? - Matt perguntou.
-Tivemos pouco tempo para conversar, quando - ela o lembrouno completando a frase.
Era verdade, porque tinham estado ocupados demais, fazendo amor, refletiu Matt, recordando as noites ardentes em que ele se entregara completamente  necessidade
de satisfaz-la e de matar o prprio desejo.
-Voc j ouviu falar das indstrias Seaboard? - ela indagou, achando delicioso poder conversar com ele to livremente.
-H uma empresa chamada Seaboard, na Flrida. Era formada por duas fbricas de produtos qumicos e mais tarde expandiu-se em minerao, aviao e manufatura
de componentes para computadores, alm de possuir uma rede de drogarias, eu acho.
-Supermercados - Meredith corrigiu-o com aquele sorriso maroto que sempre o fizera ansiar por tom-la nos braos e tirar-lhe o flego com beijos. - A Seaboard
foi fundada por meu av.
-E agora  sua - Matt arriscou, lembrando-se subitamente de que era uma mulher que dirigia a empresa.
-No.  da viva dele e dos dois filhos dela. Meu av casou-se com sua secretria, sete anos antes de morrer, e adotou os meninos. Deixou a Seaboard para os
trs.
-Ela deve ser uma excelente dirigente - comentou Matt, impressionado. - Transformou a empresa numa grande e rica corporao.
-Charlotte expandiu a empresa, mas a Seaboard j tinha interesses diversificados - disse Meredith, desgostosa com o elogio quela mulher antiptica. - A empresa
reunia tudo o que nossa famlia conseguiu construir. A loja de departamentos Bancroft & Company representava menos de um quarto de nossos bens. Ento, como v, Charlotte
no tirou a Seaboard do nada.
Pela expresso de Matt, percebeu que ele notara o desequilbrio na diviso dos bens de Cyril Bancroft. Ela talvez no fizesse tantas confidncias, em qualquer
outra circunstncia, mas havia alguma coisa especial naquele dia, no fato de estar conversando com Matt amigavelmente, depois de tantos anos.
Ele, naturalmente por polidez, no fez perguntas sobre a herana mal dividida, mas Meredith sentiu vontade de contar o que acontecera.
-Meu pai e Charlotte sempre se detestaram, e quando ela se casou com meu av, abriu-se entre os dois homens uma brecha que nunca se fechou. Meu av, talvez
em retaliao pelo afastamento de meu pai, adotou os filhos da esposa, mas s ficamos sabendo disso na leitura do testamento.
Ele dividiu o patrimnio em quatro partes iguais, deixando uma para meu pai e o resto para Charlotte e os filhos.
-Ser impresso minha, ou noto cinismo em sua voz, quando voc fala dessa mulher?
-No  impresso.
-Porque ela pegou trs quartos do patrimnio de seu av, quando o normal seria metade?
Meredith olhou para o relgio em seu pulso e descobriu que precisava providenciar algo para o jantar.
-No  por isso que no gosto dela - informou, decidindo ser rpida nas explicaes. - Charlotte  a mulher mais fria, mais dura que j conheci, e acho que
deliberadamente alargou a brecha entre meuav e meu pai. No que precisasse esforar-se muito para isso - admitiu com um sorriso melanclico. - Os dois eram teimosos,
de gnio forte, muito parecidos um com o outro para poderem manter um relacionamento pacfico.
Fez uma pausa breve, lembrando-se de um episdio entre Cyril e Philip Bancroft.
-Uma vez, numa briga por causa do modo como meu pai dirigia a Bancroft, meu av gritou que a nica coisa inteligente que o filho fizera fora casar com minha
me, mas que depois arruinara tudo, como estava fazendo com a loja - contou e olhou para o relgio no aparador da lareira, levantando-se. -  tarde, e voc deve
estar com fome. Vou fazer alguma coisa para o jantar.
Matt, ento, percebeu que realmente sentia-se faminto.
-E seu pai estava mesmo arruinando a loja? - quis saber, erguendo-se tambm e seguindo-a rumo  cozinha.
Meredith riu e abanou a cabea.
-No. Meu av tinha um fraco por mulheres bonitas. Era louco pela minha me e ficou furioso com o divrcio. Foi ele quem exigiu que ela recebesse um lote de
aes da Bancroft & Company. Talvez, tambm, como castigo para meu pai, que nunca poderia esquecer que a ex-mulher teria uma parte de cada dlar do lucro da loja.
-Acho que seu av foi um grande sujeito - comentou Matt. Meredith no respondeu, pois j abrira o armrio  procura de algoque pudesse preparar. Ele abriu
a geladeira e retirou a embalagem com os dois bifes.
-O que acha disto? - perguntou.
-Bifes? Est com vontade de comer uma coisa to pesada?
-Acho que sim. Faz dias que no como direito.
Enquanto retirava a carne do invlucro, Matt viu, pelo canto dos olhos, Meredith amarrar um pano de pratos na cintura fina, improvisando um avental. Ele no
queria interromper a conversa, talvez por que falar to  vontade com Meredith fosse uma experincia nova, to incrvel como o fato de estar l, no papel de esposa
devotada cuidando do marido convalescente.
-Seu pai costuma dizer que voc est arruinando a Bancroft? Ela retirou o po do armrio e abriu um sorriso oblquo de menina travessa, mas a pergunta a entristecera
um pouco.
-S quando est de muito bom humor - respondeu, vendo um brilho de solidariedade nos olhos de Matt. -  embaraoso, quando grita comigo nas reunies, na frente
dos executivos, mas todos j esto acostumados com suas exploses. Alm disso, eles tambm sofrem seus ataques, mas no tantas vezes e no do jeito como acontece
comigo. J aprenderam que Philip Bancroft no tolera que lhe provem que uma coisa pode ser feita sem sua interferncia e sua orientao. Meu pai contrata pessoas
competentes, depois esmaga suas boas ideias, impondo as dele. Se uma delas d certo, ele leva o crdito. Se d errado, faz de ns os bodes expiatrios. Aqueles que
o desafiam so promovidos, quando alcanam sucesso num projeto, mas nunca recebem um agradecimento. E a batalha recomea, cada vez que algum deseja fazer uma inovao.
Matt encostou-se na parede ao lado do armrio e cruzou os braos.
-E voc, como conduz as coisas, agora que est dirigindo a empresa? - indagou.
Meredith abriu uma gaveta para pegar talheres, pensando na reunio de Matt com seus executivos a que ela assistira de longe, no dia em que fora falar com ele
em seu escritrio. Olhou-o, arrependendo-se em seguida, pois teve uma reao inquietante ao ver que o roupo que ele usava abrira-se, expondo boa parte do peito
bronzeado e msculos coberto de plos escuros.
-Conduzo as coisas do jeito que voc faz - respondeu, fitando-o nos olhos.
-Sabe qual  meu jeito? Como?
-Fiquei observando sua reunio, no dia em que fui ao seu escritrio. Sempre soube que havia uma maneira melhor que a de meu pai lidar com os executivos, mas
receava que me achassem fraca, se optasse pelo dilogo aberto, quando me tornasse presidente.
Ela parou de falar por um momento, escolhendo alguns talheres e fechando a gaveta.
-Continue - Matt incentivou, com um leve sorriso.
-A, vi voc dialogando com seus homens, e, se h uma coisa de que ningum jamais poder acus-lo,  de ser fraco - ela declarou, com uma risadinha meio trmula.
- Ento, decidi ser igual a Matthew Farrell, quando crescesse.
O silncio caiu na cozinha, e Meredith sentiu-se constrangida com a confisso que acabara de fazer.
-Isso  muito lisonjeiro - Matt admitiu, embora lutasse contra a satisfao causada pelo elogio. - Obrigado.
-De nada. Agora, por que no senta, enquanto fao o jantar?
Depois de comerem, voltaram para a sala de estar, e Meredith foi para perto da estante, onde ficou olhando os livros e jogos. Refletindo que o dia na companhia
de Matt estava sendo lindo, sentiu-se culpada em relao a Parker e vagamente inquieta sobre sobre alguma coisa que no sabia definir. Ento, com brutal honestidade,
disse a si mesma que sabia, sim, perfeitamente. A masculinidade poderosa de Matt enchia a atmosfera da casa, envolvendo-a, despertando lembranas. Ela no esperara
por aquilo, quando fora para l. No esperara que o charme e o fsico atraente de Matt trariam de volta a recordao dos tempos em que o vira nu, dos momentos em
que haviam feito amor to apaixonadamente.
Passando o dedo pelas lombadas dos livros, sem ver os ttulos, imaginou quantas mulheres teriam ido para a cama com ele e agora compartilhavam das mesmas lembranas.
Dezenas, talvez centenas. Era engraado, mas no o condenava mais por suas conquistas amorosas, to divulgadas, nem pensava com desprezo nas mulheres que lhe ofereciam
o corpo com tanta facilidade. Como adulta, estava compreendendo algo que no compreendera no fim da adolescncia. Tornava-se difcil para uma mulher resistir a Matt,
cuja evidente virilidade formava uma aura de fora sexual a sua volta. Sem falar na fortuna que acumulara no correr dos anos, no poder que adquirira, fatores que
sem dvida eram irresistveis para a maioria das mulheres.
Ela, porm, no corria o perigo de cair na rede de atrao de Matt. A ltima coisa que desejava na vida era envolver-se com um volvel atleta sexual que colecionava
amantes. Preferia homens confiveis, moralmentefirmes, como Parker. Mas devia admitir que estava gostando da companhia de Matt, de modo talvez um tanto exagerado.
Sentado no sof, Matt observava-a, desejando que ela no pegasse um livro e comeasse a ler, esquecendo-se dele. Quando a viu examinar longamente a pilha de
caixas de jogos, refletiu que ela podia estar procurando o Monoplio e lembrando-se da noite em que o haviam jogado
-Gostaria de jogar? - perguntou.
Ela virou a cabea para olh-lo com uma expresso inexplicavelmente cautelosa.
-Jogar, o qu?
-Pensei que estivesse procurando um certo jogo o que est no topo.
Meredith, ento, olhou para a pilha e viu a caixa de Monoplio. Todas suas preocupaes desvaneceram-se, quando ela decidiu que seria delicioso passar as horas
seguintes ocupada num jogo frvolo e incuo com Matt.
-Voc quer?
-Quero - ele respondeu, j retirando a manta de cima do sof para que os dois pudessem sentar-se ali com o tabuleiro entre eles.
Duas horas mais tarde, Matt era dono de todas as propriedades verdes, vermelhas e amarelas, das quatro ferrovias e das suas fbricas; e Meredith tinha de pagar
aluguel, cada vez que uma de suas fichas caa em territrio ocupado por seus hotis e casas.
-Voc me deve dois mil dlares por essa ltima jogada - Matt avisou, divertindo-se, encantado pelo fato de um simples jogo estar proporcionando-lhe uma das
noites mais agradveis que j tivera. - Pague.
Meredith lanou-lhe um olhar de falsa inocncia que o fez rir.
-Tenho s quinhentos. Pode me emprestar o resto?
-Nem pensar. Pague.
-Senhorios no tm corao - ela reclamou, pondo o dinheiro na mo que ele estendera. - Eu devia ter adivinhado, naquela noite em que jogamos e quando voc
comprou tudo e tirou todo dinheiro que Julie e eu tnhamos, que ia se transformar num magnata famoso,Matt fitou-a por alguns instantes com ar compenetrado.
-Teria feito diferena, se adivinhasse? Meredith sentiu o corao disparar ao ouvir a pergunta, que fugia totalmente do terreno impessoal. Tinha de responder
de um modo que no estragasse o clima de companheirismo entre eles. Olhou-o de lado, imitando comicamente a expresso de uma mulher ofendida, enquanto comeava a
retirar as peas do tabuleiro.
-Gostaria que no insinuasse que fui mercenria em minha juventude, sr. Farrell. J me humilhou demais, derrotando-me no jogo, levando todo meu dinheiro.
-Tem razo - Matt concordou no mesmo tom leve. - Acabeicom voc.
Mas estava atnito por ter feito tal pergunta e furioso consigo mesmo por, de repente, estar desejando saber o que poderia ter feito para que ela continuasse
casada com ele. Levantando-se, foi apagar o fogo na lareira. Quando terminou, sentia-se novamente no controle das emoes.
-Falando em dinheiro, se algum dia precisar outra vez ser fiadora de um emprstimo para sua empresa, pelo menos faa o banco de seu noivo concordar em liber-la
da obrigao depois de dois ou trs anos-aconselhou, enquanto Meredith guardava a caixa na estante. -  tempo suficiente para perceberem que podem confiar.
-E os bancos fazem isso? - ela perguntou, virando-se para ele, satisfeita com a mudana de assunto.
-Pergunte a seu noivo - ele respondeu com irreprimvel sarcasmo, detestando o cime absurdo que o levara a falar daquela maneira. Se ele disser que no, procure
outro banco.
-Faz quase um sculo que o Reynolds Mercantile  o banco dos Bancroft - ela explicou. - Se voc conhecesse a fundo nossa situaofinanceira, veria que Parker
foi mais do que compreensivo.
Matt ficou irritado com aquela persistncia de Meredith em defender Parker Reynolds e decidiu dizer algo que reprimira durante as duas horas de jogo.
-Foi ele quem lhe deu o anel que voc est usando na mo esquerda? - perguntou.
-Foi.
-Tem gosto pssimo. O anel  feio como o diabo - Matt declarou. Disse aquilo com to magnfico desdm, e com tanta razo, porque a jia era realmente feia,
que Meredith teve dificuldade em conter uma risada.
-O anel  uma herana de famlia e
- feio.
-Bem, algo que se herda 
- um objeto qualquer, com grande valor sentimental - Matt declarou. - Feio demais para ser vendido, valioso demais para ser jogado fora.
Meredith comeou a rir, em vez de ficar zangada, como ele esperava.
-Tem razo - concordou.
Fitando-lhe o lindo rosto corado e iluminado pelo riso, Matt forou-se a refletir que ela no significava mais nada para ele. Olhou para o relgio no aparador
da lareira.
-J passa das onze - anunciou secamente. - Hora de dormir. Surpresa com a quase rispidez na voz dele, Meredith apagou a luz do abajur ao lado do sof.
-Desculpe. Eu no devia ter mantido voc acordado at to tarde. No vi o tempo passar.
A atmosfera de camaradagem que os unira at poucos momentos atrs desaparecera, quando os dois subiram a escada juntos. Meredith sentia isso, mas no sabia dizer
o motivo. Matt sentia isso e sabia exatamente o que acontecera.

#37


A meia-noite, Matt ainda no adormecera, obcecado pelo pensamento de que Meredith estava ali, num quarto perto do seu.  meianoite e meia, cansado de revirar-se
na cama, tomou um comprimido do frasco cujo rtulo informava que o remdio causaria sonolncia.  uma e quinze, tomou outro.
Dormiu, por fim, mas o sono provocado pela droga foi agitado, e ele sonhou que fazia amor com Meredith, que as mos delicadas corriam por seu corpo, fazendo-o
gemer de prazer. Alucinado, ele a tomava, uma vez atrs da outra, at que a assustou, porque no podia parar.
-Matt, pare, por favor - ela implorava.
Ele a penetrava, insacivel, ignorando sua splica.
-Matt, por favor Voc est sonhando! Vou chamar um mdico! Mdico? No, ele no queria um mdico, queria apenas ela. Meredith,porm, repeliu-o, fazendo-o
rolar para o lado e ps a mo em sua testa, oferecendo-lhe caf.
-Por favor, Matt, acorde! Eu trouxe caf. Que praga! Voc est sonhando, sorrindo no sei de qu! Acorde!
Foi o improprio que o perturbou. Meredith nunca praguejava, nunca dizia palavres. Havia alguma coisa muito errada com aquele sonho. Ele forou-se a abrir os
olhos e viu o rosto lindo acima do seu, notando que Meredith segurava-o pelos ombros, claramente preocupada.
-O que foi? - perguntou.
Ela soltou-o e sentou-se na beirada da cama com um suspiro de alvio.
-Voc estava falando tanto, que o ouvi l do outro quarto - explicou. - Vim olhar e vi que estava tendo um sonho. No consegui acord-lo e entrei em pnico,
pensando que delirava. Mas voc no est com febre. Tome o caf que lhe trouxe - pediu, pegando uma caneca de cima do criado-mudo e entregando-a a ele.
Matt sentou-se, apoiado contra a cabeceira, e passou a mo pelos cabelos, tentando livrar-se dos ltimos vestgios de sono.
-Foi aquele remdio - esclareceu, apontando para um dos frascos
-Dois deles bastaram para me nocautear.
Meredith pegou o frasco e leu o rtulo.
-Aqui diz que  para tomar apenas um, e a cada trs horas - observou.
Sem replicar, Matt tomou quase todo o caf. Ento, inclinou a cabea para trs e fechou os olhos, ficando assim por vrios minutos, deixando a bebida forte agir
sobre seu organismo.
Meredith, que se lembrava de que ele gostava de caf puro e forte assim que acordava, e que no falava muito nos primeiros minutos aps despertar, levantou-se
e arrumou as coisas que se encontravam no criado-mudo. Ento, pegou o roupo dele e estendeu-o nos ps da cama. Quando tornou a olhar para Matt, ele a fitava com
uma expresso tranquila, parecendo um garoto, com os cabelos revoltos.
-Est se sentindo melhor? - perguntou sorrindo.
-Muito melhor. Faz caf muito bem, Meredith.
-Toda mulher deve ter uma especialidade culinria, algo que possa exibir, quando tem oportunidade.
Matt sorriu.
-Quem foi que disse isso?
-Uma revista que li no consultrio do dentista - ela respondeu com uma risadinha. - Minha especialidade  caf. Quer comer alguma coisa?
-Depende do que voc pretende servir. Algo tirado de potes e vidros do armrio do banheiro?
-Tome cuidado para no insultar a cozinheira. Embaixo da pia da cozinha, encontrei um detergente em p que pareceria acar, se eu o colocasse nos flocos de
cereais.
Ele riu e tomou o resto do caf. Parada aos ps da cama, ela parecia uma deusa de jeans, um anjo com um brilho travesso nos olhos azuis.
-Falando srio, Matt, o que gostaria de comer?
Voc, ele pensou, sentindo o desejo percorrer-lhe as veias. Queria pux-la para a cama, enterrar as mos na cabeleira loira, possui-la. Queria que ela o acariciasse,
queria afundar-se dentro de seu corpo, ouvir seus gemidos de prazer.
-Qualquer coisa que voc fizer - respondeu, ajeitando o cobertor para ocultar a ereo. - Vou descer, depois que tomar um banho.
Meredith saiu do quarto e ele cerrou os dentes, furioso consigo mesmo e incrdulo. Depois de tudo o que acontecera no passado, ela ainda era capaz de provocar
uma reao to violenta! Se tudo o que ele sentisse fosse desejo, ainda poderia perdoar-se, mas aquela nsia de voltar a fazer parte da vida de Meredith, de ser
amado por ela era imperdovel.
Onze anos atrs, apaixonara-se pela jovem sorridente e altiva no momento em que a vira, e durante muito tempo fora perseguido por sua lembrana. Na ltima dcada,
fora para a cama com muitas mulheres, todas com mais experincia sexual do que Meredith. Com elas, o sexo fora um mero ato de mtua satisfao. Com Meredith, fora
um ato de profunda e rara beleza, atormentador e mgico. Pelo menos, ele achara isso na poca, provavelmente porque ficara to louco por ela que ficara incapacitado
de distinguir a imaginao da realidade. Meredith, aos dezoito anos, conquistara-o. Aos vinte e nove, representava muito mais perigo para sua paz de esprito, porque
mudara, e as mudanas intrigavam-no, atraindo-o poderosamente. Certas coisas permaneciam as mesmas, porm. Ainda havia uma expresso de fragilidade nos olhos azuis,
e o sorriso ainda passava de provocante a espontneo, de acordo com a situao. Aos dezoito anos ela exibira uma candura sem afetao que o surpreendera e, aos vinte
e nove, parecia to natural quanto naquele tempo. Ainda mostrava-se indiferente a sua prpria beleza, como se no tivesse conscincia dela. Nem uma vez, na noite
anterior, olhara-se no espelho da sala de jantar, nem mesmo de relance. Ao contrrio de outras mulheres bonitas, no passava a mo nos cabelos, ou jogava-os de um
lado para o outro para chamar a ateno das outras pessoas. Sua beleza amadurecera, o corpo adquirira formas perfeitas, que o deixavam provocante, quer ela usasse
jeans e suter, ou um vestido como o que usara para ir almoar com ele.
Espicaada por nova onda de luxria, a mente de Matt apresentou-lhe uma tentadora soluo. Talvez, se ele possusse Meredith mais uma Vez, poderia saciar o desejo
de modo definitivo e livrar-se da obsesso.
Murmurando um palavro, saiu da cama e vestiu o roupo. Devia estar louco, para pensar em ter novamente um relacionamento ntimo Com ela. De sbito, percebeu
que recuperara a capacidade de pensar com clareza, que a doena prejudicara. Meredith fora procur-lo com a desculpa de que desejava uma trgua. Ele concordara.
Por que ela no fora embora? Por que insistia em brincar de enfermeira, fazendo tudo o que podia para desarm-lo com seu encanto?
A resposta atingiu-o como um jato de gua gelada, deixando-o atnito.
Como fora estpido! Ela queria o terreno de Houston, mas, de acordo com suas prprias palavras, no podia pagar trinta milhes de dlares!
Incrvel! Meredith era como um narctico e drogara-o, anulando seu raciocnio. Tudo o que fizera e dissera fora com a inteno de amolec-lo e faz-lo capitular.
Revoltado com tanta duplicidade, Matt andou at a janela e puxou a cortina para um lado, olhando para a neve que se acumulara na alameda, enquanto visualizava Meredith
parada ao lado de sua cama, dizendo humildemente que aceitava a perda do terreno como uma punio.
Humildemente?, ele pensou com fria. Aquela mulher no tinha uma nica clula humilde em todo o corpo. Ela e o pai passavam por cima de todos os que ousavam
atravessar-se em seu caminho e faziam isso como que por direito divino! Se ela adquirira alguma coisa diferente em todos aqueles anos, fora tenacidade. Sem dvida,
iria para a cama com ele, se achasse que com isso conseguiria a gleba de terra. A ideia deixou-o nauseado.
Girando nos calcanhares, Matt pegou a pasta que deixara no cho, abriu-a e retirou o telefone celular que sempre levava consigo. Ligou para a fazenda vizinha
e foi Sue ODonnell quem atendeu. Respondeu apressadamente s perguntas que a mulher fez sobre Patrick e Julie, impaciente por expor o motivo do telefonema.
-Estou aqui na fazenda, pilhado pela neve - contou. - Ser que Dale poderia vir aqui limpar a alameda com a mquina?
-Naturalmente - ela afirmou. - Ele no est, agora, e s voltar  tarde, mas assim que chegar ir at a.
Zangado por saber que no tinha outra alternativa a no ser esperar, Matt desligou e rumou para o banheiro. Antes que seu desejo o levasse a fazer algo que lhe
custaria a perda do orgulho e do auto-respeito, tinha de mandar Meredith embora. Para isso, s precisava encontrar as chaves que ela perdera. No conseguiria suport-la
mais um dia. Ou outra noite. Daria a ela cinco minutos para juntar suas coisas e sumir, assim que Dale limpasse o caminho. Se no encontrasse as malditas chaves
do carro, arrombaria a porta e faria uma ligao direta, e ela no teria nenhuma desculpa para ficar.



#38

Matt desceu a escada ainda abotoando a camisa e levando uma jaqueta de couro no ombro. Meredith virou-se ao ouvi-lo entrar na cozinha e viu-o introduzindo um
dos braos na manga da jaqueta.
-Aonde vai?
-L fora, procurar suas chaves. Lembra onde as deixou cair?
-Perto do pneu direito da frente - informou um tanto hesitante, surpresa com o tom irritado da voz dele. - Mas no precisa ir procur-las agora.
-Preciso, sim - ele replicou secamente. - Essa brincadeira j foi longe demais. Voc est to aborrecida com essa imitao ridcula de vida conjugal quanto
eu. Admiro sua tenacidade, Meredith. Voc quer a propriedade de Houston por vinte milhes, alm de um divrcio amigvel e discreto. Est cuidando de mim para me
amaciar, me fazer concordar com as duas coisas. Pois bem, perdeu seu tempo. Volte para Chicago e comporte-se como a competente executiva que . Leve-me ao tribunal
por causa do terreno, d entrada no divrcio, mas pare com essa farsa nojenta. O papel de esposa amorosa e submissa no lhe serve e deve aborrec-la tanto quanto
aborrece a mim.
Virou-se e saiu.
Meredith ficou olhando para o lugar onde ele estivera, o corao ameaando explodir de mgoa, desapontamento e humilhao. Mordendo o lbio para conter as lgrimas,
voltou-se para a frigideira sobre o fogo. Perdera as melhores oportunidades de dizer a Matt que no fizera aborto e, de repente, ele se tornara hostil, sem que
ela pudesse imaginar o motivo. Mas iria ouvi-la a qualquer custo, mesmo que no Quisesse, mesmo sendo pouco provvel que acreditasse.
Num gesto decidido, pegou um ovo e partiu-o contra a borda dafrigideira, mas com tanta fora e falta de jeito, que a gema escorreu pelo lado de fora.
Matt cavou ao redor do pneu dianteiro do BMW durante dez minutos, mas no encontrou as chaves. Parou, quando as luvas ficaram encharcadas e as mos comearam
a gelar.
Exasperado, voltou para dentro e fechou a porta, batendo-a com violncia.
Meredith ouviu o barulho e foi ao encontro dele na sala de estar
-O caf est pronto - anunciou. - Encontrou as chaves?
-No. H um chaveiro na cidade, mas ele no trabalha aos domingos. Foram para a cozinha e Matt sentou-se, carrancudo. Ela colocou a refeio na mesa e acomodou-se
 frente dele.
-Pode me dizer por que concluiu, to de repente, que o que estou fazendo  uma artimanha para conseguir o terreno e o divrcio? perguntou.
-Digamos que minha capacidade de raciocnio voltou ao normal, quando melhorei.
Nos minutos seguintes, enquanto comiam, Meredith tentou iniciar uma conversa, mas Matt retrucava a tudo com maus modos e laconicamente. Assim que acabou de comer,
ele se levantou e disse que ia continuar a embalar as coisas na sala de estar.
Desanimada, ela se ergueu e observou-o sair da cozinha. Ento, automaticamente, comeou a lavar a loua e, quando todos os utenslios estavam em seus lugares,
foi para a sala.
-H muita coisa para voc embrulhar. Quer ajuda? - ofereceu. Matt notou a splica em sua voz, e seu corpo reagiu com nova onda de desejo. Endireitou-se e olhou-a,
quase dizendo que sim, que ela podia ajudar, indo para a cama com ele.
- vontade - concedeu.
Meredith refletiu que o humor de Matt apenas pioraria, se ela ficasse por perto. Foi para o andar superior, levando algumas caixas vazias e comeou a embalar
as roupas de cama, mesa e banho que se encontravam no armrio do quarto que pertencera aos pais dele e que seriam enviadas para uma casa de caridade. Apenas as lembranas
de famlia seriam conservadas, e ela teve o cuidado de no colocar nas caixas nada que pudesse ter algum valor sentimental.
Quando o armrio ficou vazio, sentou-se na cama para descansar um pouco e abriu um lbum de fotografias que fora da me de Matt
A maioria das fotos era de parentes que haviam ficado na Irlanda, a julgar pelo que estava escrito embaixo de cada uma, e muitas delas estavam quase apagadas.
A ltima, a mais recente de todas, era a fotografia de casamento dos pais de Matt, tirada em vinte e quatro de abril de mil novecentos e quarenta e nove.
Ao meio-dia, ela desceu e preparou sanduches para o almoo, e,enquanto os dois comiam, tentou novamente conversar, tendo umaagradvel surpresa ao ver que
Matt mostrava-se, pelo menos, educado.
Depois de limpar a cozinha mais uma vez, foi para a sala, onde ele estava embalando os enfeites singelos com que Elizabeth Farrell decorara o aposento. Parou
na porta, observando-o, vendo como a camisa esticava-se contra os msculos das costas e dos ombros largos, quando ele se abaixava para apanhar alguma coisa do cho.
Por um louco momento, sentiu o impulso de abra-lo por trs, enlaando-o pela cinturaestreita. Tentou imaginar o que ele faria, concluindo que provavelmente a
repeliria.
Matt acabou de encher uma caixa e fechou-a, usando fita adesiva.
-Posso ajudar em alguma coisa? - ela indagou.
-No. J terminei - ele respondeu, sem voltar-se para olh-la. Meredith conteve a irritao, teimando em continuar a comportar-se com polidez.
-Vou ao quarto de Julie, empacotar algumas coisas que ela deixou l-avisou. - Quer que eu lhe prepare uma xcara de caf, antes de subir?
-No.
-Precisa de mim aqui? - ela insistiu.
-Pelo amor de Deus! - ele explodiu, girando para encar-la. Pare de agir como uma santa esposa cheia de pacincia e saia daqui!
Ela apertou as mos para conter a vontade de esbofete-lo.
-timo! Faa seu prprio jantar e coma sozinho! - declarou, lutando contra as lgrimas.
Virou-se e subiu correndo os degraus para o andar de cima
-Que diabo voc quis dizer com isso? - ele gritou, indo para o p da escada.
Ela parou no patamar e olhou para baixo, parecendo uma deusa furiosa, com os cabelos tombando para a frente, os olhos fulgurando de ira. - Quis dizer que voc
 pssima companhia!
Matt teria rido, se no estivesse com raiva de si mesmo por desej-la tanto. Viu-a desaparecer no corredor e caminhou at a janela, de ondeficou olhando para
a alameda de entrada. Notou, com espanto, qUe a neve fora retirada. Dale devia ter feito o servio enquanto eles almoavam e usara uma p, do contrrio teriam ouvido
o barulho da mquina. A alameda limpa significava que Meredith poderia ir embora, se tivesse as chaves.
Durante vrios minutos, Matt ficou  janela, lutando contra o impulso de subir e descobrir se ela de fato seria capaz de fazer sexo com ele para conseguir um
abatimento no preo do terreno de Houston. Seria uma boa vingana, possu-la e depois mand-la embora de mos vazias. Seria, mas seus escrpulos no permitiam que
a executasse. Com um suspiro, afastou-se da janela, vestiu a jaqueta e saiu, disposto a procurar as chaves at encontr-las.
E encontrou, a alguns centmetros do lugar onde procurara antes.
-A alameda est limpa - anunciou momentos depois, entrando no quarto de Julie, onde Meredith estava pondo velhos lbuns de recortes numa caixa. - Pode juntar
suas coisas e ir embora.
Depois de suportar durante tantas horas o sarcasmo e a frieza de Matt, ela estava com os nervos  flor da pele e quase deu vazo  raiva, quando ouviu-o mand-la
embora. Embrulhou um lbum e colocou-o na caixa para ter tempo de controlar-se, ento endireitou-se e fitou-o nos olhos.
-Primeiro, preciso contar-lhe uma coisa.
-No estou interessado - ele resmungou, dando um passo em sua direo. - V embora.
-No vou, at dizer o
Interrompeu-se com um grito de susto, quando Matt agarrou-a pelo brao.
-Meredith, pare com essa conversa de merda e suma!
-No posso! Perdi as chaves do carro, esqueceu?
Ele no respondeu, olhando perplexo para a maleta aberta numa cadeira. Como no vira Meredith carregando coisa alguma, na noite em que chegara, concluiu que
ela devia ter retirado a maleta do carro depois que o ajudara a deitar-se. Mas como, se perdera as chaves? Virando-se, pegou a bolsa dela de cima da cmoda, abriu-a
e virou-a, deixando cair todo contedo no tampo do mvel. Um molho de chaves tilintou, pousado entre uma carteira de couro e um estojo de maquilagem.
-Coitadinha, perdeu as chaves - zombou maldosamente.
Em pnico e desesperada, Meredith colocou a mo no peito dele
-Por favor, me escute!
Matt olhou para a mo dela e, quando voltou a fit-la no rosto, algo mudara em sua expresso. O queixo perdera a rigidez da raiva, no havia mais indiferena
nos olhos cinzentos.
-Fale, meu bem - ele disse, num tom de fria ironia que contrastava com o que ela vira em seu rosto. - Estou ansioso para ouvir o que tem a dizer.
Ela retirou a mo lentamente.
-Na sexta-feira  noite, fui procur-lo em seu apartamento e
-Isso eu j sei.
-O que no sabe  que seu pai e eu tivemos uma discusso terrvel.
-No acredito! Uma mulher to fina, to bem-educada como voc, rebaixou-se, discutindo com um bbado sujo?
Embora ferida por essas palavras, ela no perdeu a coragem.
-Seu pai me mandou ficar longe de voc, acusou-me de ter tirado a vida de nosso beb e de quase destruir a sua. No comeo, eu no entendi por qu.
-No entendeu? Pobrezinha!
-Pare de falar assim! Estou tentando contar o que realmente aconteceu!
-Desculpe - ele pediu com sarcasmo. - O que aconteceu?
-Matt, eu no fiz aborto! Perdi o beb!
-Entendo. Voc perdeu. - Matt pegou-a pela nuca, olhando-a com intensidade. - To linda! Por que tem de ser to bonita?
Atnita com as palavras e com o tom rouco da voz dele, Meredith ficou olhando-o, imvel, incapaz de acreditar que o convencera da verdade to facilmente.
-To linda - ele prosseguiu, apertando-lhe a nuca. - E to mentirosa! Antes que ela pudesse pensar num protesto, Matt capturou-lhe aboca num beijo rudemente
sensual, obrigando-a a entreabrir os lbios, enquanto enlaava os dedos em seus cabelos, puxando-lhe a cabea Para trs.
Sua inteno era obviamente puni-la e humilh-la, mas em vez de lutar, Meredith abraou-o pelo pescoo, colando o corpo ao dele, correspondendo ao beijo com
toda a ternura que havia em seu corao, esperando que ele se convencesse de que no mentia.
Matt ficou surpreso, pois esperara que ela o repelisse, e interrompeuo beijo, pretendendo empurr-la para longe. Mas no pde. Com um gemido gutural, voltou
a beij-la com uma fria que a deixou mole de desejo, Pressionando-a contra o corpo, deixando-a sentir sua pulsante ereo.
Longos instantes depois, finalmente ergueu a cabea.
-Usa algum mtodo para evitar gravidez, Meredith? Antes de irmos para a cama e voc me mostrar como est louca pela propriedade de Houston, quero ter certeza
de que no geraremos outra criana, nem haver outro aborto.
Meredith arrancou-se dos braos dele, olhando-o com raiva e mgoa,
-Foi um aborto espontneo, Matt! No ouviu o que eu disse? Perdi nosso beb!
-V para o inferno, Meredith! No minta!
-Voc precisa me ouvir, por favor!
-No quero mais ouvir coisa alguma - ele respondeu de modo brusco, agarrando-a e tornando-a beij-la com brutal sofreguido.
Meredith debateu-se e com muito esforo conseguiu livrar-se.
-No! - gritou, recuando um passo, afastando as mos que tentavam segur-la, dominada pelo desespero. - Eu no fiz aborto! Perdi a criana e quase morri! Acha
que algum mdico concordaria em fazer um aborto no fim do quinto ms de gestao?
Os olhos dele, que momentos antes queimavam de desejo, examinaram-na com desprezo gelado.
-Acho que sim, quando a gestante doou o dinheiro para a construo de uma ala inteira do hospital - Matt argumentou.
-No se trata disso! Seria perigoso demais!
-Acredito, porque voc ficou internada durante quinze dias. Meredith percebeu que ele refletira muito sobre o acontecido, na poca, e que chegara quela concluso
lgica, apesar de errnea, e que nada do que dissesse faria diferena. Ficou arrasada e virou-se para esconder as lgrimas que saltavam de seus olhos.
-Por favor! - implorou ofegante. - Me escute! Tive uma hemorragia e perdi o beb. Pedi a meu pai que mandasse um telegrama para voc, contando isso e dizendo
que eu precisava v-lo. Nunca imaginei que ele fosse mentir. No pensei que fosse impedi-lo de entrar no hospital, mas seu pai disse que foi o que aconteceu.
Comeou a chorar de modo incontrolvel e levou as mos ao rosto,virando-se novamente para Matt.
-Eu achava que estava apaixonada por voc - continuou. - Esperei sua visita, dia aps dia. Esperei inutilmente.
Curvou a cabea e comeou a tremer, sacudida pelos soluos. Matt continuou imvel, recordando o que Philip Bancroft, dominado pela ira, dissera no dia em que
soubera que os dois haviam se casado: Voc no me conhece. Pensa que  duro, Farrell, mas ainda no sabe o quesignifica dureza. No me deterei diante de nada para
livrar minha filha de voc.
Meredith baixou as mos e encarou-o atravs de um vu de lgrimas. Matt fitou os olhos azuis e viu neles no apenas splica, como tambm inconfundvel sinceridade.
-Matt nosso beb era uma menina.
-Meu Deus! - ele gemeu, abraando-a. - Meu Deus!
-Chamei-a de Elizabeth, em homenagem a sua me - ela contou, apertando o rosto molhado contra o peito musculoso.
Matt mal a ouvia, atormentado pela viso de Meredith, sozinha num quarto de hospital, esperando em vo por sua visita.
-No - murmurou, numa revolta dolorosa. - No
-Nossa menininha foi sepultada, mas no pude ir ao enterro, porque estava muito mal. Meu pai disse que foi. Ser ser que mentiu tambm sobre isso?
Matt estremeceu sob a fora da agonia que sentiu ao ouvi-la dizer aquilo. Apertou-a nos braos, com mais fora, afagando-lhe as costas, beijando-lhe os cabelos,
como se quisesse cur-la da dor que a atormentara tantos anos atrs.
-Pedi a meu pai que comprasse muitas flores para Elizabeth. Rosas brancas e cor-de-rosa. Voc acha que ele me atendeu? - Meredith perguntou em tom suplicante.
-Tenho certeza que sim - Matt afirmou para confort-la, embora no estivesse convicto do que dizia.
-Eu no podia imaginar minha filhinha indo embora sem flores
-Por favor, querida - Matt disse baixinho, com voz emocionada. - No faa isso. No se magoe mais.
Apesar do prprio sofrimento, Meredith captou sua angstia e ergueu a cabea para olh-lo, vendo que ele tambm chorava. Uma onda de ternura invadiu-a com tanto
mpeto que se tornou dolorosa.
-No chore - murmurou, passando os dedos pelas faces bronziadas para secar as lgrimas. - Tudo j acabou. Seu pai me falou dotelegrama que voc recebeu, por
isso vim aqui. Eu precisava contar a verdade e pedir perdo.
Matt fechou os olhos e inclinou a cabea para trs, tentando livrar-sedo n de emoo que lhe apertava a garganta.
- Perdo? - repetiu por fim, abrindo os olhos e fixando-os nos dela. - Por qu?
- Por odiar voc durante onze anos.
-No pode ter me odiado mais do que odeio a mim mesmo neste momento - ele declarou com expresso de profundo remorso.
-Tudo acabou - ela sussurrou, desejando consol-lo. - No pense mais nisso.
-Sofreu muito, no  Meredith?
Ela ia pedir-lhe novamente que no pensasse mais no que ficara para trs, mas sentiu que ele desejava partilhar com ela a dor que no pudera aliviar no passado.
Deixou-o aninhar sua cabea contra o peito e abraou-o pela cintura.
-Eu estava dormindo, quando comeou. Acendi a luz do abajur e vi que as roupas de cama estavam ensopadas de sangue. Gritei como louca, at que a sra. Ellis,
que voltara da Flrida naquele dia, me ouviu e foi ver o que estava acontecendo. Chamou meu pai e uma ambulncia. As contraes comearam e eu chorava, pedindo a
meu pai que se comunicasse com voc. A ambulncia chegou e me levou para o hospital com a sirene ligada e em alta velocidade.
Fez uma pausa para reter novas lgrimas.
-Deram-me uma injeo e no vi mais nada. Quando acordei, estava numa cama, com tubos ligados ao corpo. J amanhecera, e havia uma enfermeira no quarto. Perguntei-lhe
sobre o beb, mas ela simplesmente afagou minha mo e disse para eu no me preocupar. Pedi para ver voc e fui informada de que ainda no chegara. Tornei a dormir
e acordei  noite, rodeada por mdicos e enfermeiras. Voltei a perguntar do beb e eles me disseram que tudo ia acabar bem, mas no acreditei. Exigi que deixassem
voc entrar, porque sabia que no lhe mentiriam.
Parou de falar, sentindo novamente o horror daquela noite.
-Eles disseram que voc no estava l e logo depois saram, porque meu pai entrou com o mdico que acompanhara a gravidez.
Recomeou a chorar, incapaz de prosseguir com o martirizante relato,
-Continue, meu bem - Matt pediu em tom terno. - Preciso saber tudo.
-O dr. Arledge disse que o beb era uma menina e que haviam feito o possvel para salv-la, mas que fora intil, porque porque ela era pequena demais - Meredith
contou, chorando desesperadamente
-Uma menininha pequena demais
Soluos impediram-na de falar por alguns segundos, e Matt gemeu dominado pela mesma dor.
-Pequena demais para conseguir respirar - Meredith forou-se a continuar. - Ento, o dr. Arledge perguntou se eu queria que o bebtivesse um nome e e um
enterro. Comecei a gritar, chamando porvoc. Meu pai disse que lhe mandara um telegrama, chamando-o, masque voc no aparecera. Como eu precisava decidir sozinha,
chameinossa filhinha de Elizabeth e pedi a meu pai que providenciasse o enterro e muitas rosas brancas e cor-de rosa com cartes dizendo que seus pais a haviam
amado.
- Obrigado - Matt agradeceu num fio de voz.
- Depois, fiquei esperando por voc
Permaneceram em silncio por longos instantes, controlando as emoes, e Meredith comeou a sentir-se aliviada, livre de um fardo pesado.
-Recebi o telegrama de seu pai, trs dias depois que ele o mandou-Matt explicou por fim. - Dizia que voc fizera um aborto e queria o divrcio. Vim para c
mesmo assim, e uma de suas criadas me disse onde voc estava, mas no hospital fui informado de que tinham ordens suas para no me deixar entrar. Voltei no dia seguinte,
disposto a v-la de qualquer jeito, mas um policial me impediu, declarando que tinha ordem judicial para no me deixar entrar, e que eu seria preso, se insistisse.
-E esperei por voc o tempo todo - ela se queixou num murmrio.
-Juro que, se eu soubesse que voc queria me ver, nenhuma ordem judicial, nenhuma autoridade teria me impedido de entrar l e encontr-la.
-Mas voc no sabia. E no poderia ajudar, mesmo que soubesse e me visse, porque tudo j fora feito, e o pior passara. Alm disso, depois de tantos dias, eu
comeava a compreender seus sentimentos por mim e pelo beb. Pelo menos achei que compreendia. Voc devia estar se sentindo preso, amarrado a uma esposa e um filho
que no Queria. O beb foi um acidente, porque voc dormiu com uma mocinha estpida que no soube proteger-se. E casou-se com ela, apesar de no quer-la, porque
era um homem decente.
-Eu no queria voc? Por Deus, Meredith! No poderia quer-la mais. E continuei querendo. Nunca deixei de pensar em voc um nico dia, no correr de todos esses
anos.
Meredith inclinou a cabea para trs e fitou-o, incrdula, jubilosa e, ao mesmo tempo, esmagada pela dor.
- E voc se enganou a respeito de outra coisa tambm - Matt informou, tomando o rosto dela entre as mos. - Eu poderia ajudar.
-  Como?
-Assim. - Ele beijou-a com doura, na boca, nas faces, nos olhos. E teria levado voc para casa e a abraaria, dando-lhe conforto. Depois, quando voc se recuperasse,
faramos amor e outro beb.
Meredith acreditou que tudo aquilo teria acontecido, exceto outra criana, porque sabia que no podia mais ter filhos. Envolvida por um turbilho de emoes,
sentiu que Matt tirava-lhe o suter, abria o jean e puxava-o para baixo. No o deteve. Queria, pelo menos uma vez fingir que voltavam ao passado para recomear o
que fora to cruelmente interrompido. No entanto, uma voz interior dizia-lhe que era um erro.
- errado, Matt - ela murmurou, quando ele se inclinou para beij-la, j exibindo o peito e os braos nus, bronzeados e poderosos.
- muito certo - ele afirmou, apossando-se de sua boca.
Meredith hesitou, a princpio, mas logo estava respondendo s exigncias dele, abraando-o, deixando-o aprofundar o beijo e acarici-la com aquela ousadia que
ela conhecera to bem.
Gemeu, incapaz de conter-se, quando ele cobriu-lhe os seios com as mos grandes, excitando os mamilos com os polegares, e perdeu o resto de inibio. Desceu
as mos para o peito dele, mergulhando os dedos nos plos fartos e escuros, apertando os msculos rijos com a ponta dos dedos. Arqueou o corpo contra o dele e acompanhou-o
emlenta descida para a cama.
Matt beijou-a no pescoo, nos ombros, nos seios, sugou um dos mamilos, depois o outro, enquanto deslizava a mo para o tringulo macio entre as coxas dela, encontrando
seu ponto mais sensvel e atormentando-o com uma frico que a deixou mida e quente, fazendo-a contorcer-se e balbuciar splicas entrecortadas. Soube que ela se
entregava totalmente, quando as longas pernas relaxaram e abriram-se para ele num convite alucinante. Trmulo de emoo e desejo, deitou-se sobre ela e apoiou-se
nas mos, enquanto a penetrava devagar, dominando o impulso de enterrar-se rapidamente no corpo mido e latejante.
Comeou a perder o controle quando ela ergueu os quadris e apertou-lhe os ombros com fora, murmurando seu nome. Perdeu-o completamente ao olhar para o rosto
lindo, afogueado de paixo e emoldurado pelos cabelos espalhados no travesseiro. Meredith no era mais a mulher m que o desprezara e matara seu beb. Ela esperara
por ele sofrera por sua ausncia. Fora procur-lo ali na fazenda para contar-lhe a verdade, suportara seu dio, suas agresses, e pedira-lhe perdo!
E murmurara seu nome com desejo e ternura, destruindo todo seu autocontrole. Ele investiu com fora, penetrando-a completamente, e comeou a mover-se num ritmo
frentico, at os dois ficarem loucosna nsia de chegar ao pico do prazer, alcanando-o juntos numa exploso de sensaes que apagou todo o raciocnio.
Matt escorregou para o lado e os dois abraaram-se, entrelaaram as pernas, ainda sacudidos por espasmos deliciosos que foram cessando aos poucos, deixando-os
lnguidos e plenos de alegria e paz.
Ele fechou os olhos, saboreando o momento com um sentimento de adorao por Meredith, por tudo o que ela era, por tudo o que lhe dera. Onze anos atrs, fora
expulso do paraso. Mas estava de volta e faria tudo o que pudesse para ali permanecer. Tanto tempo atrs, no tinha nada para oferecer a Meredith. Agora, porm,
poderia dar-lhe o mundo e a si mesmo.
Sentiu-a respirar suavemente contra seu peito e percebeu que ela adormecera. Sorriu, um tanto embaraado por ter sido to afoito que deixara os dois completamente
exaustos, rpido demais. Dormiria tambm e, quando acordassem, fariam amor de novo, com mais calma. Depois, conversariam. Precisavam fazer planos. Com certeza, Meredith
hesitaria em romper o noivado, mas ele a convenceria de que pertenciam um ao outro. Sempre haviam pertencido
Arrancado do sono por um rudo qualquer, Matt ficou olhando para o lugar vazio a seu lado. Na penumbra do quarto, ele olhou para o relgio de pulso e viu que
faltavam alguns minutos para as seis. Ergueu o corpo, apoiando-se num cotovelo, surpreso pelo fato de ter dormidotrs horas. Por um momento, ficou imvel, tentando
captar algum barulho que lhe indicasse onde Meredith estava. Surpreendeu-se, quando ouviu o motor de um carro comear a funcionar.
Por um momento, refletiu que ela devia ter ficado preocupada com a possibilidade de a bateria descarregar-se e fora verificar se estava tudo em ordem. Jogou
as cobertas para o lado e saiu da cama, penteando os cabelos com os dedos, enquanto dirigia-se  janela. Afastou a cortina para abrir a vidraa e dizer a Meredith
que o deixasse cuidar daquilo, e o que viu foi o BMW correndo velozmente pela alameda que levava  estrada principal.
Ficou to perplexo, que s pde pensar que ela estava sendo imprudente, dirigindo depressa demais. Ento, caiu na realidade, percebendo que Meredith fora embora.
Resmungando uma srie de palavres, voltou para junto da cama, acendeu o abajur e vestiu a cala. Sem saber o que fazer, plantou as mos nos quadris, olhando para
a cama numa espcie de entorpecimento. No podia acreditar que elafugira, como se tivesse alguma coisa de que se envergonhar e no pudesse mais encar-lo.
Olhou ao redor, e foi quando viu uma folha de papel amarelo sobre a cmoda. Pegou-o, com a esperana de que Meredith houvesse escrito que fora procurar uma mercearia
ou algo parecido.

Matt, o que aconteceu esta tarde nunca deveria ter acontecido, foi um erro. Compreensvel, suponho, mas um erro. Voc tem sua vida. e eu a minha, temos planos
para o futuro, alm de pessoas que nos amam e confiam em ns. Tramos essas pessoas, fazendo o que fizemos e me envergonho disso. Mesmo assim, sempre me lembrarei
desse fim de semana como algo muito lindo e especial. Obrigada.

Ele ficou olhando para o bilhete, furioso, sentindo-se usado. Fora tratado como um garoto de programa, dispensado sumariamente depois de levar para a cama uma
mulher que quisera algo especial.
No, Meredith no mudara nada naqueles onze anos. Continuava mimada, egosta, convencida de sua superioridade, sem considerao pelos outros. No mudara. Ainda
era uma covarde
Matt interrompeu o pensamento, assombrado com o fato de ter deixado a raiva afastar de sua memria tudo o que descobrira naquele dia. Por fora do hbito, voltara
a julgar Meredith pelas ideias falsas que alimentara durante anos. A verdade era outra, e ele a descobrira naquele quarto, ouvindo coisas dolorosas, mas libertadoras.
Meredith no era covarde. Nunca fugira dele, da responsabilidade de ser me, de nada, nem mesmo do pai desptico. Esperara por ele no hospital, pedira flores para
o enterro da filhinha, a quem dera o nome de Elizabeth E quando ele no aparecera, juntara os cacos de sua vida e seguira em frente.
Matt contorceu o rosto, desgostoso consigo mesmo, ao lembrar-se do que fizera para prejudic-la nos ltimos dias, de como a maltratara na limusine, aps o almoo
no Landrys. Ainda assim, ela enfrentara uma tempestade de neve para encontr-lo e contar-lhe a verdade e no se amedrontara, quando ele a recebera com brutal hostilidade.
Meredith, sua esposa, era corajosa. No fugia de situaes que fariam muitos homens correr para longe, em pnico.
Mas fugira dele, poucos minutos atrs. Por que motivo, se, depois de tantos desencontros, haviam esclarecido o passado e ficado em paz? S existia uma resposta,
ele percebeu de repente. O que aconteceraentre os dois naquela cama fora to devastador para Meredith quanto para ele. Ela compreendera que seu futuro com Parker
e o resto de sua vida estavam ameaados pela fora da paixo que ainda os ligava. Cautelosa, devia ter decidido que no valia a pena arriscar tudo o que tinha por
Matthew Farrell. As consequncias de um envolvimento com ele certamente pareceram-lhe perigosas demais. J se envolvera com ele uma vez, e sua vida transformara-se
num inferno. Rindo baixinho, Matt decidiu que a convenceria de que no sofreria novas decepes, se ficasse com ele. Que teria todas as recompensas que pudesse imaginar.
Mas precisava de tempo, algo que ela no lhe daria, nem que precisasse ir a Reno para conseguir um divrcio fcil, que cortaria rapidamente os laos que os uniam.
Era bem capaz disso, determinada como era.
Ele, por sua vez, faria qualquer coisa para impedir a dissoluo do casamento. Se perdesse Meredith Um pensamento inesperado alarmou-o. Certos trechos da estrada
tornavam-se muito perigosos, quando nevava, e, depois de tudo o que se passara, Meredith talvez dirigisse sem a ateno necessria.
Preocupado, ele foi para seu prprio quarto, tirou o celular da pasta e deu trs telefonemas. Em primeiro lugar, falou com o chefe de polcia di Edmunton e pediu-lhe
que mandasse um patrulheiro localizar um BMW preto, que logo passaria pelo viaduto, rumo  rodovia estadual, e escolt-lo discretamente at Chicago, cuidando para
que a motorista chegasse bem. O chefe, que ocupava um cargo eletivo, mostrou-se encantado em poder atender to extravagante pedido, pois Matthew Farrell fizera uma
generosa contribuio para sua campanha. O telefonema seguinte foi para a casa de David Levinson, da Pearson leLevinson. Matt pediu-lhe que fosse com o scio ao
escritrio dele na manh seguinte, s oito horas. O advogado concordou no mesmo instante, pois Matthew Farrell pagava duzentos e cinquenta mil dlares anuais para
que sua firma lhe desse assistncia jurdica onde e quando fosse necessrio.
Por ltimo, Matt telefonou a Joe OHara, mandando-o ir  fazenda imediatamente para busc-lo. O motorista protestou. Matthew Farrell pagava-lhe muito bem para
t-lo sempre  disposio, mas o homem era seu amigo e no queria que ele fugisse da fazenda e, consequentemente, de Meredith.
-Est tudo acertado entre voc e sua mulher? - perguntou.
-No, exatamente - respondeu Matt, um tanto irritado com a relutncia de Joe em obedecer a uma ordem sua.
-Ela ainda est a?
-No. J foi.
-Quer dizer que a deixou ir, no ?
Matt esqueceu a irritao ao captar a tristeza na voz de Joe, constatando mais uma vez como era profunda a lealdade do empregado amigo.
-Vou atrs dela - respondeu sorrindo. Agora, mexa esse rabovenha, OHara.
-Estou indo!
Matt desligou o telefone e olhou pela janela, esboando sua estratgia para o dia seguinte.

#39

Phyllis franziu a testa ao ver Meredth passar por sua mesa na segunda-feira de manh, com duas horas de atraso e sem cumpriment-la.
-Bom dia! - exclamou em leve tom de censura, levantando-se para acompanh-la ao escritrio. - Algum problema?
Continuara como secretria de Meredith, porque a sra. Pauley, que trabalhava com Philip Bancroft havia vinte anos, decidira gozar as frias acumuladas e fazer
uma viagem, durante a licena dele.
Meredith sentou-se  escrivaninha e massageou as tmporas. No era um problema, mas uma montanha deles.
-No - mentiu. - S estou com um pouco de dor de cabea. Algum recado?
-Uma pilha - Phyllis respondeu. - Vou busc-los e trarei tambm uma xcara de caf. Diria que est precisando.
Meredith reclinou-se na cadeira, tendo a impresso de que envelhecera cem anos, desde que sara da loja, na sexta-feira.
Alm de enfrentar um dos mais caticos fins de semana de sua vida, ainda perdera o orgulho, indo para a cama com Matt. Trara o noivo e completara a sujeira,
fugindo de Matt e deixando um bilhete para no terde explicar-se pessoalmente. Cheia de culpa e vergonha, fizera uma viagem miservel de volta para casa e, para
aumentar sua perturbao, um palheiro idiota seguira-a numa viatura, diminuindo a velocidade quando ela diminua, acelerando quando ela acelerava, e at parara no
mesmo Posto de gasolina. S desaparecera quando a perdera de vista numa das mais e movimentadas avenidas de Chicago.
Ela entrara no apartamento sentindo-se arrasada, e tudo pioraraquando ouvira os recados deixados na secretria eletrnica, quase todos de Parker. Na sexta 
noite, ele dissera que estava com saudade e queriaouvir sua voz. No sbado de manh, reclamara porque ela no telefonarade volta, e  noite declarara estar preocupado
com seu silncio e perguntara se por acaso Philip adoecera na viagem. No domingo, confessara estar assustado e informara que ligaria para Lisa. Infelizment era bvio
que a amiga contara a ele que Meredith fora falar com Matt na sexta para tentar conseguir o divrcio, porque o recado que Parker deixara no domingo  noite estava
carregado de raiva e mgoa. Ele gritara, exigindo que ela telefonasse e apresentasse uma boa desculpa por ter passado o fim de semana com Matthew Farrell, se fora
isso o que fizera. Meredith suportara melhor essa parte do que o final da mensagem, em que o noivo tornara-se terno e pedira perdo por ter pensado que ela pudesse
ter ficado com Matt, alm de perguntar se conseguira entrar num acordo sobre o divrcio e mais uma vez confessar sua preocupao.
Com um suspiro, Meredith fechou os olhos, imaginando como faria para chegar ao fim daquela segunda-feira sem desmoronar. Agira infantilmente, deixando um bilhete
para Matt e fugindo enquanto ele dormia. Acovardara-se, reconhecia, porque sempre que se aproximava dele fazia e dizia coisas estranhas, tolas e perigosas. Passara
menos de quarenta e oito horas em sua companhia e jogara os escrpulos para o alto, esquecida da decncia. Fora para a cama com ele e no o amava! Trara Parker
e ficara com um peso enorme na conscincia.
Sentiu as faces corarem ao recordar como agira na cama, suplicando para que ele a levasse ao orgasmo, totalmente enlouquecida de desejo, quando era to recatada
ao fazer sexo com o noivo.
No, no era justo recriminar-se, nem a Matt, refletiu. Os dois haviam ficado profundamente abalados com a revelao do que verdadeiramente acontecera no passado.
Fazer amor fora o jeito que encontraram para consolar-se mutuamente.
Bem, nada mais contraproducente do que ficar sentada,  beira das lgrimas, remoendo-se de remorso. O certo era entrar em ao, fazer alguma coisa para expulsar
do ntimo aquela sensao de pnico que comeara a manifestar-se no momento em que ela sara da cama deixando Matt adormecido.
-Precisei esperar que acabassem de fazer o caf - Phyllis explicou aproximando-se da escrivaninha com uma caneca fumegante numa das mos e um mao de papis
cor-de-rosa na outra. - Aqui esto os recados. No se esquea de que mudou a reunio com os executivos para hoje, s onze horas.
-Est certo, obrigada - respondeu Meredith, tentando animar-se.
-Quer fazer uma ligao para Stuart Whitmore, por favor? E para parker, em Genebra. Se ele no estiver no hotel, deixe recado. Com qual dos dois voc quer falar
primeiro?
-Com Stuart.
Phyllis saiu, e Meredith comeou a folhear o mao de mensagens com total desinteresse. De sbito, quase saltou da cadeira, de tanta surpresa. O quinto recado
era de Matt, que telefonara s nove e dez daquela manh.
O interfone soou, tirando sua ateno do papel. Ela olhou para o telefone e viu que as teclas das duas linhas estavam iluminadas.
-O sr. Whitmore est na linha um - Phyllis informou, quando ela pressionou o boto do interfone. - E o sr. Matthew Farrell, na linha dois. Disse que  assunto
urgente.
A pulsao de Meredith disparou.
-Phyllis, no quero falar com Matt Farrell. Diga a ele que daqui por diante nos comunicaremos atravs de nossos advogados. E que vou estar fora da cidade por
mais ou menos duas semanas. Seja educada, mas firme.
-Tudo bem.
Meredith ficou olhando para a tecla da linha dois, cuja luz continuava acesa, sinal de que Phyllis estava falando com Matt. Fez meno de erguer o telefone,
refletindo que devia ao menos falar com ele e saber qual era o assunto urgente. Mas desistiu. Assim que Stuart informasse onde seria possvel conseguir um divrcio
rpido, qualquer coisa que Matt desejasse discutir se tornaria irrelevante. Como no havia mais inimizade entre eles, Matt no cumpriria as ameaas que fizera na
limusine, dias atrs.
A tecla da linha dois apagou-se, e Meredith chamou Phyllis pelo interfone.
-O que ele disse? - perguntou, quando a moa apareceu na porta. - Que entendia perfeitamente.
- S isso?
- Perguntou se essa viagem de quase duas semanas que voc vaifazer j estava marcada e eu respondi que no, que foi um imprevisto. Fiz bem?
-No sei. Ele fez algum comentrio, quando voc falou desse imprevisto?
- No, exatamente.
- Como assim?
-Ele riu, agradeceu e despediu-se.
-Mais alguma coisa? - Meredith indagou, quando viu que, a secretria continuava na porta.
-Eu s estava pensando - Phyllis explicou. - Voc acha que ele teve mesmo um caso com Michelle Pfeiffer e tambm com Meg Rya ou tudo no passou de inveno
dos jornais?
-Tenho certeza de que ele foi namorado das duas - afirmou Meredith, forando-se a falar em tom indiferente.
Phyllis apontou para o telefone.
-Esqueceu que Stuart Whitmore est na linha um? Horrorizada, Meredith ergueu o telefone, pedindo  moa que fechasse a porta.
-Stuart, desculpe por t-lo feito esperar - comeou, nervosa. Estou tendo um dia daqueles!
-E eu estou tendo um dia fascinante, graas a voc.
-O que quer dizer com isso?
-David Levinson me ligou hoje, s nove e meia, to amvel e apaziguador, que qualquer um pensaria que o filho da me passou por uma profunda experincia mstica
no fim de semana.
-O que ele queria?
-Para comear, me fez um sermo sobre a santidade do casamento, e com voz de padre! - Stuart riu. - Meredith, o homem  judeu, casado pela quarta vez e est
na sexta amante! Que desfaatez incrvel!
-O que voc disse a ele?
-Que sua desfaatez era incrvel. No  engraado? - Stuart fez uma pausa, esperando que Meredith risse, mas quando isso no aconteceu, continuou: - Tudo bem,
isso no importa. O que interessa  que, de acordo com Levinson, Matthew Farrell subitamente decidiu deixar correr o processo de divrcio. Muito estranho, e tudo
o que  estranho me deixa nervoso.
-No  to estranho assim - Meredith observou, ignorando o aperto que sentiu no corao ao pensar, sem nenhuma lgica, que Matt estava abrindo mo dela com
demasiada rapidez, depois de terem ido para a cama juntos. - Encontrei-me com Matt no fim de semana e conversamos muito.
-Sobre o qu? No esconda nada de seu advogado. Essa sbita mudana de Levinson fez disparar o alarme em minha cabea. Ah, ele marcou uma reunio com Farrell
e ns dois, para discutirmos uma srie de coisas.
Sabendo que no seria justo esconder os fatos de Stuart, ela contou que, depois de descobrir que Matt comprara o terreno de Houston, fora procur-lo em seu apartamento
e tivera um confronto tempestuoso com Patrick Farrell, que, no fim, a convencera a ir  fazenda.
-Matt estava muito doente, quando cheguei - continuou. - Mas ontem contei o que meu pai fez, onze anos atrs, e ele acreditou em mim.
No disse que fora para a cama com Matt. Era algo que ningum tinha o direito de saber, exceto Parker, talvez.
Quando terminou, Stuart ficou calado durante tanto tempo que ela receou que houvesse adivinhado a verdade.
-Farrell  mais controlado do que eu. No lugar dele, eu iria atrs de seu pai e o fuzilaria - o advogado declarou.
Meredith deu uma risadinha, s para ser agradvel.
- bvio que foi nossa conversa que fez Matt concordar com o divrcio - observou.
-Ele est fazendo mais do que simplesmente colaborar - replicou Stuart secamente. - Segundo Levinson, Farrell preocupa-se profundamente com seu bem-estar, Meredith.
Quer fazer um acordo financeiro com voc e mandou dizer que est disposto a vender o terreno de Houston a um preo muito razovel, embora, no momento, eu no soubesse
do que se tratava.
-No quero nenhum acordo financeiro com Matt e nem tenho direito - Meredith declarou enfaticamente. - Se ele nos vender o terreno, ser maravilhoso, mas no
vejo necessidade de uma reunio com seus advogados. Decidi ir a Reno ou algum outro lugar onde possa me divorciar sem complicaes. Foi por isso que telefonei a
voc, para perguntar onde isso pode ser feito de modo legal e rpido.
-Nem tente - Stuart aconselhou. - Se tentar, Farrell retirar sua oferta.
-Por que diz isso? - Meredith gritou, sentindo-se como que apanhada numa armadilha.
-Porque Levinson deixou as condies bem claras. Parece que Farrell quer fazer as coisas do modo certo. Se voc se recusar a reunir-se com ele, amanh, ou tentar
conseguir um divrcio rpido, a oferta de venda do terreno de Houston ser cancelada definitivamente. Afinal, Matthew Farrell  o monstro que dizem, ou um homem
capaz de sensibilidade?
Meredith largou-se contra o encosto da cadeira, a ateno momentaneamentedesviada pela conversa dos executivos que atravessava a sala de Phyllis rumo  de reunies.
-No sei o que pensar - admitiu. - Venho julgando Matt com tanta dureza, durante anos, que no sei o que ele  realmente.
-Bem, descobriremos isso amanh, s quatro horas - Stuart comentou, rindo. - Farrell deseja que a reunio seja no escritrio dele. Posso cancelar alguns compromissos.
Encontro voc l?
-Eu no vou.
-Precisa ir, querida. Farrell mandou dizer que no faria concesses. Agitada, Meredith olhou para o relgio. Estava na hora de comear a reunio com os executivos.
No entanto, precisava decidir se participaria do encontro com Matt. Se no fosse, ele poderia ficar aborrecido e retirar a oferta para a venda do terreno, mas a
tenso emocional que teria de suportar ao v-lo seria grande demais.
-Mesmo que voc se divorciasse em Reno, ainda teria de lidar com a questo das propriedades, quando retornasse - Stuart argumentou, quando o silncio prolongou-se.
- H uma confuso de onze anos no que diz respeito a direitos sobre bens, e que poder ser desfeita facilmente, se Farrell colaborar. Se ele decidir levar o caso
ao tribunal, a situao poder arrastar-se durante anos.
-Meu Deus, que baguna! - Meredith lamentou-se. - Est certo, eu me encontrarei com voc no vestbulo do prdio da Intercorp s cinco para as quatro. No quero
subir sozinha.
-Entendo - afirmou o advogado com gentileza. - At amanh, ento, e no se preocupe.
Ela se props a seguir o conselho de Stuart, quando ocupou seu lugar  mesa de reunies, mas era difcil no preocupar-se com a anarquia em que sua vida se transformara.
-Bom dia! - cumprimentou com um sorriso forado. - Quer comear, Mark? Algum problema na diviso de segurana?
-Um bem grande - o homem preludiou. - Cinco minutos atrs, o pessoal de Nova Orleans foi avisado de que haviam posto uma bomba na loja. Esto evacuando o prdio
e o esquadro especializado em bombas j est a caminho de l.
Todos olharam para ele, espantados e curiosos.
-Por que no me notificaram? - Meredith quis saber.
-Suas duas linhas estavam ocupadas, de modo que Michaelson o gerente da loja, me chamou.
-Tenho uma linha particular tambm - ela salientou.
-Ns sabemos, mas Michaelson ficou to nervoso que no achouo nmero.
Eram cinco e meia da tarde, quando Meredith finalmente recebeu o telefonema que estivera esperando com ansiedade. O esquadro de Nova Orleans no encontrara
o menor vestgio de qualquer tipo de explosivo na loja e comeara a remover as barreiras erguidas ao redor do prdio. Essa foi a boa notcia. A m era que a loja
deixara de vender por um dia inteiro, na poca mais importante do ano para o comrcio.
Exausta, Meredith passou as informaes para Mark, encheu a pasta com papis para ler em casa e foi embora. Parker ainda no telefonara, mas certamente entraria
em contato logo que recebesse seu recado.
Chegando ao apartamento, jogou o casaco, as luvas e a pasta numa poltrona e foi verificar se havia alguma mensagem na secretria eletrnica, mas a luzinha no
estava piscando. Ao lado do telefone, encontrou um bilhete da sra. Ellis, onde a mulher explicava que fora trabalhar naquele dia porque tinha consulta mdica marcada
para a quarta e que fizera as compras da semana.
O silncio de Parker comeou a enervar Meredith, que no pde impedir-se de imagin-lo doente, num hospital suo, ou tentando esquecer as mgoas nos braos
de uma mulher. Obrigou-se a parar de pensar aquelas coisas, dizendo a si mesma que bastara chegar perto de Matt para ficar nervosa e comear a prever desastres.
Podia ser tolice, mas uma tolice compreensvel, depois da triste experincia que tivera com ele no passado.
Tomou banho e acabava de vestir-se, quando bateram na porta do apartamento, surpreendendo-a. Quem quer que fosse, devia ter a chave da porta de segurana l
embaixo, o que significava que s podia ser a sra. Ellis, porque Parker estava muito longe.
-Esqueceu alguma coisa, sra. Ellis? - perguntou, abrindo a porta, ficando atnita ao ver Parker, que a olhava com ar aborrecido.
-Acho que foi voc que esqueceu alguma coisa, Meredith - ele Censurou. - Por exemplo, que tem um noivo.
Dominada pelo remorso, porque era bvio que ele voltara to cedo por estar preocupado, Meredith jogou-se em seus braos, notando sua Citao em abra-la.
-No esqueci - ela assegurou, beijando-o no rosto. - Desculpe, querido! Desculpe, por favor!Puxou-o para dentro e fechou a porta, mas Parker no tirou o sobretudo,como
seria de esperar, e parou aps dar alguns passos voltando-se para ela com ar frio.
-Est se desculpando por qu, Meredith?
-Por t-lo deixado to preocupado que voc largou a conferncia e voltou para casa. No recebeu o recado que deixei em seu hotel de manh? s dez e meia, pelo
nosso horrio.
Ele pareceu menos tenso depois de ouvir a explicao, mas a frieza no abandonou seu rosto.
-No recebi. Gostaria de um drinque - disse, tirando o sobretudo
-Qualquer coisa serve, desde que seja forte.
Meredith concordou com um gesto de cabea, mas continuou olhando para ele, examinando as feies marcadas pelo cansao.
-No acredito que veio embora porque no conseguiu comunicar-se comigo, Parker!
-Essa foi apenas uma das razes.
-E qual foi a outra?
-Amanh ser declarada a falncia de Morton Simonson. Fiquei sabendo ontem  noite, em Genebra - ele informou, sentando-se no sof.
Meredith no entendeu por que a falncia de um fabricante de tintas industriais o faria antecipar a volta.
-E o que isso tem a ver com voc? - perguntou, caminhando para o armrio que servia de bar.
-Nosso banco emprestou a Simonson cem milhes de dlares. Se a empresa falir, perderemos a maior parte desse dinheiro. E como parecia que eu estava perdendo
tambm minha noiva, decidi voltar para ver se podia recuperar um dos dois, ou ambos.
A despeito de ele estar tentando brincar, Meredith compreendeu que a situao que envolvia Morton Simonson era bastante grave.
-Nunca correu o risco de me perder, querido.
-Por que no retornou meus telefonemas? Onde estava? O que est acontecendo entre voc e Farrell? Lisa me contou que voc falou com o pai dele e, como descobriu
certas coisas, foi para Indiana na sexta  noite para contar a verdade a Farrell e tentar convenc-lo a concordar com o divrcio.
-Contei a verdade - Meredith afirmou gentilmente, entregando-lhe a bebida. Ento, sentou-se ao lado dele e continuou: - Matt concorda com o divrcio. Stuart
Whitmore e eu vamos nos encontrar com ele seus advogados, amanh.
-Ficou o fim de semana todo com Farrell?
- Fiquei. Ele estava doente demais para me ouvir, na sexta-feira ela explicou.
Contou tudo o que ela e Matt haviam conversado e, quando acabou, olhou para as mos entrelaadas no colo, consumida pela culpa de no ter contado o resto. No
tinha certeza se confessar ao noivo que o trara seria um meio egosta de livrar-se do remorso, ou algo moralmente correto. De qualquer maneira, aquele no era o
momento certo para revelar que fizera amor com Matt. O caso de Morton Simonson j era uma preocupao grande demais para Parker.
-Farrell deve ter ficado furioso, quando soube que seu pai enganou-o, dizendo que voc fizera aborto - o noivo comentou.
-No. Agora deve estar odiando meu pai, mas na hora s ficou triste. Chorei muito, quando falei do enterro de Elizabeth, e ele tambm chorou. No havia lugar
para raiva.
-Acredito - Parker murmurou.
Desviou o olhar do rosto dela, comeando a girar o copo entre as mos. No interminvel silncio que se seguiu, Meredith soube que ele adivinhara que fora trado.
-Parker - ela chamou baixinho, pronta para confessar o erro.
-Se est se perguntando se eu e Matt
-No me diga que foi para a cama com Farrell, Meredith! Minta, se for necessrio, faa-me acreditar que nada aconteceu, mas no me diga que dormiu com ele!
Eu no suportaria.
O noivo j a julgara e dera a sentena. Para Meredith, que apenas queria dizer a verdade, esperando que ele compreendesse e um dia a perdoasse, aquilo pareceu
uma condenao  priso perptua no purgatrio.
Parker depositou o copo na mesa e passou um brao ao redor dos ombros dela, puxando-a de encontro ao corpo e tentando sorrir.
-Pelo que Stuart disse a voc, parece que Farrell est sendo muito decente - observou.
-Est, sim - concordou Meredith com um sorriso trmulo. Ele a beijou na testa.
-Est quase tudo acabado, ento. Amanh  noite faremos um brinde s bem-sucedidas negociaes para seu divrcio e, talvez,  aquisio do terreno de Houston
que voc tanto quer.
Fez uma pausa, suspirando.
-Vou ter de encontrar outro banco que lhe empreste o dinheiro Para a compra do terreno e a construo da loja - informou. - Sinonson  nosso terceiro cliente
que vai  falncia, devendo-nos uma fortuna. Se no recebemos dinheiro, no podemos emprestar, a menos que tomemos emprestado do banco federal, a quem j devemos
muito
-Eu no sabia dessas falncias.
-A situao econmica do pas est me deixando assustado Parker confessou, levantando-se e puxando Meredith consigo. - Mas devo estar exagerando. No vai acontecer
nada com nosso banco. Estamos em melhor condio do que a maioria dos concorrentes. Ser que voc poderia me fazer um favor?
-Qualquer coisa - ela prometeu sem hesitar. Ele sorriu e abraou-a.
-Faa com que a Bancroft & Company nos pague todas as parcelas dos atuais emprstimos, sem atraso.
-Sem dvida! - Meredith exclamou, rindo.
Agiu com mais fervor do que nunca, quando Parker beijou-a longamente, antes de sair. Novamente sozinha, recusou-se a comparar os beijos ternos dele com os de
Matt, exigentes e sensuais. Os beijos de Matt ofereciam paixo, e os de Parker, amor.



#40

Matt parou no centro da enorme sala de reunies ao lado de seu escritrio e examinou tudo criticamente. Dentro de meia hora, Meredith estaria ali e ele queria
impression-la com todos os smbolos de seu sucesso, embora soubesse que estava sendo infantil. Chamara uma secretria e uma recepcionista, cujos nomes jamais importara-se
de memorizar at aquele dia, s para que elas lhe dessem sua opinio sobre o aspecto do ambiente. Telefonara para a sala de Vanderwild e pedira-lhe que subisse imediatamente,
porque o moo tinha bom gosto e quase a mesma idade de Meredith, de modo que no faria mal nenhum ouvir seu parecer tambm.
-O que acha, Joanna? - perguntou  secretria, com a mo no interruptor do dimmer que controlava a intensidade da luz dos spots embutidos no teto. - Claridade
demais? Pouca?
-Pen-penso que est bem assim, sr. Farrell - a jovem gaguejou. Valerie, a recepcionista, recuou alguns passos para observar o efeito produzido pelo arranjo
floral no centro da mesa extensa.
-Usar flores naturais foi uma ideia maravilhosa - elogiou. - Posso Pedir a uma floricultura que traga um arranjo todas as teras-feiras?
-No vejo motivo para isso - Matt respondeu, esquecido de que as moas no sabiam que estava preocupado em deixar a sala bonita apenas porque desejava causar
boa impresso a uma pessoa.
Viu Joanna arrumar numa das extremidades da mesa o conjunto de jarra e copos de cristal no valor de dois mil dlares.
-Muito bonito - comentou.
Tornou a correr o olhar pela vasta sala com seu piso forrado por carpete prateado, que fazia elegante contraste com a cor vinho dos sofs e assentos estofados
das cadeiras. Embora seu escritrio e aquela sala ocupassem toda uma lateral do arranha-cu com paredes de vidro, que ofereciam uma vista deslumbrante de Chicago,
ele preferira fecharas cortinas de um prateado opaco para quebrar a luminosidade excessiva e criar uma atmosfera tranquilizante. O spots lanavam sua luz suave,
dando um brilho acetinado  madeira da mesa e arrancando raios coloridos das facetas da jarra e dos copos. A porta deslizante do bar encontrava-se aberta, deixando
 mostra elegantes garrafas de cristal que cintilavam de modo atraente.
Apesar de toda aquela beleza, Matt no se sentia satisfeito, olhando indeciso para as cortinas.
-Devem ficar abertas ou fechadas? - perguntou, indeciso, pressionando o boto do controle remoto que as fazia deslizar suavemente.
As cortinas abriram-se, e o perfil de Chicago recortado contra o cu apareceu, um cenrio fabuloso para um palco requintado.
-Abertas - respondeu Joanna.
-Abertas - Valerie concordou.
Matt olhou para o cu encoberto, refletindo que o encontro com Meredith duraria no mnimo uma hora. Ento, j estaria escurecendo, e a vista se tornaria espetacular.
-Fechadas - decidiu, tornando a pressionar o boto do controle. As cortinas correram silenciosamente pelos trilhos, cobrindo as paredes de vidro. - Abrirei
quando estiver escuro l fora - acrescentou, pensando em voz alta.
Afastando as abas do palet para colocar as mos nos bolsos da cala, refletiu que estava sendo idiota, preocupando-se com tantos detalhes. Msmo que Meredith
ficasse impressionada com tantos sinais de riqueza, detestaria a sala e o dono da sala, quando a reunio comeasse.
Suspirou, ansioso por iniciar a batalha, mas ao mesmo tempo desejando que pudesse dispens-la. Lembrou-se, ento das duas funcionrias, que se mantinham em silncio
junto da mesa.
-Obrigado - agradeceu, virando-se para elas. - Vocs me ajudaram muito. - Sorriu de modo agradvel, a mente voltando para a questo da esttica do recinto.
Distrado, perguntou a Joanna: - Se voc fosse mulher, o que acharia desta sala?
-Mesmo sendo um insignificante rob, acho que  maravilhosa a moa disse friamente.
Matt levou alguns segundos para perceber que recebera uma resposta torta. Olhou por cima do ombro, mas as duas jovens j haviam sado e cruzavam a sala de sua
secretria.
-O que deu nela? - indagou, dirigindo-se a Eleanor Stern, que ficara o tempo todo em silncio, parada perto da porta de ligao.
A mulher ajeitou o casaco do severo conjunto cinzento e pegou o lpis que colocara atrs da orelha.
-Suponho que se zangou porque o chefo no notou que ela  mulher. Essa moa tem tentado chamar sua ateno desde o primeiro dia.
-Pura perda de tempo - declarou Matt. - S patres idiotas envolvem-se com funcionrias.
-J pensou em casar? - perguntou Eleanor. - No meu tempo,isso acabava com as pretenses das assanhadas.
Matt esboou um sorriso.
-Eu sou casado - anunciou, esperando uma reao de surpresa. A secretria nem piscou, folheando o bloco que segurava, parecendo procurar alguma anotao que
quisesse discutir com ele.
-Parabns - resmungou, obviamente no acreditando.
-Estou falando srio.
-Devo passar essa informao  srta. Avery? Ela ligou duas vezes, hoje.
-Casei-me com Meredith Bancroft, onze anos atrs - Matt informou. - E ela estar aqui, s quatro horas.
Eleanor Stern olhou-o por cima dos culos.
-Fez reserva para um jantar a dois, hoje, no Renaldos. A srta. Bancroft ir com o senhor e a srta. Avery? Se for, preciso telefonar ao restaurante e reservar
uma mesa para trs.
-Cancelei meu encontro com - Matt comeou, ento parou, atnito. - Ser que captei censura em sua voz, ou foi impresso?
-Foi impresso, sr. Farrell. Deixou bem claro, desde o incio, que censur-lo no fazia parte de meu trabalho. Tambm disse que no queria ouvir minhas opinies,
nem ganhar bolo no seu aniversrio, que s desejava meu tempo e minhas habilidades. Mudando de assunto, quer que eu assista  reunio para fazer anotaes?
Matt engoliu o riso ao descobrir que ela estivera, durante anos, remoendo com ressentimento aquilo que ele dissera ao contrat-la.
-Acho que  boa ideia fazer anotaes - aprovou. - Preste particular ateno a tudo o que a srta. Bancroft e seu advogado disserem. No pretendo deixar que
esqueam qualquer concesso que fizerem.
-Tudo bem - Eleanor disse, virando-se para sair.
-Srta. Stern! - Matt chamou, e ela voltou-se. - Posso cham-la de Eleanor?
-Naturalmente.
-Acha que ns dois Bem, poderamos ser menos formais um com o outro?
-Est sugerindo um relacionamento mais descontrado, tpico de secretria e patro que trabalham juntos h muito tempo?
-Isso mesmo.
Para espanto de Matt, os olhos claros da mulher mostraram um lampejo divertido, algo que ele nunca vira antes.
-Terei de trazer bolo no seu aniversrio?
-Acho que sim.
-Vou anotar, para no esquecer - Eleanor declarou, obrigando Matt a dar uma gargalhada. Ento, pela primeira vez, em tantos anos sorriu para ele. - Mais alguma
coisa?
-Mais uma, e muito importante. Em sua opinio, esta sala est impressionante pela beleza, ou parece uma vulgar ostentao de riqueza?
Ela olhou em volta, com toda a ateno.
-Tenho certeza de que vai merecer a admirao da srta. Bancroft-respondeu.
Perplexo com aquela demonstrao de perspiccia, Matt viu-a girar nos calcanhares e sair apressadamente.
Peter Vanderwild andava de um lado para o outro no escritrio de Eleanor Stern, esperando que ela sasse da sala de reunies e o mandasse entrar para falar com
Farrell. Ela apareceu por fim, andando com muita pressa, e ele preparou-se para ser atacado, como um estudante travesso diante do diretor.
-O sr. Farrell quer falar comigo - o jovem explicou. - Disse que  muito importante, mas como no especificou o assunto, eu no trouxe nenhum
-Acho que no precisava trazer nada, sr. Vanderwild - ela interrompeu-o em tom estranhamente gentil. - Pode entrar.
Lanando-lhe um olhar surpreso, ele entrou na sala de reunies. Dois minutos depois, saiu, to atrapalhado, que colidiu com a mesa de Eleanor.
-Resolveu o assunto com o sr. Farrell? - ela indagou.
-No sei se dei a resposta que ele desejava - Peter confidenciou ento perguntou, nervoso: - Em sua opinio, a sala de reunies est impressionante pela beleza,
ou parece uma vulgar ostentao de riqueza
-Impressionante - ela respondeu. Peter suspirou, aliviado.
-Foi o que eu disse.
-Deu a resposta certa - Eleanor assegurou.
Notando um brilho amigvel nos olhos dela, o executivo percebeuatnito, que havia um pouco de calor humano por baixo daquela aparncia glacial, e que a mulher
possivelmente o tratara com tanta frieza, no comeo, por culpa de sua prpria rigidez. Decidiu dar-lhe uma caixa de bombons no Natal.
Stuart j se encontrava no vestbulo do prdio da Intercorp, quando Meredith chegou.
-Est maravilhosa! - elogiou, apertando a mo que ela lhe ofereceu. - Linda e serena.
Depois de hesitar durante uma hora, antes de escolher o que vestir, Meredith optara por um vestido de l amarelo-claro, acompanhado por um casaco azul-marinho
debruado pelo mesmo tecido do vestido. Lera, em algum lugar, que os homens interpretavam a cor amarela como um sinal de firmeza, mas no de hostilidade. Prendera
os cabelos num coque frouxo para aumentar essa impresso.
-Farrell estar perdido, assim que olhar para voc, e nos dar tudo o que pedirmos - o advogado brincou, enquanto andavam para os elevadores. - No ser capaz
de resistir.
-No tenho tanta certeza - ela admitiu, entrando no elevador na frente dele.
Ficou olhando para a porta de metal dourado, que se fechou suavemente, tentando visualizar Matt sorridente e gentil, como o vira em certos momentos, na fazenda.
No podia pensar nele como num adversrio, depois daquele fim de semana, quando os dois haviam chorado a morte de seu beb. No, Matt no era seu inimigo.
A recepcionista do sexagsimo andar levantou-se ao v-los e, logo que Stuart informou quem eram, levou-os para o escritrio de Matt.
Meredith mal reconheceu o lugar. Na parede da esquerda fora aberta uma porta larga que se abria para uma sala de reunies quase do tamanho de uma quadra de tnis.
Havia dois homens, com certeza os advogados, sentados  mesa, conversando com Matt, que ocupava a cabeceira. Ele se ergueu assim que a viu e foi a seu encontro com
Passadas decididas, um sorriso no rosto aparentemente tranquilo. Usava terno azul-marinho de corte perfeito, camisa branca como a neve e gravata estampada em tons
de vinho e azul. Por alguma razo, v-lo num traje formal deixou Meredith inquieta.
-Deixe-me ajud-la a tirar o casaco - Matt pediu, ignorando Stuart, que se livrava do sobretudo.
Nervosa e acanhada demais para fit-lo nos olhos, ela se virouligeiramente para que ele a ajudasse e sentiu um arrepio quando dedos longos roaram em seus ombros.
Receosa de deixar transparecer sua perturbao, descalou as luvas azul-marinhas e segurou-as na mo esquerda, junto com a bolsa da mesma cor.
Matt afastou-se para colocar o casaco num dos sofs e, quando voltou pegou-a pelo cotovelo e levou-a at a mesa, onde Stuart cumprimentava os oponentes.
-Meredith, quero que conhea Bill Pearson e David Levinson apresentou.
Tomando conscincia do modo protetor e possessivo com que ele se mantinha a seu lado, ela trocou apertos de mos com os advogados, homens mais velhos do que
Stuart, altos, vestidos de modo impecvel. Em comparao com eles, Stuart, bem mais baixo e trajado com muito menos apuro, com os ralos cabelos castanhos e culos
de armao grossa, tinha aparncia insignificante, e os adversrios no teriam dificuldade em subestim-lo.
-Bill e David esto aqui para cuidar tanto de seus interesses como dos meus, Meredith - explicou Matt, quando todos sentaram-se.
Stuart lanou um olhar sugestivo para ela, que compreendeu que no devia acreditar naquilo nem por um minuto. O jovem advogado podia ser mais baixo que os outros
dois, mais jovem e menos imponente, mas era esperto e dono de uma inteligncia fora do comum. Esse raciocnio deixou-a bem mais tranquila.
-O que acham de tomarmos um drinque? - Matt sugeriu, levantando-se e caminhando para o bar. - O que preferem?
-Usque com gelo - respondeu Levinson prontamente, fechando a pasta que acabara de abrir.
-Para mim tambm - disse Pearson, reclinando-se descontraidamente na cadeira.
-Perrier - pediu Stuart. - Com suco de lima, se houver.
-H - afirmou Matt, olhando para Meredith. - E voc, o que deseja?
-Nada, obrigada.
-Nesse caso, me ajudaria a carregar os copos? - ele pediu, de cidido a trocar algumas palavras com ela em particular. - Esses trs homens j se confrontaram
antes, e tenho certeza de que encontraroassunto para discutir enquanto servimos as bebidas.
Com esse comentrio, indicou que seus advogados deviam manter o dela ocupado e, obedientemente, Levinson iniciou uma animadacrtica ao modo como estava sendo
conduzido um julgamento que fora parar nos jornais.
Meredith levantou-se e caminhou at o bar, um meio crculo embutido na parede, forrado de faixas de espelho. Matt foi para trs do balco, mas ela recusou-se
a segui-lo e ficou parada, olhando como que hipnotizada para o brilho das garrafas de cristal, que refletiam lindamente a luz projetada pelos spots.
Retirando a tampa do balde de gelo, Matt colocou cubos em cinco copos. Em seguida verteu usque em trs deles, vodca no quarto, e olhou na direo da geladeira
a seu lado, sob o balco.
-Poderia pegar o Perrier para mim?
Meredith moveu a cabea, concordando, mas sem olhar para ele. Passou para o outro lado, tirou uma garrafa da geladeira, colocou-a no balco e fez meno de virar-se
para sair.
-Por que no consegue me olhar? - Matt perguntou baixinho, pondo a mo em seu brao.
-Eu - ela comeou, hesitante. Mas conseguiu fit-lo e at esboou um sorriso. - Bem, estou achando tudo isso muito difcil.
-Bem-feito - ele brincou, numa tentativa de deix-la menos tensa.
-No sabe que  falta de considerao abandonar um homem que est dormindo, s para no falar com ele?
Ela reprimiu uma risadinha surpresa diante daquela demonstrao de bom humor.
-Foi tolice, admito - respondeu, sorrindo. - No sei explicar por que fiz aquilo. Eu mesma no entendo.
-Acho que sei por qu - ele declarou, entregando-lhe a vodca com soda que preparara para ela. - Beba. Ajudar voc a suportar a reunio com mais facilidade.
- Esperou que ela tomasse um gole, antesde acrescentar: - Gostaria de pedir-lhe um favor.
Meredith captou o tom solene de sua voz e olhou-o atentamente.
-Que favor?
-Lembra-se que me pediu uma trgua, l na fazenda?
-Lembro.
- Quero pedir a mesma coisa, uma trgua, um cessar-fogo, do momento em que a reunio comear, at o fim, quando voc sair desta sala. Um vago receio apoderou-se
dela.
-No entendo, Matt.
-Estou pedindo que oua as condies que sero apresentadas e que, por mais que as ache estranhas, no esquea que estou fazendoo que honestamente acho melhor
para ns dois. Por favor, no saia daqui, nem nos mande para o inferno, mesmo que fique muito zangada. Mais uma coisa. Peo que fique mais cinco minutos, depois
que todos sarem, para que eu tenha tempo de tentar convenc-la a aceitar minhas sugestes. Se no quiser, pode me mandar para o diabo e ir embora. Concorda?
A apreenso de Meredith aumentou, embora Matt estivesse apenas pedindo para ela no sair no meio da reunio, manter-se calma e depois falar com ele a ss.
-Concordei com seus termos, l na fazenda - ele pressionou. Ser demais pedir que concorde com os meus?
-Acho que no. Est certo, concordo com uma trgua.
Matt estendeu-lhe a mo, imitando o gesto dela naquele dia na fazenda. Depois de ligeira relutncia, Meredith apertou-a, sentindo uma estranha agitao, quando
os dedos fortes envolveram os seus.
-Obrigado - Matt respondeu simplesmente, ainda imitando-a. Meredith comoveu-se, compreendendo que o aperto de mos que haviam trocado, quando ela lhe propusera
trgua, significara muito para ele tambm.
-De nada - murmurou, ensaiando um sorriso.
Consciente de que Matt usara o truque das bebidas para falar em particular com Meredith, Stuart mal ouvia a conversa dos colegas, calculando quanto tempo uma
pessoa levaria para preparar cinco drinques. Quando achou que esse tempo esgotara-se, virou a cadeira giratria na direo do bar e viu Farrell e Meredith de perfil,
mas numa situao que o surpreendeu, pois esperara v-los zangados, talvez discutindo. Farrell, porm, oferecia a mo a Meredith com um sorriso que s podia ser
definido com a palavra terno. Ela apertou a mo dele com uma expresso que Stuart nunca vira em seu rosto antes, um ar de pura afeio.
O advogado desviou o olhar rapidamente e virou-se para Levinson e Pearson. Ainda no encontrara explicao para o que vira no rosto de Meredith, quando ela e
Farrell voltaram para a mesa com os drinques.
-Matt, posso comear? - perguntou Pearson, quando os dois sentaram-se.
Stuart notou que Farrell no voltara a ocupar a cabeceira, como seria normal, mas sentara-se junto de Levinson, de modo a ficar frente a frente com Meredith.
A razo parecia bvia. Farrell devia querer observar as reaes dela sem dar muito na vista, o que seria difcil, se ocupasse a cabeceira.
-H muita coisa a ser levada em considerao neste caso - Pearson comeou, dirigindo-se a Stuart. - Temos aqui duas pessoas que trocaram votos matrimoniais
onze anos atrs, sabendo perfeitamente que o casamento  um passo que jamais deve ser dado com displicncia e
-No precisa representar uma cerimnia de casamento - Stuart interrompeu-o, meio aborrecido, meio achando graa. - Os dois j passaram por isso, h onze anos,
e  por esse motivo que estamos aqui hoje. - Voltou-se para Farrell, que rodava uma caneta de ouro entreos dedos, e acrescentou: - Minha cliente no est interessada
na avaliao que seus advogados fizeram da situao. O que ela deseja saber  o que o senhor quer e o que oferece. Vamos entrar direto no assunto.
Em vez de agastar-se com a provocao, Matt olhou para Pearson e com um gesto de cabea, consentiu que fizesse o que Stuart sugerira.
-Muito bem - disse o advogado, perdendo o tom de mediador gentil. - Matthew Farrell tem base suficiente para abrir um processo bastante prejudicial contra o
pai de sua cliente. Como resultado da ingerncia de Philip Bancroft em seu casamento, nosso cliente ficou privado do direito de confortar a esposa e ser confortado
por ela, por ocasio da perda de sua filha, assim como de comparecer ao enterro. Alm disso, foi levado a crer que sua esposa desejava o divrcio, o que no era
verdade. Resumindo, foi privado de onze anos de casamento. Bancroft tambm interferiu nos negcios de Matthew Farrell, influenciando ilegalmente a comisso de zoneamento
de Southville. So assuntos que, naturalmente, podem ser resolvidos numa corte de justia. Stuart olhou para Farrell, que olhava para Meredith, que, por sua vez,
fitava Pearson fixamente, muito plida.
Furioso por ela estar sendo submetida a uma situao embaraosa,o advogado encarou Pearson.
-Se cada homem casado processasse os parentes da mulher por interferncia, teramos um atraso de cinquenta anos no rol das causasa serem julgadas - comentou
com desdm. O oponente olhou-o com ar desafiador.
-A interferncia de Bancroft foi ardilosa e drstica. Acredito que o jri o condenaria por aes que, em minha opinio, foram maldosas, imperdoveis. E ainda
nem estamos falando da manipulao de Bancroft no caso com a comisso de Southville.
Ergueu a mo para silenciar Stuart, que ensaiara um protesto.
-Contudo, quer ganhssemos a causa, ou no, s a abertura do processo causaria uma tempestade de publicidade indesejvel - continuou.
-Algo que prejudicaria no apenas Philip Bancroft, como tambm a empresa Bancroft & Company.  fato conhecido que Bancroft encontra-se doente, e um escndalo
poderia causar grandes danos a sua sade.
Meredith comeou a sentir um n de medo no estmago, mas sua sensao mais forte, no momento, era de que estava sendo trada. Ela contara a Matt a verdade sobre
o beb e o telegrama enviado por seu pai, e ele virara aquilo contra ela.
-No fiz esses comentrios para assust-la ou perturb-la, srta. Bancroft - explicou Pearson. - Foi apenas para lembr-la dos fatos e deix-la saber qual 
nosso ponto de vista. Nosso cliente est disposto a esquecer tudo isso e a abrir mo do direito de processar seu pai, se a senhorita concordar em fazer algumas concesses.
Parou de falar um instante, entregando um documento de duas pginas para Stuart e uma cpia para Meredith.
-A proposta verbal que vou fazer encontra-se nesse documento, com todos os detalhes. Para que no fiquem dvidas sobre a sinceridade de Farrell, ele se ofereceu
para assin-lo, no fim da reunio. Todavia, h uma estipulao. A oferta deve ser aceita, ou rejeitada, antes de a srta. Bancroft sair desta sala. Se for rejeitada,
daremos entrada no processo contra Philip Bancroft at o fim da semana. Gostariam de ler a proposta, antes de eu resumi-la verbalmente?
Sem nem mesmo olhar para o documento, Stuart jogou-o na mesa e reclinou-se na cadeira, olhando para seu adversrio com um sorriso de custica ironia.
-Prefiro ouvir o resumo, Bill. Nunca havia percebido que maravilhoso talento dramtico voc tem. O nico motivo que me impede de mand-lo para o inferno e informar
que nos veremos no tribunal,  que no quero deixar o teatro sem ver o ltimo ato - recitou, escondendo a preocupao e furioso por Pearson intimidar Meredith.
A um sinal de Matt, Levinson pigarreou, preparando-se para falar.
-Talvez fosse melhor que eu fizesse o sumrio da proposta apresentada nesse documento - sugeriu.
-No estou entendendo - declarou Stuart com insolncia. - Voc  o ator principal, ou seu substituto?
-O ator principal - respondeu Levinson, imperturbvel. - Fui eu quem redigiu o documento. - Focalizou a ateno em Meredith, sorrindo de modo agradvel. - Como
meu scio explicou, srta. Bancroft, se concordar com o que seu marido pede, ele no tomar nenhumamedida legal contra seu pai. Alm disso, oferece um acordo financeiro
generoso, ou, se preferir julgar assim, uma penso alimentcia, no valor total de cinco milhes de dlares.
A apreenso de Meredith transformou-se em choque, e ela virou-se para Stuart.
Devo concordar com o qu? Pode me explicar o que est acontecendo?
- s um joguinho - Stuart afirmou. - Primeiro eles a assustaram, mostrando o que podem fazer contra voc, se no participar do jogo. Agora esto dizendo o
que lhe daro, se voc participar.
-Um jogo?! - ela exclamou num grito abafado. - Que jogo?
-Isso ainda no disseram. Esto guardando para o fim. Meredith controlou-se e olhou para Levinson.
-Continue - pediu, erguendo o queixo numa atitude de dignidade e coragem.
-Alm do acordo de cinco milhes, seu marido vender o terreno de Houston  Bancroft & Company por vinte.
Meredith sentiu a sala rodar a sua volta e virou-se para olhar para Matt, confusa e grata.
-Vamos prosseguir - disse Levinson. - Se concordar com a proposta de seu marido, srta. Bancroft, ele assinar a separao de dois anos requerida pelas leis
de nosso Estado antes que o divrcio seja concedido. Ento, o perodo de espera poder ser reduzido para seis meses.
-No precisamos que Farrell assine coisa alguma para conseguir que o tribunal reduza o prazo - replicou Stuart, desdenhoso. A lei  bem clara: se marido e mulher
no coabitaram por dois anos, por motivo de incompatibilidade total, o perodo requerido de dois anos ser reduzido para seis meses. E essas duas pessoas no vivem
juntas h onze anos!
Levinson reclinou-se na cadeira calmamente, e Meredith teve uma horrvel premonio do que ia ouvir.
-Essas duas pessoas passaram o ltimo fim de semana juntas -o advogado anunciou.
-E da? - argumentou Stuart. No estava mais irritado, mas atnito com a oferta de cinco milhes e imaginando, preocupado, que tipo de Concesso Matthew Farrell
pediria em troca. - No coabitaram, no sentido conjugal da palavra. Simplesmente dormiram na mesma casa. Nenhum juiz do mundo achar que pode haver reconciliao
e no insistir numa espera de dois anos.
Silncio profundo dominou a sala.
Zangado de novo, Stuart virou-se para Farrell.
-Vocs ficaram sob o mesmo teto, mas no dividiram uma cama. Matt no replicou, mas olhou sugestivamente para Meredith. Stuart, ento, adivinhou a verdade.
O que viu no rosto de Meredith vermelho de embarao e raiva, foi apenas uma confirmao.
-Tudo bem, dormiram juntos - concedeu, encarando Levinson
-Grande coisa! Por que seu cliente se recusaria a assinar a separao de dois anos? Por que adiar um divrcio inevitvel?
-Porque Farrell no est convencido de que seja um divrcio inevitvel - respondeu Levinson com perfeita calma.
-Isso  ridculo! - gritou Stuart, comeando a rir.
-Farrell no pensa assim. Na verdade, est disposto a conceder os cinco milhes, a vender o terreno de Houston por vinte, a assinar a separao, alm de concordar
em no processar o sr. Philip Bancroft, em troca de apenas uma concesso.
-Que concesso?
-Ele quer uma semana para cada ano de casamento que lhe roubaram. Onze semanas com a esposa, de modo que os dois possam conhecer-se melhor e
Meredith inclinou-se sobre a mesa, olhando para Matt, estupefata.
-Voc quer o o qu?!
-Explique o que seu cliente pretende fazer para que ele e a srta. Bancroft conheam-se melhor - exigiu Stuart.
-Acredito que isso seja algo que os dois devem resolver entre eles-observou Levinson.
-No! No ! - Meredith explodiu, levantando-se. - Fui submetida a tudo, nesta reunio, de terrorismo a humilhao, portanto podem ser claros sobre isso tambm.
- Apoiou as mos na mesa, inclinando-se para Matt, furiosa - Diga como pretende me conhecer melhor, seu, seu miservel! Sua proposta no passa de chantagem!
Matt olhou para seus advogados e depois para Stuart.
-Por favor, deixem-nos a ss.
-Sentem-se! - ordenou Meredith, quando os trs comearam a erguer-se.
No se importava mais com quem pudesse ouvir o qu. Sentia-se encurralada e furiosa. No esperara que a proposta de Matt fosse algo to indecente e grotesco.
Ela teria de dormir com ele durante onze semanas, para que seu pai no fosse arrastado num processo judicial escandaloso que talvez o matasse!
Olhando em volta, desesperada, viu uma mulher de cabelos grisalhos, com certeza uma secretria, sentada numa poltrona perto da porta, escrevendo rapidamente
num bloco de taquigrafia. Tornando a olhar para Matt, refletindo que nunca o odiara tanto, bateu as mos na mesa.
-Quero que todos ouam seus termos obscenos - declarou. Voce matar meu pai, levando-o ao tribunal, se eu no lhe der meu corpo em pagamento, por onze semanas,
no ? Em palavras simples,  isso. Agora cabe a voc dizer a seus malditos advogados com que frequncia pretende fazer sexo comigo, e como, seu cachorro! Diga tambm
a eles para preparar recibos, porque eu o farei assinar um, cada vez que for para a cama com voc!
Olhou para a secretria.
-Est se divertindo, a no seu canto? Conversa bastante estimulante, no? Anote tudo. Esse monstro que  seu patro, vai nos dizer como pretende extrair prazer
de
De repente, todos moveram-se ao mesmo tempo. Matt saltou da cadeira e comeou a rodear a mesa, Levinson tentou segur-lo pela manga, mas no conseguiu, Pearson
ergueu-se. Stuart empurrou a cadeira para trs e levantou-se para colocar-se diante de Meredith.
-Saia da frente, Stuart! - ela gritou, fechando as mos e descendo os braos ao longo do corpo numa atitude rgida, encarando Matt, que se aproximava. - Muito
bem, nojento, comece a ditar seus termos,diga como
Ele tentou peg-la pelo brao, mas Meredith girou, erguendo um brao, e bateu com toda a fora no rosto dele.
-Pare com isso! - Matt ordenou, agarrando-a pelos pulsos.
-Maldito! - ela xingou, comeando a chorar. - Miservel! Eu confiei em voc!
Matt abraou-a, afastando Stuart, que procurava pux-la para longe.
-Escute, Meredith. No estou pedindo que durma comigo. S peo uma chance, droga! Apenas uma chance!
Todos na sala ficaram imveis, olhando para os dois. Meredith parou de lutar para escapar dos braos dele e cobriu o rosto com as mos, tremendo da cabea aos
ps.
Matt virou-se para os outros homens.
-Saiam daqui! Fora!
Levinson e Pearson comearam a juntar os papis, mas Stuart ficou parado onde estava, observando Meredith, que nem repelia Matt, nem o abraava.
-No irei a lugar nenhum, at que voc a solte e ela mesma me pea para sair - retrucou.
Matt percebeu que ele no estava blefando. Como Meredith no se debatia mais, soltou-a e tirou um leno do bolso, estendendo-o para ela.
-Meredith? - Stuart chamou. - Quer que eu espere l fora, ou fique aqui?
Envergonhada ao reconhecer que tirara concluses erradas e fizera uma cena, e irada porque fora induzida a isso, Meredith arrancou o leno da mo de Matt.
-O que ela quer  me dar outro soco - Matt informou numa sombria tentativa de desanuviar a atmosfera.
-Eu mesma posso decidir o que quero - Meredith resmungou, enxugando os olhos e recuando um passo. - Fique, Stuart. - Encarou Matt. - Voc quis que tudo fosse
feito de modo legal, com todas as formalidades, portanto explique a meu advogado esse negcio de querer uma chance, porque eu no entendi.
-Prefiro explicar a voc, em particular.
-Que coisa estranha! - ela replicou em tom sarcstico. - Foi voc quem insistiu em fazer as coisas dessa maneira, na presena de advogados. Por que no me poupou,
falando comigo em particular?
-Telefonei, ontem, exatamente para propor isso - Matt defendeu-se. - Voc se recusou a falar comigo e mandou sua secretria dizer que s se comunicaria comigo
atravs de seu advogado.
-Por que no telefonou de novo?
-Quando? Depois que voc partisse para Reno ou outro lugar qualquer para conseguir o divrcio? No era esse o motivo da viagem imprevista?
-Eu estava certa em querer fazer isso - ela declarou.
Matt reprimiu um sorriso de orgulho. Meredith j estava recuperando o equilbrio emocional, empertigara-se e erguera o queixo com altivez.
Ela olhou por cima do ombro e viu que os advogados dele j caminhavam para a porta, levando os sobretudos e pastas. Stuart, porm, no se movera do lugar e,
com os braos cruzados no peito, examinava Matt com um misto de antagonismo, suspeita e franca curiosidade.
-Meredith, poderia pelo menos dizer a seu advogado que espere no meu escritrio? - Matt pediu. - De l ele poder nos ver, mas no precisa ouvir mais do que
j ouviu.
-No h mais nada para esconder - ela argumentou. - Vamos acabar logo com isso. Diga exatamente o que deseja de mim.
-Muito bem - Matt concordou, decidindo que estava pouco se incomodando com o que Stuart Whitmore ouvisse. Sentou-se na borda da mesa e cruzou os braos. - Quero
uma chance de nos conhecermos melhor. - Isso j foi dito. O que faremos, para nos conhecer melhor? - Jantaremos juntos, iremos ao teatro - Com que frequncia? -
ela interrompeu-o em tom rspido.
- No pensei nisso.
-Acredito. No teve tempo, porque estava ocupado demais, aperfeioando sua chantagem e inventando modos de arruinar minha vida!
-Quatro vezes por semana! Sairemos juntos quatro vezes por semana. E, Meredith, no quero arruinar sua vida. Eu
-Em que dias da semana?
-Quarta, sexta, sbado e domingo.
-Esqueceu que trabalho e tenho um noivo?
-No pretendo atrapalhar seu trabalho. Quanto a seu noivo, ter de ficar nos bastidores durante onze semanas.
-Mas isso no  justo para Parker! - ela gritou.
-Azar dele!
As palavras speras de Matt e sua expresso dura eram provas to eloquentes de sua personalidade implacvel, que Meredith finalmente conformou-se com o fato
de que nada do que fizesse ou dissesse o faria mudar de ideia.
-Todas as coisas horrveis que dizem de voc so verdadeiras, no so? - murmurou.
-A maioria.
-Pouco se importa com quem magoa, nem sente remorso pelo que faz, quando deseja alguma coisa. Estou errada?
-No nosso caso, no est. Passarei por cima de qualquer coisa Para conseguir o que quero.
Meredith suspirou, desanimada.
-Por que est fazendo isso comigo? Que mal eu lhe fiz, para que Deseje despedaar minha vida desse jeito?
-Digamos que acho que ainda existe alguma coisa entre ns uma atrao, e que desejo descobrir se  profunda ou superficial.
-Meu Deus! - exclamou Meredith. - No acredito no que estou ouvindo! No existe nada entre ns, a no ser um triste passado. - E o ltimo fim de semana - ele
a lembrou, sem nenhum tato.
-Aquilo foi apenas sexo - ela rebateu, escondendo a vergonhae a raiva.
-Foi?
-Quem melhor do que voc para dizer? Se tudo o que li for verdade, Matthew Farrell  o recordista mundial de casos sem significado e conquistas baratas. Como
pde dormir com aquela cantora de rock de cabelos cor-de-rosa?
-Marianna Tighbell?
-Essa mesma. E no se d ao trabalho de negar, porque sua ligao com ela saiu na primeira pgina do National Tattler.
Matt engoliu o riso, quando Meredith comeou a andar de um lado para o outro. Adorava o jeito como ela se movia, como parecia morder as palavras, quando estava
com raiva e a maneira como o agarrava ao aproximar-se do orgasmo, como se tivesse dvida de que pudesse chegar ao prazer mximo. Ela era linda e tinha natureza
apaixonada, apesar da serena aparncia exterior, e seria esperar demais que no tivesse ido para a cama com muitos homens, naqueles onze anos. Ele s podia desejar
que todos eles houvessem sido egostas, ineptos, sem imaginao e no muito potentes.
-No respondeu - ela observou. - Como teve coragem de dormir com aquela mulher?
-S fui a uma festa na casa de Marianna. Nunca dormi com ela.
- para eu acreditar?
-Acredite, se quiser.
-Bem, isso no importa. - Ela fez uma pausa, antes de tentar, mais uma vez, faz-lo abandonar o plano maluco. - Matt, por favor, compreenda minha situao.
Estou apaixonada por outro homem.
-No estava, no domingo, quando foi para a cama comigo.
-Pare de falar nisso! Amo Parker Reynolds, juro. Desde a adolescncia, muito antes de conhecer voc! Mas ele se apaixonou por outra e
-Ouviu minha proposta, Meredith.  pegar, ou largar - ele replicou, irredutvel.
Ela o olhou, consciente de que a discusso estava terminada. Stuart obviamente tambm notou, porque vestiu o sobretudo e andou at a porta, onde ficou  espera.
Sentindo-se derrotada Meredith foi buscar a bolsa que deixara na mesa, ento caminhou at o sof para pegar o casaco, sentindo o olhar de Matt acompanh-la.
-Essa  sua resposta? - ele perguntou friamente.
Sem dizer nada, ela ainda tentava descobrir de que maneira podesse comov-lo e faz-lo desistir da ideia de uma convivncia de onze semanas. Sabia que era impossvel.
Matt no tinha corao, era dominadopor paixo, orgulho e desejo de vingana. Pendurou o casaco no brao e saiu da sala, sem sequer olhar para trs.
-Vamos - disse a Stuart, com a louca esperana de que Matt, no ltimo instante, a chamasse e dissesse que fora tudo um blefe, que ele no faria mal a ela nem
a Philip.
Esperou em vo.
Era evidente que a secretria j fora para casa, e quando Stuart fechou a porta de ligao entre os dois escritrios, Meredith parou e virou-se para ele.
-Ele pode executar a ameaa que fez contra meu pai? - perguntou com voz sufocada.
Stuart suspirou.
-No podemos impedi-lo de dar entrada no processo, nem de levar seu pai ao tribunal. Mas acredito que no ganhar muito mais alm de vingana. De qualquer modo,
no dia em que o processo for aberto, o nome de Philip Bancroft aparecer nas manchetes de todos os jornais.
-Meu pai no est bem de sade para enfrentar um escndalo. Meredith olhou para o documento na mo do advogado. - No h nenhuma falha a, que possamos usar
contra Matt?
-Nenhuma. Nem armadilhas escondidas. A proposta foi redigida de modo simples e direto, diz exatamente o que Levinson e Pearson explicaram.
Stuart ps o documento na escrivaninha, para que Meredith pudesse l-lo. Ela porm, abanou a cabea numa negativa, pegou uma caneta esferogrfica que devia pertencer
 secretria, e assinou-o.
-Leve para ele assinar, agora - murmurou, jogando a caneta na mesa como se estivesse suja. - Faa aquele manaco escrever os dias em que deseja me ver e imponha
uma condio: se faltar um dia, no poder compens-lo com outro.
Stuart quase sorriu ao ouvir aquilo, mas conteve-se e pegou o documento.
-Acho que no precisa passar por tudo isso, a menos que queira os cinco milhes e o terreno de Houston mais do que demonstrou l dentro. Farrell est blefando,
a respeito de seu pai.
Meredith animou-se.
-Por que acha isso?
-Por intuio.
-Intuio, baseada em qu?
O advogado pensou na ternura que vira no rosto de Farrell quandoele apertara a mo de Meredith e no modo como aquele homem com fama de implacvel comportara-se
quando ela o esbofeteara, segurando-a sem nenhuma agressividade. E embora achasse, no princpio, que Farrell desejava apenas uma orgia de onze semanas, vira como
ele ficara chocado quando Meredith fizera essa acusao.
-Se ele  bastante perverso para fazer isso com seu pai, por que foi to generoso na proposta que lhe fez? Podia ter apenas usado a ameaa do processo para
obrigar voc a render-se.
-Ele est se divertindo, mostrando a mim e a meu pai que pode jogar fora alguns milhes, sem que esse dinheiro lhe faa falta - ela argumentou. - Stuart, meu
pai humilhou-o terrivelmente, quando ele tinha vinte e seis anos e tentou fazer a mesma coisa agora. Posso imaginar o dio de Matt por Philip Bancroft.
-Eu poderia apostar que ele no far nada contra seu pai, voc aceite a proposta, ou no.
-Gostaria de acreditar nisso, Stuart - ela respondeu. - D-me uma razo slida para crer, e jogaremos o documento no lixo.
-Estou dizendo que Farrell no far coisa alguma para mago-la. Pode achar estranho, mas o modo como ele se comportou com voc levou-me a pensar assim.
Meredith deu uma risada amarga.
-E como foi que ele se comportou? Usou de intimidao e chantagem, humilhou-me!
-No  chantagem. Farrell quer dar dinheiro a voc, no tirar. Deseja obrig-la a pegar o que voc tanto quer. Captei certas coisas, graas  ttica de Pearson
e ao seu pendor para o drama. Vi como Matt ficava zangado, quando Pearson era duro com voc. Ele escolheu os advogados errados para lidar com um assunto to delicado.
Levinson e Pearson s trabalham de um jeito: pulam no pescoo da vtima e tentam vencer a qualquer custo.
-No posso apostar a vida de meu pai, baseada em algo to frgil
-Meredith declarou, desanimada. - Matt escolheu advogados que pensam exatamente como ele. Voc pode ter razo, dizendo que ele no quer me magoar, mas est
errado, achando que sabe o que Matt realmente quer. No  a mim, porque mal me conhece. O que ele deseja  vingar-se de meu pai e descobriu duas maneiras de faz-lo:
lev-lo ao tribunal, ou me usar, que  a melhor. Sua vingana ser muito mais doce, se meu pai for obrigado a nos ver juntos, achando que existe uma chancede nos
reconciliarmos. Para Matt,  sempre olho por olho. - Fez uma pausa e suspirou. - Agora, Stuart, leve o documento para ele.
O advogado tomou-lhe a mo.
- Est bem. O que devo dizer a Farrell?
-Diga que esse acordo e nosso casamento devem ser mantidos em segredo. Pode ser que ele no concorde, porque isso tiraria um pouco do prazer da vingana, mas
tente.
-Farei o que puder.
Assim que ela saiu, Stuart escreveu os termos na segunda pgina. Ento, caminhou para a porta do escritrio de Farrell e entrou sem bater. No o vendo ali, foi
para a sala de reunies.
As cortinas tinham sido abertas, e Farrell olhava para fora, com um copo de bebida na mo. Tinha a aparncia de um homem que sofrera uma grande derrota e lutava
para recuperar-se. Na verdade, sozinho no imenso aposento, rodeado pelos smbolos de sua riqueza e poder, parecia uma pessoa solitria, isolada do mundo.
-Com licena - Stuart pediu para chamar-lhe a ateno. Farrell virou-se e, por um rpido momento, seu rosto assumiu uma expresso que o advogado achou que podia
tanto ser de alvio como de maldosa satisfao.
-Eu ia tomar outro drinque - informou, no parecendo ter pressa de pegar o documento. - Gostaria de me acompanhar, ou prefere ir direto ao assunto?
-Vou aceitar um drinque - respondeu Stuart, decidindo no perder a oportunidade de tentar descobrir os sentimentos de Farrell por Meredith.
-Outro Perrier? - Farrell quis saber, andando para o bar.
-Usque puro.
-Tem certeza?
-Eu mentiria para um magnata esperto como voc? - perguntou Stuart secamente.
Farrell olhou-o com ar sarcstico, passando para trs do balco.
-Voc mentiria ao prprio diabo, para salvar a pele de um cliente. Surpreso e aborrecido pela verdade parcial daquela observao,Stuart ps a pasta no cho
e o documento no balco.
-Tem razo - concordou. - Principalmente quando se trata de Certos clientes, como Meredith. Somos amigos h muito tempo e, para ser franco, tive uma paixo
por ela - contou, tentando estabelecer um clima propcio para confidncias.
- Eu sei.
Novamente surpreso e meio convencido de que Farrell blefava, Stuart sorriu ironicamente.
-Considerando que a prpria Meredith no sabia, voc est notavelmente bem informado - comentou. - O que mais sabe?
-Sobre voc?
-.
Matt entregou-lhe o copo de usque e comeou a preparar um drinque para si mesmo.
- o mais velho de cinco irmos. Seu av fundou a firma de advocacia onde voc agora  scio majoritrio, levando adiante uma tradio de famlia - recitou.
- Formou-se com vinte e trs anos por Harvard, como primeiro aluno da classe, tambm uma tradio familiar. Depois de graduado, quis trabalhar na promotoria pblica
e especializar-se como acusador de senhorios aproveitadores, mas cedeu  presso da famlia e juntou-se  firma, prestando servio a ricos empresrios, quase todos
de seu crculo social.
Mexeu o drinque com uma colher de cabo comprido, parando de falar por um instante.
-Odeia direito empresarial, mas tem talento para a coisa - prosseguiu. -  um negociador duro, brilhante estrategista e bom diplomata, a menos que se envolva
sentimentalmente com a causa, como aconteceu hoje.  dedicado e meticuloso, mas no trabalha bem com jurados, porque tenta influenci-los com fatos concretos, em
vez de com lgica emocional. Por essa razo, faz todos os preparativos que antecedem o julgamento, mas entrega a um scio os casos que envolvem um jri.
Fez uma pausa para tomar um gole da bebida.
-Quer que eu continue? - perguntou.
-Naturalmente, se ainda tiver algo mais a dizer.
-Tem trinta e trs anos,  heterossexual, gosta de carros velozes, que no compra, e de velejar, o que sempre faz. Quando estava com vinte e dois anos, achou
que amava uma garota de Melrose Park que conheceu na praia, mas ela pertencia a uma famlia operria italiana e a brecha cultural entre vocs era larga demais para
ser transposta. Terminaram o namoro. Aos vinte e nove, voc se apaixonou por Meredith, mas no foi correspondido e contentou-se em ser seu amigo. Aos trinta e um,
sob presso da famlia, ficou noivo de Georgina Gibbons, mas acabou rompendo o compromisso. Seu patrimnio atual  de dezoito milhes de dlares, a maioria em aes,
e voc herdar mais quinze,quando seu av morrer, a no ser que ele perca tudo em Monte Carlo, aonde vai s para jogar, pois raramente ganha.
Fez um gesto na direo dos sofs, saindo de trs do balco. Entre espantado e irritado, Stuart pegou o copo, a pasta e o documento e seguiu-o.
-Esqueci alguma coisa importante? - perguntou Farrell, depois que se sentaram frente a frente.
-Esqueceu - respondeu Stuart com um sorriso sardnico. - Qual  minha cor favorita?
Farrell fitou-o.
-Vermelho.
Stuart engasgou com o drinque e comeou a tossir.
-Est certo sobre tudo, menos numa coisa - observou, depois que a tosse cessou. - No sou meticuloso.  claro que voc se preparou muito melhor do que eu para
o confronto de hoje. Ainda estou esperando pelas informaes sobre voc que encomendei e tenho certeza de que nem de longe sero to completas. Estou admirado.
Farrell deu de ombros.
- tudo muito simples. A Intercorp tem seu prprio departamento de informaes sobre crdito e uma agncia de investigaes que presta servios a vrias corporaes
multinacionais.
Stuart achou estranho que ele dissesse a Intercorp tem, em vez de eu tenho, como se no quisesse que sua pessoa fosse associada ao imprio que criara. A grande
maioria dos empresrios com fortuna decente gostava de gabar-se de seu sucesso e tinha uma embaraosa necessidade de alardear o que possua. Ele esperara algo assim
de Farrell, que a imprensa mostrava no s como magnata, mas tambm como extravagante playboy internacional que levava a vida de um sulto moderno.
A verdade parecia ser outra. Stuart teve a sensao de que, na melhor das hipteses, Farrell era um homem reservado e solitrio, que as pessoas tinham dificuldade
em conhecer. E que, na pior, era um homem frio e calculista, incapaz de sentir emoes, com uma tendncia para a crueldade e um autocontrole to forte que chegava
a provocar arrepios nos outros.
-Como sabe qual  minha cor favorita? - o advogado perguntou, intrigado. - Isso no aparece nas fichas de crdito.
-Adivinhei - Farrell respondeu. - Sua pasta e sua gravata so duma tonalidade marrom-avermelhada, e a maioria dos homens gostade vermelho, assim como quase
todas as mulheres gostam de azul. Olhou, ento, pela primeira vez, para o documento que Stuart pusera na mesa entre os dois. - Falando em mulheres, suponho que Meredith
assinou o acordo.
-Assinou, mas acrescentou algumas condies - Stuart explicou. Ela quer que voc especifique os dias da semana em que se encontraro e que fique claro que,
se perder um encontro, no haver reposio.
O rosto de Farrell suavizou-se, e Stuart viu um brilho divertido nos olhos cinzentos. Mas no teve tempo de captar mais nada, porque Farrel levantou-se e foi
at a mesa de reunies, voltando pouco depois com a caneta de ouro que deixara l.
-Meredith tambm deseja que o casamento e o acordo sejam mantidos em segredo - disse.
Farrell abriu o documento na segunda pgina, leu as clusulas acrescentadas e assinou.
-A ideia de manter as coisas em segredo foi sua, ou de Meredith?- quis saber, devolvendo os papis.
-Dela - Stuart afirmou e, porque estava louco para ver a reao de Farrell, informou: - Se Meredith seguisse meu conselho, teria jogado este documento no lixo.
Farrell observou-o com enervante ateno, os olhos brilhando com uma centelha de algo que poderia ser respeito.
-Se ela fizesse isso, estaria arriscando a vida do pai e o bom nome dela.
-No estaria arriscando nada - Stuart contrariou-o. - Voc blefou Ou  um cafajeste de marca, porque o que est fazendo  radical e antitico, ou louco, ou
ama Meredith. Qual das trs alternativas  a correta?
-A primeira - respondeu Farrell. - Ou, talvez, a segunda. Possivelmente, as trs. Voc decide.
-J decidi.
-Qual ?
-A primeira e a terceira. - Stuart notou o leve sorriso de Farrell e tomou um gole do usque, antes de indagar: - O que sabe sobre Meredith?
-S o que li em jornais e revistas nos ltimos onze anos. Prefiro descobrir o resto sozinho.
Stuart refletiu que no fazia sentido um homem investigar a vida de um advogado de modo to minucioso e no fazer o mesmo com a vida da esposa, quando, supostamente,
desejava vingana com tanto ardor.
-Ento, no sabe nada sobre ela - declarou. - Por exemplo, sobreaquele vero aps seu primeiro ano na universidade, quando correu o boato de que ela tivera
um trgico caso de amor e por isso no aceitava sair com nenhum rapaz. Voc, naturalmente, foi a causa, embora sem querer.
Parando de falar por um momento, observou a chama de intenso interesse e emoo que brilhou nos olhos de Farrell, antes que ele procurasse disfarar o que sentia,
levando o copo aos lbios.
-Tambm no sabe que, ainda na universidade, Meredith rejeitou um moo que, por vingana, espalhou a mentira de que ela era lsbica ou frgida - continuou.
- O que a salvou de ficar com fama de lsbica foi que sua amiga ntima e colega de quarto, Lisa Pontini, estava saindo com o presidente do diretrio acadmico e
os mexericos foram abafados. Mas a reputao de frgida pegou, e o apelido de rainha do gelo ficou conhecido at aqui em Chicago. Mas ela  to linda que essa
fama aumentou seu encanto, por representar um desafio, e aparecer em pblico com Meredith Bancroft tornou-se uma honra.
Stuart esperou que Farrell pegasse a deixa e comeasse a fazer perguntas que talvez revelassem um pouco de seus sentimentos, mas, ou ele no sentia nada por
Meredith, ou era esperto demais para morder a isca. O advogado tinha certeza de que a ltima alternativa era a correta e decidiu insistir.
-Posso perguntar uma coisa, Farrell?
-Pode perguntar, mas no sei se vou responder.
-Por que trouxe dois advogados famosos pela dureza com que tratam as pessoas para lidar com Meredith?
Farrell sorriu friamente.
-Foi um erro ttico de minha parte - admitiu. - Na minha pressa de que aprontassem o documento a tempo, esqueci de avisar que deviam apenas convencer Meredith
a assinar, no despeda-la.
Pondo o copo na mesa, levantou-se, deixando claro que a entrevista terminara. Sem opo, Stuart imitou-o.
-Foi mais do que um erro, foi uma catstrofe - declarou, curvando-se para pegar os papis. - Alm de coagir Meredith, voc a traiu e humilhou, deixando que
Levinson contasse que ela dormiu com voc no ltimo fim de semana. Ela vai odiar voc por isso, e no sero as onze semanas que remediaro o mal. Se a conhecesse
melhor, saberia disso.
-Meredith  incapaz de guardar rancor por muito tempo - comentou Farrell. - Se no fosse, odiaria o pai por estragar sua infncia e sua adolescncia e por colocar
obstculos em sua carreira. E o odiariaainda mais agora, porque acabou de descobrir o que ele fez contra ns onze anos atrs. Em vez de odiar, Meredith procura
desculpas para os erros das pessoas a quem ama, os meus, inclusive, como fez quando disse a si mesma que eu a abandonara porque me casara com ela por pura obrigao.
Na pausa que se seguiu, Stuart refletiu, fascinado, que tudo o que estava ouvindo confirmava sua suspeita.
-Meredith no suporta ver uma pessoa sofrendo - Farrell continuou. - Mandou flores para nossa filhinha morta, com cartes afirmando que ela fora amada. Chorou
nos braos de um velho, porque ele, durante onze anos, acreditou que ela matara o beb de seu filho. Viajou quatro horas numa nevasca para ir me contar a verdade.
 boa de corao, prudente, astuta, inteligente e intuitiva, e essas qualidades permitiram que se sobressasse no trabalho e evitaram que fosse devorada por executivos
maldosos ou se tornasse igual a eles. - Pegou a caneta de cima da mesa e lanou um olhar frio e desafiador para Stuart.
-O que mais eu precisaria saber sobre Meredith?
O advogado encarou-o com triunfante satisfao.
-Ora, vejam! - exclamou com uma risadinha. - Eu no me enganei. Voc est apaixonado por ela. E, para no mago-la, no processar Philip Bancroft.
Farrell ps as abas do palet para trs e colocou as mos nos bolsos da cala, sem demonstrar preocupao pelo que acabara de ouvir, o que estragou um pouco
a alegria de Stuart.
-Voc acha isso, mas no est bastante certo para deixar que Meredith se arrisque. Nem mesmo voltar a abordar o assunto com ela. E, mesmo que tivesse certeza,
ainda hesitaria em faz-lo.
-No diga! - Stuart retrucou com um sorrisinho zombeteiro, pegando a pasta. - Por que pensa assim?
-Porque, desde o momento em que soube que Meredith dormiu comigo no ltimo domingo, no teve mais certeza de nada - respondeu Farrell em tom calmo. - Principalmente
sobre o que ela sente por mim. Comeou a andar para a porta, numa sugesto acintosa para que o advogado fosse embora.
Stuart, de repente, lembrou-se do que vira no rosto de Meredith quando ela apertara a mo de Farrell no bar, e a incerteza que o atingira aumentou.
-Sou advogado de Meredith - observou, escondendo o que sentia.
-  meu dever dizer-lhe tudo o que penso, mesmo que seja apenas uma intuio.
-J esteve apaixonado por ela e agora  seu amigo. Est emocionalmente envolvido e, por causa disso, vai refletir, hesitar e, por fim, decidir que as coisas
devem ficar como esto. Afinal, se essas onze semanas nada produzirem, ela no ter nada a perder. Muito pelo contrrio, ganhar cinco milhes de dlares.
Chegaram  escrivaninha de Farrell e pararam. Stuart olhou em volta, tentando pensar em alguma coisa para dizer, algo forte que abalasse aquele homem to seguro
de si. Foi ento que viu na mesa um porta-retrato com a fotografia de uma jovem.
-Vai deixar essa foto a, enquanto estiver cortejando sua esposa?-perguntou.
-Vou.
-Quem ?
-Minha irm.
Irritado com a calma inabalvel de Farrell, Stuart deu de ombros.
-Lindo sorriso. E lindo corpo - elogiou num deliberado esforo para ser ofensivo.
-Prefiro ignorar a segunda frase. E sugiro que ns quatro, Meredith, voc, eu e minha irm, jantemos juntos, quando Julie vier a Chicago. Ah, por favor, diga
a Meredith que irei busc-la amanh  noite, s sete e meia. Telefone para minha secretria, pela manh, e passe o endereo.
Percebendo que fora dispensado sumariamente, Stuart concordou com um gesto de cabea e saiu, fechando a porta atrs de si. Ento, pensou se no faria um favor
a Meredith, aconselhando-a a fugir do acordo que fizera com Farrell, estivesse apaixonada por ele, ou no. O homem era uma mquina fria, totalmente isenta de emoes.
Nem mesmo uma observao vulgar a respeito da irm fizera-o perder o controle.
Assim que se viu sozinho, Matt afundou na cadeira, inclinou a cabea Para trs e fechou os olhos.
-Deus - murmurou com um longo suspiro de alvio. - Obrigado. Era a primeira prece que fazia em onze anos.





#41

Como foram as coisas com Farrell? - perguntou Parker, ao chegar ao apartamento de Meredith, para lev-la para jantar.
Ela no respondeu. Apenas moveu a cabea negativamente, passando a mo nos cabelos.
Ele segurou-a pelos ombros.
-O que aconteceu?
- melhor sentar.
-Suportarei - ele afirmou.
Dez minutos mais tarde, quando acabou de ouvir o que se passara naquela tarde, Parker estava
-E voc concordou com uma coisa dessa, Meredith?
-Tinha escolha? Mas no foi to ruim - ela assegurou, tentando sorrir para fazer o noivo sentir-se melhor. - Pensei bastante depois que sa de l. Fui objetiva
e vi que o acordo  mais uma inconvenincia, um aborrecimento, do que qualquer outra coisa.
-Sempre sou muito objetivo, mas no posso concordar com voc.
Meredith sentia-se to cheia de culpa e perturbao, que no considerara o fato de que Parker poderia ficar menos zangado se ela demonstrasse mais desagrado
por ser obrigada a sair com Matt durante onze semanas.
-Escute, querido - pediu, com um sorriso encorajador -, mesmo que eu tivesse ido para Reno e conseguido um divrcio rpido, a questo das propriedades continuaria,
porque  algo que deve ser resolvido separadamente. Do jeito que vai ser, tudo ficar solucionado de uma vez. Teremos de esperar apenas seis meses.
-Desses seis meses, trs voc passar com Farrell! - retrucou Parker, em tom spero.
-No ser um relacionamento ntimo - ela argumentou.Sairei s quatro vezes por semana com Matt. Ainda restaro trs para ns dois.
-O filho da puta foi bastante justo - o noivo comentou com amarga ironia.
-Voc est vendo as coisas por um lado errado - ela alertou, percebendo que tudo o que falava deixava-o ainda mais zangado. Ele est fazendo isso para vingar-se
de meu pai, no porque me queira.
-No tente tapar o sol com a peneira, Meredith. Farrell no  gay, nem cego, e vai querer mais do que inocentes passeios e jantares. Voc mesma disse que os
advogados do canalha deixaram claro que ele ainda se considera seu marido. E sabe o que me deixa mais furioso nisso tudo?
-No - ela respondeu com um n na garganta. - Mas pode dizer, se puder faz-lo sem ser vulgar e prepotente.
-No acredito! Farrell lhe faz uma proposta indecente, nojenta, e eu  que sou vulgar e prepotente? Mas o que mais me desgosta nisso tudo, o que acho mais doloroso,
 que voc no est muito preocupada com a situao. Farrell oferece cinco milhes para voc cair na farra com ele quarenta e quatro vezes. Quer dizer que pagar
mais ou menos cem mil dlares por vez.
-Se  para sermos to precisos, tecnicamente Matt ainda  meu marido!-declarou Meredith, passando da mgoa e frustrao para a raiva.
-E eu, tecnicamente, sou o qu? Um apndice?
-Voc  meu noivo.
-Quanto pretende cobrar de mim?
-Fora daqui, Parker - ela ordenou, sem gritar.
-J estou indo - ele respondeu, pegando o sobretudo, que pusera no encosto de uma cadeira.
Meredith tirou do dedo o anel de noivado, lutando contra as lgrimas.
-Tome. Leve isto.
Parker olhou para a jia na palma da mo dela e suspirou, parecendo mais calmo.
-Fique com o anel, por enquanto. Estamos perturbados demais Para pensar com clareza. No, no  isso. Eu estou perturbado, voc no. Na verdade, est muito
calma, querendo que eu engula essa sujeira e ainda ache graa!
-Eu s queria amenizar a situao para que voc no ficasse zangado demais.
Ele hesitou por um momento, ento estendeu a mo e fechou os dedos dela ao redor do anel.
- isso mesmo, Meredith? Sinto-me como se o cho afundasse sob meus ps, e voc, que vai enfrentar tudo durante trs meses, est aceitando o fato muito melhor
do que eu. Bem, acho que no a verei mais, at voc decidir se me quer de volta, se realmente sou importante.
-E eu acho que voc deve aproveitar esse tempo para tentar descobrir por que no pde ser compreensivo, no conseguiu me dar apoio, em vez de encarar a situao
como uma disputa sexual na qual corre o risco de perder a mulher de sua propriedade!
Ele saiu sem dizer mais nada, fechando a porta. Meredith jogou-se no sof, vendo seu mundo, que parecera to brilhante e promissor apenas alguns dias atrs,
desmoronar a sua volta. O que sempre acontecia, quando ela se aproximava de Matthew Farrell.




#42

Sinto muito, senhor, mas no pode estacionar aqui - o porteiro informou, quando Matt saiu do carro, diante do prdio de Meredith.
Conseguindo pensar apenas no encontro que ia ter com a prpria esposa, Matt colocou uma nota de cem dlares na mo enluvada do homem e comeou a andar na direo
da entrada.
-Cuidarei do carro para o senhor - prometeu o porteiro.
A propina exagerada era tambm um pagamento por futuros favores, pois Matt sabia que os porteiros eram iguais, no mundo todo, e que compreendiam perfeitamente
quando algum precisava de sua complacncia. Com aquele, ele no teria mais problemas.
O guarda sentado  mesa da recepo examinou a lista de visitantes e encontrou o nome dele.
-Srta. Bancroft, apartamento quinhentos e cinco - recitou. - Vou avisar pelo interfone que o senhor est subindo.
Meredith estava to tensa que sentia as mos trmulas, enquanto arrumava os cabelos soltos, fazendo-os flutuar ao redor do rosto. Recuando para olhar-se melhor
no espelho, observou a camisa de seda verde e a saia de crepe de l do mesmo tom que estava usando. Satisfeita, ajustou o cinto estreito, debruado de dourado, e
colocou pulseira e brincos de ouro. O rosto continuava plido, de modo que ela aplicou mais um pouco de blush nas faces. Ia passar outra camada de batom, Quando
o interfone tocou, sobressaltando-a de tal forma que ela deixou cair o pequeno tubo. Adivinhando que Matt chegara, pegou o batom, tanpou-o e jogou-o na bolsa. Por
que se dava ao trabalho de ficar bonita para Matthew Farrell, que nem tivera a cortesia de informar aonde iriam para que ela soubesse o que usar?
Pegou a bolsa e caminhou para a porta principal, ignorando estoicamenteo tremor dos joelhos, abriu-a e deparou-se com Matt, mas no o encarou.
-Tive a esperana de que se atrasasse - declarou com honestidade. A recepo foi desagradvel, mas Meredith estava to linda, de verde-esmeralda, com os cabelos
soltos, que Matt precisou conter-se para no rir e tom-la nos braos.
-Queria que eu me atrasasse quanto tempo?
-Trs meses.
Ele riu, ento, e Meredith quase o fitou no rosto ao ouvir o som profundo, mas baixou os olhos depressa, ainda incapaz de encar-lo.
-J comeou a se divertir? - ela perguntou com desdm, fixando o olhar no colarinho da camisa creme que combinava perfeitamente com o palet esporte de cor
castanho.
Viu que Matt no pusera gravata e deixara abertos os dois primeiros botes da camisa, expondo o pescoo bronzeado.
-Voc est linda - ele elogiou, ignorando a estocada.
Ela girou nos calcanhares e foi pegar o casaco no armrio embutido numa das paredes do vestbulo.
-Como voc no teve a gentileza de me dizer o que faramos hoje, eu no tinha ideia do que deveria usar - censurou.
Matt no disse aonde ia lev-la. Sabia que ela comearia uma briga, quando descobrisse, por isso, quanto mais protelasse esse momento, melhor,
-Voc est vestida de maneira perfeita - afirmou.
-Obrigada pelo comentrio esclarecedor - ironizou Meredith. Tirou o casaco do armrio, virou-se e colidiu com Matt. - Quer fazer o favor de sair da frente?
-Quero ajud-la a vestir o casaco.
-No! No me ajude a fazer coisa alguma. Nunca mais!
-Vai comportar-se desse jeito o tempo todo? - ele perguntou, pegando-a pelo brao.
-No - ela respondeu. - Vai ser pior.
-Sei que est zangada, mas
Meredith ergueu os olhos para os dele, finalmente.
-No sabe quanto - declarou com voz trmula de raiva. - Nem imagina. - Abandonando a deciso de manter-se muda e deix-lo morto de tdio, acrescentou: - L
no bar da sala de reunies, pediu-me que confiasse em voc, depois usou contra mim o que contei sobre o que aconteceu onze anos atrs. Achou mesmo que poderia destruir
minha vida na tera-feira e vir aqui na quarta, esperando ser recebido com sorrisos? Seu hipcrita insensvel!
Matt fitou os olhos azuis, faiscantes de fria, e pensou seriamente em dizer. Amo voc, Meredith. Mas ela no acreditaria. Usaria a descoberta contra ele,
recusando-se a tornar a v-lo, quebrando o contrato que assinara. E isso ele no podia permitir. Precisava de tempo para provar que um futuro relacionamento com
ele no traria o mesmo sofrimento do passado. Estabelecera um plano de ao, cuja primeira fase era faz-la perder o hbito de culp-lo por tudo o que acontecera
e acontecia de errado entre eles.
Tomou o casaco e abriu-o para que ela o vestisse.
-Sei que pareo um hipcrita insensvel e no a condeno por isso. Mas, pelo menos, faa-me justia, lembrando que no fui o vilo do drama, onze anos atrs.
Ela deslizou os braos nas mangas do casaco e fez meno de afastar-se, mas Matt segurou-a pelos ombros, virou-a e ficou esperando at que ela olhou-o nos olhos.
-Pode me odiar pelo que estou fazendo agora. Tem esse direito. Mas no pelo passado. Fui vtima da trama de seu pai, tanto quanto voc.
-Naquela poca voc j era insensvel - ela acusou, livrando-se das mos dele e andando para a porta. - Quase no me escreveu, quando foi para a Venezuela.
-Escrevi dezenas de cartas! - ele protestou, abrindo a porta. Eu prprio remeti metade delas. E voc no pode me censurar. Em todos aqueles meses, escreveu
apenas seis vezes!
Caminharam em silncio at os elevadores, e Meredith refletiu que Matt estava mentindo sobre as cartas para isentar-se de culpa. Mas alguma coisa perturbava-lhe
a mente, algo que ele dissera quando telefonara da Venezuela e que ela tomara como crtica a seu modo de escrever: Voc tambm no  uma correspondente muito boa.
At o mdico obrig-la a restringir as atividades fsicas, ela mesma Pusera as cartas para Matt na caixa de correio do porto, para o carteiro Peg-las e remet-las.
Mas qualquer pessoa poderia tir-las da caixa, o Pai, um dos criados. E as cinco cartas que recebera de Matt foram aquelas que ela pegara das mos do carteiro porque
ficara  espera dele.
Uma horrvel suspeita surgiu em seu ntimo. Olhando rapidamente para Matt, parado a seu lado, reprimiu o impulso de fazer mais perguntas sobre o assunto.
O elevador chegou e, segundos depois, os dois cruzavam o vestbulo. Caram para a rua e Matt levou-a at um Rolls Royce marrom-avermelhado estacionado em local
proibido.
Meredith deslizou para o banco de couro e ficou olhando fixament para a frente, enquanto Matt punha o veculo em movimento, entrando na corrente de trnsito.
-Quantas cartas minhas voc recebeu? - ele perguntou, quando pararam num sinal vermelho.
-Cinco - ela respondeu secamente, olhando para as mos.
-Quantas escreveu?
Ela hesitou, ento deu de ombros.
-No comeo, mandei duas por semana. Depois, como voc no respondia, comecei a mandar uma s.
-Perdi a conta de quantas escrevi - ele declarou. - S posso presumir que seu pai interceptou nossa correspondncia.
-Isso no importa, agora.
-No? Meu Deus, quando penso com que ansiedade eu esperava uma carta sua, como ficava arrasado, quando no chegava nada
A intensidade da voz de Matt surpreendeu-a quase tanto quanto as palavras. Olhou-o, perplexa, lembrando-se de que ele, no passado, nunca dera a entender que
a apreciava como pessoa. Na cama, sim, mas fora dela, nunca. A luz mortia do painel, ela observou-lhe o perfil, o nariz reto, a boca cinzelada, o queixo voluntarioso.
De repente viu-se de volta no tempo, sentada ao lado dele no Porsche, admirando os cabelos escuros revoltos pelo vento, atrada e ao mesmo repelida por aquelas feies
de beleza mscula e nua sensualidade. Matt tornara-se ainda mais bonito, pois o poder que ela pressentira nele tantos anos atrs, manifestara-se completamente, inegvel,
duro e terrivelmente potente.
-Posso perguntar aonde estamos indo? - ela perguntou, aps vrios minutos.
Ele sorriu.
-Chegamos - anunciou, acionando o boto de seta e virando para a entrada da garagem subterrnea do edifcio onde morava.
-Eu devia ter adivinhado que voc tentaria algo parecido - ela explodiu, preparada para descer do carro no momento em que parasse e voltar para casa nem que
fosse a p.
-Meu pai quer v-la - ele informou calmamente, estacionando numa vaga diante dos elevadores.
Mais tranquila, Meredith saiu do veculo.
Foi o esquisito motorista de Matt que abriu a porta do apartamento, e Meredith viu Patrick Farrell subir os degraus para o vestbulo, com um amplo sorriso no
rosto.
-Aqui est ela - Matt disse ao pai. - Como prometi, estou entregando-a s e salva. E furiosa comigo.
Patrick estendeu os braos para Meredith, que aninhou-se entre eles, comovida. Por fim, o velho soltou-a, mas envolveu-lhe os ombros com um brao, virando-a
na direo do motorista.
-Meredith, esse  Joe OHara. Vocs j se conhecem, mas no creio que tenham sido apresentados.
Ela conseguiu sorrir de leve, embaraada ao recordar as duas cenas fortes de que participara e a que o motorista assistira.
-Muito prazer, sr. OHara.
- um prazer conhec-la, sra. Farrell.
-Bancroft - Meredith corrigiu-o.
-Certo - o homem concordou, lanando um sorriso malicioso para Matt, antes de virar-se para Patrick e avisar: - Pego voc l na frente, mais tarde.
Saiu e fechou a porta.
Quando fora l da outra vez, Meredith estivera perturbada demais para notar o luxo extravagante do ambiente. Agora estava tensa demais para fitar qualquer um
dos dois homens, de modo que olhou em volta, impressionada. A cobertura ocupava o ltimo andar inteiro, e todas as paredes externas eram de vidro, oferecendo uma
vista espetacular das luzes de Chicago. Trs degraus largos de mrmore, ladeados por dois pilares, desciam do vestbulo para a sala de estar dividida em vrios ambientes.
 direita, ela viu uma mesa e cadeiras de jantar num nvel um pouco mais elevado, como o vestbulo, e,  esquerda, um espao aconchegante, com sofs, poltronas e
um bar em estilo ingls. Todos os outros recantos eram elegantes e harmoniosamente decorados. O lugar era opulento, com aqueles pisos em nveis diferentes, revestidos
de mrmore. Muito diferente da sala de Meredith, mas, mesmo assim, ela adorou tudo o que viu.
-Est gostando, Meredith? - perguntou Patrick, sorrindo.
-Estou.  tudo muito bonito - ela elogiou com sinceridade.
De sbito, ocorreu-lhe que a presena do pai de Matt era a resposta a suas preces. Ele no devia saber que o filho estava usando tticas to pesadas para alcanar
o objetivo de vingar-se, e se ela conseguisse falar com ele a ss e contar-lhe o que se passava, Patrick talvez concordasse em intervir.
Matt adora mrmore, mas no me sinto  vontade com essas lajes lanas. Parece que j morri e fui enterrado - o velho brincou.
-Imagino como deve se sentir nas banheiras dele, que as revistas dizem ser de mrmore preto - Meredith comentou com um leve sorriso.
-Numa tumba! - exclamou Patrick.
-Querem um drinque, vocs dois? - Matt ofereceu, indo para o bar.
-Cerveja sem lcool para mim - respondeu o pai, levando Meredith at um sof.
-Um refrigerante - Meredith pediu, sentando-se.
-Voc vai tomar xerez - declarou Matt arbitrariamente.
-Fique  vontade, Meredith. No me importo nem um pouco de ver os outros beberem - explicou Patrick, que permanecera de p. Quer dizer que as revistas esto
comentando as banheiras de Matt?
-Comentaram, tempos atrs. E vi fotos deste apartamento no suplemento de domingo de um jornal.
-Eu sabia! - exclamou Patrick, piscando para ela. - Cada vez que saa alguma matria sobre Matt em jornais ou revistas, eu dizia a mim mesmo que esperava que
Meredith Bancroft visse. Voc o acompanhou a distncia, no ?
-No! - Meredith protestou. - Nunca fiz isso! Foi Matt quem a salvou da embaraosa situao.
-J que o assunto  notoriedade, quero fazer uma pergunta. Seu advogado disse que voc quer manter nossos encontros em segredo, Como pretende conseguir isso?
- indagou, olhando-a, enquanto abria uma garrafa de xerez.
-Em segredo? Por qu, Meredith? - Patrick quis saber.
-Porque ela ainda est comprometida com outro homem, pai Matt antecipou-se, impedindo-a de responder. Tornou a fit-la. - Suas fotos tambm j saram em jornais
e revistas, de maneira que as pessoas a reconhecero em qualquer lugar.
-Acho que vou ver se o jantar vai demorar para ficar pronto - disse Patrick, dirigindo-se depressa para a porta alm do ambiente de jantar.
-Mesmo que eu no seja reconhecida, voc ser - observou, falando com Matt, assim que o velho desapareceu. - Matthew Farrell  um smbolo sexual, alm de poderoso
empresrio. Leva para a cama qualquer coisa que use saia, dorme com estrelas do cinema e cantoras de rock, depois seduz as criadas delas.
Parou de falar, quando notou que Matt comeara a rir.
-Est rindo de mim? - perguntou, irritada.
-De onde tirou essas besteiras sobre criadas? - Ele destampou uma garrafa de cerveja sem lcool, esforando-se para ficar srio.
-Vrias secretrias da Bancroft so suas admiradoras - ela explicou com desdm. - E lem muitas coisas sobre voc no Tattler.
-No Tattler? - ele ecoou, mal podendo conter o riso. - Naquele jornalzinho sensacionalista que disse que fui levado para bordo de um disco voador e que l um
clarividente aliengena me fez revelaes e me ensinou a dirigir meus negcios?
-No. Esse foi o The World Star - ela respondeu bruscamente.
-Li num exemplar que algum deixou no balco da mercearia.
-Tambm li, nem sei onde, que voc estava tendo um caso com um escritor de roteiros teatrais - Matt contra-atacou.
-Foi no Chicago Tribune - Meredith esclareceu. - E a colunista no disse que eu estava tendo um caso com Joshua Hamilton, apenas que estvamos sendo vistos
juntos com bastante frequncia.
Matt carregou uma bandeja com os copos at a mesa diante do sof onde ela se sentara.
-Voc teve um caso com ele? - insistiu, pousando a bandeja. Meredith levantou-se e pegou o copo de xerez.
-Nem que quisesse. Joshua est apaixonado por Joel, filho da mulher de meu av.
-Joshua est apaixonado por quem? - perguntou Matt, obviamente confuso.
-Pelo filho da segunda mulher de meu av. Joel e eu temos quase a mesma idade. O outro filho de Charlotte chama-se Jason.
-Entendo. Esse Joel  gay?
Meredith fitou-o, estreitando os olhos ameaadoramente.
-, mas no se atreva a fazer comentrios sobre ele! Joel  a pessoa mais bondosa, mais gentil que conheci. Jason, que no  gay,  um canalha completo.
-Quem diria! A jovenzinha altiva e recatada com quem me casei tinha seus segredos embaraosos! - Matt comentou, segurando-a pelo brao.
Meredith livrou-se sem nenhuma elegncia.
-Pelo menos no dormi com metade da populao! - exagerou.
-Muito menos com gente de cabelos cor-de-rosa!
Patrick, que voltara para a sala sem ser notado, deu uma risada.
-Quem  que tem cabelos cor-de-rosa? - indagou.
Matt olhou na direo da mesa de jantar, onde uma criada colocava uma travessa de porcelana.
- muito cedo para jantarmos - comentou, franzindo a testa.
-A culpa  minha - confessou o pai. - Pensei que meu aviopartisse  meia-noite, mas depois que voc saiu para ir buscar Meredith fui olhar a passagem e vi
que o voo sai s onze. Ento, pedi  sra Wilson para aprontar o jantar uma hora mais cedo.
Meredith, que mal podia esperar para ir embora, ficou deleitada com o que ouviu, decidindo pedir a Patrick que a deixasse em casa no caminho para o aeroporto.
Mais confortada por essa ideia, conseguiu manter-se calma durante toda a refeio, no que foi ajudada por Patrick, que encarregou-se de quase toda a conversao,
falando de trivialidades. Mesmo sentada  direita de Matt, que ocupava a cabeceira, deu um jeito de no falar com ele e nem mesmo olh-lo.
O fim do jantar, porm, estabeleceu um novo rumo para a reunio. Meredith julgava que Patrick no sabia das medidas extremas que o filho tomara para coagi-la
a sair com ele por onze semanas. Estava enganada.
-Voc no dirigiu uma palavra a Matt, desde que nos sentamos para comer - observou o velho, quando saa da mesa. - Isso no a levar a lugar nenhum. Vocs dois
precisam de uma boa briga, para pr tudo em pratos limpos. Podem comear o vale-tudo assim que eu sair daqui. No precisa me acompanhar at l embaixo, Matt, porque
Joe estar a minha espera.
Meredith levantou-se o mais depressa que pde.
-No vamos ter nenhuma briga - declarou. - Tambm estou indo embora, sr. Farrell. Ser que poderia me deixar em casa, no caminho para o aeroporto?
-No seja tola, Meredith. Fique aqui com Matt, e ele a levar para casa mais tarde.
-Por favor, sr. Farrell!
-Pai - ele corrigiu.
-Desculpe pai - ela murmurou. Ento, percebendo que aquela seria sua ltima chance de conseguir o apoio do sogro, confidenciou.
-Acho que no sabe por que estou aqui. S vim, porque seu filho me chantageou, forando-me a me encontrar com ele por um perodo de onze semanas!
Esperou que Patrick ficasse surpreso e exigisse que Matt desse uma explicao, mas nada disso aconteceu.
-Matt fez o que era necessrio para impedir voc de fazer algo de que se arrependeria pelo resto da vida.
Meredith recuou, como se levasse um tapa no rosto.
-Eu nunca deveria ter contado a nenhum dos dois o que aconteceu anos atrs - lamentou-se. - Sr. Farrell, o tempo todo, hoje, achei que no sabia como foi que
Matt conseguiu me trazer aqui e at estava pensando em pedir que intercedesse por mim.
Patrick ergueu a mo num apelo mudo para ser compreendido, antes de virar-se para Matt, que se levantara tambm e ficara imvel e calado durante toda aquela
troca de palavras.
-Preciso ir, agora.
-Est bem, pai.
-Quer mandar algum recado para Julie? - Patrick perguntou a Meredith.
-Diga que mandei minhas condolncias. Deve ser horrvel ter um irmo e um pai sem corao - ela respondeu, olhando em volta  procura do casaco e da bolsa.
Patrick colocou-lhe a mo no ombro, mas ela no se virou para olhlo. O velho retirou a mo e afastou-se.
No momento em que a porta fechou-se atrs dele, o silncio invadiu a sala, pesado, sufocante.
-Vou pegar minhas coisas para ir embora - Meredith anunciou por fim.
Matt pegou-a pelo brao.
-Ns vamos conversar - informou, naquele tom frio e autoritrio que ela detestava.
-S se me amarrar - ela replicou. - E, se tentar, conseguirei uma ordem de priso contra voc, por violncia fsica.
Matt percebeu que no ia conseguir nada, a no ser aumentar a animosidade de Meredith, de modo que decidiu fazer a ltima coisa que gostaria.
-Assinamos um trato! Ou voc j no se importa com o que possa acontecer a seu pai? - perguntou, numa clara ameaa.
O olhar que recebeu estava to carregado de desprezo e hostilidade que, pela primeira vez, ele imaginou se no se enganara ao pensar que Meredith era incapaz
de odiar.
-Precisamos conversar - observou, abrandando o tom da voz. Aqui ou em sua casa. Decida.
-Em minha casa.
Fizeram o percurso de quinze minutos em completo silncio. Quando ela abriu a porta do apartamento, a atmosfera entre os dois vibrava de tenso.
Meredith acendeu um abajur, depois andou at a lareira, para ficar o mais longe possvel de Matt.
-Disse que queria conversar. Comece.
Cruzou os braos e encostou-se na lareira, esperando que ele comeasse a dizer coisas destinadas a intimid-la.
Parado perto de uma mesinha, Matt ps as mos nos bolsos da cala e olhou em volta, parecendo fascinado pelo ambiente aconchegante. Em certo momento, tirou as
mos dos bolsos e pegou o porta-retrato com a foto de Parker, que ficava na mesinha. Recolocou-o no lugar, e seu olhar vagueou da escrivaninha antiga para a mesa
de jantar com seus candelabros de prata, pousando finalmente no sof e poltronas forrados com chintz estampado agrupados perto da lareira.
-O que est fazendo? - Meredith indagou, confusa. Ele a encarou.
-Satisfazendo muitos anos de curiosidade.
-Curiosidade, sobre o qu?
-Sobre voc, o modo como vive.
Se no soubesse que era impossvel, Meredith diria que vira um brilho de ternura nos olhos cinzentos, quando Matt comeou a andar em sua direo.
-Voc gosta de chintz - ele comentou com um sorriso, parando diante dela e colocando novamente as mos nos bolsos. - E de antiguidades. Sua sala  convidativa
e muito bonita. Gostei.
-timo. Agora posso morrer feliz - ela disse com sarcasmo. Mas vamos ao que interessa. O que deseja me dizer?
-Gostaria de saber por que parece mais zangada hoje, do que ontem.
-Vou lhe contar por qu. Ontem, concordei em me submeter a sua chantagem, mas de modo algum participarei da farsa que voc est querendo encenar.
-Que farsa?
-Voc est fingindo que quer a reconciliao. Fez isso na frente dos advogados, ontem, e hoje, diante de seu pai. Quer apenas vingana e encontrou um jeito
mais sutil e barato do que processar meu pai.
-Mais barato? Eu podia massacrar uma poro de gente no tribunal com os cinco milhes de dlares que lhe darei. No  vingana, Meredith. Eu lhe disse por que
pedi para passar algum tempo com voc. Existe algo entre ns, sempre existiu. Onze anos de separao no extinguiram isso, seja l o que for, e quero uma chance
de descobrir o que .
Meredith ficou assombrada, com raiva de ouvi-lo dizer tal mentira e  beira de um acesso de riso, porque ele queria que ela acreditasse.
-Est querendo me fazer crer que sentiu alguma coisa por mim, durante todos esses anos?
-Acreditaria, se eu dissesse que sim?
-S se fosse idiota! O mundo inteiro sabe que teve centenas de casos, a maioria com mulheres famosas.
-Um grande exagero. Droga, Meredith! - ele exclamou, passando uma das mos pelos cabelos, enquanto se virava e dava alguns passos.
-Acreditaria, se eu dissesse que sua lembrana me perseguiu durante anos, aps o divrcio? Quer saber por que quase me matei de trabalhar, por que me arrisquei
em empreendimentos loucos, tentando triplicar cada centavo que possua? Quer saber o que fiz no dia em que meu patrimnio chegou a um milho de dlares?
Confusa, incrdula, fascinada, Meredith moveu levemente a cabea numa afirmativa.
-Abri uma garrafa de champanhe e fiz um brinde a voc, porquea fora que me impulsionou foi a determinao insana, obsessiva, de lhe provar que eu era capaz
de vencer. No foi um brinde amigvel,mas bastante expressivo. Eu disse: A voc, minha esposa mercenria.
Espero que se arrependa amargamente do dia em que me abandonou.
Sabe o que senti, quando descobri que toda mulher que levava para a cama era loira de olhos azuis, como voc e que, inconscientemente, era com voc que eu fazia
amor?
-Isso  repugnante - Meredith murmurou, chocada.
-Exatamente! Senti repugnncia! - Matt declarou, voltando para perto dela. - E como estamos na hora da confisso,  sua vez.
-Como assim?
-Vamos comear por sua incredulidade quando eu disse que existiu alguma coisa entre ns esse tempo todo.
-No h nada entre ns!
-Nenhum de ns dois voltou a casar-se. Voc no acha estranho?
-No.
-Na fazenda, quando voc me pediu uma trgua, no estava sentindo nada por mim?
-No - Meredith mentiu.
-E na minha sala de reunies, quando eu pedi trgua?
-No senti nada, a no ser um sentimento de amizade superficial.
-Voc ama Reynolds?
-Amo.
-Ento, por que foi para a cama comigo, no ltimo fim de semana?
Meredith respirou fundo.
-Simplesmente aconteceu. Estvamos tentando consolar um ao outro. Foi agradvel, mais nada.
-No minta! Ficamos loucos de paixo naquela cama! - Quando ela permaneceu muda, ele pressionou: - E voc no tem o menor desejo de fazer amor comigo novamente,
no ?
-No, no tenho.
-Me daria cinco minutos para provar que est mentindo?
-No.
-Acha que sou to ingnuo que no percebi, aquele dia na cama, que voc me queria to desesperadamente quanto eu a desejava?
-Estou certa de que tem experincia suficiente para avaliar o que uma mulher sente, no primeiro suspiro que ela der - Meredith retrucou, percebendo tarde demais
que estava admitindo o que ele dissera. Mas, correndo o risco de destruir essa sua desgraada autoconfiana, vou dizer exatamente como me senti naquele dia. Como
sempre me senti na cama, com voc: inexperiente e desajeitada.
-O qu?! - ele exclamou, obviamente atnito.
-Voc ouviu.
Para seu espanto, em vez de enfurecer-se, como ela esperara, Matt apoiou uma das mos no aparador da lareira e comeou a rir.
-Desculpe - ele pediu, contrito, quando finalmente conseguiu controlar-se.
Estendeu a mo e acariciou o rosto dela, francamente deliciado por perceber que, apesar de toda sua inata sensualidade, Meredith no tivera muitos amantes. Se
houvesse ido para a cama com vrios homens, em vez de sentir-se desajeitada com ele na cama, saberia que com um simples toque era capaz de incendi-lo de paixo.
-Meredith, voc  adorvel, por dentro e por fora - murmurou. Inclinou-se para beij-la, mas ela virou a cabea, e seus lbios pousaram na orelha delicada.
-Se me beijar, transformarei os cinco milhes em seis - prometeu em tom rouco, deslizando a boca pelo rosto macio. - Se for para a cama comigo, hoje, eu lhe
darei o mundo - continuou, aspirando extasiado, o doce perfume que emanava dela. - Mas se for morar comigo, darei muito mais que isso.
-Seis milhes de dlares e o mundo! - ela disse baixinho, em tom desdenhoso, tentando ignorar o excitante contato dos lbios deMatt em sua pele. - O que mais
poderia me dar, se eu fosse morar com voc?
-O paraso. - Erguendo a cabea, ele tomou o queixo dela entreo polegar e o indicador e forou-a a virar o rosto e encar-lo. Ento, continuou em tom solene
e emocionado: - O paraso, numa bandeja de ouro. Voc ter tudo o que quiser, eu inclusive.
Meredith engoliu em seco, hipnotizada pela expresso terna dos olhos cinzentos e o timbre harmonioso da voz profunda.
-Seremos uma famlia - ele prosseguiu. - Teremos filhos. Gostaria que tivssemos seis - brincou, beijando-a na tmpora. - Mas ficarei contente com um.
Ela exalou um suspiro entrecortado, e Matt reconheceu que forara demais a situao.
-Pense nisso - ele pediu com um sorriso, soltando-lhe o queixo. Desnorteada, de to surpresa, Meredith viu-o virar-se, caminhar paraa porta e sair, sem dizer
mais uma nica palavra. Ficou olhando para a porta que se fechou atrs dele, tentando absorver tudo o que ouvira. Apoiando-se no encosto de uma poltrona, pois sentia
as pernas fracas, rodeou-a e sentou-se, sem saber se ria ou chorava.
Matt s podia estar louco. S isso explicaria aquela teimosia em alcanar um objetivo que evidentemente estabelecera onze anos atrs, e que era provar que se
tornara bom o bastante para ser marido de uma Bancroft.
Com uma risadinha histrica, Meredith percebeu que Matthew Farrell a via como um objeto de tentativa de fuso, um alvo, como se ela fosse uma empresa.
Ela no devia, no podia acreditar que de fato ele ficara preso a sua lembrana durante anos, aps o rompimento. Matt nunca dissera que a amava, enquanto estavam
casados, nem mesmo nos mais ardentes momentos de paixo.
No entanto, acreditara em certas coisas que ele dissera. Com certeza, trabalhara como um desesperado para provar a ela, e a Philip Bancroft, que podia fazer
fortuna. Isso era bem prprio de Matt, assim como o brinde que ele fizera no dia em que completara seu primeiro milho de dlares. Vingativo at a medula. Obstinado.
No fora  toa que adquirira tanto poder no mundo dos negcios.
Ele dissera outra coisa verdadeira. Sempre houvera algo entre eles. uma espcie de atrao inexplicvel que explodira na noite em que se viram pela primeira
vez e formara um lao que os aproximara de modoto ntimo nos poucos dias de convivncia por ocasio do casamento. Ela sempre tivera conscincia disso, mas fora
um choque descobrir que Matt tambm percebera.
E essa atrao misteriosa surgira novamente durante o almoo no Landrys e depois, de modo incontrolvel, no ltimo domingo, na fazenda.
Com um suspiro desanimado, ela se levantou, apagou a luz e foi para o quarto. Estava desabotoando a blusa, quando algumas palavras de Matt, nas quais ela estivera
evitando pensar, foraram passagem por sua mente. Se for para a cama comigo, hoje, eu lhe darei o mundo. Mas se for morar comigo, darei muito mais que isso. O paraso,
numa bandeja de ouro. Voc ter tudo o que quiser, eu inclusive.
Sacudindo a cabea para livrar-se da recordao indesejvel, acabou de desabotoar a blusa. O homem possua um mortal poder de seduo. No era de admirar que
tantas mulheres cassem a seus ps. A mera lembrana da voz dele murmurando aquelas palavras deixara-a com as mos trmulas.
Um pensamento sbito a fez sorrir. Matt nunca morara com outra mulher, do contrrio todos ficariam sabendo. Portanto, nunca oferecera o paraso a ningum. S
a ela. Esse raciocnio, estranhamente, a fez sentir-se muito melhor.
Quando se deitou, pensou em Parker. Esperara o dia todo que ele telefonasse. A despeito do modo como haviam se separado na noite anterior, sabia que nenhum dos
dois queria romper o noivado. Talvez ele houvesse esperado um telefonema seu. No dia seguinte, ela ligaria e tentaria, mais uma vez, faz-lo compreender.


#43

Bom dia, chefe - Joe cumprimentou, quando Matt acomodou-se no banco traseiro da limusine, s oito e quinze da manh seguinte.
-Tudo bem? Quero dizer, entre voc e sua esposa.
-No - Matt respondeu secamente.
No abriu o Chicago Tribune que tinha na mo. Estendeu as pernas e olhou pela janela, sorrindo ligeiramente ao pensar em Meredith. Levou vrios minutos para
perceber que Joe no estava dirigindo como louco e seguia a corrente de trfego, sem jogar o carro de um lado para o outro para desviar-se dos outros veculos. Intrigado,
ergueu os olhos e viu o motorista observando-o pelo espelho retrovisor.
-Est doente?
-No, por qu?
-Perdeu a oportunidade de ultrapassar esse caminho de entregas. Sem replicar, Joe desviou os olhos do espelho e pisou no acelerador. Matt voltou a olhar pela
janela e ainda pensava em Meredith, quando entraram na garagem subterrnea do edifcio da Intercorp.
Pouco depois, passando pela mesa de sua secretria, sorriu amigavelmente.
-Bom dia, Eleanor. Est com tima aparncia.
-Bom dia - ela respondeu, obviamente espantada, seguindo-o, quando ele entrou no escritrio.
Parou perto da escrivaninha com um bloco de anotaes numa das mos e a correspondncia de Matt e recados telefnicos na outra.
Matt viu-a olhar ansiosa para o jornal, quando ele o jogou na mesa, mas voltou a ateno para o volumoso mao de recados que ela estava segurando.
-Recebemos muitos telefonemas, pelo jeito - comentou. Eleanor pousou o bloco e comeou a folhear os papis de recados.
-De jornais - ela explicou com ar aborrecido. - Quatro telefonemas do Tribune e trs do Sun-Times. Um correspondente da UPI esta  espera no telefone e o pessoal
da Associated Press plantou-se l embaixo, no vestbulo, juntamente com reprteres da televiso local e de vrias emissoras de rdio. Todas as quatro grandes redes
de televiso telefonaram, assim como a CNN. A revista People quer falar com voc, mas a National Tattler quis falar comigo, explicando que desejavam ver a sujeira
do ponto de vista da secretria. Desliguei na cara do sujeito.
Eleanor fez uma pausa e pigarreou.
-Houve tambm dois telefonemas annimos, de gente dizendo que o senhor  homossexual, e um da srta. Avery, que xingou-o de traidor nojento. Tom Anderson ligou,
perguntando se podia ajud-lo em alguma coisa e o segurana do vestbulo pediu reforo para impedir a imprensa de fazer confuso l embaixo.
Franzindo a testa, Matt tentou adivinhar o motivo de tal furor, imaginando se houvera algum problema com uma de suas empresas.
-O que aconteceu, e que no fiquei sabendo?
Eleanor apontou com ar compenetrado para o jornal sobre a mesa.
-No leu, ainda?
-No - Matt respondeu, pegando o Tribune e desdobrando-o com movimentos bruscos. - Mas se aconteceu alguma coisa  noite, Tom Anderson deveria ter ligado para
minha
Interrompeu-se ao olhar para a primeira pgina, e ficou imvel, momentaneamente incapaz de superar o choque, olhando para as fotos dele prprio, de Meredith
e Parker Reynolds abaixo de uma manchete impressa em letras garrafais: Falso Advogado Confessa ter Enganado Gente Famosa.
Procurou a pgina indicada ao lado e comeou a ler.


Ontem  noite, a polcia de Belleville, Illinois, deteve Stanislaus Spyzhalski sob acusao de fraude e prtica ilegal da profisso de advogado. De acordo com
a polcia, Spyzhalski confessou ter enganado centenas de clientes ao longo dos ltimos quinze anos, falsificando assinaturas de juizes em documentos que nunca foram
apresentados num frum, inclusive um processo de divrcio, uma dcada atrs, envolvendo a herdeira Meredith Bancroft e o empresrio Matthew Farrell. Meredith Bancroft,
cujo noivado com o banqueiro Parker Reynolds foi anunciado este ms

***

Soltando um palavro, Matt ergueu os olhos do jornal, rapidamente calculando as consequncias de tudo aquilo, ento olhou para a secretria.
- Telefone para Pearson e Levinson e diga que quero falar com eles - instruiu. - Encontre meu piloto e chame Joe OHara, avise-os para ficarem de prontido.
Depois, ligue para minha esposa.
-Est bem - ela respondeu, saindo da sala.
Matt continuou a ler o artigo.

A polcia disse que recebeu a denncia contra Spyzhalski de um morador de Belleville que tentou obter, em vo, uma cpia dos papis de anulao de seu casamento,
que supostamente estariam no frum da comarca de St. Clair. A polcia de Belleville j encontrou alguns dos processos conduzidos por Spyzhalski, mas o falso advogado
recusa-se a entregar o restante antes de sua audincia, amanh. No conseguimos entrar em contato com Farrell, com os Bancroft, nem com Reynolds, para ouvir seus
comentrios. Detalhes do divrcio Bancroft-Farrell no foram divulgados, mas um porta-voz da polcia de Belleville disse que certamente Spyzhalski os fornecer.

Matt sentiu-se gelar ao imaginar os detalhes do caso sendo divulgados. Meredith pedira o divrcio sob alegao de abandono e crueldade mental, o que a faria
parecer uma pobre vtima indefesa, ela que era to orgulhosa e forte. Nada poderia ser mais devastador para sua imagem de presidente interina de grande empresa,
principalmente quando ela esperava ocupar o posto de modo permanente aps a aposentadoria do pai.
Continuando a ler, Matt sentiu-se nauseado com a insinuao de que ele, Meredith e Parker formavam um tringulo amoroso. O artigo mencionava tambm o incidente
entre ele e Meredith no baile da pera e fornecia longas informaes sobre os envolvimentos romnticos dos dois. Furioso, Matt socou o boto do interfone, e Eleanor
entrou quase correndo.
-Que diabo est acontecendo, que voc ainda no me deu resposta sobre as ligaes que a mandei fazer?
-Pearson e Levinson s chegam no escritrio s nove - ela explicou. - Seu piloto est fazendo um voo para testar o novo motor, e deixei recado para ele ligar
assim que aterrissar, o que dever acontecerdentro de vinte minutos. Joe OHara est voltando para c e pedi-lhe para esperar na garagem de maneira a evitar os
reprteres.
-E minha esposa?
-A secretria disse que ela ainda no chegou, mas que tinha instrues para dizer que qualquer contato entre a srta. Bancroft e o senhor dever ser feito atravs
dos advogados.
-Coisa velha. Isso mudou. - Matt massageou a nuca rgida de tenso, sabendo que precisava falar com Meredith antes que ela tentasse lidar sozinha com a imprensa.
- A secretria deu a impresso de que estava tudo normal por l?
-No. Parecia algum preso numa cidade sitiada.
-Isso quer dizer que recebeu os mesmos telefonemas que voc, e que a loja deve estar rodeada de reprteres. - Matt pegou o sobretudo, que pusera nas costas
da cadeira, e marchou para a porta, onde parou e virou-se. - Mande o piloto e meus advogados ligarem para o escritrio de Meredith. Estarei l. Chame nosso departamento
de relaes pblicas e diga ao encarregado para deixar quietos os representantes da imprensa, evitando despertar antagonismo. Quero que os trate bem, que lhes sirva
um lanche e prometa uma declarao, que farei  uma hora da tarde.
-Quer mesmo que sirvam lanche? - Eleanor estranhou, sabendo que o mtodo de Matt lidar com os reprteres, quando eles queriam invadir sua vida particular, era
evit-los, ou mand-los para o inferno com palavras ligeiramente diferentes.
-Quero - ele resmungou. - Entre em contato com Parker Reynolds, diga-lhe para dizer  imprensa exatamente o que estamos dizendo e que telefone para o escritrio
de Meredith.


     As oito e trinta e cinco, Meredith saiu do elevador e dirigiu-se ao escritrio, satisfeita com a ideia de que o trabalho a impediria de continuar pensando em
Matt.
-Bom dia, Kathy - disse  recepcionista, olhando em volta, achando estranho que no houvesse ningum ali. Os executivos chegavam s nove, mas normalmente, quela
hora, secretrias e outros funcionrios transitavam pelo local. - Onde esto todos? O que aconteceu?
Kathy encarou-a, parecendo nervosa.
-Phyllis desceu para falar com o chefe de segurana, e os outros esto na sala do caf, eu acho.
Meredith franziu a testa ao ouvir o toque insistente de telefones ao longo dos corredores.
- aniversrio de algum? - perguntou.
Era praxe os empregados dos dois andares do setor administrativo reunirem-se na sala do caf para comer bolo, quando um deles fazia aniversrio, mas nunca acontecera
de as pessoas abandonarem o trabalho de maneira to irresponsvel.
Meredith lembrou-se, ento, de que completaria trinta anos da a dois dias, no sbado, e imaginou que poderiam estar preparando uma festa-surpresa antecipada.
- No, srta. Bancroft. Ningum est fazendo aniversrio.
     Perplexa, Meredith foi ao escritrio, onde deixou a pasta e o casaco,depois dirigiu-se  sala do caf. No instante em que entrou, encaminhando-se para o balco
onde ficavam as cafeteiras, vinte e quatro pares de olhos voltaram-se para ela.
-Reunio do conselho, senhoras e senhores? - perguntou com um sorriso indeciso, pois estranhara o silncio repentino e os olhares francamente curiosos. - Ningum
vai atender aqueles telefones?
Nem precisaria ter feito essa ltima pergunta, porque todos j estavam saindo apressados, murmurando pedidos de desculpas.
Voltou para sua sala e acabara de sentar-se, quando Lisa entrou correndo, com uma pilha de jornais nos braos.
-Lamento tanto, Meredith! Comprei todos os exemplares do Tribune da banca a de frente, para que eles no tivessem mais nenhum para vender! No pude pensar
em outra maneira de ajudar voc.
-Me ajudar?
Lisa olhou-a boquiaberta, apertando os jornais contra o peito.
-Ainda no leu o jornal?
Um arrepio de apreenso percorreu a espinha de Meredith.
-Perdi a hora e no tive tempo. Por qu, Lisa? O que aconteceu?
     Com visvel relutncia, a amiga pousou a pilha na escrivaninha. Meredith pegou um exemplar, desdobrou-o e inclinou-se para a frente, horrorizada.
-Meu Deus! - exclamou, olhando para as fotos e a manchete gritante.
Folheou o jornal rapidamente, procurando a pgina trs, e leu o artigo. Quando acabou, olhou para Lisa, tomada de pnico.
-Meu Deus - repetiu num sopro de voz.
As duas assustaram-se, quando Phyllis entrou correndo, plida e despenteada.
- J falei com o chefe de segurana. Havia um batalho de reprteres diante das portas da loja, esperando a hora de abrir. Ento, comearam a invadir o prdio
pela entrada de servio, e Mark Braden mandou-os reunirem-se no auditrio. Os telefones no param de tocar.  gente dos jornais, das rdios e da televiso, mas dois
diretores nossos tambm ligaram para dizer que querem falar com voc imediatamente. O sr Reynolds telefonou trs vezes, e o sr. Farrell, uma. Mark Braden quer saber
o que deve fazer. E eu tambm!
Meredith tentou refletir, mas tremia por dentro, sentindo um medo terrvel. No demoraria muito para que algum reprter descobrisse o motivo de seu casamento
com Matt, e o mundo todo saberia que ela fora uma adolescente idiota que ficara grvida e fora obrigada a casar com um homem que no a amava. Seu orgulho seria despedaado,
sua vida particular, devassada. Muitas pessoas cometiam erros e saam ilesas. Ela, no. Precisava pagar indefinidamente por um deslize.
E os detalhes do divrcio, quando fossem revelados, completariam o trabalho destrutivo. O pai dela no optara por algo incuo, como incompatibilidade de gnios.
Tivera de apelar para algo forte, como abandono e crueldade mental. Todos a veriam como uma pobre vtima, imagem nada condizente com sua posio de presidente interina
da Bancroft.
E Parker? Era um banqueiro respeitvel, e a imprensa arrastara-o para a sujeira!
Matt! Pensando no que toda aquela publicidade perniciosa causaria a ele, sentiu-se doente. Quando as pessoas soubessem que Matthew Farrell submetera a jovem
esposa grvida a crueldade mental, sua boa reputao seria destruda.
-Por favor, diga o que devo fazer - implorou Phyllis. - Meu telefone est tocando outra vez.
-D um tempo - Lisa aconselhou. - Ela acabou de ler o artigo alguns segundos antes de voc entrar.
Meredith recostou-se com um suspiro.
-Vamos fazer o que sempre fazemos, quando acontece alguma coisa na loja que chama a ateno da imprensa. Instrua as telefonistas para passarem todos os chamados
de reprteres ao departamento de relaes pblicas e diga a Mark Braden para continuar levando o pessoal da imprensa para o auditrio.
-Tudo bem, mas o que deseja que o departamento de relaes pblicas diga aos reprteres?
Meredith suspirou.
-Ainda no sei. Que esperem - Interrompeu-se, quando a recepcionista apareceu na porta. - Desculpe perturb-la, srta. Bancroft, mas o sr. Farrell est aqui
e diz que no ir embora sem v-la. Devo chamar um segurana?
-No! - Meredith gritou, preparando-se para enfrentar a justificvel fria de Matt. - Phyllis, quer ir busc-lo, por favor?
Parado na rea de recepo, Matt ignorou os olhares de fascinado interesse dos funcionrios que passavam e dos executivos que saam dos elevadores. Viu a recepcionista
sair da sala de Meredith acompanhada por uma jovem morena e deu um passo  frente, pronto para passar por elas  fora e entrar no escritrio, se tentassem impedi-lo.
-Sr. Farrell, sou Phyllis Tilsher, secretria da srta. Bancroft - a morena atraente apresentou-se. - Desculpe por t-lo feito esperar. Quer me acompanhar, por
favor?
Matt seguiu-a, a moa indicou-lhe a sala de Meredith, esperou que ele entrasse e entrou atrs. Em qualquer outra circunstncia, o que ele viu teria feito seu
peito inchar de orgulho. Sentada atrs de uma mesa gigantesca, na outra extremidade da sala com paredes recobertas por painis de madeira, os lindos cabelos loiros
presos num coque, Meredith parecia uma jovem rainha num trono de espaldar reto e alto. Uma rainha plida e obviamente muito perturbada.
Ele forou-se a desviar o olhar e virou-se para a secretria.
-Vo telefonar para c a minha procura - informou. - Avise-me imediatamente, quando algum ligar. A todos os outros que telefonarem, diga que a srta. Bancroft
encontra-se em reunio e no pode ser perturbada. Outra coisa, no deixe ningum entrar aqui!
Phyllis concordou e saiu, fechando a porta.
Matt comeou a andar na direo de Meredith, que se levantou e rodeou a mesa.
-Quem ? - ele perguntou, fazendo um gesto de cabea na direo da jovem de cabelos avermelhados parada perto da janela, que o olhava com indisfarada ateno.
-Lisa Pontini - Meredith respondeu. - Ela pode ficar,  amiga de muitos anos. Quer dizer que eu me encontro em reunio?
Matt lembrou-se de ter ouvido Meredith falar de Lisa Pontini, onze anos atrs. Cumprimentou-a com um gesto de cabea e voltou a olhar Para Meredith, contendo
o desejo de abra-la e confort-la, pois sabia que seria repelido.
-Nada melhor do que a desculpa de uma reunio para afastar importunos - ele respondeu, sorrindo.
Ela esboou um sorrisinho.
-Tem razo.
-Meredith, com um pouco de sorte, sairemos dessa com apenas alguns arranhes - ele afirmou, ficando srio. - Ser que pode confiar em mim e fazer tudo o que
eu pedir?
Meredith fitou-o, s ento descobrindo que ele no fora l para culp-la e a seu pai por aquela calamidade, mas para ajudar. Sentiu que recuperava um pouco das
foras e da clareza de raciocnio.
-Posso. O que quer que eu faa?
Matt tornou a sorrir, satisfeito com aquela demonstrao de confiana e por notar que Meredith no perdera a coragem.
-Muito bem. Presidentes de empresas nunca se acovardam.
-Fingem coragem - ela acrescentou, tentando sorrir.
-Certo.
Nesse instante, o interfone tocou. Meredith atendeu e em seguida ergueu o telefone, que estendeu para ele.
-David Levinson na linha um e Steve Salinger na dois. Matt no pegou o aparelho.
-H um telefone viva-voz aqui? - perguntou.
Meredith pressionou um boto, acionando o sistema que permitiria a todos na sala ouvirem o que a pessoa do outro lado dizia. Era evidente que Matt desejava que
ela ouvisse tudo, para que no ficassem dvidas.
 Ele, ento, apertou a tecla iluminada da linha dois.
-Steve? O Lear est pronto para voar?
-Com toda certeza, Matt. Acabei de aterrissar, depois de um voo de teste, e est tudo perfeito.
-timo. Aguarde - Matt pediu, deixando-o  espera e apertando a tecla da linha um. - Leu os jornais, Levinson?
-Lemos, eu e Bill.  uma desgraa, Matt, e vai piorar ainda mais. Quer que faamos alguma coisa?
-Quero. Vocs iro a Belleville para tirarem aquele canalha da cadeia, apresentando-se como seus advogados.
-O qu?!
-Voc ouviu. Paguem a fiana do homem e tratem de convenc-lo a entregar-lhes todos os processos. Quando ele entregar, faam tudo o que precisar para impedir
que meu processo de divrcio caia nas garras da imprensa. Isto , se o filho da puta no o jogou fora. Se jogou, faamcom que ele Prometa ficar de boca fechada
a respeito dos detalhes. Consiga isso de qualquer jeito.
-Que detalhes? Sob que alegao pediram o divrcio?
-Abandono e crueldade mental. Meredith est aqui. Vou perguntar a ela se lembra de mais algum detalhe. - Matt virou-se para olh-la.
-Lembra de algo mais que possa ser embaraoso para ns dois?
-O cheque de dez mil dlares, que meu pai lhe deu como pagamento por me deixar.
-Que cheque? Eu no sei de nada. Na minha cpia do processo no h nenhuma meno sobre isso.
-Na minha h, assim como uma declarao de que voc o recebeu. Levinson, naturalmente, ouviu a conversa toda.
-Mas isso  mesmo fantstico! - intrometeu-se, em tom irnico.
-A imprensa vai ter um prato cheio, tecendo conjeturas sobre o que havia de to errado com sua esposa que voc no pde suport-la, mesmo sendo pobre, e ela,
to rica.
-No seja burro! - Matt interrompeu-o, furioso, antes que ele dissesse mais alguma coisa para aumentar a perturbao de Meredith.
-Vou aparecer como um caador de dotes que abandonou a esposa. Mas nada disso acontecer, se vocs forem a Belleville imediatamente e taparem a boca de Spyzhalski.
-Pode no ser to fcil. De acordo com as notcias, ele no quer advogado, pois pretende apresentar a prpria defesa. Pelo jeito, trata-se de um demente, determinado
a dar um show no tribunal, diante da imprensa.
-Faam com que mude de ideia e consigam que a audincia seja adiada! Levem-no para um lugar onde os malditos reprteres no o encontrem. Depois, eu mesmo cuidarei
do calhorda.
-Os processos, se ele ainda os tiver, sero apresentados como provas, no julgamento. E as outras vtimas tero de ser notificadas.
-Vocs daro um jeito nisso, mais tarde, com o promotor - Matt replicou, impaciente. - Meu avio est a espera de vocs no Midway. Telefonem, quando tudo estiver
resolvido.
-Certo.
Sem incomodar-se em dizer at logo, Matt encerrou a conversa e voltou a falar com o piloto.
-Fique pronto para partir para Belleville, Illinois, dentro de uma hora. Vai levar dois passageiros, mas na volta viro trs, e voc ter de descer em algum
lugar para deixar um deles. Os dois que iro daqui lhe diro onde.
Meredith olhou-o, quando ele acabou de falar, pasma com seus mtodos e rapidez.
-Como pretende cuidar de Spyzhalski? - perguntou, com uma risadinha.
-Deixe isso comigo. Agora, ligue para Reynolds. Ainda no samos da confuso.
Meredith ligou para Parker e, no momento em que ele atendeu, ficou claro que tambm achava a situao muito grave.
-Meu Deus, Meredith! Estou tentando falar com voc, mas no consigo ligao!
-Lamento o que est acontecendo, Parker. Mais do que possa imaginar.
-No  culpa sua - ele respondeu com um suspiro ruidoso, fazendo uma breve pausa. - Temos de decidir o que faremos. Esto me bombardeando com conselhos e sugestes!
O filho da puta com quem voc se casou teve a petulncia de mandar a secretria ligar para mim e dar instrues sobre como eu devia me comportar! A secretria! Ento,
minha diretoria decidiu que eu devo declarar publicamente que no tinha conhecimento de nada disso e
-No! - ordenou Matt em tom furioso.
-Quem disse isso? - indagou Parker.
-Eu, o filho da puta com quem Meredith se casou - Matt anunciou, olhando espantado para Lisa, que, encostada na parede, curvara-se toda, dominada por um ataque
de riso que tentava abafar, apertando a mo contra a boca. - Se fizer essa declarao, todos tero a impresso de que est atirando Meredith aos lobos.
-No tenho a mnima inteno de fazer isso com ela!  minha noiva!
Meredith sorriu, cheia de gratido. Pensara que Parker estivesse disposto a romper o noivado, mas ele no a abandonara, quando as coisas ficaram realmente ruins.
Matt notou o sorriso e franziu a testa, mas continuou concentrado no problema do momento.
- uma hora, ns trs, Meredith, eu e voc, daremos uma entrevista coletiva - informou. - No podemos esquecer que, no caso de vir tudo  tona, Meredith aparecer
como vtima de abandono e crueldade mental.
-Sei disso - Parker afirmou em tom spero.
-Bom, porque ser capaz de entender o resto do que vou dizer. Durante a entrevista, daremos um show de solidariedade. Vamos neutralizar antecipadamente os detalhes
do divrcio, no caso de eles serem divulgados.
-Como?
-Enfrentando todo o mundo, agindo como se fssemos membros de uma pequena famlia unida, solidrios, principalmente com Meredith. Quero que todos os representantes
da imprensa tenham bastante com que encher os olhos e ouvidos para que fiquem satisfeitos por algumas semanas, deixando-nos em paz. Quero que saiam da sala convencidos
de que no h nada de errado entre ns trs. - Matt olhou para Meredith e perguntou: - Onde podemos acomodar todos os reprteres? O salo dos acionistas da Intercorp
no  muito grande e
-Nosso auditrio  - Meredith disse depressa. - J foi arrumado para a festa de Natal, de modo que est pronto para receber muita gente.
-Voc ouviu? - Matt perguntou a Parker.
-Ouvi.
-Ento, venha para c o mais rpido possvel para prepararmos uma declarao - Matt ordenou, desligando em seguida.
Olhou para Meredith, e o modo como ela o fitava baniu completamente o cime que o assaltara quando a vira sorrir por causa do que Parker dissera. Os olhos azuis
brilhavam de admirao, respeito e gratido. Mas neles tambm havia muito medo.
Ele ia dizer alguma coisa para acalm-la, quando Lisa afastou-se da parede e aproximou-se, rindo baixinho.
-Eu costumava me perguntar como Meredith pde jogar a cautela para o alto, ir para a cama com um estranho, ficar grvida, casar-se e quase ir para a Venezuela
com o marido, tudo em questo de dias. Agora sei o que aconteceu. Voc no  um simples magnata, Matthew Farrell.  um tufo! A propsito, j votou alguma vez num
democrata?
-J - Matt respondeu, intrigado. - Por qu?
-S queria saber. - Lisa riu, notando a carranca da amiga. Ficando sria, estendeu a mo para Matt. - Estou muito contente por finalmente conhecer o marido
de Meredith.
Matt sorriu e apertou-lhe a mo. Gostara muito de Lisa Pontini.



#44



Por sugesto de Matt, Meredith convidou todos os executivos e chefes de departamentos da Bancroft para assistirem  entrevista coletiva. Era uma tentativa de
eliminar as especulaes dos empregados, que ouviriam de seus superiores a explicao, embora um pouco alterada, dos fatos. A fim de acalmar os representantes da
imprensa, Matt tambm sugerira que o setor de alimentao da loja servisse um lanche aos reprteres, que haviam saboreado alimentos importados e vinhos finos antes
de ocuparem seus lugares no amplo auditrio.
Enquanto esperava nos bastidores do palco, juntamente com Matt e Parker, Meredith no s sentia-se grata aos dois, como experimentava uma reconfortante sensao
de bem-estar. No pensava mais no trato que Matt a forara a aceitar, nem na briga que tivera com Parker. O importante era que ambos haviam corrido em seu socorro,
quando ela precisara. Apesar do natural nervosismo causado pelo iminente encontro com a imprensa, ela estava confiante de que tudo acabaria bem.
Um pouco distantes um do outro, Matt e Parker liam mais uma vez suas cpias da declarao que os trs haviam elaborado e que seria lida pelo chefe do departamento
de relaes pblicas, e Meredith sabia que faziam isso para no conversarem um com o outro, o que era bastante compreensvel. Ficara combinado que, assim que pisassem
no palco, dariam um show de unio e solidariedade, mas ela duvidava que os dois homens conseguissem uma atuao convincente, porque era bvio que no se suportavam.
Olhando-os, percebeu que havia certas similaridades entre eles. Os dois eram altos e inegavelmente bonitos, bem vestidos, tinham porte elegante. Parker com os
cabelos loiros e olhos azuis sempre a fizeram pensar em Robert Redford, enquanto Matt era moreno, tinha cabelos escuros e fartos, feies fortes e boca bem desenhada.
No, ela concluiu de repente, no existia muita semelhana entre eles. Parker era a imagemdo homem educado, refinado, e Matt no era nada disso, pois onze anos
de polimento social no haviam conseguido disfarar sua natureza impetuosa e explosiva. E, na verdade, seu rosto atraente no podia ser considerado bonito pelos
padres artsticos de beleza, mas os olhos eram magnficos, cinzentos, orlados por aqueles incrveis clios longos e espessos.
De sbito, o barulho no auditrio diminuiu, as luzes tornaram-se mais fortes, um microfone guinchou, e Meredith sentiu o corao disparar.
-Senhoras e senhores - comeou o chefe de relaes pblicas, (chamando a ateno dos presentes. - Antes que a srta. Bancroft, o sr.Reynolds e o sr. Farrell
venham ao palco para responder a suas perguntas, vou ler uma declarao sobre os fatos envolvidos no incidente que causou esta reunio.
Em seguida, leu as explicaes e, quando terminou, chamou os trs, que aguardavam atrs da cortina.
Matt e Parker ladearam Meredith.
-Est pronta? - perguntou o noivo.
-Estou - ela respondeu, ajeitando nervosamente a gola do casaco do conjunto rosa.
-Relaxe - Matt aconselhou-a. - Somos vtimas, no criminosos, portanto no se mostre indecisa e acanhada, do contrrio comearo a cavar para ver se escondemos
algo. Seja natural e sorria. No posso fazer tudo sozinho! Preciso de sua ajuda.
Aquela observao, vinda de um homem forte, corajoso, que passara por cima de tantos obstculos, fez Meredith rir.
-Boa menina - ele aplaudiu.
Flashes cegantes especaram no instante em que os trs entraram no palco, e as cmeras das emissoras de televiso assestaram suas lentes sobre eles, acompanhando-os
at os microfones.
Como haviam combinado, Matt abriu a entrevista, anunciando com bom humor que estavam contentes por a imprensa ter comparecido  esta entrevista e que, se soubessem
o que iria acontecer, teriam providenciado um melhor atendimento. Ele parou de falar e ficou calado at que os risos cessaram.
-Ficaremos aqui apenas cinco minutos, de modo que as perguntas precisam ser breves e diretas - continuou. - Eu tenho todo o tempo do mundo para ficar aqui com
vocs, mas Meredith tem uma rede de lojas para cuidar, e Parker um banco para dirigir - brincou.
Os reprteres tornaram a rir, e o pandemnio comeou, com perguntas chovendo de todos os lados.
-Sr. Farrell, por que seu casamento com a srta. Bancroft foi mantido em segredo? - perguntou um reprter da CBS, que gritava mais do que os outros e estava
sentado na primeira fila.
-Se est perguntando por que vocs no souberam, a resposta  simples: naquele tempo, Meredith e eu no despertvamos o interesse do pblico - Matt respondeu.
-Sr. Reynolds, seu casamento com a srta. Bancroft ser adiado?-um representante do Sun-Times indagou.
Parker sorriu de leve e friamente.
-Como foi esclarecido em nossa declarao, Meredith e Matt tero de divorciar-se - explicou. -  claro que at que isso seja feito no poderemos nos casar,
ou Meredith seria culpada de bigamia.
A palavra bigamia foi um erro. O clima entre os reprteres, que Matt conseguira deixar descontrado, mudou, e uma excitao quase palpvel envolveu a todos.
-Sr. Farrell, o senhor e a srta. Bancroft j deram entrada no novo processo de divrcio? - um homem perguntou. - Sob que alegao? Onde?
-No, ainda no fizemos isso - Matt respondeu.
-Por qu? - uma mulher da CBBM quis saber. Matt fez uma cmica careta de desamparo.
-Perdi a confiana nos advogados. Algum de vocs pode me indicar um bom?
Meredith sabia que estava sendo difcil para ele manter um ar de displicncia e, quando a prxima pergunta foi dirigida a ela, jurou que o ajudaria, desempenhando
bem seu papel.
-Srta. Bancroft! - berrou um gordo do LISA Today. - Como se sente a respeito de tudo isso?
-Para ser sincera, nunca me senti to em evidncia, desde o dia em que, na sexta srie, participei de uma pea sobre nutrio, vestida de ameixa!
A resposta inesperada arrancou risos da plateia, e novos flashes explodiram, quando Matt olhou-a com um amplo e surpreso sorriso.
-Sr. Farrell, onze anos atrs, vocs pediram o divrcio baseados em qu? - uma reprter gritou, fazendo a pergunta que Meredith mais temia.
-No temos certeza - respondeu Matt, sorrindo para a mulher,
-Descobrimos que os documentos que ns dois recebemos de Spyzhalski no conferem. O primeiro diz uma coisa, o segundo, outra.
-Esta  para a srta. Bancroft - esclareceu uma jovem do Tribune.
-Pode nos dizer por que seu casamento acabou?
-Naquele tempo, eu achava que a vida com Matt seria montona
-Meredith declarou com sbita inspirao, provocando uma risada geral. - Eu era muito jovem e uma garota de cidade grande, e Matt partiu para as matas da Venezuela,
poucas semanas aps o casamento. Nossas vidas tomaram rumos diferentes.
-Existe alguma chance de reconciliao? - um homem da UBC indagou.
-Claro que no - Meredith respondeu automaticamente.
-Seria ridculo, depois de tantos anos - acrescentou Parker.
-Sr. Farrell! - o homem da NBC chamou. - No vai responder a essa pergunta?
-No.
-No significa que no vai responder, ou que no h chance de reconciliao? - o jornalista persistiu.
-Significa o que voc quiser - Matt disse com um sorriso.
As perguntas continuaram, rpidas e maliciosas, mas as piores j haviam sido feitas. Meredith ouvia o barulho, via a agitao da plateia, mas sentia-se estranhamente
calma.
-Nosso tempo est quase se esgotando - Matt avisou pouco depois. - Parker, gostaria de acrescentar alguma coisa? - perguntou, com uma admirvel imitao de
jovialidade.
Parker sorriu.
-Acho que j dissemos tudo o que era necessrio. Vamos sair daqui e deixar que Meredith volte ao trabalho.
-Esperem! - pediu uma mulher em tom imperativo, ignorando a tentativa deles de terminar a entrevista. - Gostaria de dizer que vocs trs esto lidando com essa
situao com muita elegncia. Principalmente o sr. Reynolds, que foi apanhado de surpresa pelas consequncias de algo de que no participou. Seria compreensvel,
se sentisse algum antagonismo pelo sr. Farrell, causador, em parte, do adiamento de seu casamento com a srta. Bancroft.
-No h razo para antagonismo - assegurou Parker, com um sorriso devastador. - Matt e eu somos homens civilizados e estamos lidando com tudo isso do modo mais
amigvel possvel. Ns trs enfrentamos um problema que pode ser, e ser, facilmente solucionado.
Lisa esperava nos bastidores e, assim que Meredith apareceu, foi a seu encontro e abraou-a.
-Suba tambm - Meredith cochichou-lhe ao ouvido, com a esperana de que a presena dela obrigasse Matt e Parker a portar-se com educao.
Subiram no elevador lotado de clientes.
-Essa  Meredith Bancroft, com o noivo e o marido - disse uma mulher, falando com a do lado, em tom no muito baixo. - Matt Farrell, o marido, sai com estrelas
do cinema!
Meredith sentiu que corava, mas nem ela nem os companheiros disseram coisa alguma, at descerem do elevador e entrarem no escritrio,
-Voc foi esplndida! - Lisa quebrou o silncio, rindo e tornando a abraar Meredith.
-Nem tanto.
-Foi, sim! Quase morri de rir, quando voc falou que se vestiu de ameixa, na sexta srie! - Virando-se para Matt, Lisa comentou: Voc produz um efeito admirvel
sobre ela!
-No tem nada para fazer no seu departamento, srta. Pontini? - perguntou Parker com maus modos.
-Trabalho tantas horas extras que posso perder um pouco tempo, de vez em quando - a moa respondeu, olhando-o com desdm.
-Bem, eu tenho muito o que fazer - observou Meredith. Parker adiantou-se e beijou-a no rosto.
-Vejo voc no sbado  noite - disse sorrindo. Matt esperou que ela respondesse ao noivo que no poderia encontrar-se com ele, mas viu-a hesitar.
-Receio que no ser possvel - informou friamente.
-Escute aqui, Farrell! Todos os outros sbados podero ser seus, mas esse  meu! Meredith completar trinta anos nesse dia e combinamos, semanas atrs, que
iramos ao Antonios.
-J fez planos para o sbado? - Matt perguntou a Lisa.
-Nada que no possa ser mudado - ela respondeu.
-timo. Sairemos os quatro - ele decretou. - Mas no iremos ao Antonios.  muito movimentado e iluminado demais. Seramos reconhecidos em poucos segundos.
Eu escolho o lugar.
Despedindo-se com um aceno de cabea, saiu. Parker foi embora instantes depois, mas Lisa ficou.
-Meu Deus, Meredith! - ela exclamou, rindo, sentando-se no brao de uma poltrona. - No  de estranhar que voc tenha aceitado fazer aquele trato com Matthew
Farrell.  o homem mais surpreendente e impressionante que j conheci!
-No vejo graa nenhuma, Lisa. Meu pai est proibido de ler jornais e assistir a noticirios, durante o cruzeiro, mas se decidir desobedecer s ordens do mdico
e souber o que est acontecendo, poder ter outro infarto. A, terei de mandar um avio-hospital busc-lo.
-Se eu fosse voc, mandaria um avio de bombardeio atac-lo. O que ele fez h onze anos no tem perdo.
-No me faa pensar nisso agora, Lisa. Quando ele voltar, vou pr tudo para fora. Mas pensei muito e acho que meu pai agiu daquela maneira para me proteger
de um caador de fortunas, que partiria meu corao.
-Ento, ele mesmo partiu! Meredith hesitou.
- - admitiu depois de um instante. - Algo assim.





#45

s quatro e trinta da tarde seguinte, Matt interrompeu a reunio que estava tendo com trs de seus executivos para atender Eleanor, que tocara o interfone.
-Se no for uma emergncia, no quero saber, at terminar o que estou fazendo - declarou, antes que ela dissesse alguma coisa.
-A srta. Bancroft est ao telefone - a secretria informou em tom malicioso. - Isso pode ser considerado uma emergncia?
-Pode - Matt respondeu, erguendo o telefone e apertando a tecla iluminada da linha um.
No se sentia muito satisfeito com a ideia de falar com Meredith. No fim da tarde anterior, ligara para ela para dizer que Spyzhalski estava sob controle e num
lugar onde os reprteres no poderiam encontr-lo. Fora a secretria dela que atendera, explicando que Meredith encontrava-se numa reunio que demoraria para acabar.
Ele, ento, deixara um recado detalhado. Esperara at tarde da noite que Meredith ligasse, mas, quando isso no aconteceu, imaginara, cheio de raiva, que ela decidira
comemorar a boa notcia indo para a cama com Reynolds, o que a mantivera ocupada demais.
-Alo, Meredith - ele disse ao telefone, lanando um olhar de desculpa para os companheiros.
-Matt, sei que hoje  noite ns amos nos encontrar, mas tenho uma reunio s cinco horas e estou atolada em trabalho.
-Correndo o risco de parecer inflexvel, devo dizer que trato  trato - ele a lembrou friamente.
-Eu sei! - ela replicou com um suspiro exasperado. - Mas, alm de ficar na loja at tarde, levarei trabalho para terminar em casa. No estou disposta a sair,
mas tambm no quero brigar com voc - acrecentou em tom suave.
- O que est sugerindo?
-Achei que voc poderia me pegar aqui e iramos jantar cedo, num lugar prximo.
O aborrecimento de Matt evaporou-se.
-Est bem - ele concordou. - Tambm estou com uma pasta cheia de papis que preciso examinar. Depois do jantar, ns dois podemos passar juntos umas horas produtivas.
Na sua casa, ou na minha?
Ela hesitou.
-Promete que de fato trabalharemos? - perguntou, aps alguns segundos. - Voc no vai no vai
Matt sorriu, quando ela no terminou a frase, da qual era fcil adivinhar o resto. Meredith receava que ele tentasse lev-la para a cama.
-S trabalho. Prometo.
-Tudo bem, ento. D para voc me pegar s seis? H um bom restaurante no outro lado da rua. Depois do jantar podemos ir para minha casa.
-timo - Matt concordou, disposto a adaptar-se ao ritmo dela para poder ficar a seu lado. - Os reprteres esto perturbando muito, ainda?
-No. Recebemos alguns telefonemas, mas fomos to convincentes, na entrevista, que acho que o assunto deixou de ser interessante e vai morrer de morte natural.
Falei com Parker, ontem e hoje cedo, por telefone. Ele tambm no foi assediado.
Matt estava pouco se importando com o que a imprensa pudesse fazer com Parker, e ficou agastado quando soube que Meredith falara com o noivo duas vezes, desde
a entrevista, e estava falando com ele s porque quisera mudar o esquema do encontro. Por outro lado, era bom saber que ela no estivera com Parker, como imaginara.
-Isso  muito bom. At s seis, ento.


    Depois de abrir caminho na ruidosa multido de clientes que lotavao andar trreo da loja, foi um alvio para Matt chegar  rea de recepo de Meredith, muito
mais silenciosa. Numa sala a sua direita, duas seCretrias trabalhavam fora do horrio, mas a recepcionista j fora embora. Na extremidade do corredor da esquerda,
a porta do escritrio de Meredith encontrava-se aberta, e ele viu alguns homens e uma mulher sentados ao redor da mesa dela. Entrando na sala da secretria, notou
que no havia nada na escrivaninha e que o computador fora coberto, sinal de que a moa tambm se fora. Satisfeito com a oportunidade de observar Meredith trabalhando,
tirou o sobretudo e encostou-sena escrivaninha, de onde podia ver o interior da outra sala, sen expor-se completamente, de modo que seria difcil algum v-lo.
Meredith olhou para a fatura que Gordon Mitchell, encarregado da compra e venda de vestidos e acessrios, entregara-lhe.
-Comprou trezentos dlares de botes dourados? - perguntou com um sorriso. - Por que est me mostrando a fatura? Claro que deve estar dentro do oramento de
seu departamento.
-Porque esses botes foram responsveis pelo aumento da venda de vestidos e blusas durante a semana.
-Voc comprou os botes e mandou preg-los nas roupas, substituindo os originais?
-Isso mesmo - ele respondeu com ar de satisfao. -  uma loucura, mas tudo o que tem botes dourados est saindo.
Meredith fitou-o com expresso sria, evitando olhar para Theresa Bishop, a vice-presidente cujo trabalho era prever as tendncias da moda.
-No posso ficar to satisfeita quanto voc - informou. - Theresa nos disse, muito tempo atrs, assim que voltou da viagem a Nova York, que botes dourados
iam entrar na moda, e voc ignorou-a. Deixamos de vender muita coisa por causa disso, mas talvez o prejuzo seja compensado, agora que voc trocou os botes de plstico
ou madreprola por outros de metal dourado. Algo mais a relatar?
-Pouca coisa - Gordon resmungou.
Meredith estendeu o brao e pressionou uma tecla do computador que mostrava o movimento de vendas nas ltimas quatro horas, localizando o departamento dele.
-A venda de acessrios aumentou em cinquenta por cento, em relao ao mesmo dia do ano passado. Bom trabalho.
-Obrigado, senhora presidente - ele agradeceu ironicamente.
-Parece que voc contratou um novo gerente para o setor de acessrios e que ele colocou um novo comprador de mercadoria. Estou certa?
-Perfeitamente. Alis, como sempre.
-O que me diz da linha DKNY, de Donna Karan, cujos produtos voc comprou em to grandes quantidades?
-Fazendo o maior sucesso, exatamente como previ.
-Bom. E o que pretende fazer com todas aquelas saias e blusas recatadas demais que comprou tempos atrs?
-Coloc-las em liquidao.
-Tudo bem - Meredith concordou, um tanto relutante. - Mande tirar nossa etiqueta daquelas coisas horrveis. Passei pelo terceiro andar,hoje, e vi blusas com
a etiqueta da Bancroft e um preo exagerado, oitenta e cinco dlares, quando no valem quarenta e cinco.
-Valem por causa do nome Bancroft! - Gordon Mitchell argumentou. - Os clientes do muito valor a nossa etiqueta, e no pensei que fosse necessrio lembr-la
disso.
-No daro mais, se continuarmos a grud-la em mercadorias de mau gosto. Tire aquelas blusas do terceiro andar, amanh, e leve-as para os cabideiros de artigos
em liquidao. Comprou aquelas bijuterias baratas com que estava to animado?
-Comprei. H peas muito bonitas.
-Pode ser, mas mantenha-as nos balces prprios. No quero v-las misturadas com bijuterias caras.
-Mas eu disse que h peas bonitas - ele teimou. Meredith reclinou-se na cadeira e observou-o longamente.
-Gordon, por que estamos divergindo sobre o que a Bancroft deve, ou no, vender? Voc sempre foi rigoroso na questo de manter a alta qualidade de nossas mercadorias.
E, de repente, comea a comprar coisas mais prprias de uma loja de departamentos de baixa categoria do que da nossa.
Quando ele no se dignou a responder, Meredith inclinou-se abruptamente para a frente, deixando morrer o assunto, e virou-se para Paul Norman, gerente-geral
do setor de artigos domsticos.
-Como sempre, seus departamentos esto timos - elogiou, sorrindo. - A venda de eletrodomsticos e mveis subiu vinte e seis por cento, em comparao com a
mesma semana, no ano passado.
-Vinte e sete - ele corrigiu com um sorriso. - O computador acertou a porcentagem um pouco antes de eu vir para c.
-Bom trabalho - ela declarou com sinceridade, ento riu, lembrando-se dos encartes publicitrios que haviam colocado nos jornais, oferecendo aparelhos de som
a preos extraordinariamente baixos. Os eletrnicos esto saindo de nossas lojas como se tivessem pernas. Est querendo tirar a Highland Superstores do negcio?
-Eu adoraria.
-Eu tambm - ela admitiu, ficando sria ao correr o olhar pelo
grupo reunido em volta de sua mesa. - Estamos indo bem em todos os lugares, menos em Nova Orleans. Deixamos de vender, no dia em que houve o boato sobre uma
bomba, e o movimento foi muito fraco nos quatro dias seguintes, naturalmente porque as pessoas ficaram com medo. - Virou-se para o vice-presidente de publicidade.
- Poderamos colocar mais comerciais nas emissoras de rdio de Nova Orleans, Pete?
-No num horrio que valesse a pena. Mas aumentamos a quantidade de publicidade impressa, e isso nos ajudar a recuperar um pouco do que perdemos.
-Bem, acho que por hoje  s - Meredith observou, sorrindo
-Ah, j ia me esquecendo. Estamos comprando o terreno para a loja de Houston, e creio que comearemos a construo em junho. Bom fim de semana para todos.
Antes que as pessoas sassem, Matt voltou para a rea de recepo sentou-se e pegou uma revista, fingindo que a lia, mas estava to orgulhoso de Meredith, depois
de v-la conduzir a reunio, que no podia parar de sorrir. A nica coisa que no aprovara fora seu modo de lidar com o executivo que fora arrogante ao discutir
com ela. O homem devia ter sido tratado com mais severidade e colocado no seu devido lugar.
O grupo passou por ele e ningum olhou-o, pois todos falavam ao mesmo tempo, comentando a reunio e desejando um bom fim de semana uns aos outros. Pondo a revista
no lugar, Matt marchou para o escritrio de Meredith, mas parou ao ver que dois homens ainda encontravam-se l. E ela no sorria, ouvindo o que eles estavam dizendo.
Curioso, Matt colocou-se perto da escrivaninha da secretria, com o sobretudo no brao.
Sem perceber que j era bastante tarde, Meredith pegou o papel que Sam Green entregou-lhe. Era um demonstrativo da situao das aes da Bancroft & Company postas
no mercado e que estavam sendo compradas regularmente e em nmero sempre maior, algo que nunca acontecera antes.
-O que voc deduz disso? - Meredith perguntou.
-Odeio dizer, mas andei investigando, hoje, e h boatos na Wall Street de que algum quer assumir o controle de nossa empresa.
Ela se esforou para aparentar calma, mas por dentro estava apavorada com a ideia.
-Mas isso no faz sentido! - exclamou. - Que rede de lojas de departamentos, ou outra empresa qualquer, haveria de querer isso, quando estamos com dvidas at
o pescoo por causa da expanso.
-Uma coisa  certa, Meredith. No temos dinheiro para entrar numa longa batalha contra essa tentativa de fuso.
-Eu sei, Sam. Mas essa tentativa no tem lgica, neste momento. S pegariam uma montanha de dbitos que teriam de pagar.
No entanto, ambos sabiam que, como investimento a longo prazo a Bancroft & Company era bastante atraente.
-Quando acha que saberemos quem est comprando nossas aes Com tanto empenho?
-Dentro de algumas semanas receberemos notificaes de todos os corretores de aes que trabalham com transaes individuais, mass descobriremos a identidade
de nosso comprador, se ele tiver os certificados em seu nome. Se os certificados estiverem em poder dos corretores, nunca saberemos.
-Voc poderia preparar uma lista dos novos acionistas cujos nomes conhecemos?
-Claro - respondeu Sam, saindo do escritrio.
Meredith ficou sozinha com Mark Braden, com quem precisava discutir um assunto que exigia sigilo, de modo que se levantou para fechar a porta e olhou para o
relgio de pulso, surpreendendo-se ao ver que eram seis e vinte. Quando ergueu o olhar, viu Matt na sala de Phyllis, e seu corao deu um salto, tomado de agitao.
-Faz tempo que est esperando? - perguntou, caminhando para ele.
-No muito. Pode terminar o que est fazendo, Meredith. Eu espero. Ela no disse nada por um momento, refletindo se havia motivo para no deix-lo ouvir sua
conversa com Mark Braden sobre Gordon Mitchell.
-Entre - disse por fim. - E feche a porta, por favor. Matt entrou, e Meredith apresentou-o ao outro homem.
-Mark, voc ouviu as explicaes de Gordon e notou sua atitude-ela comeou. - Ele est falando e agindo de maneira completamente diferente, de uns tempos
para c. O que acha disso?
Mark lanou um olhar indeciso na direo de Matt, mas Meredith fez um gesto indicando que podia falar.
-Acho que ele est aceitando suborno.
-Voc vive dizendo isso, mas que prova tem?
-Nenhuma. Gordon no comprou veleiros, avies ou imveis. Tem uma amante, mas  coisa velha. No usa drogas, nem joga. Ele, a esposa e os filhos esto levando
a vida que sempre levaram. Em resumo, no h indcios de que sua renda aumentou.
-Talvez esteja inocente - comentou Meredith, sem acreditar no que dizia.
-No. Ele  muito cauteloso e esperto, isso sim. Trabalha h muito tempo no ramo varejista, sabe como as coisas funcionam e como apagar as pistas - Mark argumentou.
- Vou continuar investigando.
Despediu-se dos dois com um gesto de cabea e saiu.
-Desculpe, Matt - Meredith pediu. - A reunio levou mais tempo do que eu esperava.
-Gostei de ouvir - ele afirmou.
Meredith, que fechava a pasta de couro, olhou-o, surpresa.
-O que ouviu, exatamente?
-O que vocs disseram durante vinte minutos.
-Alguma pergunta a respeito? - ela arreliou, desviando os olhos dos dele, que pareciam cheios de ternura e a perturbavam.
-Uma. Por que est evitando me encarar? - Matt indagou, imaginando quando ela confiaria nele, quando pararia de fugir e se renderia-Na verdade, h outra pergunta,
Meredith. Gostaria de saber quando vai parar de fugir de mim.
-Quando voc parar de me perseguir - ela respondeu com um olhar divertido.
-Acho que est comeando a gostar dessa perseguio.
-Sempre gostei de sua companhia, Matt. Do que no gosto  dos motivos que tem para me perseguir agora.
-Eu lhe disse quais so meus verdadeiros motivos. Ela saiu do escritrio e ele acompanhou-a.
-No gosto dos motivos que existem por trs desses motivos insistiu Meredith, quando atravessavam a rea de recepo rumo aos elevadores.
-No existe nenhum!
-Talvez, mas h gente atrs de vocs - comentou uma voz masculina. Os dois viraram-se e viram Mark Braden, que sorria, observando-os.
Meredith entendeu que o chefe de segurana agira daquela maneira para alert-los de que havia mais pessoas ouvindo. De fato, trs secretrias caminhavam atrs
dele, dirigindo-se para a sala do caf.
-Bom fim de semana para todos - ela desejou com um sorriso artificial, entrando com Matt no elevador que acabara de chegar.
No andar trreo, comearam a passar com dificuldade atravs da multido que ocupava todos os espaos. Em dado momento, Meredith parou junto de um dos balces.
-Gostaria que conhecesse a sra. Millicent - disse a Matt. - Ela j se aposentou, mas vem nos ajudar na poca do Natal. - Vai adorar conhecer voc. Tem uma lista
de todas as pessoas famosas que conheceu durante mais de vinte e cinco anos e em sua coleo h muitos nomes de artistas de cinema.
-No sou artista de cinema, Meredith.
-No, mas  famoso e, alm disso, namorou uma poro de estrelas e ela vai achar que morreu e foi para o cu, quando apertar sua mo
Um tanto aborrecido pela observao de Meredith a respeito das mulheres com quem supostamente ele dormira, Matt acompanhou-a ao longo de um corredor largo, lotado
de gente, entre duas fileiras de balces de vidro.
Sua pasta bateu num traseiro volumoso, e ele ergueu-a, enganchando-a numa ala de bolsa, mas Meredith, com a prtica que tinha de mover-se na loja, mesmo cheia,
caminhava sem dificuldade a sua frente.
Enquanto ele soltava a pasta, a dona da bolsa virou-se e obviamente tomou-o por um batedor de carteiras, porque soltou um grito de susto.
-Minha pasta prendeu-se em sua bolsa, senhora - Matt explicou, encarando-a.
A mulher, que puxava a bolsa contra o corpo, soltou-a, arregalando os olhos de espanto.
-Voc voc no  Matthew Farrell?
-No - ele mentiu, afastando-se.
Meredith, parada junto de um balco, olhou por cima do ombro e acenou para ele, indicando onde estava, antes de virar-se para a mulher com quem conversava.
Dos alto-falantes saa a melodia de Jingle Bells, o sistema de chamados internos bimbalhava, mulheres falavam, gritavam e riam. Cada vez mais incomodado pelo
aperto e pelo barulho, Matt suspirou, aliviado, quando se aproximou do balco. Meredith apresentou-o a uma senhora que aparentava sessenta e poucos anos e que o
olhava como que fascinada.
-Muito prazer - ele disse, apertando a mo que a mulher ofereceu-lhe.
-Meredith! - a sra. Millicent exclamou. - Ele lembra Cary Grant! Pouco depois, os dois voltavam pelo mesmo caminho, tencionando chegar  porta, quando a cliente
que confundira Matt com um ladro, viu-o e apontou em sua direo.
-Olhem!  Matthew Farrell, o marido de Meredith Bancroft! - a mulher anunciou aos gritos. - Ele j saiu com Meg Ryan e Michelle Pfeiffer!
-Pode me dar um autgrafo? - pediu uma jovem  direita de Matt, abrindo a bolsa e tirando uma caneta.
Ele pegou Meredith pelo brao e forou passagem entre as pessoas que os cercavam, ignorando a moa.
-Quem quer seu autgrafo, afinal? - ouviu-a gritar com irritao. - Acabei de me lembrar que voc teve um caso com uma atriz de filmes pornogrficos!
Por fim, passou atrs de Meredith pelas portas giratrias e respirou, Aliviado, o ar frio da noite.
-No  o que voc est pensando - declarou, notando que estava tensa. - No costumam pedir meu autgrafo por a. Mas nossas fotos saram em todos os jornais,
e nossa histria excitou o povo
Meredith lanou-lhe um olhar duvidoso e no disse nada.
A situao, no restaurante em frente, foi ainda pior do que na loja. Havia uma fila dupla de pessoas  espera de uma mesa, atravessando o vestbulo e chegando
 rua.
-Acha que devemos esperar? - Meredith perguntou.
Antes que Matt pudesse abrir a boca para responder, o tumulto  volta deles comeou.
-Voc no  Meredith Bancroft? - uma mulher indagou, ento virou-se para Matt. - E voc  Matthew Farrell!
-No. A senhora est enganada - ele afirmou, pegando Meredith pelo brao e puxando-a, quando comeou a andar.
Foram para a garagem privativa da loja, desistindo do jantar.
-Vou pedir uma pizza por telefone - ela decidiu, parando ao lado do BMW.
Furioso com o destino maldoso que fazia tudo aquilo com ele, Matt viu-a abrir a porta do carro e entrar.
-Meredith, eu nunca sa com nenhuma atriz pornogrfica.
-Tirou um peso do meu corao - ela ironizou com um sorriso, virando a chave na ignio. - Mas acabei de me lembrar que Meg Ryan e Michelle Pfeiffer so loiras.
Matt notou que ela no estava zangada e suspirou, aliviado.
-Apenas conheo Michelle Pfeiffer, e nunca vi Meg Ryan pessoalmente.
-No, mesmo? - replicou Meredith, fechando a porta. - A sra. Millicent me disse que ela fez um cruzeiro em seu iate.
-Fez, mas eu no estava junto.



#46

Comeram pizza, acompanhada de vinho, sentados no cho, diante da lareira. No comearam a trabalhar logo em seguida, descansando um pouco, enquanto acabavam
de tomar o vinho que ainda havia nos copos.
Matt observou Meredith disfaradamente, adorando o modo como ela olhava para o fogo, com os braos ao redor dos joelhos flexionados. Ali estava uma mulher adorvel,
cheia de contradies. Poucas semanas atrs, no baile da pera, ele a vira descer a escadaria com majestosa pose de rainha. No escritrio dela, aquela tarde, rodeada
por seu pessoal, Meredith mostrara-se uma perfeita executiva. E ali, diante da lareira, usando jeans e um largo suter de tric em tom cru que lhe chegava quase
aos joelhos, era a garota que ele conhecera onze anos antes.
Viu-a sorrir, distrada.
-Qual  a graa, Meredith?
Ela olhou para ele e comeou a rir.
-E ento? No vai responder? - Matt pressionou.
-Estou rindo de voc - ela confessou. - Atrapalhou-se todo para passar pela multido, l na loja, e estava com cara de assustado, quando me alcanou. Cary Grant,
hein? A sra. Millicent deve estar caducando. Voc se parece tanto com Cary Grant quanto uma pantera com um gato!
-Qual dos dois eu sou? - ele perguntou, rindo. - No, no precisa responder. Sei que sou a pantera.
Deitou-se e cruzou as mos sob a cabea, sorrindo para o teto, contente com o que a vida lhe dera.
-Acho que devemos comear a trabalhar - ela sugeriu depois de longos momentos. - J so quinze para as nove.
Matt levantou-se com relutncia, ajudou-a a erguer-se e a levar para a cozinha o resto da pizza, a loua e os talheres. Retornando  sala,sentou-se no sof
junto  lareira e abriu a pasta que deixara l, retirando um contrato de trinta pginas que precisava ler.
Meredith acomodou-se numa poltrona a sua frente com um mao de papis na mo. A despeito de ter brincado com Matt, sentia-se inquieta com sua presena, pois
aquele seu jeito descontrado e calmo no a enganava. Matt era uma pantera, esperando com pacincia pelo momento de atacar a presa, um animal fascinante, perigoso
predador. E exercia sobre ela uma poderosa atrao que aumentava a cada hora que passavam juntos.
Olhou-o por cima do papel que fingia ler. Ele dobrara as mangas da camisa at acima dos cotovelos, cruzara as pernas e colocara culos de armao de metal dourado,
que lhe davam um ar incrivelmente sensual.
Como se sentisse seu olhar, Matt fitou-a.
-Vista cansada - explicou, obviamente notando que ela olhava para seus culos.
Voltou a ler, e Meredith percebeu, admirada, que ele era capaz de atingir instantaneamente um estado de profunda concentrao. Olhando para o fogo, ela pensou
no que Sam Green dissera-lhe sobre a venda incomum de aes da Bancroft & Company. Em seguida, pegou-se recordando o alarme provocado pela ameaa de uma bomba na
loja de Nova Orleans, e da seu pensamento flutuou para o problema com Gordon Mitchell e depois para o telefonema de Parker, no dia anterior. O noivo anunciara que
teria de conseguir de outro banco o emprstimo de que ela precisava, porque o seu no poderia atend-la. Tudo isso ficou girando em sua mente, e os minutos foram
passando. Quinze, vinte, trinta.
-Quer falar sobre o que a est perturbando, Meredith? - perguntou Matt, arrancando-a das reflexes.
Ela ergueu os olhos e viu que ele pousara o contrato no colo.
-No - respondeu automaticamente. - No  nada. Pelo menos, nada que possa interess-lo.
-Por que no tenta? - ele ofereceu calmamente.
Matt parecia to competente, decidido e invencvel, olhando para ela, que Meredith achou que seria bom ouvir o que ele teria a dizer sobre seus problemas.
-Estou com a estranha sensao de que alguma coisa terrvel vai acontecer - admitiu em tom desanimado.
-Pode detectar o motivo dessa sensao?
-Pensei que fosse rir do que eu disse - ela comentou.
-Por qu? Voc est pressentindo algo que inconscientemente j percebeu. Isso chama-se instinto, e deve ser obedecido. Por outro lado, essa sensao pode ter
sido provocada por estresse ou mesmo pelo fato de eu ter tornado a entrar em sua vida. Da outra vez, quando apareci em seu mundo, transformei-o num inferno. Talvez
esteja com medo de que isso acontea de novo.
Ela encolheu-se intimamente diante daquela acurada anlise de seus sentimentos, mas no aceitou a ideia de que a volta dele fosse a causa de sua estranha inquietao
a respeito de algo que poderia acontecer.
-No creio que o motivo seja estresse, ou voc. Mas no sei o que  que est me perturbando.
-Tente lembrar-se de quando isso comeou. Quando foi que comeou a se sentir vagamente inquieta, confusa, ou
-Tenho me sentido assim quase que o tempo todo, ultimamente-ela interrompeu-o, sorrindo.
Matt sorriu tambm.
-Espero que a causa seja eu - brincou. Ento, continuou, j com ar compenetrado: - Estou falando da sensao de achar alguma coisa estranha, mesmo que parea
algo bom e promissor.
Meredith, de repente, lembrou-se de como se sentira quando o pai dissera que ela seria a presidente interina s porque Gordon Mitchell no aceitara o cargo.
Disse isso a Matt, que ficou pensativo por alguns instantes.
-Era seu instinto, avisando-a de que a deciso de Mitchell fora imprevisvel e insensata. Veja o que aconteceu desde ento: ele se tornou um executivo em quem
voc no pode mais confiar, que pode estar aceitando suborno. Alm disso, o homem est violando os padres de qualidade estabelecidos pela loja e opondo-se a voc
abertamente nas reunies.
-Tem muita f nos seus instintos, no ?
Matt pensou em quanto estava apostando por acreditar no instinto que lhe dizia que Meredith ainda sentia alguma coisa por ele. Era como soprar as cinzas de uma
fogueira extinta em busca de uma centelha que voltasse a acender um fogo brilhante. Se falhasse, sua derrota seria devastadora, porque ele contava desesperadamente
com a vitria.
-No faz ideia de como  grande essa f - respondeu. Meredith ficou em silncio por alguns instantes.
-Talvez a fonte dessa sensao de que vai acontecer um desastre seja mais fcil de localizar do que parece - comentou por fim. - Uma ameaa de bomba na loja
de Nova Orleans, na segunda-feira, baixou o volume de vendas, e perdemos muito com isso.  nossa filial maisnova e est apenas comeando a manter-se sozinha. Bem,
se der prejuso no incio, as outras lojas cobriro a diferena, naturalmente.
-Ento, por que est preocupada com isso?
-Porque expandimos o negcio to depressa, que o total de nossas dvidas  muito grande. Mas no tnhamos escolha. Ou amos em frent e entrvamos na concorrncia,
ou nos tornvamos obsoletos. O problema  que no temos dinheiro disponvel para cobrir o dficit, se, de repente, houver uma baixa no lucro das outras lojas.
-No poderia tomar dinheiro emprestado, se isso acontecesse?
-No seria fcil. Temos emprstimos pesados para pagar. Mas h algo mais que me preocupa. Um nmero recorde de aes da Bancroft & Company est sendo vendido,
todos os dias. Notei isso, lendo jornais, mas achei que os investidores comeavam a acreditar que nossas aes eram um bom investimento a longo prazo. E so, mas
- Meredith fez uma pausa, respirando fundo. - Sam Green, nosso advogado, chefe do departamento legal, supe que outra empresa as est comprando porque planeja assumir
o controle. Ele tem contatos na Wall Street e soube que correm comentrios sobre estarmos sofrendo uma tentativa de fuso. Parker ouviu algo a respeito, em outubro,
mas no demos ateno ao fato. No entanto, pode ser verdade. Saberemos os nomes dos compradores daqui a algumas semanas, mas isso no far grande diferena. Se uma
empresa quer manter uma tentativa dessa em segredo, no compra aes em seu nome. Voc sabe como tudo isso  feito, no ?
Ele riu.
-Sem comentrios.
-Uma empresa que voc queria controlar, alguns meses atrs, pagou-lhe cinquenta milhes para ser deixada em paz - ela observou. No temos dinheiro para fazer
a mesma coisa. Deus! Se a Bancroft tornar-se uma simples diviso de alguma grande corporao, no suportarei.
-H medidas que voc pode tomar para proteger-se - declarou Matt.
-Eu sei, e a diretoria vem discutindo isso h anos, mas no fizeram nada at agora.
Inquieta, ela se levantou e foi atiar o fogo.
-Essas so todas as suas preocupaes, ou ainda h mais alguma coisa? - ele perguntou.
-Mais? - Ela deu uma risadinha sem alegria. - Infelizmente h mas tudo se resume nisso: esto acontecendo coisas que nunca aconteceram antes e que me deixam
com essa sensao de estar  esperade uma catstrofe. Possibilidade de uma tentativa de fuso, bombas, e agora Parker dizendo que seu banco no pode nos emprestar
dinheiro para a loja de Houston
-No pode, por qu?
-O Reynolds Mercantile est procurando dinheiro, no emprestando grandes somas a clientes j sobrecarregados de dbitos, como ns. Eu no ficaria surpresa,
se o pobre Parker estivesse se preocupando com a possibilidade de no podermos pagar os emprstimos atuais.
-O pobre Parker est bem crescidinho e pode aguentar o tranco. Se emprestou mais dinheiro do que podia, a culpa  dele mesmo, mas tenho certeza de que dar
um jeito de minimizar as prprias perdas
-Matt replicou, irritado. Cada vez que ela falava em Parker o cime o corroa como cido. Com movimentos bruscos, tirou os culos, guardou-os na pasta juntamente
com o contrato e levantou-se. - Voc est precisando de uma boa noite de sono, Meredith.
Surpresa com seu tom spero e por ver que ele se preparava para ir embora, ela se ergueu da poltrona.
-A que horas vamos nos reunir amanh, para comemorar seu aniversrio? - Matt indagou.
-Sete e meia?
-timo - ele aprovou, caminhando para a porta.
Parou no vestbulo para vestir o palet e o sobretudo, e Meredith alcanou-o.
-Como amanh  meu aniversrio, gostaria de pedir um favor ela disse, abrindo a porta.
-Que favor?
-Procure conversar com Parker. Ser horrvel, se vocs dois ficarem mudos como peixes. Gostaria que se comportassem como fizeram na entrevista coletiva. De
acordo?
Mais aquela meno a Parker ps o sangue de Matt de ebulio. Ele deu um passo na direo dela, parou e fitou-a nos olhos.
-Por falar em Parker, vocs ainda esto indo para a cama juntos?
-O que quer dizer com isso? - ela perguntou, atnita.
-Presumo que andou dormindo com ele, porque  seu noivo, e pergunto se ainda est.
-Quem voc pensa que  para
-Sou seu marido.
Por alguma razo a solene gravidade com que ele disse aquilo perturbou Meredith, que sentiu o corao disparar desagradavelmente.
-Marido  uma palavra bonita, quando a gente se acostuma com ela - Matt observou com um leve sorriso.
-No, no  - ela negou, mas no estava sendo sincera.
-No ? Ento, deixe-me ensinar-lhe uma ainda mais feia. Se continuar dormindo com Reynolds, estar cometendo adultrio.
Ele soltou a pasta no cho e, agarrando Meredith pelos ombros beijou-a com aspereza. Suavizou o beijo, por fim, e, quando interrompeu-o, correu os lbios pelo
rosto aveludado numa carcia sensual que a fez arrepiar-se.
-Eu sei que voc quer me beijar - murmurou em tom rouco.
-No
-Quer, sim. Por que no se d esse prazer? Estou aqui, disponvel, louco para satisfazer seu desejo.
Meredith percebeu que sua raiva dissipara-se sob a fora das sugestes provocantes, deixando no lugar uma absurda vontade de rir. E de beijar Matt at que ambos
ficassem sem flego.
-Se eu morrer num acidente, no caminho para minha casa, voc ficar com remorso por no ter me beijado - ele pressionou em tom dramtico.
Ela tentou encontrar algo engraado para dizer, mas no teve tempo, porque Matt voltou a beij-la, dessa vez mais avidamente, pressionando-a contra o corpo,
forando uma coxa entre as dela. Dominada pelo contato da lngua em sua boca, dos msculos rijos em sua carne, rendeu-se, admitindo a derrota vergonhosa. Comeou
a acariciar o peito vasto, retribuindo o beijo com o desespero da paixo.
Sentindo que ela se entregava, Matt tornou-se mais exigente, beijando-a to profundamente que parecia querer devor-la.
Meredith, porm, ainda no perdera totalmente a lucidez. Refreando o desejo que ameaava lev-la a fazer loucuras, afastou a boca com um movimento repentino
e soltou-se do abrao. Recuou, ofegante, cerrando os punhos, com raiva de si mesma.
-Como pode pensar em dormir com Reynolds, se  capaz de me beijar desse jeito? - Matt perguntou em tom acusador.
-Voc quebrou sua promessa de comportar-se! - ela revidou, furiosament
-No. No tentei lev-la para a cama. S a beijei - ele argumentou, saindo.
Contendo a vontade de bater a porta com violncia, Meredith fechou-a e encostou-se nela, angustiada. Como podia ser to fraca? Depois da proposta indecorosa
que ele a obrigara a aceitar, ela ainda encontrava dificuldade em resistir a seu charme! -
Sentindo desprezo por si mesma, comeou a andar de volta para o sof. Parou para olhar para a foto de Parker. Ele era bonito, equilibrado, decente e amoroso.
Dissera centenas de vezes que a amava, enquanto que Matt nunca pronunciara uma s palavra de amor. Mas, isso a impediria de perder o orgulho, o respeito prprio,
de render-se ao fascnio de Matthew Farrell? Ao que tudo indicava, no.
Stuart afirmara que Matt no desejava mago-la. Ela estava inclinada a acreditar, mesmo naquele instante, sacudida por emoes que no conseguia controlar. Matt
correra para ajud-la, no dia anterior, quando a histria do falso divrcio subira  tona, e ela sentia que, por razes incompreensveis, ele de fato a queria de
volta. Era isso que machucava. Ela no podia voltar. Mulherengo e imprevisvel, Matt tornaria a partir seu corao.
Sentando-se no sof, escondeu o rosto nas mos. No ele no queria mago-la. Queria proteg-la. Movera cus e terra para ajud-la a sair da confuso criada
pela imprensa, dera-lhe fora durante a entrevista. Por um instante, ela acalentou a ideia insensata de cham-lo e implorar sua compreenso, pedir que desaparecesse
de sua vida, que a deixasse seguir o caminho que j traara, faz-lo ver que ele no a amava, que estava movido pelo desejo de conquista, que tudo no passava de
uma obsesso passageira.
Mas seria perda de tempo. Ela j dissera tudo aquilo, em vo. Matt pretendia lutar at o fim e sair vitorioso.
Erguendo a cabea, olhou para o fogo, lembrando que ele lhe prometera o paraso numa bandeja de ouro, declarando que gostaria de ter seis filhos, mas que se
contentaria com um. Um sbito pensamento cruzou-lhe a mente. Se ela dissesse que no podia ter filhos, talvez Matt desistisse de suas ideias loucas. No momento em
que chegou a essa concluso, sentiu o corao apertar-se dolorosamente, reconhecendo que no desejava que ele desistisse.
-Maldito! - exclamou numa exploso de desespero. - Maldito seja por me deixar outra vez to vulnervel ao sofrimento!
No conseguia crer que ele desejasse de fato uma famlia. O que o poderoso Matthew Farrell queria era experimentar o sabor da novidade que seria morar com ela
por algum tempo. Ficaria entediado em poucos dias. Perderia o interesse sexual por ela. Como perdera por todas as mulheres, lindas, famosas e cobiadas com quem
dormira.
Ela era sexualmente reprimida, inepta, e sabia muito bem disso. Depois do divrcio, levara dois anos para recuperar um pouco daauto-estima e para sentir algum
desejo. Lisa dissera que o melhor remdio seria dormir com um homem, e ela tentara. Fora para a cama com um campeo de atletismo da universidade, que a perseguira
durante dois meses, e a experincia fora desastrosa. Ele arquejava demais e seu modo de apalp-la deixara-a revoltada. Ela se mostrara reticente e sem habilidade
para fazer sexo, o que o irritara. Ainda se lembrava das palavras do atleta para incentiv-la, mandando-a mexer-se, fazer alguma coisa chamando-a de fria. Quando
ele tentara consumar o ato, ela comeara a lutar, sara da cama, pegara as roupas e fugira. Ento, decidira que no precisava, no gostava de sexo.
Parker fora seu nico amante depois daquilo. Era terno, delicado no exigia nada, mas tambm desapontava-se com seu desempenho. Nunca a criticara de modo claro,
mas ela sentia que no o satisfazia completamente.
Deitando-se no sof, Meredith ficou olhando para o teto, recusando-se a derramar as lgrimas que apertavam-lhe a garganta. Parker nunca a deixaria to infeliz.
Apenas Matt tinha o poder de causar-lhe sofrimento e, apesar disso, ela o queria.
Essa verdade atingiu-a sem aviso, inaceitvel, aterradora. Inegvel.
Em poucos dias, Matt levara-a  capitulao mais completa e humilhante. Por fim, lgrimas de vergonha e desamparo rolaram de seus olhos. Ele nem precisava dizer
que a amava para faz-la desejar jogar fora todos os planos que fizera para a vida.
No outro lado da sala, o antigo relgio de carrilho deu a primeira badalada das dez horas. Para Meredith, marcava o fim da serenidade.


Matt manobrou rapidamente para ultrapassar dois caminhes que bloqueavam seu lado da rua e estendeu a mo para o telefone. O relgio no painel acusava dez horas,
mas ele no hesitou em fazer a ligao.
Peter Vanderwild atendeu ao segundo toque, parecendo espantado mas honrado com a chamada do chefe quela hora da noite.
-Minha viagem a Filadlfia foi um completo sucesso - contou, assumindo que fora para perguntar sobre isso que Matt ligara.
-O assunto  outro. Acha que poderia ter havido um vazamento de informao a respeito de ns estarmos comprando aes da Bancroft? Um vazamento que pudesse
provocar na Wall Street rumores sobre uma tentativa de fuso?
-De modo algum, senhor. Tomei todas as precaues para ocultarnossa identidade. Mas est havendo uma grande demanda dessas aes, que esto subindo de preo.
- Ento, acho que h outro apostador nesse jogo. Descubra quem !
-Alguma outra empresa estaria querendo assumir o controle da Bancroft? Tambm j pensei nisso, ento me perguntei por qu.  pssimo investimento, agora, a
menos que haja algum interesse pessoal, como no seu caso.
-Peter, no meta o nariz em meus assuntos particulares - Matt alertou. - Do contrrio, ter de procurar outro emprego.
-Eu no quis  que tenho lido os jornais e Desculpe, senhor.
-Tudo bem. Comece a averiguar os rumores de que lhe falei. Procure saber se h outro jogador e, se houver, descubra quem .


O luxuoso navio subia e descia suavemente, levado pelas ondas do Atlntico, num movimento que Philip Bancroft considerava a coisa mais tediosa que j tivera
de suportar. Sentado  mesa do capito, entre a esposa de um senador e um texano dono de poos de petrleo, ouvia com fingido interesse o que a mulher lhe dizia.
-Devemos aportar depois de amanh, no fim da tarde - ela comentou em dado momento. - Est gostando do cruzeiro, at agora?
-Imensamente - ele mentiu, lanando um olhar disfarado para o relgio de pulso.
Eram dez horas, em Chicago. Ele podia estar em casa, assistindo ao noticirio, ou no clube, jogando cartas, em vez de naquele hotel flutuante onde se sentia
um prisioneiro.
-Visitar amigos, enquanto estivermos na Itlia? - ela perguntou.
-No tenho amigos l - Philip respondeu.
Apesar do tdio, sentia-se melhor e mais forte a cada dia. O mdico estava certo ao dizer que tudo o que ele precisava era afastar-se por uns tempos das preocupaes
e do trabalho.
-Nenhum? - a esposa do senador persistiu, tentando corajosamente manter a conversao.
-No. S uma ex-esposa - ele explicou, distrado.
-E no ir visit-la?
-No.
De repente, Philip ficou imvel, chocado por ter mencionado a mulher de quem nunca falava, que expulsara de sua casa e de sua vida tantos anos atrs. Aquele
descanso forado estava anuviando seu crebro.




#47


Meredith ficara apreensiva, quando Matt decidira que ele e Lisa participariam da comemorao de seu aniversrio com ela e Parker. Mas quando o noivo e a amiga
chegaram em seu apartamento, um logo depois do outro, estavam to animados, que sua preocupao diminuiu.
-Feliz aniversrio, Meredith! - Lisa abraou-a com fora e entregou-lhe uma caixa lindamente embrulhada.
-Feliz aniversrio, querida - Parker ecoou, beijando-a no rosto e dando-lhe um pacotinho oval, bastante pesado. - Farrell ainda no chegou?
-No. Ah, abri uma garrafa de vinho e estava arrumando salgadinhos numa bandeja, quando vocs chegaram.
-Pode deixar que eu acabo de arrumar e trago tudo para c Lisa ofereceu-se. - Estou morta de fome.
Foi para a cozinha, rodeada por uma nuvem de flutuante crepe cor de ameixa.
-Por que ela tem de se vestir de modo to espalhafatoso? - Parker censurou, quando Lisa desapareceu. - Por que no pode vestir-se como todo o mundo?
-Porque  uma pessoa especial - respondeu Meredith com um sorriso. - E a maioria dos homens acha Lisa deslumbrante.
-Eu, no. Gosto do jeito como voc se veste - ele declarou, examinando o vestido de veludo vermelho sem alas, complementado por um bolero curto do mesmo tecido.
- Por que no abre meu presente enquanto Farrell no chega?
Uma caixinha azul apareceu, quando Meredith retirou o papel pra teado. Ela abriu-a e viu uma linda pulseira de safiras e brilhantes.
- maravilhosa - murmurou, acariciando com a ponta de um dedo a jia em seu ninho de cetim.
No mesmo instante, sentiu lgrimas nos olhos e uma estranha sensao de aperto no estmago, porque acabara de descobrir que no podia ficar com Parker, nem com
a pulseira. Trara o noivo, no s indo para a cama com Matt, como tambm no corao e no pensamento, dominada pela obsesso que conhecera onze anos atrs e que
voltara a atorment-la. Obrigando-se a erguer a cabea e fitar Parker nos olhos, estendeu a caixa para ele.
- magnfica, mas no posso aceitar - disse com voz sufocada.
-Por qu? - Parker fez uma pausa. - Eu sei a resposta. Farrell venceu.
-No completamente. Mas, acontea o que acontecer entre mim e Matt, no poderei me casar com voc. Voc no merece uma esposa que no consegue controlar os
sentimentos por outro homem.
Ele ficou em silncio por longos instantes.
-Farrell sabe que voc ia romper o noivado? - perguntou por fim.
-No! E no quero que saiba que rompi. Isso o tornaria ainda mais persistente.
Parker tirou a pulseira da caixa e prendeu-a ao redor do pulso dela.
-No vou desistir - declarou com um sorriso triste. - Vou tomar isso como um pequeno revs. Nem imagina como odeio aquele miservel!
O interfone soou, Parker ergueu os olhos e viu Lisa parada no vo da porta da cozinha com uma bandeja nas mos.
-H quanto tempo est a, espionando? - ele perguntou com grosseria, enquanto Meredith ia atender o interfone.
-No muito - Lisa respondeu em tom calmo, entrando na sala.
-Quer um copo de vinho?
-Um copo? No. Preciso de uma garrafa inteira.
Lisa pousou a bandeja na mesinha de centro e pegou um copo, que levou para ele, fitando-o com um brilho diferente nos olhos.
Meredith foi abrir a porta e Matt entrou pouco depois, dando-lhe a impresso de que dominava a tudo e todos com a fora de sua presena.
-Feliz aniversrio, Meredith - ele desejou, sorrindo. - Voc est esplndida - elogiou, olhando-a dos cabelos presos num coque frouxo at os sapatos vermelhos.
-Obrigada - ela agradeceu num fio de voz, contendo o desejo de dizer que ele tambm estava esplndido, com aquele terno cinzento, colete, camisa branca e gravata
cinza-prola.
-Oi, Matt! - Lisa cumprimentou-o alegremente, com a bvia inteno de desanuviar a atmosfera. - Hoje voc est com mais aparncia de banqueiro do que Parker.
-No, no sou membro da Phi Beta Kappa - Matt brincou, estendendo, relutante, a mo para Parker.
-Lisa odeia banqueiros - Parker comentou, apertando-lhe a mo com igual relutncia.
Ento, foi at a mesinha e tornou a encher o copo com vinho, que tomou de uma s vez. S ento virou-se novamente para o grupo.
-Bem, Farrell, hoje  aniversrio de Meredith. Onde est seu presente? - indagou com uma falta de educao que no era de seu feitio.
-No trouxe.
-Esqueceu de comprar, no ?
-Eu disse que no trouxe.
-Acho melhor sarmos - sugeriu Lisa com uma risada. Meredith lanou-lhe um olhar de gratido. Num lugar pblico, os dois homens teriam de conter-se.
-Meredith vai receber meu presente mais tarde - Matt explicou em tom claramente provocante.
A limusine aguardava-os diante do prdio, e Joe abriu a porta traseira. Lisa entrou primeiro, seguida de Meredith, e as duas ocuparam o assento de trs, no
deixando aos homens outra alternativa a no ser acomodarem-se no banco virado para o delas. De todos os ocupantes do luxuoso veculo, apenas Joe OHara no parecia
tenso.
Duas garrafas de Dom Prignon aninhavam-se em baldes de prata, no aparador do pequeno armrio de bebidas.
-Vamos tomar champanhe? - props Lisa. - Eu adoraria interrompeu-se, quando a limusine atirou-se para o meio da rua com um movimento to brusco que jogou-a
contra o encosto.
Pouco depois, entravam na via expressa, e Joe abriu caminho no trnsito, desviando-se dos outros carros em velocidade incompatvel com o local e o horrio, passando
de uma faixa para outra.
-Jesus Cristo! - exclamou Parker, agarrando-se no brao do assento. - Esse motorista  louco?
-No. E  muito competente - respondeu Matt, erguendo a voz para fazer-se ouvir acima das buzinadas furiosas dos carros ameaados pela limusine. - Tirou a garrafa
de champanhe de um dos baldes e abriu-a. - Feliz trigsimo aniversrio, Meredith - entoou, entregando a ela a primeira taa. - Lamento ter perdido onze dias iguais
a este.
-Meredith fica enjoada, quando toma champanhe - Parker avisou, virando-se para ela com um sorriso ntimo. - Lembra-se daquela vez que enjoou, no aniversrio
de casamento dos Remington?
-S fiquei tonta, no enjoada - Meredith corrigiu, desgostosa como assunto.
-Muito tonta - o banqueiro insistiu. - Tive de ficar com voc na sacada, congelando ao vento, porque tirei meu palet para pr em suas costas. Depois, Stan
e Milly Mayfield juntaram-se a ns, fizemos uma tenda com nossos agasalhos e ficamos l fora. - Olhou para Matt Com fria altivez e perguntou: - Voc conhece os Mayfield?
-No - respondeu Matt, dando uma taa a Lisa.
-Claro que no. Os dois so amigos meus e de Meredith, h muito tempo - Parker informou, com a clara inteno de deix-lo constrangido.
Meredith mudou rapidamente de assunto, ajudada por Lisa. Parker tomou quatro taas de champanhe e deu um jeito de contar mais duas histrias sobre pessoas da
alta sociedade.
O restaurante que Matt escolhera era encantador, e Meredith, que nunca estivera l, nem sabia de sua existncia, adorou-o logo que entrou. Decorado como um bar
ingls, com vidraas lavradas e painis de madeira nas paredes, o Manchester House possua um enorme salo de estar que tomava toda a parte do fundo. As salas de
jantar, alinhadas dos dois lados do saguo central, eram pequenas e aconchegantes, separadas umas das outras e do saguo por trelias cobertas de hera. A julgar
pelo movimento, pelos risos alegres e brindes ao Natal, havia muita gente divertindo-se.
Os quatro foram levados pelo maitre at o salo de estar, onde esperariam que a mesa reservada ficasse livre, pois haviam chegado cedo.
-De jeito nenhum eu escolheria um lugar destes para comemorar o aniversrio de Meredith - Parker observou em tom de escrnio, sentando-se numa poltrona.
-Eu tambm no - replicou Matt, contendo a irritao por amor a Meredith. - Mas, para comermos em paz, tive de escolher um lugar meio escuro e um tanto afastado
da cidade.
-Vai ser divertido, Parker - Meredith afirmou, deliciada com a atmosfera inglesa e a msica tocada por uma banda.
-A msica  boa - comentou Lisa, ecoando seus pensamentos. Ento, arregalou os olhos, incrdula, ao ver Joe entrar no salo e aboletar-se numa das banquetas
do bar. - Matt! Seu motorista resolveu fugir do frio e vir tomar um drinque - observou, rindo.
-Joe s toma Coca-Cola, quando est trabalhando - ele afirmou. Meredith no viu necessidade de dizer  amiga que o motorista era tambm guarda-costas de Matt.
Instantes depois, um garom apareceu para anotar os pedidos de bebidas.
-S isso, pessoal? - ele perguntou informalmente e, depois de receber uma resposta afirmativa, afastou-se.
O garom caminhou para o bar e entregava o papel ao barman, quando um homem baixinho, usando um enorme sobretudo, abordou-o.
-Ei, cara, o que acha de ganhar cem pratas, fcil, fcil? O garom girou nos calcanhares.
-Como?
-Apenas me deixe ficar atrs de uma daquelas trelias por alguns minutos.
-Por qu?
-Vocs tm gente importante aqui, esta noite, e tenho uma cmera embaixo do sobretudo.
O homem estendeu ao garom a credencial de reprter de um conhecido jornal especializado em escndalos, juntamente com uma nota de cem dlares.
-No deixe que o vejam - o garom ordenou, pegando a nota disfaradamente.
O proprietrio do Manchester House parou junto  mesa do maitre, no saguo de entrada, ergueu o telefone e discou o nmero da casa de Noel Jaffe, que fazia comentrios
sobre restaurantes em sua coluna de jornal.
-Noel, aqui  Alex, do Manchester House - identificou-se, virando as costas para a porta para no ser ouvido por um grupo que acabava de chegar. - Lembra-se
de que eu disse que algum dia o pagaria pela tima avaliao que fez de meu restaurante? Chegou a hora. Adivinhe quem est aqui. Meredith Bancroft, Matthew Farrell
e Parker Reynolds.
-Est brincando! - Noel Jaffe riu. - Talvez sejam mesmo uma pequena famlia unida, como fizeram crer, na entrevista coletiva.
-Hoje, isso no parece ser verdade. O noivo est com uma carranca dos diabos e j bebeu bastante.
-J estou indo para a com um fotgrafo. Arranje-nos uma mesa onde possamos ver, sem sermos vistos.
-Tudo bem. E no esquea. Quando escrever o artigo, escreva o nome do restaurante corretamente e fornea o endereo.
Alex desligou, e estava to entusiasmado com a ideia de conseguir publicidade grtis e de poder mostrar a Chicago que seu estabelecimentoera procurado por gente
rica e famosa, que ligou tambm para emissoras de rdio e de televiso.
Meredith notou que Parker estava bebendo demais e muito rpido. Isso no seria to grave, se ele no insistisse em continuar com as recordaes de coisas que
fizera com ela. E se Matt no estivesse ficando zangado.
Matt no estava ficando zangado. J se encontrava furioso com o evidente empenho de Parker em deixar claro que ele era socialmente inferior, apesar de todo o
dinheiro que tinha. O banqueiro desenterrara at histrias do tempo em que Meredith era adolescente, como aquela em que, no baile de encerramento de um curso de
boas maneiras, ela deixara cair a bolsa e um colar.
Meredith levantou-se abruptamente, quando Parker comeou a contar que ele e ela haviam trabalhado juntos num leilo beneficente.
-Vou ao toalete - anunciou, interrompendo-o.
-Eu tambm vou - disse Lisa.
Quando entraram no espaoso toalete, Meredith andou at a pia e, apoiando as mos no tampo de granito, curvou a cabea, sentindo-se completamente infeliz.
-No aguento mais - lamentou-se. - Nunca imaginei que seria to ruim.
-Quer que eu me finja de doente para obrig-los a nos levar para casa? - a amiga prontificou-se, inclinando-se para o espelho com um batom na mo.
-Parker pouco se importaria, mesmo que ns duas desmaissemos a seus ps - observou Meredith, irritada. - Est ocupado demais, fazendo tudo o que pode para
arrastar Matt para uma briga.
Lisa parou de aplicar o batom e olhou-a de esguelha.
-Matt est provocando.
-Como? Nem abre a boca!
-Pois . Quer provocao maior? Fica sentado, observando Parker como se olhasse um palhao num picadeiro. Parker no est acostumado a perder e perdeu voc!
E Matt tripudia sobre ele, mesmo calado, porque sabe que ser o vencedor.
-No entendo voc! - Meredith declarou, zangada. - Sempre criticou Parker, quando ele agia certo, e agora que est errado, falando bobagens e bbado, voc toma
o partido dele? E Matt no vai ser vencedor coisa nenhuma. Olhe, no se iluda com aquele jeito impassvel.
Matt est furioso, porque Parker tenta faz-lo sentir-se um pria da sociedade.
-Quem no entende voc sou eu, Meredith. Percebeu tudo o que disse? Como pde sequer pensar em casar com um homem por quem no sente nem simpatia? No gosta
de Parker, nem um pouquinho
Pouco depois, as duas saram do toalete, e Matt, que j fora avisado que a mesa estava pronta, levantou-se, observando-as atravessar o salo lotado
Parker imitou-o, sem muita firmeza nas pernas. Parara de contar coisas sobre ele e Meredith e comeara a crivar Matt de perguntas sobre suas origens.
-Que universidade frequentou, Farrell?
-Estadual de Indiana.
-Eu fui para Princeton.
-E da?
-Praticava algum esporte?
-No.
-Fazia o qu, ento? - Parker insistiu.
-Trabalhava.
-Onde?
-Numa usina de ao e como mecnico.
-Eu jogava plo e pratiquei um pouco de boxe. Ah, sabia que o primeiro homem que beijou Meredith fui eu?
-E eu tirei-lhe a virgindade - Matt informou, olhando para Meredith e Lisa, que se aproximavam.
-Seu filho da puta! - Parker rosnou, erguendo um brao e fechando o punho, jogando-se contra ele para soc-lo.
Matt percebeu a tempo de evitar o soco. Reagindo automaticamente, ergueu o brao esquerdo e golpeou com a mo direita.
Um verdadeiro pandemnio comeou. Homens levantaram-se rapidamente, derrubando cadeiras, mulheres gritaram, Parker esparramou-se no cho e luzes brancas de flashes
explodiram. Lisa xingou Matt de cafajeste e deu-lhe um soco no olho, enquanto Meredith curvava-se para ajudar Parker a levantar. Matt recuou ao ser golpeado, bateu
com o cotovelo em algo atrs dele, e Meredith gritou. Joe correu para eles, abrindo caminho entre as pessoas que fugiam, enquanto Matt segurava Lisa pelos pulsos,
com apenas uma das mos. Fotgrafos apareceram de todos os lados.
Com a mo livre, Matt afastou Meredith de Parker e empurrou-a para Joe, que os alcanara.
-Tire-a daqui! - ordenou, tentando proteg-la, colocando-se entre ela e as cmeras. - Leve-a para casa.
De repente, Meredith viu-se erguida do cho e carregada para a cozinha.
-H uma sada pelos fundos - Joe explicou, ofegante, passando entre cozinheiros e ajudantes que os olhavam, atnitos.
Abriu a porta de trs com um dos ombros, percorreu a passagem que rodeava o prdio e, chegando ao estacionamento, abriu a porta da limusine e jogou Meredith
para dentro, no cho carpetado.
-Fique abaixada - recomendou, batendo a porta e correndo para a do motorista.
Achando que aquilo no podia ser real, ela ficou olhando para o carpete azul-escuro a poucos centmetros de seu rosto. Recusando-se a fazer papel de covarde,
tentou sentar-se no banco, mas nesse instante o veculo disparou para fora do estacionamento e virou a esquina em duas rodas, jogando-a novamente no cho.
As luzes da rua passavam num torvelinho, e logo ela descobriu que no estavam fazendo a volta para retornar ao restaurante e pegar Lisa.
Desajeitadamente, subiu no banco que ficava de costas para o do motorista, tencionando mandar o demente empregado de Matt voltar, e mais devagar.
-Por favor, Joe
Mas, ou ele estava ocupado demais, quebrando os limites de velocidade e as regras de trnsito, ou no podia ouvi-la no barulho infernal de buzinas provocado
por sua maneira imprudente de dirigir.
Meredith ajoelhou-se no banco e debruou-se no encosto, passando a cabea pela janelinha de conexo.
-Joe! Por favor, estou com medo!
-No se preocupe, sra. Farrell - ele respondeu, olhando-a pelo espelho retrovisor. - No vo nos pegar e, mesmo que nos alcancem, no far mal, porque estou
preparado.
-Preparado?
-. Tenho um pacote embaixo do brao.
-Como? No estou vendo nada!
Joe deu uma gargalhada e, virando-se meio de lado abriu o palet. Meredith, horrorizada, viu a coronha de uma arma num coldre preso a uma correia que cruzava
o ombro dele.
-Oh, meu Deus! - murmurou, sentando-se no banco, voltando a pensar em Lisa, preocupada com o que poderia ter-lhe acontecido.
Quanto a Matt e Parker, at seria bom que passassem a noite na cadeia. Ela vira que Parker fora o primeiro a atacar, mas Matt no era menos culpado. Estava sbrio,
desviara-se do golpe, por que tivera de socar o outro, criando uma tal confuso? E Lisa tambm agira de modo incompreensvel, virando-se contra Matt em defesa de
Parker, a quem sempre desprezara. Recordando a cena toda, Meredith teria rido, se no estivesse to desgostosa com todos eles, que haviam se portado como reles arruaceiros.
No vira se a amiga acertara o alvo, quando armara o soco, porque abaixara-se para ajudar Parker a levantar-se e, ao erguer-se, fora atingida no olho pelo cotovelo
de Matt. Lembrando-se daquilo, percebeu que sentia algo estranho ao redor do olho e apalpou-o, notando que havia um inchao.
Mergulhada em pensamentos, deu um salto, quando o telefone tocou, um som que parecia deslocado na limusine em alta velocidade, dirigida por um sujeito que podia
ter sido um mafioso.
-Para a senhora - Joe anunciou, depois de atender no aparelho do painel. -  Matt. Saram do restaurante sem problemas e estotodos bem.
Meredith tirou o telefone do suporte ao lado do banco e levou-o ao ouvido.
-Joe disse que voc est bem - Matt comeou. - Peguei seu casaco e
Meredith no ouviu o resto. Recolocou o aparelho no suporte, com um sorriso de vingativa satisfao.
Dez minutos depois, Joe brecou a limusine com um solavanco violento, diante do prdio dela. Saiu e abriu a porta de trs com um sorriso, indiferente ao fato
de quase ter matado Meredith de susto durante todo o percurso.
-Chegou, sra. Farrell. S e salva.
Ela pensou em dar-lhe um soco no nariz, mas trinta anos de educao e treinamento social foram mais fortes, fazendo-a desistir da ideia. Saiu do carro, sentindo
as pernas moles e trmulas.
-Boa noite, Joe - despediu-se polidamente. - Obrigada.
Ele insistiu em acompanh-la at o vestbulo e, quando entraram, Meredith notou que todos, o guarda, o porteiro, moradores que saam dos elevadores, olhavam-na
com espanto e curiosidade.
-Bo-boa noite, srta. Bancroft - gaguejou o guarda, fitando-a boquiaberto.
Meredith deduziu que sua aparncia no devia ser das melhores, mas, orgulhosamente ergueu o queixo.
-Boa noite, Terry - respondeu, puxando o brao, que Joe segurava de modo protetor.
Instantes depois, porm, quando abriu a porta do apartamento e olhou-se no espelho do pequeno vestbulo, estacou, atnita. Ento, comeou a rir, de pura tenso.
Parte dos cabelos soltara-se do coque e pendia de um lado em total desalinho. O bolero, repuxado para trs, estava todo amassado, e o olho inchado ainda no ficara
roxo por pura sorte.
-Voc est linda - ironizou, falando com seu reflexo.
-Preciso ir para casa - declarou Parker, esfregando o queixo dolorido. -  tarde, e voc
-Sua casa deve estar rodeada de reprteres - observou Lisa. Acho melhor passar a noite aqui.
Foi para a cozinha e voltou pouco depois com uma segunda xcara de ch, que entregou a ele.
-E Meredith? - o banqueiro perguntou.
Lisa sentiu um aperto no corao ao v-lo to preocupado com uma mulher que no o amava e nunca amaria.
-Parker, seu noivado acabou.
-Eu sei.
-No  o fim do mundo - Lisa assegurou, sentando-se ao lado dele no sof. - Seu relacionamento com Meredith era confortvel. Voc sabe o que acontece com esse
conforto, depois de alguns anos?
Ele olhou para ela, notando, pela primeira vez, que os cabelos avermelhados ficavam magnficos, banhados pela luz.
-No - respondeu.
-O conforto transforma-se em tdio.
Sem dizer nada, Parker tomou o ch e colocou a xcara na mesinha. Ento, olhou em volta, observando a sala, porque, de modo estranho, relutava em encarar Lisa.
A decorao do aposento era surpreendente, misturando o estilo moderno com o antigo. Havia uma mscara asteca na parede, acima de um pedestal espelhado de arrojadas
linhas atuais, que ficava junto de uma poltrona de couro cor de pssego. O espelho acima da lareira era em estilo americano moderno, as estatuetas de Porcelana no
aparador eram inglesas. O ambiente refletia a personalidade de Lisa, verstil, ousada, perturbadora.
Parker levantou-se e aproximou-se da lareira para examinar as estatuetas mais de perto.
-So lindas - comentou com sinceridade. - Do sculo dezassete, no?
-Isso mesmo - Lisa respondeu.
Ele voltou e parou diante dela, fitando-a, mas evitando olhar para o decote do vestido cor de ameixa.
-Por que voc esmurrou Farrell? - perguntou. Lisa levantou-se depressa e pegou a xcara.
-No sei - mentiu com voz trmula.
Durante muito tempo e sem esperana, desejara v-lo ali, em seu apartamento. Seu desejo realizara-se, causando-lhe uma emoo que precisava esconder.
-Lisa, voc no me suporta, no entanto pulou em minha defesa-ele persistiu. - Por qu?
Engolindo em seco, ela imaginou se devia dizer a verdade, mas sabia que Parker no esperava e certamente no queria ouvi-la declarar que o amava.
-Por que pensa que no suporto voc? - perguntou baixinho.
-Deve estar brincando! Sempre fez a maior questo de deixar claro que menospreza a mim e minha profisso.
-Ah, provocao pura - ela explicou, desviando o olhar dos penetrantes olhos azuis.
Foi para a cozinha, surpreendendo-se quando Parker seguiu-a.
-Por qu, Lisa?
-Por que eu sempre provoquei voc daquele jeito?
-No, estava me referindo ao que fez contra Farrell, hoje, mas pode comear pela provocao.
Ela deu de ombros, comeando a lavar os utenslios que usara para o ch. Tinha duas opes: blefava, inventando qualquer coisa, mas isso dificilmente funcionaria
com um homem inteligente como Parker, ou contava-lhe a verdade, desse no que desse. Decidiu ser sincera. Como fazia muito tempo que o amava, sem nenhuma esperana,
ele no poderia partir seu corao, se a rejeitasse. Apenas feriria seu orgulho.
-Voc se lembra de quando tinha dez, onze anos? - perguntou, enxugando as mos num pano de cozinha.
-Lembro.
-Naquela poca, gostou de uma menina e tentou chamar a ateno dela?
-Gostei. Tentei de tudo.
Lisa virou-se e encostou-se na pia, cruzando os braos.
No sei como eram as coisas, na escola fina onde voc estudou, masna minha, quando um garoto queria chamar a ateno de uma menina, jogava bolinhas de papel
nela, ou provocava-a sem d nem piedade.
Esperou que Parker dissesse alguma coisa, mas ele continuou em silncio. Sentindo um n no estmago, ela se virou de novo para a pia.
-Voc faz alguma ideia do que sinto por Meredith? - perguntou tremulamente. - Tudo que sou, tudo que tenho, devo a ela, a pessoa mais bondosa que j conheci.
Amo Meredith mais do que minhas prprias irms. Pode imaginar como foi horrvel eu me apaixonar pelo homem que pediu minha melhor amiga em casamento?
-Com certeza bati com a cabea, quando ca, e agora estou tendo alucinaes - Parker comentou em tom incrdulo. - Preciso consultar um psiquiatra e contar este
sonho nos mnimos detalhes. Lisa, voc disse que est apaixonada por mim?
Ela comeou a rir e chorar ao mesmo tempo.
-Voc  to burro que nunca percebeu - murmurou. Ele segurou-a pelos ombros.
-Lisa, pelo amor de Deus! No sei o que dizer. Sinto
-No diga nada! - ela implorou. - Principalmente que sente muito.
-O que devo fazer, ento?
Ela inclinou a cabea para trs, fitando o teto, deixando as lgrimas correrem livremente por seu rosto.
-Como pude me apaixonar por um homem to sem imaginao?
-Deixou que ele a virasse e encarou-o. - Numa noite assim, quando ns dois estamos precisando de conforto, e somos um homem e uma mulher, no  bvio o que
devemos fazer?
Sentiu que o corao perdia o compasso, enquanto esperava pela resposta, e que depois disparava, quando Parker acariciou-lhe o rosto,
- bvio - ele concordou. - Mas uma pssima ideia.
-A vida  um grande jogo - ela murmurou, rindo entre lgrimas. Parker parou de pensar, quando ela enlaou-o pelo pescoo e beijou-o na boca com extrema doura.
Abraou-a, puxando-a de encontro ao corpo, retribuindo o beijo com ardor.
Lisa aprofundou o beijo, como que desafiando-o a recuar. Mas ele no recuou.



#48

Envolta num roupo de banho, Meredith sentou-se no sof diante do aparelho de televiso e pegou o controle remoto. Logo descobriu que a maioria dos canais locais
exibia desenhos animados, naquela manh de domingo. Impaciente, pressionou o boto,  procura do canal de notcias, que naturalmente repetiria os noticirios levados
ao ar tarde da noite. Sabia que estava sendo impulsionada por um estranho desejo de torturar-se, porque tinha certeza de que ia rever a ridcula cena no restaurante.
J lera a respeito no Tribune, que dedicara a primeira pgina a fotos da briga e comentrios excitantes sobre os quatro envolvidos. O jornal citara uma frase que
Parker dissera na entrevista coletiva, sobre ele e Matt serem homens civilizados que tentavam conduzir a situao da maneira mais amigvel possvel. Numa pgina
interna, havia fotos de Parker tentando atingir Matt e de Matt socando-o e jogando-o no cho, sob o ttulo: Farrell e Reynolds pem as cartas na mesa. Tambm havia
uma foto de Meredith agachada, ajudando Parker a levantar-se.
Tomando um gole de caf, ela tornou a pressionar o boto do controle e o canal sintonizado exibia a reprise de um noticirio da madrugada.
-Janet, parece que houve um novo incidente envolvendo o tringulo Farrell, Reynolds e Bancroft - o comentarista disse  companheira com um sorriso malicioso.
-No parece, Ted. Houve mesmo - a mulher afirmou em tom divertido. E como todos os telespectadores devem lembrar-se, Parker Reynolds, Matthew Farrell e Meredith
Bancroft, numa recente entrevista  imprensa, agiram como se fossem uma famlia. Bem, hoje  noite, os trs foram jantar no Manchester House e envolveram-se numa
briga como costuma acontecer entre parentes. Briga, mesmo, no discusso. Luta de boxe! Matthew Farrell contra Parker Reynolds, noivo contra marido, universidade
de Princeton contra a estadual de Indiana.
A jornalista parou de falar por um momento, para rir da prpria tirada
-Adivinhem quem ganhou? Faam suas apostas, senhoras e senhores, porque j vamos mostrar as excitantes imagens.
A gravao posta no ar mostrou Parker avanando para Matt, sem conseguir atingi-lo, e depois Matt dando-lhe um soco que o jogou no cho.
-Quem apostou em Matthew Farrell, caros telespectadores, ganhou! a mulher declarou, rindo, quando as cmeras voltaram a focaliz-la. - O segundo lugar nesse
torneio ficou com a srta. Lisa Pontini, amiga de Meredith Bancroft, que acertou um murro em Matthew Farrell. A srta. Farrell no pde ficar para cumprimentar o vencedor,
ou consolar o derrotado, porque foi levada embora s pressas na limusine do marido. Os outros trs partilharam um txi para voltar para casa e
-Praga! - Meredith exclamou, desligando o televisor. Levantou-se e foi para o quarto. Ao passar pela penteadeira, automaticamente ligou o rdio.
-Estamos iniciando nosso noticirio das nove - anunciou o locutor.
-Ontem  noite, no Manchester House, Matthew Farrell, o famoso empresrio, e o banqueiro Parker Reynolds envolveram-se num incidente de franca hostilidade.
Farrell, que  casado com Meredith Bancroft, e Reynolds, noivo dela
Meredith deu um soco no boto no topo do rdio, desligando o aparelho.
-Incrvel! - resmungou, furiosa.
Desde o dia em que Matt voltara a cruzar seu caminho, no baile da pera, sua vida virara de cabea para baixo. Sentando-se na cama, pegou o telefone e ligou
novamente para Lisa. Tentara, em vo, falar com a amiga at tarde, na noite anterior, mas, ou ela no quisera atender, ou no fora para casa. Ligara para Parker
tambm, com o mesmo resultado.
O telefone no apartamento de Lisa tocou cinco vezes, e Meredith ia desligar, quando Parker atendeu.
-Parker?! - ela exclamou, aturdida.
-Eu mesmo.
-Voc est bem?
-Estou timo - ele engrolou em tom irnico. - Com uma ressaca do inferno.
-Que pena! Lisa est por a?
-Est.
Um instante depois, a amiga bocejou no telefone.
-Quem ? - perguntou com voz sonolenta.
-Meredith.
Era bvio que os dois haviam sido acordados pelo telefone e estavam to prximos um do outro que Parker passara o aparelho para Lis em questo de segundos. Fcil
deduzir o que acontecera.
-Voc est na cama, Lisa? - perguntou Meredith, chocada.
-Estou.
Com Parker, refletiu Meredith, segurando-se na cabeceira da cama porque o quarto comeou a girar a sua volta.
-Desculpem t-los acordado - murmurou, desligando.
O quarto continuou a virar loucamente, e ela se sentiu presa de um pesadelo. Sua melhor amiga estava na cama com seu noivo! Chocante. Mas tambm no deixava
de ser chocante descobrir que no se sentia trada, nem estava sofrendo. Ficara apenas surpresa. Olhando em volta, como para certificar-se de que no estava sonhando,
captou seu reflexo no espelho da penteadeira e viu um rosto transtornado.
Uma hora mais tarde, saiu do apartamento, usando enormes culos escuros, com a inteno de ir ao escritrio e passar o dia trabalhando. Isso a ajudaria a readquirir
controle sobre as emoes. Matt no ligara, e ela nem se surpreendera, pois tudo parecia irreal.
Saiu do elevador na garagem, no andar subterrneo, e dirigiu-se  vaga que lhe pertencia, com as chaves do carro na mo. Virando um canto, estacou, atnita.
O BMW desaparecera, e em seu lugar haviam colocado um Jaguar esportivo, novo em folha.
Tinha de ser um pesadelo! Seu carro fora roubado! Algum usurpara sua vaga!
J bastava! Olhando para o Jaguar azul-marinho, sentiu o impulso histrico de comear a rir, quando na verdade estava com vontade de dizer uns desaforos ao destino,
que parecia determinado a enlouquec-la. Mas ela lutaria, com unhas e dentes, para fazer aquilo parar.
Girando nos calcanhares, voltou para o elevador, apertou o boto do trreo e, momentos depois, marchava na direo da mesa do segurana diurno.
-Robert, puseram um Jaguar azul-marinho em minha vaga. Por favor, mandem tir-lo de l. Imediatamente!
-Pode ser que um morador novo, que no saiba
-No quero saber. O carro tem de sair de l, agora! - ela exigiu pegando o telefone e passando-o para o homem. - Ligue para o departamento de trnsito e mande
que tragam um guincho. No esperarei mais do que quinze minutos!
-Tudo bem, srta. Bancroft - o segurana concordou. - Calma. Tudo bem.
Meredith dirigiu-se para a porta principal com a inteno de ir parao escritrio de txi e de l chamar a polcia para denunciar o roubo do BMW.
Assim que saiu do prdio, viu um txi que virava a esquina e correu para a beira da calada para fazer sinal. Parou abruptamente ao perceber a multido de reprteres
que se aglomeravam na calada.
Dois fotgrafos tiraram fotos dela. O txi parou na frente do prdio, e um homem, usando culos escuros, desceu. Sem perceber que se tratava de Matt, Meredith
tornou a entrar, correndo para o elevador, que continuava parado e com a porta aberta. Ficaria prisioneira, em seu prprio apartamento? No. Ligaria, pedindo um
txi, que a pegaria na entrada de servio. Nenhum problema.
Acabara de entrar no apartamento e estava erguendo do gancho o telefone do vestbulo, quando bateram na porta. Completamente perturbada por tantas tribulaes,
ela abriu sem perguntar quem era, e viu-se frente a frente com Matt, cujos culos escuros refletiam seu rosto abatido.
-Bom dia - ele cumprimentou com um sorriso hesitante.
-Muito bom! - ela exclamou com sarcasmo.
-No parece - Matt comentou, tentando ver-lhe os olhos atravs das lentes marrons dos culos enormes que ela usava.
-No ! - ela explodiu. - Se hoje est assim, acho que devo me trancar num armrio, porque, se as coisas piorarem, no sei como ser amanh.
-Voc est nervosa.
-Por que estaria? S porque sou prisioneira em minha prpria casa, porque no posso ligar a televiso, o rdio, nem ler um jornal, sem descobrir que somos o
assunto principal?
Matt apertou os lbios para reprimir um sorriso ao ouvir o tom alterado da voz geralmente calma.
-No se atreva a rir! - Meredith avisou, indignada. -  tudo culpa sua. Cada vez que se aproxima de mim, coisas ruins comeam a me acontecer!
-E o que est acontecendo? - ele perguntou, sorrindo, contendo-se Para no tom-la nos braos.
-Tudo!  uma loucura! No trabalho, estou enfrentando coisas que nunca aconteceram antes, at uma ameaa de bomba! Meu carro foi roubado, um vizinho apoderou-se
de minha vaga, e descobri que minha Melhor amiga e meu noivo dormiram juntos a noite passada.
Matt riu.
-E voc acha que tudo isso  culpa minha?
-Se no , como voc explica?
-Coincidncias.
-Catstrofes, isso sim! - ela declarou, fincando as mos na cintura furiosa. - Um ms atrs, minha vida era boa, tranquila, digna! Frequentava festas beneficentes,
danava e conversava com gente educada! Agora, vou a restaurantes na periferia da cidade e me meto em brigas! Ando numa limusine dirigida por um doido que, para
me acalmar, informa que carrega um pacote embaixo do brao. O pacote  uma arma!
-Isso  tudo? - perguntou Matt, tornando a rir.
-No. H mais uma coisa.
-O qu?
-Isto! - ela anunciou e, num gesto dramtico, tirou os culos. Um olho roxo! Um hematoma! Causado por
Segurando o riso, Matt passou um dedo pela pequena mancha arroxeada no canto de um dos olhos azuis.
-No tem a dignidade de um verdadeiro olho roxo - brincou.  apenas uma manchinha de nada.
-Ah, timo! Uma manchinha de nada!
Fingindo seriedade, Matt observou o pequeno hematoma.
-Mal aparece. Ei, passou alguma coisa para disfarar?
-Corretivo - ela explicou, confusa. - Por qu?
Com uma risada que tentara em vo reprimir, ele tirou os prprios culos.
-Pode me emprestar um pouco?
Meredith olhou para o hematoma idntico ao seu e, de modo incontrolvel, sua raiva transformou-se em hilaridade. Comeou a rir. Tapou a boca com a mo, mas o
riso dominou-a, e ela encostou-se na parede, gargalhando.
Matt entregou-se e riu tambm, at os olhos lacrimejarem. Abraou-a enterrando o rosto nos cabelos loiros, deliciando-se com o contato. A despeito de sua atitude
displicente diante das acusaes que ela lhe fizera, era obrigado a concordar que a maioria tinha fundamento. Ele tambm ficara horrorizado, quando lera os jornais.
De fato, estava virando a vida dela do avesso. Meredith tinha todo o direito de virar-se contra ele, cheia de fria. Mas estava rindo em seus braos, o que o inundava
de alegria e gratido.
Quando controlou o ataque de riso, Meredith inclinou-se para tras fitando-o nos olhos.
-Foi Parker quem lhe deu esse olho roxo? - quis saber, engolindo uma risadinha.
-Eu ficaria menos mortificado, se fosse ele - Matt brincou. - Foi sua amiga, Lisa. Ela me deu um soco! E voc? Como conseguiu o seu?
-Foi voc.
-Eu, no!
-Foi, sim! - ela teimou, sorrindo. - Voc deu uma cotovelada no meu olho, quando me abaixei para ajudar Parker a levantar-se. Mas, se fosse hoje, em vez de
ajud-lo eu pisaria nele com os dois ps!
- mesmo? Por qu?
-Eu j lhe contei - ela respondeu com um suspiro. - Telefonei a Lisa, hoje, para saber se estava tudo bem, e ela estava na cama com Parker!
-Estou decepcionado - Matt declarou sorrindo. - Achei que Lisa tivesse bom gosto.
Meredith mordeu o lbio para no recomear a rir.
-Minha melhor amiga, na cama com meu noivo! No  horrvel?
-Um ultraje! - Matt reforou com fingida indignao. - Voc precisa vingar-se.
-No posso.
-Por qu?
-Porque Lisa no tem noivo! - explicou Meredith, recomeando a rir.
Desabou contra Matt, escondendo o rosto no peito dele, enlaando-o pelo pescoo to instintivamente quanto fizera nas longas noites de paixo, tantos anos atrs.
Seu corpo sabia que ainda pertencia a ele.
Matt tambm tomou conscincia disso e apertou-a ainda mais entre os braos.
-Mas ainda pode se vingar - insistiu em voz baixa e sugestiva.
-Como?
-Indo para a cama comigo.
Ela ficou tensa, endireitou-se e recuou um passo, ainda sorrindo, mas de acanhamento.
-Pre-preciso chamar a polcia para dar parte do roubo do meu carro - disse nervosamente, livrando-se dos braos dele e caminhando para a escrivaninha num canto
da sala de estar. Parou junto da janela e olhou para fora. - timo. O carro-guincho j chegou - comentou, falando consigo mesma, enquanto erguia o fone do gancho.
Olhou para Matt, que a seguira. - Mandei o segurana chamar o departamento de trnsito para tirar o usurpador de minha vaga.
Discou o nmero da polcia, mas antes que algum pudesse atender Matt tirou-lhe o telefone da mo e recolocou-o no gancho.
Ela o fitou, refletindo que ele no mudara de ideia sobre irem para a cama juntos e reconhecendo que no resistiria, se ele tornasse a abra-la. Matt, porm,
tornou a erguer o aparelho.
-Qual o nmero, para chamar o segurana? - perguntou. Ela deu a informao e, confusa, observou-o fazer a ligao.
-Aqui  Matt Farrell - ele disse ao guarda. - Por favor, v  garagem e diga ao pessoal do carro-guincho que o carro de minha esposa deve ficar onde est.
Fez uma pausa, ouvindo o homem explicar que o carro da srta. Bancroft era um BMW preto, ano oitenta e quatro, e que o veculo estacionado em sua vaga era um
Jaguar azul-marinho, novo.
-Eu sei. Dei o Jaguar a ela como presente de aniversrio.
-O qu?! - Meredith espantou-se.
Matt desligou e virou-se para ela com um sorriso.
Meredith no sorriu, estupefata com a generosidade do presente, quase em pnico, sentindo-se apanhada numa teia, e assustada com o salto que seu corao dera,
emocionado com o tom terno de Matt, quando ele pronunciara as palavras minha esposa.
-Onde est meu carro? - conseguiu perguntar.
-Foi levado para a vaga do porteiro da noite, no lado da garagem reservada aos empregados do prdio.
-Mas o alarme no disparou!
-Um alarme no  problema para Joe OHara.
-Eu sabia! Logo que vi seu motorista, achei que ele devia ser um marginal.
-No  - Matt negou secamente. -  perito em fiao eltrica.
-Matt No posso aceitar o Jaguar.
-Pode, sim, minha querida.
Ela se sentiu novamente envolvida pela sensualidade da voz mscula. Precisava fugir daquele encantamento.
-Vou ao meu escritrio - informou com voz trmula, recuando um passo.
-Acho que no - Matt contrariou-a suavemente.
-Como assim?
-Temos coisas mais importantes para fazer.
-O qu?
-Eu lhe mostrarei. Na cama.
-Matt, no faa isso comigo - ela suplicou, recuando ainda mais. Ele avanou, aproximando-se.
-Ns nos desejamos, Meredith. Sempre foi assim.
-Preciso mesmo ir ao escritrio. Tenho muita coisa para fazer.
-Renda-se com elegncia, minha querida.
-Por favor, no me chame de querida! - Meredith gritou. Matt percebeu que ela estava realmente apavorada.
-Por que est com medo?
Meredith refletiu que no podia responder que tinha medo porque no queria amar um homem que no a amava, no queria ficar vulnervel ao sofrimento, como ficara
onze anos atrs, no suportaria, quando ele se fartasse dela e a deixasse.
-Matt, pare onde est e oua o que vou dizer, por favor.
Ele ficou imvel, perplexo com a nota de desespero na voz dela.
-Estou ouvindo, Meredith.
-Voc disse que queria filhos. No posso ter mais nenhum! H alguma coisa errada comigo, e os mdicos disseram que no devo me arriscar.
-Adotaremos - ele declarou, sem se abalar.
-E se eu disser que no quero filhos? Nem meus, nem adotados?
-No adotaremos.
-No quero desistir de minha carreira.
-Nunca esperei que fizesse isso.
-Por que est dificultando tanto as coisas? - ela perguntou, angustiada. - No pode poupar um pouco de meu orgulho? Estou querendo dizer que no pretendo continuar
casada com voc, que no suportaria viver como sua esposa, debaixo do mesmo teto.
Viu Matt empalidecer, atingido pela sinceridade de suas palavras.
-Posso saber por que no?
-No, no pode.
-De qualquer forma, quero saber - ele declarou em tom duro. Ela cruzou os braos numa atitude de autoproteo.
- tarde demais para ns, Matt. Voc mudou, eu mudei. No Pretendo fingir que no sinto nada por voc. Sinto. Sempre senti. Parou de falar por um momento, olhando-o
nos olhos em busca de uma centelha de compreenso e vendo apenas frieza. - Se tivssemos ficado juntos, talvez o casamento desse certo, mas agora no h a mnima
Possibilidade. Voc gosta de atrizes sensuais e de sedutoras princesas europias, e no sou nada disso!
-S peo que seja voc mesma, Meredith.
-Isso no seria suficiente! Eu no suportaria viver com voc, sabendo que um dia comear a querer coisas que no lhe posso dar.
-Se est falando de filhos, acho que j esclarecemos o assunto.
-Acho que no. Voc est apenas usando todos os recursos para me fazer concordar com o que quer. Mas no estou falando de voc querer filhos, e sim de querer
outras mulheres! Eu nunca lhe bastaria!
-O que foi que disse? - ele perguntou, parecendo atnito.
-J tentei dizer uma coisa antes, mas Bem, Matt, as pessoas isto , os homens me acham frgida. At meus colegas de universidade diziam isso de mim. No
creio que eu seja, mas no sou como a maioria das mulheres.
Parou de falar, notando que Matt a fitava com um estranho brilho no olhar.
-Continue - ele pediu gentilmente.
-Dois anos depois que nos divorciamos, tentei ir para a cama com um rapaz da universidade e detestei a experincia. Ele tambm. As outras moas dormiam com
todo o mundo e pareciam gostar, mas eu no. No conseguia.
-Elas no passaram pelo que voc passou, Meredith. No seriam to fogosas, se houvessem sofrido tanto - Matt comentou com evidente ternura.
-Pensei isso, na poca, mas Parker no  mais um desajeitado universitrio que s pensa em sexo, e eu sei que ele no me acha muito muito boa na cama. No
parecia se importar, mas voc se importaria.
-Desculpe, meu bem, mas voc est louca.
-No, no estou. Voc ainda no percebeu, mas no tenho habilidade, no sei ser excitante.
Matt mordeu o lbio para no rir.
-No sabe?
-No.
- s isso que a impede de recomear comigo o que paramos onze anos atrs?
-Essas so as razes mais importantes - ela respondeu de modo desonesto, porque no acrescentou que o principal motivo era o fato de que ele no a amava.
-Bem, no  nada que no possamos remediar. A questo de filhos j foi acertada, a de sua carreira tambm. Quanto s mulheres que tive,  algo um pouco mais
complexo. Se eu soubesse que um dia teramos a oportunidade de voltar a viver juntos, me comportaria de modo bemdiferente. Mas no se pode mudar o passado. No entanto,
posso dizer que minha vida no foi to devassa como fazem crer. E posso prometer que voc sempre me bastar. Em todos os sentidos.
Profundamente afetada pelo timbre enrouquecido da voz de Matt, pela sensualidade que brilhava nos olhos bonitos, e pelas palavras incrveis que ele estava dizendo,
Meredith sentiu-se indefesa, enquanto observava-o tirar a jaqueta de couro e atir-la nas costas do sof.
-E isso de frigidez  um absurdo - Matt prosseguiu. - A lembrana de voc na cama comigo perseguiu-me durante anos. Se pensa que foi a nica que se sentiu insegura
naqueles momentos, querida, tenho algo a lhe dizer. Houve vezes em que me senti desajeitado e, por mais que tentasse ir devagar, protelando o momento do clmax para
que ns dois tirssemos o maior prazer possvel da relao, no conseguia, porque voc me enlouquecia de desejo.
Lgrimas quentes de alvio e alegria formaram-se nos olhos de Meredith. O presente de aniversrio que ele lhe dera podia ser muito lindo e caro, mas o que estava
dando naquele momento no tinha preo.
-Por longos anos torturei-me, achando que, se houvesse sido um amante mais habilidoso, voc teria continuado casada comigo - Matt confessou com um leve sorriso.
- Acho que isso coloca um ponto final nessa histria de frigidez.
Viu o rubor que coloriu as faces de Meredith, sinal de que ela fora afetada.
-Agora resta apenas uma das objees que apresentou para no viver comigo - continuou. - E essa  de menor importncia.
-Qual?
-A alegao de que se acha sem habilidade sexual - disse Matt, tirando a gravata e comeando a desabotoar a camisa.
-O que est fazendo?
-Me despindo.
-No abra mais nenhum boto. Estou falando srio.
-Tem razo, Meredith. Voc  quem deve fazer isso. Nada d maior sensao de poder a uma pessoa, do que tirar as roupas de outra.
-Voc deve saber. Deve ter feito isso dezenas de vezes.
-Centenas - ele corrigiu.
-Centenas?
-Estou brincando. Venha c.
-No foi uma brincadeira engraada.
-No pude evitar. Quando fico nervoso, fao piadas.
Ela olhou-o, duvidosa.
-Est nervoso?
-Apavorado. Estou fazendo a maior aposta de minha vida. Se essa experincia no for perfeita, acho que terei de aceitar o fato de que no fomos feitos um para
o outro, afinal.
Meredith sentiu que os ltimos vestgios de sua resistncia transformavam-se em p. Ela o amava, sempre o amara. E o desejava com a mesma fora com que desejava
que ele a amasse tambm.
-Ns fomos - murmurou, quase sem sentir.
O rosto de Matt iluminou-se de alegria e ternura.
-Venha para a cama comigo, querida. Prometo que, depois disso, nunca mais ter dvidas a respeito de voc, ou de mim.
Aps um instante de hesitao, ela caminhou para os braos dele.
Momentos depois, no quarto, Matt, fez quatro coisas para ter certeza de que cumpriria a promessa. Serviu champanhe, que os ajudaria a relaxar, disse a Meredith
que tudo o que ela achasse excitante ele tambm acharia, deixou-a acarici-lo do modo que quisesse e, por ltimo, no escondeu as reaes de prazer causadas por
suas carcias e beijos.
As duas horas seguintes foram de delicioso tormento, em que o clmax foi perseguido, mas no atingido, em que Meredith soltou-se, perdendo a timidez, quase enlouquecendo
Matt com sua ousadia.
-Voc gosta disto? - ela perguntou em dado momento, correndo os lbios pelo peito largo, descendo-os at abaixo do umbigo.
-Sabe que sim - ele murmurou. - Mas pare, querida.
-Por qu?
-Voc vai ver por qu, se no parar.
Ela deu uma risadinha rouca e sugou de leve um dos mamilos escondidos entre os plos fartos.
-E disto?
Matt gemeu, contorcendo-se.
-Gosto - respondeu com voz estrangulada.
Agarrou-se  cabeceira e fechou os olhos, quando Meredith montou-o, possuiu-o e comeou a mover-se lentamente.
-Foi isso que eu ganhei por me apaixonar por uma mulher de negcios - ele brincou, numa tentativa de conter o desejo cada vez mais exigente. - Devia adivinhar
que ela faria questo de ficar por cima.
Demorou alguns segundos para perceber que ela ficara imvel
-No pare agora, querida. Se no me der um orgasmo, eu morrerei
-O que voc disse? - ela perguntou baixinho. - Que morrerei
-Voc disse que est apaixonado por mim? - ela o interrompeu.
-O que pensou que tudo isso significa? - Matt abriu os olhos e viu lgrimas escorrendo pelo rosto dela. - Por favor, Meredith, no me olhe assim, no chore!
- Pediu, puxando-a para baixo, contra o peito e beijando-lhe as faces molhadas. - Desculpe. Sei que  muito cedo para falar de amor
-Cedo? - ela ecoou, rindo e chorando. - Cedo? Faz onze anos que espero ouvi-lo dizer que me ama! - Afundando o rosto na curva do pescoo de Matt, o corpo ainda
intimamente ligado ao dele, murmurou: - Amo voc, sempre amei.
Ouvindo aquelas palavras, Matt no mais controlou-se e atingiu o clmax, derramando-se dentro dela, abraando-a com fria, sentindo-se onipotente, porque finalmente
ouvira o que desejara por tanto tempo.
-Sempre amei - ela repetiu. - E amarei para sempre - afirmou, chegando ao clmax.
O orgasmo de Matt, que j deveria estar quase extinto, explodiu com nova fora, sacudindo-lhe o corpo espasmodicamente. Atingira o momento mais arrebatador de
toda sua vida, e no fora levado a isso por estmulo fsico, ou tcnicas sexuais rebuscadas, mas por palavras. Pelas palavras de sua mulher.
Meredith rolou para o lado e aninhou-se nos braos dele, saciada e feliz.


Em Nova Orleans, um homem bem vestido entrou num dos provadores da loja Bancroft, que se encontrava lotada, naquele domingo. Na mo direita, carregava um terno,
que ia experimentar, e na esquerda, uma sacola da Saks Fifth Avenue, onde levava um explosivo. Saiu do Provador cinco minutos depois, levando apenas o terno, que
devolveu ao cabideiro.
Em Dllas, uma mulher entrou num dos compartimentos do toalete de senhoras da Bancroft, carregando uma bolsa Louis Vuitton e uma Sacola da Bloomingdales. Quando
saiu, levava apenas a bolsa.
Em Chicago, um homem pegou a escada-rolante e desceu no departamento de brinquedos da Bancroft, os braos cheios de pacotes da loja Marshall Fields. Prendeu
um pacote pequeno embaixo do beiral da casa de Papai Noel, diante da qual crianas formavam uma fila, esperando para serem fotografadas com o querido velho.
No apartamento de Meredith, muitas horas depois, Matt olhou parao relgio, levantou-se e ajudou-a a juntar os restos do jantar que haviam comido diante da lareira,
aps fazerem amor novamente.
Haviam sado para testar o Jaguar e comprado a comida num restaurante italiano, voltando depressa para o apartamento, porque queriam ficar sozinhos.
Meredith acabava de pr a loua na lavadora, quando Matt abraou-a por trs, pressionando-a contra o corpo.
-Feliz? - ele quis saber, beijando-a na nuca.
-Muito.
-So dez horas.
-Eu sei - ela respondeu hesitante, sabendo o que viria a seguir.
-Minha cama  mais larga, meu apartamento maior. Posso mandar um caminho de mudanas buscar suas coisas, amanh?
Respirando fundo, ela se virou nos braos dele e pousou a mo numa das faces bronzeadas para amenizar o golpe que ia desferir.
-No posso ir com voc, Matt. Ainda no.
-No pode, ou no quer?
-No posso.
Ele moveu a cabea afirmativamente, como se concordasse, mas deixou pender os braos, soltando-a.
-Diga por que no pode.
Pondo as mos nos bolsos fundos do roupo, ela recuou um passo, suspirando.
-Para comear, na entrevista coletiva deixei Parker declarar que ele e eu nos casaramos assim que o processo de divrcio fosse concludo. Se eu for morar com
voc agora, ele ser visto como um otrio, e eu como uma idiota volvel que no sabe o que quer. Ou, pior, como uma mulher que vai com o homem que a ganhar numa
briga.
Esperou que Matt argumentasse, ou concordasse, mas ele permaneceu calado, encostando-se na mesa e cruzando os braos com ar impassvel.
Meredith percebeu que, como ele no se importava com a opinio pblica, estava achando seus argumentos irrelevantes. Decidiu, ento, apresentar outro, mais forte.
-Matt, tenho tentado no pensar nas consequncias do incidente de ontem, no restaurante, mas tenho quase certeza de que vou ser chamada perante a diretoria
para dar uma explicao. Entende o que isso significa? A Bancroft & Company  uma empresa antiga e bemconceituada, os diretores so rgidos e, para piorar, nem me
queriamna presidncia. Eu disse a eles, numa reunio, que voc e eu fomos casados, mas mal nos conhecamos, e que no havia chance de reconciliao. Se formos morar
juntos, agora, minha credibilidade como chefe da Bancroft & Company sofrer tanto como minha honestidade como pessoa. E no  s isso. Ontem, participei, na verdade
fui a causa, de uma briga em pblico, e poderamos ter sido presos, todos ns, se algum chamasse a polcia. Terei muita sorte, se a diretoria no recorrer  clusula
sobre comportamento moral que h no meu contrato, para me depor do cargo.
-O que aconteceu no  motivo para fazerem isso - Matt objetou, parecendo mais irritado do que alarmado.
-Mas podem fazer e talvez faam.
-Se eu fosse voc, mudaria o quadro de diretores.
-Bem que eu gostaria! - ela exclamou com um sorriso desanimado.
-Sua diretoria faz o que voc quer, ou estou enganada?
-Faz.
Ela suspirou.
-Infelizmente, nem meu pai, nem eu, temos o poder de controlar a nossa. Mas a questo principal  que sou mulher, jovem, e os diretores no gostaram nada de
me ver como presidente interina. Entende por que estou preocupada com o que eles possam pensar de tudo isso?
-Eles s devem importar-se em saber se voc  competente, ou no. E voc . Se a chamarem para uma explicao ou se quiserem tir-la do cargo, no fique na
defensiva. Ataque. Voc no trafica drogas, nem dirige uma casa de prostituio. S assistiu a uma briga num local pblico.
-Era isso que voc diria? Que no  traficante, nem dono de bordel?-ela perguntou, fascinada por seu modo de pensar.
-No. Eu diria a eles que fossem se foder - respondeu Matt bruscamente.
Meredith conteve uma risada, imaginando-se na frente de doze homens conservadores, mandando-os fazer tal coisa.
-No est sugerindo que eu diga isso, est? - perguntou com um sorriso.
Matt continuou srio.
-Estou. Pode mudar as palavras, se achar necessrio, mas o fato  que voc no pode viver em funo de outras pessoas. Quanto mais tentar, mais restries elas
iro impor, s pelo prazer de v-la saltando os obstculos.
Ela sabia que ele estava certo, de modo geral, mas no naquela situao.
No estava disposta a incorrer na ira da diretoria e, alm disso no queria precipitar-se, tomando imediatamente a deciso de ir morar com Matt. Amava-o, mas
os dois ainda eram estranhos, em muitos aspectos. No estava pronta para entregar-se por inteiro. Antes, precisava certificar-Se de que o paraso que ele lhe prometera
realmente existia.
Olhou para Matt e teve a impresso de que ele suspeitava que ela protelava deliberadamente o momento de concordar em segui-lo.
-Mais cedo ou mais tarde, Meredith, voc vai ter de assumir o risco e confiar em mim, sem reservas - ele declarou, confirmando o que ela pensara. - Enquanto
isso no acontecer, estar me enganando e enganando a si mesma. No pode ser mais esperta do que o destino e ficar em cima do muro, fazendo pequenas apostas sobre
os rumos da vida. Ou entra no jogo e aposta tudo, ou no joga, mas, se no jogar, no poder ganhar.
Uma filosofia muito bonita, Meredith pensou, mas tambm assustadora. E mais adequada para Matt do que para ela.
-Eu posso apostar, mas primeiro preciso de um tempo para me acostumar com o jogo - informou.
-Quanto tempo?
-Um pouquinho mais.
-E o que devo fazer, enquanto voc se acostuma? Ficar esperando, temendo que seu pai induza voc a prosseguir com o processo de divrcio, em vez de ir viver
comigo?
-Tenho muita coragem para enfrentar meu pai, quer ele se modifique e veja as coisas do nosso ponto de vista, ou no. Se ele no se intrometer mais, Matt, voc
far um esforo para toler-lo? Por mim?
Ela esperou por uma resposta afirmativa, mas julgara mal a profundidade do dio de Matt.
-Seu pai e eu temos velhas contas a acertar - ele respondeu. E o acerto vai ser feito do meu jeito.
-Meu pai est doente, Matt - ela argumentou. - No pode suportar muita presso.
-Tentarei me lembrar disso - ele replicou e mudou de assunto, sorrindo ligeiramente: - Quem vai dormir onde, hoje?
-Acha que os reprteres ainda esto l embaixo?
-Talvez um ou dois, mais tenazes do que os outros. Meredith mordeu o lbio, detestando a ideia de v-lo ir emboramas sabendo que ele no devia ficar.
-Ento, no poder passar a noite aqui, no ?
-Evidente que no. S me resta ir para casa e dormir sozinho, como castigo por ter me portado como um moleque, metendo-me naqquela briga. Falando nisso, gostaria
que soubesse que, apesar de eu ter dito algo que fez Parker querer me esmurrar, no o ataquei. Estava olhando para voc e desferi aquele soco instintivamente, quando,
pelo canto dos olhos, vi um punho fechado vindo em minha direo.
Meredith conteve um estremecimento, pensando na rapidez, na brutalidade com que ele derrubara Parker, em seu olhar selvagem, naquela frao de segundo em que
percebera que estava sendo atacado. Afastou o pensamento, refletindo que Matt no era, nem nunca seria, igual aos homens refinados e tediosos que ela conhecia. Crescera
num ambiente que exigia dureza e tornara-se duro. Mas no com ela. Com um sorriso, estendeu a mo e afastou-lhe da testa os cabelos escuros.
-Se pensa que sorrindo desse jeito pode me fazer concordar com quase tudo o que diz, est certa - ele admitiu. - No entanto, embora esteja disposto a ser discreto
sobre nosso relacionamento, exijo que passe comigo o maior tempo possvel, inclusive algumas noites inteiras. Vou providenciar para que voc possa entrar no meu
prdio e tambm usar uma vaga na garagem a qualquer hora. Se for preciso, ficarei na rua, distraindo os reprteres, enquanto voc entra.
-Faria mesmo isso? - ela perguntou com uma risadinha. Em vez de rir, Matt puxou-a para si num abrao apertado.
-No imagina o que eu seria capaz de fazer por voc - respondeu. Beijou-a de modo violento e consumidor, roubando-lhe o flego e a capacidade de raciocinar.
Quando o beijo acabou, ela estava agarrada a ele.
-Apesar de voc estar quase to infeliz quanto eu por no podermos ficar juntos at de manh, vou embora, antes que os reprteres decidam ir dormir e inventem
que passei a noite aqui.
Meredith acompanhou-o at a porta, frustrada. O beijo de despedida despertara novamente o desejo, e no havia nada que ela quisesse mais do que dormir nos braos
de Matt.
-Alguma coisa a perturba? - ele indagou, depois de pr a gravata e vestir a jaqueta.
Ela no respondeu com palavras. Pegou-o pela gravata e obrigou-o a curvar a cabea. Ento, pondo-se na ponta dos ps, abraou-o pelo pescoo e beijou-o com paixo.
Assim que ficou sozinha, fechou a porta, sorrindo sonhadoramente. Seus lbios estavam sensveis, magoados pelo ltimo beijo desenfreado. Ela se olhou no espelho
do vestbulo, vendo que os cabelos tombavamrevoltos ao redor do rosto, e que as faces coradas pareciam brilhar. era o reflexo de uma mulher que fizera amor at
saciar-se.
Recordou as palavras que Matt sussurrara, possuindo-a, e teve impresso de ouvir novamente a voz profunda dizendo em seu ouvido. Amo voc. Nunca deixarei que
algum a machuque.
Sessenta quilmetros ao norte de Belleville, Illinois, uma viatura policial brecou abruptamente atrs das outras j paradas ao longo de um pequeno bosque na
margem de uma estradinha isolada. A luz cegante do holofote de um helicptero iluminava o caminho das equipes de busca, movendo-se sem cessar sobre os pinheiros.
Numa vala rasa junto  estrada, o mdico-legista encontrava-se ajoelhado ao lado do corpo de um homem de meia-idade.
-Est perdendo tempo com essa busca, Emmett - disse ao xerife, gritando para se fazer ouvir acima do barulho do helicptero. - Nem mesmo durante o dia voc
encontraria pistas, porque no h nenhuma. Este cara foi atirado para fora de um carro em movimento e rolou para a valeta.
-Engana-se! - gritou o xerife em tom triunfante, dirigindo o facho de luz da lanterna para um objeto cado na vala.
-Uma ova! - replicou o legista. - Estou dizendo que moeram o sujeito de pancadas e depois o jogaram para fora de um veculo em movimento.
-No estou falando disso, mas de pistas. Encontrei uma carteira-explicou o xerife.
-Dele?
O xerife abaixou-se, pegou a carteira e abriu-a.
-Vamos ver.
Iluminou a foto na carta de habilitao e, indo at o cadver, puxou o cobertor para baixo para olhar o rosto.
- dele, sim. O cara tinha um nome estrangeiro, daqueles que a gente quase no consegue pronunciar. Stanislaus Spy-Spyzhalski.
-Nossa! - exclamou o legista. - No  aquele advogado falso que prenderam em Belleville?
-Por Deus, homem! Bem lembrado!  ele mesmo!


#49


Com a pasta na mo e o sobretudo no brao, Matt parou junto da escrivaninha da secretria que o ajudara a arrumar a sala de reunies no dia da visita de Meredith.
-Bom dia, sr. Farrell - a moa cumprimentou-o em tom hostil. Aborrecido, Matt decidiu que mandaria que a transferissem para outro andar, desistindo de perguntar
como fora o final de semana dela, como pretendera.
-Eleanor Stern ligou para minha casa, bem cedo, avisando que no est se sentindo bem. Quero que a substitua.
-Claro - afirmou Joanna Simons, dirigindo-lhe um sorriso to brilhante, que Matt julgou ter se enganado sobre seu tom de voz, quando o cumprimentara.
Assim que ele desapareceu, entrando no escritrio, ela correu para a mesa da recepcionista.
-Vai, voc guardou o nome e o nmero de telefone daquele reprter do Tattler? - perguntou num cochicho. - Aquele que queria informaes sobre Farrell?
-Guardei, por qu?
-Porque Farrell acabou de me convocar para substituir a coruja velha, hoje. Diga de novo o que era que aquele reprter queria saber.
-Perguntou o que achvamos de Matthew Farrell e respondi que no o suportvamos. Depois, quis saber se Meredith Bancroft ligava para ele ou vinha aqui, e estava
interessado em descobrir se os dois so to amigos como fizeram crer na entrevista coletiva. Eu disse que ela no telefonava e que veio aqui s uma vez para uma
reunio com Farrell e trs advogados. Perguntou se ficou mais algum na sala e eu respondi que a coruja estava, certamente anotando tudo o que acontecia.
Pediu para eu dar um jeito de pegar as anotaes e entregar a ele prometendo que me pagaria, mas no disse quanto.
-Isso no tem importncia. Eu faria o servio de graa - Joanna declarou com raiva. - Farrell ter de abrir as gavetas do morcego velho para eu poder trabalhar.
Talvez abra tambm as do arquivo. As anotaes devem estar numa delas.
-Se quiser minha ajuda,  s pedir - Valerie ofereceu-se. Quando Joanna entrou na sala de Eleanor Stern, viu que Farrell j abrira as gavetas da escrivaninha,
mas que as do arquivo continuavam fechadas. Depois de uma busca cuidadosa, constatou que as anotaes no se encontravam em lugar nenhum da escrivaninha.
-Droga! - murmurou, girando a cadeira para olhar atravs da porta que ligava o escritrio ao de Farrell.
Ele estava de p, diante do monitor de um dos computadores na bancada atrs de sua mesa. Olhando-o, Joanna refletiu que odiava aquele bruto que nem conseguira
memorizar seu nome, que despedira os antigos chefes e mudara toda a estrutura de salrios e frias dos empregados.


    -Bom dia! - Phyllis cantarolou, seguindo Meredith, que se dirigia para seu escritrio. - Como foi o fim de semana? Ah, desculpe.
Calou-se, mortificada, naturalmente porque tambm ficara sabendo do escndalo no Manchester House. Mas Meredith estava feliz demais e no se sentiria melindrada,
mesmo que quisesse.
-Como voc acha que foi? - perguntou com um sorriso, pondo a pasta na mesa e comeando a abri-la.
-Excitante - a secretria arriscou, sorrindo tambm.
-Uma boa definio - aprovou Meredith, pensando nos momentos ardentes que passara com Matt. Ento, forou-se a focalizar a ateno no trabalho. - Algum telefonema?
-S um, de Nolan Wilder. Pediu para voc ligar assim que chegasse. Meredith sentiu-se gelar. Nolan Wilder era o presidente da mesa diretora, e com certeza queria
explicaes sobre o incidente de sbado  noite. S que o homem no podia atirar a primeira pedra, porque seu prprio divrcio, que fora litigioso, envolvendo coisas
muito feias, arrastara-se durante dois anos no tribunal, antes de ser concludo.
-Faa a ligao, Phyllis, por favor.
A moa saiu e, alguns segundos depois tocou o interfone.
-Wilder na linha - avisou. Meredith ergueu o telefone.
-Bom dia, Nolan - saudou-o em tom claro e firme. - O que aconteceu?
-Eu  que devo perguntar isso - ele respondeu em tom irnico. - O domingo todo, recebi telefonemas de diretores que queriam explicaes sobre o que aconteceu
no sbado. Devo lembr-la, Meredith, que a imagem da Bancroft e a dignidade desse nome so a base de nosso sucesso.
-Duvido que precise me lembrar disso - ela respondeu, tentando parecer mais divertida do que zangada. - E - Interrompeu-se, quando Phyllis entrou correndo.
-Chamada de emergncia de Maclntire, da loja de Nova Orleans, na linha dois.
-Aguarde, Nolan - Meredith pediu. - Recebi uma chamada urgente.
-Outra ameaa de bomba, Meredith - Adam Maclntire anunciou assim que ela atendeu. - A polcia recebeu um telefonema annimo, minutos atrs. O informante disse
que a bomba explodir daqui a seis horas. Mandei evacuarem a loja, e o esquadro especial j est a caminho. Acho que a pessoa que telefonou  a mesma da outra vez.
-Provavelmente. Assim que for possvel, faa uma lista de todos os que podem ter algum interesse em nos prejudicar, ladres apanhados pelos seguranas, pessoas
a quem negamos crdito. Mark Braden, que dirige nosso departamento de segurana, ir para a amanh para trabalhar com seu pessoal. E saia da loja tambm. Pode no
ser um trote.
-Certo.
-Telefone de onde voc estiver, quando sair da, e me d um nmero que eu possa chamar para manter contato.
-Certo - ele repetiu. - Sinto muito, Meredith. No posso entender por que escolheram esta loja como alvo de atos terroristas. Ns
-Adam, saia j da!
-Estou saindo - ele disse e desligou.
Meredith apertou a tecla da linha um para voltar a falar com Nolan.
-Agora no tenho tempo para falar de uma reunio com a diretoria - declarou. - H outra ameaa de bomba na loja de Nova Orleans.
-Isso vai fazer o diabo com os lucros do Natal - ele comentou, furioso. - Mantenha-me informado, Meredith. Sabe onde me encontrar.
Ela engrolou uma afirmativa e desligou.
-Mande o operador do sistema de chamados acionar o cdigo de emergncia - instruiu, olhando para Phyllis, que ficara parada na porta, olhando-a com ar assustado.
- E segure todos os telefonemas, menos os realmente importantes, que voc deve transferir para a sala de reunies.
A secretria saiu, e ela se levantou, comeando a andar de um lado para o outro, dizendo a si mesma que era outro alarme falso. O sinal de emergncia j soava
atravs do sistema de comunicao, trs toques curtos e trs longos, avisando todos os chefes de departamentos de que deviam dirigir-se imediatamente  sala de reunies.
O cdigo de emergncia fora usado pela ltima vez dois anos antes, quando um cliente tivera um infarto e morrera na loja. A razo para us-lo, convocando os chefes,
era dar informaes corretas, de modo que fossem evitados rumores histricos entre os empregados.
Meredith no suportava encarar a possibilidade de que uma bomba pudesse explodir na loja de Nova Orleans e ferir pessoas, at mesmo matar. A ideia de uma exploso
depois que a loja ficasse totalmente vazia era menos horripilante, mas terrvel, de qualquer modo. A loja era linda, elegante e nova. Meredith visualizou-a, brilhando
ao sol, majestosa em sua brancura, e depois explodindo e desabando. Estremeceu, nauseada. No, no podia ser verdade. Tinha de ser alarme falso.
Os executivos comearam a passar correndo diante de sua porta, dirigindo-se  sala de reunies, mas Mark Braden, de acordo com o procedimento estabelecido, entrou
no escritrio.
-O que est acontecendo, Meredith?
Ela contou, e ele xingou baixinho, com irada consternao.
-Vou pegar um avio para l o mais cedo possvel. O chefe de segurana daquela loja  competente. Ns dois trabalharemos com a polcia, e talvez possamos encontrar
alguma coisa que aponte para um suspeito.
A atmosfera na sala de reunies, lotada, estava pesada de tensa curiosidade. Em vez de sentar-se  mesa, Meredith colocou-se no centro do recinto, de onde poderia
ser vista por todos os homens e mulheres ali reunidos. Contou o que se passava em Nova Orleans e avisou que seriam assediados por reprteres, mas que ningum deveria
fazer o menor comentrio a respeito do assunto.
-Ben, ns dois redigiremos uma declarao para a imprensa disse, dirigindo-se ao chefe de relaes pblicas e
O telefone na mesa de reunies tocou, interrompendo-a, e ela foi atender. Era o gerente da loja de Dllas.
-Recebemos um aviso de que h uma bomba na loja, Meredith
-o homem gritou, frentico. - O informante disse  polcia que vai explodir dentro de seis horas! Estamos evacuando a loja, e o esquadro contra bombas j est
vindo para c.
De maneira automtica, Meredith deu-lhe as mesmas instrues quedera ao gerente da loja de Nova Orleans e desligou. Por um instante, ficou como que entorpecida,
ento obrigou-se a encarar o grupo.
-Outra ameaa de bomba - anunciou. - Na loja de Dllas. Como aconteceu em Nova Orleans, foi um annimo que informou a polcia, dizendo que a exploso seria
dentro de seis horas.
Um coro de exclamaes e improprios elevou-se no ar e silenciou de repente, quando o telefone tornou a tocar. Com o corao aos saltos, Meredith atendeu.
-Alo.
-Srta. Bancroft, sou o capito Mathison, do Primeiro Distrito de Chicago. Acabamos de receber um telefonema annimo, e o homem disse que uma bomba foi colocada
em sua loja e que explodir dentro de seis horas.
-Espere um momento, por favor - ela pediu. Estendeu o telefone para Mark Braden, explicando: -  o capito Mathison.
Ficou esperando, paralisada de fria e agonia, enquanto Mark fazia perguntas a Mathison, a quem conhecia bem.
Assim que desligou, ele virou-se para o grupo silencioso.
-Senhoras e senhores, h a possibilidade de haver uma bomba nesta loja - disse com voz distorcida pela raiva. - Usaremos o mesmo mtodo usado para incndios.
Sabem o que fazer e o que dizer a seu pessoal. Vamos comear a tirar todo o mundo daqui. - Encarou Gordon Mitchell, que comeara a resmungar descontroladamente.
- Voc est em pnico, mas contenha-se at que seu pessoal tenha sado!
Olhou os rostos tensos e fez um gesto de cabea, deixando a sala para dar instrues aos seguranas, que organizariam a evacuao da loja.
Dez minutos depois, Meredith era a nica pessoa naquele andar. Parada junto  janela do escritrio, ouvia os uivos das sirenes e observava a chegada de mais
cinco caminhes do esquadro especial, que se juntaram s viaturas j paradas na avenida Michigan. Policiais estendiam cordes de isolamento ao redor do prdio,
e os clientes saam da loja aos bandos. O aperto que ela sentia no peito intensificou-se de tal forma que a respirao tornou-se difcil. Embora houvesse ordenado
aos dirigentes das duas outras lojas que sassem imediatamente, no tinha a mnima inteno de fazer o mesmo, at que fosse absolutamente Necessrio. A loja era
sua vida, sua herana, seu futuro, e ela no a abandonaria precipitadamente. Nem por um momento acreditara nas ameaas, mas, mesmo que ficasse provado que no havia
nenhuma bomba, tanto naquela loja como nas outras, os prejuzos seriam grandes.
Como a maioria das lojas de departamentos, a Bancroft dependia da poca do Natal para garantir mais de quarenta por cento das vendas anuais.
-Vai acabar tudo bem - disse a si mesma em voz alta.
Caminhou at um dos computadores na bancada e digitou um cdigo. Na tela apareceram nmeros que comparavam o volume de vendas das lojas de Phoenix e Palm Beach
com o do mesmo dia no ano anterior. Os dois estabelecimentos estavam indo muito melhor do que um ano atrs, e isso deu-lhe algum consolo.
De repente, ocorreu-lhe que Matt podia ficar sabendo do que estava acontecendo e preocupar-se. Pegou o telefone e ligou para ele.
Matt no sabia de nada e ficou alucinado, quando ela lhe contou.
-Saia j da, Meredith - ordenou. - Desligue, querida, e saia correndo.
-De jeito nenhum - ela respondeu suavemente. -  alarme falso, Matt, como o de algumas semanas atrs.
-Se no sair desse prdio, eu mesmo irei a e a carregarei para fora - ele ameaou em tom autoritrio.
-No posso abandonar a loja. Sou como um capito de navio, que s o deixa depois que todo o mundo est em segurana. - Parou de falar por um momento, ouvindo-o
praguejar contra sua teimosia. No me d ordens que voc mesmo no seguiria. Em menos de meia hora o prdio estar vazio, ento sairei.
Matt bufou, mas parou de tentar dissuadi-la, porque sabia que seria intil. E, por causa do trnsito infernal, no poderia chegar  Bancroft em menos de trinta
minutos para tir-la de l  fora.
-Tudo bem - rendeu-se. - Mas prometa que me telefonar assim que sair, porque no vou ter sossego, enquanto no souber que est segura.
-Prometo - ela murmurou, ento acrescentou em tom de brincadeira: - Meu pai deixou o celular no escritrio e vou lev-lo comigo. Quer o nmero, para o caso
de o suspense tornar-se insuportvel?
- claro que quero!
Meredith abriu uma gaveta da escrivaninha, tirou o telefone e olhou o nmero, que passou para ele.
Assim que acabaram de conversar, Matt comeou a andar na sala como fera enjaulada, agitado demais para ficar sentado, esperando que ela desse notcias. Foi at
a parede formada por janelas de vidro e tentou em vo distinguir o topo do prdio da Bancroft no amontoado de arranha-cus. Refletiu que, se tivesse um rdio, poderia
acompanhar os acontecimentos, no s na loja de Chicago como nas outras tambm. Lembrou-se, ento, que Tom Anderson tinha um em seu escritrio.
Afastando-se depressa da janela, foi para a sala da secretria.
-Vou falar com Tom Anderson - informou  moa. - Ramal quatro, um, um, quatro. Se Meredith Bancroft telefonar, passe a chamada para l. Fui claro?  uma emergncia
- concluiu, desejando desesperadamente que Eleanor Stern estivesse ali.
-Perfeitamente claro, senhor - ela respondeu com hostilidade. Matt, porm, nem percebeu, preocupado como estava com Meredith.
To preocupado, que esqueceu de tirar a chave da fechadura da gaveta da escrivaninha, presa num chaveiro juntamente com as do arquivo.
Joanna esperou at que a porta do elevador se fechasse atrs dele e correu para o outro escritrio, onde viu o chaveiro pendendo da fechadura da gaveta. Pegou-o
e voltou para sua sala. A terceira chave que experimentou destrancou o arquivo. Ela no demorou para encontrar a pasta com o nome de Meredith Bancroft. Nervosa,
com as mos midas de suor, puxou-a para fora e abriu-a. Dentro, havia algumas anotaes escritas  mo e um contrato de duas pginas assinado por Meredith Bancroft.
Joanna arregalou os olhos e sorriu com maldosa satisfao, quando leu os termos. O homem que a revista Cosmopolitan chamara de um dos mais cobiados solteires
do pas, que saa com top models, princesas e atrizes famosas, oferecera  prpria esposa a quantia de cinco milhes de dlares, s para que ela concordasse em
encontrar-se com ele quatro vezes por semana, durante onze semanas! Tambm comprometera-se a vender-lhe um terreno que obviamente ela queria desesperadamente.



    -Preciso de seu rdio - Matt avisou sem prembulos, entrando no escritrio de Tom Anderson. Viu o aparelho no parapeito da janela, foi at l e ligou-o. - A
Bancroft est sob ameaa de uma bomba explicou. - E Meredith recusa-se a deixar o prdio.
-Meu Deus! - exclamou o outro homem, levantando-se da cadeira giratria. - Por qu?
Pouco depois, um telefonema de Meredith foi transferido para o escritrio de Tom, e ela disse que j sara do edifcio. Os dois ainda conversavam, quando o locutor
da rdio anunciou uma edio extraordinria de notcias e informou que fora encontrada uma bomba na loja de Nova Orleans, e que o esquadro especializado estava
tentando desarm-la. Matt contou isso a Meredith.
Uma hora depois, outra bomba foi descoberta na filial de Dllas e, em seguida, mais uma, no departamento de brinquedos da loja de Chicago.



#50

Parado diante do porto de ferro, Philip Bancroft ficou olhando para a vila simples e pitoresca, onde Caroline Edwards Bancroft morava havia quase trinta anos.
No topo de uma colina rochosa, a casa dominava o porto, l embaixo, onde o navio em que ele viajava fundeara no incio da manh. Flores coloriam canteiros bem-cuidados
e desabrochavam em grandes vasos. A cena, banhada pelo sol de fim de tarde, tinha uma aura de beleza e serenidade, e Philip achou difcil imaginar sua frvola ex-esposa
vivendo naquela relativa recluso.
Ela ganhara a propriedade de Dominic Arturo, o italiano com quem tivera um caso antes de casar-se, e devia ter gasto at o ltimo centavo do que recebera por
ocasio do divrcio, para sujeitar-se a viver ali. Caroline recebia dividendos do grande lote de aes da Bancroft & Company que possua, mas havia uma clusula
que a proibia de vend-las ou transferi-las para qualquer pessoa que no fosse Philip. Tinha o direito de votar, como qualquer outro grande acionista, e votava,
mesmo  distncia, sempre de acordo com as recomendaes da diretoria. Disso Philip tinha certeza, porque no correr dos anos fizera questo de observar como Caroline
usava seus votos.
Ainda olhando para a residncia, ele deduziu que ela estava sendo obrigada a viver apenas dos dividendos, pois de outra forma no se isolaria daquele modo. Com
um suspiro, refletiu que no tencionara ir at l, e que a ideia germinara quando a estpida esposa do senador perguntara-lhe se ele visitaria a ex-mulher. Uma vez
germinada, no permitira que ele a ignorasse, levando-o a considerar que estava muito mais velho e no sabia quanto tempo ainda viveria. De repente, parecera-lhe
algo bom fazer as pazes com a mulher que um dia amara. Ela fora uma adltera, e ele a castigara, mantendo-a longe da nica filha e forando-a a concordar em nunca
procur-lo ou a Meredith. Na pocaisso parecera justo. Agora, sabendo que a morte podia chegar a qualquer momento, achava que fora um pouco cruel. Talvez.
No entanto, depois de ver o modo simples como Caroline vivia, desistiu da ideia de entrar no ptio alm do porto e bater na porta da casa. Por mais estranho
que fosse, o motivo disso era compaixo. Sabia que a ex-mulher era excessivamente vaidosa e que sofreria um rude golpe, se ele a visse levando uma vida to pouco
atraente. Sempre que pensara em Caroline, durante todos aqueles anos, imaginara-a vivendo em grande estilo, ainda linda e levando intensa vida social, algo que sempre
adorara. Mas a mulher que morava ali com certeza transformara-se numa bruxa ermit, no tendo mais nada para fazer a no ser observar os navios entrando e saindo
e comprar o necessrio na minscula aldeia ao redor do porto.
Curvando os ombros sob o peso de uma sensao de tristeza pelos sonhos esquecidos e vidas estraalhadas, Philip virou-se para a trilha que contornava a colina
e descia para o porto.
-Veio de muito longe, Philip, para agora ir embora sem falar comigo. Ele se virou bruscamente ao ouvir a voz inesquecvel e viu Carolineparada sob uma rvore
na encosta do outro lado, com uma cesta de flores pendurada no brao.
Ela comeou a andar em sua direo com passadas longas e graciosas, os cabelos loiros presos num leno de camponesa. No estava usando o mnimo trao de maquilagem,
parecia muito mais velha e, de alguma maneira, mais bonita. O desassossego que sempre houvera em seu rosto desaparecera, e em seu lugar surgira uma serenidade que
ela nunca possura na juventude. Lembrava muito Meredith, e suas pernas ainda eram fantsticas.
Ele encarou-a, quando ela parou a sua frente, sentindo o corao bater mais rpido, sem saber o que dizer.
-Voc est mais velha - disse por fim, tolamente. Ela riu de modo suave, no demonstrando rancor.
-Que comentrio gentil, Philip.
-Eu estava aqui perto - ele informou constrangido, fazendo um gesto de cabea para o lado do porto.
-O que foi que conseguiu arrancar voc da loja? - ela perguntou, Pondo a mo no porto, mas sem abri-lo.
-Uma licena para tratamento de sade. Meu corao no anda bom.
-Eu sei que esteve doente. Ainda leio os jornais de Chicago.
-Posso entrar? - Philip perguntou sem querer, ento lembrou-sede que sempre havia algum homem perto dela. - Ou est esperando alguma visita? - acrescentou
com indisfarado sarcasmo.
- bom saber que, enquanto tudo e todos no mundo mudam, voc continua o mesmo, ciumento e cheio de suspeitas como sempre.
Ela abriu o porto, e os dois subiram a alameda. O piso da sala era de pedras, mas havia tapetes coloridos, espalhados harmoniosamente, e o ambiente era alegrado
por vasos com flores do jardim
-Sente-se - disse Caroline, apontando para uma das poltronas
-Gostaria de tomar alguma coisa?
-Gostaria, sim - ele respondeu, mas no se sentou.
Foi at uma grande janela e ficou olhando para fora, at que foi obrigado a virar-se para pegar o copo de vinho que ela lhe oferecia.
-Voc est bem? - perguntou, desajeitado.
-Muito bem, obrigada.
-Acho estranho Arturo no lhe ter dado algo melhor do que isto. Esta casa  um pouco maior do que um chal de montanha.
Caroline no replicou, e, irritado, Philip sucumbiu  tentao de mencionar o ltimo amante dela, aquele que causara o divrcio.
-Spearson no conseguiu subir um degrau na vida. Sabia disso, Caroline? Ainda treina cavalos e d aulas de equitao.
De modo inacreditvel, ela sorriu e, indo at uma mesa de canto, onde deixara a garrafa e os copos, serviu-se de vinho. Em silncio, tomou um gole, os grandes
olhos azuis fitando Philip por cima da borda.
Desconcertado, sentindo-se um perfeito tolo, ele sustentou-lhe o olhar.
-Vejo que no perdeu a mania de me ofender - ela observou depois de um longo momento. - Continua a me jogar no rosto deslizes imaginrios.  espantoso notar
que eles ainda o perturbam, depois de quase trinta anos.
Respirando fundo, Philip inclinou a cabea para trs e exalou o ar num suspiro ruidoso.
-Desculpe - pediu com sinceridade. - No sei por que a agredi. O que voc faz no  de minha conta.
Ela dirigiu-lhe um sorriso sereno.
-Voc me agrediu porque continua ignorando a verdade.
-Que verdade? - ele perguntou com sarcasmo.
-No foi Dennis Spearson quem arruinou nosso casamento, Philip nem Dominic Arturo. Foi voc. Nunca deixou de ser um garotinho assustado, que morre de medo que
algum roube suas coisas e as pessoasde quem gosta. Mas no fica esperando, impotente, pelos acontecimentos. Fora as coisas a acontecer, para, ento, odiar e sofrer.
Comea impondo restries insuportveis s pessoas a quem ama e, quando elas desobedecem, sente-se trado e fica furioso. Ento, se vinga, punindo-as pelos erros
que as forou a cometer. Como no  realmente um menino, mas um homem rico e poderoso, sua vingana contra imaginrios culpados  terrvel. Seu pai fez a mesma coisa
com voc.
-De onde tirou essas baboseiras de psicologia barata? Teve caso com algum psiquiatra?
-No. Li muitos livros a respeito, tentando entender o que aconteceu entre ns - ela respondeu calmamente.
-Quer que eu acredite que essa bobagem que disse foi a causa de nosso rompimento? Que voc era inocente, e que eu era doentiamente ciumento e possessivo?
-Contarei toda a verdade, se voc achar que est bastante bem para me ouvir.
Ele franziu a testa, confuso com a calma e a beleza do sorriso gentil de Caroline. Aos vinte anos ela fora maravilhosa. Aos cinquenta, com algumas linhas ao
redor dos olhos e na testa, mostrava um rosto que tinha personalidade, ainda mais atraente. E desarmadora.
-Conte o que acha que  a verdade - Philip concedeu secamente.
-Est bem. - Ela deu alguns passos e parou no muito longe dele. - Vamos ver se j  maduro e sensato o suficiente para acreditar. Tenho um pressentimento de
que acreditar.
-Por qu?
-Porque vai perceber que no tenho nada a ganhar, ou a perder, contando tudo a voc - respondeu Caroline, aproximando-se da janela.
-Acha que tenho?
-Suponho que no - ele admitiu depois de alguns instantes.
-Ento, aqui vai a verdade. Quando nos conhecemos, fiquei fascinada por voc, que no era um daqueles homens falsificados de Hollywood, e muito diferente de
todos os que eu conhecera fora do mundo do cinema. Voc tinha boa aparncia, educao, classe e estilo. Apaixonei-me no segundo encontro, Philip. Amava-o tanto,
era to insegura, sentia-me to inferior, que mal podia respirar, quando estvamos juntos, com medo de cometer algum erro. Em vez de ser sincera e contar a verdade
sobre meu passado e os homens com quem j dormira, contei a histria inventada pelo estdio, de queeu cresci num orfanato e tive apenas um caso, quando ainda era
uma adolescente boba.
Caroline fez uma pausa, mas Philip no disse nada.
-Na verdade, minha me foi uma prostituta, que nem sabia quem era meu pai - ela continuou. - Fugi de casa, quando tinha dezesseis anos, fui para Los Angeles
e arrumei emprego num restaurante de segunda categoria. Foi l que um mensageiro de uma companhia de cinema me descobriu, e fiz um teste com ele, no sof do escritrio
de seu chefe. Duas semanas depois, fui apresentada a esse chefe e fui testada, do mesmo jeito. Eu no sabia atuar, mas era fotognica, e o homem mandou-me para uma
agncia de modelos, onde comecei a ganhar dinheiro posando para anncios de revistas. Entrei numa escola de atores e consegui alguns pequenos papis em filmes, naturalmente
depois de dormir com algum. Com o tempo, deram-me papis melhores, e, ento, conheci voc.
Parou de falar novamente, permitindo que Philip se manifestasse.
-Sei de tudo isso, Caroline - ele declarou. - Mandei investigar sua vida, um ano antes do divrcio. No est me dizendo nada que eu no tenha descoberto ou
adivinhado.
-Ainda no, mas vou dizer. Quando nos conhecemos, eu j adquirira alguma autoconfiana e um pouco de amor-prprio, de modo que no ia mais para a cama com homens
s porque era fraca demais para dizer no.
-Voc ia porque gostava! - ele exclamou com desprezo. - Foi com centenas deles!
-Centenas, certamente no - ela protestou com sorriso triste. Mas com muitos. Fazia parte da profisso, algo assim como os apertos de mos que os homens trocam
no mundo dos negcios.
No se abalou, quando viu Philip torcer os lbios num trejeito de repugnncia.
-Quando me apaixonei por voc, senti vergonha, pela primeira vez na vida, do que eu era e das coisas que fizera - prosseguiu. Ento, tentei anular meu passado,
inventando outro que satisfizesse seus padres, o que foi um esforo intil.
-Intil - ele concordou.
-Mas eu podia mudar o presente, e foi o que fiz - ela declarou com um olhar tranquilo que confirmava a sinceridade em sua voz.
-Philip, nenhum homem me tocou, depois do dia em que nos conhecemos.
-No acredito! - ele gritou. Caroline, porm, apenas sorriu.
-Tem de acreditar, porque j concordou em que no vou ganhar absolutamente nada, mentindo para voc. Que motivo eu teria para me humilhar deste modo? Pensei
que pudesse apagar meu passado sujo, vivendo um presente limpo. Meredith  sua filha, Philip. Sei que pensou que ela fosse de Dominic, ou de Dennis Spearson, mas
tudo o que fiz com Dennis foi aprender a cavalgar. Todas as mulheres de seu crculo social sabiam montar, e eu queria ser igual a elas, de modo que decidi tomar
aulas s escondidas.
-Foi essa a mentira que me contou, na poca.
-No, meu amor - ela respondeu sem pensar. - Era a verdade. No vou mentir, dizendo que no tive um caso com Dominic, mas foi antes de conhecer voc. Ele me
deu esta casa para resgatar-se do erro estpido que cometeu, aquela vez em que estava embriagado e voc o pegou
-Eu voltei mais cedo de uma viagem de negcios e peguei o miservel em nossa cama!
-Mas eu no estava l com ele! - ela replicou. - E Dominic estava quase desmaiado, de to bbado!
-No, voc no estava com ele - Philip concordou sarcasticamente.
-Fora encontrar-se com Spearson, deixando a casa cheia de hspedes, que ficaram comentando sua ausncia.
Para sua surpresa, ela riu.
-No  irnico que eu nunca tenha sido apanhada numa mentira a respeito do meu passado? Quero dizer, o mundo todo acreditou que eu era rf e que, como num
conto de fadas, alcanara o sucesso. E os casos que tive antes de nos casarmos nunca foram divulgados. - Caroline abanou a cabea, e os cabelos pesados, cortados
na altura dos ombros, brilharam  luz do sol poente. - Fui absolvida, quando era culpada, mas quando estava inocente, voc me condenou. Acho que podemos chamar isso
de justia potica.
Philip no sabia o que dizer, incapaz de acreditar no que ouvira, mas tambm incapaz de duvidar completamente. No fora tanto o que Caroline contara que quase
o fizera crer em sua inocncia, mas o jeito de ela encarar tudo aquilo, a serena aceitao de seu destino, a ausncia de rancor, a franqueza que brilhava nos olhos
azuis.
-Sabe por que me casei com voc, Philip? - ela perguntou, arrancando-o das reflexes.
-Talvez porque quisesse segurana financeira e prestgio so duas coisas que eu podia oferecer.
Ela riu mansamente.
-Voc se subestima. J disse que fiquei fascinada por sua aparncia e educao e que me apaixonei. Mas jamais teria me casado, se no fosse por uma coisa.
-O qu? - Philip perguntou, sem poder conter-se.
-Eu acreditava, sinceramente, que tambm tinha algo para lhe oferecer, algo de que voc precisava. Sabe o qu?
-No fao ideia.
-Achei que pudesse ensin-lo a rir e aproveitar a vida. O silncio pairou sobre eles por um longo momento.
-Voc aprendeu a rir, querido? - ela perguntou por fim.
-No me chame de querido! - ele esbravejou, mas emoes que no desejava sentir apertavam-lhe o peito. - Preciso ir.
-Eu sei. Arrependimentos so cargas pesadas. Quanto mais depressa se for, mais depressa poder convencer-se de que estava certo, trinta anos atrs. Mas, se
ficar, quem sabe o que pode acontecer?
-No aconteceria nada - ele assegurou.
-At logo, Philip. Gostaria de mandar lembranas a Meredith, mas voc no daria o recado, no ?
-No.
-Ela no precisa que eu lhe mande coisa alguma - Caroline comentou com um sorriso triste. - Por tudo o que tenho lido,  uma jovem maravilhosa. E, goste voc,
ou no, tem um pouco de mim acrescentou com orgulho. - Meredith sabe rir.
-Como assim, tudo o que tem lido? - Philip perguntou, confuso.
-Do que est falando?
Caroline fez um gesto de cabea, indicando uma pilha de jornais de Chicago, e deu uma risadinha gutural.
-Falo do modo como ela est lidando com o fato de ser casada com Matthew Farrell e estar noiva de Parker Reynolds.
-Como  que voc sabe disso? - ele indagou, empalidecendo.
-Saiu em todos os jornais.
Philip marchou para a mesinha onde ela empilhara os jornais e pegou o de cima. Seu corpo todo pareceu vibrar de fria, quando ele viu as fotos de Meredith, Parker
e Farrell na primeira pgina, juntamente com a manchete que anunciava a priso de Stanislaus Spyzhalski. Jogou o jornal no cho e pegou outro, que continha trechos
da entrevista coletiva concedida pelos trs e a foto de Farrell sorrindo para Meredith. O terceirojornal que falava da ameaa de bomba na loja de Nova Orleans,
escorregou lentamente das mos dele.
-Onze anos atrs, Farrell me avisou do que ia fazer contra mim  Philip murmurou, mais para si mesmo do que para Caroline. - E est fazendo! Onde fica o telefone?



#51

Matt j andava impaciente pelo apartamento, quando Meredith chegou, s sete da noite, com trinta minutos de atraso.
-Droga, Meredith! - reclamou, tomando-a nos braos. - Se ia se atrasar, podia ter telefonado avisando. Como posso ter sossego, com tantas bombas por a?
-Desculpe - ela pediu, parecendo exausta. - No pensei que fosse ficar imaginando tragdias.
- evidente que minha imaginao  frtil demais, quando se trata de voc - Matt comentou com um sorriso contrito.
Guiou-a at os fundos do apartamento, e subiram um lance de degraus que levava a uma sala ntima, o mais aconchegante de todos os aposentos, de onde descortinava-se
uma vista maravilhosa da cidade.
-Fiquei na delegacia quase a tarde inteira - ela contou, sentando-se num sof de couro. - Dei todas as informaes que podia para tentar ajud-los a descobrir
quem est cometendo os atentados contra as lojas. Quando cheguei em casa para me trocar, antes de vir para c, recebi um telefonema de Parker, e conversamos durante
quase uma hora.
Meredith parou de falar, lembrando-se da conversa. Nenhum dos dois comentara o fato de ele ter passado a noite com Lisa. Como Parker no mentia, a falta de explicaes
confirmou que no fora platnico o que acontecera entre eles. Antes de desligar, o ex-noivo desejara-lhe felicidades com Matt, embora parecesse duvidoso sobre se
isso seria possvel. Lamentara ter iniciado a briga, mas declarara que teria adorado acertar um soco no rosto de Matt. O resto do tempo, falara de negcios, o que
no fora agradvel nem tranquilizante para Meredith.
-Eu me distra, desculpe - ela murmurou, percebendo que se perdera em pensamentos. - Mas o dia foi estressante, do comeo ao fim.
-No quer desabafar? - Matt perguntou, sentando-se a seu lado
Meredith olhou-o, mais uma vez admirada com a aura de poder e absoluta competncia que o cercava. No entanto, aquele homem poderoso e ousado gemia de desejo
na cama, possuindo-a com desespero, e Meredith sentia-se feliz por isso, amando-o cada vez mais.
-Ou prefere esquecer esse dia horrvel? - ele perguntou, quando ela permaneceu em silncio.
-No quero sobrecarregar voc com meus problemas, Matt.
-Mas pode me sobrecarregar com outra coisa - ele informou com um sorriso sensual. - Fiquei acordado at de madrugada, imaginando voc na cama comigo. - Srio
novamente, acrescentou: - Vamos ver como foi seu dia.
Com esforo, ela se livrou das imagens erticas que as palavras dele haviam provocado.
-Na verdade,  fcil resumir os acontecimentos - preludiou, aconchegando-se contra o corpo musculoso. - O ltimo, mas no menos importante, foi que nossas aes
baixaram trs pontos, esta tarde.
-Vo voltar a subir, quando essa histria das bombas for esquecida -ele assegurou.
-Espero. De manh, o presidente da mesa diretora me ligou, dizendo que os diretores querem uma explicao sobre a briga de sbado  noite. Eu estava falando
com ele, quando recebi o aviso sobre a primeira bomba, de modo que a conversa parou por a.
-Os atentados vo distra-los por algum tempo.
-Suponho que sim - ela murmurou, desviando o olhar para a janela.
-O que mais a est perturbando? Meredith hesitou, constrangida.
-Preciso conseguir financiamento para a compra do terreno de Houston - disse aps alguns instantes. - Voc me daria mais algum tempo? Parker falou com outro
banco e estava tudo acertado, mas hoje, depois das notcias sobre as bombas, um dos diretores telefonou a Parker e disse que o emprstimo estava cancelado.
-Muita gentileza de Reynolds, jogar tudo isso em cima de voc, logo hoje - Matt observou sarcasticamente.
-Ele telefonou para saber se eu estava bem e para desculpar-se por sbado  noite. O assunto do dinheiro apareceu porque tnhamos uma reunio marcada para amanh,
para negociarmos os termos do emprstimo com o outro banco. Parker tinha de me dizer que fora tudo cancelado.
O bipe que Meredith sempre levava consigo comeou a emitir sinal e ela tirou-o da bolsa. Leu a mensagem e, com um suspiro desanimado olhou para Matt.
-Era s o que faltava para completar o dia - comentou.
-O que foi?
-Meu pai quer que eu ligue para ele, e so duas ou trs horas da madrugada, na Itlia! Ou quer apenas perguntar como estou, o que  pouco provvel, ou leu algum
jornal e ficou sabendo o que se passa aqui. Posso usar seu telefone?
Philip encontrava-se no aeroporto de Roma, esperando pelo voo que o levaria para casa, e quando sua voz explodiu no telefone, at Matt ouviu, franzindo a testa,
desgostoso, enquanto Meredith mordia o lbio nervosamente.
-Que diabo voc est fazendo, Meredith? - Philip berrou.
-Acalme-se, pai, por favor!
-Perdeu a cabea? Fica sozinha por duas semanas e comea a sair nos jornais, envolvida em escndalos, aparecendo ao lado daquele filho da puta! E o que me diz
dessa histria sobre uma bomba em nossa loja?
-No v ter um infarto por causa das bombas - ela implorou, contendo a raiva. - As trs foram encontradas e removidas. No
-Trs?! - Philip rugiu. - Trs bombas? Do que est falando?
-Pensei que soubesse.
-Sabia de uma, a de Nova Orleans. Foram trs? Quando? Onde?
-Hoje. Em Nova Orleans, Dllas e aqui em Chicago.
-As vendas
-Caram, naturalmente - ela contou, interrompendo-o. - Mas voltaro a subir. J estou organizando uma promoo especial.
-O que aconteceu com nossas aes?
-Caram trs pontos, hoje.
-E Farrell? O que est havendo entre vocs dois? Fique longe dele. Nada mais de entrevistas coletivas!
Matt ouvia a conversa sem grande esforo, porque Philip falava aos gritos. Quando Meredith no se rebelou contra as ordens do pai, ele se dirigiu s janelas
que formavam a parede e ficou olhando para fora
-Escute o que vou dizer, pai - Meredith pediu com voz suave.
-No vale a pena ficar to descontrolado e correr o risco de ter um ataque cardaco.
-No fale comigo como se eu fosse invlido - ele avisou e fez uma pausa, provavelmente para tomar um dos comprimidos de efeitoimediato que o mdico receitara.
- Estou esperando uma resposta sobre Farrell.
-Acho que no  um assunto para discutirmos por telefone. Pare de me enrolar, Meredith!
Ela refletiu que talvez fosse melhor deixar de ser to evasiva, porque incerteza era algo que o pai nunca suportara.
-Est bem. J que quer assim - Parou de falar por um momento, tentando achar a melhor forma de explicar a situao. Ento, continuou: - Sei que o senhor me
ama e que fez o que acreditou ser o melhor para mim, onze anos atrs. Estou falando do telegrama mentiroso que mandou para Matt. Sei de tudo.
-Onde voc est? - Philip perguntou, obviamente assaltado por repentina suspeita.
-No apartamento de Matt.
-Estou indo para casa - o pai disse com raiva e tambm com algo mais, que parecia pnico. - Meu avio partir daqui a trs horas. Afaste-se de Farrell. No
confie nele. Voc no conhece esse homem! E veja se impede nossa falncia, at eu chegar - finalizou com sarcasmo, desligando abruptamente.
Meredith pousou o telefone no gancho, olhando para Matt, que continuava de costas para ela em muda acusao.
-Que dia! - exclamou. - Ficou zangado, porque no fui mais clara, contando tudo sobre ns?
Sem se virar, ele esfregou os msculos da nuca.
-No estou zangado, Meredith. S estou tentando me convencer de que voc no se dobrar  vontade de seu pai, que no comear a ter dvidas, pesando os prs
e os contras de ficar comigo.
-Que bobagem  essa que voc est dizendo? - ela protestou, caminhando at ele.
Matt lanou-lhe um olhar de esguelha.
-Faz dias que tento imaginar o que Philip Bancroft far quando chegar e descobrir que voc quer ficar comigo. Agora j comeo a adivinhar.
-Repito: Que bobagem  essa?
-Seu pai vai jogar o trunfo na mesa, fazendo voc optar entre ficar comigo ou ir para o lado dele. Se o escolher, voc estar garantindo a chance de vir a ocupar
a presidncia da Bancroft & Company. - Matt suspirou. - No tenho certeza de que serei o escolhido.
Meredith estava cansada e estressada demais para lidar com um problema que ainda no aparecera.
-No creio que cheguemos a isso - declarou com sinceridad porque acreditava que poderia fazer Philip aceitar o fato de que ela amava Matt. - Sei que meu pai
vai ficar furioso e fazer um escndalo mas acabar se rendendo, porque me ama. Tenho pensado muito no que ele nos fez. Por favor, Matt, coloque-se no lugar dele.
Suponha que tivesse uma filha de dezoito anos, a quem protegesse ferozment de todas as coisas ruins, que ela conhecesse um homem muito mais velho, e que voc tivesse
todos os motivos para julg-lo um caador de fortunas. Suponha que esse homem tirasse a virgindade de sua filha e a engravidasse. Como  que voc se sentiria?
Matt ficou em silncio por alguns instantes.
-Eu o odiaria - admitiu por fim. - No entanto, daria um jeito de aceit-lo, por amor a minha filha. E estou certo de que no a faria sofrer, tramando algo srdido
para faz-la acreditar que fora abandonada. Muito menos tentaria subornar o homem para que a deixasse. - Olhou-a e sorriu, abraando-a. - Seu pai tentou, mas respondi
que ele no devia intrometer-se em nossa vida. No com essas palavras, exatamente.
Era meia-noite, quando Matt acompanhou Meredith at o carro. Exausta, aps tantas tribulaes, totalmente relaxada depois das longas horas de amor, ela se acomodou
atrs do volante do Jaguar.
-Tem certeza de que est bastante desperta para dirigir? - ele indagou, segurando a porta aberta do carro.
-O suficiente - ela respondeu com um sorriso lnguido, virando a chave na ignio.
-Vou oferecer uma festa ao elenco de O Fantasma da pera, na sexta-feira - Matt informou. - Convidei muita gente que voc conhece. Minha irm vir, e estou
pensando em convidar aquele seu advogado. Penso que os dois se daro bem.
-Se me convidar tambm, eu virei - Meredith arreliou, ligando o rdio.
-No ia convid-la.
-No? - ela murmurou, embaraada e confusa.
-Gostaria que fosse a anfitri.
Matt estava pedindo algo que constitua uma declarao quase pblica de que os dois formavam um casal.
-Traje a rigor? - perguntou.
-Claro. Por qu?
-Porque uma anfitri precisa estar vestida de acordo.
Com uma risada, Matt tirou-a do carro e abraou-a, tomando-lhe os lbios num longo beijo de gratido e alegria.
Ainda se beijavam, quando do rdio veio a notcia de que Stanislaus Spyzhalski, falso advogado, que enganara muitas pessoas, inclusive Matthew Farrell e Meredith
Bancroft, fora encontrado morto numa vala, nos arredores de Belleville, Estado de Illinois.
Ela interrompeu o beijo, olhando assustada para Matt.
-Ouviu isso?
-J tinha ouvido, antes de voc chegar - ele respondeu.
Sua total indiferena, e o fato de no ter contado a ela, pareceram um pouco estranhos a Meredith, mas o cansao a impedia de raciocinar, e a boca de Matt voltara
a apossar-se da sua.




#52


A Inquest, agncia de investigaes pertencente  Intercorp, tinha sede em Filadlfia e era dirigida por um ex-agente da CIA, Richard Olsen.
Na manh seguinte, s oito e trinta, quando Matt saiu do elevador para dirigir-se ao escritrio, encontrou Olsen a sua espera.
- bom ver voc de novo, Matt - o homem disse, quando os dois apertaram-se as mos.
-Digo o mesmo. Podia me dar cinco minutos? Antes de comearmos, preciso dar um telefonema.
Deixando Olsen na rea de recepo, Matt foi para o escritrio e fechou a porta. Sentou-se e discou o nmero privativo do presidente de um dos maiores bancos
de Chicago.
-Aqui  Matt - identificou-se, quando o banqueiro atendeu. O Reynolds Mercantile cancelou o emprstimo que faria  Bancroft & Company, exatamente como achamos
que aconteceria. Parker Reynolds arranjou para que outro banco emprestasse o dinheiro, mas esse tambm cancelou a transao.
-A economia no est muito firme, e os bancos ficaram cautelosos-o banqueiro observou. - O Mercantile sofreu um srio revs, este semestre, com a falncia
de dois clientes a quem concedera emprstimos astronmicos.
-Sei disso tudo - Matt afirmou, impaciente. - O que no sei,  se o fato de trs lojas da Bancroft & Company terem sido ameaadas com bombas vai fazer com que
o banco decida vender os emprstimos que fez  empresa por considerar arriscado mant-los.
-Devo tentar descobrir?
-Deve, hoje mesmo.
-O procedimento ser aquele que j combinamos? - o banqueiroperguntou. - Em nome da financeira Collier, compramos os emprstimos feitos  Bancroft & Company,
e voc d um jeito de tir-los de nossas mos dentro de sessenta dias?
-Exatamente.
-No far mal mencionar o nome Collier, falando com Reynolds? Ele no vai lig-lo a voc?
-Era o nome de solteira de minha me - explicou Matt. - Ningum o associar a mim.
-Se esse negcio das bombas acabar sem causar danos srios  Bancroft & Company, podemos ficar interessados em conservar os emprstimos - o banqueiro comentou.
-Discutiremos os termos, se isso acontecer - Matt afirmou, mas estava pensando em assuntos mais imediatos. - Depois que se oferecer para comprar os emprstimos,
diga a Reynolds que a Collier deseja tambm financiar o projeto da Bancroft em Houston. Pea a ele para dizer isso a Meredith Bancroft. Quero que ela saiba que conseguiu
os fundos de que precisa.
-Cuidaremos de tudo.
Assim que desligou o telefone, Matt pediu a Eleanor que fosse buscar Richard Olsen e ficou  espera, mal podendo conter a impacincia. O investigador entrou
e tirou o sobretudo, entregando-o a Eleanor, que saiu, deixando os dois a ss.
-O que a polcia sabe a respeito das bombas? - Matt perguntou, enquanto o homem ainda ajeitava-se numa das cadeiras diante da mesa.
-No muita coisa - respondeu Olsen, tirando da pasta um dossi que abriu no colo. - Mas chegou a algumas concluses interessantes, assim como eu.
-Vamos ouvi-las.
-A polcia acha que quem fez isso providenciou para que as bombas fossem descobertas antes de explodir. Essa teoria tem fundamento, porque os avisos annimos
foram feitos vrias horas antes do momento marcado para a exploso, e as bombas estavam escondidas em lugares onde foi muito fcil encontr-las. No eram bombas
caseiras, mas feitas por profissional, o que me leva a crer que no estamos lidando com um luntico que deseja vingar-se da Bancroft por alguma ofensa imaginria.
Se a polcia estiver certa, e acho que est, a inteno no era danificar as lojas, nem machucar ou matar pessoas. Resta um nico motivo lgico: algum quer prejudicar
as vendas, assustando os clientes. Sei que o movimento caiu em todas as lojas Bancroft do pas, ontem,e que o valor das aes despencou. Agora, s resta saber quem
teria interesse em prejudicar as vendas e por qu.
-No sei responder - Matt admitiu. - Ontem, por telefone, eu lhe disse que parece que existe mais algum, alm de mim, planejando uma tentativa de fuso contra
a Bancroft & Company. Algum que est comprando aes da empresa por baixo dos panos, como se diz Quando entrei no jogo e comecei a comprar aes da Bancroft & Company,
elevei o preo delas.  possvel acreditar que uma corporao predadora esteja tentando me assustar e me tirar da jogada, bancando a terrorista, ou, ento, queira
forar a queda do valor das aes para que possa compr-las a um preo mais barato.
-Faz alguma ideia de qual possa ser essa corporao?
-No. Seja qual for, os dirigentes devem querer a fuso com tanto desespero, que nem esto raciocinando direito. A Bancroft & Company est endividada, e no
representa um bom negcio a curto prazo.
-Mas voc tambm a quer - salientou o investigador.
-Quero, mas no estou pensando em lucros.
-Por que est comprando aes da Bancroft & Company, Matt?-perguntou Olsen, direto como sempre. Quando no obteve resposta, ergueu as mos num gesto de desamparo.
- Estou procurando motivos. Se conhecer o seu, talvez encontre algum com um motivo similar, e isso nos dar algumas pistas.
-Quero me vingar de Philip Bancroft - declarou Matt, quando o desejo de privacidade foi derrotado por sua vontade de ver tudo aquilo terminado.
-Sabe de mais algum que tenha motivo para querer vingar-se dele e, naturalmente, muito dinheiro?
-Como  que vou saber? - resmungou Matt, levantando-se e comeando a andar pela sala. - Bancroft  um filho da puta arrogante. No devo ser seu nico inimigo.
-Vamos comear por a, procurando inimigos de Philip Bancroft, que possam querer vingar-se e vejam na fuso um investimento que dar lucros, a longo prazo.
-Isso  absolutamente ridculo.
-Nem tanto, quando se considera que uma corporao predadora que s visasse lucros nunca recorreria a bombas para enfraquecer a presa - o investigador argumentou.



#53

No meio da tarde, as vendas no haviam aumentado em nenhuma das lojas, e Meredith lutava contra a tentao de examinar os dados fornecidos pelos computadores
a cada cinco minutos. Mark Braden devia voltar de Nova Orleans a qualquer momento, e ela continuava esperando, desde cedo, que o pai aparecesse para tomar satisfaes
de seus atos.
Phyllis anunciou que Parker estava ao telefone, e foi uma interrupo bem-vinda, pois Meredith precisava de algo que a fizesse esquecer, mesmo por pouco tempo,
tantas preocupaes. Como ele j ligara para anim-la, ela sups que se tratasse de outro telefonema amigvel. Estendendo a mo para o aparelho, refletiu que seus
sentimentos por ele nunca haviam sido de profundo amor, mas os dois podiam passar facilmente de noivos a grandes amigos. Lisa sempre dissera que faltava fogo no
relacionamento deles, e era bvio que estava certa. Ficara evidente que a amiga tinha seus motivos para fazer objees ao noivado, e isso doa um pouco, mas, se
Meredith no estivesse mergulhada em problemas, teria ligado para falar com ela. Por outro lado, parecia que era Lisa quem devia dar o primeiro passo para que as
coisas ficassem esclarecidas.
Meredith dispensou as reflexes, erguendo o telefone.
-Oi, beleza! - Parker saudou-a. - Seu corao vai suportar uma boa notcia, no meio de tanta coisa ruim?
-No sei, mas vamos tentar - ela respondeu sorrindo.
-Encontrei quem emprestasse o dinheiro para a compra do terreno de Houston, e eles querem financiar tambm a construo da loja. Entraram no meu escritrio
como anjos cados do cu, esta manh, pedindo para tirar emprstimos de nossas mos.
-Notcia maravilhosa - ela concordou, mas seu entusiasmo seria maior, se no fosse a preocupao de como fariam para pagar, dali a seis meses, os trs emprstimos
j existentes, com os negcios indo to mal.
-No me parece muito animada - Parker comentou.
-Estou preocupada com o movimento fraco em nossas lojas. Acho que no devia dizer isso a meu banqueiro, mas voc  tambm meu amigo
-A partir de amanh serei apenas seu amigo. Meredith sentiu-se enrijecer de tenso.
-O que est querendo dizer, Parker?
-Estamos precisando de dinheiro - ele comeou com um suspiro
-Fomos obrigados a vender os emprstimos da Bancroft & Company aos mesmos investidores que vo emprestar o dinheiro para o projeto de Houston. De agora em diante,
vocs faro os pagamentos a uma financeira, a Collier.
Meredith franziu o nariz, confusa.
-Financeira o qu?
-Collier. Trabalha com o banco Criterion, a pertinho de voc. E foi o pessoal do Criterion que me procurou para fazer o negcio. A Collier  uma sociedade
privada, com um capital muito grande, e est procurando emprstimos para comprar. S para me certificar, usei minhas fontes de informao e no h dvida de que
se trata de uma firma slida e absolutamente idnea.
Meredith sentiu-se inquieta. Alguns meses atrs, tudo era estvel e previsvel, tanto no relacionamento do banco Reynolds Mercantile com a Bancroft & Company,
como em sua vida pessoal. Agora, as coisas pareciam ter sido apanhadas por uma correnteza que poderia tomar qualquer rumo.
Conversou mais um pouco com Parker e agradeceu por ele ter conseguido financiamento para a loja de Houston, mas, quando desligou, o nome Collier continuou a
perturb-la. Nunca o ouvira antes, no entanto achara-o estranhamente familiar.
Mark Braden entrou em seguida, abatido e com a barba por fazer, e ela preparou-se para lidar com o problema das bombas.
-Vim direto do aeroporto para c, como me pediu - ele explicou, como que pedindo desculpas por sua aparncia.
Tirou o sobretudo e, acabara de jog-lo numa cadeira, quando um coro de vozes femininas elevou-se na rea de recepo, chamando a ateno dos dois.
-Boa tarde, sr. Bancroft! Seja bem-vindo de volta  loja! Meredith levantou-se, pronta para enfrentar o momento que tanto temia
-Muito bem, vamos ver o que anda acontecendo por aqui! - Philip ordenou, entrando e batendo a porta com fora. - O maldito avioteve problemas mecnicos, do
contrrio eu estaria aqui muitas horas atrs. - Andando na direo da mesa, tirou o sobretudo, olhando para Mark Braden. - O que descobriu a respeito das bombas?
Quem est por trs disso? Por que no est em Nova Orleans? A loja de l parece o alvo principal.
-Acabei de voltar de l, e tudo o que temos so teorias - Mark respondeu com pacincia.
Philip marchou para os computadores, pressionou algumas teclas de um deles e seu rosto tornou-se cinzento, quando ele viu as colunas de nmeros que informavam
o volume de vendas em todas as lojas.
-Meu Deus! - murmurou. -  pior do que eu pensava!
-Vai melhorar - Meredith disse, tentando consol-lo, quando finalmente ele a beijou distraidamente no rosto.
Se a situao no fosse to grave, teria rido da aparncia do pai. Nunca o vira daquele jeito, com o terno amassado, barbado, os cabelos revoltos.
-As pessoas esto com medo de entrar em nossas lojas, agora, mas isso vai passar - comentou, comeando a afastar-se da escrivaninha para que Philip pudesse
ocup-la.
Para sua surpresa, ele fez um gesto com a mo, indicando que ela ficasse, e ocupou uma das cadeiras destinadas aos visitantes.
-Comece pelo dia em que parti - sugeriu. - Sente-se, Mark. Antes de ouvir suas teorias, quero saber de algumas outras coisas. Meredith, o negcio do terreno
de Houston foi concludo?
Ela ficou ainda mais nervosa com a meno quele projeto em particular. Olhou para Mark.
-Voc se importaria de esperar l fora por alguns minutos, enquanto discuto esse assunto com meu pai?
-No seja ridcula, Meredith - Philip ralhou. - Braden  de confiana. Ou voc ainda no sabe disso?
-Claro que sei - ela respondeu, irritada. - Mark, por favor, quer nos deixar a ss por cinco minutos?
Esperou at que o chefe da segurana sasse e rodeou a escrivaninha, parando ao lado do pai.
-Se vamos falar do projeto de Houston, teremos de falar de Matt. Est bastante calmo para ouvir tudo sem explodir?
-Ns vamos falar de Farrell, com certeza, mas primeiro preciso salvar minha empresa.
O instinto de Meredith dizia-lhe que aquele era o momento certo para contar tudo, inclusive seu envolvimento com Matt. O pai estavapreocupado com os negcios
e, alm disso, Mark encontrava-se  espera para fazer um relatrio do que descobrira em Nova Orleans. Philip no teria muito tempo para entregar-se  raiva, nem
para estender demais cada assunto.
-Como temos pressa, vou resumir a histria e colocar os fatos em ordem cronolgica - ela explicou. - Primeiro, quero avisar que Matt est envolvido em alguns
deles.
-Comece logo, Meredith.
-timo. - Ela pegou a agenda onde marcara todas as instrues que ele dera antes de partir para a viagem e folheou-a rapidamente.
-Estvamos tentando comprar o terreno de Houston, mas no meio da transao, a Intercorp comprou-o.
Philip quase se levantou da poltrona, os olhos cintilando de fria e espanto.
-Sente-se e fique calmo - Meredith pediu em tom tranquilo. A Intercorp, ou melhor, Matt, comprou o terreno por vinte milhes e queria vend-lo por trinta. Seria
uma retaliao, porque descobriu que o senhor embargou o projeto de rezoneamento de Southville. Ele pretendia processar o senhor, o senador Davies e a comisso de
Southville, mas j acertamos isso. No haver nenhum processo, e Matt nos vender o terreno por vinte milhes.
Olhou para o pai, que a fitava, rgido e plido, e virou mais algumas folhas da agenda.
-Sam Green informou que o interesse por nossas aes aumentou bastante no mercado. O preo delas comeou a subir, mas caiu, depois dos atentados. Saberemos
a qualquer hora quem so os novos acionistas e quantas aes possuem.
-Por acaso, Sam mencionou a palavra fuso? - perguntou Philip com voz tensa.
-Mencionou, mas conclumos que no deve ser isso, porque somos um alvo pobre, no momento. As ameaas que sofremos em trs lojas assustou os clientes e no estamos
vendendo praticamente nada.
Ela continuou a contar ao pai tudo o que se passara em sua ausncia inclusive que Parker telefonara naquela manh para dizer que encontrara uma financeira que
lhes emprestaria o dinheiro para o projeto de Houston.
-A respeito dos negcios,  s - disse por fim, observando Philip preocupada.
Ele parecia uma esttua de pedra, mas recuperara um pouco de cor.
-Agora vamos falar de assuntos pessoais, mais especificamente de Matthew Farrell. Acha que pode suportar uma discusso sobre ele, pai?
-Posso.
Falando em tom gentil, Meredith contou o que acontecera desde o dia em que fora procurar Matt em seu apartamento e encontrara Patrick Farrell, at a briga no
restaurante Manchester House, no dia de seu aniversrio. No entanto, no contou que estava mantendo um relacionamento ntimo com Matt.
-Voc rompeu o noivado com Parker, no ? - Philip perguntou.
-Rompi.
-Por causa de Farrell?
-Por causa dele. Eu amo Matt.
-Porque  uma idiota!
-E ele me ama.
O pai levantou-se lentamente, torcendo os lbios num trejeito de desprezo.
-Aquele monstro no ama voc! O que ele quer  vingar-se de mim!
-O fato, pai,  que vocs dois vo ter de suportar um ao outro. No vou dizer que Matt no est furioso pelo que o senhor fez, porque est, mas ele me ama e,
por causa disso, com o tempo o perdoar e at tentar ser seu amigo.
-Ele disse isso, Meredith?
-No, mas
-Ento, deixe-me contar o que ele me disse, onze anos atrs. Aquele miservel me ameaou, em minha prpria casa! Disse que dentro de alguns anos teria dinheiro
para me comprar e me revender, e que, se eu interferisse no casamento de vocs, ele me mataria! Na poca ele no tinha nada, e foi s uma ameaa, mas agora ele tem
muito mais do que eu!
-O que foi que o senhor fez, ou disse, para ele amea-lo desse jeito?
-No vou mentir. Tentei dar dinheiro a ele, para que a deixasse em paz, mas o maldito no aceitou! Ento, tentei agredi-lo com um soco.
-Matt esmurrou-o?
-No seria to burro. Estvamos em minha casa, e eu chamaria a polcia. Alm do mais, no ia aborrecer voc, batendo em seu pai, porque queria o dinheiro de
sua herana. Mas me avisou de que um dia me deixaria sem nada.
-No foi um aviso, pai, mas uma ameaa sem sentido. O que o senhor esperava que ele fizesse? Que ficasse parado, de boca fechada,ouvindo suas ofensas, e que
no fim ainda agradecesse? Ele  to o gulhoso quanto o senhor, e tem a mesma fora de vontade.  por isso que no se toleram! So parecidos demais!
Philip olhou-a como que atnito, e a raiva desapareceu de seus olhos
-Meredith, voc  uma jovem inteligente, mas quando se trata de Farrell, torna-se uma tola - disse em tom quase gentil. - Acontecimentos terrveis esto ameaando
nosso negcio, e ainda no lhe ocorreu que tudo comeou depois que esse homem tornou a entrar em sua vida?
-No seja ridculo, pai! - ela exclamou, no podendo conter uma risada.
-Vamos ver quem vai ser ridculo. - Philip inclinou-se sobre a escrivaninha e apertou o boto do interfone. - Mande Mark Braden entrar e avise Sam Green e Allen
Stanley que quero que se reunam a ns imediatamente.
O chefe de segurana entrou, e logo depois chegaram o advogado e o contador encarregado do departamento de finanas.
-Vou pr as cartas na mesa, sem esconder nenhuma - Philip declarou, assim que todos se acomodaram. - O que for dito aqui no  para ser comentado daquela porta
para fora. Fui claro?
Os trs homens concordaram com um gesto de cabea.
-Vamos ouvir sua teoria a respeito das bombas - Philip dirigiu-se a Mark Braden.
-A polcia acredita, e estou de acordo, que quem mandou colocar as bombas no tinha inteno de danificar as lojas. Muito pelo contrrio, houve denncias por
telefone, vrias horas antes do momento marcado para as exploses, de modo que o esquadro teve bastante tempo para encontrar as bombas, que foram colocadas em lugares
fceis de achar. Era como se o perpetrador do crime quisesse evitar danos materiais a todo custo. Muito esquisito.
-No acho nada esquisito - Philip disse em tom zombeteiro. Tudo isso faz muito sentido para mim.
-Como assim? - perguntou Mark, parecendo confuso.
-Muito simples. Pode ser que algum queira assumir o comando da Bancroft & Company, algum bastante canalha para fazer uma coisa dessa, e por isso mandou colocar
as bombas, sabendo que as vendas cairiam e que o preo das aes baixaria, facilitando muito a compra de grandes lotes.
Silncio profundo pairou na sala por alguns instantes.
-Quero uma lista dos nomes de todas as pessoas, empresas e instituiesque nos ltimos dois meses compraram mais de mil aes da Bancroft de uma vez - Philip
ordenou a Sam Green.
-Posso entregar a lista amanh - respondeu o advogado. - J havia comeado, a pedido de Meredith.
Philip virou-se para Mark Braden.
-Voc vai comear a investigar Matthew Farrell. Traga-me todas as informaes que puder colher.
-Informaes de que tipo, especificamente?
-Quero os nomes de todas as empresas onde ele  scio majoritrio. Alm disso, descubra se ele faz negcios usando nomes de outras pessoas, que bancos usa,
quantas contas tm, sob que nomes. Nomes! Eu quero nomes.
Meredith sabia o que o pai ia fazer com os nomes. Queria ver se algum deles aparecia na lista de novos acionistas que Sam estava preparando.
Philip olhou para o vice-presidente da diviso de finanas.
-Allen, voc vai trabalhar com Sam e Mark. No quero mais ningum envolvido nessa caada, para que os mexeriqueiros no espalhem que estamos investigando o
canalha com quem minha filha se casou.
- a ltima vez que insulta Matt! - Meredith explodiu, furiosa.
-A menos que apresente provas de que ele no presta.
-De acordo - o pai replicou.
Assim que os trs homens saram, ele pegou um peso de papis e ficou examinando-o, evitando encar-la, como se estivesse acanhado.
-Temos nossas diferenas, Meredith. Brigamos muito e, na maioria das vezes, por minha culpa - comeou a falar, hesitante. - No navio, tive bastante tempo para
pensar no que voc me disse, quando eu declarei que no a queria na presidncia. Acusou-me de no amar voc, mas estava enganada. - Fitou-a rapidamente, ento fixou
o olhar no peso de papis em sua mo. - Estive com sua me por algumas horas, na Itlia.
-Minha me? - Meredith repetiu sem emoo, como se tal pessoa fosse um mito, no uma realidade.
-No foi uma reconciliao, nem nada parecido - ele se apressou em informar. - Na verdade, discutimos. Ela disse que a condenei por infidelidades que nunca
cometeu. - Fez uma pausa e, pelo ar preocupado de seu rosto, era bvio que achava aquilo possvel. - Sua me disse outra coisa tambm, que me fez pensar durante
todo o voo para c.
Respirou fundo, erguendo os olhos para Meredith.
-Caroline acusou-me de ser ciumento e possessivo e de tentar manipular as pessoas a quem amo, de impor-lhes rgidas restries porque tenho medo de perd-las.
Talvez no seu caso, filha, eu tenha mesmo agido assim.
Meredith sentiu um repentino e doloroso n de emoo na garganta
-No entanto, o que sinto em relao a Farrell, no momento, no tem nada a ver com cime ou sentimento de posse - Philip continuou e seu tom tornara-se frio
e agressivo. - Ele est tentando destruir tudo o que constru, tudo o que tenho, tudo o que vai ser seu um dia. Mas no vou deix-lo fazer isso! Usarei todos os
recursos para impedi-lo. No duvide disso. Todos!
Ela abriu a boca para defender Matt, mas o pai ergueu a mo, silenciando-a.
-Quando perceber que tenho razo, voc ter de fazer uma escolha, Meredith. Ter de escolher entre mim e Farrell. E estou certo de que far a escolha certa,
a despeito da atrao que sente por esse homem.
-No terei de escolher, porque Matt no est fazendo o que o senhor disse.
-Voc sempre foi cega a respeito de Farrell, mas desta vez vou obrig-la a enxergar a verdade! No vou deixar que finja que nada est acontecendo. Vai permanecer
na presidncia, enquanto a investigao no terminar. A Bancroft & Company  sua, por direito de nascimento, e eu estava errado em tentar proibir que a dirigisse.
Pelo que Sam e Allen disseram, voc agiu com eficincia e rapidez e s errou num ponto. Descartou a possibilidade de estarmos sob a ameaa de uma fuso, porque no
via motivo lgico para algum querer assumir o comando da empresa. O motivo no  muito lgico, nem tem nada a ver com negcios.  desejo de vingana. Quando conhecermos
todos os fatos, voc ter de optar entre ficar do lado do inimigo ou lutar contra ele para defender seu direito de ser presidente da Bancroft & Company. Depois,
informar sua escolha  diretoria.
-Meu Deus! Como o senhor se engana a respeito de Matt!
-S espero no me enganar a respeito de voc. Acredito que no o avisar de que o estamos investigando, dando-lhe a chance de apagar as pistas.
Levantando-se, Philip pegou o sobretudo, parecendo muito cansado e velho.
-Estou exausto. Vou para casa descansar. Amanh virei trabalhar,mas vou ocupar a sala de reunies. Me telefone, se Braden aparecer com alguma novidade ainda
hoje.
-Certo - ela concordou. - Gostaria que me prometesse uma coisa, pai.
-O qu?
-Quando ficar provado que Matt  inocente das acusaes que lhe fez, promete que pedir desculpas a ele e que tentar ser seu amigo? Alm disso, dever dizer
a Mark, Sam, Allen e a todos os outros que o ouviram difamar Matt, que estava completamente errado.
Philip deu de ombros, como se no valesse a pena fazer uma promessa a respeito de algo to improvvel.
-Promete, ou no? - Meredith pressionou.
-Prometo - ele resmungou.
Ela se afundou na cadeira, quando o pai saiu e fechou a porta. No via motivo para contar a Matt que Philip ordenara uma investigao de seus negcios, porque
sabia que no descobririam nada, mas sentia que calar-se era o mesmo que colocar-se contra ele. Tinha a sensao de estar sendo sutilmente manipulada.
Ficara emocionada, quando o pai admitira que a amava e que aprovava o trabalho que ela fizera durante sua ausncia. E enchera-se de esperana. Se ele a amava,
concordaria em pedir desculpas a Matt, quando tudo ficasse esclarecido. E Matt, por sua vez, tambm por amor a ela, seria generoso e perdoaria. A possibilidade de
ver os dois homens a quem amava tornarem-se amigos, ou pelo menos deixarem de ser inimigos, era inebriante.


Naquela noite, Meredith jantou com Matt num pequeno restaurante discreto, suavemente iluminado. Quando ele perguntou como fora o confronto com Philip, ela contou
quase tudo, omitindo a absurda suspeita do pai de que ele estava por trs dos atentados contra as lojas, e que seu motivo era assumir o controle da Bancroft & Company.
Voltaram para o apartamento dela, fizeram amor, e s ento Meredith decidiu falar com Matt sobre algo que Philip dissera e que a estava perturbando. Ele, porm
no lhe dava chance, inclinado sobre ela, beijando-a e insistindo para que fossem morar juntos.
-No poderei lhe dar o paraso que prometi, se voc continuar morando em dois lugares, fingindo que no somos casados.
Meredith sorriu distraidamente, sem dizer nada.
-Qual  o problema? - ele perguntou, notando que algo a preocupava.
-Uma coisa que meu pai me contou. Matt estreitou os olhos, exasperado.
-O que foi?
-Que, onze anos atrs, voc disse que um dia o compraria e depois tornaria a vender. E que o mataria, se ele interferisse em nosso casamento.
- verdade. Seu pai estava tentando me subornar para que eu a abandonasse. Ento, ataquei, fazendo ameaas.
-Mas voc no estava falando srio, estava? - ela quis saber, olhando-o com ansiedade.
-Na ocasio, estava - ele admitiu. Sorriu e beijou-a, antes de prosseguir: - No costumo falar por falar, mas s vezes mudo de ideia.
-Pensou mesmo em matar meu pai?
-Falei aquilo em sentido figurado, querendo dizer que o arruinaria. Mas confesso que naquele momento precisei me conter para no derrub-lo com um soco.
Mais calma, mas no inteiramente satisfeita, Meredith pousou os dedos nos lbios dele para impedi-lo de distra-la com beijos.
-Deve ter ficado muito furioso para fazer ameaas to fortes comentou.
-Fiquei possesso. Ele tinha acabado de tentar me subornar, acusando-me de querer apenas seu dinheiro. Respondi que no precisava do dinheiro de vocs, que um
dia teria tanto que o compraria e tornaria a vender. Acho que usei quase que essas mesmas palavras.
Meredith sorriu, tranquilizada, e puxou-o pelo pescoo.
-Agora pode me beijar quanto quiser - murmurou em tom sensual.




#54

A recordao da noite anterior ainda fazia Meredith sorrir, na manh seguinte, quando ela pegou o jornal do cho, na porta do apartamento. Mas o sorriso morreu,
e ela experimentou uma sensao de vertigem, quando viu a principal manchete na primeira pgina: Matthew Farrell interrogado sobre o assassinato de Stanislaus Spyzhalski.
Com o corao martelando loucamente, leu o artigo, que comeava lembrando que o homem falsificara os documentos do divrcio deles e terminava com a informao
de que Matt fora interrogado pela polciano fim da tarde anterior.
Em estado de total perplexidade, ela ficou olhando para o jornal, refletindo que estivera com Matt e ele no lhe contara nada, nem sequer dera a impresso de
que estava enfrentando algum problema. Chocada com essa inegvel prova da capacidade de Matt de esconder as emoes,e de enganar at a ela, arrumou-se para ir trabalhar,
decidindo telefonar para ele do escritrio.
Lisa encontrava-se em sua sala, andando de um lado para o outro,quando ela chegou.
-Meredith, preciso falar com voc - declarou nervosamente, fechando a porta.
-Eu estava imaginando quando voc tomaria essa deciso - replicou Meredith com um sorriso hesitante, pois ficara com dvidas sobre a lealdade da amiga.
-Como assim?
-Estou falando do que houve entre voc e Parker. Uma expresso de desespero passou pelo rosto de Lisa.
-Oh, meu Deus! Tenho tentado criar coragem para conversar com voc sobre isso, mas - Interrompeu-se, erguendo as mos num gesto de splica e baixando-as em
seguida. - Sei que deve achar que soua maior mentirosa, a mulher mais falsa do mundo, porque sempre zombei de Parker, mas juro que no fazia isso para tentar impedir
que se casasse com ele! Eu tentava parar de desej-lo para mim, procurando convencer-me de que ele no passava de um emproado, de um chato. E voc no estava realmente
apaixonada por ele, porque caiu nos braos de Matt assim que ele tornou a entrar em sua vida. Por favor, Meredith, no me odeie por isso! - implorou com voz entrecortada.
- Amo voc mais do que minhas prprias irms, e me detestei por amar o homem que voc queria
De repente, era como se elas fossem novamente duas adolescentes que se confrontavam depois de uma briga, no ptio da escola St. Stephens. Mas eram adultas,
estavam mais sbias, e sabiam o valor de uma verdadeira amizade.
-Por favor, no me odeie! - Lisa pediu com lgrimas nos olhos. Meredith suspirou.
-No posso odi-la - confessou com um sorriso trmulo. - Tambm amo voc, e no tenho nenhuma outra irm.
Com uma risada sufocada, Lisa jogou-se nos braos dela e, como nos tempos de colgio, as duas abraaram-se, rindo e tentando no chorar.
-No achou um pouco incestuoso? - perguntou Lisa, quando se separaram. - Isto , eu ficar com Parker?
-E, suponho que sim. Foi esquisito, naquela manh, descobrir que voc, minha irm, estava na cama com meu noivo.
Lisa riu, mas ficou sria abruptamente.
-Na verdade, no subi aqui para falar de Parker, mas para perguntar sobre essa histria de Matt ter sido interrogado pela polcia. Li o jornal e fiquei apavorada.
A polcia pensa que Matt matou Spyzhalski?
-Por que pensariam isso? E voc, por que pensaria?
-Eu no penso! - Lisa protestou. -  que me lembrei do dia da entrevista coletiva, quando Matt falou com o advogado dele pelo telefone vva-voz. Estava furioso
com Spyzhalski, qualquer um podia perceber. E queria desesperadamente proteger voc de um escndalo. Ele disse uma coisa estranha ameaadora.
-Do que est falando?
-Do que Matt respondeu, quando o advogado avisou que Spyzhalski parecia disposto a dar um show no tribunal. Mandou-o fazer Spyzhalski mudar de ideia e tir-lo
da cidade e, ento, disse: Eu mesmo cuidarei do calhorda. Matt no seria capaz de mandar que batessem no sujeito at matar e depois jogassem o corpo numa vala,
seria, Meredith?
-Essa foi a suposio mais absurda, mais ultrajante que j ouvi em toda minha vida! - Meredith exclamou em tom baixo e furioso.
-No creio que a polcia ache to absurda assim - Philip comentou da porta, sobressaltando as duas. - E  seu dever, Meredith, contar isso s autoridades.
-No! - ela quase gritou, sabendo o que a polcia deduziria. Ento uma sbita inspirao a fez sorrir de alvio. - Sou esposa de Matt, portanto no tenho a
obrigao de contar o que ouvi. Nem mesmo numa corte de justia.
Philip olhou para Lisa.
-Voc tambm ouviu e no  esposa do miservel.
-Acontece, sr. Bancroft, que no sei se foi isso mesmo que Matt disse - ela mentiu descaradamente. - Acho que no foi. O senhor sabe como minha imaginao 
ativa, algo essencial na minha profisso -acrescentou, recuando para a porta.
Saiu, e Philip dirigiu a Meredith um olhar de furiosa frustrao.
-Pai, no seu desespero para incriminar Matt, o senhor est agindo sem nenhuma lgica - ela ponderou. - Acusa-o de no sentir nada por mim e de estar me usando
como instrumento de vingana. Se acredita nisso, como pode achar que ele mandou matar Spyzhalski para me proteger de um escndalo?
Philip no teve o que responder. Murmurou uma praga e saiu da sala.
Meredith respirou aliviada, mas, no instante seguinte, lembrou-se de algo mais que Matt dissera e sentiu-se gelar. Na noite em que o corpo de Spyzhalski fora
encontrado, ele dissera que ficaria na rua, distraindo os reprteres, para ela poder entrar com o carro na garagem de seu prdio.
Voc faria isso por mim?, ela perguntara em tom de brincadeira, mas a resposta de Matt fora muito sria e firme: No imagina o que eu seria capaz de fazer
por voc.
-Pare com isso! - Meredith ordenou a si mesma num cochicho, caminhando para a escrivaninha. - Est deixando se contaminar pelas suspeitas dos outros!


-Aqui esto as duas primeiras provas de que no me enganei, Meredith - declarou Philip, entrando no escritrio dela com Mark Braden, s seis horas da tarde.
Jogou dois relatrios na escrivaninha, e Meredith, tomada por um mau pressentimento, ps de lado o oramento de uma campanha publicitria que estivera analisando.
Puxou os relatrios para perto e abriu o de cima, que continha uma longa relao de tudo o que Mark descobrira sobre as atividades de Matt como empresrio, exibindo
os nomes de todas suas empresas, descrevendo todos os negcios em que ele se encontrava envolvido, e havia dezenas deles. Oito nomes de companhias estavam grifados
com lpis vermelho. Ela examinou o outro relatrio, que continha nomes de pessoas, instituies e empresas que haviam adquirido mais de mil aes da Bancroft nos
ltimos dois meses. Os oito nomes assinalados no relatrio anterior tambm apareciam na lista de acionistas recentes. Juntando tudo, Matt possua um lote gigantesco
de aes da Bancroft & Company.
-Isso  apenas o comeo - Philip avisou. - Essa lista de acionistas no est atualizada, e o relatrio sobre as atividades de Farrell  incompleta. S Deus
sabe quantas aes mais ele comprou, e em nome de quem. Quando o preo delas comeou a subir, ele forou-o a baixar, mandando colocar bombas em nossas lojas. Admite
agora, Meredith, que ele est por trs de tudo o que tem nos acontecido?
-No. Tudo o que isso prova  que Matt decidiu comprar nossas aes. E pode ter vrios motivos. Talvez tenha percebido que somos um bom investimento a longo
prazo e achado divertido ganhar dinheiro atravs da empresa de seu inimigo. - Ela se ergueu, sentindo as pernas trmulas, e olhou para os dois homens. - No quer
dizer que seja o responsvel pelo incidente das bombas, nem pelo assassinato do falso advogado.
-No sei por que achei que voc tinha juzo! - o pai exclamou.
-Aquele maldito j possui o terreno de Houston que queramos comprar, um lote imenso de nossas aes e sabe-se l mais o qu!  um acionista to forte que pode
exigir um lugar em nossa diretoria e
-J  tarde - Meredith interrompeu-o, pondo um grosso mao de papis na pasta. - Vou embora e tentar trabalhar em casa. O senhor e Mark podem continuar essa
caa s bruxas sem mim.
-Afaste-se de Farrell - Philip alertou, quando ela comeou a andar para a porta. - Se no fizer isso, acabar parecendo que  cmplice dele. At sexta-feira
teremos provas suficientes para entreg-lo s autoridades.
Ela parou e virou-se para encar-lo.
-Que autoridades? - perguntou, tentando pr sarcasmo na voz
- Comisso de Ttulos e Aes, por exemplo. Se ele tiver cinco por cento de nossas aes, e estou certo de que tem, violou as regras da CTA, porque no notificou-a
disso. E, se foi capaz de infringir essasregras, a polcia comear a v-lo de outra maneira, no que diz respeito ao assassinato de Spyzhalski e s bombas.
Meredith saiu e fechou a porta. Conseguiu sorrir para os executivos que encontrou no caminho para a garagem, mas perdeu a compostura, quando acomodou-se no carro
que ganhara de Matt. Apertando as mos ao redor do volante, fixou o olhar na parede de cimento a sua frente, tremendo incontrolavelmente. Tentava convencer-se de
que estava entrando em pnico sem necessidade, que Matt teria uma explicao lgica para tudo aquilo. No ia, de modo algum, conden-lo, baseada em provas to frgeis.
Ficou repetindo isso, como se fosse uma prece, at que o tremor diminuiu, permitindo-lhe colocar o veculo em movimento. Sabia que Matt era inocente e no o desonraria,
duvidando dele por mais um segundo sequer.
Apesar dessa sincera resoluo, no conseguiu banir totalmente o medo e as dvidas. Mais tarde, quando j tomara banho, vestira o roupo, e preparava-se para
comear a trabalhar, descobriu que no conseguia concentrar-se. Abriu a pasta e retirou o oramento da campanha publicitria, mas colocou-o de lado, rendendo-se
 evidncia de que no estava em condies de raciocinar com clareza. Se pudesse ver Matt, falar com ele, ouvir sua voz, recuperaria a confiana abalada, ficaria
certa de que asacusaes do pai dela no tinham o mnimo fundamento. Decidiu ir ao apartamento dele.
Matt j inclura o nome dela na lista de visitantes permanentes que ficava na mesa do segurana, de modo que ningum impediu-a de subir  cobertura sem ser anunciada.
Foi Joe Oaara quem abriu a porta dupla, quando ela tocou a campainha.
-Oi, sra. Farrell! - o homem saudou-a com um amplo sorriso. Matt vai ficar contente em v-la. Nada o deixaria mais feliz, a no ser que a senhora viesse para
ficar, trazendo suas malas.
-No trouxe - ela declarou, sem poder conter um sorriso diante de to ousada observao.
Joe era um faz-tudo, na casa de Matt. Alm de servir como motorista e guarda-costas, atendia o telefone, abria a porta para as visitas, e at cozinhava, de vez
em quando. Mais acostumada com ele, Meredith parara de ach-lo com jeito de mafioso e passara a v-lo como um amigvel urso desengonado.
-Matt est na biblioteca - ele informou. - Trouxe um monte de trabalho para casa, mas no vai se importar com a interrupo. No, mesmo. Quer que a leve at
l?
-No, obrigada - ela respondeu com um sorriso, atravessando a sala de estar. - Sei o caminho.
Parou no vo da porta da biblioteca, momentaneamente tranquilizada ao ver Matt. Acomodado numa poltrona de couro, pernas cruzadas, ele lia um documento, fazendo
anotaes nas margens. A mesa baixa a sua frente estava juncada de papis.
Matt ergueu os olhos, viu-a, e seu sorriso charmoso fez o corao de Meredith dar um salto.
-Meu dia de sorte - ele comentou, levantando-se e indo ao encontro dela. - Pensei que no fssemos nos ver, hoje. Voc disse que tinha trabalho para pr em
dia e que precisava de uma longa noite de sono. Mesmo estando com sorte, acho que  demais esperar que tenha trazido as malas.
Meredith riu.
-Joe falou quase a mesma coisa.
-Eu devia despedi-lo, por ser to impertinente - Matt brincou, tomando-a nos braos para um beijo faminto, e ela tentou retribuir, mas no pde. Ele percebeu
no mesmo instante e interrompeu o beijo, olhando-a, intrigado. - Por que tive a impresso de que voc est pensando em outra coisa?
-Voc  muito mais intuitivo do que eu - ela observou.
-O que quer dizer com isso? - Matt perguntou, soltando-a e recuando um passo.
-Quero dizer que nunca consigo ler o que se passa em seu ntimo
-Meredith replicou em tom mais seco do que pretendera.
Percebeu, surpresa, que no fora exatamente para sentir-se mais confiante e tranquila que fora procur-lo. O verdadeiro motivo, que at aquele momento no se
revelara, era outro.
-Vamos para a sala, onde  mais confortvel, e voc poder me explicar o significado de sua observao - Matt sugeriu.
Meredith seguiu-o, mas estava agitada demais para sentar-se. Ficou parada perto do sof, deixando o olhar vaguear pelos quadros nas paredes, pelos mveis e pelos
porta-retratos arrumados numa esplndida mesa de mrmore, onde se viam fotos do pai, da me e da irm de Matt.
Ele tambm permaneceu de p, naturalmente captando sua tenso.
-O que a est perturbando, Meredith? Ela o encarou, por fim.
-Por que no me disse que a polcia o interrogou, ontem, sobre a morte de Spyzhalski? Como pde passar horas comigo e esconder o fato de que o consideram suspeito?
-No contei, porque voc j tinha muito com que se preocupar. Alm disso, a polcia est interrogando todos os clientes de Spyzhalski. No sou suspeito. Ou
sou?
-Como?
-Sou suspeito de assassinato, a seus olhos?
-Claro que no! - Passando a mo nos cabelos, num gesto de confuso e desnimo, ela desviou o olhar do dele, odiando-se pela falta de confiana que a levava
a querer interrog-lo. - Desculpe, Matt, mas tive um dia pssimo - explicou, voltando a olh-lo. - Meu pai est convencido de que algum est planejando uma tentativa
de fuso contra ns. A mesma pessoa, ou empresa, teria colocado as bombas nas lojas para forar o preo das aes para baixo.
-Pode ser que ele esteja certo - Matt concedeu com expresso inalterada, mas em tom spero e frio.
Meredith compreendeu que ele comeava a perceber que ela suspeitava dele, e que ia desprez-la por isso. Sentindo-se completamente infeliz, olhou para a mesa
de mrmore e observou a foto dos pais dele, sorrindo um para o outro, no dia de seu casamento. Ela vira uma igual no lbum de Elizabeth Farrell. As fotografias
os nomes escritos abaixo de cada uma delas De repente, Meredith lembrou-se. O sobrenome de solteira da me de Matt era Collier! E uma financeira com o nome Coller
comprara os emprstimos da Bancroft & Company! Se ela no estivesse to sobrecarregada de problemas, teria feito a ligao muito antes.
Olhou novamente para Matt, enquanto a dor da traio, percorria-lhe o corpo como lminas afiadas.
-O sobrenome de solteira de sua me era Collier, no era? Voc  um dos scios da financeira Collier!
-Sou - ele confirmou.
-Oh, meu Deus! Voc est comprando nossas aes e comprou nossos emprstimos! O que est pretendendo fazer? Assumir o comando da Bancroft & Company, se atrasarmos
um pagamento?
-Que suposio ridcula! - ele exclamou, aproximando-se dela.
-Eu estava tentando ajud-la, Meredith!
-Como? - ela perguntou, cruzando os braos e recuando abruptamente. - Comprando nossos emprstimos, ou nossas aes?
-As duas coisas.
-Mentira! - ela gritou, enquanto todas as peas encaixavam-se nos lugares certos, e sua cega obsesso por Matt dava lugar  viso de uma torturante realidade.
- Voc comeou a comprar nossas aesum dia depois de nosso primeiro almoo, no Landrys, logo que descobriu que meu pai bloqueara seu pedido de rezoneamento. Vi
as datas. Voc no estava tentando me ajudar!
-Naquela poca, no - ele admitiu. - Comecei a comprar as aes com a firme inteno de acumular o bastante para poder ocupar um lugar na diretoria, ou talvez,
at conseguir o comando da empresa.
-E continuou a comprar, mesmo depois - ela o lembrou. - S que agora est pagando mais barato, porque o preo caiu depois do episdio das bombas! Diga a verdade,
Matt, pelo menos uma vez. Voc mandou matar Spyzhalski? Mandou colocarem bombas em minhas lojas?
-No, droga!
Tremendo de fria e angstia, ela ignorou a resposta.
-A primeira bomba apareceu na mesma semana em que almoamos juntos e voc descobriu que meu pai fizera a comisso de Southville negar seu pedido de rezoneamento!
No  uma coincidncia grande demais?
-No sou responsvel por nada disso! - ele afirmou com veemncia. - Se quer a verdade, eu lhe direi tudo. Quer me ouvir, querida?
O corao traioeiro de Meredith agitou-se, quando ela ouviu Matt cham-la de querida, com uma expresso intensa nos olhos cinzentos.
-Quero.
-J admiti que comecei a comprar as aes para me vingar de seu pai. Mais tarde, depois que estivemos juntos na fazenda, percebi como a loja  importante para
voc. Alm disso, sabia que quando seu pai retornasse da viagem e nos visse juntos de novo, faria qualquer coisa para nos separar, que mais cedo ou mais tarde a
faria escolher entre ficar comigo ou obedec-lo e preservar o direito de ser presidente da Bancroft. Decidi continuar comprando aes para que ele no pudesse fazer
isso, disposto a comprar quantas fossem necessrias para ficar no comando da diretoria e impedi-lo de tentar negar-lhe a presidncia.
Meredith olhou-o, a confiana destruda por tudo o que ele mantivera em segredo, por sua incrvel capacidade de dissimulao.
-Por que no me confiou suas nobres intenes? - indagou com irreprimvel desdm.
-No sabia como voc reagiria.
-Ontem me fez passar por boba. Eu lhe contei que a Collier nos emprestaria dinheiro, e voc  a Collier!
-Tive medo que visse o emprstimo como caridade!
-No sou to estpida quanto voc pensa - ela declarou comvoz trmula e lgrimas nos olhos. - No veria como caridade, mas como uma brilhante jogada! Voc
disse a meu pai que um dia seria dono dele, e agora . Com a ajuda de algumas bombas e minha inconsciente cumplicidade.
-Parece que  assim, mas
- assim! - ela exclamou num grito. - Desde o dia em que fui procur-lo na fazenda, voc vem usando tudo o que lhe conto para manipular a situao e conseguir
o que quer. Mentiu para mim!
-No, Meredith, no menti!
-Me fez acreditar em coisas diferentes, o que vem a dar no mesmo. Seus mtodos so todos desonestos, como quer que eu acredite que seus motivos so louvveis?
Muito bem, no acredito!
-No faa isso a ns dois! - ele pediu com voz enrouquecida. - Est deixando que onze anos de desconfianas e dio deturpem minhas aes.
Ela no pde deixar de pensar que talvez ele tivesse razo. Mas tambm no podia esquecer que o falso advogado que se atravessara no caminho de Matt estava morto,
e que seu pai, que incorrera em sua ira, logo no seria mais do que um fantoche, danando na ponta de um cordel manejado por ele. Assim como ela.
-Prove que estou enganada! - gritou, quase chorando. Quero provas.
O rosto de Matt tornou-se rgido.
-Tenho de provar que no sou um louco que anda bombardeando lojas, nem um assassino,  isso? Tenho de provar que no sou culpado de todo o resto e, se no puder,
voc vai acreditar no pior?
Abalada pela fora das palavras dele, Meredith olhou-o em silncio, sentindo como se o corao estivesse se partindo.
-Tudo o que precisa fazer  confiar em mim por mais algumas semanas, at que as autoridades descubram a verdade - ele explicou em tom emocionado, estendendo
a mo para ela. - Confie em mim, querida.
Dominada pela incerteza, Meredith olhou para a mo estendida em sua direo, mas no conseguiu mover-se. A ameaa das bombas acontecera num momento bastante
conveniente para ele A polcia no estava interrogando todos os clientes de Spyzhalski, porque ela no fora interrogada
-Ou voc me d sua mo, Meredith, ou acaba com tudo agora, deixando ns dois infelizes.
Meredith desejava, mais do que tudo no mundo, pr a mo na dele, oferecendo-lhe sua confiana, mas no podia.
-No posso - murmurou. - Quero, mas no posso.
Matt deixou pender a mo, e seu rosto tornou-se totalmente inexpressivo. Incapaz de continuar a fit-lo, Meredith virou-se para ir embora. Ps a mo no bolso
e pegou as chaves do carro que ele lhe dera. Parou e voltou-se, o chaveiro pendurado entre dois dedos.
-Desculpe, mas no posso aceitar presentes acima de vinte e cinco dlares de uma pessoa com quem minha empresa tem negcios.
Matt no fez o menor gesto para pegar as chaves. Com a impresso de que morria por dentro, ela colocou-as na mesa de mrmore e correu para fora do apartamento.


No final da manh seguinte, surpresa e aliviada, Meredith viu que as vendas nas lojas de Dllas, Nova Orleans e Chicago haviam subido bastante, mas no sentiu
nenhuma alegria especial por isso. O que sofrera onze anos antes, quando perdera Matt, no podia ser comparado  angstia que estava experimentando. Da primeira
vez, no poderia fazer nada para mudar a situao, mesmo que quisesse. Agora, tivera a chance de dar outro rumo aos acontecimentos, mas deixara-a passar, e por isso
no podia livrar-se da terrvel sensao de que cometera um erro irreparvel, no confiando em Matt.
No conseguiu afastar a incerteza sobre se agira bem, ou mal, nem mesmo quando Sam Green entregou-lhe um relatrio atualizado, que mostrava que Matt comprara
mais aes da Bancroft do que haviam calculado.
Por duas vezes, durante o dia, fez Mark Braden telefonar para os esquadres especializados em bombas de Dllas, Nova Orleans e Chicago, com a esperana de que
houvessem descoberto uma pista do criminoso. Procurava por alguma coisa, qualquer coisa, que lhe permitisse ligar para Matt e dizer que acreditava nele, mas os esquadres
no haviam descoberto nada.
Depois disso, passou o resto do dia dominada pela inquietao e com dor de cabea por haver passado uma noite completamente insone.
Quando chegou em casa, por volta das seis horas, encontrou o jornal da tarde diante da porta. Pegou-o e entrou, comeando a folhe-lo ansiosamente, antes mesmo
de tirar o casaco,  procura da seo policial. Decepcionada, no encontrou nenhuma referncia ao assassinato de Spyzhalski, sinal de que a polcia ainda no descobrira
o culpado, ou, pelo menos, uma pista. Ligou a televiso para assistir ao noticirio das seis, com a mesma inteno e o mesmo resultado.
Num esforo para impedir-se de mergulhar em total aflio, decidiuenfeitar a rvore de Natal. Acabara de pendurar os enfeites e estava arrumando o pequeno prespio
sob a rvore, quando o noticirio das dez entrou no ar. Com o corao cheio de esperana, sentou-se no cho e dedicou toda sua ateno  tela do televisor.
Mas, embora o assassinato de Spyzhalski e o caso das bombas fossem mencionados, nada foi dito que pudesse acabar com suas suspeitas sobre Matt.
Desalentada, continuou sentada no cho, olhando para as luzes piscantes da rvore. Quisera confiar em Matt, mas no tivera coragem suficiente para assumir o
risco.
Pensou na promessa que ele fizera, de dar-lhe o paraso numa bandeja de ouro, e a lembrana provocou-lhe um aperto doloroso no corao. Imaginou o que ele estaria
fazendo quela hora, se estaria esperando que ela telefonasse. A resposta estava nas ltimas palavras que Matt pronunciara na noite anterior: Ou voc me d sua
mo, Meredith, ou acaba com tudo agora, deixando ns dois infelizes. No, ele no esperaria por um telefonema seu, nunca mais.
Quando o deixara, pouco depois, Meredith no compreendera claramente que sua deciso no poderia ser mudada, que Matt no tinha a inteno de receb-la de volta,
quando, ou se, ficasse provado que ela estava errada a seu respeito. Mas a dura verdade era essa. No entanto, mesmo que compreendesse, no momento em que ele lhe
estendera a mo, ela no poderia apert-la, oferecendo sua confiana. Todas as evidncias estavam contra ele.
Matt nunca a aceitaria de volta
As pequenas imagens do prespio pareceram oscilar, quando ela as fitou atravs das lgrimas.
-Por favor, no deixem que isso acontea comigo - rezou, desatando num choro convulsivo.



#55

Na tarde seguinte, s cinco horas, Meredith foi chamada  sala de reunies, onde os diretores encontravam-se reunidos desde as duas. Ao entrar, surpreendeu-se
ao notar que a cadeira  cabeceira da mesa fora reservada para ela e, tentando no se deixar intimidar pelos rostos carrancudos, sentou-se.
-Boa tarde, senhores.
No coro de vozes que se ergueram em resposta, apenas a de Cyrus Fortell pareceu realmente amigvel.
-Meredith, voc est mais linda do que nunca - o velho declarou, no silncio que se seguiu.
Ela sabia que estava com pssima aparncia, mas mesmo assim agradeceu o elogio, forando um sorriso.
Aquela era uma reunio extraordinria, e Meredith imaginava que fora convocada para que explicasse seu envolvimento com Matt e tudo o que decorrera disso, alm
de outros assuntos.
O presidente da mesa, sentado a sua direita, apontou para a pasta diante dela.
-Preparamos esses documentos, Meredith, que esto prontos para receber sua assinatura - informou, surpreendendo-a. - Ao fim da reunio, sero encaminhados s
autoridades competentes. Leia tudo, sem pressa. Como a maioria de ns participou da redao deles, acredito que no precisamos ler.
-Eu no participei de nada - reclamou Cyrus, abrindo sua pasta. Por um momento, Meredith no pde acreditar no que estava lendo,mas quando aceitou que no
era uma alucinao, sentiu-se nauseada e com a boca amarga. O primeiro documento era uma queixa formal a Comisso de Ttulos e Aes, declarando que ela sabia que
Matthew
Farrell estava manipulando o comrcio das aes da Bancroft, e queele usava informaes sigilosas que arrancava dela, para fazer suas transaes. O documento
terminava com a exigncia de que Matthew Farrell fosse detido e investigado. A segunda queixa era dirigida ao FBI e aos chefes de polcia de Dllas, Nova Orleans
e Chicago e declarava que ela acreditava, e tinha fortes razes para isso, que Matthew Farrell era responsvel pelas bombas encontradas nas lojas Bancroft daquelas
trs cidades. O terceiro documento, tambm para a polcia, informava que ela ouvira Matthew Farrell ameaar Stanislaus Spyzhalski de morte, durante uma conversa
telefnica com o advogado dele, e que abria mo do direito de calar-se, por ser sua esposa, para fazer uma declarao pblica de que acreditava que Matthew Farrell
fora o mandante do assassinato de Spyzhalski.

Meredith ficou olhando para os documentos cuidadosamente redigidos, que continham to perversas acusaes e verdades distorcidas, e comeou a tremer. Uma voz
gritava em sua mente, dizendo que ela seria uma traidora e uma tola, se acreditasse que havia uma gota de verdade naquela pilha nojenta de provas infundadas contra
seu marido. A sensao de desamparo e o peso da suspeita que a haviam mantido num estado de torpor desde que deixara Matt, dois dias atrs, evaporaram repentinamente,
e ela viu tudo com clareza absoluta: seus erros, os motivos da diretoria, a trama do pai.
-Assine, Meredith - Nolan Wilder pressionou-a, empurrando uma caneta em sua direo.
Naquele momento, ela fez sua escolha, embora tarde demais. Levantou-se, lentamente.
-Assinar? No vou assinar nada!
-Espervamos que aproveitasse essa oportunidade para eximir-se de qualquer culpa e desvencilhar-se de Farrell, alm de cumprir seu dever, fazendo a verdade
aparecer, para que seja feita justia - Wilder recitou gelidamente.
- s nisso que esto interessados? Na verdade e na justia? - Meredith questionou, apoiando as duas mos na mesa e fitando-os um a um.
Vrios dos diretores desviaram o olhar, dando a entender que no estavam totalmente de acordo com os documentos que haviam pedido para ela assinar.
-Ento, vou lhes contar a verdade - Meredith continuou com desdm. - Matthew Farrell no tem nada a ver com as bombas, nem com o assassinato de Spyzhalski,
e no violou nenhuma regra da CTA.
-A verdade  que vocs todos morrem de medo dele. Em comparaocom os triunfos que Matthew Farrell alcanou, seus sucessos nos negcios so ninharias, e a
ideia de v-lo como grande acionista da Bancroft & Company, ou ocupando um lugar nesta diretoria faz com que vocs se sintam insignificantes, porque so vaidosos
e medrosos. E, se pensaram realmente que eu ia assinar esses papis, tambm so idiotas.
-Sugiro que reconsidere sua deciso imediatamente, Meredith disse um dos diretores, obviamente ofendido com o que ela dissera.
-Ou voc assina os documentos, atendendo aos interesses da Bancroft & Company, como  seu dever como presidente interina, ou s poderemos deduzir que passou
para o lado de nosso adversrio.
-Vocs falam de meu dever com nossa empresa e ao mesmo tempo me pedem para assinar esses documentos? - ela desafiou, contendo a vontade de rir de alegria por
ter tomado uma posio, a correta. Ento, so incompetentes e representam um perigo para a Bancroft & Company, porque no pensaram no que Matthew Farrell pode fazer
contra ns, em retaliao pelas acusaes contidas nesse monte de lixo! Ele ser dono da Bancroft e de todos ns, quando os processos que abrir contra nossa empresa
estiverem terminados! - acrescentou em tom quase orgulhoso.
-Correremos o risco. Assine os papis.
-No.
Nolan Wilder pareceu no perceber que vrios diretores comeavam a mostrar-se indecisos sobre se seria sensato provocar Matthew Farrell.
-Est sendo desleal, no querendo cumprir seu dever como dirigente desta empresa - censurou. - Dessa forma, tem duas alternativas: ou assina os papis, ou sua
renncia, aqui e agora.
Meredith encarou-o.
-V para o inferno!
-Essa foi boa, menina! - Cyrus aprovou, batendo na mesa, entusiasmado. - Eu sempre soube que voc tinha muito mais do que apenas lindas pernas.
Meredith mal o ouviu, porque j saa da sala. Fechou a porta com uma batida violenta, sabendo que estava deixando para trs uma vida inteira de esperanas e
sonhos.
Andando depressa para seu escritrio, lembrou-se do que Matt dissera, quando ela lhe perguntara o que ele faria, se sua diretoria o pressionasse a tomar uma
medida insensata. Ele respondera: Eu diria a eles que fossem se foder. Sorrindo, ela refletiu que no dissera isso a seus diretores, porque nunca usara tal palavreado,
mas mandara Nolanpara o inferno, o que dava no mesmo. E, mandando Nolan, mandara todos os outros.
Estava com pressa de ir para casa e arrumar-se, pois a festa de Matt seria naquela noite, mas o telefone em sua escrivaninha estava tocando e ela foi obrigada
a atender, porque Phyllis j fora embora.
-Srta. Bancroft, aqui  William Pearson, advogado do sr. Farrell
-uma voz arrogante e fria informou. - Tentei entrar em contato com seu advogado, Stuart Whitmore, o dia todo e, como no consegui, tomei a liberdade de ligar
para a senhorita.
-Tudo bem - Meredith respondeu, prendendo o telefone entre o ombro e o ouvido, enquanto abria a pasta e comeava a colocar dentro os objetos pessoais guardados
na escrivaninha. - O que deseja?
-O sr. Farrell pediu-nos que a avisasse de que cancelou o trato que fizeram de encontrar-se durante onze semanas. Instruiu-nos tambm para dizer-lhe que deve
dar entrada no pedido de divrcio dentro de seis dias, do contrrio ns faremos isso em nome dele, no stimo dia.
Meredith j chegara ao limite de resistncia no que dizia respeito a sofrer coero e ameaas, e o tom autoritrio de Pearson foi a gota que fez a gua do copo
transbordar. Ela disse duas palavras bastante enfticas ao advogado e pousou o telefone no gancho.
Foi s quando comeou a escrever sua carta de renncia, que o impacto do que o advogado dissera atingiu-a realmente, e ela sentiu-se  beira do pnico. Matt
queria o divrcio, imediatamente! No, no podia ser verdade!
Acabou de escrever rapidamente, assinou a carta e releu-a, sentindo-se, pela segunda vez em poucos momentos, esmagada pela fora da realidade. O pai entrou na
sala naquele instante, e Meredith refletiu que estava se separando de tudo, inclusive dele.
-No faa isso - Philip pediu em tom spero, quando ela entregou-lhe a carta.
-O senhor me obrigou. Convenceu os diretores a redigirem aqueles documentos, para que eu os assinasse, e fui forada a escolher.
-E escolheu aquele homem, em vez de escolher a mim e sua herana.
-No precisaria haver uma escolha - ela replicou com voz angustiada. - Pai, por que fez isso comigo? Por que me despedaou desse jeito? Por que no posso amar
o senhor e tambm Matt?
-No se trata disso - ele protestou com raiva. - Ele  culpado do que o acusamos, mas voc no enxerga. Prefere acreditar que o culpado sou eu, julgando-me
ciumento, manipulador e vingativo. Mas
-O senhor  ciumento, manipulador e vingativo - ela declarou.
No me ama, pai, pelo menos no o suficiente para desejar que eu seja feliz. E esse tipo de amor no passa de um desejo egosta de possuir outro ser humano.
Pegou a pasta, a bolsa e o casaco e comeou a andar para a porta.
-Meredith, no!
Ela parou e virou-se, fitando, atravs das lgrimas que ameaavam tombar, o rosto devastado do pai.
-At logo - murmurou.
Atravessava a rea de recepo, quando Mark Braden alcanou-a e acompanhou-a at os elevadores.
-Preciso que v ao meu escritrio agora - ele avisou. - A secretria de Gordon Mitchell est l, matando-se de chorar. Peguei o safado. Voc tinha razo. Mitchell
est aceitando suborno.
-Esse  um assunto confidencial da empresa - ela comentou. E no trabalho mais aqui.
Mark olhou-a com tanto espanto e consternao, que Meredith comoveu-se e precisou de muito autocontrole para no perder a compostura.
-Entendo - ele murmurou apenas, em tom amargurado.
-Tenho certeza de que sim - ela afirmou, tentando sorrir. Ia afastar-se, quando Mark segurou-a pelo brao.
-Mitchell tem aceitado grandes quantias, de vrios fornecedores, e um deles o chantageou, obrigando-o a desistir do cargo de presidente interino - ele contou,
quebrando a prpria regra de no dar informaes a pessoas estranhas  empresa, algo que acontecia pela primeira vez, em quinze anos de rgida disciplina no trabalho
de manter a Bancroft em segurana.
-E a secretria dele descobriu e entregou-o?
-No, exatamente. Faz tempo que ela sabe. Os dois tm um caso, e ele prometeu  moa que se casariam, mas nunca se decidiu a cumprir a promessa.
-E foi por isso que ela o denunciou - Meredith conjeturou.
-No. Porque Mitchell se negou a promov-la a assistente de comPras, como prometera. Ela j desistira de casar com ele, mas estava determinada a ser promovida.
-Obrigada por me contar - murmurou Meredith, beijando-o no rosto. - Se no contasse, eu ficaria sempre imaginando o que haveria de errado com Gordon Mitchell.
-Meredith, gostaria que soubesse como eu lamento
-Por favor, Mark, no diga mais nada - ela pediu, sabendo que comearia a chorar, se ouvisse palavras amigas. Olhou para o relgio e apertou o boto do elevador.
Com um sorriso forado, explicou: Vou a uma festa importante e no posso me atrasar. Na verdade, no fui convidada e sei que no serei bem-vinda. - O elevador chegou
e ela entrou. - Deseje-me, sorte, Mark.
-Boa sorte, Meredith - ele recitou com ar de tristeza, um instante antes de a porta fechar-se.




#56


Olhando-se no espelho, Matt prendeu no pescoo a gravata que complementava o smoking, do mesmo modo automtico e eficiente com que fizera tudo nos ltimos dois
dias. Sonhara em receber os convidados com Meredith a seu lado, mas no queria mais pensar naquilo. No se permitiria recordar os momentos que tivera com ela, nem
sentir qualquer emoo. Arrancara-a da mente e do corao para sempre. Dera o passo mais difcil, quando instrura Pearson a pedir a Meredith que desse entrada no
processo de divrcio. Os outros seriam muito mais fceis.
-Matt, uma pessoa quer falar com voc - o pai dele avisou, entrando na sute principal do apartamento. - Eu disse ao guarda para deix-la subir. -  Caroline
Bancroft, me de Meredith.
-Livre-se dela. No tenho nada a dizer a qualquer pessoa que se chame Bancroft.
-S a deixei subir, porque ela disse que sabe quem mandou colocar as bombas nas lojas - Patrick explicou, enfrentando a glida irritao do filho.
Matt ficou tenso, mas depois de um instante deu de ombros e pegou o palet do smoking de cima da cama.
-Diga a ela para dar essa informao  polcia.
-Tarde demais. Ela j entrou e est aqui.
Xingando baixinho, Matt girou nos calcanhares e, assombrado, viu que o pai levara a mulher at a porta da sute. Sentiu um aperto no corao, ao notar que havia
muita semelhana entre ela e Meredith. Apesar de no possuir a mesma finura de traos, Caroline Bancroft tinha os mesmos olhos azuis, os mesmos cabelos loiros e
fartos. Ele precisou conter-se para no peg-la pelo brao e pessoalmente jog-la para fora do apartamento.
-Percebi que vai dar uma festa e sei que estou sendo inoportuna-ela disse cautelosamente, entrando no quarto e cruzando com Patrick, que j se retirava. -
Acabei de chegar da Itlia e no tive outra escolha a no ser vir aqui. Philip no me receberia e, mesmo que recebesse, no acreditaria em mim. Quanto a Meredith,
no posso imaginar como reagiria. Alm disso, no sei onde ela mora.
-E como descobriu onde eu moro? - perguntou Matt secamente.
-No foi difcil. Leio os jornais daqui e vi fotos de seu apartamento num suplemento de domingo, que tambm informava o nome do prdio e da rua. Como sei que
 marido de Meredith
-Quase ex-marido - ele corrigiu.
-Lamento ouvir isso - ela murmurou, observando-o abertamente.
-Muito bem, vamos ao que interessa. Agora que me descobriu e conseguiu entrar aqui, diga o que tem a dizer - Matt replicou com impacincia.
Ela sorriu, de repente, e seu rosto pareceu muito mais jovem.
- fcil perceber que esteve envolvido com Philip. Ele fez, e faz, muita gente reagir negativamente ao nome Bancroft.
Matt permitiu-se um sorriso irnico.
-O que deseja me dizer? - perguntou, fazendo um esforo para ser corts.
-Philip esteve na Itlia, na semana passada, e foi me visitar - ela comeou, tirando a echarpe do pescoo e comeando a desabotoar o casaco vermelho de l.
- Ele pensa que as bombas foram colocadas nas lojas por ordem sua, e que voc est tentando assumir o comando da Bancroft & Company, mas sei que isso no  verdade.
- bom saber que algum pensa assim - ele comentou com sarcasmo.
-No penso, apenas. Sei. - Enervada pela atitude fria de Matt e querendo desesperadamente que ele acreditasse nela, Caroline comeou a falar mais depressa:
- Seis meses atrs, Charlotte Bancroft, segunda esposa do pai de Philip, me telefonou, perguntando se eu gostaria de me vingar de meu ex-marido por ter se divorciado
de mim e me separado to completamente de minha filha. Charlotte  presidente da corporao Seaboard, na Flrida - acrescentou, desajeitada.
Matt lembrou-se do que Meredith contara sobre a esposa do av.
-Sei. Ela herdou do marido - disse, entrando na conversa com relutncia.
-, e transformou a empresa num enorme grupo que abrange vrios ramos de negcios. Agora - Caroline calou-se, hesitante.
-Agora? - Matt incentivou-a.
-Est preparada para tomar a Bancroft & Company e fundi-la ao grupo. Como sabe que eu tenho um grande lote de aes, perguntou se eu votaria a seu favor, quando
ela tivesse aes suficientes para candidatar-se a um posto de comando. Charlotte odeia Philip, embora nem imagine que eu saiba o motivo desse dio.
-Estou certo de que ele deu milhares de motivos - comentou Matt ironicamente, vestindo o palet.
A campainha estava tocando sem cessar, e as vozes dos convidados chegavam at a sute, quando eles paravam no vestbulo para entregar os agasalhos a uma empregada.
-Charlotte queria Philip, no o pai dele - prosseguiu Caroline.
-Fez de tudo para lev-lo para sua cama, mesmo depois de estar noiva de Cyril, e Philip rejeitou-a sempre, at que um dia fez mais do que isso. Contou ao pai,
alertando-o de que ela era uma prostituta mercenria, que s queria seu dinheiro. Era verdade, mas Cyril estava apaixonado por ela e, mesmo acreditando em Philip,
censurou-o por suas palavras. No entanto, desfez o noivado, e Charlotte, que era sua secretria, precisou esperar muitos anos at que ele finalmente decidisse casar
com ela.
Fez uma breve pausa, pensativa.
-Bem, o fato  que, quando Charlotte me perguntou se eu votaria nela, respondi que ia pensar, mas quando tive tempo para refletir, resolvi que no lhe daria
meu voto. Philip pode ser um tolo irritante, mas aquela mulher  o diabo em pessoa. No tem corao. Algumas semanas atrs, ela tornou a me telefonar e contou que
havia algum comprando grandes lotes de aes da Bancroft & Company, e que por isso o preo delas estava subindo.
Matt no disse que esse algum era ele, esperando que Caroline acabasse sua histria.
-Charlotte estava em pnico - ela continuou. - Disse que ia fazer alguma coisa para forar o preo a baixar. Depois, li que as vendas de Natal da Bancroft estavam
sendo arruinadas e que o preo das aes cara, tudo por causa de bombas colocadas nas lojas.
Matt encontrara as peas que faltavam no quebra-cabea que estivera tentando montar: o motivo de as bombas prejudicarem os negcios, mas no causarem danos s
lojas, o motivo de algum querer tomar uma empresa que representava um mau investimento a curto prazo. Charlotte Bancroft tinha, alm dos motivos, o dinheiro necessrio
paraexecutar a fuso de uma empresa endividada e esperar at que ela fosse novamente lucrativa.
-Ter de contar isso  polcia - ele decretou, marchando para o criado-mudo, onde ficava o telefone.
-Eu sei. Est ligando para a delegacia?
-No. Para um homem chamado Olsen, que tem contatos na polcia local. Ele a acompanhar, amanh, para que a senhora no seja tratada como uma luntica mentirosa,
ou, pior, considerada suspeita.
Caroline ficou imvel, observando-o fazer uma ligao interurbana e ordenar ao homem chamado Olsen que pegasse o primeiro avio da manh para Chicago, refletindo
que ele fazia tudo aquilo para ajud-la a atravessar uma situao difcil do modo mais suave possvel.
Logo que o vira, julgara-o um homem duro, arrogante e inatingvel, mas isso mudara. O fato era que Matthew Farrell simplesmente no queria mais nem ouvir falar
de ningum que tivesse o sobrenome Bancroft, Meredith inclusive, pois declarara com perfeita frieza que estava prestes a tornar-se seu ex-marido.
Matt desligou, anotou dois nmeros de telefone num bloco ao lado do aparelho e arrancou a folha.
-Aqui est o nmero do telefone da casa de Olsen. Ligue para ele, esta noite, para marcar o lugar onde se encontraro. Anotei tambm o meu, no caso de haver
algum problema - explicou, entregando-lhe o papel, sem nem um trao da hostilidade que demonstrara no incio.
-Obrigada.
-Meredith me contou que a senhora foi atriz. O elenco da pea O Fantasma da pera estar aqui, esta noite, juntamente com mais cento e cinquenta pessoas, muitas
das quais talvez conhea. Se quiser ficar para a festa, meu pai a acompanhar e far as apresentaes.
-Prefiro no ser apresentada - Caroline declarou. - E no tenho a menor vontade de rever os socialites da velha guarda. Mas gostaria de ficar um pouquinho.
- Exibiu um sorriso lindo, que iluminou-lhe o rosto. - J gostei muito de festas assim e seria bom participar de outra, para tentar descobrir, mais uma vez, por
que houve um tempo em que as achei to maravilhosas.
-Avise-me, se descobrir o motivo - Matt pediu, revelando igual indiferena por tais eventos.
Quando entraram na sala de estar, a festa j estava animada. Garons passavam entre os grupos de homens e mulheres bem vestidos, servindobebidas, algum tocava
piano, e a msica sincopada misturava-se s vozes e risos.
-Por que oferece festas, se no gosta delas? - perguntou Caroline.
-A pea estreia amanh, e resolvi promover esta reunio porque a renda de bilheteria ir para instituies beneficentes - Matt explicou, em tom displicente.
Levou-a at um canto afastado e quase vazio, onde a irm conversava com Stuart Whitmore, e apresentou-a como Caroline Edwards. Notou que Julie e Stuart pareciam
estar entendendo-se muito bem e arrependeu-se de t-los apresentado. Se os dois comeassem a sair juntos, o jovem advogado seria um lembrete indesejvel da existncia
de Meredith, a quem ele desejava esquecer completamente.
A falta de confiana de Meredith em sua honestidade, em seu carter, fora um golpe que ele no perdoaria. Ela no suspeitaria de Parker, julgando-o um criminoso,
nem de nenhum outro homem que pertencesse a sua classe social. Mas, para ela, uma Bancroft, Matthew Farrell continuava um joo-ningum desclassificado que tivera
a sorte de ganhar muito dinheiro. Aceitara dormir com ele, mas no viver em sua companhia, como sua esposa.
Matt comeou a afastar-se, mas Caroline ps a mo em seu brao, fazendo-o parar.
-No vou ficar muito tempo, de modo que acho que devemos nos despedir agora.
-Como queira - ele concordou, achando que devia mencionar Meredith, nem que fosse apenas para agradar a mulher que viera de to longe para ajud-lo. - Stuart
Whitmore  um velho amigo de sua filha e tambm seu advogado. Talvez consiga induzi-lo a falar um pouco sobre ela. Isto , se estiver interessada.
-Obrigada - Caroline agradeceu com voz embargada. - Estou muito interessada.


Entrando no vestbulo do prdio de Matt, Meredith no tinha certeza se seria sensato tentar falar com ele na festa, no meio de tanta gente. Afinal, Matt estava
to furioso com ela que exigira um divrcio imediato. Intransigente como era, ele talvez no hesitasse em fazer com que a expulsassem, na frente de todo o mundo.
Ela escolhera o mais provocante vestido de noite que possua, na louca esperana de que isso a ajudasse a vencer a resistncia de Matt, quando fosse falar com
ele. O vestido de crepe preto, longo, reto, notinha costas e era preso no pescoo por uma tira estreita. Contas da mesma cor, imitando prolas, formavam um delicado
desenho no contorno do profundo decote que revelava o incio dos seios. Ela deixara os cabelos soltos, como ele gostava, apesar de saber que o traje exigia um penteado
mais sofisticado. Mas teria feito tranas, se soubesse que Matt as apreciava!
O segurana examinou a lista, e Meredith suspirou, aliviada, quando descobriu que Matt ainda no mandara retirar seu nome. Com as pernas bambas e o corao descompassado,
tomou o elevador para a cobertura.
Pouco depois, deparou-se com um obstculo com o qual no contara, quando tocou a campainha.
Joe OHara abriu a porta, olhou-a e deu um passo  frente, bloqueando a passagem com o corpo de pugilista.
-No devia ter vindo, srta. Bancroft - observou friamente. Matt no deseja v-la. S quer o divrcio.
Meredith sentiu um aperto no corao. Pela primeira vez, desde que se conheciam, o homem no a chamara de sra. Farrell.
-Ele pode achar que quer o divrcio, mas eu no quero - declarou enfaticamente. - Por favor, Joe, deixe-me entrar para que eu possa convencer Matt de que ele
tambm no quer.
O homem hesitou, obviamente dividido entre sua lealdade a Matt e o desejo de acreditar na sinceridade dela.
-Acho que no deve entrar. Este no  o momento certo para falar com ele - ponderou por fim. - H um monte de gente l dentro, e reprteres tambm.
-timo! - ela exclamou, aparentando mais confiana do que sentia.
-Eles diro ao mundo que o sr. e a sra. Farrell estavam juntos na festa.
- mais fcil eles dizerem ao mundo que Matt pegou a esposa pela orelha e jogou-a para fora e que me deu um tiro na bunda por deix-la entrar - Joe resmungou,
mas recuou, deixando espao para ela passar.
Meredith abraou-o com fora.
-Obrigada, Joe! - exclamou ao solt-lo, notando que ele ficara vermelho e que havia um brilho de prazer em seus olhinhos espertos.
-Voc acha que estou bem? - perguntou, mostrando o vestido.
-Est linda - Joe afirmou. - Mas Matt no vai amolecer por causa disso.
Tentando ignorar o comentrio alarmante e deprimente, Meredithentrou no vestbulo e atravessou-o. No momento em que comeou a descer os degraus para a sala
imensa, viu as pessoas virando-se para observ-la. O vozerio diminuiu, para logo em seguida aumentar, tornando-se mais alto do que antes. Ela ouviu seu nome ser
pronunciado muitas vezes, mas no se acanhou, olhando ansiosamente em volta, at que seu olhar pousou no piso elevado, no outro lado, onde ficavam o bar e o recanto
aconchegante formado por alguns sofs e poltronas. Matt estava l, num grupo, e ainda no a vira. Ela comeou a andar naquela direo, forando as pernas trmulas
a obedec-la. Ele ouvia o que a estrela da companhia teatral dizia-lhe, muito animada, mas fitava o bonito rosto com total indiferena.
Meredith subiu os dois degraus e estava a poucos passos do grupo, quando Stanton Avery viu-a e cochichou algo para Matt, obviamente avisando-o de sua presena.
Matt virou-se abruptamente e encarou-a, os olhos cinzentos gelados, a expresso to sombria, que ela hesitou um momento, antes de obrigar-se a ir em frente.
Talvez por cortesia, as pessoas que o rodeavam debandaram, deixando os dois a ss no recanto do bar. Meredith parou, esperando que ele dissesse ou fizesse alguma
coisa. Longos momentos escoaram-se, enchendo-a de agonia.
-Oi, Meredith - Matt cumprimentou-a por fim, em tom frio. Uma semana atrs, ele a aconselhara a sempre seguir os instintos,e foi o que ela fez.
-Oi, Matt. Deve estar imaginando o que vim fazer aqui.
-No, no estou.
Aquilo doeu, mas pelo menos ele no se afastou, e Meredith sentiu, por instinto, que no estava tudo perdido.
-Vim aqui para contar como foi meu dia, Matt. Ele no disse uma palavra.
Trmula de nervosismo, ela reuniu toda a coragem que tinha, decidida a ir em frente.
-Fui chamada perante a diretoria, hoje  tarde. Os diretores me acusaram de estar em conflito, de no saber se oferecia minha lealdade a voc ou a nossa empresa.
-Que idiotas! - exclamou Matt com desprezo. - Voc no disse a eles que a Bancroft & Company  seu nico interesse na vida?
-No, exatamente - ela respondeu, reprimindo um sorriso incerto.
-Eles queriam que eu assinasse umas acusaes formais, declarando que voc foi o responsvel pela morte de Spyzhalski e pelas bombascolocadas nas lojas e que
usou sua ligao comigo para tomar medidas que lhe permitissem assumir o comando da Bancroft.
-S isso? - ele perguntou com sarcasmo.
-No, exatamente - ela repetiu, examinando-lhe o rosto, procurando um sinal de que ele ainda se importava com tudo aquilo. No viu nada. - Eu disse aos diretores
Calou-se, notando que as pessoas na sala os observavam.
-Disse o qu? - Matt indagou com expresso impassvel. Meredith tomou a pergunta como uma espcie de encorajamento.
-O que voc sugeriu que eu dissesse, quando me pressionassem
-contou, ignorando os olhares curiosos.
-Mandou-os se foder?
-No. Mandei-os para o inferno. Matt no replicou.
Ela comeava a perder a esperana, quando viu um brilho divertido nos olhos dele e um esboo de sorriso nos lbios firmes.
-Depois, seu advogado me telefonou - continuou, sentindo-se como que invadida por um raio de sol. - Ele disse que, se eu no pedisse o divrcio dentro de seis
dias, eles o fariam, em seu nome. E eu o mandei,
-Para o inferno - Matt completou, interrompendo-a.
-No. Mandei-o foder-se.
-Voc fez isso?
-Fiz.
-O que mais tem a me dizer?
-Estou pensando em fazer uma viagem - ela anunciou. - Vou ter muito tempo livre.
-Pediu um afastamento da empresa?
-No. Renunciei.
-Entendo - ele murmurou, em tom suave. - Pretende viajar para onde, Meredith?
-Se voc ainda quiser me levar eu gostaria de ir ao paraso. Matt no se moveu, nem falou. Por um momento horrvel, Meredith pensou que se enganara, que realmente
estava tudo perdido. Ento, ele estendeu a mo.
Com lgrimas de alegria nos olhos, ela deu-lhe a sua. Matt entrelaou os longos dedos fortes nos seus e puxou-a gentilmente, tomando-a nos braos e apertando-a
contra o peito.
-Amo voc, Meredith - murmurou, apossando-se de sua boca num beijo desesperado.
Um flash espocou, depois outro e mais outro. Uma pessoa comeou a bater palmas, outras imitaram, o aplauso cresceu, misturado com gritos de incentivo e risos.

No entanto, os dois no se separaram, continuando a beijar-se como se estivessem sozinhos.
Meredith ouvia vagamente a algazarra, pois j se encontrava a caminho do paraso.




#57


Meredith acordou na cama de Matt, com um sorriso nos lbios. Tornou a fechar os olhos, deixando que as lembranas da noite maravilhosa permeassem sua mente como
msica suave. Depois do longo beijo, os dois haviam se misturado aos convidados, ouvindo observaes bem-humoradas sobre sua bvia reconciliao, e Meredith adorara
desempenhar, pela primeira vez, o papel de anfitri na casa de Matt.
Depois da festa, na cama com ele, ela adorara muito mais desempenhar o papel de esposa e amante. Fazer amor com Matt tornara-se muito mais esplendoroso, sob
o efeito da confiana e do entendimento entre os dois.
Ela abriu os olhos e sorriu para os raios de sol que se filtravam pelas cortinas. Voltara a adormecer, depois que Matt a despertara com um beijo, para avisar
que ia sair e comprar croissants para o caf da manh. Sentando-se na cama, pegou a xcara de caf que ele deixara no criado-mudo e tomou um gole, embora o lquido
j estivesse quase frio.
Pousava a xcara, quando Matt entrou com um saquinho branco de confeitaria numa das mos e um jornal dobrado embaixo do brao.
-Bom dia - Meredith entoou, notando que havia um estranho ar de tenso no rosto dele. - O que foi?
Na noite anterior, Matt prometera a ela que nunca lhe esconderia nada, mas, naquele momento, ele refletiu que preferia ser aoitado em praa pblica a deix-la
ver o que havia naquele jornal.
-Comprei o Tattler por causa de uma manchete que me chamou a ateno - informou por fim, estendendo-lhe o jornal sensacionalista.
-Descobriram os termos de nosso acordo sobre as onze semanas e deram ao fato uma de suas interpretaes inimitveis.
Observou-a pegar o jornal e abri-lo, lembrando o desagrado que ela demonstrara pela publicidade escandalosa que o cercara durante anos,sabendo que no futuro
teriam de suportar muito daquilo. Esperando por algum tipo de censura ou mesmo uma exploso de raiva justificvel, prendeu o flego, quando a viu correr os olhos
pela manchete.
-Herdeira cobra do marido cento e treze mil dlares por uma noite de sexo - ela leu num murmrio.
-No comeo, no entendi o clculo que haviam feito, mas depois descobri - Matt comentou. - Multiplicaram quatro noites semanais por onze semanas e, ento, dividiram
cinco milhes de dlares por quarenta e quatro. Desculpe, Meredith. Se eu pudesse ter controle sobre essas
Ela escondeu o rosto com o jornal e comeou a rir, interrompendo o pedido de desculpas.
-Cento e treze mil dlares por por - repetiu s gargalhadas, escorregando na cama at deitar-se.
Inundado por profundo alvio, Matt sorriu, admirando o fato de ela ter encontrado um meio de enfrentar algo que odiava, sem criar mal-estar entre eles.
-Eu j disse como tenho orgulho de voc? - perguntou, inclinando-se e segurando-a pelos ombros.
-No - respondeu Meredith, ainda rindo.
Matt sentou-se na borda da cama e tirou o jornal do rosto dela, beijando-a nas faces afogueadas e na boca, silenciando-lhe o riso.
-Voc acha que que poderia me oferecer mais cinco milhes? ela provocou, recomeando a rir, quando o beijo terminou.
-Penso que est dentro do oramento - Matt murmurou, deitando-se a seu lado.
Meredith abraou-o, sabendo que ele queria fazer amor novamente.
-Mas agora  um emprego permanente - lembrou-o, acariciando-lhe o rosto. - Quero aumentos anuais, assistncia mdica e bonificaes. Concorda?
-Plenamente - ele afirmou, virando o rosto para beijar a palma da mo dela.
-No! - ela exclamou. - Se me der tudo isso, entrarei numa taixa mais alta de rendimentos, e o imposto
Matt calou-a com um beijo, e passaram a hora seguinte dando-se amor e prazer.




#58


A principal notcia do jornal da televiso, na noite de domingo, foi a priso de Ellis Ray Sampson, acusado de ter assassinado Stanislaus Spyzhalski. De acordo
com a polcia do municpio de St. Clair, Spyzhalski no fora morto por um cliente revoltado, mas pelo marido de uma mulher de Belleville, que se sentira ultrajado,
quando descobrira que a esposa tinha um caso com o falso advogado. Sampson entregara-se voluntariamente e confessara ter espancado Spyzhalski, mas jurara que o homem
estava vivo, quando o jogara na vala. Como o laudo do legista comprovara que Spyzhalski tivera um ataque cardaco naquela mesma noite, havia a possibilidade de a
acusao contra Sampson ser amenizada, passando de assassinato premeditado para homicdio culposo.
Matt e Meredith assistiram juntos ao noticirio, e ele comentou sarcasticamente que Sampson deveria receber uma medalha por livrar o mundo de um parasita desprezvel.
Meredith, que sabia muito bem o que significava ser vtima de um inescrupuloso como Spyzhalski, disse que esperava que Sampson se sasse da melhor maneira possvel
daquela situao.
Para ter certeza de que isso aconteceria, Matt telefonou a Pearson e Levinson, mandando que fossem a Belleville cuidar do caso.
Na tera-feira, Charlotte Bancroft e seu filho, Jason, foram interrogados pelo promotor pblico de Palm Springs, Estado da Flrida, a respeito das bombas colocadas
nas trs lojas e da manipulao das aes da Bancroft & Company. Os dois negaram tudo, inclusive que tinham a inteno de fundir a empresa dos Bancroft  Seaboard.
Mas, na quarta-feira, Caroline Bancroft apresentou-se ao promotor e testemunhou contra Charlotte, afirmando que ela de fato planejara tomar a Bancroft & Company
e que at insinuara que faria alguma coisa para forar o preo das aes a cair.
Joel Bancroft, ex-tesoureiro da Seaboard, que passava frias nas ilhas Cayman com o amante, ficou sabendo das suspeitas que pairavam sobre a me e o irmo. Renunciara
ao cargo seis meses antes, quando os dois ordenaram-lhe que abrisse contas-fantasmas com um determinado corretor de aes que estava disposto a colaborar e comeasse
a comprar aes da Bancroft & Company, depositando-as nas tais contas.
Deitado de bruos na areia, olhando para o mar, Joel pensou na me, que planejara vingar-se de Philip Bancroft durante trinta anos. Uma loucura, uma obsesso.
Tambm pensou no irmo, que, como a me, desprezava-o por ser homossexual.
Depois de muito refletir, tomou uma deciso. Voltou para o hotel e deu um telefonema.
No dia seguinte, Charlotte e Jason foram presos sob a acusao de envolvimento em vrias atividades ilegais, graas a um telefonema annimo que informara  polcia
os nomes falsos sob os quais as contasfantasmas haviam sido abertas. Charlotte declarou que no tinha conhecimento dessas contas. Jason, que as abrira, e que tambm
contratara a pessoa que fizera as bombas, a mando da me, logo comeou a desconfiar que se transformaria num bode expiatrio. No hesitou em oferecer-se para testemunhar
contra ela, em troca da garantia de que no seria condenado.
Os diretores da Seaboard, diante da necessidade urgente de salvar a imagem da empresa, e por sugesto de Charlotte, nomearam Joel presidente.

    Em Chicago, Meredith assistia a tudo isso pela televiso, e a dor que sentia quando mencionavam a Bancroft & Company era grande, mas maior fora o choque que
experimentara ao saber que Charlotte e Jason haviam sido os responsveis pelos atos condenveis que ela atribura a Matt.
Na quinta-feira  noite, sentado ao lado dela no sof, Matt via que os olhos azuis nublavam-se de tristeza sempre que a Bancroft & Company era mencionada.
-J decidiu o que pretende fazer, agora que tem tanto tempo livre?-perguntou, apertando a mo dela carinhosamente.
Meredith sabia que ele se referia a uma nova atividade que substitusse a que ela perdera, mas relutava em dizer o que decidira fazer, pois sabia que Matt ficaria
preocupado e at mesmo alarmado.
Olhou para as mos entrelaadas, mais uma vez admirando o lindoanel de brilhantes que ele colocara em seu dedo juntamente com uma aliana de platina.
-Pensei em ocupar o tempo fazendo compras todos os dias brincou. - Mas voc j me deu jias e um carro de luxo. O que mais eu poderia comprar?
-O que acha de um jatinho, ou de um iate? - ele sugeriu, beijando-a no nariz.
-Ficou louco? - Meredith olhou-o, assombrada, fazendo-o rir.
-Deve existir alguma coisa que voc queira, querida.
-Existe - ela afirmou em tom grave.
-Diga o que , e seu desejo ser realizado.
Ela hesitou, passando o polegar pela aliana de ouro que ele usava, ento fitou-o nos olhos.
-Quero ter um beb.
-No! - ele respondeu no mesmo instante. - De jeito nenhum. Voc no se arriscaria, se casasse com Parker, e no vai arriscar-se por mim.
-Parker no queria filhos - ela argumentou. - E voc prometeu que me daria tudo o que eu quisesse.
-Tudo, menos isso - Matt respondeu com firmeza. - Sabe que pode abortar novamente, e quase morreu, da outra vez. - Por favor, Meredith, no faa isso comigo.
-Uma gravidez de alto risco pode ser acompanhada por mdicos especializados, com sucesso - ela teimou. - Ontem fui  biblioteca pblica e comecei uma pesquisa
sobre o assunto. Apareceram novas tcnicas, novos remdios, de onze anos para c, e
-No! - Matt interrompeu-a em tom brusco. - No insista. Eu morreria de preocupao.
-Conversaremos sobre isso mais tarde - ela disse com um sorriso que era ao mesmo tempo obstinado e sereno.
-Minha resposta ser a mesma - ele declarou.
Nesse momento, o reprter da televiso anunciou que havia uma notcia de ltima hora sobre a Bancroft & Company, e Meredith voltou a olhar para a tela.
-Philip Bancroft convocou a imprensa para uma entrevista coletiva no fim da tarde, a fim de esclarecer o que foi publicado sobre sua filha, Meredith Bancroft,
que, segundo as informaes divulgadas, foi deposta do cargo de presidente interina por causa de sua ligao com o magnata Matthew Farrell - o homem explicou.
O rosto fechado e abatido de Philip apareceu na tela, e Meredith apertou a mo de Matt, apreensiva.
-Em resposta  notcia de que minha filha foi obrigada a renunciar ao cargo de presidente interina da Bancroft & Company por estar casada com Matthew Farrell,
os diretores da empresa, inclusive eu, negamos categoricamente tal alegao - o pai de Meredith comeou e fez uma pausa, olhando diretamente para a cmera, antes
de continuar: - Minha filha est em lua-de-mel, algo que deveria ter acontecido h muito tempo, mas em breve reassumir suas funes.
Ela percebeu que o pai estava dando-lhe uma ordem e estremeceu de surpresa e emoo.
Philip parou de falar por um momento e pigarreou, parecendo constrangido.
-Agora, respondendo aos rumores de que h uma longa histria de antagonismo e mesmo rancor entre mim e Matthew Farrell, desejo declarar que s muito recentemente
tive oportunidade de conhecer meu ha genro - continuou, hesitante.
-Matt! - exclamou Meredith, rindo, incrdula. - Meu pai est pedindo desculpas a voc!
Ele lanou-lhe um olhar duvidoso e voltou a ateno para a tela do televisor.
-Como todos j sabem, Matt Farrell e minha filha foram casados durante alguns meses, muitos anos atrs - Philip disse. - Pensvamos que tudo estava acabado,
quando recebemos os documentos que atestavam o divrcio, sem saber que no tinham validade. Agora, os dois voltaram a unir-se, e s posso dizer que ter um homem
do calibre de Matt Farrell como genro  - Pigarreou outra vez, ento franziu a testa, obviamente irritado, antes de disparar: -  algo que qualquer homem consideraria
uma honra!
Comearam a exibir os resultados de competies esportivas, mas Meredith continuou a olhar para a tela, como que hipnotizada.
-Eu fiz meu pai prometer que lhe pediria desculpas, quando ficasse provado que voc era inocente - ela contou por fim, comovida, e pousou a mo no rosto dele,
murmurando: - Faria uma coisa por mim? Tentaria esquecer o passado e ser amigo dele?
Matt refletiu que nada do que Philip Bancroft fizesse poderia resgat-lo dos terrveis erros que cometera. No, no seria possvel consider-lo seu amigo. Pensou
em dizer isso a Meredith, mas fitou os suplicantes olhos azuis e no teve coragem.
-Posso tentar. - Percebendo que sua voz deixara transparecer aamargura e a revolta que sentia, forou-se a comentar: - Ele fez um discurso muito bom.

     Caroline Edwards Bancroft, sentada  frente de Philip, na sala de estar da casa onde um dia vivera com ele, esperou at que o bloco dedicado a esportes comeasse,
antes de apertar o boto do controle remoto para desligar o aparelho de videocassete. Ento, ergueu-se e removeu a fita onde gravara a declarao do ex-marido.
-Foi um belo discurso, Philip - elogiou, voltando a sentar-se. Ele entregou-lhe um copo de vinho e olhou-a sem muita convico.
-Acha que Meredith pensar o mesmo?
-Acho, porque eu achei.
-Claro! Foi voc quem escreveu o que eu devia dizer! Tomando seu vinho calmamente, Caroline observou-o levantar-se e comear a andar de um lado para o outro
diante da lareira.
-Ser que ela viu o noticirio? - ele conjeturou.
-Se no viu, voc pode mandar-lhe esta fita. Melhor ainda, v at l agora, e veja a gravao com ela e Matt. Essa foi uma boa ideia, no?
Philip empalideceu.
-No, no foi. Meredith deve me odiar, agora, e Farrell me expulsaria. Ele no  ingnuo e no me perdoar pelos erros que cometi, s por causa de meia dzia
de palavras.
-Perdoar, sim - afirmou Caroline. - Sabe por qu? Porque ama Meredith. - Esperou que ele passasse por ela e obrigou-o a pegar a fita. - V. Quanto mais esperar,
mais difcil se tornar para voc e para eles.
Philip parou a sua frente e suspirou.
-Iria comigo, Caroline? - pediu em tom rabugento.
-No - ela respondeu, sentindo um aperto no estmago ao pensar em defrontar-se com a filha pela primeira vez. - Meu avio partir daqui a trs horas.
-Voc podia ir comigo - Philip insistiu em tom suave. - Para encontrar-se com nossa filha.
Caroline viu nele, por um instante, o homem gentil e persuasivo por quem se apaixonara, mais de trinta anos atrs. Comovida com o jeito como ele dissera nossa
filha, riu baixinho.
-Voc ainda  o maior manipulador que j conheci - acusou ternamente.
-E o nico homem com que se casou - ele observou com um de seus raros sorrisos. - Devo ter algumas boas qualidades.
-Pare com isso, Philip - Caroline advertiu.
-Podamos ir ver Meredith e Farrell e
-Comece a cham-lo de Matt - ela sugeriu.
-Tudo bem. Matt. Depois de falar com eles, voltaramos para c. Voc poderia ficar mais uns dias, para que nos conhecssemos melhor.
-J conheo voc, Philip. E, se voc quiser me conhecer, ter de fazer isso na Itlia.
-Caroline por favor. Pelo menos, v comigo  casa de Meredith e Matt. Pode ser sua ltima chance de ver nossa filha. Voc vai gostar dela. So muito parecidas,
em certos pontos. Meredith  muito corajosa.
Fechando os olhos, ela tentou ignorar as palavras dele e o apelo do prprio corao, mas no foi forte o bastante.
-Telefone primeiro - pediu, sentindo-se trmula. - Depois de trinta anos, no vou cair em cima de Meredith, sem aviso. No fique surpreso, se ela se recusar
a me ver.
Tirou da bolsa o papel onde Matt anotara o nmero de seu telefone e o do investigador e entregou-o a Philip.
-Talvez no queira ver nem a mim - ele comentou. - E eu no poderia culp-la.
Foi at a saleta ao lado para telefonar e voltou to depressa que Caroline imaginou que Meredith desligara ao ouvir-lhe a voz.
-O que foi que ela disse, Philip?
Ele parecia incapaz de falar. Pigarreou duas vezes, como se alguma coisa lhe obstrusse a garganta.
-Disse que nos espera - respondeu por fim, com voz rouca.


#59

Meredith saiu do prdio onde seu ginecologista tinha consultrio e reprimiu o desejo de comear a rodopiar na calada. Ergueu o rosto para o cu, oferecendo-o
 brisa de outono e sorrindo para as nuvens.
-Obrigada - murmurou.
Depois de quase um ano, e de longas consultas com o mdico especializado em gestaes problemticas, conseguira fazer Matt aceitar que, se seguisse religiosamente
os tratamentos, o risco de abortar seria apenas um pouco maior do que numa gravidez normal. Ento, tivera de esperar nove meses antes de ouvir do mdico as palavras
que ouvira naquele dia: Parabns, sra. Farrell. Est grvida.
Obedecendo a um impulso repentino, atravessou a rua e comprou um enorme buqu de rosas numa floricultura. Ento, andou dois quarteires, at chegar onde Joe
a esperava com a limusine.
Ela mesma abriu a porta traseira e deslizou para o banco, sem esperar que ele a ajudasse.
Joe estendeu o brao no encosto do banco da frente e virou-se para ela.
-E ento? O que foi que o mdico disse? Meredith apenas fitou-o com um sorriso.
-Matt vai ficar muito feliz! - ele exclamou, rindo. - Depois que se recuperar do susto, claro.
Girou no assento e ps o veculo em movimento.
Meredith preparou-se para ser atirada para trs, quando ele se afastasse do meio-fio e entrasse no trnsito do jeito a que estava acostumado, mas Joe deixou
passar cinco carros, antes de levar a limusine para o meio da rua, to suavemente como se estivesse empurrando um carrinho de beb.
Meredith comeou a rir.
Matt encontrava-se  espera, indo e vindo ao longo das janelas dasala de estar, nervoso, arrependido de haver concordado com aquela ideia de terem um beb.
Meredith pensava que estava grvida, e ele esperava que ela estivesse enganada, porque no sabia como suportaria o medo, caso a gravidez fosse confirmada.
Girou nos calcanhares, quando a porta abriu-se. Viu Meredith entrar e ficou observando-a caminhar em sua direo com uma das mos atrs das costas.
-O que o mdico disse? - perguntou, no aguentando mais o suspense.
Com um sorriso luminoso, ela mostrou as rosas de hastes longas que estivera escondendo.
-Parabns, sr. Farrell! Estamos grvidos! Matt abraou-a, esmagando as rosas entre eles.
-Que Deus me ajude! - murmurou.
-Ele ajudar, querido - ela assegurou, beijando-o no queixo.



#Eplogo


- Eu disse que chegaramos a tempo - comentou Joe OHara,parando a limusine bruscamente diante do prdio da Bancroft & Company.
Daquela vez, Matt no reclamou de sua maneira de dirigir, pois Meredith atrasara-se para uma importante reunio com a diretoria. Estavam chegando da Itlia,
onde haviam parado para visitar Philip e Caroline, na volta da Sua, depois de uma temporada de esqui, e o avio no aterrissara no horrio previsto. Joe fora busc-los
no aeroporto e levara a pasta de Meredith, com todos os documentos de que ela ia precisar.
-Tome. - Matt entregou a pasta ao motorista. - Voc leva isso e eu levo Meredith.
-O que disse? - ela perguntou, enquanto pegava a muleta que teria de usar at que o tornozelo deslocado sarasse.
-Voc no tem tempo para ir mancando at os elevadores - respondeu Matt, erguendo-a nos braos.
-Mas isso  uma vergonha - ela protestou, rindo. - No pode atravessar a loja, me carregando no colo!
-Vamos ver se no posso - Matt resmungou.
Levou-a atravs do andar trreo, sob os olhares curiosos de clientes e empregados. Duas mulheres de meia-idade encontravam-se junto ao balco de cosmticos,
e uma delas apontou para eles.
-Aqueles no so Meredith Bancroft e Matthew Farrell?
-No, no pode ser - a outra respondeu. - Li no Tattler que esto se divorciando. Ela vai se casar com Kevin Costner, e Matt Farrell est na Grcia, com uma
atriz de cinema.
Meredith escondeu o rosto no peito de Matt com uma risadinhaembaraada. Quando chegaram aos elevadores, ergueu a cabea para olh-lo com ar de fingida censura.
-Outra estrela de cinema? - brincou. - Voc no toma jeito!
- Ei! - E voc? - Matt replicou. - Eu nem sabia que gostava deKevin Costner!
No escritrio, ele a colocou no cho, para que ela entrasse dignamente na sala de reunies, andando sozinha.
-Lisa e Parker disseram que nos encontrariam aqui, trazendo o beb, e que iramos almoar juntos - Meredith lembrou-o.
-Vou ficar esperando por eles - Matt respondeu, entregando-lhe a pasta. Alguns minutos mais tarde, viu Lisa entrar com um beb adormecido nos braos.
-Parker nos deixou na frente da loja e foi estacionar o carro. Daqui a pouco estar aqui - ela explicou.
-No d para esconder que est grvida, sra. Reynolds - ele arreliou, sorrindo, mas j estendia as mos para pegar a menininha de seis meses que ela segurava.
-Vou esperar Parker l na recepo - Lisa avisou, entregando-lhe a criana.
Assim que ela saiu, Matt olhou para a garotinha que Meredith trouxera ao mundo, pondo em risco a prpria vida. Marissa acordou naquele instante e comeou a chorar.
Com um sorriso terno, Matt acariciou-lhe o rosto com a ponta de um dedo.
-Quietinha, meu amor. Futuras presidentes de grandes empresas no choram. Precisam manter a compostura. Pergunte a sua mame.
O beb acalmou-se e logo estava sorrindo para ele, balbuciando alegremente.
-Eu sabia! - Matt exclamou, rindo baixinho. - Tia Lisa andou ensinando voc a falar italiano, no ?
Como teria bastante tempo, at que Meredith terminasse a reunio, levou a filha ao dcimo primeiro andar para mostrar a ela o novo departamento que Meredith
criara em todas as lojas, e onde eram vendidos artigos do mundo todo, desde jias e roupas at brinquedos feitos  mo. Ela exigia que fossem coisas bonitas e de
tima qualidade, dignas do novo logotipo exclusivo, que j estava ficando famoso por ser um smbolo de perfeio.
Com Marissa nos braos, Matt olhou para o logotipo acima da entrada do departamento e sentiu um n na garganta, algo que acontecia sempre que ele fazia isso.
O desenho representava a mo de um homem e outra de mulher, tocando-se pela ponta dos dedos.
O nome do departamento era Paraso.

FIM

